segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MINHA BIOGRAFIA

Curriculum Literário -


OSCAR KELLNER NETO é natural de Franca/SP (1949), casado, pai de dois filhos, avô de três netos e vive em Delfinópolis/MG, entre serras, cachoeiras e lagos, desde 1975. Arte-Educador, Professor de Gramática e Redação, Técnico em Contabilidade e Advogado atuante, Kellner também se dedica à pintura e à escultura, áreas artísticas em que sempre logrou êxito. Nas horas vagas, inda cuida de terras, gado, peixe e gente. Gosta de sumir pelos vãos da Serra da Canastra, onde cavalga, conversa, joga truco, sonda falares, respira cores e transpira poesia.
O Autor, míope, curioso e astigmático, começou a escrever em 1963. Seus primeiros versos foram para a musa eterna, hoje sua esposa: Maria Alcina. Sempre colaborando em suplementos literários de vários jornais com seus textos poéticos, foi premiado na 1.ª Semana de Arte Moderna de Franca, em 1966, com o poema Beatniks. Em 1967, seu poema Do Mágico e seu aprendiz, recebeu o 1.º lugar em outro concurso francano. Publicou seu primeiro livro de poesias em 1968: CANTO DE BUSCA, em edição mimeografada e com lançamento nacional. Em abril de 1969 datilografou, compôs e lançou seu segundo livro, MURAL, com poesias concretistas, em pequena tiragem, por sua editora “Dedos do Autor”.
Seu poema-processo RELÓGICAS, elaborado a partir de carimbos confeccionados com peças de relógio, em parceria com Antônio de Pádua Primon recebeu o 1.º Prêmio no Concurso Nacional Souzandrade, em Divinópolis(MG), em junho de 1969.
Nesse ano - o de seu casamento - o Autor recebeu da imprensa francana o título de Intelectual do Ano. Desde então, vinha organizando seu livro-objeto, de poemas-processo, FLASH, editado em 2010 pela Editora Clube de Autores.
A partir de 1970, Kellner passou a coletar seus contos e a divulgar seus textos em prosa, colaborando em jornais, suplementos e páginas literárias de toda parte e participando de algumas antologias nacionais e de fora.
Em 1975 lançou cópias de seu texto concretista FOSSAPOGEU - (epistolas aos coivarenses - textos do hospício) - de circulação restrita.
Em 1977 divulgou seu primeiro romance: O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM, em pequena edição oferecida à crítica do círculo de amigos-leitores fiéis.
Participou, em 1979, com o conto O Espetáculo, da antologia A PRESENÇA DO CONTO, organizada pela Editora do Escritor, de São Paulo.
Seu primeiro livro de contos O OUTRO LADO DE COIVARAS : O MUNDO foi publicado pela Editora Pirata, de Recife, em 1984. 
Em 1985 prefaciou o livro de contos "Nada a ver", de Mauro Ferreira - Franca-sp.
Seu nome figura no verbete "COIVARAS", na página 444 do volume I da Enciclopédia da Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho.
A revista Globo Rural publicou seu conto Paz-sarinha, sob o título “O touro Charuto” em sua edição do mês de setembro de 1994.
Figura à página 297 da coletânea  "Esboço de História da Literatura Francana", de Luiz Cruz, editado em 2005, em Franca (SP)
Em 2009, em comemoração ao seu 60º aniversário, Kellner relança a obra MURAL em conjunto com FOSSAPOGEU, na obra poética MURAL & FOSSAPOGEU, pela Editora Clube de Autores, de São Paulo.
Ainda em 2009, pela mesma editora, lança o livro de contos O JUIZ E OUTROS CONTOS, o romance O REINO DE COIVARAS e a novela TOCAIAS E DUELOS.
Também em 2009, pela mesma editora paulista, lança a obra COIVARAS (cantos), onde reuniu os trabalhos O JUIZ E OUTROS CONTOS – contos -, ROSALDA GENTIL - romance – e TOCAIAS E DUELOS – novela.
Também em 2009, pela Editora Clube de Autores, relançou o livro O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM.
Ainda em 2009, pela Editora Clube de Autores, lançou o volume de versos O LIVRO DA VISITAÇÃO.
No final de 2009, em regozijo pelo jubileu de diamante de seu nascimento, Kellner lança pela Editora Casa do Novo Autor, de São Paulo (SP) o livro FAZENDA INTERI-OR. Lançou O QUILOMBO DE PALMIRA (mini contos) no findar de 2010 pela Editora Clube de Autores, de São Paulo.
Veio a lume pela mesma Editora, também em 2010, seu livro-objeto, de poemas-processo, FLASH.
Em seguida, lançou seu livro de trovas PEQUENO CANTO DA TERRA, ilustrado por Odilon José Rosa.
No final de 2010, Kellner lança pela Editora Clube de Autores, de São Paulo(SP) o livro FAZENDA INTERIOR, agora em segunda edição.
Em março de 2010 Kellner lança pela Editora Clube de Autores, o livro-conto OS AMARRADORES DE PATAS.
Em dezembro/2010 lança seu volume de mini-contos, O QUILOMBO DE PALMIRA pela Editora Clube de Autores.
Em julho de 2011 Kellner lança pela Editora Clube de Autores, a segunda edição, agora ilustrada, do livro-conto OS AMARRADORES DE PATAS.
No segundo semestre de 2013 Kellner lança pela Editora Clube de Autores, o livro KALEIDOSCÓPIO, colorido, reunindo poemas-processo, na técnica de gravuras digitais no gênero abstrato lírico, em formato e papel especial. Dada a receptividade da obra, logo em seguida lança KALEIDOSCÓPIO 2, pela mesma Editora, no mesmo padrão.
Em novembro de 2013, Kellner lança pela Editora Clube de Autores, o livro de poemas RECANTOS DA VIDA, reunindo alguns poemas de seu primeiro livro mimeografado, CANTO DE BUSCA, alguns textos poéticos do livro O QUILOMBO DE PALMIRA e poemas escritos durante toda a sua vida.
Ainda em novembro de 2013, lança pela Editora Clube de Autores, os livros SIGNUS e BOREAL, coloridos, ambos reunindo gravuras digitais no gênero abstrato lírico, em primorosas edições em formato quadrado e papel especial.
Relança em 2013 pela Editora Clube de Autores os contos que marcaram sua estréia na literatura nacional: “O OUTRO LADO DE COIVARAS: O MUNDO”, agora em segunda edição revista e ampliada, incluindo fortuna crítica. Ainda em Dezembro de 2013, lança pela Editora Clube de Autores, o livro FACTUM, colorido, reunindo gravuras digitais no gênero abstrato lírico, em primorosa edição em formato quadrado e papel especial.
Em janeiro de 2014, lança pela Editora Clube de Autores, o livro TACTUS, colorido, reunindo suas mais recentes gravuras digitais no gênero abstrato lírico, em primorosa edição em formato quadrado e papel especial.
Publicou nas letras jurídicas, a monografia A CAUSA CURIANA, no campo do Direito Romano.
Permanecem inéditos, O PROCESSO CAUTELAR E A COISA JULGADA, monografia na área do Direito Cautelar; e, na área do Direito Penal, desenvolveu trabalho em parceria com Juliano Quireza Pereira e Lúcio Augusto Malagoli tratando do PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.
Kellner também se dedica às artes plásticas e à fotografia. Proclama a volta à Natureza. Prepara um reino de pedra, água e sol: Coivaras.

Curriculum - Artista Plástico

ATELIÊ
R. Sebastião S. Silveira, 302 – Centro
CEP 37910-000 - Delfinópolis - MG
Tel. (35) 3525-1009 – Cel (35)9921-1009

DADOS DE FAMILIA
Nascido em Franca(SP)  a 02/05/49, filho de Avelino Kellner e Maria Conceição Kellner, é casado com Maria Alcina Aguiar Kellner, sendo seus filhos: Gustavo Kellner – Chef de Cozinha e Luciano Aguiar Kellner -  Zootecnista, e seus netos: Gabriela, Ângelo e Adélia. Aninha é sua nora. Reside em Delfinópolis (MG) desde 1975.

FORMAÇÃO ACADÊMICA EM ARTES PLÁSTICAS
Licenciatura - Professor de Artes Plásticas pela UNIFRAN - Universidade de Franca - Franca (SP)

FORMAÇÃO ARTÍSTICA
Iniciou-se na pintura em 1964, incentivado por seu irmão Zigomar Kelher, tomando as primeiras noções de composição e cores do laureado artista francano Luiz Schirato; teve aulas também no ateliê do premiado pintor internacional, Bonaventura Cariolato, em Franca, SP, desenvolvendo então profundo estudo das cores. Em sua fase de iniciante, costumava visitar o grande padre e pintor italiano, Dom Agostinho Capute, em Claraval, MG, que muito o incentivou e orientou devido ao seu vivo interesse pelas artes.
Depois de longo aprendizado, vivenciando técnicas e estudos diversos, animou-se a expor.
Participou de inúmeros salões e coletivas de pintura, onde se destacou na categoria acadêmica, especializando-se em retratos e figuras sacras.
Após ter contato com trabalhos de renomados artistas plásticos de Ribeirão Preto, SP, dentre eles Bassano Vacarini, Amêndola e Leopoldo Lima, no Simpósio Nacional de História, realizado em Franca em 1965, passou a se interessar pelas novas linguagens da vanguarda pictórica. Desde então, tem se dedicado à arte moderna como forma de expressão artística nas artes plásticas.

EXPOSIÇÕES E PREMIAÇÕES
Dentre as inúmeras participações em coletivas, e os prêmios por ele recebidos, destacam-se:
* O 1º lugar em Pintura na 1ª Semana de Arte Moderna de Franca, em setembro de 1966, realizada pela imprensa francana. Sua composição “2ª GRANDE GUERRA” pela plástica e atualidade, obteve o prêmio maior.
* Diploma de participação na Exposição Cultural - Seção Pintura Moderna - realizada em Franca, em 28-11-67, pela Sociedade Francana de Belas Artes.
* O 1º lugar em Pintura com o quadro “Gênese”, no Concurso de Poesia e Arte Moderna do Conservatório Musical Jesus Maria Mosé, em maio de 1968.
* O 1º lugar no Concurso de Poemas-Processo com o poema "Relógicas" - em parceria com Antônio de Pádua Primon - no Concurso Nacional realizado em Divinópolis – MG em junho de 1969. (o poema processo é, em suma, um poema gráfico, um poema visual de grande carga semântica)
* Diploma de Participação na Exposição Coletiva de Arte de Vanguarda na 1ª Francal, realizada em setembro de 1969, em Franca-SP.
* Diploma de Intelectual do ano 1969 – Personalidade em Artes Plásticas - , concedido pela Imprensa Francana.
* Certificado de Participação na 2.ª Fearte - Feira de Arte de Franca - na categoria Pintura, realizada pela Fundação Municipal “Mário de Andrade”, de 15 a 30 de julho de 1978.
* Certificado de Participação na 3.ª Fearte - Feira de Arte de Franca nas categorias: Artes Plásticas, Desenho, Pintura e Fotografia - realizada pela Fundação Municipal “Mário de Andrade”, de 14 a 29 de julho de 1979.
* O 1º lugar na categoria de Artes Plásticas - Escultura, - com o trabalho em pedra sabão “Lavrador pedindo chuva”, - Prêmio Aquisição, - na 3ª Fearte - Feira de Arte de Franca, realizada pela Fundaçao Municipal “Mário de Andrade”, de 14 a 29 de julho de 1979.
* Prêmio Aquisição "Pincéis Tigre" para a obra “Grutas” - óleo sobre tela, - gênero Abstrato Lírico - no Salão Empório das Artes realizado de 25 de setembro a 11 de outubro de 1991, na Galeria Caminito em Franca,SP.
* Prêmio “GRANDE MEDALHA DE PRATA” para a obra “Lux” – Gravura Digital em lona impermeável – gênero Abstrato Lírico, no “32º Salão de Artes Plásticas (Contemporâneo) realizado pela FEAC - Pinacoteca Municipal de Franca, de 24/11 a 13/12/2008 na Pinacoteca Municipal “Miguel Ângelo Pucci”.
* Prêmio “Menção Honrosa” para a obra “A Coroa e o Rei” – gravura digital em lona impermeável – gênero Poema-Processo, no 34º Salão de Artes Plásticas (Contemporâneo) realizado pela Feac - Pinacoteca Municipal de Franca, de 06 a 30/11/2010 na Pinacoteca Municipal “Miguel Ângelo Pucci”.
* Realizou, no período de 08 a 30 de dezembro de 2010, a exposição “Gravuras Digitais – A Arte Abstrata de Oscar Kellner” em evento da Feac/Pinacoteca na Pinacoteca Municipal “Miguel Ângelo Pucci”, em Franca-SP.
* Recentemente participou de várias coletivas de arte com suas Gravuras Digitais em Abstrato Lírico no Espaço Cultural DecoZ/Rengaw, em Franca-SP.

* Regularmente publica sua literatura, seus poemas-processo e suas Gravuras Digitais em Abstrato Lírico em forma de Revistas Digitais em sua página no site www.issuu: confira nos links:
http://issuu.com/oscarkellnerneto
http://issuu.com/oscarkellnerneto3
































segunda-feira, 10 de agosto de 2015

10-08-15 - o que ando pensando...

PENSO EM TANTOS AMIGOS QUE ESTÃO ESPALHADOS POR ESTE MUNDO AFORA... DEDICO-LHES UM AMOR FRATERNO, DE CORAÇÃO... SENTIMENTOS DE BONDADE E UMA SAUDADE IMENSA DE TODOS QUE NÃO VEJO HÁ TEMPOS...

terça-feira, 4 de agosto de 2015

PEQUENO CANTO DA TERRA - POEMAS ILUSTRADOS





















VEJA A OBRA, CLICANDO NO LINK ABAIXO... LEIA COMO EM UM E-BOOK... APÓS CADA POEMA VEM A RESPECTIVA ILUSTRAÇÃO FEITA PELO SAUDOSO ODILON JOSÉ ROSA...
GRATO PELA VISITA... SE GOSTAR, DIVULGUE...










http://issuu.com/oscarkellnerneto/docs/pequeno_canto_da_terra

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

KALEIDOSCÓPIO 2 - POEMAS-PROCESSO SERIADOS

ESTE É UM LIVRO DE POEMAS-PROCESSO SERIADOS, FORMADO POR GRAVURAS DIGITAIS SEQUENCIAIS. CLIQUE NO LINK ABAIXO E VEJA A OBRA, COMO EM UM E-BOOK... GOSTANDO DE UM TRABALHO, VOCÊ PODERÁ OBTER UM ZOOMM PARA OBSERVAR SEUS DETALHES... UM ABRAÇO E OBRIGADO PELA VISITA... DIVULGUE, POR FAVOR!


http://issuu.com/oscarkellnerneto/docs/kaleidosc__pio_2_-_poema-processo





KALEIDOSCÓPIO - POEMAS-PROCESSO SERIADOS

ESTE É UM LIVRO DE POEMAS-PROCESSO SERIADOS, FORMADO POR GRAVURAS DIGITAIS SEQUENCIAIS. CLIQUE NO LINK ABAIXO E VEJA A OBRA, COMO EM UM E-BOOK... GOSTANDO DE UM TRABALHO, VOCÊ PODERÁ OBTER UM ZOOMM PARA OBSERVAR SEUS DETALHES... UM ABRAÇO E OBRIGADO PELA VISITA... DIVULGUE, POR FAVOR!


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quinta-feira, 16 de julho de 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

TOCAIAS E DUELOS - CONTOS





                          oscar  kellner  neto





tocaias e duelos




- contos -




Delfinópolis - 2009



































“... e os antepassados no cemitério se rirão
se rirão porque os mortos não choram.”

(Carlos Drummond de Andrade in Os bens e o sangue)



para o José Antonio da Silva,
finado Zé Minduim, meu amigo,
que deve estar rindo de tudo
isso que inventamos...


para Avelino e Maria Conceição,
meus pais,
com afeto,  gratidão e saudade.


para Alcina, Gustavo e Luciano,
esposa e filhos amorosos,
pela ausência material
nas noites de criação.





sumário & manchetes



a encrenca – 06 
onde se conclui: quando as botinas apertam não  adianta vendê-las

luxúria – 17 
affair Suzana: eis que Minduim abre o jogo

a caçada – 32
capelinhos detrás da moita: Consciência Ribeiro cavalgando o Burro Sereno

selmeliza – 38
porque o tal de 69 geralmente é uma armadilha para dois

pulegá – 45
o  menino da porteira: a morte vinda da moita

despedida – 50
sobre  a  notícia  que  Rabelo  preferia  nunca  ter ouvido

a testemunha – 55
sargento Ornéjio: digressões  sobre  a  paz  &  as  ocorrências  no  Marabá

oah  cavalinho! – 61
tremoço, o enorme camaleão, e os acontecimentos  da  Saracura

latrínico – 73
gênese  de  Abigor:  altura  em  que  tudo  ia  de Chico Mal a Pedro Pior

crepúsculos dourados – 81
gênese de Rogiba: o caso da casa no fim do túnel.   

a corpórea lacração – 92
onde  fica  provado  que  quando  o  mal  é  hemorróides  não  há  herói  que  agüente

a contenda – 103
o equilibrista: brincando de morrer nos braços  de Lídia

palhaço – 107
a teia de benzeções: primeiro ato do fechamento  corporal.

corpo fechado – 112
conhecimento de Lídia, a debutante, e seu bode Ramalho.

os duelos – 116
quando janelas cerradas inauguram uma noite  prematura

guerra universal – 121
 Neblina em seu destino: a felicidade mora em  Goiás, nos braços de Mariantônia

a encrenca


                        NO dizer dele próprio, coronel Thomé teve a infelicidade de ver sua irmã Catarina casada com Casimiro Ribeiro, vizinho de longe.  Depois do que aconteceu, qualquer um não deixa de lhe dar razões.
                        Tudo começou aqui perto, na fazenda Capim Roxo, do Felipe Bueno, bigodudo coronel irmão de Ismael Bueno, por sua vez pai do coronel Thomé Bueno.
                        Do casal Casimiro/Catarina, resultou uma cria por nome José Ribeiro. Por causa da mãe Catarina, o José também ficou sendo sobrinho, em segundo grau, do Felipão Caseca, seja, Felipe Bueno, filho duma antiga Marquesa de Olivais E Caseca, cujo pai, donatário de terras por cá, encheu esse rincão de filhos naturais... Assim sendo, os filhos do Felipe, entre eles Ismaelinho Bueno, eram primos do José Ribeiro...
                        Por outro lado, Thomé, através da irmã Catarina, ficou tio do tal Izé. Que aos poucos foi revelando ordinária conduta e péssimas inclinações. Já do Ismaelinho, o Thomé era primo, causa de seu tio Felipão, lhe tendo estimas e considerações... Entre José e Ismael, uma primitude em terceiro grau...
                        (Ah! Coronel Thomé! Quem sofreu mesmo com tudo isso foi sua mãezinha, pobre Donana Velha, tia de um e avó do outro...)
                        Como diz Minduim: “Era época de plantios, que nós roçava em maio e plantava nos finzinho de agosto... Isso se deu em tanto de agosto de mil novecentos e pouco...”
                        Uns dias antes - mês e pouco, não dois! - tinha havido o casamento que todos no lugar desejavam e festejaram... As mães dos noivos, dona Sara e Siá Cacilda-já-viúva, quase não viveram as suas próprias vidas naquele então... Tanta trabalheria, preparativos, para se concretizar o enlace dos filhos Ismaelinho e Maria do Carmo...
                        No dia do casório, então, de um lado a mãe do noivo não suportou emoções e explodiu em pranto convulsivo aos pés do altar; de outro lado, motivada pela outra, Nhá-Cacilda por pouco não desmaia nos braços do filho Daniel, irmão mais velho da noiva, e que a conduziu até os braços do rapaz de terno cinza...
                        Maelinho, rangideiras novas lhe apertando os indomáveis dedos desacostumados a uma disciplina dessa natureza, só pede a Deus pela rapidez das cerimônias... Quer, o quanto antes, se livrar desse par de botinas pretas, reluzentes e macias por fora, mas sufocantes e torturosas por dentro... Ele mal vê a hora de voltar pra roça, pro aconchego lasseado do velho calçado da lida diária...
                        Esse fato não passa desapercebido aos argutos olhos do José Ribeiro... Tanto que, passados uns dias, este apareceu em casa do Maelim e, à custa de argumentos decisivos, lhe comprou o danado aparelho que tanto judiara dos pés... Ganhou prazo de quinze dias, ante a euforia do outro, que se viu livre do empecilho que jurara jamais tornar a calçar...
                        Graças ao pé um número menor, o Izé em poucos dias já zurrava o calçado. Tanto zurrou que, passado o prazo, gasta a sola do artefato, ainda não ajuntara dinheiro para quitar sua dívida... Uma: se enfurnara em jogatinas no arraial; outra: era pródigo com as meninas da casa da Cidona.
                        Passados alguns dias do vencimento, Ismaelinho procura receber seu dinheiro, em vista do sossego do primo. O outro achou ruim ser cobrado. Discutem. Ribeiro sai. Depois volta. Os ânimos se esquentam. Repente, uma detonação. Maelim, o alvo. O tiro não o encontra. Zé Ribeiro não acertou, “maldita garrucha 320!”- imprecasse.
                        Aí as mulheres intervêem, tentando serenar a discórdia. Quando Ismael está distraído, alvo dos cuidados, cercado pelas mulheres desoladas, o Jota vem por detrás e lhe dá uma única punhalada no sangrador, ali, no mortal lado esquerdo... Ato contínuo, sem pestanejar, sem ao menos tentar socorrer o outro, deixando para a mãe, irmãs e agregadas o fardo dessa ajuda tão urgente, o criminoso foge dali, após ajuntar umas coisas numa pressa danada, saindo sem rumo certo, carreira doida!
                        Sangrando muito, a vítima é levada para uma cama. Às pressas, logo seguem para o arraial, em busca de recursos...
                        Para o ferido, porém, as coisas correm mais calmamente. Após o frio do punhal nas costas, as gotas azuis do nobre sangue explodindo no ar, suas pernas perdem flexibilidade. Algo então, como contagem regressiva, começa a martelar sua idéia... Ele sente, de algum canto do Universo, uma certeza atávica, de encontros ancestrais, lhe garantindo: “NÃO HÁ SAÍDAS!”...  Agora, suave música de tristíssima melodia embala seu tão enorme sono. Passa voejando por sobre a própria infância e um intolerável ranço imobiliza seu raciocínio. Hipóteses estapafúrdias, fedendo recente merda eqüina, flutuam ante suas vistas vidradas em fixo instantâneo. Não vê mais nada. Apenas intui: de algum lugar observa-se a si próprio, em febres e lutas... Fogem de seu alcance as sombras. Tudo tremeluz, pispiscando. Num livro de registros anotam: “Ismael Bueno ultrapassa a raia prevista.”
                        Segue, agora, em estranho passeio pelo vazio. Nem a pé, nem de-a-cavalo: voando, flutualmente...  Repente, pende dele uma âncora.  Cai vertiginosamente, tudo esfria, gela.  Paralisado seu corpo, o pensamento alado inda segue...  Certos cristais, essenciais, então se liberam, surgidos do nada, perfumando, colorindo...  Findos os esquemas, não há fugas ou esconderijos.  Alguém, com infinita suavidade, o despoja dos brilhos. Recolhem-lhe as últimas luzes e apagam sua chama...  Imenso, logo um vácuo o oprime, como numa implosão, e uma aura de silêncio eterno inaugura sua morte...
                        (Já no mundo dos vivos é madrugada e logo nascerá um novo dia...  Você delirou a noite toda, Maelim.  Você será enterrado só amanhã.  A notícia do crime já começa a se espalhar para mais além da cidade.  Você conta com muita estima.  Cativou, com sua honestidade, amizades verdadeiras.  Com seu trabalho honrado, amigos nunca lhe faltaram... Seus trinta e cinco anos foram bem vividos!...  O pessoal vem chegando... Muita gente, orações... Penso e ai! é doído...  Descansa em paz aí nesse catre, Ismaé...  O curral se entope de montarias arreadas...  Chegando gente... Casa cheia.  Maria do Carmo dum lado, Sara do outro. Primas passaram mal. Um tio desmaiou. Debruçadas sobre seu corpo imolado, a mãe e a esposa... Por toda parte, lamentos... Agora, chega seu caixão, trançado de galões, repicado de douradas tachas, lindamente ornado. As flores que o povo trouxe, logo emolduraram esse seu retrato estático, tridimensional... As velas ardem mansamente, de vez em quando estralando suspiros. Agora a casa está lotada. Ninguém entra nem sai.  E gente chegando, querendo ver, chorando, um desatino geral.  Sua tão viuvamente nova do-Carmo, de cama, no quarto que foi de ambos.  Não suportou...  É, Maelinho, assistência moral não está faltando pro seu pai tão abalado, tão desfigurado em dores, esculpida estátua em doloroso granito.  Sua mãe, apalermada em transe, navega em grande dor pelos oceanos do nada...  Estes círios iluminam a sala, tetricamente... E as gentes se ajuntando, todos querendo se despedir, tá notando? Sabe, lá fora vários coronéis, de fundada patente e grosso calibre, aguardam a vez de confabular, entrar no quarto, a sós com seu velho, tão aniquilado Felipe Bueno!  São, entre outros, Isolino Paraguai, Misofante de Abreu, Cândido Bota, com seus capitães esperando mais ao largo...  Como sombras, esperam ajudar na cobrança do reparo devido...)


II

                        “Tem hora que a gente pode falar pouco, mas tem que agir muito, fazer serviço completo!”- dizem-lhe, no enrolado das línguas, Coronel Felipe, a colônia revoltada dos serviçais comerciantes estrangeiros: Cimbalde Querdel e Saipras Zarichi, abonados por Eszaide Ekstremelis e Lackchúria Lopas, tão mascates como mesquinhos, cobrando atitudes, punhos cerrados, olhos turcamente adagas, ódios puramente gregos, no aguardo, sombrios, esquecendo sua grande dor...
                        Além disso, seus próprios camaradas, obras-de-todo-pau, Abonézio Pacheco, Cabute Lorentino, Geso Carioca e Zequito Cachoeiro, com ganas nos indicadores calejados, crispados, ansiando as relumiosas carabinas em unto permanente...  São esperas agônicas, Coronel Felipe!  “Uma decisão é às vezes difícil, mas qualquer uma é melhor que nenhuma...”- senhor se lembra que o padre dizia?
                        Mas Ogênio Carola, Antoim Nosso, Joaquim Garrucha, Zé Bua, Tico Leitão, Armando Florete, Jarbas Quiteme, Pélias Espaniche e Pritxa Pultara, nacionais, gringos, insolventes com a justiça, alugados por mirréis, se oferecem gratuitos... E mais: Izídio Cassana, Rafael Inhá, Capelo Sovizim, especiais, temidos e regulares no ramo, ministros de lentas mortes e sofridas agonias, vingadores sem piedade... Todos todos todos: mascam ânsias como um fumo forte, enfezador... Carriola de cabrões-da-peste, esperando o estalo de vosso dedo, Coronel Felipe! “Trazem a botina do menino, com o pé do assassim dentro, seu Coroné!”
                        É... Mas esse indesejável parentesco fica aí, anuviando o sol da desforra!

III

                        Uma chuva se precipita. A noite chegou rápida na Fazenda Grande Rio do Peixe... Nos barracões, a peonada conversa ódios vazios. Thomé, cabisbaixo, medita na varanda, apreciando ao longe o movimento, o vai-vem na vizinha Fazenda Capim Roxo...  “É a vida...  Tem hora que falta facho... Tanta desgraça junta, meu Deus...  É um apagamento de lamparinas, um escuro, ausência de archotes... Um luzeiro fica onde, nessas horas? Havéra de tá aqui o danado Garção, dono de adequadas palavras...”
                        Mas, que pode fazer para ajudá-lo esse insignificante Zé Minduim, além de lhe observar? Ele apenas sabe que seu candeeiro não apaga de todo, Coronel Thomé!  Senhor tem parte nesta cobrança...  Os caminhos são demais, mas qualquer um serve...  E o senhor, agora pensaneiro, desligando pro conselhoso Zé Cabungo, puras prosas adulantes: “Pro senhor, pegam o nego, capam, trazem a zoreia, carapinha, bago e tudo! é só mandá!”...
                        - Choveu, seu coroné! - prossegue o hiperdúlico - mas o danado do Tamanduá segue pista até dendágua! Não vamo deixá aquele calacero escapá. Dá orde, nós busca! Ele, pelas minha intuição, deve de tá volteano pras bandas da Canafrecha... Nós arrodeia, pega ele feito tizil no açarpão! - finaliza, implorando, o baixote, repleto de ódios facínoras...
                        Mas o senhor agora pensando, Coronel Thomé...
                        Espia: na enciclia dessa poça d’água, sua vida é a goteira... Emana do senhor a vida e a morte, porisso vacila nessa hora.  Mas senhor bem sabe: antes de uma personalidade, convém ter um princípio! Nem só flibusteiros o rondam, senhor: a espera nos fere o senso: os bons vizinhos reclamam de sua inércia!
                        - Nesse nego estróina a gente faz desenteração: capa e esfola! - resolve recomeçar a cantilena ameaçante, o refrão de maldições, o Zé Pinico, assassim de registradas sentenças...
                        Talvez por isso, quem sabe, talvez por causa completamente diferente, o caso é que Thomé se resolve: abandona receios e vai pra casa do tio, Felipe Bueno.
                        Circulam na noite curiangos ressentidos... Por ali o ambiente é tão denso que os próprios cães cavam o ar em busca de ossos enterrados, enquanto a noite, rescendendo sangue e  fuga, avança irreversível...
                        Comportado com todo falecido, Maelinho permanece sendo velado: terno do casamento, mãos cruzadas portando o terço, pés descalços em meias brancas... Faltam as botinas!...  Lá do quarto, não ouvem direito as mulheres começando a reza dum terço...
                        “Se eu estivesse em Coivaras naquela ocasião, teria feito a mais bela oração que esse povo jamais ouviu!” - se lamentou mais tarde o Garção, conhecido do jovem fazendeiro assassinado...
                        Pois na casa, e  da casa no devido quarto, se encontram os Coronéis: Felipe e o sobrinho se entendem com um apenas olhar.  Agora só aguardam!
                        (Cedo a condução sairá para o longo féretro até o Cemitério de Coivaras. Passando pela Matriz, um padre sinceramente sentido fará a encomendação do corpo.  Os sinos dobrarão com tristeza e todos seguirão o enterro até à beira do jazigo...  Durante todo o trajeto, rezarão um terço e haverá um pequeno tumulto, tão enorme a vontade de ajudar na alça do caixão!  Abrirão a urna uma derradeira vez, no cairel da sepultura, para a última despedida...  As mulheres terão ficado em casa, mais mortas que vivas pois de até bem longe todos puderam ouvir seus gritos lancinantemente desesperados.)
                        Porisso, esperam todos a noite findar. Cafezinho farto na cozinha. Quitandas, muito bolo, broas e até janta pra quem veio de longe... Lá fora, onde os terreiros se misturam, Tonico Lobosqui, Adriano Liberdade, Gumercindo Frei e Nico Olegário preparam um calabre, azeitando o nó corrediço... Por eles, lavam a vergonha na forca, pois é!  Na ponta da amarra desejam ver balangando tanto o negro canjereiro como o Caim Ribeiro! Aquele, um mirmidão, se engraçando na vida de gente-boa, traia insuportável, negro tratante, taberneiro, deformado...  Este, um judas familioso, carneiro preto da raça, sangradô de parente à-traiçoso! 
                        “Os coroné, coitados, e as sinhás!, ali, sempre, nos trabai da lida, no duro diár, gente simples, vida calma, bons patrão, cuidando no que é seu, muito amigos...”
                        “Não, ó gente: presses dois não adianta só susto não!  É preciso degolá, depois sepurtá num alude de purretada, disfigurá!”- Sentencia a Voz Geral...
                        ­- Mas o nego sorrateiro não dá as costas pra ninguém! Peixeira na cinta, um medo em cada mão... O ordinário não é moleza: tá acuado, vira fera! É capaz de masgaiá o gasnete de um, com o aperto da manáp’la!...” - informam entre si os celerados, sob a frondosa figueira defronte ao solar dos Buenos, enquanto a lua vai descambando pro poente dela...
                        “Como foi a tal carta? -pergunta um.  Ao que Miguel Beá, projetando inverossímel careta no rosto bexiguento, responde: “Foi como pescá de embude: exposição de porcarias!”
                        Já na Roda Um, no alpendre em penumbra onde se reúnem os notáveis, enfatiza Isolino Paraquai: “Mas o coronel já vinha se descarnando numa dúvida, gente. Agora precisa fazer o que é preciso, pra encontrá a lassidão!”
                        “Ele tá virando motivo de chasco! Carece acertar honras! - confirma Cimbalde, racistamente, contaminando seu tom com o mesmo ódio que dedica aos azimitas...
                        (Depois de algum discurso e das rezas, o vigário jogará água benta e vai mandar fechar o caixão.  Apesar da choradeira, insensíveis, os coveiros, com as cordas enganchadas pelas alças, descerão o caixão até o fundo da cova.  Só depois de jogar um punhadinho de terra com a mão, nós sairemos do Cemitério, deveres de cristão cumpridos.  Os braçais soterrarão os restos do Maelinho e tudo será uma dor só, chaga imensa, luto geral...)
                        - E o nego, onde mesmo a gente acha? -  pergunta Espaniche, sôfrego, no bolo odioso de fedorentos camaradas na Roda Dois sob a figueira, pura jagunçagem, todos tentando se anteceder às ordens iminentes... ´
                        - Saiu enturviscando o caminho.  Tá na toca.  Não é fácil chegá! -respinga raros informes o Ogênio Carola, de olho no cabro há vários dias...
                        - O que será que aqueles dois aprontava? - inquire alguém a todos...
                        - O que faz uma muié ficá maluca assim mode um nego? -sofisma o Abonézio...
                        - Diz que o cabro tem visgo do grosso, hé, hé, hé... -  se rebaixa o caolho Lobosqui, piadista, enquanto enseba o laço trançado.  E completa com uma abjeção impossível de traduzir... E vão passando aquela noite dessa forma, velando um distante defunto, os capatazes, desfiando em minúcias o grande escândalo da enlutada família...
                        - Coronel já estava beirando o descalabro e os dois crendo demais na cegueira dele! - se exalta na Roda Um o velho Misofante, preparando o milésimo pito daquela noite...  E o Saipra Turco, completando, disparou: “Agora é coluviom braba, azáguas sentornando!”...
                        Na Roda Dois: -Já eu acho que levaram o Thomé na mamparra muito tempo!- despacha o Armando Florete.  E aproveitando, ironizava o Jarbas na fina ironia dos orientais: Zeca Cilete, meu babai, tratava muilher assim por zoina... Se Thomé tá ruvinhoso mesmo, deve mandar cobrança...
                        Na Roda Um, pergunta o Eszaide: “Quem acoitava, de coviteiro?...” Ressentido, representando o ódio geral, ele mesmo responde: “Coviteiro, depravado, era o Zé do Casimiro, esse sobrinho desnaturado, desinquietador de famílias! Ele que ajeitava tudo!  Esse agora assassim desgraçado!” - e, enquanto vociferava brandindo punhos, ruborizado mesmo à luz fraca dum lampião, tanto meneava a cabeça, como cuspia de lado a cada referência ao infame alcoviteiro.
                        No mesmo instante, na Roda Dois, verrumava o Joaquim Garrucha: - “Ocê, Pedro, convém juntá qüaqueles dois cabriões!”...  E esse assim insultado, era o Pedro Ribeiro, parente longe daquele Jota salafrário... E os dois cabriões que citava não eram os do assunto-geral, mas tais Tulíbio e Cacalo, irmãos atoa, sempre pendurados na desregra e gastança do Zé Bicudo ou Zé Ribeiro, filhos do Dute Dorteu, nego-da-costa, ruim de doer, em vidas negrejantes... “Aposto que já tão ajudando na fuga!” -arrematou o Garrucha, insinuando possibilidades...  Ao que, tentando esfriar a questão que ia ferver em peixeiras logo logo, informou Cabute: “Sei que o nego sorveteu e se amoitou num galho de serra, não sei bem adonde, mas óia que descubro, inda tou no começo da veação!”
                        (Pra nós da cidade, o enigma do nego-visitador se desfazendo, nos trouxe muita vergonha!  Exemplo negativo, ficou grassando como lição de moral em nossa vidinha tão calma... No calor das acontecências, as dúvidas: O causo vai evoluir conforme a rigorosa regra da honra? Negro-Violeiro fica e plantam ele a ver se torna a nascer?  Ou se despacha pro sertão, num descabreio, serra acima, estilingando chapadão afora!?...)



IV

                        Ah! Coronel Thomé...  O senhor cortando essas lasquinhas de mandrágora com seu canivetinho de madrepérola, parece pensativo da memória, meditoso... Ninguém lhe ousa aconselhar o que fazer, temendo tocar no assunto.  Os notáveis se respeitam...  O senhor tinha mesmo certeza, mas fazia de conta que não?  Queria mesmo que aquilo acontecesse, mode a outra?  O que pensam os outros?...  Hoje ninguém pode saber...
                        Ah! Senhores Coronéis Ofendidos...  Constróem tanto engenho na idéia, não? Não acreditamos na sorte, dizem... Confiam na Lei das coisas, na cadeia que liga o princípio ao fim das obras... Para cada barranco, os senhores usam um determinado enxadão... A vida, nós sabemos, é busca de força... Os fracos sucumbem... Os senhores são poderosos, não se entregam... Podem prescindir de uma demonstração de força, estar acima dos acontecimentos da vidinha de todos nós... Mas agora não!
                        Senhores entendem mais que a gente dessas coisas! Não agem sem certeza. Absoluta certeza!  Sempre sabem o que querem... (Mas é sempre graças à nossa imbecilidade que aumentam o seu poder! Quando todos somos vítimas do medo, das superstições, da força, dos costumes, e negamos confiança em nós mesmos e em nossas atividades...  É... Nós, coitados de nós: nem sabemos expressar o que sentimos!  Precisamos dum escriba para traduzir em palavras o que lhes explicamos com o coração! Temos espírito atrasado, senhores coronéis.  Nossa doença e perdição é não servir os outros... Apenas economizamos - em nossa miséria- recursos para nossa própria e individual sobrevivência!) Sempre sabem o que querem, são grandes quando despejam sobre a gente o supérfluo que mitiga nosso miserê! Os senhores são feitos da substância dos eventos.  Estão em sintonia com o curso das acontecências e podem predizê-las...  A vida e a morte estão em vossas mãos.  Conhecem os homens e as feras que moram dentro deles...
                        Porisso os senhores sabem: onde há soma de vidas, surgido um cancro, devem aparecer seus próprios mecanismos de purificação! Só depois de limpo o tumor, o organismo se harmoniza em satisfações...  Não é, Coronel Thomé? Não é, Coronel Felipe?

V

                        Aí o dia chega, sangrando pelas esquerdas...
                        Dizem que então os dois se juntaram na revolta do sangue e resolveram cobrar ao José Ribeiro, a vida do Ismaelinho e a honra de Suzana Bueno!
                        E que também ficou resolvido: na surdina de praxe, enquanto distraem o Jota com a escória do cangaço local, localizarão o homem certo. Mandarão um mensageiro, amigo dele e da confiança dos dois!
                        De manhãzinha o saimento partiu.  Durante os funerais o plano foi acionado.  Quando os outros voltavam do enterro, sem que ninguém notasse o boiadeiro Oraciano Covas já havia partido...

luxúria


                        Rita  Milagraia gerou Norfo Amâncio, que gerou Quito Corrido, que gerou  Tiana Caliméria, que gerou Ana Prepeta, que gerou Furgêncio Gruzéia, que gerou Zé Minduim, que naqueles dias havia recentemente mudado de patroa mas não de patrão.
                        Um tal Horácio Cavalo, que já ostentava esbranquiçadas carapinhas quando esse nigrim nasceu, previu macumbisticamente: “Quanto queles pomes termeço escombio quilitino. Jacingo molusmo barrobisco entrepo só só! (Vou parando por aqui e começo a tradução:) Quando ele tivé de idade será assim: se chateando à-toa, por tutaméia ou somenos, complicando idéias, matinando azedumes, se fechando, ameixa rugosa.  Virado intolerante, mesquinho nas emoções, estreito nas idéias: senil e débil.  Eterno pessimista, cumprindo maldições, culpando o mundo pelos erros de sua vida: contaminando quem se aproximar...  Nunca achará que precisa criar juízo, reconferir as memórias, podar os defeitos... Sonhará acordado, conversará sozinho e verá perigos por todo lado. Não se importará com o progresso, as novidades, a evolução do mundo: será um derrotado. Se carrancará em insensibilidades: cego aos alheios danos, não terá paciência para ouvir quem o escuta.  Criticará todo que se lhe aproximar: encontrará defeitos, lançará reputações à lama, não poupará nome de ninguém: se precipitará ligeiro na caduquice dos tolos...”
                        Esse oráculo barato, profecia urubuzenta, um certo Tio Alionço Saçapo negou, rebateu e devolveu, costurando belas palavras, augurando longa e fértil existência... Mas não conseguiu extirpar um “intojado” que se apegou carinhosamente ao apelido afetivo Minduim.  Mas não ficou barato pro Horácio Coiceiro: seu irmão Zoé Caolho não demorou muito veio a falecer, finado por ter mexido na Capanga Sagrada do Anão Mutuquinha.  Zoé, cuja pele escalpelada foi deixada a secar como o couro de uma rês na árvore própria lá no Matadouro Municipal... Quem matou? Mistério Teixeira!
                        Assim é que hoje o bodinho Minduim, encarquilhado sob o peso dos dezembros, tossindo sem descanso, escarrando verditudes sarrosas, começa lucidamente a contar certa história, não sem antes condenar o próprio vício do pito: “Pessoa que pita esmagrece e fica magro. Aquilo vai pro bofe da gente!”
                        ... Sobre dona Suzana ter abusado do Coronel, só ouvira dizer. Mas o finzinho da história ele acompanhou de perto, ninguém contou  não! 
                        ...Tudo se originou muito antes, quando a família, precisando de estudos, foi pro arraial.  A siá e as três meninas.  Coronel Thomé tolera, mesmo achando aquilo ruim, ficando na roça, porque “não qué moça burra dendicasa”.  Mas quando é fé, nas quinzenas, lá vai ele pra visita, e se faz durão...  Na fazenda vive reclamando, sentindo falta do povo dele.
                         - Lá era só nós: eu, coronel e os agregados.  Naquelas folgona comprida, tal féria, então me mandava eu de carroção trazê tudo e todas pra roça...
                        “Quando o cabritinho interá dezena, me traz ele que acabo de criá!”... - pedira o Coronel ao compadre.  O pai de Zéantôim  não queria, causa de sentimentos. Mas realidade forçou: necessidades.  Agora, há cinco anos está com ele.  E até a idade de vinte-e-oito estará ao lado desse homem que, cumprindo um trato com seu velho, vai lhe dar jeito de homem. “Até as letras já ensinou!”  Minduim é um negrinho incrivelmente lúcido, com seus quinze anos de rapaz esperto, malicioso e serviçal...  Sabe, porisso mesmo, que na cidade explodem rixas! No arraial acontecem coisas de que aos poucos se inteira. E compreende que pessoal do Coronel está envolvido em confusões.  Divisas de terras, denúncias anônimas, tudo fedendo chifre queimado...  De tudo, um pouco capta, debulhando os informes em miúdos, sem alcançar -contudo- a malícia inerente aos conciliábulos dos brancos poderosos...
                        O sagaz crioulinho desconhece, todavia, as conversas que pipocam as rodinhas no casalejo das Coivaras.  Nem sabia, coitado, que aquele estranho povoamento de seus sonhos, repleto dos restos de informações, mosaicos de estratégicos raciocínios, composto de casas terremóticas, raptos, carecagens, mortes inexplicáveis, policiamentos inúteis, eqüinos ferimentos, sacanagens dinamitadas, tiroteios surdos, vinganças falidas, e anexos desdobramentos legais, eram uma estranha profecia...
                        Não soube, também, da descompostura que o major Juca Siqueira passou no pessoal que, conversando ali na ante-sala do Gabinete da Câmara, não mudava de assunto e nem o deixava trabalhar... Saiu furibundo arrotando assim: “Vocês são umas bestas! Não param de falar nesse assunto nojento! Quem pode com suas línguas de trapo, sempre no sujo, como moscas no doce-de-bosta?!”
                        O total da prosa versava sobre a corneação do Thomé Bueno, em todos os lances possíveis, trejeitos irônicos, mímicas obscenas e ângulos imagináveis. As facções políticas se aproveitavam, enlameando-se nos esgotos do escândalo iminente...  O fato é que esse nome de respeito, assim nas bocas, em surdina irritante, faria qualquer autoridade perder a paciência!
                        -É praga de comborço! O nego foi contratado. Armaram urupuca pra ela! É minha parenta e a famia tá revoltada! - dizia Filó Carrijo, aproveitando a presença respeitosa do vereador majoritário...
                        -”Ela foi besta de se meter com o nego. Isso quando não suja na entrada... Ela não pensou que ele podia tá jogando-de-falso?” - podia-se ouvir deduções dessa estirpe nos grupelhos de esquina quando o dia ia escurecendo...
                        Num rodilho desse, Geso Abreu arriscou: “Dizem que foi Carta Anônima, e de punho do Gregor Tió!” No que foi prontamente rechaçado por Neco Diogo que gritando descontrolado parte em defesa do sogro: “Pelas barbas do profeta Vardáh, não podem dizer isso! Ele não sabe ler, vocês sabem disso! Juro por tudo que tem de sagrado, por essa luz que me ilumina (nem reparou que o sol, agonizante, era sepultado no ocaso) traz pra conferir a letra, traz!”
                        (Esse assim inflamado Neco se casou com a única filha do velho capitalista Gregório Tiófilo, cujo um sobrinho, anos adiante, seria gerente da companhia de eletrificação local.  O velho ajeitou as coisas do jeito que precisava: pra filha um marido manso e pra ele um genro devoto.
                        Aqui em Coivaras é assim: quando a gente não sabe escrever, sabe ler! Então pega o livro, escolhe o trecho e leva até o seu Tió, escriba de inteira confiança da gente que, depois de copiar o texto escolhido, garante debaixo de sete juramentos: “Sei apenas escrever, não leio nada. Aprendi copiar bordando as letrinhas por capricho e curiosidade no nada-que-fazer. Não sei ler!” -O que a gente aceita, porque sabe que é assim mesmo. Aqui só ensinam pra gente uma das duas coisas: ou ler, ou escrever.  Eu mesmo, que estou escrevendo isso, não seria capaz de ler o que escreví!
                        Mas seu Tió, apesar da falta de leitura, é o homem mais bem informado do lugar... Sempre lhe trazem jornais e revistas de fora.  “Pra mim ver se inventaram letrinhas novas, com bordado diferente”...- diz.  É o bilheteiro de casamento com maior número de afilhados daqui.
                        E, em segredo, alguns usuários garantem: é autor das cartas-anônimas mais bem redigidas da história de Coivaras! Sua fama recobre vasta região, e vem gente procurar seu ofício e sua letra, de lugares até muito distantes como Macondo e Antares, no estrangeiro! Apesar disso ninguém o molesta, procurando descobrir quem fez o inocente escrever os recados... Não adianta!
                        “Como posso saber quem mandou escrever isso?” -respondia no começo, quando abordado... “Não sei ler! Dos assuntos careço saber, não sei o que está escrito! Só copio coisa de livros, aos pedacinhos, gosto de fazer esses garranchinhos floriados, esses rococozinhos de vestido de santo!” 
                        No particular, inclusive, pode enganar o povo, a tal plebe ignara, mas não a fatia da alta nobreza local, igualmente inculta, porém não-besta, que nutre certa desconfiança e receio em relação a ele e à sua declarada condição de analfabeto, achando tudo irônica nugação... Sempre ficam as dúvidas, onde não é de se estranhar Geso Abreu ter aventado tal possibilidade e abordar tão delicado assunto...)
                        Na saleta de espera do Gabinete, quando Major Siqueira sai, voltando para sua mesa de trabalho, continuam as farpas...
                        - Dizem que ele faz que não sabe!  E ela, andando com os dois? Quando o velho vem, qualé que pega a sopa do outro? Êta biringau sem açúcar!
                        - Por certo enfeitiçaram ela no nego... Essa raça tem disso, macumbas... Ou é coisa e trama, coviteragem safada do Zé Ribeiro?!
                        - Nada, sô! É que gostou da pistola, só isso! Aquela deve ser igualinha uma égua, ela logo esgota o mulatão! Arriégua que derruba aquela tora!
                        “Não gosto de contar, mas já vi, com esses olhos que a terra há de comer, -daqui a muitíssimos anos!- os dois saindo dos fundos da horta. Sol quente, sô, na vorta do dia!  E entraram pelos fundos, pela casa do Casimiro!”
                        “Sei de gente que viu os dois entrando na tulha velha inda cedo, só saindo de-tardinha. Eles não perdem tempo, nem escolhem lugar... Tão arriscando tudo!”
                        -As meninas vivem com medo de assombração! Até as coitadinhas escutam, de noite, tanto as batidas na jinela, como os rangidos da cama do quarto da mãe... Desculpa é o vento! Danada já procurou até colchão de quilina pra trocar nessas lojas do comércio!
                        -Gente da família quer contar, já ameaçou. Mas é caso de morte. Todos tem medo da rearção do Thomé... É, sabem, Major Juca tem razão... Nessa misturada de famia sempre vêm coisas de desgraça! O Thomé, se subé, mata os dois!
                        -Os três, que o serviço do Zé do Casimiro não fica sem paga, aquele coviteiro!
                        (Sim: ninguém se esquece de casos antecedentes e semelhantes... Nesse lugarejo não descabe esse tipo de delito, todos igualmente denunciados através de vileza covarde de uma Carta-Anônima...
                        Cinelize Rangel, gente-bem até o dia do escândalo, foi assunto duma dessas, sem desconfiar.  Envolvera-se com o Adriano Poá, agregado na fazenda do vizinho Nicasso Cunha. No caso dela, mesmo antes de lhe morrer o marido-certo, o Amanso-Corno, já tinha gerado filho do Poá!  Os cunhados dela, nunca perdoando, jurassem de morte o tal Adriano dos Quintos.  E eram eles, os terríveis, convém lembrar: primeiro, o cunhado-e-sogro dela (pois foi quem acabou de criar o mano Amâncio) Anésio, esse mais-velho; depois os outros, no geral odiando igual, ou às vezes no nem-ligando: Anardo, Nacleto, Alonso, Berico, Ardofo, Larico, Genor, Dargiso e mais cinco que faziam os quinze filhos do casal Gregório Rangel/Carma Godói...  O tempo apagou o que aconteceu...
                        Ou relembram também o caso de almor e mui paixão de Agirdo Ambrósio pela Polialfa-do-Jovino? Era uma mulher-moça da validura de um rapaz-homem, no serviço bruto, na guampa duma rês, no eito duma roça. Se lembram?... Foi preciso do Arvo, mais Parício, Argeu e Lúcio, todos irmãos do Agirdo, filhos do Quincambrósio, se haverem em armas, na defesa do mano, precavidos, desconfiadamente certos... Ficara explosivo o ciúme da irmandade dos Siqueiras, irmãos da moça. Os filhos do Jovinão, dados a pau e danos, sendo: Vasco, Simeão, Fredo e Domingos, sempre caçando rixa, todos do tipo “cerca de lá, não deixa escapá!”... Consta que, nos ambos dois casos tudo se acalmou com o uso duma pasta e de um talco cheirando a bom-senso e algum dinheiro... Mas só depois que entrou na trama o nego Barduíno Patrício, chamado lá na Cangalheira, garimpeiro por vadiagem, amante do caudaloso córgo Bom Jesus... Esse um sim: hábil na feitança de pazes e coviteiro traquejado!
                        Mas justo agora, no caso de seu irmão Sifirino, Barduíno não pode intervir e nem aceita resolver. O caldo engrossou demais... E o pior foi o “serviço de alto-falante” do Estábulo-Prisão ter mexido nesse assunto tabu, revolvendo as sementes da Maledicência por germinação... Agora é tarde... Ninguém pensou em chamar de volta o Justo pra ajudar. Sofriam ainda os resquícios da passagem da Coluna Capetosa por Coivaras, pois isso se deu semanas depois da visita infernal do Demônio Abigor...
                        E Barduíno se pergunta: “Houve mesmo a danada da Carta Anônima?”...) Ninguém garante... Mas sabem: nem precisava não... A mulher, satisfeita em machos, abusada, até embelezava! Começou a sonhar feito boba, descobertos os gozos inauditos... Naturalmente achando muito bom o marido estar sempre no longe, pro fácil das coisas... Facilitava até, nesse devaneio de perdida...  Se empoava feito meretriz, mergulhada em ruges e tintas... Mas porém, quando era véspera dele vim, novamente banhava seus poros nas águas do recato... E se fechava em sisudices...
                        Quem sabe dessas coisas em detalhes até auditivos é o muleque Minduim que esteve de pouso algumas vezes na casa onde os pombos se cruzam... Ele ouvia longos oaristos, seguidos dos ninfozurros da mulherégua no quarto vizinho ao seu... Acaso poderá ele afirmar, por exemplo, que nunca houve, jamais, nenhuma Carta Anônima?
                        Mas, um dia Suzana deu um passo em falso! (O que faltava para completar a longa caminhada duma Carta Anônima?...)  Sem condições, parece, de medir as conseqüências de seus atos, dirigiu-se até ao salão do barbeiro local... Não havendo frequês, sentou-se na cadeira e pediu um corte curto, entrando em longas exigências, isso tudo diante dos olhos arregalados e dos ouvidos estonteados dum estupefato Zico Paulino, aturdido em inacreditâncias.  Zonzão devido à cascata de sugestões da mulher, o mestre concordou consigo mesmo: nunca antes acontecera, em nenhum lugar do Mundo, de uma mulher de fazendeiro, abastado coronel, de grande séquito, potentado em armas, de tanta rudeza e gravidade, vim se sentar numa cadeira surrada, estofos amassados como a sua! (Isso são coisas de leviana fazer, e muito mesmo assim nas escondidas, só alguma...)
                        A custo recobrou a calma e foi executando, já tranqüilo, o corte que a mulher ia exigindo. Chamou três vizinhos pra servirem de testemunhas, em caso de precisão, e por pura garantia.  Encomendou caridades, rezas muitas.  Pediu “remissão” em Jerusalém, no mesmo dia, através duma chorosa carta que recheou de gordo donativo e entregou ao pároco local. Semana seguinte, com as filhas, Susana foi pra roça, onde os boatos, alados, haviam-na precedido em vários dias...
                        Tão logo apurou as vistas, confirmando a ignomínia, a tal “gota que entorna o caldo”, o marido a arrancou da montaria e espancou-a selvagemente, diante de todos, a poder de cabo de cabresto fazendo uso dum afamado rabo-de-tatu.  Foi a primeira e a última vez!
                        No mesmo dia os dois voltavam pra Coivaras, em cavalos descansados. Entrou no salão do Zico com cara de nenhum amigo.  Arrastou a mulher e sentou-a na cadeira antigamente almofadada...
                        - Você não fez direito o trabalho, Paulino!  Vim trazer procê acabá! - foi dizendo o Coronel.  E como o barbeiro custasse a entender e não o atendesse, sacou dum garruchão, impondo pânico.  Dois fregueses: um na espera e o outro ainda vestindo a toalha típica que usava quando foi arrancado do assento pelas mãos insolentes do fazendeiro ao chegar, fugiram espavoridos, enquanto nas janelas da vizinhança apontavam cabeças curiosas, inundando a rua de indagações...
                        -Como quisé, seu Coroné!  A dona Sinhá qué se assentá pru favor?
                        Quando saíram novamente à rua já não eram marido e mulher.  Decisão do Thomé...  À proximidade do casal, as cabeças iam-se encolhendo para dentro das casas, como sonolentas tartarugas... Após sua passagem, retornavam às janelas, para a visão posterior da dupla.
                        Ele não a deixava cobrir o rosto.  Era pra ela ficar de cabeça alta, queixo erguido, enquanto ia ouvindo, numa voz forjada em ódios, sua sentença metálica:  “Vamo vê se o embelêgo que fez ocê perdê a vergonha ainda lhe qué depois disso!”
                        Dizem alguns que ela deixou a casa e as meninas em troca da própria vida... Outros, que foi tudo um golpe tramado entre o Sifirino e o Thomé, pra esse se livrar da mulher por causa de outra! Mas a dúvida inda hoje persiste.  Uma, porque o Sifirino hoje não está por perto pra contar a Verdadeira História, eis que, fugido ou não, nunca mais apareceu e nem deu notícias... E outra: que ela ainda esculachou com o homem em casa, como alguns vizinhos puderam ouvir, xingando-o de cornudo, guampenho, mijo-mole e outros adjetivos, escarlates na pronúncia e negros na audição!
                        O Sifirino ainda teimou algum tempo, permanecendo como mosca numa teia de ódios raciais...  Depois, não se sabe porque, resolveu.  Sabe-se apenas que antes de se evaporar, teve uma conversa particular com uma sombra que, vindo exclusivamente para isso, chegou e partiu do arraial numa mesma noite...
                        Enquanto Sifirino partia, sem dar despedidas e sem destino, em Taiobaçu, longe daqui, já há dias, estava Suzana, convenientemente instalada, doente de chorar... (Será que não houve sempre uma casa montada esperando por ela???) E esse um desprezo geral e comum, já preparado de antemão, que a antedecesse ali? Ah! O lugar era como uma geada: queimava a gente por dentro, de tão frio por fora!
                        Seu calvário começara no dia do barbeiro... De fato, ao sair dali calva, cabeça raspada por uma navalha que não lhe perdoou ao menos os supercílios,   ela parecia um raro manequim vivente... O espetáculo de seu opróbio pelas ruas de Coivaras, de tão cru e triste, só se igualou em sofrimento aos lamentos e urros do dia de sua partida...
                        Ela pintou a carvão fictícias sobrancelhas: inutilmente... Os olhos encovados não suportavam olhar para os fios despontando vagarosos no couro capilar...
                        Thomé lhe prometeu sustento des’que procedesse com o devido respeito: caso contrário, “entrasse na vida” pra se manter... 
                        Logo ela descobriu a fonte de seu recente e súbito rejuvenescimento: seria mãe! Sim: mais essa desgraça, após deixarem-na atirada à própria desdita...  Então, mais depressa ela foi se definhando... Não suportando a vergonha dessa gravidez inesperada e gradativamente visível, a ausência das filhas, a solidão e o isolamento, morreu em desgosto, precocemente envelhecida, sem nunca mais ter visto suas crianças nem ao menos de longe e sem ao menos conhecer o feto mulato de cinco meses que levou consigo para o túmulo...
                        Menino Zote, pernalonga como ele só, nunca mais esqueceu a Tia, irmã de sua mãe, careca daquele jeito... Fica enfezado só de pensar nela saindo embarcada, cabisbaixa, em pranto incontido, coifa marrom na cabeça...  Até hoje costuma ranhetar se lhe falam nesse assunto...


SEGUNDA PARTE

                         
                        Enquanto bate picareta no monchão de cascalhos, o mulato Sifirino Patrício, ou Patrício Puto -conforme era tratado pela confraria dos traídos, ou ainda Sifirino Jegue ou Patrício Jumento, assim conhecido no geral da marafonagem, pensa longínquas recordações... É um negro de boa aparência, que ainda não acredita na boa estrela que possui...  Hoje mora mesmo talvez no Piauí? Ou em Sacramento, ou em Dourados? Em qualquer lugar, não importa: sozinho, incógnito e arredio! Não proseia, desconfia de todo-o-mundo e reza com devoção pedindo intercessão às Almas...  Vive no remorso e no medo.  Pudesse, revirava o tempo dos avessos!  Deslembrava o maldito dia que deu trela praquela mulher errada...  Ele, logo ele, filho duma Nega Cida, qualquer, sem nome e sem pai...  Sempre lhe disseram que ele foi feito no mato, com a ajuda dum Ismael Bueno ainda rapaz...  Fosse verdade, era irmão-torto e mano-bastardo desse Coronel Thomé que até chegou a estimá-lo de verdade um dia...
                        Assim que Dona Suzana veio pro arraial, muitas vezes foi chamado: ora pruma limpeza de horta, ora pruma rachação de lenha, ou uma capina, e pormenores jardineirísticos...  Mas quando isso assim começou e ele era solicitado pra esses pequenos serviços hortaliços e caseiros, não imaginava onde aquilo ia parar! Logo virou pau-pra-toda-obra do Coronel na cidade.  Buscava trens na roça, levava encomendas, Coronel confiava pagamentos, enfim, tornou-se da cozinha de dona Suzana...
                        Quando sua patroa um dia o encontrou desafogando líquidas necessidades atrás da casinha da horta, e hipnotizou-se à visão de seu avantajado pênis, ele se perturbou um pouco e o susto e a vergonha fizeram-no arredio por uns tempos...  Mas ela fez tudo para demonstrar completo desdém pelo episódio, o que o deixou reconfortado.  Ela, percebendo, logo o pôs à vontade, parecendo ter esquecido tudo...
                        Quando as coisas voltaram ao normal, ela começou a lhe fazer confidências de foro íntimo e ele então notou que já era tarde para recuar. Estava completamente enrabichado pela patroa!  Daí a conhecer a fogosa mulher por dentro, foi um passo!  Como se fosse hoje, lembra o colorido das sensações...  Nem acredita que aquilo um dia aconteceu com ele...
                        ... Foi numa noite de temporal...  Nem precisou bater: a porta da cozinha estava apenas na tramela bamba. Ele entrou, roupas encharcadas.  Ela, sem dizer palavras, levou-o até o quarto de banhos para que tirasse as vestes molhadas. Buscou - tudo num silêncio de limbo, passadas macias uma toalha seca, felpuda, perfumada, aconchegante em fragâncias...  Entregou-lhe também um pijamão de fino algodão e mandou que o vestisse!
                        (Nem acreditava: ou não estava sonhando mesmo? A sinhá do Coronel, sua  - seria mesmo verdade? -  meia-cunhada, trinta anos se muito, moça prendada, virtuosa madona, chamando-o para o próprio quarto, a ele, para a alcova morna e fofa duma cama assim, leito de jacarandá, com sua grade torneada, a colcha de chamalote e ramagens de flores de ouro, forrada de tafetá amarelo tostado, arrematada por linda franja de ouro fino...  Nem pode crer ter entrado naquele céu, ter cruzado aquelas cortinas de tafetá azul, com seu sobrecéu franjado de retrozes vermelhos...  Ter penetrado no recôndito daquele quarto, decorado a posição de cada peça, cada ornamento...  Ali, o grande espelho, de duas portas.  Em cima de uma das duas arcas que servem de guarda-roupa, um cofrezinho chapeado de ferro, acolá o bufete, as cadeiras forradas, um catre, e em algum lugar, uma escova de cabelos, com cabo de marfim...)
                        Depois que ele entra, ela fecha a porta.  Tremem visivelmente ambos.  Depois dos furtivos olhares trocados de relance, o primeiro mergulho entre pupilas, a primeira conversa de cúmplices, o selo no pacto, a partilha na culpa... No tom da prosa, um tremor de promessas...
                        -O que você anda querendo comigo, Sifirino? Pode falar, estamos sozinhos! - ela iniciou, com trêmula voz, tentando impostar autoridade no timbre que traía sua ansiedade...  Ele mal conseguiu balbuciar:- “Bem é que sinhá me olha dum jeito...”
                        -Mas é você quem sempre me olha querendo me engulir! Já reparei: quando me olha, parece que você está me vendo sem roupa.  Por que? Faz tempo reparo nesse seu desrecato! Seus olhos me perseguem, me incendeiam com fagulhas de desejo! - diz ela, enquanto vem se aproximando dele...
                        O mulato, que já entendeu, replica, entrando no jogo dela: “O fato é que sinhá tem um corpo muito bonito, e suas roupas finas sempre rearçam sua fermusura!”
                        -Mas você é casado, já tem família, uma mulher, porque te interesso tanto?
                        Aí ele prossegue, já desenvolto, senhor de avanços e botes certeiros: “É diferente: sinhá é especial, cheia dessas vertudes que homem apreceia!”
                        -Você não tem cisma de ficar comigo? Não tem receio do coronel? (E tudo o que ela dizia tinha um duplo sentido...)  Estamos aqui sozinhos, e se ele chegar? - (Quem lhe diz isso é uma fêmea arfante, enquanto chega a uma perigosa distância, uma proximidade explosiva, onde calores contrários se atraem...)
                        Ele então balbucia, já vencido pelos perfumes e disposto ao corpo-a-corpo: “Quando sinhá disse que era pra mim vim, nem quis acreditar!”
                        -Achei que já era hora pra essa nossa conversa, Sifirino...
                        -Mas e o coronel?
                        -Arre! Sempre alega canseira: não dá no couro! Só pensa em serviço, gado, lavoura...  Além de bruto, nunca me deu carinho.  Sou de carne, tenho ânsias, sou nova, Sifirino!
                        Aí vão se encostando...  Ele nota: por baixo da camisola rendada, (que ela já se despiu do resplandescente vestido debruado em veludo verde e com botões de ouro) as roupas íntimas, mínimas...  Os seios ofegantes levantando de mansinho o colo da roupa... Receando findar o sonho, abraça-a com força, repentinamente.  Sente-lhe a respiração entrecortada em vibração...  E ainda mais forte a aperta quando sente os braços dela rodeando-o timidamente... “Minha coisa gostosa!”- sussurra então, automaticamente, o macho...
                        Enquanto ouve essas palavras (que na devida hora têm uma conotação maior que aqui agora nesse papel) ela, mansa como uma gata, começa a roçar seu quadril morno e volumoso de encontro ao membro rijo que já adivinha e sente, pulsante, ainda que sob as vestes dele... Entrementes, treme convulsivamente, parecendo derreter-se no prazer daquele afago... Ameaça deixá-lo, empurrando-o pelos ombros, mas sem convicção... É tarde para recuos... 
                        Os braços dele a enlaçam pela cintura e suas mãos começam a apalpar-lhe as nádegas com força, dolorosamente. Suas coxas são arranhadas e alisadas com volúpia e ela se agarra ao pescoço másculo, procurando esconder o rosto...
                        Ele tem que arriar o pijama! Enquanto com o braço esquerdo a segura com força junto a seu corpo, com a destra, sofregamente, levanta sua camisola até o peito, prendendo-a com o queixo... Ali mesmo, de pé, ligeiramente curvado, alucinadamente abaixa e arranca-lhe a rendada e minúscula calcinha, e envagina-lhe o membro entre as coxas em meio a murmúrios aveludados...
                        Sentindo-se como uma jóquei sobre o assim cavalo, cavalgando o próprio prazer, ela, agarrada ao pescoço musculoso, enlaça-lhe a cintura com as pernas e as cruza às costas dele... Dizendo-lhe ufos e ais, recebe, em seu recôndito, a presença palpitante de sua trintacentimétrica aparelhagem genital... Logo, em gemidos sensuais, chora de prazer inúmeras vezes, baixíssimo, ao pé de seu ouvido, numa insofismável confirmação de sua necessidade feminina...  Ao que o crioulo renova o jogo de ancas, recomeçando um novo tempo de gozo infindo para ambos, até a total e conjunta exaustão...
                        Sim: essa primeira vez tão a contento exigiu inúmeras e intermináveis reprises... E de tal forma ele lhe era inferior na casta e na sensualidade que ela dispensou suas carícias preliminares.  “Não precisa disso Sifirino.  A gente acerta porque precisa. Mas tenho vergonha do que ando fazendo. Vamos ao que interessa, tá?”...  Tudo passou a ser um negócio.  Depois lhe disse que queria ser tratada como uma égua, que o desejo que ela assim saciava, não carecia de prelúdios, pois o objeto da união deles estava tão somente na mútua satisfação, no alívio da tensão incontrolável que geravam um no outro...  Era um acordo tácito...  Ele, de seu lado, enormemente dotado, suprindo com vantagem o raquítico e homeopático coronel.  Ela, se sua parte, uterômana insaciável, satisfazia-lhe a olímpica jeguice juramentada!...
                        Hoje, ao malhar sua ferramenta no solo rochoso desse garimpo, o consolo de Patrício é saber que nunca houve amor nisso tudo.  Ali não restou vestígios de querer bem, carinho, coisas bobas... Era só mesmo seus delírios, desejos alucinados, paixão desenfreada...  Apenas um feroz e movimentado jogo animal, instintivo... Desabafo íntimo em irrecatadas relações...
                        Aí veio a tal Carta-Anônima, conforme diziam...  Os zuns-zuns. O alerta. O cerco... A fuga! Sim: ali agora, picareta faiscando no cascalhão da gruna, se consome em remorsos...  Se não fugisse, era um homem morto!  Largou família, dívidas, haveres, uma boiadinha, animais, até uma filha em véspera de casório...  E a De-Lurde? A boa esposa nunca desconfiou desse caso! Ela pediu que mandasse notícias, queria vim junto... (Como atendê-la?) Agora, já faz quanto que tudo isso foi engulido pelo tempo?...
                        Naqueles dias, ainda pra mais ensangüentar o lugarinho de Coivaras, Josino Músico foi morto numa estranha briga defrente sua oficina de alfaiate...  Deixava viúva a jovem Maria Adília com uma filha de colo!
                        Quando o coió, sem desconfiar de nada, tentou apartar os oponentes que digladiavam diante de seu estabelecimento, os mútuos desafetos, conhecidos seus, cégos de ódio, porém esquecendo as diferenças que originaram a luta, voltando-se contra ele desferiram-lhe, no mínimo e no total, dez certeiros e mortais pontaços...
                        Por que? Por quanto? Por quem?
                        A resposta quanto ao motivo e ao mandante não tardou a surgir... Não em denúncias - que certos homens permaneceram caludos até o jazigo!- mas em fatos decorrentes e posteriores...
                        Eis que Thomé não teve paciência para esperar a própria viuvez.  E logo que expulsou Suzana, trouxe para dentro de sua casa, a viúva do músico, a quem queria “proteger”...
                        Além da própria filha, que não era do Músico, mas do jornalista Moraes, Adília passou a tratar e zelar também das três meninas que Suzana deixou pequenas...  Assim que fundiu essa nova família, Thomé, escaldado, levou todos para a fazenda...
                        Lá estava, esperando, miúdo  mas ciente, saudoso porém calado, mudado em patroas, o Minduim, que assistiu a tudo quieto em seu canto, imerso em sua insignificância, mas gravando tudo tudo na prodigiosa memória para um dia, quando tivesse seus oitenta anos, me contar tudo direitinho, tin-tim por tin-tim...

a caçada


                        Eram três peritos no assunto. Levando como cozinheiro o experimentado Chico Pulegá (lhe faltava o esquerdo), rumavam para dias de tentação e calejo serrano...
                        Izídio Cassana vai levando ovos frescos em conserva, que, como garantiu Nurvalina Simão, iam ficar sempre como novos, conservando as propriedades nutritivas até daí uns seis meses, no mínimo.  O sujeito bruto, de largos e carepentos ombros, chegou a desconfiar dessa tamanha “conservação”, mas, inda no ar, sua dúvida foi logo massacrada pela sapiência de Argilinha Penha, meia-avó de todo o bando: “É ovo posto no mato!  Não conheceram calor de ninho choco, e inda por cima vão na barrica mágica!”...  E Borozina Ranhel cuidava do segredo da grande duração: no barrilzinho, além das 30 dúzias de ovos, ia uma agüica de cal: 25 gramas de cal para cada dois litros de uma água que fora fervida e deixada esfriar naturalmente até a temperatura ambiente!
                        Rafael Inhá, largado de ser magarefe, bom na peixeira, apreciador duma bovina carne crua, não festejou os ovos.  Agradava-lhe a lembrança da autorização do velho Felipe: “Gado de talho podem abater pro gasto!”  E as terras dele iam até longes serras...  Porventura acabasse no corte alguma alheia rês, dono viesse na calma: pagamento à vista.  Fora de acordo, se malcriado o reclamo, a desculpa ia no pé duma bala!
                        Ao passarem pelo casebre de Alanina Cardoso, viúva sem arrimo, ali Capelo Sovizim deixou recurso duns cobres, ofereceu bênção pro filho bastardo e, ao sair, abraçou na varanda a mulher que protegia.  Sem se importar com a presença montada dos outros três, apertou-lhe as nádegas em massagens acariciantes, num cabritismo próprio da raça e, roçando-lhe todo o corpo, lascivamente a juntava em gestos e apertos massacrantes.  Ao se apartarem daí a minutos um filete úmido e visível lhe escorria pelo interior das calças e seu mastro, ávido e ereto, armava um circo na região da braguilha...  Afastou-se dali a custo!
                        Seguiram grampeados num riacho, morrote acima; iam no sofisma: qualquer moita a carabina dum José Ribeiro vomitando calores...  Quantos dias? Até a política intervir...  Mas, no prevenido, levavam matula em mulas, e tudo de arrancho pruma necessária permanência... Tinham todos um encontro marcado...  A limpeza e a preservação da espécie o exigiam...  Seguiam atrás dum condenado disposto a tudo...                “O Ribeiro viram se embrenhando serra arriba, rumo da Bateinha...” - foi a deixa que um passante deixou cair à beira do caminho.  Adiante fizeram alto.  Combinaram futuridades. Quando já iam se separando, brilhou no céu sobre eles estranho estrondo e um tatu banguela, metade homem metade bicho, viram correndo em círculos concêntricos numa exata equidistância entre os quatro.  Persignaram-se sem ver! E todos se lembraram do “Treze de Maio”, nego-fraco-da-idéia que carregava na matula a forca com que matara o pai e a mãe...  Esse um se virava no que quisesse! Tinha “parte” ou era o próprio!  Corria atrás dos moleques lambendo os dois lados dum punhal com que ameaçava capá-los...  Era só xingar: “Treze-de-Maio”! e dar-no-pé!  Todos eles um dia haviam mexido com o coitado...  Que estranho agouro nesse tatu?  Um pebão catingudo com perna de gente?!  Deu risadas pra todos, balangou um rabinho entumescido e rebrilhou em novo estralo surdo, escafedendo no ar!...  Esse momento apantomântico lhes propiciou inúmeras conclusões adivinhatícias...  E foi revestida nessas certezas que a confraria de vilões, justiceiros de aluguel, especializada na rotineira militância da jagunçagem, cada um por seu lado, com pouso-de-encontro premarcado, cavalgou para o desconhecido...  (Apenas o Pulegá chegou até o comercinho do Indaiá, alagado por milhares de olhos-d’água, local onde, daí um mês, o cozinheiro, descendo a encosta, chegaria, estarrecido pelas acontecências, fraco, gasto pela amplitude de sua participação na caçada...)
                        Na primeira oportunidade, extremamente necessitado e a sós, Capelo, lúbrico, avesso às amenidades incorpóreas que antecedem os coitos românticos, descarregou seu desejo após ligeira masturbação.  Aliviado, tornou a montar, deixando atrás da moita uma poça de possíveis Capelinhos...
                        Já o Faé-Linhá havia torcido esquerdas.  Quebrou três morrotes:- colinas de cascalho e capim-agulha.  Cruzou uma boiada pastejante, fêz-se de forasteiro passante e chegou na fazenda do Menino Benon.  Recebido, enrolou pito esperando café.  Ressabiado, o velho Brechó Soleano forneceu pouca prosa.  Sem pressa, ainda assim nada conseguiu.  Nenhuma informação que o pusesse na dianteira, naquela busca encomendada...  Saindo dali, teimou de embicar serra acima, desvãos e degraus à queima-roupa.  Abismos, pura rocha, ele se torna logo um pedestre padecente, já o animal inservindo ante um possível “escorrega-lá-vão-dois”...  Às vezes, numa sombra e numa lapa, cascavéis em festa, chocalhos trêmulos...  Longe das presas, uma pressa.  Ele era já uma presa!...
                        Uma ave, um berro de bicos, ruflados, tudo o advertiu.  Mas os ruídos chegaram depois...  Duma plataforma rochosa, dali ponto mais alto, veio a estranha mancha negra, uma ave cacófaga!  Como estivesse desandada, mandou-lhe tremenda cusparada de merda podre em direção ao ouvido esquerdo e o fétido choque foi inevitável...  Quando quis passar a mão na sujeira, uma pedra levantou-se subitamente do chão e veio de encontro a seu rosto, com uma força proporcional ao peso de seu próprio corpo! Com o susto e a dor, tropeçou num desvão.  Ainda tentou agarrar-se a uma nuvem que passava, inocente...  Mas o mal-cheiro parece ter entranhado até sua medula e ele, leve, voa também.  Momentaneamente surdo, logo já pode ouvir todos os sons do mundo:- reunidos e de uma só vez! Nele, esse barulho fica tilintando como um cincerro por longos momentos, enquanto flutua, como pluma, em direção ao fundo do precipício...
                        A noite verte-se em goles sôfregos.  De-menhã, um boi-pastor se aproxima.  Lambe capim vermelho ali por perto, mal-e-mal disfarçando sua curiosidade.  Tendo a certeza, mesmo assim não aconselha as vacas a se aproximarem...  Rodeando-lhe o corpo, arfa as ventas tentando detectar no éter algum hálito emanado do cadáver...  Não consegue estabelecer nenhum elo.  Reprova o estrago e a sujeira espalhados naquela área tão perfeitamente pastável até então...
                        Uma vaquinha chita, chifres pequenos, tanto arredia como ventora, saindo da paveia cornosa pensou: “Gente de aningaparas... Algum miltívaro, perdido no andurrial da gente...” Outra, espácia e leitosa dama, após aproximar-se aos bufos, saindo da sombra de comado amarelinho, deixou escapar pelas pontas dos cornos, à visão do zebróide cambaio, uma reflexão desse naipe: “Parece ciosa formiga no trilho...  Tadinho, ele parecia se consagrar aos detalhes do preparo do próprio fim... Bah! Ofícios...”
                        Só daí a três dias, uma vitelinha castanha, toutiça degenerada, inaugurando puberdade, já a ponto de desovar seus ovinhos prum boi enxertar, teve capacidade para ponderar, à proximidade do morto já inchado e fedento: “Vomição me ataca se me aproximo. Olho daqui, longe do vurmoso. A varejeira verdolenga bebe satisfeita da escuma...  Stella Serena aumenta-lhe a interna pressão: poderá até explodir, como os sapos sob os casos.  Como não agora vem o Patrício Puto, abrir e aproveitar o couro, como faz com o gado?...”
                        Como milhares de outras, rodeando o corpo, um casal de tavãs em lua-de-mel, zumbindo cambaletontas, enrabadas, pousam-lhe perto dum roxo-tombo, na pele pálida, esverdeada, a custo safando-se das bicadas dos urubus famintos que predam o falecido, também coadjuvados por tatus-pebas ratões-do-banhado, e os vermes de ocasião...  Logo fartas, alçam vôo, se amando, coladas, na bizzzlíngua própria de apaixonadas moscas...
                        A essa altura Rafael Inhá ignorava que havia morrido e que estava servindo de pasto aos corvos, gambás, curiangos, corujões-de-orelha, térmitas e aos gusanos nascidos de sua própria podridão...  Nunca ficou sabendo que o balaço certeiro que lhe estourou tímpano, martelo, bigorna & miolos, partiu da ponta do cano da felobé marca jota-erre que já o esperava num nicho de rochas desde toda a eternidade...
                        José Ribeiro, caçado, aprumou, em dois dias, três serras pra diante e duas de banda, a oeste.  Estava, assim, logo ao lado, a poucos quilômetros, alguns abismos além somente...  Nada acontecesse, continuasse em sortes, mas acabando os trens de comer do bornal do Inhá, era obrigado a descer até a fazenda que ali fazia fumaça, prum café-e-bóia de fogão-de-lenha...  Certamente o dono, Cileno Avaré, não sabia ainda das novidades...  Conhecidos, não amigos.  Todos evitam o Avaré, desde a morte no terço...  Dizem que é meio-doido, um “cerca-de-lá” solteirão.  O perigo, com ele, é a faca que não pára na bainha...  Na briga besta que teve com o Fredo Godói naquele terço em Itajuhy, apenasmente por causa dum vinho arrematado de lanço-felipe, refuçou-lhe o bucho e os peitos com a ponta da peixeira! Entre blasfêmias deu-lhe uma bem gritada morte, antes de tornar a envaginar a arma.  Montou seu burro Sereno, também iconoclasta, que saiu peidando, espremido em barrigueiras...  Lenda?...  Fato?...
                        “Porque o pai não tira essa cambada do meu rastro?  Tenho muita munição mas eles não vai parar de vim...” -pensa ainda o Jota, antes de adormecer.
                        ...
                        (-Destranca a cara, ô primo - gritou-lhe o parente Ismael...
                        -Chegá, primo- Como vai  a Do Carmo? -retrucou o José, enquanto abria a porta para o outro.
                        -Vai-se tocando... O que é docêis tá bão?  Cadê o povo?
                        -Na casinha.  Sentá!  O que manda?
                        -Nada sério não.  Causo dos cobres da botina.  Agora estou precisano mesmo...
                        -Mas não tinha falado que não precisava vim cobrá mais, sô. Outro dia de-a-cavalo nós topemo, te falei que tava arrumando!
                        -Não ponho dúvida na sua palavra empenhada, primo.  Mas careço dos cobres!
                        O tom alteia-se.  Logo chegam as primas, afobadas: “Meninos, acabem com isso!”
                        -Esse desaforado tem coragem de vim me cobrar mais uma vez, mãe!!!
                        -Ô tia, o Izé sabe que preciso do dinheiro e não me paga, só vem com promessas, me levando de embrulho!
                        -Aquela merda de botina cheia de pregos!
                        -Depois que gastou não cabe reclamo! Comprou porque quis, agora paga!
                        -Pago quando quisé! - responde o Ribeiro, já colérico, e sai de cena...
                        -Pelamor de Deus, meninos cabem com confusão, cês me matam! -implora a pobre mãe...
                        Nisso, José chega de arma em punho, uma garruchinha trezentos e vinte... Atira pra cima, susto geral.  Após os dois disparos, a arminha não serve pra mais nada...  Mas as irmãs abafam o primo, pedem paciência, levam-no dalí.  Lá fora, no páteo, defronte a casa, tentam acalmá-lo. Chegam colonos, curiosos, e tudo acontece num torvelinho.  A faca! José não sabe como a branca arma dirigiu sua mão que acaba matando o primo! Amigos de pequenos! Moraram toda vida próximos...  Nos terreiros, unidos, vizinhos, os galos amiudavam misturados!... 
                        Agora é esse sonho só, vindo sempre, em qualquer cochilo... Coisas da consciência, danos do remorso...)
                        E todos são unânimes em afirmar: de todos os malfeitos, o de maior repercussão e conseqüências, causado pela passagem da Coluna Infernal de Abigor por Coivaras, foi esse assassinato ocorrido realmente, cuja história essa estória quer contar...

selmeliza


                        Pela inhaca o cavaleiro percebeu que se aproximava de algum parvo morador daquela região.  Era um cacará, gentinha bisbórria... Pensou: “Como dá gente suja e boba por aqui...  Efeito até hoje da Grande Maleita?...  Na realidade o bodum rescendia longe, denunciando a presença do inhenho mulambento...
                        -Oh! Olá, gente boa, sou amigo dos guritanos! - Gritou à guisa de saudação para o vazio negro da noite.
                        Pepé, adredemente bobo (como era comum àquela gente de entre-serra), porém tendo ouvido muito bem ecos de estampidos dias antes, fez-se também de resmunguento...  Num volapuque enrolou a língua, indecifravelmente, fazendo-se ainda mais imbecil...  Sabe da existência duma rixa entre homens por aquelas paragens desertas e íngremes...  Tinha visto outro homem chegando ao rancho de Selmeliza, horas antes...  Enquanto ganha tempo para fugir dum iminente fogo cruzado, surge-lhe na lâmpada-eureca da idéia, um brilho de maldade e morte!  Pode sim, sair dali vivo e ainda por cima se vingar do sujeito que lhe tomara a mulher no justo dia em que juntou coragem e dinheiro para se declarar...
                        Fanho de nascença, Pepé é conhecido de todos em Coivaras.  Mora fazendo vassouras e quando reúne porção de encher o lombo do burro, lá se vai pro arraial, puxando a montaria tornada em um Pégaso tupiniquim com asas de palha...  É esse mesmo que responde a saudação do outro:-
                        - O ‘ê ‘i o ‘inhor ‘é? - deflagrou, tentando perguntar o que o outro queria; e completou: “Já não chega um ‘i me atrapalou o dia!”- revelando seu sotaque inconfundível! Só aí o outro soube quem era! Entraram logo em prosas, conhecido e freguês que se encontram.  Aproveitou para acertar encomenda dumas vassouras que o outro ficou de levar pra ele, na cidade: “A gente tem hora se obriga a tratar, meu sinhô, mas porém a ‘umprir nem sempre!”-  respondeu o palerma-sofismante, entre risitos debochados...  O outro: “Tá bão, seu Pepé!  Mas tô querendo fazer uma visita pruma moça ali do alto, o que ocê me conta? Quem é esse que já te atrapalhou o dia?”
                        Fazendo de desentendido (dando tempo para a completa acomodação do primeiro freguês da moça) ele pediu fumo e mandou o outro apear. Acomodado sobre algumas pedras à beira do caminho, sob uma lua linda e larga, o esperto aleijado começou a contar pela milionésima vez a história que todos sabiam de cor: (O outro não faz conta, sabe, - como todo  mundo - que a lua influi no comportamento dos idiotas...)
                        “Era a ‘onta d’eu deitá vinha o danado murganho pra me roê o dedão do pé de ‘á! - e apontou a perna direita. Depois continuou - e ninguém interrompesse o relato do manco!- “um dia enri o sa’o  ‘om  a’ilo: peguei a ‘artucheira, ‘olo’ei um ‘artucho bem rêio, purrei o ‘ão e fi’ei na espera.  Derrei a lamparina a’êsa em’ima da mesa, no ‘anto do ‘uarto.  Tinha ‘ortado o pavio prele fi’á mais ‘urto e o lume mais pe’eno.  Lá uma hora o ratinho veio...
                        (Aí todos ficam sabendo, horas depois, que, com lentidão milimetrada ele arrastou em rumo do peito arfante o gatilho da espingarda! Em seguida ouviu seu próprio grito, logo após o estrondo da detonação.  Lá diante, pregados ao reboco de estrume da parede de adobe, graças à insistência das pequenas bolotas de chumbo, lado a lado, irmãmente, além do camundongo falecido, os cinco dedos de seu destro pé, que também foram arrancados pela força de impacto da carga do cartucho vinte e oito.  Questão de erro ou desvio de trajetória?...  Aí, quando tudo começou a doer de verdade, ele compreendeu o ocorrido e desmaiou. Quando chegou ao povoado, amarrado em trapos, tinha apenas o sangue de respirar.  A mula parou em frente à Cadeia, habituada por força dos inúmeros pernoites à espera do dono.  Um praça socorreu, enrolou mais panos naquele toco de pé e correu com ele para a farmácia.
                        -Hoje eu não posso mais trabaiá  ‘omo inhantes, nem posso possuir uma arma! - termina seu relato o capenga...
                        (Sim, hoje você é o Pepé-cai-à-toa! Você é o Pepé, o-que-não-pára-direito-em-pé! - pensa seu interlocutor, impaciente, ironizando mentalmente o outro...)
                        Sim: sem a extremidade terminal daquele membro inferior, o manquitola custa a se equilibrar, mesmo com a ajuda do bordão de sucupira, cajado que não larga para nada e usa como arma quando se faz necessário... Na vila, às vezes, finge perseguir a meninada, pra terror dos pequenos que zombam dele, como zombavam do Treze-de-Maio...  Mas ninguém sabe:- ele apenas interpreta um personagem, cria um tipo que na realidade nada tem a ver com ele! É uma caricatura com que espera, na ironia, devolver a zombaria dos outros!
                        Mas ali, agora, diante da insistência do outro, perguntas impacientes, finge crescer-se numa sufusão de ódio: grita imprecações, blasfêmias, brandindo o punho em direção ao barraco da moça, contra um sujeito que o teria expulso de lá, para uma noite de rendevú!...  Assim, fingindo desconhecer destinos, o esperto crioulo lampinho usa o instinto com que a natureza lhe compensou um pouco o defeito no andar.
                        Agora deu o ponto! (Era ósga viva! Naquele dia chegara até a contar com o ovo no ‘u da galinha, ‘aralho! Deu nisso! - Pepé, antigo morador na região sempre viveu rondando a casa da moça buliçosa, sem nunca reunir coragem suficiente para chegar e pedir o que queria dela...)  Agora quer matar dois porretes com uma coelhada só!  Na espreita havia assistido a chegada do primeiro freguês!  Um trolha!  O filho-da-puta, enzampa,  veio comer o que era dele!  Enfim avisa, disfarçadamente, respondendo enviezadamente a insistente pergunta do outro:  “Tá lá, um home tá ‘um ela! Dianta ir não, ‘Elmelise já arranchou um, né... Hé, héhé...  Disgreta de azar, seu moço ...Hé, hé...”
                        Se afasta do homem de capa preta, pensando no que pode resultar esse seu gesto de delação...  Ademais, prum assim, o aumento do opróbio não faz mal: “o que abunda não perdujica”!...  Mas não vai pra muito longe não. Queda-se à beira dum regato vagaroso, faiscando à poeira do luar.  Ali fica esperando pra ver, clipsorque, na emoção ansiosa.
                        O bodão abrutalhado havia chegado com muita desconfiança, a moça notou.  Era freguês raro, de poucas passagens e pousos, e ela não entendeu a preocupação dele em revistar seu casebre... Ali, no usual, era só ela, zeladora por voto e devoção daquela capela de Joana D’Arc, esquecida no meio da serrania.  Torrava farinha pros vizinhos.  Ajudava na lida as mulheres de resguardo.  Servia a solteiros e casados.  Teve até mãe: mas um raio, que a antena do bambuzeiro trouxe pra horta e explodiu à frente da velha, foi o bastante para estourar-lhe o chaguento coração...  Nunca teve ilusão de casamento.  Desde muito nova e já sem pai, sofreu duras abordagens no doméstico serviço a terceiros.  Começaram a lamber seus peitos, nem bem despontaram no busto queimado de menina campestre...  Mexeram em suas vergonhas bem antes de verter ovinhos sem fecundação...  Dar-se, então, hoje era o de menos.  Procurava viver, ter o que comer, com quem conversar, sentir-se gente... Habituada à solidão daqueles ermos, vizinhos raros, recebia alegre os viajantes.  Aquele um ali, agora, era já conhecido... Caso especial... Pra ele e no escuro breu que anula timidez, ela é pra qualquer serviço...  Mas hoje ele quer ao menos uma luzinha.  Ela não aceita, ele insiste... Lamparina fica acesa. Pode ser vulgar, mas foi assim que tudo aconteceu: ele lambia-lhe, em determinado momento, o sexo, com ganância, a língua áspera dos fumos fortes da vida, curtida nas malaguetas do costume, cara lambuzada em seu perfumoso unto vaginal... Imitavam, no conjunto, uma carta de baralho, exóticas figuras estranhamente barbadas...  Ela, contorcendo-se na delícia daquela carícia incomum, também afogava a face em sua genitália, cega em sorver-lhe o leite, cócegas alucinantes no nariz achatado de encontro ao cabeloso púbis sua sucção indo até a raiz do alentado membro...
                        Estava semiscuro, apesar da luzinha, e porisso ela não viu direito.  A ele, contudo, pareceu ser um Bizorrão, ou Manganga Rajada. Mais praquele, pois essa se guarda num oco quando tudo escurece...  Ele não reparou direito porque estava concentrado no traquejo lingual.   E como ela lhe cavalgasse o tórax como tarimbado jóquei, deixando à mostra um zerinho rosado, às vezes ele, no turbilhão, também o roçava com a língua, ensandecendo-a de mórbida paixão...  Foi, pois, no exato momento duma dessa linguadas, quando pra ele já vinha chegando de leve, mas forte, claramente perceptível, do fundo do ardor da carne em ascese, a final explosão de êxtase, sem querer ele engoliu o estranho inseto-talvez-Bizorrão, que lhe entrou pela boca espumante sem ser convidado...
                        Ora, o escarabéu, dotado de uma broca especial de altíssima rotação, perfurou-lhe a parte posterior da garganta enquanto esfacelava tudo à sua passagem, empurrando-lhe de volta o grito de espanto que ficou espremido na medula espinhal partida em duas!  E o calor emanado da operação destrutiva daquele ser zumbente foi insuportável: queimou, à passagem, deixando retorcidamente calcinados, os delicados pêlos da zona genital da moça Selmeliza...
                        A menina mulher, antes de desmaiar de susto, num átimo, pôde notar que ao sair como um ser galático pelo escape dos gases de propulsão da estranha nave donde desembarcou outro Bizorrão, (que completava o casal?) no meio duma nuvem de fumo esverdeado-lodo, fez um estardalhaço ensurdecedor.  Mesmo em meio à balbúrdia que os dois seres extraterrenos fizeram ao ver-se próximos, ela notou.  Viu o segundo escaravelho explodir em um líquido rubro e penetrar como uma verruma no queixo do homem ainda colado à sua vulva...  Devido à violência do impacto, a mandíbula dele deslocou-se num sorriso desconcertante...  Fragmentando-a em várias partes, a avezinha destruidora alojou-se numa formação óssea mais resistente...  Aí ela nada mais viu, desacordadamente.
                        Enquanto isso, sem nada perceber, todo lambuzado pelas antecedências de uma ejaculação que não chegou a haver, seu amante embarcou numa invisível carruagem que iniciava, carreada pelos insetos recém-acasalados, uma longa viagem de núpcias...
                        Nessa mesma funesta noite, em Coivaras, Gregório Tió lia o jornaleco “Royal Notícias”, onde anuncia a Farmácia local: “Chegou o melhor depurativo do sangue aprovado: Elixir Nogueira!, empregado com sucesso nas crystas, cancros venéreos, rachitismo, flores brancas, escrophulas, bouvas, corrimentos, gonorréas, afecções syphilíticas, dores no peito, latejamento das artérias e normalmente em todas as moléstias do sangue!”...  Já noutro canto do semanário é anunciado uma racha de foot-ball às 17 horas “deste domingo”, no club Olavo Bilac, prometendo ser animadíssimo, entre o team verde e os vermelhos...
                        “Braulino Thinoret de Oliveira, octagenário tronco dos Oliveiras, despediu-se do mundo dos vivos.  Procedente do Garimpo das Canoas, aqui chega o Moço Jisóe D’Almeida, trazendo lembranças a todos, da parte do Major Venâncio Antonio Vivente, seu avô e abastado fazendeiro daquela próspera região...  De Estrella do Sul, onde reside, acha-se entre nós o distincto jovem Manoel Venâncio Lemos.  De Três Corações do Rio Verde, onde esteve a negócios, já regressou Oraciano Covas...”
                        A reação do leitor a este último informe foi imediata: mãos trêmulas, grossas lentes pendentes sobre o nariz aquilino, solta lá um “Pelos culhões de Homero! Oraciano em Rio Verde? Fazer o quê lá?”...
                        As dúvidas cabiam.  O velho que lia sabia: Oraciano, Capataz-Número-Um de Felipe Bueno, não fora comprar boiada, - os tais “negócios”-, nessa época, tão longe, em plena seca! “Fosse em véspera das águas, tá certo...  Mas nessa surdina em que se foi...”- concluía, no tumulto das idéias que o assaltaram...  Da dúvida à certeza, demorou a exata conta dum golão de pinga.  Resolveu-se: “Casimiro precisa saber disso e já!”
                        Ao saber das conclusões de Gregório Tió, o velho não titubeou. Logo manda recado ao encontro do filho, José Ribeiro, já vítima da caçada nas grimpas da serra, enquanto despacha bloqueios e semeia tocaias por todos os caminhos...
                        Na tarde do dia seguinte,  o pombo-correio retornou. Trouxe notícia da primeira morte resultante da perseguição ao José... “O Izé está intangível.  Desconfia de recados. Não ouve nada, não enxerga conhecidos  nem bandeira branca. Também pode não ser ele, pois se for apurou mesmo a pontaria...  Quase mata meu companheiro Igilo Minguante aqui!”  (O ferido sorriu mansinho, que o mais rir faria doer o curativo que lhe havia no lugar do lóbulo da orelha direita, arrancado por um assovio de carabina...)  E prosseguiu:  “Na subida achemo, uns urubu em festa, os restos quase de ninguém conhecê do Rafael Inhá, inda tendo uma estranha expressão de gado no desmazelo cadavérico.  Impressão minha de boiadeiro, seu Casimiro... E na volta, rodeano, nós achemo essa moça Selmeliza que deixemo na pensão da Beá, mais morta que viva, conversando borracha e vendo sombração à toa...”
                        Só uma semana depois a moça pôde falar de maneira compreensível, femeamente morrendo de susto, magoada em medos, pés inda inchados, lacerados das pedras serrís, isto assim contando deitada em tremores nos lençóis imaculados da cama caridosa dum dos quartos perfumados da pensão familiar de Joana Beá...  Apesar da fragrância da alfazema, e de toda a alvura do leito, a moça delira negros pesadelos, altas febres.  Um bandido a persegue, gargalhando.  Logo se torna muitos, uma chusma deles, cínicos, lhe apontando línguas fálicas, entumescidas, ávidas...  São soturnos sonhos: ali sempre a corja de birbantes a alcançando, maus, manuseando grossos falos, perversamente irônicos...  Tudo suores, berros, horrores que lentamente vão impregnando a casa que aí se imanta de malefícios oníricos...
                        Quando dentre gritos seu pavor vai se arrefecendo, entrecortado de soluços, um fiozinho de voz, brota dela a notícia... Invadira a noite em trilhos decorados e rasgou o couro em quedas no caminho. Nuela, assim conseguiu fugir, pentelhos requeimados... Abaixo do sexo, no delírio inda vê, manchas de sangue alheio, dando de firmar as vistas, os olhos-surdos-berros muito abertos do Capelo Sovizim, um rosto sem boca, rebentado por estranhos estrondos e estalos de carabina impiedosa... Balas não a ferindo por tarimba e pontaria dum Jota Ribeiro que ela viu, de relance, diabólico, se rindo do malfeito produzido...

pulegá


                        Depois do ocorrido no ranchinho da moça sacristã, Jota Ribeiro enrareceu-se no meio daquelas serras demais. Algum ensalmo a fechar-lhe o corpo? Rodeou o Indaiá e voltou pra Santa Rita? Ou permanece enchoçado nalguma espelunca escondida entremorros?... Ou seu animal terá se estropiado e teve que sumir-se por razão de ter solto o enchapinado para se refazer? O acidentadíssimo terreno quase garantia isso!
                        Setembro estava no fim. Muita chuva. Um vento tristonho cantando invariavelmente estranhas canções de épocas futuras...
                        Desde a primeira ausência, no primeiro encontro onde a comitiva se constatou desfalcada, o cozinheiro Pulegá sabia ter sua sorte selada.  Depois, na segunda semana, outra baixa. Teve novamente que diminuir a medida da bóia: tantas canequinhas de arroz a menos, etc...
                        Naquela manhã, vinte seis dias depois que saíram do arraial, Izídio Cassana colocou no bornal uma dúzia e meia de ovos cozidos e partiu, rumo ao Palmital. Ninguém precisava dar notícias: sabia que seus camaradas de empreitada haviam se dado mal! Como, porque, quando, não lhe interessou saber...  Acariciou suas armas demoradamente, imaginando a cena da chegada do corpo do Ribeiro na casa do pai: “Seu Casimiro, o Isé foi falecido!  Cassana deu um fim nele!”... e no desespero, o reparo, a vingança, a dor no outro: “Oh! Deus, onde depositaram, quero vê, onde? Não, não pode, Jesus, Não posso, me tira também!” - esse, o preço da desforra que os Coronéis encomendaram...  Uma vez acertados os dinheiros previamente combinados, negócio terminado, gibeira cheia, se embora pra longe, por tempos, agarrar-se às fugas, afastar-se das legiões, das ativas enfuziladas...
                        Voltou grande rodeio por trás do caminho donde tinham vindo pra Batéia...  Encostou o animal por perto, desmontou e amarrou numa arvinha. Ficou na espreita muito tempo.  Depois, bate na porta dos fundos. Ouviu choros.  Alanina vem abrir, viuvamente magra...  Entrou com rapidez e tramelou.  Deu um longo abraço de conforto à reviúva.  Logo passou aos desacatos táteis.  Ela consentiu enlanguescida.  Dignidade de mulher?  Convinha esquecer...  A ela, já flagiciada, mais uma eiva não importa, tamanha a percisão! Presto, a paixão se alastra e se entregam com fúria selvagem ao jogo do amor...
                        Resolveu ficar de pouso.  Distribuiu a matula entre os meninos.  Todos comeram.  As crianças, esquálidas, enhos assustados...  Enjeridos à volta do pouco fogo, lenha escassa, fogão em ocaso...  Teve pena!  Mas mulher é aquele encavo onde se encaixa o que sobra do homem!... Entrou novamente com a fêmea numa sucessão de coitos que só terminou quando veio o engulho, já de madrugada...  Nem chegou a dormir!
                        (Na noite em que Zídio passou fornicando, Chico Pulegá pagou alguns pecados no purgatório que todos costumam passar aqui mesmo nessa vida... A noite ainda não caíra de todo, mas tinha uma certeza: ia fazer muito frio.  “Companheiro por certo resolveu pousar no mato” - pensou. Ele esteve pensando preparar pro dia seguinte um molho de mogango-de-veia, com pimenta-cumari e cebola.  Já tinha descascado alguns jequitupés e deixado de molho no coité maior.  No menor, feijão. Estava enjelhado, próximo ao foguinho, já enrolado em cobertas, quando ouviu um estranho pio.  Muito certo pra ser de passarim!
                        Arrulhos, um ruído à esquerda. Agarrando a carabina, levantou-se, se tornando um alvo fácil demais para o homem que o laçou certeiramente com um leve lacinho mateiro, desarmando-o e prostrando-o sobre pedras dolorosas.
                        Visitado assim pelo forasteiro, além duma surra inesquecível, dos vários dentes soltos e da judiação, ainda ficou sem as mulas e os víveres...
                        -Então é você, Pulegá, que trata do bucho dessa cachorrada que vieram pra morrer na minha mira? - disse o outro, enquanto, com um chute o dobrou pelo meio. “Preciso desses mantimentos! Ainda tem toicinho? Tô querendo...” - continuou o agressor, depois que ele parou de gemer e arfar.  Indicou-lhe o lugar, sobre o jirau.  Tonto de dor, viu quando o homem cortou algumas fatias de comprido. Ele o fez engoli-las uma a uma, salgadas e cruas...  O enchurrilho estava programado.  Ou a manteiga ia ajudar os vermes a acabarem com ele mais depressa?
                        Depois, o ladrão sádico pôs uma frigideira com banha pra ferver sobre o fogo reativado. Quando a gordura começou a frigir, fê-lo ajoelhar-se próximo às chamas.  Com os próprios membros envoltos em vários panos de proteção, tomou sua mão direita e introduziu-a por uns segundos no azeite fervente...  Incontrolavelmente urinou nas calças. Quando voltou a si, pouco recordava do que acontecera. Estava à beira duma poça, a mão inchada imersa numa água fria, corrente entre cascalhos, que só piorava a dor...  Tornou a desmaiar.)
                        Ao amanhecer, Izídio já estava longe da choça da Cardoso. Seu instinto o empurrava forte, de encontro ao contraforte.  Passaria por Itajuhy, de onde o Jota logicamente teria se afastado...  Achando pista, não se afobará.  Redobra cuidados. Cada frincha nas pedras pode ser a Greta da Morte...
                        Roda o dia inteiro... Nada!
                        Nenhuma notícia em roda da capela, junto àquele povinho asquerento e maleitoso...  Como armar engodo? Como propor uma isca, estabelecer um ardil?  Resolve ficar de pouso por ali, numa choça improvisada.  Trazem queijo, farinha com leite. Dorme. Quando o dia ainda é uma insinuação, ele parte...
                        Cavalga e cavalga.  Volta pro rancho, apertado em fomes, barriga em roncos. Desce trilhas, sobre serrinhas, cruza córgos, chega.  Cadê rancho? Cadê o Chico? Tudo abandonado...  Coisa do Ribeiro? Ressabiado, vasculha por longe... Examina o local, cercanias, tudo...  Nada...  Aproxima-se mais seguro.  Revista cada trem largado.  Vê o óleo entornado sobre o carvão que foi fogueira.  As mornas cinzas.  Mula nenhuma.  Pronde se foi o Pulegá?  E esse sangue nas pedras, pouco mas delator?  Nesse espólio, onde o Chico?...
                        Torna montar, com fome.  Volta pro Indaiá, atrás do de-comer, cabedal indispensável à perseguição.  Vai, famintamente condenado. 
                        (Quem assistiu foi o candeeiro, um moleque franzinho, calça curta e pé no chão! E também o carreiro, que grunhia sem parar com a junta-de-guia, num muxoxo murcho e roxo, alto, cabelos empastados de suor, gordura e poeira.  O carro rangia cantilenamente, sob toneladas de mandiocas...)
                        “A porteira tinha sido fechada um minuto antes de eu chegar.  Se o maldito menino tivesse me visto, teria esperado! Se eu tivesse galopeado mais, no costume, quem sabe teria passado junto com o carro?”...  Isso assim Izídio não chegou a pensar...
                        Quando encostou a montaria e foi levando a mão direita pra puxar o batente da cancela, veio um vento muito forte e derrepente, e começou a jogar cascalho pra cima, feito redemoinho-de-saci... Aí só viu quando o carro, os bois, o carreiro e o menino voaram pra cima, a serra e o caminho logo em seguida, tudo num turbilhão de trovões, relâmpagos e granizo que o jogou, pinchado da sela, com a nuca no chão.  Aí tudo virou uma venérea chaga, uma neve insólita...
                        O homem e o filho, quando escutam o estampido, param e se voltam.  Vêem o cavalo se empinar, jogando o homem ao solo.  Já é um corpo sem vida!  Assistem a saída do outro dentre os arbustos e sua aproximação para auferir pontaria...
                        Entre os olhos, logo acima do nariz, no comecinho da testa: foi dali que saiu o furacão que mexeu com as coisas do mundo.  Saiu foi do orifício feito à força, quando a passagem foi aberta pelo chumbo quente que Jota Ribeiro lhe ofereceu quase à queimabucha no embosco da moita.
                        Depois que o cavaleiro se foi, puxando uma besta cargueira, pai e filho se aproximaram, persignando-se. Colocaram o morto sobre a carga e se afastaram daquele lugar violento.
                        Chegam de-noitinha no Indaiá.  Contam o ocorrido muitas vezes.  Todos já previam tal desfecho para a caçada, depois que o Pulegá apareceu na véspera, mais morto do que vivo... Naquela mesma noite, em Coivaras, os Coronéis do Patrocínio amargaram o “fracasso” de sua malograda tentativa...
                        Agora tudo estava nas mãos do Vingador!

despedida



                        - O senhor vai sempre gostar assim tanto de mim? - diz a moça já se vestindo.  A aurora inda era apenas insinuação na aorta da manhã.  No céu do dia-a-vir, uma esteira de passos luminosos ia-se desvanecendo a partir do oriente...  O homem, inda deitado, acariciou-lhe as nádegas já revestidas de pudor mas nada respondeu.  A ela sempre pareceu que esse carinho primordial, de mão pastora, afastava os duendes da dúvida, parecendo convocar o sol...
                        - Aquela que eu gosto vai vim um dia assim como essa madrugada: bela e pálida.  Com uma boca assim de um sol tão pouco, com um baton de nuvens afins... - ele foi dizendo lentamente, como se estivesse pensando alto, olhos fixos num lugar longíguo atrás de muitas florestas...
                        - Mas tem de sê branca, padrinho? - seus olhos perguntaram com medo, grandemente negros e úmidos...
                        - Já eu não gosto de sonhar muito não, menina! Gosto mesmo é do aconchego, estar bem junto aos ossos de uma limpa dama... Sô é um andarino e o mais que eu sonho é me encravar assim entre as coxas duma fada como vancê, mesmo entre ramas de rendas, uma dona de muito freguês, não importa, junto aos suspiros rebocados de muitas camas...
                        Aí, pra ela, se libertam as amorfas fragrâncias que a noite reprime! As lágrimas passeiam por seus olhos, sugam semblantes, ensaiando alvoradas...  E o homem a seu lado, sem rosto nem ruga é um trejeito menino que repassa a madruga...  É o cocheiro real do carro da aurora que voa relâmpago levando sua lua...  Ela inda acalenta viver alguma coisa mais durável junto àquele homem... Um gnomo corisca.  Um silfo espirra.  Logo sua fuga termina num dia engasgado: ela é novamente a empregada da pensão: adeus princesa... Tudo clareia: renasce por todo lado o verde. A noite se foi: a menina se vai...
                        Numa horta vizinha um garnizé confere a hora e a confirma em melodia. Ainda rouco do noturno ensaio, outro travesso galo se põe em guarda: no afinado canto delimita seu império... Sabe: na serra das horas inda é manhã, mas por entre a macega, contudo, a neblina do sexo já navega...
                        Por perto, certa carroça abotoa-se a uma besta. Adiante, um cachorro espreguiça-se estalando o esqueleto e logo principia no ofício das pulgas... Um sino convida à missa. Uma beata passa apressada...  Um mugido em cada esquina, em cada piquete uma ordenha...
                        Da janela do quarto o homem tudo observa: vê que ainda está encroada a galinha que perdeu os patinhos... Porque fazer uma galinha chocar ovo de pata? Os felpudos, nem bem sairam da casca, aproximando-se dum curso d’água, nadaram pra longe, assustando a desesperada mãe...  Após muitos sobressaltos, já maiorzinhos, se foram, um a um, e não retornaram mais...
                        No quintal à esquerda, detrás de outra cerca velha, tapume de bambus rachados, mora um Nico Cesarim, tanto esquelético como fanático e evangélico... Esse Nico, que dizem ser filho do sossego e primo da preguiça, há poucos dias ganhara um papagaio goiano, falador, dos grandes, verdíssimo e letrado... A cada dia, mesmo de longe, o homem notava a ave se transformando em pequena maritaca, calada e cinzenta. Já nessa manhã, perdida a cor, a prosa e o tamanho, a ave desmagreceu, silenciou e descoloriu... De fome! É...  O Cesarim tem a mania religiosa do jejum, que impõe aos mais chegados, inclusive os irracionais.  Aos filhos, além da fome, inflige insônia! Dorme-se muito pouco em sua casa. Ele diz, sem medo de errar, dono de dogma seu: “O sono alimenta: dormir demais é pecar na gula!”...
                        O arraial que desperta é três Corações de Rio Verde.  Uma névoa muito fraca se eleva dos pastos, na ação dos primeiros raios solares sobre o orvalho...  Ressoa no ar um futuro aroma de casa boêmia. Certos cheiros se mesclam no espaço.  O aromático líquido esparramou seu odor por toda a casa.  O silêncio conduz uma sinfonia de primeiros passos despertando aqueles arrebaldes!
                        O homem, apreciando entretido o quintal se acordando, fuma por cima do café forte, um taludo pito de sabor goiano.  Os passos, lá fora na calçada, estacam. Logo alguém o chama, três batidas conhecidas na porta. Um mensageiro o espera na saleta da pensão... “Quem, a essa hora?” - pensa, com lógica crua.
                        Mas quando se encontram se esvai sua preocupação! Há um longo e afetuoso abraço, ambos comovidos...  Depois, os cumprimentos, tapinhas daqui e dali, antigas apelidagens, risos amáveis...  Depois do café com quitandas, o recém-chegado passa a relatar certo acontecido, motivo de sua presença ali.
                        O ouvinte, ainda não ouvida a totalidade do recado, visivelmente chocado, balança a cabeça em reprovação a alguma coisa que não o agradou...  Num ríctus sua boca repete, em calado refrão, um surdo “filho-da-puta”, que parece embalar rajadas...
                        Levanta-se. Cego de ódio, tateia a tintura do dia nascente: o sol é sangue...  Engole uma saliva pegajosa e arrota os males da noite. Nasce de sua garganta, gutural, uma praga desesperada - vestida a rigor, de colete e paletó, gingando grotescamente entre o esmalte de seus dentes cerrados...  Esmurra uma banqueta!  Tapa o ouvido, não quer acreditar...  O outro, após acalmá-lo, encerra o relato:
                        - Assim, me mandaram te encontrar, certeza de resolver o assunto!
                        - Fizeram bem! Os outros não vão podê com ele.  Eu conheço aqueles três molóides! Eu vou. Não marco dia.  Mas pode garantir que está pêga a empreita.  Ponho empenho e tenho interesse!
                        - Felipe vai ficar satisfeito e Thomé também, por causa do criolo...
                        - No trato, avisa: não tiro orelha, não quero complicação com volante ou bate-pau. Tira todo-o-mundo da reta: esquadrão, falanges, efetivos e mampostas! Deixa só comigo, entendeu? Cê sabe: gosto de trabalhar sozinho. Tem mais: tô largado desse ofício, e só vou pela estima da família. Pra eles vai brilhá a estrela da vingança: esse um já tá morto, pode escrever, que faço questão.  O preto sem-vergonha acho que um susto meu espanta ele pra longe.  Deixa está!
                        Quando Oraciano parte, Jota Rabelo se admira em reparar como, duma noite tão feliz, passada com a menina Penha, pôde nascer um dia tão azedo, contra-mão, indigesto e revoltante em notícias vindas de muito tão longe...  Vindas de uma vida tão distante da sua, hoje, como sua atual idade dos seus tempos de moleque, ao lado do inseparável companheiro Ismaelinho!...
                        Como se fosse um luto, calculou as datas, alugou um canto especial da memória e depositou ali: 15 de agosto! Domingo maldito desse mil novecentos e tanto...
                        Os dias voaram.  Concentrou-se em odiar um homem para poder matá-lo com gosto. Não entrou em bulhas. Rodeou as camorras. Passou longe de confusões.  Evitou caterva de turebas.  Contudo, carregando seu espírito de osgas negras, imantava-se de malefícios...  Afastou-se das bruegas, do pingalho e do gornope.  Se foi preparando, preparando-se...  Já possuía cadastros, liames e atilhos com o Maléfico...  Na cabeça, mapeada em detalhes, a aldeola de Coivaras ainda se desenhava familiar, e o casalejo era a um só tempo refúgio e praça-de-guerra!
                        Só tornou a se encontrar com Penha na véspera de sua partida sem avisos.  Mas já era outro, tomado pelo Mal!  Não sabia mais amar.  Suas palavras, farpas dolorosas.  Machucou-a assim, na esperança de ser olvidado um dia: “Não sei se volto.  Mas não quero ninguém me esperando. Me esquece. Meu querer por você é paixão, fogo! Tudo se apaga um dia... Não tive saco pra agüentar agüinha-com-açúcar, planos de namorados e coisa de futuro. Vou não sei pra onde, e não quero fazê ninguém de besta.  Não te levo porque atrapalha, senão levava.  Boas fodas nós demos! Comigo é ali, ó, cê sabe, no grudante, massacrado!”
                        Depois de ouvir isso, ela pendurou-se em seu pescoço e ele a apertou feito louco, lhe apalpando os macios, pegando nos moles e firmes, puxando os cabelos, querendo lhe engulir a língua sufocante...
                        “Padrim, só ocê é homem pra mim! Nunca tive outro, nem vou ter! Quero te completar, de mim falta um pedaço, escolho o senhor pra intéra! Não me larga de mim, eu endóido!” - implorou-lhe a menina.
                        - Te encho sempre até as tampas, cadelinha! Sempre te quero mais ainda: te possuo sempre com ânsia doida, apressado, cheio de medo, pavor de agüentar seu fogo uma vez apenas...
                        E tornaram a se possuir... Ela se entregou chorando; ele, xingando. Ele a machucava... Depois: “Vê: te como me entregando tão macho, tudo latejando em minha idade, como a veia do vergão! Sou guloso, cê já sabe: brutal, amor daquele de doer, de fazer você, moça, virar mulher, se lembra? Te fazer, agora, mulher, gemendo de gozo... Assim são meus amores: paixões. E não tenho acanho: se fosse pra gente ter ficado só na conversa, naquele namorico, você não me tinha nunca! Agora já me teve e pronto. Acabou. Não se iluda. Agora você não passa mais sem isso. É mulher. Eu vou pra longe, às vezes não volto. Aconselho: não brinque com homem do bigode grosso. Um assim faz ocê comer pão que o diabo cagou! Ele tem artimanha de esquentá muié-macho... Não fantaseia, evita os refinados. Os almofadinhas só querem abusar! Com eles é pau-na-racha ou pau-na-brecha. Não escolhem lado, costumam errar caminhos. Aí, não tiram nem por mal. Isso acostuma, menina. Fuja de sudomias, cuidado! Eles não deixam mais barato... Tarado não faz questão de mulé senti com ele nada! É ali, ó, só ele, no apavoro. É isso que te aviso, pois não tenho coragem pressas gostosuras animais... Tô saindo...” - Enquanto se vestia fez sua despedida e saiu.
                        Penha ficou chorando, certa de não ter entendido uma palavra do que ele havia dito.

a testemunha


                        “Porque certos homens gostam mais da guerra?... Será porque a paz é rotina e o homem fica sem saber o que fazer?... Ah! Na guerra a vida está em jogo! O homem sabe que deve matar para não morrer...  E sabe exatamente qual o inimigo, mesmo sem nunca tê-lo conhecido...  Na guerra o homem tem que saber apenas o necessário: não deve morrer...  Tem apenas um principal objetivo: escapar com vida, matando o mais que puder! E na guerra, só na guerra, é que a paz é importante! É uma esperança! Mas, quando conseguida, não sabemos o que fazer com ela...”
                        Ele estava em missão. Pois que havia sido chamado... Era um mensageiro da morte, possuído do espírito que mais preferia: o bélico!...
                        Através de um informante, ele ficou sabendo: no bar tal, fachada dum carteadozinho clandestino, estavam disfarçados em jogadores - isca para ele!- uns alugados locais... Após sair duma visita ao velho amigo Lúcio Vilela, dirigiu-se para o local do confronto.
                        João Rabelo morava sob o chapéu! E as meninas-damas de Santa Rita o chamavam de João Lindoso, ao que ele vociferava “Ara, pombas!” e logo agarrava uma delas.
                        Geraldo Sucupira, Bernardo Cubero e Nudugero Siqueira, velhos freqüentadores do local, nesse dia tiveram a felicidade, verdadeira ventura, de não comparecer ao cotidiano encontro, atendendo ao estranho pedido de Artu Macedo, dono-alugatário do lugarim.
                        Jorjão Biela, Dito Largado e Aparício Sorrete estavam cobertos de graxa quando correram até a rua e o pó do cavaleiro disparado inventou um novo barro em suas roupas de ferreiros.
                        Luperço Barcelo, Alonço Borge e Anísio Gamela eram guardas-civis e atenderam, (enquanto Guarda-Luperço, Guardalonço e Guardanísio,) o espavorido Jovino Godói Sertório que chegou gago feito um Geraldo Revoltoso, contando aos socavões o ocorrido, rabulejando como advogado novo diante dum juiz, em leguleios de oficial de justiça... Um cabo, atrás duma serápica escrivaninha, o atendeu. Sua língua, então, açoitava-lhe o céu da boca com impiedade. Igualmente fustigou o rosto peludo da autoridade com perdigotos estralejantes, enquanto espancava a mesa a cada engasgada do assunto.  Vergastando os dentes com ferocidade, o gagoela conseguiu contar o que julgava ter visto. A certa altura, mortificado pelo esforço, começou a chorar, o que piorou as coisas.  Mas deu, enfim, para o outro deduzir. Saíram do sobradão da Cadeia Pública acompanhados de dois soldados. Quando chegaram ao local, parecia que Átila, com sua legião de paquidermes havia passado por ali. Esses danos, que coisa!, seriam obra de sua cachamorra implacável??? Espadanando entre os curiosos, partiu em busca do superior, Pança Ornéjio, que aquilo era demais prum simples cabo...
                        Na estrada, vinte dias depois, seguiam vinte cavaleiros, uma volante mista. Suaviloqüente, um policial monologava audivelmente... Era um analecto, ajuntando sobejos de um festim estranho, pedaços de um quebra-cabeças ilógico...  Balbuciava “Ninguém pôde me dizer... Ninguém saberá quem chegou primeiro no lugar: José Ribeiro, Quinca Rogério, ou João Rabelo... Ah! Seria um dado precioso, concedo...”
                        -Pronto, Sargento!
                        -Não chamei não, Cabo!
                        Para as investigações do Sargento Ornéjio, da polícia de Santa Rita, tudo tinha um ponto em comum... E enquanto a comitiva se deslocava até Forquilha, de onde iriam para Coivaras, o tal ia preparando lances do interrogatório.  E as peças do inquérito iam-se encaixando em seu raciocínio estrategista...  E ele então torna a lembrar... Estava em pleno coito, na melhor das intenções, na melhor casa da zona, loira Sueli por baixo, quando espancaram a porta, molestando seu bem-comer... Castigado assim pela insolência do subordinado, cabo Macedo, sua primeira reação era naturalmente a que teve: vontade de lhe dar uma tunda, esfregar-lhe as fuças no chão! Mas quando o mesmo tal cabo enjoado conseguiu balbuciar o recado urgente, ele teve de sentar-se na beira da cama, já de moles nervos relaxados... Saiu dali pesaroso, com a interrupção verrumando seu baixo ventre... Foram pro lugar. Quando lá chegou, pelos fundos, pela salinha do carteado, onde começara a encrença, foi logo se embasbacando: “Porque isso, meu Deus? - A violência aqui passou da conta!”  E passou a martelar essa surpresa no lugar da verrumação sexual de minutos antes, e ela ficou ali, durante todo o tempo em que investigava a situação...
                        Do homem culpado de tudo, só foi mesmo reparado um detalhe significativo. Sua mula era queimada, uma arreata completa, pachola...  O resto: cor, roupas, etc, nada poderia levar ao menos a uma remota identificação. Ali a poeira misturava mulatos e brancos. O cavaleiro sempre  carrega muda de roupa no alforje...  Mas a marca na sela mudava a situação...  Era uma pista concreta!
                        Segundo o dono do bar, o terremoto iniciado na sala de jogo terminou ali, bem à sua frente. Só não pôde ver porque esteve o tempo todo agachado detrás do balcão.  Mas ouviu -sem perder nenhum - todos os disparos, que eram altos bastante para até um cego ouvir.  E viu, mesmo sem ver, que o homem tinha o Corpo Fechado, pois isso até um surdo podia ver!
                        “Agora, resta esperar que ele aja de novo!”- foi, naquela ocasião a conclusão de Ornéjio, depois de percorrer várias suposições. O arraial de Santa Rita era um entroncamento. Dali se partia para muitos lugares.  Mas o modo de agir do elemento logo denunciaria seu rumo.  Restava aguardar.
                        Quando chegara no local, três corpos desalinhados, abraçando o chão, percorriam nebulosas regiões sem caminho de retorno: uma estranha mulher invisível toda vestida de negro os conduzia pela mão... O dinheiro das apostas não estava com nenhum deles nem sobre lugar algum.  A mesa, de pernas pro ar. Cadeiras destroçadas, cachaça pelo chão...
                        Disse o garção: “Na hora que começou a demolução, eu ia entrando e ouvi um xingo saindo da boca do homem que estava ali de frente para a porta, do outro lado da mesa. Me assustei, mas logo vi que não era comigo. Chapéu de aba quebrada sobre os olhos, falou e agiu.  Num canto, sem poder sair do lugar, permaneci, mijando de medo, pedindo proteção de todos os santos!”
                        Mas disso apenas o céu foi testemunha: no meio da fumaça, às vezes relampiava o aço duma adaga quilométrica. Com ela, um homem escrevia estranhas letras no interior dos corpos que tentavam pular sobre o outro.  Em certa mão direita, um canhão escuro, calibre 38, vomitava pedacinhos incandescentes do afamado produto “Cessa-Vidas”, com eles gravando, a fogo e à queimabucha, diversos orifícios sobre a pele do tórax e da testa dos outros três...  O falso velho-freguês-antigo-do-carteado, não conseguiu apanhar com a mão canhota, um pedaço de sua orelha esquerda, saído logo atrás duma bala que lhe entrou pelo ouvido do lado oposto. Seu gesto patético e inútil desenhou-se no ar como a acrobacia dum funâmbulo. Tombou inerte, garruchinha inofensiva à mão, sem um gemido, sobre outro corpo agonizante cuja barrigada lhe fugia do lugar original por uma brecha aberta a punhal.   O outro deve ter morrido de medo, ajudado por inúmeros talhos e balaços mortais... Passando por cima dos corpos ainda vivos, o forasteiro saiu alucinado para o cômodo do bar. Não precisava atirar em mais ninguém... Mas quem disse que um assassim precisa de motivo para matar alguém? Ou que ele não sabe conhecer um disfarce, uma dissimulação? É: ali tinha outros alugados de reserva. Não ficou um que tivesse feito um gesto de delação. Até um menino, garoto que comprava balinhas ou confeitos, entrou no rol. O chute que recebeu no baixo-ventre, de uma bota que passava, horas depois se revelou fatal.  Suas miúdas pecinhas, esmagadas, boiavam inertes em meio a uma violenta hemorragia interna, irrecorrível... Foi a única perda realmente lamentável dessa sarrafusca...  O possesso ainda machucou outras pessoas sem qualquer ligação com o caso, mas apenas levemente. Saiu do Marabá devagar. Montou seu animal e partiu. O rapaz do correio, que vinha subindo a rua, chegou a ouvir os últimos disparos. Alguns gritos de judiação... Viu, porém - e nisso foi o  único! - as iniciais JR sob o joelho do cavaleiro, quando este passava a galope. Não viu cara de gente sobre aquela besta. Ali ia um demônio barbudo, olhos sangüíneos sanguinários, cara de bicho, babando e vociferando blasfêmias, amaldiçoando Santa Rita, seus devotos e sua cidade...
                        Logo após sua fuga, foi dado o alarma. A revolta acendeu a mansidão daquele povo. Logo logo uma comitiva de trinta e tantos cavaleiros se dispunham a sair no encalço do facínora, quentes no afã da cobrança.  Enquanto se motivavam com imprecações, acendendo e alimentando a fogueira do ódio, sargento Ornéjio alcançou-os e lhes disse: “Não adianta ir atrás. Tem na cabeça do arreio uma 44, de muito tiro. Winchester! (Nesta hora, um gélido pavor afastou os mais fracos do cumprimento daquelas suicidas intenções...) Já é tarde, ele pode ter ido pra diversos lugares. Assim não vamos conseguir nada. Se saiu num rumo, pode ter-se desviado mais adiante. Pode ser que, num atalho, caiamos em seu embosco! E pode ser que esteja acompanhado, pode não ser um só! Gente assim nunca anda sozinha... Vamos aguardar notícias concretas dele. Depois vamos cobrar nossas contas!” - e por sorte fora atendido...
                        Abandonada a idéia da perseguição, o centro das atenções era agora o garção... Sujeito pacato, vindo de Coivaras, dono de muitas dívidas por lá... Trabalha direitinho, nunca incomodou ninguém. Fala da terra natal com suspiros. Sua ânsia na vida é um dia voltar sem rancores, sem revolta, repousar seus derradeiros dias, entregar seu corpo à terra que o viu nascer... Era ele quem agora repetia, pela vigésima vez, a um curioso-líder-de-rodinha: “O homem não tinha rosto dereito, só uma fachada escura onde brilhavam dois olhos de gato, de meter medo. Foi um assim fregelo que relampejou perto de mim... Sei não porque atirou e esfaqueou os outros... Nem nunca vi ninguém tão ligeiro assim na faca... Ali tinha só escória mesmo... Tudo ali era gente ruim, pessoal, mas agaranto: aquele um que fugiu, de maueza, é peior que o Feberão, aquele maleitoso e brabo que joga a gente na cama, amunta em riba e num larga mais até matar!”
                        Era uma trama, tinha um enredo esse mistério! E nisso segue meditando Sargento Ornéjio, enquanto cavalgam rumo Coivaras, já gora passadas três semanas des’que faleceram Calixto Preto, Gileno Maceió, Finardi Capadô -ralé dispensada que nem coroné matante ajustava mais -, os outros sem-nome e o pobre moleque doceiro... “Aqueles teriam certamente “encomenda” contra o homem... Mas ele foi mais esperto e eles se deram mal...” - ruminava.

oah cavalinho!
       

                        Banhado em brilhos avermelhados, flutuando nas ondas rubras do oceano crepuscular, o belo garanhão, no galope, músculos alternadamente se distendendo, roxeados pelas  fagulhas dum ocaso pictórico, põe à mostra poderoso físico, legítima garantia de um colossal desempenho junto às fêmeas da tropa...
                        Contemplando o enfeito dos seus varjões, fincado no peitoril da janela da sala, depois de janta e sobremesa, Jojó Bertolino sorve um fumegante café-passado-agorinha... E se for lícito proclamar, deve ser dito: aquele cavalo é “seus bem-querê”, a chamada “menina-dosói” do velho fazendeiro.
                        Nessa hora, contemplando no diáfano horizonte a velhice que se aproxima, também lhe vem à mente as preocupações com o irmão, tão vítima do Malagouro... Congeto, este,  endoidou; tanto fez que conseguiu que o irmão deixasse a Casa Maluca, mas custou sua razão. Manicou em pedir esmola, se fazer de cego, percorrer fazendas... Teve tudo: ofereceu morada, chamou pra morar junto, nada serviu: não quis ficar com ele. Como uma pessoa controlada como Congeto pôde mudar tanto na conduta? Com que teoria arma tantas tramas naquela cachola aliciada pelo Mal?
                        Pelo norte, na estradita vinda da Serra, um cavaleiro a trote... Repente o velho nota: um sobressalto! Titubeia o dono das terras! Conhece passos humanos, eqüinos e vacuns, guardados de vista depois de uma primeira vez! Aquele, ou é um estranho, ou algum conhecido que, no entanto mudou a toada do animal: inidentificável! Já mais perto, a cachorrada verrumando a montaria.  Nada: não percebe quem seja. Não conhece esse um! Sai pra varanda e acende o pito...
                        - Tardes, seu Jojó! (Tardes, seu moço! “Hum... Não, não conheço”...)
                        - Senhor por certo conheceu famia minha. Sou dos Gregór. Filho do Benegídio! (Ah! Qualé deles?) Simão, mas me tratam por Pené-da-Carma, mode minha mãe! (Caçula, né? Como cresceu, era miudinho!)
                        - Senhor tá cum gadão, seu Jojó! Cuida sozinho nessa idade?
                        Diz que não, Ostáco e Dos Reis, os filhos, o ajudavam.
                        - Fazenda Saracura... Meu pai falava nela como a três-Potes! (O que não é de estranhar, pois são o memo passarim!)
                        (Vamo entrá!)
                        - Tou de passagem e só quero uma água fresca, seu Jojó. Vou pro Mato-Sem-Dono. Joaquim Punzemplo tá em percisão de braços! Felomena, que ajuda ele, adoeceu e tá de resguardo. Vou pra lá! Senhor sabe que ele sarou da impinge só com banho da água quente? (Ah!Aquela agüinha é milagrosa!)
                        Entrasse, era hora prum cafezinho ou quem sabe pruma pinga pra tirá poeira da garganta.(Um móia-guela só! Tem ainda janta quente. Faço questã...)
                        ... (Enquanto isso, inquieto, embrenhado no mato ao sul dali, ferroado de picadas, salpicado de petéquias, vontade de pitar lhe azucrinando, a pão-e-água, está Ticaco, cérebro gêmeo para todo o mal que possa haver em dentro dum Cacalo irmão... A mosquitada infernal rodeando o bornal de couro... A carne dentro, uma paqüera inteira picada, deixando os insetos malucos... “Quantos cachorros são mesmo?” - se pergunta o calafange... Reconta os magotes sanguinolentos que traz. Conferiu! Os orifícios por onde enfiou as bolas de veneno parecem ter sumido numa rápida cicatrização. Nessa espera enjoativa e nada monótona, Ticaco anoitece. Depois espalha a carniça pelas imediações da fazenda, às vezes escapando por pouco de presas dilacerantes. Apita imitando aves, longos líricos pios... Aí recomeça sua espera.)...
                        Após o hóspede desarrear seu cavalão camurço, voltaram à varanda. O que determinou o convite irrecusável para o pernoite, foi a inclusão dum garanhão na conversa, em determinado momento. À simples menção das qualidades evidentes de Tremoço, o fazendeiro se reduzia a um trapo, seduzido pelo assunto que o fazia vibrar...
                        Com boa conversa, o velho e o rapaz-de-passagem vinham enrolando, solidários em solidão, uma pequena baínha do estrelado manto da noite que principiava, presenteando suas vistas com um desfile coruscante de pedrarias celestes ante seus olhos embevecidos...
                        Os filhos chegavam mais tarde... Notou o hóspede, sim, mulheres na casa, duas, noras, murmurantes, lá pros quartos.A primeira pinga tinha pedido outras. Uma bóia quente, - serviu-se nas panelas, diretamente -  um café fresco. Depois, conversa fiada... O melhor que se leva da vida! Tudo são histórias: garimpagem, corre-mundo, andanças, viagens... o velho se perde em causos antigos, conta caminhadas, boiadeiramente... Foi então que se tocou no assunto: Tremoço! ... Assim, antes de ir se deitar na casinha perto do paiol, numa intimação irreversível do velho, local porém único que o rapaz aceitou, -inventando saída cedo, destinos fictícios-, foi ouvida e foi contada a eqüídea história do campolino de estimação! (Para conseguir ser convidado para pernoite, cansou  o ouvido por ter cutucado na parte fraca do ancião!)
                        Certa vez, desejando aumentar a tropa de sua propriedade, selecionando e melhorando-lhe a raça, o fazendeiro saíra à procura de um bom reprodutor.  Tinha se cansado de lidar com crioulos cruzados...
                        Havia trinta anos, sonhava encontrar o cavalo ideal e jamais afastara essa possibilidade da idéia... Sua experiência em genética eqüestre provara: com um bom reprodutor e alguns poucos cruzamentos a melhoria qualitativa podia ser esperada!
                        Comprou-o de um criador responsável. Além de se encaixar muito bem nos exatos requisitos, gostou dele logo que o viu e teve a certeza de que era o animal que precisava... O corcel tinha ótimo porte, bom aprumo e docilidade... Aceitou bem o cabresto, deixou-se selar, não se perturbou ao ser montado e esteve sempre disposto a ir para todos os lugares, sem brigar com as rédeas, durante os testes... Um marchador! Temperamento calmo e estável... Bela aparência, velocidade. Rusticidade, cabeça pequena, olhos bem separados, orelhas pequenas, focinho curto e maxilar muito bem desenvolvido... Desde o início revelou seus dotes essenciais: ótima memória, bons olfato e audição. Versátil, adaptara-se ao ambiente com facilidade. Excelente para o trabalho com o gado, melhorou a olhos vistos a raça que existia...
                        Depois dos Boas-Noites com que se separaram, o velho insone continuou remoendo, em seu próprio leito, a conversa recente... “Mas o Benegídio Gregór, tão sumido e um filho dele por essas bandas...”
                        (MENTIRA! Gostaria de gritar-lhe, seu Jojó! É filho dele nada! O pai desse aí, nego ruím, foi o Dute Dorteu, matado a cacete!- Mas esse aí, sabendo que senhor teve conhecido de estima em tal Gregório, pai duma negrada quinze, se fez passar pelo mais novo deles que o senhor só conheceu menino! Passou como tal! Na realidade é o bandido ordinário de nome Cacalo Preto, terrível irmão do assassim Tulíbio Ticaco, manos ambos bons no aluguel encomendado, de matança à-toa, a tiro, faca ou calaboca. De arma branca, porrete ou na bala, conforme a ocasião e o prometido...)
                        Enquanto morriam cães pela noite adentro Pené/Cacalo, deitado, relembrando... Velho Jojó dizendo: “Nessa andança, aí pra frente às vezes você encontra logo adiantezinho, um cavaleiro famoso que vou hospedar, amigo de seu pai também... Só de ver, você vai saber quem é o que eu estou falando!”
                        Esta, a informação que confirmava o local da emboscada! J. Ribeiro tinha razão. O velho soltou que o homem ia mesmo procurar pouso ali! Então Cacalo/Pené passou a conferir, contando no triste uivo, uma-a-uma, a morte de cada cão...
                        A noite é longa... Mais sem fim ainda o triscado das estrelas... Os ganidos e cuincos de dor e agonia da cainçalha cessaram com o aparecimento duma lua atrasada, longíngua e escurosa, já alta madrugada... Só depois do último esganiçado Cacalo sai do paiol. Logo está na casinha-de-arreios, onde encontra Ticaco.  Perto, agonizante, olhos se vidrando, um enorme e temível mastim, soltando horrível e prateada gosma pela bocarra envernizada...
                        As noras Princilena e Floriliza, concunhadamente próximas, acordaram ao mesmo tempo, mergulhadas em rasos sonos. À tona do lago de Morfeu uma preocupação as mantinha: aguardavam os maridos no mesmo quarto, ali dormiam juntas no se-acompanhar, quando eles ficavam por lá até tarde, num vizinho, jogos de truco... Acordaram juntas: em algum lugar da casa algo tombou ao chão com sabor de peso e inércia... Ou seus ouvidos trapaceavam? Ou um gemidozinho quis nascer dalgum canto ali por perto e logo foi cortado pela raiz? As duas logo estavam cochichando medos... Uma tentando dar à outra - mãos dadas - a coragem que não tinha. Uma e outra lamentando o marido ausente. Na mente de ambas, a dúvida... Daí a pouco, Fulô arriscou um débil e interrogativo “Dos Reis?”... Lena logo arranhou uma perguntinha até carinhosa: “Ocê, Ostaco?”... O silêncio permaneceu calado.
                        -Uja, e se for o tal Pené, Simão dos Gregório? Saiu calambiano de bêbado... Seu Jojó dando pouso pra um qualquer...
                        -Lisa, ele não será lá dos Graviola? Parece mancar feito o Zico Oleriano... O barulho não será no paiol?
                        Uja e Lisa, Fulô e Lena, Princilena e Floriliza, essas duas, logo estavam esteadas uma no medo da outra, estatuadas em início de estarrecimentos, já se geografando em seus receios um contorno de pânico...
                        Ruídos estranhos, parentes do cochicho, anunciavam acontecências... “Meus Deus, Lena, ele ressumava gerilim torrado, paçoca de quem viaja pra perto! Convém nós saí do quarto? Quem sabe seu Jojó caiu aí no escuro?” Mas interpela em vão: Uja se invernou no limbo do Terror.
                        (Vocês não sabem, coitadinhas. E eu não posso intervir, avisando. Pudesse, gritava-lhes: “Fechem bem a porta, Rezem! Vocês são viúvas desde as três horas da tarde! Seus maridos, desdobradas as toras do mato lá longe, voltavam pra casa de grupião a tiracolo, quando ocorreu. Não escaparam da tocaia. Uma, que os assassinos não erraram nunca daquela distância. Outra, que não podiam se defender pois foram mortos pelas costas... Tudo rápido, profissional, tudo num susto para a patréia de macacos que assistiram guinchando ao holocausto impiedoso...)
                        Com um estrondo inangurando sua aparição, os dois lobisomens sangrentos invadem o quarto. Aí elas têm resposta para suas dúvidas. Solucionado ficou que o barulho, qualquer que tenha sido, foi feito pela dupla de invasores. A candelinha, iluminando aqueles semblantes grotescos e repulsivos, de baixo para cima, aumenta o que já têm de sobra em horripilância, lascívia e hediondez. Então elas notam os punhais. Dão gritos pra ningúem escutar...
                        Depois de violentadas, machucadas, martirizadas, se juntam ao velho Bertolino. Como ele, aliviadas da carga do sangue que foram ajuntando nas artérias e veias durante toda a vida, esgotadas por enormes cortes na região das carótidas... Os mortos são amontoados num canto da dispensa. (Longe dali, igualmente consumidos, Ostaco e Dos-Reis entregues à volúpia dos vermes, fundo de grotas...)
                        Nos quartos da casa, sangue por todo lado. Ninguém sabe até hoje como o velho foi morto. Uma questão de lógica! Primeiro: ele não pôde contar por estar já sem vida após o fato. Segundo: os assassinos não contaram pra ninguém como o fizeram...
                        O dia, amanhecido banhado em escarlate, passou-se em lenta espera e indisfarçável impaciência. Naquela manhã a chaminé estranhou logo cedo a ausência do fumo com que iniciava sua função. Seu vômito fumacento durante o resto do dia também permaneceu inexistindo. Apenas dois fatos quebraram a rotina dos minutos. De manhãzinha, para terminar com o berreiro do gado, misturaram os bezerros com as vacas, que respondiam em coro ao balido das famintas crias. As tantas reses estranharam a ausência da ordenha, a modinha assoviada pelo Dos-Reis, o cheiro do café que Fulô trazia nas canecas... Mas não tiveram muito tempo pra mais observações: foram logo enxotadas do curral rumo ao pasto do gordura, sem nenhuma cerimônia. Sem saber o que fazer, úberes cheios, recolheram seu leitoso líquido e continuaram rumo à aguada onde fariam alto... Os berros-bezerros, empanturrados, leite farto em fome funda, no outro dia amanheceram com diarréia-branca.
                        Mas incidente mesmo foi o que envolveu o efebo garanhão Tremoço. Estranhando a ausência da matinal refeição, o cavalo se aproximara da casa aos relinchos, tentando acordar seu dono... (Essa ração, que composta de cereais e sal, lhe restitui a energia e dá brilho à pelagem, é a linguagem do afeto, primeiro diálogo do dono com ele.)
                        Com os relinchos, nessa manhã, conseguiu foi que o Homem-Preto viesse com o chambrié, doloroso instrumento amestrador que seu coro ainda não provara até então...  Brandindo o chicote, o homem gritava ódios. A roxa boca, imprecações... O sensível animal não entendia nada... O que fizera de errado?  Cadê o Homem-Pintado-Dos-Cabelos-de-Sol? O que estava mudando em sua eqüina e tranqüila história?
                        Ticaco, pouco paciente no trato com as montarias da vida, tenta espantar o macho fogoso para o pasto das éguas, mudando-o de apartador.  Após algumas tentativas infrutíferas, passou à agressão. O indomado recebeu sobre o lombo ferroadas de vara, chibata, pau, pedras, tudo despejado com raiva pelo Horrível-Homem-Negro.
                        Num extremo recurso, sob protestos do Cacalo, Ticaco iniciou um arrebentado, visto que o animal além de inamansável não era doméstico ao cabresto... Surrá-lo-ia!  O bicho, amarrado, no susto, estirando lentamente experimentaria a asfixia. Mudaria procedimentos. Estirando de golpe, ia rebentar o tendão da nuca: era um folgado, sem sinal de sela...
                        Mas, ao ser laçado, Tremoço vira o Cão! Possesso, investe contra o peão judiador, avança de pé sobre ele que, a custo e bordoadas, consegue pular fora do curral. Com ira cega corre em busca da carabina e sai como louco no encalço do cavalo.
                        Este consegue tirar do pescoço a laçada e apesar de ter sido baleado na pá direita ao saltar sobre a porteira de varas, agora afunda os cascos na campina que escorre rumo à serra.
                        Os irmãos discutiram por causa desse disparo. O resto do dia custa a se arrastar, pesado, angustiante, arrastando correntes. Para os dois, o prazo se dilatou, prolongando-se por uma noite ainda...
                        Enfim amanhece.
                        Faminto, mal-dormido pela troca de turnos, Cacalo vai até à bica nos fundos da horta, sob frondosa cajarana. Quando vai se agachando para o lavafuça, surpreende-se ao ver sua fome temperada com uma grande falta de ar!  Sim, num repente seu bucho foi perfurado...
                        E enquanto pelo rasgo do ventre lhe desce a barrigada, seu agressor o enforca com um aperto do musculoso braço. Efeito silenciador conseguido, o punhal agora muda sua trajetória para palmo-e-chave acima: certeiro, encontra seu destino.  Aquele coração se desgoverna, logo encerra seu trabalho por absoluta incompatibilidade entre o ferimento sofrido e a função estafante que executava... O corpanzil prussi-azulado, com o mínimo ruído, é amoitado numa touceira.
                        (O homem claro, metroitenta, zói-azul-gatiado, conhecia os irmãos. Sim: viveu muitos anos em Coivaras, sempre engalobado com esse povo de Bueno. Perito no Omega-Três-Oitão, arranca fundo de didal sem molestar as bordas! Fura niquinhos de poucos réis jogados pro ar. Não troca sua besta ruana por nenhuma outra montaria. E agora, enquanto esconde o corpo do negro, mais uma vez agradece à Providência a intuição milagrosa da mula que possui. Sim: graças a ela, que estranhou a manqueira do cavalo castanho de longe, evitou surpresas.
                        Vinham quebrando a serrinha, a tarde já tinha sido engolida por um buraco no ocaso. As corujas chirriavam, começando a enxergar. Tudo era um lusco-fusco, véu etéreo, momento diáfano entre dia e noite. Aproximou-se com calma, muito devagar. O relincho do animal era de dor aguda: seus riflados miúdos denunciavam isso. “Êta  alazão bonito!” - pensou. Mas, quando notou a mancha gotejante, apeou. Ali eram terras de Jojó Bertolino... Engenhou de laçar o macho. Desistiu. O animal era pura engulição. Sede e febres, sem dúvidas... Acercou-se dele. O corcel ferido, posto que desconfiado, permitiu a aproximação: tinha se entendido com a mula, via-rinchos... “Ôooo...  meninão, ôoo”. Acalmou-o sem pressa. Afagou-lhe a tábua do pescoço com carinho e compaixão. Reparando bem, viu o ferimento. Profundo, de arma de fogo, mas de-raspão. Pelo couro ferido notou a tentativa do arrebentado na região da nuca.  Observando melhor, viu estragos no couro das canelas, nos cascos. “Cavalo foi judiado!” -vaticinou.  Voltou a examinar o ferimento mais grave: tendo penetrado pela parte posterior da omoplata do animal, a bala pegara o músculo distendido e saiu pela frente, de resvalo, inda queimando o pêlo e a pele ao redor dos orifícios.  A hemorragia amainara. Contudo a ferida, inda viva, convidava ao pouso os insetos de ocasião. Com estudada lentidão, sem gestos bruscos, coloca barro preto sobre as duas chagas. Quando se afastou, já parafusando raciocínios, o animal seguiu em oposta direção...)
                        Agora ali estava, confirmando suas previsões, revocando tais antecedências. Espera que o segundo bandido dê pela falta do irmão...
                        Custou, mas um Desespero veio enfim ao encontro de sua Paciência. E, de mãos, dadas essas abstrações passearam pelo quintal. O Grito dizia: “Cacalo, filho-duma-puta, onde cê foi socá?”...  A Paciência, em pensamento, respondeu telepaticamente: “Cá pra fora, nego.  Vem, desgraçado duma figa!”  O Grito, surdo, continuou, sem ouví-la: “O cara pode tá chegando, Cacalo!”...  A Paciência, calada, continuou: “Já cheguei, relaxado!”...
                        E continuaram o diálogo maluco, por momentos eternos, até que o Grito, não mais se agüentando em ânsias, saiu correndo da casa pela porta da cozinha, indo se esconder atrás dum forninho de adobe, na varanda do terreiro.  A Paciência, olhos azuladamente vivos, frios como a morte que traz nas mãos, não se mexe.  Durante todo o tempo tem o Grito, apavorado, sob controle, mental e visual...  Então o Grito num grito “Cacáááááááálooooo”, se torna o tresloucado Berro, já rouco e descontrolado, dono de fúrias e medos. Enquanto isso a Paciência, com muita cautela, foi circundando a situação até refugiar-se dentro da casa.  Daí um pouco, lá fora, o Berro se calou, sofreu a segunda metamorfose, virando então o Silêncio-Em-Pânico. Foi aí que começou a retroceder de-fasto, rumo à casa... Quando estava a uns cinco passos da porta, resolveu dar as costas para o quintal e entrar na cozinha.  Quando fez essa meia-volta, por uma quirelinha de segundo, coisinha mínima, teve tempo de contemplar o homem à sua frente, um ódio curto, de acertos finais.  Para mais não houve ocasião, que logo labaredas silenciosas partiram da mão em forma de arma.  Se não pôde ouvir o estrondo das balas trinteoito ao detonarem, tampouco teve tempo de levantar o trabuco. Sem saber qual foi a primeira, ambas - isso ele nunca ficou sabendo, - entraram pelo mesmo buraco entre seus olhos. Porém, as tampas de osso, couro e cabelos que ficaram penduradas na parte posterior de seu crânio, atestam claramente: os projéteis saíram por locais diferentes, cada um com sua pequena maleta cheia de miolos...
                        É dessa maneira que geralmente, em Coivaras, dois crioulos maus acham seu fim.  Naquela funesta manhã, sem saber como, apesar dos olhos bem abertos, foram surpreendidos... João Rabelo, duplamente prevenido, chegou até ali como eles queriam... Mas não veio nem no dia, nem pelo lado que esperavam.  Uma chaminé sufocada, um cavalo sangrando... Ah! Rabelo tinha rodeado. Esperaram que ele viesse pelo Rio, passando pela Balsa de Varejão. Passou foi pela Ponte do Surubim!
                        Judiação foi com Tremoço... Perdido, sem dono, de mal com o mundo, virou garanhão errante, perigosíssimo animal sexual, morador constante dos oníricos enlevos femininos.  Aliada a uma nova e inusitada conduta, desenvolveu excêntrica habilidade: nele despontou o Dom da Metamorfose, com que a Natureza igualmente contempla os Camaleões.
                        Assim, nos fins-de-semana era um reprodutor de pelagem branca, pele rosada e olhos castanhos, como um Old King, filho de pai árabe e mãe Morgan... Ora se tornava igual à maioria dos celebrados Xanthos, cavalos de carruagens gregas, pelagem baia. Ou também ficava parecido com os modernos cavalos Palominos, cuja pelagem tem diversos tons de dourado e cujas crinas, em festa ao vento, são reflexos de prata.
                        Não escolhia dia certo para essas transformações... Quando se manifestava negro, com crina e cauda longas, não diferia de um grande pônei Fell, tão ora Viking, ora Celta... Então era capaz de percorrer mil metros em três minutos... Apesar da impontualidade, isso ocorria às segundas-feiras. Às vezes chegava, geralmente às terças, roxo, com grandes olhos baixos, de aguda visão, pequena cabeça, maçãs salientes e pequenos focinhos: ele mesmo, em outra cor! Então, apesar de excepcionalmente veloz e vigoroso, nessa versão Tremoço era frugal e apenasmente herbívoro...
                        Quarta e quinta, despontava como um Pampa, cavalo com manchas de leopardo: a gente o sentia como um Appaloosa americano, desses usados pelos peles-vermelhas. Nessa incorporação de faroeste, quando assim se dissimulava antes que o terror por sua simples presença se espalhasse por toda Coivaras, ainda se podia vê-lo, lindo, pictórico, galopando com as patas dianteiras, e trotando com as traseiras, acompanhando com a cabeça o ritmo de cada movimento...
                        Mas, às sextas era um verdadeiro garanhão de Viena. Aí se tornava possível vê-lo, de manhã, preto retinto; passando ao meio-dia para tordilho. Já à tardinha, estava inteiramente branco, cruzando a meia-noite com uma bela cabeça negra. (Nessa última coloração, amiúde, fazia suas incursões noturnas e fulminantes até as fazendas da região, quando, não sem razão, nós o confundíamos com a Mula-Sem-Cabeça!)
                        Muitos afirmam que sua presença rescendia a velório e que nos orifícios por onde a bala o transpassara, já então existiam flores como numa lapela: de um lado um cravo vermelho, do outro uma rosa azul...
                        A gente conhecia de longe quando o Malfeito era serviço dele. De animal semovente só respeitando as Grandes Mulas... Numa fazenda visitada por ele, além dos estragos materiais, ainda fazia “aquilo” com suas vítimas, que morriam de puro apavoro... Sim: descontados os exageros (tem gente que jura de mãos postas, pedindo de castigo um raio divino sobre a nuca) contam que ele galopava pelas chapadas todas as noites em busca de uma ração fantasma, soltando sangue pelas ventas e pétalas pelos flancos.  E mais: voando como um Pégaso, libertava as éguas de todos os currais que encontrava e as tangia até longínquos precipícios. Ali, fazendo dos abismos seu Altar de Sacrifícios, ele as lançava sistematicamente, após cobrí-las com asinino garbo e humana ânsia...
                        Graças a essa mórbida mania ele não deixou a desgraça de uma posteridade...
                        Por todos esses verdadeiros fatos e principalmente porque ele principiou naquele estranho vício canibal, perseguindo e devorando tanto os cavaleiros de cor, como suas montarias aflitas, deu-se então a famosa Caçada do Chapadão dos Cupins...
                        Uma verdadeira guerra travaram os homens com o Maníaco Garanhão. Foram inúmeras as mortes por todos os lugares que sofreram a maldição de seus ataques raciais... Tiros, biocos, espantalhos, zagaias, fogo, cachorros, água, reza, mandinga: nada espantava a fera! Até a artimanha estratégica duma égua mecânica, provida de vagina-armadilha, foi usada sem efeito algum.  Aliás, com um efeito desastroso: Tião Cupim morreu esgotado após ter seu membro decepado pelo engenho! Mas usaram toda espécie de recursos. Os negros pintaram o couro, tentando corrigir a pigmentação natural. Debalde: ele percebia um crioulo à distância!
                        Por decênios a região esteve deserta... Só após muitíssimos anos de perseguição, conseguiram acabar com sua sede de vingança. Envelhecido, foi capturado e vendido para corte: em Araguari virou salame de japonês.
Triste fim do medonho Tremoço, que passou à História como o “Primeiro e Único Cavalo Carnívoro da Lenda de Coivaras”...

latrínico


                        Naqueles dias se aproximava de Coivaras certa Miséria da Silva, seguida de um longo cortejo de horrores. Ali vinham calamidades de todo porte; acolá tenebrosas lesões comerciais, vaticínios de variado e negativo calibre. Problemas insolúveis, visitas escandalosas, sanguessugas municipais, embrionárias bigornas de borracha e outras várias coisas estranhíssimas, objetos ponteagudos e descartáveis, poderes falsos, magnos desalentos. O famoso Terror de Oliveira, com seu primo-primeiro Pânico de Souza, eram pressentidos chegando a trote ligeiro...
                        Por tudo isso, e diante da série de incompreensões, ameaças, suicídios iminentes, os adultos cederam. E uma comissão de cidadãos do distrito foi até o alcaide:-  Sua Excelência Major Juca Siqueira, vereador majoritário que era, mandasse soltar os meninos estabulados!  O abaixo-assinado-falado inda dizia que os menores vagabundos deviam continuar perambulando à-toamente, no diário e sempre, pelas ruas, ruinhas e ruelas, até que entrasse em vigor uma Lei, cujo teor dissesse: “Artigo Tal - É obrigatório o ensino primário dentro de um perímetro de dois quilômetros da sede de cada escola pública ou particular.  Parágrafo Único: Todo pai ou tutor que não der instrução a seu filho ou tutelado incorrerá na multa de Rs50$000.” (Consta que a ilustre Edilidade, no louvável empenho de desenvolver a instrução elementar em todo o distrito, num dia doze de dezembro houve por bem criar o diploma esperado...)
                        Assim que soltaram os garotos do lugar fétido onde estavam recolhidos como animais, o malefício que pairava por toda a região foi-se recolhendo em si mesmo e o Cone Maldito mudou sua posição no Espaço Sideral... Soltos os moleques, como por encanto o mundo virou outro! As cores se tornaram mais vivas e tudo adquiriu novo brilho! O ar pestilento foi-se dissipando lentamente dos ares coivarenses.  O característico odor de chiqueiro exalado do barracão, fedendo torturas e pecados, ócios adolescentes e palpitações incontroláveis, fugiu vagarosamente de cada recanto de Coivaras...
                        Curral do Concelho... O medo, a superstição e a ignorância não deixam interessado algum comparecer ao leilão que vai transcorrendo com mínima assistência... O pregoeiro vacila... Primeiro foi o burro malandro e desqueixado. Depois as cabras também empacaram... Agora as terras também não saíram! Os animais parecendo amaldiçoados e as terrinhas carregadas de pragas-de-mãe!  Contudo o pregão tem de sair a qualquer custo! Mas como, sem arrematante e sem uma ofertazinha ao menos?  O leiloeiro, à vista da absoluta falta de lances, tem razões de sobra pra duvidar do acerto daquela decisão judicial...
                        Se ao menos o povo tivesse sonhado com aveia, aviso, balança, barricas, barranco, inda vá lá... Mas, por causa do sarau (na festa em homenagem ao time verde que venceu o vermelho por 3 a l!) todos dormiram tarde, sonhando -  conseqüentemente - com carnavais, ás de espada, baionetas e bacias vazias!  Esses terríveis presságios, lúgubres desígnios de público conhecimento e geral aceitação, têm o mágico efeito de contaminar os ânimos e desanimar os contaminados...
                        Até os meninos, já agora depois de livres e fora do Barracão, passaram a sonhar com quadrís, pus escorrente, infestações de pulgas, coroações reais, quedas em precipícios...  E, sonhosos, os sonhentos misturam nos oníricos enlevos, grajéias com burros gordos, pacotes de pregos com braços cabeludos, botinas sendo descalças com braseiros acesos, borboletas pimpalgando com bois pintados, bocas sujas com bonecos dançando sob pancadas, amolação de canivetes e feridas de punção, viagens de caminhão com taradas abordagens, sodomitas relações com visgo nas mãos, odores característicos com carneiros mamando, cavaleiros a galope.
                        Um cavaleiro se aproxima num galope vertiginoso, gritando ao Pedro-Quem-Dá-Mais: “O Lamão Garção chegou na Jardineira!” (E é bom que se diga: aqui só tem uma condução pra fora: no dia que vai, não vem e no dia que vem, não vai...) Então Pedro Pregoeiro grunhiu pra si mesmo: “Esse desgraçado sumiu da noite pro dia, não pagou ninguém, deixou de garantia esse burro desvalido, essas duas cabritas secas e o casebre por cima daquelas terras cheias de porcariada de Barzabu por debaixo!”
                        Isso assim dito-pensado numa cara de ódio líquido, pois ele sabe que agora, já em segunda-convocação, os bens serão arrematados por quem mais der, por mínima que for a oferta! “O filho-duma-puta achou de voltar e chegou bem na hora exata!” -concluiu resmungando o Cefas do arraial...
                        Daí a pouco o Garção, a troco de dinheiro miúdo, coisa de banda-de-capado, rematou suas terras, as bodecas e o mulo.  Quites com a Justiça, agora lá vai o Sem-Nome, pro sítio aziago que habita, entre o espírito da Natureza e a mente fantasiosa dos homens... (Quanto aos credores, logo se engalfinhariam em demoradas demandas na partilha do pouco auferido com o leilão dos bens que lhe penhoraram!).  Engraçado: o que aos outros parece ser uma muralha de indagações e mistérios, para ele é um tecido esvoaçante de fina renda e odoroso cheiro... “Conhecer os mistérios do crepústulo às vezes ajuda!”- vai pensando o Justo, enquanto segue para seu rincão e garantia no trote sacolejante do burrico...  A ele, por saber viver melhor que alguns, a percepção das verdades exaladas de antiquíssimas descobertas é tão natural como defecar de manhãzinha...  Mas o mundo repudia qualquer revelação direta, sem artifícios, e parece ignorar os enigmas que já portam decifração.
                        Adiante, avisados em sonhos, os meninos o aguardavam. Logo o ladeiam, fazem festa, e pelo caminho vão cantando alegres, comemorando sua volta... Quando estavam presos por vadiagem, pequenos furtos, masturbação e atentados ao pudor, ele foi o único que combateu tal método tão errado e desumano de educação reclusa.  Fez pronunciamentos longos e inflamados em locais públicos e privados, protegeu e escondeu menores perseguidos, prometeu denunciar às autoridades maiores o tão berrante abuso contra a liberdade das crianças...  Todos riam, a princípio. Depois, com o saco-cheio, puseram-no no “gelo”, isolando-o.  Ninguém o ouvia nem cumprimentava.  Logo cortaram-lhe o crédito.  Só, cercado da animosidade de toda a gente, mergulhou no mundo do silêncio até que, sem mais o que comer e sem mais poder conter os credores e nem poder pagar o que devia, certa vez anoiteceu e não amanheceu no arraial de Coivaras... Demoraram a dar por sua ausência, habituados que estavam a ignorá-lo. Capturaram-lhe os três animais leiloados posteriormente.  Arranjaram papéis e advogados de fora para tomar o que era dele, levando tudo à praça.
                        Depois que o Bom se fora, expulso pelas contingências, os meninos começaram a agir, no cativeiro, por sua própria conta.  Sim, pois ele já os havia iniciado em alguns mistérios e orações, cabalísticos na fórmula e exatas no resultado! Noite adentro recitavam lamúrias e abracadabras de arrepiar os telhados do arraial, por sua melodia e afinação primorosas...  Foi nessa época que a atmosfera de Coivaras se localizou na zona conhecida por Astral Inferior, ou seja, a zona delimitada pelo Cone de Sombra que o planeta projeta no espaço neutralizando influências positivas do Zodíaco...  Nessa região espacial existem -segundo dizem-, os instintos daqueles que faleceram joguetes das baixas paixões, mais os restos ou andrajos de proteus astrais, mais os corpos fluídicos dos animais e os pensamentos e desejos intensos de todos os seres dotados de inteligência, e já revestidos de matéria astro-orgânica...
                        Os meninos, no estábulo, intuíram tais presenças e perceberam, nesse depósito sutil e inesgotável, diversas entidades tanto possivelmente evocáveis, como facilmente controláveis...  E logo puseram mãos à obra, em oráculos onde conversavam e tramavam com fantasmas horríveis, ogros disformes e ilusões dotadas de fâneros frontais...
                        Com isso, lentamente, se aproximaram as Parcas, os Chevesques (vindos de fundas grutas localizadas no oco das serras), um Abominável Homem das Neves -reclamando demais do calor dos trópicos-, uma Barra de Ferro-Gusa imantada de fluídos cósmicos enferrujados-, um Metalúrgico Inconformado, uma Professora Mineira substituída, duendes, fadas e os ordenados de Chodar, o causador dos fenômenos prodigiosos!  Coivaras mergulhou numa época de chivados e assombramento como nunca houve em sua história!
                        Pelas frestas, os mais corajosos podiam ver, espreitando incógnitos, em inusitados lances, a lindeza e o colorido de tudo o que ocorria no interior perfumado do barracão: os garotos levitando, asas de anjos às costas, tocando harpas em túnicas acetinadas e alvíssimas...
                        (Alí não é o Juquinha-do-Neco, traquinas e punheteiro? Como pôde, sô, virá anjo voador assim?... Alá, ói, o Ditim-da-Norfa, ladrãozinho conhecido, um sem-vergonha, pretinho catarrento, como assim cantando, anjal, num coro de moleques anjolinos? Ixe! Talí, ó, o Cazu-Quitério, anjóide arteiro pode haver?...)
                        Mas, após a chegada de Abigor e suas Legiões, alguns curiosos, hoje frenopatas, puderam vislumbrar -e foi a última coisa que viram -, no meio dos gemidos, do fedor e da fumaceira, os meninos, num improviso, logo rabudos e sorrateiros, chifrosos, tramando ali dentro diabólicas obras, fazendo poções em transparentes caldeirões, brandindo mágicos bastões... (Sempre trazendo raízes e ramos da Sensitiva, tiram-se mutualmente as dores, com toques duma linda aélita...).  Mas, bebido o filtro maldito, viram danados do inferno!  E logo estão gritando em coro, mudas línguas mortas, assim em latim, desaforos conhecidos e estranhos, vertendo para o nosso entendimento segredos dos Quintos!  Blasfêmias, sigilos, traduzidos adultérios, tudo soletrado num vozeirão de mil vozes, saindo amplificado do Barracão para a vila, como em alto-falante avantajado, contando segredos de alcovas e práticas conjugais condenáveis...
                        Inconfessáveis tendências sexuais postas à luz, os momentos de tensão foram se tornando incontroláveis em cada canto do arraial. Brigas de família, revoltas femininas, cornos à mostra, tudo resvalando para o terreno da baixeza humana que todos procuram, em todas as épocas, esconder do público!
                        Os garotos, lentamente, foram se aprimorando... E muitos deles, lúcidos e maléficos, das trevas da abstração chegaram às luzes da especialização... Tanto que, quando saíram, alguns manejavam, com perícia inigualável, o condão da magia negra!
                        E não foi uma vez nem duas que o povo ouviu - muitos chegaram a ver!- um cavaleiro de negras vestes, montando um animal preto como o ébano, levando na mão direita uma lança, galopeando pelas ruas poeirentas do lugar, à frente de milhares de seres igualmente encavalados...  Estes não diziam palavra -consta- e repetiam apenas um zumzum, estranho som, ruído inimitável: a-bi-gor-a-bi-gor-a-bi-gor-a-bi-gor...  Essa legião, quem cheirou percebeu, também fedia a humano esterco e enxôfre puro! Depois que os demônios passaram, nada parava no lugar, nenhuma dor conseguia ser segurada, nenhum remédio fazia efeito.  Quem tinha que morrer morria, quem tinha que nascer nascia!
                        Foi depois que essas estranhas passeatas de seres diabólicos percorreram as fazendas e toda a zona rural, que surgiu uma nova epidemia entre os bovinos, até então desconhecida em Coivaras, a qual todos denominaram “Febre-Aftosa”, cuja descrição pormenorizada não se fornece por se temer o contágio... “Enquanto sobrar algum resquício daquelas passeatas do Mal entre nós, a febre jamais será controlada e continuará dando prejuízo aos fazendeiros...”-costuma dizer o Lamão.
                        Ele sabia de tudo desde o começo! Eis que, nas antecedências, depois que fugiu das circunstâncias, e estando em distante terra, em casa alugada, deu-se que um dia o Garção foi à privada, com enorme cólica intestinal. Evacuou um grosso, doloroso, longo, sádico, excitante e fálico cilindro fecal que se enrodilhou no fundo aquoso da latrina, como um peixe em seu ninho. Ali nidificou por seis semanas, sem perder o fétido aspecto nem o nauseabundo cheiro.  A metamorfose ocorreu ao cabo de dois meses, quando ele começou a crescer com um jeito muito felino nos contornos...  A água da sentina tornou-se esverdeada e rescendia ora a vômito, ora a pus.  A massa tinha uma luminosidade própria e característica.  Um estranho cordão umbelical surgiu certa manhã, ligando o estrume crescente à parede de louça.  Já então o Garção, receoso e respeitador, temendo um abordo ou nascimento prematuro, deixou de usar o recipiente para suas necessidades. Quando o volume chegou às bordas da cloaca e já se ouviam algumas batidas de som grave e peculiar, e se percebiam nítidas pulsações quase cardíacas, nasceu dali um urso chifrudo!  O vaso sanitário quebrou-se como um ôvo, em mil cascas...
                        O Justo, ultimado o parto, jactou-se da paternidade, mijando sobre a criatura medonha à guisa de batismo... A seguir cingiu-lhe o pescoço peludo com uma coleira trabalhada em prata nobre e atou-a com um grilhão enferrujado a uma laranjeira-em-flor do fundo do quintal.
                        No dia seguinte, ao alimentá-la, quase fica sem o braço, que a fera ia engulindo sem a menor cerimônia.  Ela atingiu a idade adulta no mesmo dia do nascimento.  Desgostoso, Lamão largou-a à própria sorte.  Não recebendo trato, infinitamente esfomeado, o bicho fugiu, arrebentando a corrente, a árvore, o quintal, a rua, a região, a paisagem, e tudo o que encontrou à sua frente, com uma fúria de setecentos e quinze milhões, trezentos e quarenta e cinco mil e vinte e sete demônios alucinados...
                        O Calado lamentou sua ida, mas como comentário, sobre os destroços que se esparramaram como cinza desde seu quintal até a cratera por onde a besta se escafedeu terra adentro, deixou cair apenas esta frase lapidar: “O que veio da bosta, que vá à merda!”
                        (Foi assim que daí a três dias, lá em Coivaras, o povo -após a explosão de uma Casa Terremótica- começou a ouvir e a ver o noturno séquito do demônio Abigor...)
                        Ah, ainda deve ser dito que, após resolvido o caso dos meninos, provisoriamente entregues à custódia do Lamão - graças à Edilidade que o contratou como professor tempos depois-, ainda sofremos a famosa Praga dos Sete Galos...  E que daí pra frente, como vítimas de exótica maldição, todo o povo das fêmeas começaram a sofrer estranhos sonhos eróticos.  E para sempre continuaram sonhando viscosidades, urucubacas enrabantes, estranhas visitas oníricas de noturnos Tapa-Ocos que, filóginos e dotados de insaciável volúpia e ferozes falos, continuam vindo, infernais, gigantescos, taradamente jegues, para copular, nos pesadelos, com a gente das viúvas, casadas, moças e meninas do tranqüilo arraial das Coivaras...

crepúsculos dourados


                        - O senhor pode lembrar, seu Cogé: o padre chegou, fedendo como sempre, e me pegou mexendo no cofrinho da igreja.  Veio por detrás e foi falando:
                        “No que está mexendo, Firmim?”
                        “Tento abrir o cofre, padre Plim. Sua bênção!” - eu disse.
                        “Só eu tenho a chave. Com esse canivete não adianta pelejar, você me estraga a fechadura.”
                        “Me empresta a chave?” - pedi.
                        “Espera um pouco, vou buscar.”
                        - Eu fiquei esperando, pensando:  “que padre bom!”... Logo daí uns vinte minutos ele chegou, catingudo na rotina. A “chave” dele era o Cabo Borges! Foi me agarrando p’las orelhas e eu fui indo, andando nas pontas dos pés...
                        “Mendigo duma figa, ingrato!  O padre deixa vocês ficarem aí na porta da igreja arranjando algum e é essa a paga?”
                         “Caborjão, foi seu Congeto!” - gritei.
                         “O quê?!  Ele agora anda ensinando você a roubar?”
                         “Não, foi o seu Congeto que está muito doente e o dinheiro não deu pra gente comprar a form’la de remédio na Botica.  Foi isso. Preciso arranjar emprestado mais algum com o Santo Divino!  Era só emprestado!”
                        - Ah, seu Cojé... Esse emprestado me deixou um tempão de molho, preso no estábulo, sozinho. Aquele Barracão ainda fedendo, do tempo que os meninos estivemos presos lá...  De noite tudo ficando esquisito, credo! 
                        (O rapaz, - quem via de longe, pensava - falava sozinho.  Mas não:  o velho ao lado dele é que não respondia, a não ser por monossílabos.  Parecia, presa de algum estranho estupor, distante, inacessível).
                        - Fala mais, menino.  Só assim eu posso acreditar.  Fala!  -  disse então disparado, saindo e logo voltando à esfíngica mudez.
                        - Pelo que o senhor me contou-e-já-esqueceu, posso dizer que a casa tinha servido durante muito tempo como Casa Paroquial de Coivaras, residência oficial dos vigários das almas dos seus antepassados.  Eram muitos os cômodos: quartos, salão, copa, sala, corredores, vestíbulo, oratório, cozinha, despensa e outros sítios  -  começou dizendo o rapaz, pela enésima vez, iniciando a história que o velho gostava de ouvir...
                        - Depois dos padres, - continou ele, - moraram outras gentes.  Mudaram.  Compraram.  Venderam.  Aí o senhor comprou.  Vendeu as terrinhas e comprou, Seu Congeto, com dinheiro vivo.  A casa tinha ficado fechada por muitos anos, esperando reformas e retoques.  Mas tinha sido bem construída.  Quem a fez comprou todo o madeiramento, de lei, da Companhia. Grandes quadretes lavrados a machado, madeira da boa, puro cerne da Serra, traçada no grupião.  Um metro por face! A firma havia adquirido do Espólio de Rosendo Gentil... Depois de esquadrejados de meio metro, cada um se tornou quatro.  Antigas pranchas que serviram como assoalho, ali serviam de vigotas!  Êque madeiraão!
                        (O velho Congeto esfregava as mãos, à possível lembrança boa...)
                        - No comecinho, bem inhantes, o senhor começou a crer que ela tinha sido construída em cima de algum Campo Santo, um cemiterinho desses antigos, que não tinham duração definida...  Outros até apostavam que fosse por causa de grandes ocas de formigueiros ativos, soreando arredor dos alicerces, dono relaxado não cuidando de extirpar...
                        - Mas uma coisa todos recordam: a primeira racha nasceu na noite em que o Lamão fugiu de Coivaras.  Desde então, muitos juram ter percebido odores fétidos nas imediações.  Era uma conversa só:
                        “Catinga filha-da-puta!”
                        “Êta velho nojento, não limpa a casa, suja por todo lado!”
                        “Ô bosteiro dos infernos, deviam dar um jeito nisso...”
                        - E o senhor não pode negar: sempre foi um estranho fumegar de fumaças pelas frinchas enfeitiçadas...   Depois, sua morada começou a sofrer de um vulcãozinho crônico que, em temporonas mini-erupções, sempre trazia de volta as rachaduras que o senhor tinha mandado cobrir de reboque.  Logo senhor deixou de lado essas reformas inúteis...
                        (E o velho meneava  a cabeça, com desolação...)
                        - Alguns macumbeiros viram, na violência e no fedor da primeira erupção, um jorro de demônios carecas, pelados, friorentos, de mãos aladas...
                        (Foi quando veio o irmão dele,  Jojó Bertolino, para levá-lo dali.  O velho Congeto teimou.  Deu nisso:  começou a sofrer de cataratas; um chorume fedido lhe escorria como uma baba pelos dois olhos, fruto - certeza!  dos vapores ácidos vindos do chão.  Congeto, com o tempo, viu que a casa não tinha nada de benta, por ter abrigado padres...  Aliás, pra comprovar, lá se hospedou também Santa Zulmira Laffaiete,  quando esteve em Coivaras pela última vez e, pelo que dizem os antigos, depois disso ela caiu-na-vida lá na Capital...)
                        Assim, a casa, presa de um sempre encantamento, se exibia repleta de fendas estruturais que, nascendo dos alicerces, se projetavam paredes acima, como relâmpagos  impressos no reboco...
                        A cada estremecimento, novas falhas se abriam...  Vibravam janelas.  Os vidros, coloridos, novamente se soltando, estilhaços na calçada.
                        - Macias Florêncio garante, inda hoje, seu Cojé, que certo dia ao olhar por uma greta dentro do quarto da esquina, ouviu uma voz fumaçosa dizer-lhe, gutural, fedorenta e urbana: “ Vai tombando, jacu!”
                        (Quando a notícia correu, novamente veio Seu Jojó: “Vamo pra roça, Congeto.  Não tá certo ficá suzim nesse casarão, isso tá querendo cair, essas paredes rachadas, homem de Deus!”)
                        - Senhor me contava e ria muito, seu Cogé: a Nica Sofusa, rendeira curiosa e fofoqueira - já morreu, que Deus a tenha!  - jurou até a data de sua morte que um dia, olhando por uma ruga da parede padecente, teve a infelicidade de ouvir, entre muitos xingos, uma frase cabeluda onde ela era convidada a receber “por baixo da saia, na faia onde a madeira trabaia, nesse ninho de lacraia”, uma varada dum jegue alucinado...
                        (Aí o velho tentou se livrar da casa.  Mas devia ter tentado antes do que aconteceu à Nica.  Isso, nesse nosso lugarinho, onde a gente trocando duas éguas já fica logo compadre, é decisivo para condenar uma pobre casa à demolição.  Casa falou, pariu sombrações, fantasmas: acabou! Uma pequena anomalia dessa, como deixa essa gente implicada, meu Deus!)
                        - Pouca gente se lembrava que a casa, bem antes de ser do senhor, tinha sido do afamado Ampenor Tereira, o abastado coronel  que a construiu...  Muita gente fina vinha de longe pra avistar, não digo o homem, mas ao menos a casa do Homem-Que-Tinha-Mil-Contos!  Ele ficava no salão e, com um arcabuz carregado até à boca sempre ao alcance das mãos, o Coronel Penor garantia num vozeirão engomado:  “ Do homem por onde passá as bala dessa colubrina, só vão aproveitá as botina!”
                        (Alguns iniciados, entendidos do ramo, diziam que na casa malassombrada havia um caminho para o Inferno!  Que os estremeliques eram pequenas evasões de danados que conseguiam aflorar à superfície...  Contra essa crendice tola, os céticos cientistas do estrangeiro, em reposta à série de indagações que o caso foi acumulando com o tempo, argumentavam:  “À luz da Ciência, da Geologia mais especificamente, isso não é nada mais que Miniterremotos Eventuais, caso raro e talvez único no Século, em todo o Planeta, onde se pode observar a natureza contendo sua própria força indomável...”)
                        (Mas a realidade era essa:  do cachurrim Lulu, que entrou pra mijar por uma brecha da casa, dona Zefa Misofante só arrecadou de volta, num improviso de segundos, um esqueleto de cão amarrado na fina coleira,  portando porém intacta, acusativamente fálica, uma entumescida língua roliça, gonocócica, rosada e babenta...  Piranhas invisíveis?  Ácidos cósmicos?... O povo é incorrigivelmente supersticioso...  Porisso, até os bêbedos, já nem dando côr de si, davam um jeito de melhorar ao passarem por ali perto.)
                        - Após a primeira erupção, quando seu Jojó,  hoje finado,  - que Deus o tenha!  - veio lhe chamar para ir embora de lá, uma colunazinha de fumaça e vapor ficou pairando a uma altura de quinze metros...
                        - Dezoito!
                        -Me adescurpe, ... dezoito metros por sobre a casa, como se roçando a copa da maior mangueira borbom do quintal.  Lentamente foi subindo já na forma dum charutão apagado.
                        (Ao atingir uma altitude de cento e três metros, na sexta semana seguinte, o trem tornou-se um zepelim e saiu por aí procurando o que fazer... Sabe-se que prejuízos constantes obrigaram o velho a abandonar a casa...)
                        - Valia muito dinheiro, mas ninguém quis comprar, seu Cojé!  Era muito bem construída, postada com respeito e parcimônia numa esquina da Praça da Matriz, o Largo da Independência, bem em frente do Pelourinho já em desuso...  Mas o que lhe restava fazer, após tudo aquilo?  Olha o empréstimo no que deu! 
                        (Aí o velho cobre o rosto com as mãos e parece querer sumir desse mundo.  Geme!)
                        - Miguel Corroscuba, entifruçado crônico, tentando se aproveitar do vapor, a ver se curava seu manhoso resfriado, foi até à casinha que os vicentinos tinham cedido pro senhor morar por uns dias.
                        “Dias, seu Congeto!” - ele cumprimentou.
                        “Bom-dia, Miguel!”  - eu repondi -, disse o velho, revivendo o diálogo de então.
                        “Senhor permite minha entrada na vossa casa, por uns dias, ver se aquele vapor me cura do tifruço brabo?  Levo mudança não.  Entro e saio, um pouquinho cada dia...”
                        - Senhor deixou, na boa intenção, seu Cogé!  Hoje se arrepende, mas não teve culpa: ele ia entrar lá mesmo que não tivesse ordem sua. Ele tinha sido tentado, sem apelo...
                        (Nos três primeiros dias ele experimentou melhoras.  No quarto não saiu de lá. Estranharam o sumiço do Corroscuba... Daí dez dias, arrombando a porta da cozinha, eles o acharam.  Um legista, vindo a mando do juiz da comarca, confirmou que, apesar das queimaduras, sua morte se originou de uma asfixia causada pela entrada de gases e poeira de cinzas nos pulmões...)
                        - Mês e pouco depois do enterro, ainda intrigado, Cabo Paco resolveu reinspecionar o “local do crime”, segundo ele.  Na surdina, ali entrou.  Depois, - foi uma noite inteira! - até que o povo reunisse coragem para poder entrar, após ouvir seus gritos e reconhecer sua voz clamando na noite, foi um carreirão pela cidade.  Ninguém se resolvia a entrar pra ver o que estava havendo...  Por fim, alguns se mexeram, solicitados pelos dois praças comandados do Paco...
                        (Em meio à multidão de cômodos desbarrancados, crateras fumacentas e fedorosas, demoraram um outro tempão pra achá-lo.  De madrugadinha tinha voltado o silêncio e encontraram-no já desmaiado, na copa, pernas estranhamente retorcidas.  Bem que tinham até há pouco ouvido seus berros, falando fustigos verbais, coisas ininteligíveis...  Não conseguiram levantá-lo do chão.  Seus pés estavam enterrados - até a altura dos tornozelos - no cimento dum piso nitidamente recém-construído.)
                        - O Justo, um dia nos explicou, muito mais tarde, que foi assim: “ele deve ter aberto uma torneira que tinha por lá!...”
                        - Como o senhor disse que ele jurava ter aberto, não seu Cojé?
                        - E continuou o Lamão:  “... e só a muito custo conseguiu fechá-la, emperrada que a encontraram depois... O chão se alagou rapidamente.  Em segundos, as cinzas vulcânicas, que se amontoavam por ali, ávidas por hidratação, se misturaram à água.  Aquilo se transformou numa lama e essa, numa secagem rapidíssima, se tornou cimento super-endurecido, devido ao seu grande poder de fusão.  Tudo assim num passe de realidade, nessa casa já tão mágica e trágica...”
                        - Os pés, grangrenados, sofreram a devida amputação.  O policial durou pouco e viveu o restinho de seus dias gemicando em dores...  Para o lugar dele  destacaram esse Caborjão.
                        ( O rapaz continua contando pro velho o que este sabia-mas-esqueceu...  Ele gosta de relembrar isso também.  Costuma dizer ao outro:  “Foi uma bênção do céu o senhor ter saído vivo daquela morada, seu Cojé! A cegueira, o azar, o afastamento dos outros, tudo junto me fez ter dó do senhor. O Lamão, lá de Santa Rita, me mandou tomar conta de sua escuridão...”)
                        (Assim que o soltaram, ele se tornou guia do cego.  Com ele decocou muitas, inúmeras vezes à porta da Matriz.  Andaram pelas fazendas esmolando, mendigaram em dia de Finados, viajaram milhares de quilômetros, a pé, cortando serras, procurando festas, dormindo ao relento, tomando chuvas, crestando-se ao sol...)
                        - A casa não tinha jeito...  Padre Plim benzeu, rebenzeu e nada! “De longe, benzeção não pega nessas coisas.” -  lhe disseram.  Aventurou aproximar-se.   Foi tentar de perto, mais pessoalmente.  Uma imprecação o recebeu, infamante, fazendo desonrosas menções ao uso da batina.  Logo rumaram nele uma pedra.  Ele teimou.   Responderam em latim à reza, e uma saraivada de peidos tornou insuportavel a presença dum ser humano naquele lugar.  Quando o sacerdote voltou sangrando, impotente e vencido - porém vivo! -, suas vestes estavam enlameadas de  humano adubo...  Consta que perdeu a fé depois disso e, rescendendo sinistro enxôfre, conculcado, profligado pelo Asqueoroso, tempos depois abandonou nossa paróquia!  Não se apresentou nem ao Bispo...
                        (Mas a casa, apesar desses horripilantes episódios, só começou mesmo a apavorar toda a população quando principiou a crescer do chão.)
                        De repente o velho interrompe a narrativa do rapaz:  “Bem feito pra ele!  Pra que chamou o Borjão e deixou fazer aquilo cocê!? Sem coração!  Implorei pra ele te soltar...”
                        - Também eu, quando fiquei sabendo, achei merecido o banho de bosta! Só eu sei o que já tinha passado lá no Barracão inhantes...  Até comer me comeram, os maiores.  Uma fila deles.  Chorei gritei, ninguém apareceu...  Revoquei aquilo tudo... Enquanto me sodomizavam, um vigilante se postava.  “Não se esqueçam de mim.  Também quero!”, dizia ao se dirigir ao posto de sentinela.  Só depois que arrumei  o estilete e a ponta de faca é que me deram sossego...  Um dia Major Siqueira veio vistoriar.  Soldado Belmiro com ele.  Mulher dum fazendeiro, que não sei.  Mandaram chegar perto, perfilados sob a luz.  Viemos: olhou nossas cabeças, mandou jogar um pó catingudo.  Viram as petéquias: percevejos.  Ajuntaram nossas cobertas.  Mandaram levar os colchões pra fora.  Alguns quiseram fugir, outros praças por perto logo capturaram.  Quando entrei novamente, eles falavam num canto.
                        “Qual a senhora escolhe, professora?”
                        “Qualquer um dos grandes.” - ela respondeu.
                         - Firmino! - me convocou.  “Esse não é grande mas é bom.” informou.
                         “Serve.” - disse a mulher.
                         “Não esquece de me chamar quando vier trazer.  As chaves estão comigo.”
                        (A mulher o tomou pelo braço e ele a seguiu rumo ao charretão).
                        - Me levou junto com aquela rouparia fedorenta até à beira do ribeirão.  Trabalhei de lavadeira o dia inteiro.  Era castigo por já ter dado sem querer?  Nada disso...  A mulher, de noite, em vez de me levar de volta pro Barracão, levou pra casa dela.
                        “- Vou te dar comida decente, menino.   Senta aí enquanto arrumo.”
                        A mulher estava sozinha comigo, seu Cojé!  Depois da janta eu tava doido pra dormir, cansado com o trabalheira, lavar, torcer, estender aquela roupama sozinho...  Ela arrumou uma cama grande, num quarto nos fundos.  Mandou eu me deitar.  Apagou a lamparina e fechou a porta por fora.  O quartinho não tinha janela.  Era alto e não dava sinal de deixar a gente fugir.  Dormi.  Mas, surpresa e terror, num instante que eu sonhava que era um galo comendo milho, senti uma brisa entrando no quarto e me gelei.  U’a mão me alisava as coxas e por entre meus bagos a seda duma pele fazia carícias.  Fiquei mudo de surpresa, medo e tesão...  Logo um corpo se ajeitou ao meu lado e pegou minha mão colocando-a sobre um seio arrepiado de frio.  Meus dedos depois passearam entre matas perfumadas, sentindo o visgo cheiroso e acetinado com que as vaginas brindam seus invasores...
                        “ Moleque sabido.  Sabe direitinho bulinar uma mulher...  Vem aqui pra cima, vem...”  - a danada me exigiu.  Trepei nela a noite inteira.  Ela me queria engulir, de tanto apertão.   Era um fogo só, seu Cojé!
                        (Nessa hora o velho exibiu uma luz no semblante, à quisa de fogo perdido; coçava o escroto sempre nessa passagem, como se tivesse entre as pernas alguma coisa ainda útil...)
                        - Eu tinha sido o primeiro.  A mulher gostou.  Depois, a turma fazia fila pra ir lavar roupa.  Virei herói entre eles...
                        (A casa quando principiou a se erguer do chão, deu de inchar; apitava, emitindo sons funestos, sibilos de arrepiar.  Parecia flutuar sobre uma bolha gasosa gigantesca!  Ora retumbava como se produzindo trovões, ora relampiava rabiscos e coriscos pelo ar circunvizinho, num espetáculo pirotécnico indescritível e aterrador...)
                        - Me lembro bem daqueles fogos, seu Cojé, por causa que ia fazer seis meses que, por causa da gente,  haviam expulso o Lamão coberto de opróbio...  E ele, quando voltou, revelou apenas para alguns de nós (Os que tínhamos comido a mulher!):  “aquela tinha sido uma Casa-Em-Preparo *...”
                       
( *  Foi duma hora pra outra que dali brotaram hordas imundas, demônios e diabos em descabida cavalhada, seguindo a mais linda capeta-amazona já surgida das Profundas até aquela noite:  Rogiba, a rainha das Trevas...)

                        (Naquela noite enlumbrinada quando isso se deu, - (Brrrr! Como fez frio lá no Barracão!)-, o curioso povo de Coivaras nem notou que a onda de enxôfre fervente se pôs a babar por todas as janelas da casa.  Não houve tempo pra se ver: um terremotinho causou a avalancha do telhado.  Gases explodiram levando cinza superaquecida a uma altura de três quilômetros.  E uma chuva de insólitos detritos caiu sobre a cidade durante uma semana.  Em diversos pontos dos arredores, chegou a atingir uma espessura de 50 centímetros uma certa estranha e endurecida neve composta de excrementos, cinzas, canivetes, pássaros, pequenos animais e insetos petrificados, enfim uma infinidade de seres, coisas e nadas.  Nuvens de coloração preta e amarela, resultantes da Grande Explosão Final da casa, permaneceram por oito dias no Oriente até completa exalação.)

                        - O Bom nos explicou depois: foi por causa dessa grande erupção - que ele mesmo classificou de ‘piroplástica”  devido à ausência de lava derramada - que a partir de então nós começamos a vislumbrar por entre as grades do Estábulo, durante semanas seguidas, os espetaculares Crepúsculos Dourados.
                        (Depois dela nenhuma árvore sobrou no quintal da casa.  A onda de choque da convulsão geológica destruiu os abacateiros, as mangueiras, cajueiros, goiabeira, o mamoeiro, bambuzal e miloutras espécies vegetais.)
                        O velho chora algumas lágrimas azuis, misto de céu e pus...  O rapaz abraça aquela carcaça com amor:  aprendeu a gostar dele.
                        - Agora senhor sabe: nós fomos abençoados.  O Trem-Ruim andou solto, seu Congeto...  Mas o que ele te tirou com uma mão, devolveu com muitas! Veja, espia: se não acontecesse aquela tragédia - obra do Chifudo! - com seu único irmão e mais a família dele, o senhor ainda era um pedidor de esmola e eu, seu guia...  Mas agora, herdeiro de tudo, a Fazenda Saracura é sua!  Hoje, aí perto, no comercim do Indaiá, nenhuma moça é boba de enjeitar casamento com um rapaz de futuro como eu!  - termina o rapaz, dando ao final de sua narrativa aquele exato toque de feliz epílogo que todo bom conto-de-fadas deve conceder a seu ouvinte...
 
a corpórea lacração


                        Antes dos delirantes quinze dias de Guerra Universal em Coivaras (cujo saldo foi altamente fascinante pois limpou-se o ar, Lamão, retornado, compôs hinos heróicos - amplos, gerais e irrestritos -, e a criançada deixou de ser escória e passou a ser a esperança da nação Coivarense) as coisas não corriam muito bem para Rabelo...
                        Deixando esclarecidas por escrito as mortes da Fazenda Três Potes veio pra fazenda do Felipão Bueno, onde, segundo uns foi criado, segundo outros foi parido...  Em segredo, permanecendo sumido de circulação, apurando fatos desconexos, munindo-se de informações, descansava da longa viagem e das peripécias ocorridas no trajeto.
                        (Dizem alguns que essa viagem tão movimentada proporcionou-lhe o começo dos tormentos anais,  pois daí pra frente foi uma contínua procura de refrigério, uma sempre busca de barrancos procurando recantos com água corrente, sempre que fosse defecar, para garantir o alívio posterior das hemorróidas com um banho refrescante e a necessária assepsia daquela hérnia sangrenta...)
                        Ali na Capim Roxo, enquanto descansava, revocava Mariantônia...  Que eles nasceram e se conheceram aqui em Coivaras era sabido.  Que a jagunçagem e irregularidade em sua vida, as viajações e falta de tato com donzelas de recato não permitiram uma aproximação desejável, todos sabiam.
                        Mas quando ela se casou com Rigério Spadana e foram pro Sertão de Goiás apossar-se de terras herdadas pelo rapaz, ninguém soube que ele sofreu demais...  E mesmo assim deixara hibernando sua capacidade de amar aquela mulher.
                        Posteriormente, já viúva, Antônia veio algumas vezes até Coivaras com seu único filho, Lamberti, e o próprio pai, Cássio de Castro, que fora morar com ela quando enviuvou.  Em algumas dessas ocasiões seus olhares se reencontraram e a luz que trocaram foi a mesma de antigamente...  Em outras vezes ele não estava em Coivaras e, interiormente, ela lamentara essa ausência:  “Por que ele não deixa a safardana?”...  Da última estada em sua terra natal, Antônia, esbelta e bela nos seus quarenta anos goianos, foi além.  Mandou recado através um portador de confiança.  Endereço, rota pra viagem, pedido de correspondência, etc.  Começaram um namoro à distância, com vinte anos de atraso...
                        Agora ele nem podia acreditar...  Tudo não é apenas uma possibilidade; antes, uma certeza...  A mulher viúva, após casar seu filho, achando-se desimpedida em suas emoções, livre na condução de seu amor, lhe diz que também quer casar-se com ele!  Está lá, na carta, Antônia de Castro lhe dá o sim!  Que venha logo, traga seus pertences, acerte seus negócios, apronte documentos, ela o espera...  Ele nem quer acreditar...  Ao fim de uma demorada troca de cartas, a mulher finalmente aceitara seu pedido de casamento...
                        Já tinha se despedido de Penha, disfarçadamente, para não magoá-la.  Mas aí chegou Oraciano Covas e tudo foi adiado indefinidamente...
                        Agora, ali na fazenda onde se criou com o mano-amigo Maelinho, quando nem pode imaginar que daí uns dias um verdadeiro inferno vai lhe devorar a porção terminal do intestino, começa suas atividades...  Despacha algumas ordens e manda alguns recados com reserva de absoluto sigilo aos destinatários...
                        O primeiro e o mais importante dos comunicados foi rapaz Minduim quem levou - pra não dar na vista - até o Major Juca Siqueira:  Primeiro criasse o tal Ensino Primário no Município, alistasse a meninada, e depois mandasse buscar logo-urgente, em Santa Rita, o Mestre Lamão, fiel amigo, dileto companheiro de infância, (fechador de seu corpo, e também quem tão bons ofícios lhe prestara recentemente com sua mágica peixeira no quartim dos fundos do Marabá,) e o integrasse na Escola Municipal como primeiro Professor...  Foi assim que a Edilidade, no louvável empenho de desenvolver a instrução elementar em todo o districto, no dia 12 de dezembro criou o diploma encomendado...
                        Segunda ordem dada: um segredo!  Uns arriscam afirmar que aí ele encomedou e mandou erigir o Belo-Túmulo-de-Mármore-de-Carrara para seu amigo Maelim, com o dinheiro da Empreita Vingativa...
                        Terceiro recado: marcou encontro com o Sifirino Patrício, nego desobediente, num recanto. (Teimoso, depois de ter feito um acordo de honra com o Coronel, o Puto se negava a partir, azucrinando honras de Thomé Bueno).  Depois disso o mulatão resolveu-se a partir, conforme havia tratado.
                        Quarta ordem: fizessem chegar aos ouvidos dos informantes do Zé Ribeiro que a perseguição terminara por motivos políticos, etc, etc.
                        Quinta comunicação:  atendendo-a, esteve de visita na fazenda, o Boticário Soares, que o ajudou a confirmar certas notícias.
                        Vários outros despachos de menor gravidade emanou, tratando de preparar sua partida posterior, acertando pontos de apoio, prevenindo tocaias, despistando condição de víndice...
                        Apenas quatro pessoas o sabiam como ultriz naquele lugar...  Antes de partir da fazenda, e pelo muito que ficara sabendo e confirmado pela boca sensata e confiável do Soares, mandou Ogênio Carola matar o cafajeste Nego Tatu, filho de sua madrinha Diná, pelo mal que ele fizera à própria mãe...
                        Depois disso, Rabelo foi pro arraial.  Precisou hospedar-se na Pensão da Joana Beá, onde ficou de cama: começara seu calvário, devido aos tumores uvais...  Ele não se conforma:  houve sua jura, tem um ajuste a fazer, uma promessa a cumprir...  precisa raiar o Sol da Desforra!  Mas nem este elã...  Ele piora, vai de mal a pior...
                        Eis Rabelo suando frio, exangue, exauridas forças...   Os cinco indivíduos que o seguram com firmeza não são, como ele imagina, a chusma de biltres com que costumava inaugurar suas carnificinas antológicas...  São apenas vizinhos da pensão que ajudam a segurá-lo, a chamado de dona Joana, para a cura que esta pretende ministrar-lhe...
                        Enquanto o Soares da Botica lhe chega no traseiro o cataplasma fervente, pelando, que sensação hipnótica lhe acode à idéia?
                        E o que essa conróbia de falpórrias pretende lhe arrancar com essa tortura medieval?  Urra de dor!  Tudo gira, ave-maria...  Convulsões, gozo, frescor...
                        Então colocam seu corpo desfalecido no catre, em decúbito ventral.  Ele quer emergir desse mergulho na dor, quer voltar à tona das coisas intelegíveis, mas a cáfila de perversos o segura no fundo do poço...
                        Desde que chegou na cidade o hemorróides não lhe deu descanso.  Não acha alívio nas costumeiras mezinhas...
                        “Ô Goleto, traz aí pra mim umas folhas secas de alho:  duas cabeças.  Ah, seu João, senhor verá que é um santo remédio...”
                        “Vaporizar não convinha, Joana? A erva de cauda-de-cavalo aí na horta ainda tem prum pouquinho.  Pode fazer lavagem e banhar com ela!”
                        Naquele espaço de dores por onde flutua, Rabelo não ouve esses diálogos à beira de seu leito...
                        Noitinha, nada do homem melhorar.  Sangrando muito, contorcendo-se. Os assistentes vão perdendo as esperanças.
                        Amanhece outro dia.  A tarde logo chega.  O homem delira.  Vê nos circunstantes, constantemente, fontes de ameaças...  O misfifório de embusteiros, contudo só existe em sua febre ensandecente.  São outros vizinhos mandados chamar.
                        (“Tanto horror em sua mente só assim posso explicar, - disse-lhe depois o Lamão,  - é que você padeceu sonhos na mesma cama maleficamente imantada em que um dia delirou Selmeliza.  Foi nessa mesma pensão, o mesmo quarto, aos cuidados da mesma Joana Beá, os mesmos pesadelos...)
                        Então começam a preparar a Pasta Milagrosa!  O farmacêutico também voltou...  O medicamento é composto basicamente de espérgula, muerdago, milenrama, raízes de grama e sabugueiro.
                        (Nem o chá de erva-de-passarinho, nem a ansininha-milagrenta, nem a hera-terrestre, nem alforva com funcho, nem casca do azinheiro: até ali nada resolvera seus problemas, começados ainda na saída da Fazenda, em terras do Coronel Felipe...)
                        O Boticário, as parteiras, os curiosos, ninguém agüentava mais esperar, assistir ao prolongado sofrimento...  O homem perdia sangue demais!  Sua agonia incluía, em seu leque de padecimentos, já dois dias de jejum, à base de sucos, saladas cozidas, chás de dente-de-leão, de urtiga, de camomila com fumária, tudo preparando seu físico para o choque de contato com a Pasta Milagrossa, que, quando não mata, cura...  Enquanto esperam, seus vômitos são abundantes, talvez decorrentes da multidão de panacéias já tentadas.  Para ele não funcionaria o banho de vapor, com eucalipto, figueira ou  velpo, que é tão bom nesses casos? Igualmente negaram surtir efeito: os chás de cuminho, do louro e da belorita.  Era mesmo arriscar a medida drástica, conter a sangria!  (Carecia mesmo terem  usado a  “pela-saco”, a “cu-careca”, em vaporizações deploravelmente depilantes?...)
                        Ele, em seu delírio, apenas viu quando aquela malta lhe pôs a mão. Nada pôde fazer.  Estava mesmo na posse duma catrefa de celerados...  Não podia entender, na sua inocência padecente, o que fazia ali naquele valhacouto de gatunos...  Joana Beá vem rapidamente da cozinha com o cataplasma fervente, onde a matéria-prima do barro-cerâmica, tanto se alia aos benéficos efeitos da azedeira, como a um cozimento sábio de ervas milagrosas...
                        Quando lhe colocam sobre o ânus padecente a bolsa aquecida, a erva-de-cauda-de-cavalo faz efeito.  Ninguém consegue mais segurá-lo:  ele empina, resfolga, pinoteia, rincha, bufa e corcoveia até desmaiar.  Só então sua mente judiada vai-se livrando da facção de tracambistas que o cercavam...  Aí ele navegava no limbo.
                        Dia seguinte, aviltado, uma catástrofe instalada no próprio corpo, o doente se torna sinistro, gestos irados, devorado em febres...  Toscaneja amiúde, dormita levemente, assustando-se ao menor ruído no quarto...  Sabe, mesmo prostado: enquanto o mal não for debelado, continuando a fustigar suas forças, não pode cumprir ofícios...  E que lá na pedranceira, sumido nos brocotós, difícil de achar, ninguém colocaria as mãos no Assassim.  Encaramujado na serrania, enfurnado em grutas, o pérfido continuaria em ação, vivinho, destroçando vingadores inexperientes...  Vestido em ardís baratos, empregando seu tempo na espreita, o Ribeiro ia levando ao infortúnio iniciantes pistoleiros...  Até quando, com suas manhas e artifícios o biltre continuará comemorando vitórias, infalível na carabina?
                        Enquanto se restabelece devagar, inda derrubado ao leito, verberando com dorezinhas mais toleráveis, ele tem notícia da morte besta do Nego Tatu.  Afogado, o perverso apareceu já fedendo com uma bruta brecha no crâneo carcomido, flutuando numa priantã do rio, quilômetros dali...  Nesse dia Rabelo chorou, lembrando a madrinha...  Ouvindo ali fora, perto da janela do quarto, no pé de tamarindo, os sanhaçus aflautando notas azuis celestes como as leves plumas que vestem, defila por sua vontade de falar um rosário de acusações para o falecido e ordinário Tatu, à quisa de Juízo Final, um requisitório impiedoso, libelo intransigente e peremptório.
                        Sabe-se hoje que naqueles dias, enquanto vingava mentalmente a madrinha, Rabelo também pensava em Mariantônia, no casarão solarengo no meio da chapada, onde estabeleceriam seu lar...
                        E se preocupava também com o Ribeiro, recolhendo na Serra um pecúlio de vidas baratas...  Tinha mandado parar com aquilo, mas franco-atiradores continuaram se suicidando para agradar os Buenos...
                        Breve, ninguém se aventurando nas proximidades do lapedo domínio dele, ele tinha que voltar...  Senão, como achá-lo nos fraguedos que circundam Coivaras, mil furnas, barrancos, pedregais, lapas com suas crastas, tudo esconderijo, refúgio e segurança dum patife?...  Nas galerias subterrâneas, como morcego, habitando arcadas milenares, esse rato...  Deixassem de ir lá... Espalhassem o boato encomendado...  Esperava...
                        Ensimesmado, ele, que nunca fora crisóstomo, antes caludo, agora mais ainda fechado em solilóquios...  No aguardo, consumido em ânsias...  Enquanto se restabelece, de cama, só lhe resta analisar as chuvas que não cansam de chover...  Quem ouve (feio costume) atrás das portas, ali podia ouvir seus monólogos com Mariantônia...
                        “Quando à tarde o macuco chororoca, os grilos invadem o ar com seu peditório amoroso e os sapos iniciam a chacina das libélulas, tenho uma certeza: o reino das chuvas se aproxima...
                        Se você tiver um furúnculo latejando e, ao passar uma nuvem, o carnicão se refrescar em moles puses para alívio da pressão, é sinal! Aí, se reparar, verá: os jumentos estão andando de lado, os mosquitos se agrupam, azucrinando, pegajosos... Ah, se caçando um tatu, conseguir pegá-lo vivo, repare: ele sua nos sovacos.  E as andorinhas, gazinando em vôos razantes, lambiscam as varejeiras inquietas...
                        Se vir um ipê com antigas flores remanescentes de julho, e sua mangueira ou cajueiro florescerem antes do tempo, tenha uma certeza: são anúncios...  Os cupins, esses chapéus-de-coco que boiam nos pastos recheados de detritos, amolecem o cocoruto: os térmitas, intermitentes inquilinos, vêm à tona sondar o ambiente e logo uma saracura lhes dá um susto e pia apitando... Aí a gente renova esperanças: evém o fim da sequidão!
                        Virá inicialmente um chuvisco garoento ou uma cancra dessas que desmancham serviços de aração... Depende. Pode ser um jereré rasqueiro ou uma parajá de revoltos enfeitados e manga rápida, quem sabe?! Não importa: prenunciam...
                        A chuva boa e mansa que a terra anseia e a planta espera: chuviana. Mas tem as brescas pegando a gente desprevenido. Chuva miúda a gente agradece: borriço, caropa, chuvilho ou palhim, tanto faz. Essas merujas sustentam a vida vegetal... O jacaré se aninhará longe do rio quando essas chuvas se aproximarem: a enchente será certa!
                        Mas tema o aguaceiro, encharcante e escorrente. Torós e zerbadas dão medo e prejuízo, cheios de trovão, raios, enchentes.  Aguaçal e cambueira nem eram precisos. A gente tolera porque são humores da Providência... Já quem anuncia isso é o gado: ele vai fazendo rodinhas e vão subindo, fila indiana, em curva de nível, cordel chifroso morro acima, procurando as cabeceiras dos terrenos...
                        A gente adora a mansinha, miúda e demorada: sacia, banha, ensopa. Aí em Goiás, quando anoitecer com possibilidade duma rubínia adjacente, teremos certeza de sono gostoso, Mariantônia:- música no telhado, goteiras em sinfonia...  Aí, eu sei que as estriges picando delatam: apesar do céu estelífero pode começar um repente bresqueiro...  Mas aí também é onde as seriemas prenunciam lenas águas, chuvinhas brancas, carujinhas leves, macios moufeiros...  Aí todo o povo formicário participa dessas anunciações e os cachorros das corruptelas carregam no fio do lombo um eriço denunciante...”
                        Rabelo conversa sozinho com sua amada...  Ou fica horas pensando planos, embustes...  Confere os anúncios do tempo.  Por exemplo, a morupeteca da véspera, anunciando o aguaceiro, foi infalível.  O chorreio veio que um toró!  Às vezes o céu o ilude: em vez do pancadão acontecem mijaceiros, chuveniscos, miudezas úmidas que mal-e-mal molham o chão.  Outras vezes, sem sinal algum, vem uma patameira, miudamente demorada.  Ou, trocando com ela, vem uma bruega rapidinha, fraca, garoenta... 
                        “No meu enterro quero uma lebréia de despedida, chuvisquinho do céu chorando, chererém de adeus...” - deseja no íntimo.
                        Numa das noites seguintes um salseiro desagüa sobre Coivaras, troz-troz de dilúvios...  É quando Rabelo se aninha mais enrodilhado sob as cobertas e recorda com dó a madrinha Diná.  Ela lhe ensinou a pescar de embude, armar o jequi, usar o covo, preparar a nassa...  Peixe ele sempre pegou o tanto que quis, sem perder tempo, graças a ela! Da última vez que viu sua madrinha viva, ela não era viúva nem tinha sofrido os dois derrames.  Mas Nego Tatu, filho que não prestava nunca, continuava não prestando, lhe dando desgostos, sempre envolto nas matilhas de turunas do lugar.  Gostava era dos pandemônios de fanfarrões, armando tumultos, sempre numa bilintra de patifes roubando o alheio: acervos, patrimônio ou pastos...
                        Daquela vez até teve discussão com o trasvisto, por causa desse procedimento, mister nojento, próprio da catarma mais ralé de Coivaras.  Não o matou, de pena da madrinha.  Mas ameaçou e jurou cumprir...
                        Passados quinze anos, ele longe, comissário de gados, quanta transformação.  Foi bom não estar aqui quando aconteceu...
                        A velhinha, paralítica dos braços e pernas, perdera a fala e vivia às moscas...  Não dava sinal de vida, nem exprimia emoções... Era um vegetal, um traste que apenas alimentavam e mal-limpavam, findas carícias filiais...
                        Tanto não importaram, que seu rosto era assediado constantemente pelas tavãs, ninguém lhe poupando desse desatino, colocando-a sob um mosquiteiro de filó, nem lhe proporcionando alívio com uma espantadela sequer... 
                        “Povo atoa!” - impreca.
                        Apenas quase-resmungava: vivia jeremiando, a coitada.  Sem explicação aquele rolamento exagerado de lágrimas sangrentas... Quando sua face começou a inchar, os olhos purgando semi-cerrados, e seus sussurros se tornaram gemidos profundos, ais desesperados, gritos ocos e graves, o calafange lembrou de levar a mãe ao farmacêutico.  Ajustou o charreteiro, teve o trabalho e tudo...
                        “Na primeira consulta, consegui pinçar dezoito bernes cabeludos de debaixo de suas pálpebras! O globo ocular, murcho, com seu líquido sugado pelos parasitas, era uma massa disforme de carne podre, purulenta e fétida.
                        “A pobre não suportou as dores quando me buscaram para uma segunda visita, já em sua casa.  Desmaiada, foi mais fácil pra mim lhe extirpar os restantes oitenta e seis gusanos da cavidade ocular. Fiz uma boa assepsia e curativo completo.  Dei um paliativo, pois nada mais podia fazer. Nem remédio local ousei colocar, pois a base do encéfalo, visível, apresentava regiões apodrecidas, em decomposição adjacente, com lesões nos tecidos periféricos...
                        “Fiz ainda outros curativos, dei remédios pra tomar: tudo coisa forte...  Ninguém pode calcular, Rabelo, o padecimento da pobre Sá Diná...  Por desleixo da família que entregou a coitada pras moscas, isolando-a -fedida!- num infecto quartinho nos fundos do quintal...
                        “Ao cabo de um mês de tormentos indizíveis, a pobre viúva faleceu duma meningite fulminante.  Justamente na tarde do dia do casamento da neta, filha mais velha do Nego Tatu.
                        “Para não atrapalhar a festa - que o casamento se realizou, -porque não?- tentaram fazer o enterro duas horas após a constatação do óbito por mim.  Só não conseguiram esse objetivo porque me acudiu a intervenção do cabo-comandante.
                        “Mas, abandonando o velório por conta de terceiros, os familiares foram festejar as núpcias -comes-e-bebes, pagode e tudo - na casa de um conhecido ali por perto...
                        “No dia seguinte o desgraçado não acompanhou o enterro da mãe porque, tendo dormido muito tarde e embriagado, não houve quem o acordasse para esse gesto cristão...”
                        Rememorando a narrativa do Boticário, Rabelo renova seu ódio... Dentro dele, então, lágrimas, nevoeiros e cerração se mesclam em uma chuva interior...
                        Os dias correm... Quando já pode andar um pouco, inda convalescente, dá uma voltinha pelo largo do Rosário, ali em frente da Pensão. Visita lojas, armazéns, farmácia, tirando prosa com antigos conhecidos, todos interessados em sua saúde, satisfeitos com sua recuperação...
                        Fora muito visitado em sua acamação; agora retribuía, aos poucos.
                        Certa manhã saiu cedo, dirigindo-se ao ascetério do Garção Lamão, que sabia já na cidade. (Ele fora reconduzido à posse do que lhe tinha sido tomado, através de uma manobra de intimidação do próprio Rabelo que não permitiu licitantes no leilãozinho onde levariam à praça os bens que lhe espoliaram... )  No Beco das Flores, quelho dum trilho de cavaleiros, vielinha arborizadamente ensombrada, Jota sentiu seu ódio decrudescer. Ali, longe da atroada do movimento, fora da bulha do comércio, o Cenóbio do Justo, em meio a um bosque de Jequitibás, traz paz a todos os visitantes...
                        Esse dia que passou em companhia do Protegido/Protetor lhe deu um enorme proveito, pois lhe foi então revelado que passara pelo ato final de seu Fechamento Corporal.
                        Já completamente restabelecido, dono de si, longe dos remédios,    o Vingador começou a ultimar, com requinte - tal-e-qual noutras encomendas- a execução de seu intento.  Uma coisa o preocupava: não tivera mulher desde quando se despediu da menina Penha e estava disfarçado ao passar por Santa Rita, onde as meninas não o reconheceram, senão teriam clamado por ele, João Lindoso, ao que, como elas esperavam sempre, retrucaria “ARA, POMBAS”, e logo agarraria uma delas...  Aquela não fora hora pra essas coisas...
                        Mas agora precisava duma fêmea, com urgência. Assim não podia continuar. Tal ascese, nesse momento, em nada lhe beneficiava. Um homem em sua situação deve estar com os nervos relaxados...
                        Pôs uma intenção na idéia e virou um sátiro.  Assim, transformado em Eliú do Sertão, diante de uns ramos de ambrósia nos fundos do quintal da pensão, entrou no pré-gozo das antenúpcias.  E, antografista irremediável, pegou uma florzinha de mandrágora, pôs na lapela do paletó de brim cinza e saiu, no embalo sensual da rede viva, pura de marcha, que era sua mula Neblina.
                        A noite alta foi encontrá-lo no primeiro boteco da zona boêmia, e, em seus brilhos, estrelados diamantes no veludoso céu, garantia-lhe mornas peles, cetins morenos e melenas perfumadas para seu apetite de macho...

a contenda
           

                        Navegando entorpecido pelo Vácuo do Pós-gozo, grugunzando delícias, Rabelo fazia últimos carinhos na pele suada da mulher-fonte-de-sua-saciedade...  Pensava se não havia sido bronco, vulgar e ordinário em certas exigências...  Ou rude e grosseiro para a fragilidade dela...
                        Mas ali não precisara propor ultrajes: a moça ofereceu-se à violação, tudo sem susceptibilidades, sem aviltamentos. Não causara afronta: o desdouro foi mesmo proposto por ela...  Ele somente acatara: anularam o que podia ser vilipêndio e o que poderia conter de desprezível na relação anormal...  Ela mesma quis o empalamento...
                        Baianinha pediu licença, levantou-se dos lençóis amarrotados e foi se livrar do enxame de marimbondos frenéticos que lhe depositara no ventre... (Ah, numa tentação ela quase sucumbia: se deixar frutificar ao menos por uma das sementinhas do homem amado...  Pudesse reter, ao menos por uma vez, pra recheio de suas rendas uterinas, aquele néctar de sóis embrionários...)
                        Jota, olhando o telhado sem forro, caibraria roliça já se carunchando vítima dos implacáveis térmitas, não via isso que olhava... Via, isto sim, numa tela invisível por onde os amantes sonham, fotogramas coloridos de sua vida pregressa.  Ali desfilavam poses e instantâneos acalentados. Semblantes conhecidos e amados, fragmentos do vitral de um sonho que não se realizava há muitos anos...
                        Absorto nessa contemplação pós-ejaculatória, bambo ainda pelo gozo conseguido, e ancorado naquele limbo balofo que sucede o instante mágico de toda explosão sêmica, Rabelo se assusta quando Tadeu Viriato chega correndo, assombrado, sem fôlego, dizendo vem aí o Sirvão Nervético, o que acha que é dono dessa puta Baianinha...
                        Rabelo se apura e apressa na arrumação, acordado do devaneio, em alerta, o presto gatilho em posição...  Ao que, lá fora, começa uma discussão e uma pessoa é surrada aos gritos cachorra duma figa, sem vergonha, descarada, te sustento só pra mim, cadela viciada...  A voz da mulher pede socorro e logo se cala, num baque... “Cadê ele?”
                        A porta do quarto não resiste ao ombro do prepotente.  Mas sua raiva cede, frente ao cano do Trinta e Oito, Omega por sobrenome... Cano este que, alucinado, maluco e mágico, cresce no ar descrevendo um semi-círculo e vem lhe acariciar a mandíbula com pouca educação...
                        (Cano mudo, Sirvão, que por sorte sua não lhe disse palavras de fogo e que, calado, lhe concede ainda respirar o ar do serralho apesar do mal-jeito com que se desaba sobre sua nuca, já em forma de coronhas e o obriga a cheirar o pó do aposento, enquanto você flutua, leve, pelo Chão dos Desmaiados...)
                        Anos depois, nesse mesmo piso que sua boca agora umedece, irão pisar os pés delicados de Rosalda Gentil...  Nesse chão haverá respingos de amor dos moleques que não puderem pagar o uso da cama para um rápido prazer...  Nessa mesma casa onde foi inaugurada sua capacidade desmaiativa, um dia habitará uma tia de nome Tília, madama de profissão. E esse mesmo ar que por sua causa hoje fede sangue e merda, um dia, por causa das meninas de aluguel, rescenderá a alfazema e extratos franceses...
                        Mas, ah, Rabelo, o animal ainda não estava dominado...  Apenas o homem cedera...  E o bote dele, certeiro, felino e ofídico a um só tempo, o tomou de surpresa. Apesar de sua constância no ofício, sua imensa fama e seu valor indômito, seu heroísmo nato e sua vocação para a violência, você foi pego desprevenido!
                        Naquela hora acontecera um ligeiro milagre: a natureza transformou um mal-demaiado num bem-desperto atacante...  Ali, um rato lhe ensinou: o homem só amadurece quando compreende que a vida é pra se aprender e não pra se ensinar...  Ela é um contínuo espetáculo para nossa admiração.  Você reparasse melhor, pois apenas um pouco tardiamente o leve arfado do esforço do outro o alertou.  Você se virou depressa, mas não conseguiu se esquivar!
                        (Mas no relance percebi a delgada lâmina, mortífera e sedenta, que me rasgou a camisa e o couro, me riscando a carne em um lanho profundo e feio.  O Sirvão, meio tonto ainda, tornou a avançar, golpeando com o punhal, não me dando tempo pra sacar a arma...)
                        No coldre, seu Trêis-Oitão, omegamente gemendo em sua ineficácia, insignificante... Mantendo a todo custo a compostura, apesar dum novo talho mais curto e fundo que o anterior, você conseguiu chutar o outro por baixo, enquanto tentava esmurrar seu carão congestionado e selvagem. Aquele rosto pálido, grosseiro e repugnante parecia mágico, fugindo aos socos apesar de tonto e já machucado, coronhadamente disforme...
                        Outros golpes ameaçando fragilizar ainda mais sua resistência, Rabelo. Seu sangue ensopando a roupa e o quarto...  O chão de tijolos sorvendo ávido o líquido escarlate...  Por seu flanco ferido, fendido da ofensiva faca, fugindo fagulhas, fluindo fiapos, fragmentos de vida...
                        A lâmina ferindo sua carne retalhada, sugando em sulcos o ar de suas veias: seus braços profundamente lacerados, suas mãos inutilmente tentando aparar os golpes da adaga mortal...  Aí a Sorte, sua silenciosa companheira, em forma de um tamborete barato, se interpõe entre vítima e agressor, jogando, após um tropeção descontrolado, aquele robusto atacante com o pescoço entre seus braços-tenazes...  Eles, ébrios de força bruta, principiam a pressão.  Todo seu esforço se concentra em frustrar a ação respiratória do outro.  Você, porém, não percebe o punhal entrando fundo e lento em seu peito, nos últimos estertores do sufocado...
                        Notou, contudo, que o outro se tornava um peso roxo e morto. Mas, esquecendo-se de seu próprio estado, sem a concentração necessária, você cambaleou perigosamente para um fundo precipício...  Só o grito, revestido de sotaque baiano, alertando-o, o fez recuperar o equilíbrio.  A voz, feminina e desesperada, reconduziu-o ao ataque. Só quando a mão do outro se abriu, largando de vez o estilete, você pôde pressentir a vitória...
                        Aí você conseguiu ouvir também os gemidos de humilhação do inseparável Trinta-e-Oito...  Livrou-o dos arreios do coldre e ele avançou, inexorável, para junto das costelas do asfixiado.
                        “-Pra ter certeza que você tá mesmo entregue, ô cabra, lá vai chumbo!”
                        A detonação, à queima-roupa, sacudiu o corpo inerte cujas pálpebras piscaram num estertor final.  Só então você permitiu que suas pernas se dobrassem e seu corpo desabasse sobre o cadáver do outro.  Mas seu olhar azulado, tranqüilo e agônico  ainda pôde ver lágrimas  nos olhos da baiana Lídia.

 palhaço


                        “Qual o segredo de seus triunfos?  A Sorte Rameira, essa que se esconde só para alguns privilegiados?  Ou as profundas lições como a que diz que a Vida e a Morte são os dois lados de uma mesma moeda?...  Uma força o imanta, lhe impondo obrigações, cobrando-lhe atitudes?  Ou alguma sombra do passado o faz obrar pela justiça? Você celebra a vida apesar de cultivar a Morte?” -alguém acaso já teve coragem suficiente para isso inquirir-lhe?
                        “Diz, Rabelo:  você quer mesmo que a vida seja digna, apesar de seus princípios desprovidos de decoro?  Em você se anulam certas elegâncias...  Onde, então, o segredo de seu triunfo? Crê existam na vida coisas mais importantes que cartuchos deflagrados e que todo vício é o excesso de uma virtude?  Aproveita o erro do outro contra ele mesmo e se especializou no ofício à custa da inadvertência dos oponentes?  É uma individualidade em meio à massa?” - ninguém jamais ousou lhe fazer essas perguntas...
                        (Sabemos que a paixão é seu combustível e, apesar de poluir sua vida, o faz sobressair dentre os demais.  Só absorto, entregue aos liames da paixão, ele consegue que nada o embarace...  Não será na paixão, tanto sendo u’a mulher como sendo uma causa, que ele encontra o tônico que lhe escancara os sentidos e lhe igniciona a mística música dos estampidos?)
                        “Seus ferimentos, apesar da gravidade e quantidade, não são mortais”, garantiu Lamão, tranqüilizando os Coronéis Patrocinadores... 
                        Só o Garção sabia que seu corpo nunca correra um mínimo risco por causa dessas horrorosas chagas: seu humano estofo era uma teia de benzeções..  Para ter o Corpo Fechado (Lamão trancou e jogou a chave fora) Rabelo suportou todas as provas do Fechamento, teve que desengrilar-se, se tornar Quase-Santo... 
                        Foi há muito tempo atrás...
                        Naquela época, alegando viagens, ele desapareceu, afastando-se do trabalho, dos ofícios, das gentes e das amizades...  (Como o Maelim sentiu sua inesperada partida, sem explicações!...)
                        Chegara em Sacramento já barbudo, irreconhecível pelos dias de jejum que o iniciaram no Mistério da Lacração.  Músculos, carnadura e belas feições, esses vigores todos: consumidos pelo rigor do novo trato, tornando-o um farrapo, mulambo estropiado...
                        (Antes de chegar ali, passando por Conquista, rodeando lugares, você vagou por trás da Serra e esteve urubuzando ao redor do Pico-do-Cão, onde, como um monge tibetano, conheceu o outro significado que todas as coisas têm...)
                        Seguindo o trajeto traçado por Lamão, chegou em Sacramento ostentando uma aparência vacilando entre a imbecilidade e a taumaturgia... Como andarino, pés castigados pelas escarpas e pedregulhos dos caminhos, mergulhando cada vez mais no próprio infortúnio... (Aquilo, no tempo dele mocinho, foi verdadeira provação...)  Assim conculcado, postergado pelos elementos, derrotado em seu amor-próprio, Rabelo tecia lentamente o artifício de seu Fechamento Corporal...  “Em nenhum momento se deixasse apoderar pela cólera: iracundo não poderia se dominar.  Jamais se encolerizasse ou se devorasse em ameaças: agisse! Se tornando aniquilado exteriormente, no interior resplandeceria...  Consumirus, enfolidus, tragatus  tretas manhas latinaris...”
                        Pelos dias da Penitência, seguia vagando, comendo raízes, frutas e flores.  Também saboreando borboletas amarelas, vagalumes fosforejantes, mariposas penugentas, maçãs de algodão e mel silvestre...  Pelo campo, dormisse n’água corrente, se flagelasse com varinhas de marmelo, vencendo-se a si mesmo.  Nesse combate, saísse profligada a vontade própria.  Infamado seu orgulho e derrubadas suas resistências, brotaria lentamente o Véu Escudante, diáfana proteção, invisível e essencial...
                        Anulasse a virulência de seus gestos ébrios de vinditas.  Debelasse de si a fome dos desagravos.  Se afastasse de perversos e pérfidos, aleivosos e vadios, embusteiros e mandriões, velhacos e malvados... Fizesse uso de apelidos e codinomes, alcunhas e cognomes.  Esmolasse, mendigasse, até que em Sacramento um sacristão o acolhesse, boêmio, ébrio e vinolento.
                        Num anexo do galinheiro da casa paroquial, dormisse sobre tábuas, em travesseiro de pedras.  Conseguindo esmolar o suficiente, encomendasse um par de sapatos com solas de chumbo, razão pra futuras e abençoadas cãibras...
                        Esteve nessa lida por um ano, se mantendo entre a heresia e a santidade...  Tudo se incluindo no cadastro de suas merecendenças: desde o ruído das gralhas no milharal, fragoído insuportável para a tranqüilidade de suas meditâncias, até o tumulto febril dos aleijados na porta da Matriz, domingo depois das missas...  Tudo lhe garantindo o Fechamento, a apuração dos sentidos...  (Quase chegaram a convencê-lo que pudesse milagrear!)
                        Certo dia, quando ajudava o tropeiro Malaquias em seu longo périplo de negociatas, acertando dotes, arrumando relações, levantando vínculos, anotando cadastros, assentando pedidos, levou um coice da madrinha da tropa. O casquinho afiado abriu-lhe uma brecha na testa, e o sinal da ferradura lhe ficou carimbado na carne amassada da fronte.  Pela fresta entraram zurros e micróbios...  A besta, levando na cabeça a bonecra, tilintos a granel, enfeitada pra uma festa que nunca chegava ou pro mulo que nunca desposou, era artimanhas puras.  Ele ainda não a conhecia...  Sua cabeça inchou tanto que os olhos se fecharam, niponicamente empapuçados.  A inflamação só o deixou e ele só sarou depois de injeções intermináveis e do internamento na Santa Casa de Misericórdia da cidade de Sacramento...
                        Outra Graça que acha ter conseguido: no caso das abelhas! Buscar mel... Um vespeiro enorme sempre os desafiava, visto no meio do mato, lá embaixo, longe da estrada...  Seus companheiros: cego Cataleno, o coxo Federico Aleluia e negrim Midigrilo... (Porque não foram aquinhoados com o beneplácito por ele recebido???)
                        Estavam em agosto ou maio?  (Aí o enxame vale um carro de paio!)
                        Estavam em setembro ou junho? (Aí o enxame é moeda que cunho!)
                        Estavam em outubro ou julho?  (Aí o enxame não passa de entulho!)
                        As ferroadas iniciaram, poucas, quando o pau oco começou a sofrer machadadas.  Mas a coisa ferveu mesmo quando ele foi derrubado e não conseguiram fazê-lo tombar lentamente...
                        A árvore, já morta, tronco ocado nos miolos, ele todo era a colméia! Em repouso, tranqüilas, donas de casa e mel para o próximo tempo adverso, as aves-abelhinhas dormiam...
                        O Manco Aleluia, com a tocha, iluminando.  No machado, apressado, encalombando, o Midigrilo.  Com as cabaças vazias, presto no tato, cego Cataleno.  Rabelo nas cordas, controlando o tombo...  Repente, a confusão: tronco podre espatifado no solo, mel escorrendo, filetes dourados pelo capim jaraguá...  Onde, os três?  Quês berros!  Quanta asa, pêlos, perninhas...
                        As abelhas, aturdidas ante a impossibilidade de construção de uma nova morada para o inverno iminente, cegas no ódio e no desespero, não suportando a dimensão da própria catástrofe, expandiram seu desastre em pavoroso alarido...  As coitadinhas, desprovidas do lar, despejadas injustamente, se encheram de justo rancor.  No desabafo, sem organizar-se em legiões, hostes, esquadrões, nem nada, atacaram como um chuvisco de agulhinhas, perversas, irmãs de vínculo, no geral duma vingancinha em feixes, se avolumando pra fustigar, destroçar a inimigo...
                        Na confusão, o zumzum tumultuado, o fragor abelhoso se desfazendo em pencas sobre eles...  Quantas ferroadas? O milagre foi elas não importunarem Rabelo com uma picadinha ao menos... (Talvez um sinal do Fechamento Requerido?)  Não recebeu uma picada sequer, enquanto elas enxameavam sobre os outros três até à morte! O certo é que ele não ficou sabendo nunca por que as abelhas o ignoraram enquanto durou o ataque. Eram flechinhas mortais, zumbentes, dolorosas... (Oh, como os três berravam, meu Deus!!!)  Elas picavam, largando o ferrão para poderem morrer...  Outras atacavam com as macias asinhas, fazendo cócegas...  Outras davam mini-beliscõezinhos, fazendo formigar a superfície da pele... Tudo: torturas nos três...  Ele não conseguiu experimentar a dor de uma mordidinha sequer e o desprezo dessa imunidade chegou a desconcertá-lo...
                        Moraram elas sobre os três durante três dias.  Quando se foram, metade estavam mortas, insetamente kamikases...
                        A notícia correu.  Trouxeram doentes para benzer, criancinhas para tirar mau-olhado, curar de vento-virado...  Ele principiou no uso daqueles raminhos bentos, e quase chegou a crer que conseguiria fazer milagres.  Porém tudo gorou, (como tinha que gorar mesmo!) quando um surdo, por graça Nicolau, interesseiro, fanático e evangélico, jurou ter recuperado a audição, caindo em pranto aos pés do Milagroso.  Depois descobriram: nunca tinha sido surdo: só ouvia o que lhe convinha e não conseguira perder o hábito...  Ensurdou de verdade, se pois.
                        É Rabelo quem diz: “Encerrado o período de minha provação, primeira parte de meu Intento Fechamental, providenciei para retornar à vida normal, me empregando como palhaço no famoso Circo-Rodeio Briguelli, de touradas e cavalinhos, dramas e duplas caipiras...”

corpo fechado



                        “Nesse meio tempo, enquanto isso, em Coivaras, onde ninguém mais perguntava pelo paradeiro do João Rabelo, costumado que eu era a dar viagens para Mato Grosso sem me despedir de ninguém, um tal de Bastião Rocha matou meu afilhado Flaviano Camilo a faca, só por causa de uma sem-vergonhagenzinha do outro.  Meu cumpadre Zarifa Camilo, despedaçado em dores, a-mor-de vingar a morte do filho, tentou matar o Bastião, na Cadeia.  Mas alguém soltou o preso, mediante trato de sentar praça no Batalhão de Santa Rita.  Meses depois o soldado Sebastião Rocha, virado polícia, voltou, destacado para Coivaras.  Começou a molestar cumpadre Zarifão, procurando atraí-lo para um duelo, investido em autoridades e se apoiando em colundria de amigos fardados...
                        “Oh, como foi bom eu não estar por lá...  Cansado de ser infamado pelo pérfido assassim de farda, fanfarrão causador de seu pátrio infortúnio, Zarifa Rachede Camilo, com toda astúcia que um turco/português pode ter, não se fez em ameaças, não aceitou desafios, e mesmo molestado em brios não saiu atrás do desafeto...  Na sorrelfa teceu sua trama, ardil que nenhum torvo por mais policial que fosse não poderia vigiar...
                        “Na mesma casa de zona onde o José Ribeiro dissiparia o dinheiro com que devia ter pago as botinas do Maelinho, e onde um dia, mais tarde, o Sirvão Nervético faleceria pelo chumbo de minha arma, e esse  episódio se passou, o praça Rocha, certa madrugada, foi encontrado em duas partes, decapitado por uma foice Sertãozinha legítima!
                        “Zarifão gastou um pouco com a mundana: na fuga e na nova casa que montaram longe dali, de a-meia.  Nunca mais mandou notícias pra Comadre Maria Rachede. 
                        Cida sempre gosta de lembrar o dia em que estava lavando roupa e o Zarifo chegou lhe apalpando os macios...
                        “Selaram a sociedade. Para ela, não foi difícil embriagar o guarda e preparar seu holocausto...  Hoje a Cida Macaca é Madama Silvia, na cidade de Araguari, onde eles já estavam quando lá esteve o Circo Briguelli, mas eu não sabia de nada...”
                        Foi no circo Briguelli que Rabelo e Lídia se conheceram. 
                        Ele diz: - “Deixe bem claro que eu nunca me engracei com ela nem tive tenção de colocar ela naquela vida que depois ela mesma resolveu levar.”
                        Ela cuidava do Bode Ramalho, equilibrista de boca de garrafa, cascos navalhais, lixados e encerados.  Ela também se malabaristava no bambo arame e ajudava a companhia de funâmbulos nas piruetas e acrobacias de solo, em sua esfuziante quinzena de anos...
                        “Seu pai, envergando um colorido e surrado uniforme marcial, tocava a clarineta, o piston, o trombone, o surdo e o que fosse preciso na jazzbandinha que animava os números...  Ele percebeu, primeiro que eu, o brilho que se acendia nos olhos da baianinha quando topavam com os meus.  Seu primeiro gesto de antipatia bélica foi quando me socou a vara do trombone no olho esquerdo, aproveitando a deixa de uma palhaçada inocente.  Selamos o pacto, dei risadas, lembrei-me do Lamão, fiz-me de bobo e entendi o que ele queria dizer: ‘se afaste da sede de homens que minha filha Lídia Maria possui’  enquanto sorria forçado pra mim.”
                        O bronco era baiano e apesar de ríspido com todo homem genrável, era de uma sensibilidade incomensurável no trato com as partituras.  Os cabelos brancos lembrando um futuro Caimmy, traziam o pó dos dezembros de sua viuvez prematura.  Era então mãe e pai da filha única..  Criara a menina desde os oito anos.  Em Jequié, músico de respeito, tudo ficara imprestável depois da morte da esposa.  Saindo pro mundo, desceu pro Sul tentando se ajeitar numa decente colocação.
                        “Eu estava de déu em déu, querendo voltar a ser gente, vim parar no mesmo circo que ele,  então já velho de casa...  Lídia era realmente muito parecida com Mariantônia, por causa de quem tanto eu havia sofrido e buscava meu Corpo Lacrado...  Apenas nos cabelos, mais selvagens na circense, uma diferença mínima.  As feições faziam lembrar...”
                        As gentilezas, o desafio, o jejum sexual de mais de um ano durante a Provação, tudo o empurrou para aquele buraco tão oferecido... Quando o pai soube do caso entre eles, simplesmente morreu dum ataque dessa angina tão comum nos que se dedicam aos instrumentos de sopro..
                        Já que estava no caminho de volta para sua terra e seu povo, reintegrado no mundo dos mortais decentes, longe dos becos e das ratazanas, das baratas e das pulgas, longe da escória dos arrebaldes, distante da Fase de Provação, nada mais lhe restou que deixar o circo e partir, com a companheira, órfã e amante, para o arraial de Coivaras.
                        “Quando rompemos, daí ano e pouco, ela partiu para Coromandel com um Fazendeiro de lá.  Foi um alívio, a sensação que senti.  Não que a odiasse ou lhe quisesse mal: quero crer mesmo que cheguei a apreciar seriamente sua companhia.  Mas, depois de Antônia, nunca fui homem de laços duradouros ou vincilhos de responsabilidade...”
                        Quando estava em Rio Verde, anos depois, comissário do gado, teve notícias dela.  Fora enganada.  O explorador a usava, gigolô refinado.  Veio tornar a vê-la em Coivaras, bem antes dessa confusão que lhe anunciou o Oraciano Covas... 
                        “Foi na loja de comadre Maria Rachede (largada pelo Zarifão, já coronel, dono de bordéis no Triângulo Mineiro) comprando fazenda para um jogo de lençóis”.
                        Não era exatamente a mesma, mas a graça do olhar ainda encantava.  O corpo se definira numa silhueta adaptada ao alheio prazer...  Estava pródiga nas formas ancais; praticaria situações habitualmente humilhantes, tais retro-penetrações?...  Estava em roupas decentes, conversava decentemente e o cumprimentou com decoro e coqueteria.  Soube, na ocasião, que estava se amigando com Sílvio Lima, já enrabichado em seus encantos.
                        “Apesar disso, fui sair onde ela morava.  A casa ainda era só dela, os contatos para o amigamento estavam no início...  Ah, tivemos uma segunda lua-de-mel, melhor do que aquela primeira no carroção das trapezistas... Tudo nos foi novamente revelado: novamente nos entregamos as respectivas virgindades... Mas a paixão só durou mesmo enquanto estivemos juntos: meu corpo já era então abençoado... Ela tinha mudado o nome.  Tentou -após desligar-se do gigolô-, trabalhar novamente em circo: mas a graça de donzela fugida de seus gestos a denunciava fora de forma.  Todos, sem exceção, só queriam tê-la para acrobacias no colchão...
                        “Ficamos grandes amigos, mas fui deixando de vê-la, para não assistir ao deprimente espetáculo de sua velhice.  Até que, vindo de Três Corações de Rio Verde, após tudo o que passei, me reencontrei com ela naquela trágica noite em que Sirvão faleceu...
                        “Nunca poderei esquecer os primeiros socorros que ela me ofereceu, me poupando sofreres inúteis, agonias infrutíferas e mortes adiadas.  Também foi ela quem teve carradas de paciência enquanto tolerava minha rapidíssima convalescência...  Não conseguia me conformar com o leito, tendo tão urgente Empreita pela frente, inda mais sabendo, como fiquei, ainda inutilizado, da presença ostensiva do Jota Ribeiro, manso de gaiola, passeando por Coivaras, dono de recente tranqüilidade...”

os duelos


                        Ressabiado, o homem sai de dentro da casa: olha para os lados e sobe até a venda da esquina, onde deixa a cartucheira -carrêgo especial- de prontidão atrás duma porta.  Senta no banco lá fora e começa sua vigília...  Sabe que o Rabelo vai cruzar por ali, mais cedo ou mais tarde.  Todo mundo está sabendo que ele vai partir de-hoje-até-amanhã.  Tem que passar por esse caminho, dali torcendo à direita, rumando pra Mata dos Bueno.  Nunca se irá de Coivaras, sem ir lá se despedir...
                        “Se veio mesmo de encomenda, saiu encomendado: primeiro, o rabo, por pouco não o matou; depois o Sirvão quase o coloca na cova...  Arrefeceu desde então...  Mas nunca disse unzinho pra ninguém, que veio aqui pra me cobrar a vida do Maelinho...  Somos conhecidos, mas certeza não tendo, pergunto e agüento: pra matar ou pra morrer. Quando ele vier chegando, me levanto e vou topar: deixo ele ver que estou sem armas...  Aí é tentar ou ficar na dúvida, pra sempre!”
                        É: daí pra frente, por mais que se esforce em imaginar as infinitas situações possíveis, ele nada consegue prever: tudo não é mais que uma inútil conjetura... (Uma coisa apenas é certa: enfim esse Jota Ribeiro, Zé do Casimiro, engolira a isca.  Não estava ainda fisgado, e daria muito trabalho para sair da água...)   
                        Rabelo não dormira naquela noite.  Aos Coronéis do Patrocínio, que cobraram uma data definitiva - já tão adiada por inúmeras vezes e motivos - ele havia dito:  “Será amanhã!” Depois foi se deitar, tentando manter-se calmo, dono de friezas necessárias.  “O homem está prevenido...  Nunca passei por nada assim igual!”  Naquela noite continuaram chegando jagunços de toda parte e, como ratos, esses capangas menores desde a véspera já vinham se posicionando em pontos estratégicos da cidade, todos fuzís e carabinas, tornando a aldeola uma praça-de-guerra, no aguardo.
                        Então o tempo como que parou e sonhamos todos.  Sonhou a cidade inteira...  Rabelo também sonhou...  Em todos, o mesmo sonho!
                        Em gestos oníricos, lentos e calmos, majestosamente contidos, ia passando pela rua o Vingador, como quem não teve nunca uma sogra pra xingar...  Na marcha, sua mula Neblina se exibia, enfeitada arreata, como quem está de partida...  Ela não pode adivinhar, mas pressente na respiração calculada do patrão algo de anormal...  Repente, o assassino, já avistado desde longe, se levanta donde está e se aproxima...  Nós todos ficamos com um caroço entalado no gogó...  A mula apenas sente uma leve pressão de joelhos nas costelas.  Barrando sua passagem, o Ribeiro, mais por medo que por valentia, mas crescido em certezas desde as mortes na Saracura, tirou pergunta:
                        - Me avisaram que você veio aqui pra me matar.  Tem fundamento?
                        - Conversa de intrigas, Izé.  Não vim pra matar ninguém.  Boatos.
                        - Não veio mesmo?
                        - Não: estou até de partida, tá vendo não?
                        - Querdito não! Pode falar, sei que Oraciano foi lhe chamar!
                        - Não sei desse assunto, não lhe devo reposta e quero passagem.
                        No sonho Rabelo controla a ira, engulindo raivas, mantendo a calma.                     O Ribeiro, pensando numa remota possibilidade de intimidação no outro, tão inesperada como desejada, cresce em arrogância:
                        - Se quer ir embora, cumpre o que prometeu fazer.
                        - Cê não tem nada com promessa minha.  Vá se crer em atoarda!
                        - Acertemos primeiro esse assunto, ou cê mudou de idéia?
                        - Não tenho assunto pra tratá contigo, quem te inventou essas prosas não pode aprovar, e vai tê que sustentá!
                        - Aí, João Marmelo, ficando brabo, hem, se você veio com um fim, vamo logo decidir a questão!
                        Marmelo...  Matou o primeiro homem por causa desse apelido maldito! Era demais...  O pesadelo continuava.
                        - Óia, Zé Ribeiro: eu não vim pra fazer nada, mas já que você qué decidir, então vamo...
                        Apeando da mula, deu-lhe um tapa na anca, afugentando-a do campo de fogo.  Ela subiu uns metros, até a segurança dum pastinho abaixo da igreja...  Enquanto isso o Ribeiro se afastava depressa rumo à porta da venda...
                        Aí chega, enfim, o momento tão aguardado por todos.  Janelas cerradas inauguram uma noite prematura nas casas sem vidraças.  Em cada fresta um curioso olhar de apostas...  Em poucos segundos tudo estará terminado...
                        Ribeiro leva a arma até a altura do peito, mas não chega a atirar.  Os dedos se descontrolam enquanto uma fulminante dor-de-cabeça lança pra longe dali sua alma empedernida.  Pelo pequeno orifício entrou uma enorme pressão, provocando-lhe o gigantesco rombo na parte traseira da cabeça, que foi lançada para trás com o impacto do projétil certeiro: bem entre os olhos... Caído de costas, logo uma das cavidades oculares estava inundada do sangue nocivo...
                        Quando Rabelo acordou, viu que tudo tinha sido verdade!  E nós continuamos sonhando...  Mas ele quando esteve acordado estava dormindo, ou sonhava que estava acordado, ou acordado sonhava que dormia?
                        Sabemos que o pai do morto veio correndo com a carabina na mão, chegou amaldiçoando os Coronéis, conclamando a justiça divina, ameaçando matar meio-mundo...“Onde tá jazido meu filho?  Aquilo é verdade, um pesadelo? O que é?”
                        Iracundo, procurando alucinadamente o executor do filho, o velho berrava: “Nesse lugar onde meu filho morreu, ou eu mato ou eu vou morrer!  Não agüento essa infâmia, cadê o filho-da-puta do assassino?  Foi ocê, Rabelo, eu sei, dá as cara, quero vê as fuça do maior filho-de-puta que já conheci!  Ocê comeu meu filho, agora tem que me comê também, ou te como eu!”
                        Unindo à ameaça o gesto, aponta a arma para um grupo onde João se encontra.  Não há tempo para pontaria de ferimento leve.  O gesto mecânico aponta a trajetória do disparo para o ponto mais vital que um homem pode ter.   Casimiro Ribeiro, poeticamente, expira sobre o corpo do próprio filho, sem conseguir, como ele, disparar um único tiro...
                        Enquanto o povo dispersa, duplamente chocado, pois ninguém chegou a ver ao menos o saque do Vingador, pai e filho cochicham mudos, mutuamente se consolando.  E continuam conversando baixíssimamente,  dum modo completamente inaudível para os outros, durante todo o desenrolar dos diversos acontecimentos...
                        Nos exame médicos, custaram segurar as risadas.  Nas rápidas apurações do sargento Ornéjio chegado no lugar há meses, atrás dum famigerado Joaquim Rogério que ninguém conseguia identificar no lugarejo, o velho soltou gases intoleráveis e o moço arrotou desacanhadamente...  O assuntão deles continua durante o banho e os preparativos para o velório.  Riem um do outro, ao ver seus respectivos estragos...  Sentem muita cócega quando a água lhes penetra pelo corpo adentro, e quase não controlam as gargalhadas que devem reter em seu silêncio de defunção...
                        No velório, onde quase ninguém comparece temendo represálias e por causa do clima que antecede a eclosão dos litígios, eles -os mortos- contam mais piadas um ao outro que os próprios veladores.  Não conseguem conter-se ao ver as caras de espanto dos que nunca tinham morrido baleados - isso já do outro lado! Gargalham silenciosamente:  gargassilenciosam sem parar...
                        Ficaram conhecidos como os mortos que riam, pois debochavam, gargalhando por qualquer coisa: um poste mijado, um mosquito no nariz, uma lágrima em rosto estranho, uma vontade de beber café, qualquer coisa.  Riam, fazendo aumentar o próprio peso nos caixões, vendo suados cristãos bufando pra carregar as urnas.  Chegam a idênticas conclusões enquanto seguem rumo à igreja onde se lhes encomendarão os corpos:  “Rabelo consumiu com quem era preciso! Gente, me ouça:  ele não é um homem mau!  Quá-quá-quá!”
                        À saída Maldita, quando os tiravam da matriz e os sinos plangentes - tangidos por um coroinha idiota - começaram a dobrar, estourou em Coivaras a Grande Guerra Universal.
                        Os dois, ignorando tudo, após enterrados às pressas, cada qual em sua sepultura, separados, tiveram a grande surpresa reservada aos que morrem seja da maneira que for:  podiam conversar apenas com o pensamento!  E o pai começou, dizendo ao filho:  “É, ele tanto comeu o filho, como papou o pai de sobremesa! - quá-quá-quaááááá - gargalhou, acordando metade da população que descansava no cemiterinho local...
                        Aí veio uma senhora educada, toda de branco e começou a conversar com os dois.  Foi ela quem os convenceu, com boas maneiras e muita paciência, a calarem a boca e a se considerarem, de uma vez por todas, definitivamente mortos...
                                                                      
guerra universal


                        Tiroteios entre facções, represálias recíprocas entre capangas e jagunços, milicianos intervindo inutilmente, todo esse jessé que surgiu após os dois duelos permitiu que Rabelo, escapando à captura, deixasse rapidamente esse local de litígios, que se incendiava de ódios ancestrais, disputas milenares e lutas inadiáveis...
                        Durante quinze longos dias se guerreou sem motivo determinado.  O conflito foi dilatando suas fronteiras, alargando seus horizontes, estendeu-se a todo o Estado, ao País, ao Exterior, ao Hemisfério, ao Continente, ao Mundo Inteiro, ao Sistema Solar, à Via-Láctea e por fim ao Universo.  E aqueles que foram acompanhando essa evolução, também foram-no chamando sucessivamente: Guerra Municipal, Guerra Estadual, Guerra Nacional, Guerra Internacional, Guerra Hemisférica, Guerra Continental, Guerra Mundial, Guerra Planetária e finalmente Guerra Universal...
                        O saldo desses quinze dias de Guerra Universal em Coivaras foi fascinante.  Só no primeiro dia, naquele dia em que se iniciou a contenda, jazeram quinhentas e trinta e cinco pessoas adultas e setenta e sete crianças.  Pilili Quaresma jazeu como queria:  nos braços duma puta.  Pedro Punho-Bambo, prestador de favores masturbáticos representava uma cena pornográfica quando resolveram jazê-lo.  Zimélia Macha, trepada numa outra mulher incógnita, tomou um tiro que, econômico, jazeu a ambas.  Se um de uma família jazesse em mãos providas de parentesco, reaviam em dobro:  jaziam dois em troca.  Jazíamos sob fogo cerrado.  O povo jazia em vão...  Uns motivos se esgotavam, surgiam outros, às vezes óbvios, às vezes evidentes... O fato é que se guerreava por nada.  Procurando indícios, sinais ou vestígios, Nurfo Nicácio,  o Ene-Ene, cavucou no cartório local um papel que impedia a continuação daquela morrência:  um acordo selado entre os Pururucas e os Cascudos, partidos rivais, rezando que nenhuma disputa levada às conseqüências armadas podia durar mais que quinze dias... Assim findou nossa morte... De defundidos a revividos, foi um passo.  Só os mais fracos, os tímidos e os estouvados continuaram jazidos...
                        Mas antes que esse fragor morticinal o sepulte em insignificância, convém ser levado ao ar outro humilde e silenciosos holocausto ocorrido paralelo ao primeiro, nas serras e grotas que se estendem desde Itaniope até os Confins do Desemboque. Foi assim: na sua fuga, Rabelo passou pela Mata e pegou apenas uma parte do prometido, o estritamente necessário à viagem.  Muniu-se de provisões.  Determinou que usassem o capital restante na erecção do Túmulo do Adeus...
                        De tardinha já dobrava o espigão das Sete-Voltas quando suas vistas depararam com um insólito espetáculo que fez rangerem todos os seus dentes no silêncio dos sorrisos internos...  “Óia-li, Niblim, a caterva dos macacos...  Aquela poeirinha fedida indo ali na frente! ‘Tou sendo obrigado a devastar esse clã de cigalhos, essa gentinha caçando chifre em cabeça de égua...”  E deixou-se possuir pela ansiedade: quase, por um avo não foi pressentido por um fardado que se atrasou.  Rapidamente teve que se enfiar numa moloca, onde aguardou ocasião...
                        Ali ficou meditando... “Quem será o filho-de-zoina, tinhoso, que me denunciou?... Nunca iam poder acertar minha pista tão facilmente sem uma delação! Oh! Foi mesmo providencial ter passado pela Fazenda: o desvio na fuga o juda ignorava!”
                        O efetivo, apesar de aturdido com a rapidez do fugitivo -que não deixava nem sinal de sua passagem ¬ continuava na pista fornecida pelo informante...  Enfim pararam - (como seguir pista despistada, só confiando em denúncia anônima?)- cavalos esfalfados de correr na frente de quem deveriam perseguir.  Acomparam na Cava das Almas, uma depressão entre a Primeira e a Segunda Volta da Medonha Serra das Sete Voltas.
                        Tinham acabado de arranchar, uma chuva desabou...
                        No dia seguinte eram apenas sete.  O oitavo elemento sumiu com o salseiro que o céu despejou a noite inteira sobre o acampamento. Na meruja que inaugurou o amanhecer, procuraram o praça até achar seu corpo: sobrevoado de negras sombras, no fundo duma bocãina, a uns cinqüenta metros abaixo da trilha donde conseguiam vê-lo... Largaram lá...  Um receio e um arrepio inauguraram seus medos...
                        Saindo dali perseguiram a Sombra Errante, tão fugitiva quanto enigmática, até altas horas daquele dia.  À meia-noite chegaram ao Alto do Vancó, onde começa o Chapadão do Bugre... Esse lugar mais adiante abrigaria a família dos Damásios, futuros hospedeiros de Dário Palmério, que vieram da região do Funil e do Cavalão, fugindo lá da Barra do Engano requerendo distância das balas dum Donário Carioca, com quem empreitaram encrenca.
                        (Esse Carioca, matador por acaso, descuidado, traiçoeiro e daninho, vivia lá na beira do Rio, de expedientes, explorando meninas, arreitando as moças de família daquela região... Ele tinha uma besta, Cabra-Cega, cuja fama correu mundo...  Ela, no galopinho, na peculiar braquibasia dos muares, sabia certinho a hora de parar com o corpo do desafeto liquidado que o dono havia jogado nas suas costas... Na beira do precipício, no mesmo sempre lugar por sobre a Cachoeira do Inferno (onde depois construíram - muito depois! - a Usina Hidrelétrica das Sete-Voltas) a mulinha estacava e, num galeio, soltava o cadáver para o mergulho sem retorno...  Nesse mister chegara à perfeição, fruto de muitos ensaios, dona de calculado macete, puxada pela mão do dono, que não se dava ao trabalho de carregar defunto de própria fabricação...  Ela calculava exatinho, conforme o peso que trazia no lombo, sabendo  - ou parecendo saber - que a distância e a ação da inércia se encarregariam de despejar mecanicamente sua carga.)
                        Ali, no casarão em ruínas, findo o clivo, no chato da planura, a mamposta pernoitou, todos cansados...  Acordaram tarde os que puderam.  Dois se recusaram: morreram de cansaço.  Ou talvez sufocados, quem podia afirmar?  Ali assim deitados, cara de sono eterno, nada de estranho ouvido pela madrugada...  Foram, sim, estrangulados com grande capricho e requinte.
                        Observando o movimento, assistindo dum oco a agitação dos milicianos, Rabelo aguardava sua partida.  Ia pensando... “Ah, Mariantônia, a justura de nós dois, no quieto, sem sarrafusco do mundo, só nós, sem tristuras...  Tô me indo pra você, me torná também goiano!...”
                        Repente, antes mesmo de ouvir-lhe o estampido, uma bala colibrilhou perto de seu ouvido direito:  pelo “tum” ao balear-se no tronco dum cedro, pensou: “quarenta e quatro”...  Deixou seu corpo se escorrer pelo talude e foi se machucando nas escarpas até chegar ao fundo da ladeira.  Foi o cerrado quem protegeu seus ais...  “Algum da cabrada” - cismou.  “Ou será que foi tiro a êsmo?  Não percebi nenhum me vendo, não tinha sentinela...  Amoito e espero...”
                        Virou a cara e viu ali por perto um chifre de muitas cracas, de velha vaca leiteira, caracua... Mais além, bem longinho, o fragor duma cachoeira.  Seu pensamento voa pela neblina, pelo arco-íris que pode imaginar se desenhando na poeirinha daquela água cascatosa... Foi lançado pelo pensamento, para dias atrás e até chega a ouvir novamente, e com grande nitidez, o Releixo dos Sinos que repicaram em dolorosos dobres no enterro dos Ribeiros, antes que se iniciassem, a esse sinal  pré-combinado, as primeiras escaramuças da Grande Guerra Universal, iniciada em Coivaras...
                        Mas logo é reconduzido ao presente pelo estrupo que se aproxima:  a formação dos cinco legionários segue em fila, no desabalado galope dos assustados.  Alguém manda bala sobre eles...  No alto da Serra, a origem dos disparos...
                        Quando já iam longe os fugitivos-perseguidores, um “IIIÉÈÈÈRRRÚÚÚ festivo e selvagem chega a seus ouvidos e reconhece o grito de vitória de Salantino Zequiel, pai de muitos bodes, criador de muitos filhos ali no Desemboque... E daí até escurecer foi um pulo, um almoço, uma longa conversa, muitos agrados.
                        À noite, de longe, a legião acampada podia ouvir em algum lugar escondido nas axilas dessas franjas serranas, uma música enfadonha...  Num sol-e-dó desses bailaricos de arrabalde, uma sanfona mágica sobressaía...  O Cateretê estava aceso: João Rabelo comemorava com Zequiel e família, o susto dos policiais e as próximas execuções...  Em seu acampamento distante, muitos limpavam as botas e lavavam num corguinho perto as fardas sujas de merda...  Sim: o efeito catártico da emboscada logo de início se fizera notado pelo mal-cheiro peculiar que denuncia os cagados...
                        Ainda naquela noite os bodistas consumaram o morticínio. Diga-se: que três dias depois foi encontrado semi-morto, no caminho de Coivaras, apenas um homem.  Com o pescoço intato, restou apenas Ornéjio, um sargento sem armas, vilipendiado, ultrajado, sodomizado e roncolho, sem roupas e sem montaria. Foi mandado de volta, sem patentes, nuelo, com variados recados ao gosto da ocasião. Confundido pelos combatentes com alguma vítima mal-matada da parte contrária naquela Guerra ainda em andamento, acabaram por executá-lo logo à chegada.
                        Seguindo viagem, Rabelo daí uns dias chegou a Uberaba. Lá embarcou a Mula, alugou um quarto perto da estação e dormiu por um dia e uma noite.  Depois juntou as malas e pegou o trem.
                        “Baldeações infindáveis depois, cheguei a Anápolis, cinco quilos mais magro... Almoçar e jantar não me faziam bem, eu enjoava o resto da digestã...  Fui raleando a comida até chegar na água pura.  Só ela não fazia mal...”
                        “Fui encontrar Neblina na cocheira da Estação de Anápolis.  Bem tratada, ao ver-me desatinou seu contentamento riflando, bufando e nitrindo sonoras gaitadas.  Procurei o despacho.  Desencaixotei a arreata, repoli a alpaca das fivelas, enfeites e argolas...”
                        Homem e animal tinham viajado umas cem léguas!  Juntos, vieram de Coivaras até Uberaba:  30 léguas.  Demoraram separados justas setenta longas léguas, a conta de sair de Uberaba, passar por Uberlândia, Araguarí, Cumari, Goiandira, Ipameri, Pires do Rio, Leopoldo Bulhões, até chegar a Anápolis...
                        “Arreatei a mulona, embelezei seus passos miúdos, acariciei sua cara amistosa...   Nós novamente juntos...  Diante de nossos quatro olhos, desfilou a beleza daquela região, minha Canaã...  Petrolina, Jaraguá, Uruama, Carmo do Rio Verde, Ceres e sua irmã Rialma...  Goiandira ali pertinho.   E Rubiataba.  Ali adiante, Vila Caiçara...  ‘A fazenda é aqui nesses meios.  Segue por ali, dobra pra lá, passa um corgão, quebra uma trilha: é ali, uns dois quilômetros adiante.’ - me informou um nativo.”
                        “Antes de chegar à Fazenda, ainda recordei aqueles sinos...  Uma hecatombe tomou conta dos conterrâneos.  Por qualquer migalha se matou um vizinho.  Resquícios de vinganças, ódios partidários, sobras de provocações, tudo serviu de motivo.  Por tutaméia duma xicrinha de pinga, um ror de gente que não bebeu, morreu, desafiando a provocação...  Matava-se a troco de ceitil, cherume.  Ah! Chacina opulenta, farturenta mortandade...”
                 (Algumas lamparinas faroleavam na escuridão.  A cainçalha confirmou o rumo de sua cavalgada.  As chuvas tinham alagado os caminhos e o cloque-cloque das pisadas da mula chapiscando nas poças atraiu os uivos ferozes para perto.  A cortina da noite, escura e densa, você procurava devassar com os olhos fixos à frentes.  Seus dedos, tão outrora cruéis, como agora suaves, crispando-se nas rédeas.  Ninguém conseguiria entrever sob a aba daquele chapéu seu rosto redondo e vermelho: os cabelos molhados, escorridos na testa, ajudavam a caricaturá-lo grotescamente.  O peito largo, repositório de sua habitual mudez, arfava levemente e seu olhar envolto pela escuridão executava milimétricos e impercepítveis movimentos...  A capa de feltro o protegia bem: o frio era tolerável... Bom é que ninguém mais ia enxergar naqueles olhos pestanudos o riso do deboche ou o faiscar da execução, nem o brilho cúpido com que seu olhar enfeitiçava as putas baratas...  A barba, cerrada, escanhoada em azul-gillete...  Sob a capa, um brim escuro de boa qualidade e bom-gosto.  Você calçava botas de couro, altos canos.  Esporas de rosetas...  Pelo modo empertigado de cavalgar, pela silhueta corpulenta e ágil que apeou defronte o alpendre, ninguém podia sequer imaginar que você estivesse no estágio cronológico que convencionaram chamar “meia-idade”...)
                        Antônia, olhando, nem queria acreditar. Aquele mesmo olhar, antes jocoso, irresponsável, agora carinhoso, transmitindo posse. Suaves olhos celestes. Pele queimada, rosto curtido, nariz fino e bigode aparado...“Eis aí teu homem!” E ele vindo, se aproximando, tão perto, corpos próximos, tão alegria sufocante enleada em seus braços...  Essa segurança que sempre a assustou agora irá ampará-la...  Esse longo amplexo acalentado...  Enfim seu homem chegou!
                       
(Os momentinhos de amor foram sementes que ela jogou em seu peito, Rabelo...  A felicidade são eles: existem...  Sabe: foi bom você nunca mais ter voltado pra cá.  Sei que mandou dinheiro pra Rio Verde, algumas vezes.  Sei que você gostaria de saber que a Penha recebeu, chorou agradecida mas ficou doida de vontade de saber donde veio sua dádiva...  Nessa cadeira-de-preguiça é só nisso que você deve pôr sentido: Mariantônia!  Aí nesse Goiás velho, dono de terras, abastado fazendeiro, potentado em bois, sua presença é um mistério que ninguém procura desvendar...  Suas boiadas ruminando assistem à sua velhice tranqüila e as fronteiras absorveram seus segredos...  Como lhe garanti na época do Fechamento:  “O Amor vai te esperar!”  Abraço saudoso do seu amigo,  Lamão.)