terça-feira, 14 de julho de 2015

FAZENDA INTERIOR - ESTÓRIAS


oscar  kellner  neto






fazenda interior

contos



2.ª edição




fazeNda saNta Rita
são José da bela vista-sp
1956 – 1996
Delfinópolis-mg
2011








Copyright© 2009 by Oscar Kellner Neto
Desenho da capa Oscar Kellner Neto
Revisão ortográfica Oscar Kellner Neto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro), SP, Brasil
Neto, Oscar Kellner
Fazenda Interior, Casa do Novo Autor Editora / São Paulo / 2009 – 1.ª Edição
ISBN: 978-85-7712-1267 CDD-869.93
09-08775
Índices para catálogo sistemático:
1. 1. Ficção ; Literatura brasileira 869.93




para Avelino Kellner,
meu pai, cujo amor se tornou luz
inextinguível...

para ele, que construiu  nossa família
com muita luta, humildade, honra,
abnegação, trabalho,  honestidade
e alegria..

para ele, homem direito, de caráter
sempre meigo e espirituoso.
muito sério, mas sempre sorridente.

ao meu pai, o amigo dos animais e das
plantas, da natureza  e dos homens...
a ele, cujo espaço em mim ninguém
jamais ocupará...
a ele, que, encantado em saudade,
me faz tanta falta...

ao meu querido pai, meu amigo,
grande contador de estórias, que
plantou em mim a vontade de escrever,
e para quem - inexplicavelmente -
nunca dei para ler uma estória minha,
ofereço e dedico, de todo coração,
colheita em sua memória, esta
fazenda interior...

 
sumário



  7 - paz-sarinha  

11 - a velha usina

  15 - os ossos do ofídio
   
23 - os peixes

31 - sete-vidas

56 - a tuia

65 - a lúita 

149 - o herói

166 - o guardamó

212 - biobibliografia

218 - fortuna crítica







paz-sarinha

para Zigomar, Lourdes e Filhos



"Permanece amarrada lá, no alto do esteio do coiceiro da porteira do Barracão. Convexa, talismânica, lendária:  a caveira do touro Charuto...
Dados os usos gerais, por certo afastasse maloiados, quebrantes e outros inconscientes malfeitos mentais por taismente conhecidos telenérgicos.
Pois aqui mora a garrinchinha-parda, dona de maior mansidão entre o pessoal alífugo.
Da cavidade onde existiu o indiano olho esquerdo do puro Zebu, raçudo Gyr, fez ela a portinha para o interior de tão carapaça moradia.
Ali nidificou a vida toda.
Tem, como vizinha de destro ex-olho, uma samambainha sempreverde, enfeitosa, brotada da terra pouca que porém muita se tornou levada com insetos no biquinho da avechinha-mãe... Cheia de asseios, ao passar expulsava de sua porta as terrinhas, que foram se ajuntando ao lado, vizinholho.
Carriça lindinha - uma bolinha aveludada com dorso pardo-acinzentado e penugens amarelas no ventre - a gente a ficava ouvindo, mas ela não trinava nem gorgeava; garrinchinha não garrula não pipila nem gralha. Não pia de macucos, nem cruja ou ulula, à corujal. A trogloditazinha quase zinzilula e trissa, como os picaflores colibris. Ela apenas corruchia chilidozinhos dizendo: corruíra, corruíra, corruíra... Daí, até seu apelido meio chinês, dos guaranis, camba-xii - chilreio negro -, poética corruíra, quase xilra, a cambaxirra!
De manhã, toma ela seu justo raio de sol pousada nos cornos carcomidos,  cheios de porém dignidade, do raçoador extinto. Ela fica zinzando de um pro outro, gostando um tanto de catar piolhos, muquiranamente... Um ligeiro vôo e parte dali.
Aí a gente assiste ela, no chão, quebrando no bico fino e aguçado as núculas do pinheiro ali de perto, pra trazer os gusaninhos das castanhas pros filhotes. Desde novinhos eles são iniciados no ofício de pinçar tungas, próprio das garriças insectívoras. Para treiná-los, vai aos chiqueiros, se impregnando de pulgas e níguas trazidos nos pés e penas pra infestação do ninho...
É ainda do alto da guampa esquerda que, delicada, a avezita exagera no uso de sua cloaca:  aos pés do esteio, notam-se, ao fim do dia, incontáveis cocozinhos bicolores.
Ah! Esses  chifres, arcos, donde lhe partiram os filhotes, um a um, flechas, para o desconhecido... Dali todos um dia fugiram vôos, inaugurando liberdades.
Desd'eu menino, quando sentia vontade de cumprir um medo pouco, pra evitar outro maior, olhava de-noite pros lados do Barracão pra ver se flagrava a caveira lumiando, (como só elas sabem), nas quaresmas rurais. Vez ou outra piscaluziu, mas de apenas muitos pirilampos & vagalumes pousados, se navegando, indistintos, nos riozinhos de sangue nobre, veiazinhas já ossificadas como lindes dos mapas da sobretesta luzidia...
Essas lanterninhas verdes, acesas em sua porta, garrichinha papava!
Vem a história oficial da morte do boi... Contam que foi imprudência do dono que deu naquilo... Um mau conselho veterinárico fez o touro tomar remédios hormônicos a fim de aumentar potências, pra fazer além do que podia, conforme a consoante natureza de um legítimo bos indicus.
O coitado definhou, após múltiplos incontroláveis transes. Depois, nada que o arribasse houve. Só foi para trás. Remédios, sangrias, mandingas, rezas, desaguamentos, benzeções, simpatias, cozeres & trabalhos de terreiro: debalde!  No dia 2 de agosto de 1954, Charuto morreu...
Sabe-se que, depois dele, um boi-menino, Catu, veio e firmou seu lugar, ali ficando até a chegada dos tempos leiteiros, bois holandeses, ditos bos taurus.
Mas, quando Charuto inda pastava, quem havia que lhe aliviasse, catando os carrapatos tão dissimulados por debaixo das orelhas tão esmagadas sob os chifres, conforme a raça exigia, quem?  A garrinchinha se alimentava deles!
Charuto era território dela, sua seara exclusiva. Inclusive, os dois se davam tão bem que ele até suportasse as moscas, não abanando a longa cauda de legítimas cerdas indianas, só para não a machucar, enquanto lhe pinçava os parasitas do couro...
E estava escrito que, no futuro, ele continuaria se relacionando com ela, sendo seu abrigo, toca, refúgio, retiro ou esconderijo...
Sim, uma vez morto, extintas as orelhas-em-gavião, lavaram aquele crânio semi-descarnado em cáusticas sodas, entronizando-o no alto do esteio.
Ela está lá, no fundo da memória, a ave...
Ei-la se banhando na pocinha havida aos pés do bucrânio, bacineta criada no chão duro pelos pingos das goteiras da chuva.
Ah! São petrechos seus, além, das peninhas lindas castanhas e dos saltitos milimetrados, o remígio rápido e a caudazinha curta, retrizes erectas, elegantemente...
Eu sempre querendo tê-la nas mãos, amor-de uma  carícia ao menos, mas ela impermitindo minhaproximação... Tentei tudo nesse intento: alçapão, arapuca e até um corrupixel. Jamais consegui...
Hoje, resta, distante história de nobre raça, dando gosto de se ver, apenas a venerada cabeça.
Brilha fácil, em qualquer noite aqui da cidade, quando me doem saudades da Santa Rita...Mas o pensamento ligeiro não me deixa lembrar direito.  Assim como,  rápidave, sai do ninho do meu peito a garrichinha - risplis - desnorteado vôo, fugassustada, que ela não espera a gente  chegar  mais        perto  para  um  curioso  se-rever!"


a velha usina

                                                                  para  Zigomar Kelhner


ARROBA, venerado manipanso, cabeça branca, continua a recordar-se dos dias de sua infância... O tempo regride... Ele parece estar revendo o irmão na tarefa de espantar as trevas... Conversa com ele, na emoção de sua lembrança.
A fazenda possui sua própria Mini-Usina Hidrelétrica. É um muito esforço, mas ela cumpre religiosamente sua tarefa. À tardinha você vai até o canto onde fica a manivela; aparafusado na vigota da varanda do forninho, está o relógio-medidor, o voltímetro, onde você põe olhos fixos enquanto com as mãos aciona a manivela: ponto de tração, espécie de roldana, sua catraca traciona o longo arame de aço. Ele tine e zumbe enquanto vai sendo esticado e enrolado num carretel...
Ah! É mágico ver a energia ir acendendo aos poucos as luzes da fazenda! É como se do fundo dum poço radiante viesse - fluz! - tal água luminosa enchendo de luz as lâmpadas de vidro... À medida em que se enrola o fio, o medidor vai elevando tremulamente o ponteiro, até atingir um número encantado que faz brotar claridade em todos os ambientes.
Aos poucos, descubro: na outra extremidade do fio cantante se encontra um mecanismo por demais complicado: ele proporciona a fabricação doméstica da luminosa energia. A Usina fica no fundo da ribanceira, pros lados do Mangueirão, no meio do perigoso Bananal, recanto angüifero, onde moram jibóias e cobras venenosas, e donde galinhas descuidadas jamais retornam.
Um capricho da natureza os homens souberam aproveitar e aperfeiçoar: as águas de um rego abundante vêm conduzidas em nível, após serem desviadas dum caudaloso ribeirão nas divisas da Jaguarão, e passam no alto da ribanceira, por sobre a Usina. Uma pequena barragem paralela ao rego foi construída: o sistema de captação e armazenamento da água. Aproveitando o forte declive lateral, um encanamento de várias polegadas conduz a água até às turbinas da Usina. As máquinas,  acionadas hidraulicamente, fazem girar o gerador enorme, o grande dínamo produtor do milagre energético, mistério da física consubstanciado no sistema do eletroímã...
Fios alegres, devidamente abastecidos de voltes, levam a maravilha elétrica até o voltímetro e dali aos bocais das lâmpadas.
De manhãzinha, é só desenrolar a manivela, bambeando o cabo. Ele deixa de cumprir sua missão de fechar e abrir comportas internas dentro da Usina.
As lâmpadas, num desluz, lentamente se esvaziam da etérea claridade: aí se pode sentir a eletricidade refluir com preguiça à sua gruta de ferro, água e mistério...
Na época das chuvas, o rego, bamburrando nas enchentes, se suja de folhagens. A grade protetora na entrada do reservatório ao lado do rego então se entope de detritos trazidos pelas águas, represando o líquido antes de sua entrada. Instala-se o caos nas noites de Santa Rita! Com reduzido volume, não há peso suficiente e nem pressão d'água para o acionamento das turbinas. As luzes vão se apagando aos poucos até se tornarem pequenos tomates luminosos...
Então você enfrenta o barro do quintal na ida até à boca do tanque, a limpar a grade com vara apropriada. Precaução necessária, evitante do perigo das cobras que tantas vezes você já tirou em meio às ramagens represantes. Após a limpeza, reabastecida da necessária água acionante, a Usina recomeça seu ofício e a luz  retorna nos trazendo alívio e alegria.
Às vezes, no início da época da seca, o rego míngua, todo sujo de ervas e com plantas aquáticas (brotadas na estação das águas) povoando suas margens... É ocasião da limpeza do rego, pois a mesma água serve outras moradias mais adiante. Muitas vezes, ele está assoreado de longínquas areias, barro depositado proveniente dos terrenos arados sem curva de nível, restos culturais e folhagens do outono findando. Alguns homens, trabalhando alguns dias, reformam a fonte da claridade. Ela se fora, por absoluta falta d'água que tocasse as turbinas da Usina em descanso...
Já no ocaso do inverno, as águas escasseiam devido à avareza do clima, pois o grande córrego donde é retirado o rego se torna, ele próprio, nada mais que um pequeno regato, de onde até os bagres & cascudos se mudam temporariamente... Aí o mal é incorrigível e o jeito é esperar. Convivemos com a escuridão, à luz das velinhas votivas de São Jorge e das lamparinas a querosene. Então, toda noite, mais que nunca, existe o Serão em roda do rabo-do-fogão... Uma acha de lenha, o crepitar das labaredas, as sombras dançando na tela branca das paredes da cozinha... Os meninos e meninas, não se sabe como, cabendo todos juntos no banquinho de madeira, ouvindo deliciados, entre arrepios e gargalhadas, suas estórias maravilhosas do tempo-antigo, das assombrações, do Guarda-Mor que vagueia lá pelos lados do Perau,  das carreiras que o povo tomou das vacas brabas mais famosas da fazenda. E, como sempre,  e isso jamais esqueceremos - antes de ir deitar, se toma o último leite do dia... Às vezes os causos continuam e muitos dormem ali mesmo, após cochilos irreversíveis, estômago quentinho, recheado dos perfumados, macios e inesquecíveis bolos, sequilhos e doces da Lurdes, tais quitandas mágicas que depois vão povoar, companheiras das pipocas e biscoitinhos, nossos sonhos infantís...
Você então vai carregando cada qual para sua cama, como quem carrega o futuro nos braços...



os ossos do ofídio


         para Antônio Sérgio Kellner



ISSO aconteceu e merece ser lembrado como uma ação de graças à misericórdia de Deus...
Na calçada dos fundos da casa, em frente ao pomar em formação, pertinho das manilhas salientes do esgoto que desce dos banheiros, ali brinca o Menino, fugido sorrateiro de perto da Mãe.
Atrás dos grossos encanamentos, dois metros enrodilhados, a cabeça achatada destacada do corpo, armada de ardis, astúcias e estratagemas, certamente vinda dos lados da Usina, dos fundos do Mangueirão em busca de seu murino  alimento, dorme tranqüila uma Cascavel.
Ninguém percebeu a fuga do Pequeno, que agora gunguna sons pequeninos enquanto se engatinha de um lado pro outro, mexendo com pauzinhos e pedrinhas.
Então acontece o excitado despertar do Mórbido Ofídio, pois bastou um leve gatinhar para colocá-lo de atalaia... Ao longe, gritos aflitos procuram a criança, agora curiosa, de olhos fixos na massa bonita de escamas coloridas do couro da Naja. Ah!...aquele fulgor de madrepérolas, vindo das escâmulas, provoca uma cintilação furta-cor, hipnótica, realçando o encanto coruscante dos brilhos e cores do invólucro escamífero...
Quando se aproxima dela, o inocente pára perplexo com o chocalho sibilante de guizos vibrando. Com esse aviso - que integra seu sistema de defesa - a Víbora tenta advertir ou intimidar seu possível agressor. Ela raramente atacaria, sem que se sentisse ameaçada ou impossibilitada de fugir...
Em seguida ela se prepara, armando-se, helicoidal e medonha, para o calculado arremesso.  Mas  só atacará   quando estiver convicta de acertar o alvo. Aí  o bote é  sempre certeiro.
Agora mesmo, usando os recursos das fossetas termo-sensíveis, - verdadeiro radar térmico que possui atrás das narinas - a Bichonha pode   calcular a exata distância através das ondas de calor irradiadas pelo corpo do suposto inimigo, já  quase dentro do fatídico raio de meio metro de proximidade...
Ela não está  sentindo o cheiro do molequinho, como o sentiria a maioria dos animais... Para identificar odores, pois tem o olfato reduzido, ela, através de uma fenda no meio do maxilar, projeta e recolhe constantemente a língua bifurcada, recolhendo do ar ou do solo partículas odoríferas que leva até  um decifrador de partículas localizado no céu da boca. Assim é  capaz de localizar, perseguir e matar sua caça. É  assim, também, que encontra seu par  no cio, ou entra em hibernação.
A pajem Cida enfim descobre o Infante e vê, estarrecida, em desespero, o Perigo Reptil. De longe, dispara um alerta geral: Socorro, me acode minha Santa Ritinha! 
Grande correria. As mulheres gritando, homens apressados, tropel na calçada, meninas chorando, pânico geral...
O bulício inferniza o sossego viperino, provocando grande excitação na Serpente de olhos fixados, ainda que mal-enxergando, no Filhote-de-Homem, já  tão  próximo. Ela enxerga quase nada e nunca pisca: tem as pálpebras soldadas formando uma membrana transparente sobre seu olho, reduzido a uma fenda pupilar vertical.
No grande rumor espera e, dona do mais frio sangue, não ataca ainda...
Ela também é surda, mas capta, através do corpo, especialmente do ventre, dotado de altíssima sensibilidade, - verdadeiro sismógrafo -,  as vibrações sonoras transmitidas pelo solo.  Através dos pulmões também percebe alguns sons de baixa freqüência. 
O Garoto, espantado com tamanha balbúrdia, - gente mandando ficar quietinho, gente chamando do outro lado, - se afasta dela um pouquinho e cessa a vibração do cincerro terrível.
O Pai faz pontaria, encurta a distância, mas não se arrisca a disparar...
Procurando um porrete por trás do galinheiro, Sô-Tião encontra o resto nojento da antiga couraça que a Cobra substituiu. (Essa troca ocorre quando seu crescimento começa a ficar limitado pela pouca elasticidade do extrato córneo ou ainda para compensar atritos e desgastes. E a nova "pele" reproduz, com exatidão, todos os desenhos e cores da anterior.  A da Boiquira tem coloração  pardo-escuro, com losangos dorsais claros que se alternam com outros laterais.)
 Alguém informa que, após a muda, seu veneno se torna mais  mortífero. Compreendendo o grande risco presente no fato novo surgido, todos quietam. O tempo parece parar. Silêncio total...
Se a áspide se arremeter, numa  fração de segundo, o impulso que joga sua cabeça adiante, também abrirá   suas maxilas, projetando para diante os dentes afiadíssimos -providos de um canal interno - que, funcionando como agulhas hipodérmicas picarão, numa pancada rapidíssima, sua vítima infantil, injetando-lhe o fulminante veneno proveniente das glândulas pressionadas pelo maxilar.
Se  for picado assim, o Petiz logo perde sua coordenação motora e enquanto seus glóbulos vermelhos vão sendo destruídos, uma paralisia tomará conta de seu corpinho vitimado...
[A gente ainda se lembrava da Cobrona que o campeiro matou no piquetinho dos bezerros, além do Barracão. Com o próprio pau  com que matou, o homem cutucava o Maléfico Cadáver  inerte. Todos olhando de longe, pois mesmo decepada, ferina, ela pode   picar alguém, graças aos movimentos reflexos... Aquela Bruta tinha cinco anos.
- Pode viver até vinte e oito, falou Sossebastião.
Depois de bem morta, findo o perigo, cortou fora o seu guizo, que passou de mão em mão, como um troféu de dez gomos... Ele é formado por segmentos córneos, pedaços de pele endurecida, entrelaçados que vão ficando na extremidade  da  cauda  quando a Maracá muda semestralmente o tegumento de escamas que recobre seu corpo.
Com o cajado, mexe então, com muito cuidado, na cabeça do Monstro e aí  podemos ver seus dentes inoculadores, tubulares e compridos, escondidos atrás duma membrana, no alto da boca. Os dois pares de presas retráteis estão implantados numa parte móvel da frente da maxila superior. Permanecem dobradas para dentro quando as mandíbulas estão cerradas e assumem posição ereta ao se abrir a boca no momento do bote.
Aí, de uma certa maneira, o campeiro pressionou com a vara sua cabeça que logo brotaram das presas duas gotículas do líquido letal. Esse veneno mata quase que instantaneamente suas pequenas vítimas. A gente viu que ela não possui dentes de mastigação: engole inteira sua caça, cujos tecidos já   estarão sendo destruídos pelas toxinas, numa ajuda ao seu processo digestivo.
- Cobra come pouco, principalmente essa Maracabóia, que pode ficar até um ano sem se alimentar. - continuou em suas explicações Seu Sebastião...
Notamos que, pela boca enormemente aberta,  é capaz de abocanhar presas de diâmetro superior ao seu, pois ligamentos flexíveis e articulações especiais permitem a separação das duas metades da mandíbula durante a deglutição...Quanto medo sentimos!
Mas, com todo esse aparato  bélico essa Colubrina de fôlego incrível   - que chega a ficar um dia  inteiro  sob  a  terra ou submersa, sem renovar o ar dos pulmões -  não resiste à sua grande inimiga, a angüicida Seriema  Cariama. Tal predadora sua a ataca, protegendo-se de suas investidas com as asas abertas, cujas penas oferece às inúteis estocadas. Enquanto isso, pula à  sua frente procurando desnorteá-la para bicá-la por trás da cabeça em golpes seguidos, espicaçando-a e espezinhando-a até à morte.
Já  então  nos acalmávamos quando, para nosso grande espanto, Sossebastião rasgou-lhe o ventre e dali arrancou o coração com um canivete: o músculo continuou pulsando por meia hora sobre uma folha seca, diante de nossos olhares deslumbrados...]
A gente se lembrava disso tudo torcendo pro Guri escapar...
E foi por puro milagre! Toninho, assustado com aquele rebuliço, se afasta para o lado oposto ao do Bicho Rastejante e logo se agasalha nos braços da Mãe.
Ela se distancia rapidamente do sinistro local, chorando alegre e comovida na certeza duma graça alcançada por intermédio da Padroeira Santa Rita.
O Pupilo ainda traz na memória o estampido, a tamanha fumaceira, a catinga da pólvora, o ruído estrondoso e o chuá   de tantas chumbinhas disparadas pela cartucheira do Pai...
Mortalmente ferida pela descarga da arma, a Serpe Vadia ainda tenta fugir e se desloca em contrações musculares que se propagam em ondas, da cabeça até à cauda, enquanto seus flancos feridos vão se apoiando nas irregularidades do solo, produzindo um rastro sinuoso e  sangrento.
Um golpe de foice quase a corta pelo meio, quebrando sua espinha e não pode mais  prosseguir...
O veneno parece fazer o Réptil Escamoso se contorcer por longos momentos diante de nossos olhares assustados e sôfregos. Aos poucos, vão cessando suas contorsões e morre finalmente... Na sua eterna luta com o Homem, hoje Krotalon, artefato mortífero,  levou a pior...
- Onde vai enterrar, seo Omar? 
- Lá   atrás do viveiro de café.  Enterra bem fundo, Sebastião,  pra ninguém prejudicar o pé  num osso dessa Venenosa.
Sobre a carcaça da Peçonhenta  plantamos palmos de chão. 
Até hoje, nos fundos do quintal, no coração da terra,  lembrança perigosa, ela jaz: ameaça constante,  Durissus Terrificus,  na vida e na morte...



os peixes



TODA manhã: água pelos joelhos e o córgo cantando pelas peneiras!.... Era um tempo de descobertas...
Sob certo ponto de vista, minha infância na fazenda moldou-se no sentido do amor aos lambaris, incondicional.
Os lambaris, quando perseguidos, davam um jeito de correr córgo acima e, muito longe, se enlocavam no Poço.  Parecia saberem: a gente não ia lá... Mas eu lhes dizia sempre, me fingindo de bravo: - Ainda aprendo a nadar como vocês e aí vai acabar esse seu silêncio galhofeiro, quando voltamos para a Pedra do Cipó...
Um dia, acho que bagres brincalhões - vimos de longe - pularam tanto na água perto da Pedra que molharam nossas roupas. Tivemos que ficar por ali, esperando elas secarem, ouvindo aquele mesmo silêncio cortado de muitas bolhinhas de ar se arrebentando na superfície...
Não sei por que, mas só eu ouvia, em cada estouro, uma risadinha...
Num sábado pela manhã, chegou na Sede o Seu Júlio, um velho amigo do vovô, morador lá em Sãizé.  Saiu pra fazer uma caminhada pelos arredores e logo estava lá perto do rego, onde a gente peneirava umas gambevinhas e cascudos.
Gostou de ver nossa pescaria de brinquedo, prometendo nos ensinar a tapear de verdade uns bagres...
Não acreditou na risadinha. Como todos, dela riu... Acho que naquele dia me prometi nada mais contar a ninguém sobre o que se passasse entre mim e os peixes.
Hoje estou quebrando aquele juramento íntimo porque já não me importo se alguém vai rir de mim, ou duvidar dessa história, onde entram as risadinhas.
Seu Júlio gabava-se de ser pescador com pê maiúsculo. A gente fez uma patota em redor dele, pra ficar ouvindo seus causos de pescaria.
Fiquei com isso na idéia, quando ele afirmou: - Os peixes são como cochilos de nuvens apressadas, mergulhando no ocaso. Devem ser pegos no fugir do dia, depois da janta...
Passamos o resto daquele dia capinando um canto do Poço, lá pros lados do fundo do Mangueirão, local do pesqueiro improvisado.
E, da beira do Poço, assistimos a tarde morrer, com um gosto verde-pálido de capim cortado, que se agita e murcha...
Encarei aquele crepúsculo como um cerimonial e aprendi a amar o poente...
Os lambaris estranharam nossa ausência, pois percebi muitas carinhas assustadas com aquela vara-de-anzol.
A  noite desceu sobre nós feito um coice: ninguém viu. Ali na beira do mato, na escuridão mal vasculhada por uma lanterninha fraca, fiquei com medo de tantos coaxos, silvos e miados que nem prestei mais atenção para as patacoadas do Júlio... Num ritual, os pernilongos começaram a se aproveitar de nossas calças curtas. O Martinho e o João não paravam que me chamar pra ir embora...
Nunca gostei muito de ir lá no Poço. Uma vaca mojando tinha caído, machucada e nem o campeiro e nem ninguém conseguiu retirá-la. Até naquele dia havia ainda uma caveira lumienta lá pros lados da moita de tabôas onde ela caíra...
Como o Poço escuro era morada dos  bagres, durante muitos dias saborearam a carne da vaca e do bezerrinho de dentro. Um lambari - conviva do festim - me contou que a parte mais apreciada fora o quarto traseiro, esquerdo.
Espantei um enxame de muçuns. Cheios de calombos coçando e ardendo, a gente já  não aguentava mais. Com muito frio, olhava o Júlio naquele ofício de pôr bolinhas de farinha de trigo no anzol, que sempre saía da água sem o raio da isca... Pensava: os lambaris tinham ficado tristes comigo e os outros... Os bagres, então, mais que tristes: furiosos!  É que os traímos, e, apesar de não haver nenhum tapeado até então, eu já  sentia remorsos de ter ensinado aquele lugar pro pescador...
Aquela espera me fazia lembrar que os peixinhos, à noite, ficam sonhando suaves sonhentos sob a água, como sob a manta ficava a Graça, minha irmãzinha caçula.
Quando fomos embora, já escurão de doer o medo, o Júlio, protestando pela nossa deserção, ficou plantado lá na beiradinha do Poço, esperando uma beliscada.
Dormi muito mal naquela noite. Sonhei com peixes enormes que pescavam lá das nuvens os meninos brincando no pasto. Até chorei/sonhando quando fisgaram o Cláudio com uma isca de velocípede azul. Os peixões gargalharam e acordei suando.
Bem cedinho fui correndo pedir pro Júlio pra não pescar mais lá no Poço não... Eu não queria aprender a pescar nunca! Mas o quarto dele estava vazio. A rede, que sempre trazia pra dormir - tinha horror a camas - estava dobrada em cima do criado-mudo.
Fiquei preocupado. O pai tinha saído pra roça. Então encontrei vovô no curral e lhe contei. Ficou vermelho no nariz. Tremia as mãos e resmungava umas coisas baixinho que não dava pra entender. Este modo do vovô só aparecia quando acabava de matar um capado: às vezes, ficava assim muitos dias. Chamou o campeiro, que largou os filhos tirando o leite, e fomos para o Poço. Murmurava, entredentes, coisas como defunto, etc. e tal.
Sempre ouvira falar de defunto. Era-me algo inteiramente sem nexo. Associava com imagens de histórias que me contavam, como elefante e  presunto. Mas, apesar de soar pra mim como algo horroroso, nunca sentira medo da morte. Pensava comigo: os animais mortos acabam, desaparecem e deixam de sofrer. A égua Cigana - pra ela foi um alívio morrer com aquela picada de cobra... Escapou de uma vez por todas do peso do vovô, que só gostava de andar nela. Um capado deixa de penar neste mundo, carregando toda aquela banha, quando o matam... Eram aspectos da necessidade da aceitação da morte em minha simplicidade e meninez.
Contudo, gente morta eu tinha medo de ver. Ignorava completamente o estado de um ser humano, como eu, sem a vida.
Os pássaros que brincavam no corpo boiando no Poço atenuaram o choque. Eles ciscavam farelo de farinha de trigo no colo do morto... Aí notei a naturalidade da morte. Abelhas e marimbondos, amigavelmente, cobriam-lhe o rosto, sugando, uns, o sangue e, outros, o néctar de um de seus olhos. O outro olho permanecia intocado, vítreo.
Todos os insetos da região, numa nuvem, sinfonizavam ao redor.
Vovô tentou retirar a vara mergulhada num emaranhado de tabôas... Mas, como pesava! Seu Sebastião ajudou e puxaram-na pra fora, com força. Foi aí que vi uns vinte bagres, parece que agindo com grande ruindade, quase na flor da água, largarem a linha que centenas de bocas de lambaris os ajudavam a segurar... Vovô caiu para trás, no colo do retireiro e, ainda sentado, mandou-o chamar o Omar e alguns colonos: que viessem ajudar na retirada do afogado.
Sua parte de trás - pobre Júlio - estava nos ossos.. Como aquelas figuras despeladas que os mascates mostravam nos domingos na praça da igreja de Sãizé para  que o povo, impressionado, comprasse um tal remédio pra dor nas cadeiras...
O único bagre pescado, eu percebi, tinha um dos olhos intatos. Estava ali, rígido, espetado com uma taquarinha pontuda no barranco à beira do Poço, cheio de formigas passeando por ele  e pinicando-lhe o couro ressequido... Na boca torturada, um arzinho de zombaria mostrava uns insólitos  dentes afiados. Arranquei-o do espeto e o joguei lá no meio do Poço. Ele boiou um pouco e foi afundando devagarinho, como uma barquinha furada...
Vovô dizia a todos, meio descontrolado, que o Júlio nunca aprendera a nadar e que tinha medo de água, mas não contava aos outros, sendo esse um enorme defeito em qualquer pescador.
E que tinha morrido de puxão! Muito certeza tendo sido uma obra do Trasgo Guardamó, na má influência dos peixes da beira do Perau...
Daí um pouco - e isso todos assistiram -  de chofre, o bagre morto emergiu,  repulou pra  flor da água, brotou dali revivido! Cresceu dois palmos no tamanho, teve recriado o olho que faltava e começou a rodopiar, ajuntando a peixarada toda do Poço em volta dele. A água parecia ferver.  Uma névoa fedorenta subiu da tona d'água e encobriu o cadáver do Júlio no barranco... Quando se dissipou aquela neblina, faltava da cara do morto o olho que os peixes tinham deixado indene.
Foi um escarcéu danado! O povo se esparramou todo! Quase não levavam o pesado fardo pra Sãizé...
Compreendi então: os peixes amam e odeiam em silêncio...
Daí uns dias, um lambari me contou que a parte mais apreciada foi a carne macia do lorto do Júlio...
Os bagres sumiram do Poço escuro...  E nós, ariscos, também ficamos um tempão sem voltar lá... Só muito  depois, a gente perdeu a cisma  de ir àquele local. Quando aprendi a nadar,  eu tranava o Poço de um lado pro outro com os outros meninos, sem  perceber a presença deles por ali...
Os mesmos pássaros, muito mais tarde, brincaram também no Alpendre, ciscando farelo de bolo no colo do vovô. Do vovô que ficava ali, envelhecendo o olhar nas paisagens da lembrança, quando lentamente a tarde morria com um gosto louro de feno recolhido que se revolve e fermenta...



sete-vidas



I -  FAMÍLIA


CERTO domingo a gente saiu pra campear umas mangas lampas, pois não era tempo delas, sendo raras ainda. Como estava todo mundo cangando grilo, numa folga arretada, o Arroba, que tinha vindo de férias do Seminário em Ribeirão Preto, onde estudava para ser padre, vovente,  aproveitou pra cumprir uma promessa que tinha feito há muito tempo, de contar pra nós uma história muito bonita, dizendo que era verdadeira, da vida dele...
A gente encostou numa sombra boa e ele começou nos conformes...
Era uma vez um menino que tinha acabado de moer café pra sua mãe e estava chupando limas de casca seca da limeira do quintal de sua casa.
Envolta nas fraldas da manhã, uma notícia então chegou! Coisas de cegonha: a mãe dele ganhava, então, mais uma menina. Esta seria a caçula definitiva... O quinto elemento mulher da casa, para influir na  personalidade masculina do pequeno  Arroba.
Sim, pois o pai ele pouco via, que cedo este ia pro serviço lá na bomba de gasolina da praça da Estação. Lá mesmo almoçava, da marmita que Carmem e Lídia,  as meninas de trança, vinham buscar pra ele... O pai quase que só aparecia em sua vida de noite... Durante a maior parte do dia, só ele de hominho em casa, desde o tempo em que o Zigo seu irmão se casou e as mulheres eram ainda apenas quatro...
O Arroba diz pra gente que se lembra sim - e olha que então teria apenas uns três/quatro anos - desse irmão, moço reservista, ainda solteiro, que mexia com a mana mais nova de então, a Maura, chamando-a de Cuié, por causa do tipo de pranto que ela usava...
Sim, se recorda sem engano: o mano dele tinha uma vitrola-picape que funcionava conjugada num rádio-de-mesa e permanecia sempre sobre a cômoda perto daquela cristaleira sempre brilhante, cheirando a óleo de peroba, onde existiam taças e copos decorados que não se usava nunca pra nada...
Ele se casou, levou rádio e tudo... No casamento na igreja, o Arroba foi cavalheirinho-de-honra. Lá, no seu terninho casamenteiro, no bolsinho de cima do paletozinho,  à esquerda, as iniciais: zero quilômetro...
Na festa do casório houve até uma briga, fora dos conformes...  Estavam todos dançando, pura alegria, na sala da casa do pai da noiva, quando o sururu surgiu... Haviam pregado um pegador de roupa na parte de trás do paletó do tio Álvaro, enquanto este dançava, caindo todos na risada. Quando descobriu ser o alvo da zombaria, ficou indignado pela brincadeira de mau-gosto... Queria por toda lei saber quem fora o autor da pilhéria e, como não conseguisse, e apenas aumentassem as gargalhadas dos presente, o Arvo perdeu a calma, começando uma briga medonha que acabou com o baile e com a festa... Para muitos, a falta de paciência e a explosão furiosa denotaram o início de um desvario sem retorno...
O Zigo foi-se pra roça, casado com a filha do fazendeiro, pra inventar a geração de muitos filhos e lavrar a terra com o suor de seus esforços...
Pois quando esse casamento aconteceu, eles eram apenas cinco irmãos em casa: dois homens e três mulheres, em duas turmas de geração... Entre os mais velhos e os novatos, havia um salto no tempo, e nesse vão perdido, uma criança, a Dindinha, morta ainda de colo, anjinha...
Depois veio a operação da mãe, nossa Avó,  a longa espera até a volta da fertilidade, bênção de Deus... No recomeço, uma menina, a Laurinha. Depois o Arroba, e depois a Cuié..
Aí aconteceu o casório do irmão. Da turma dos mais velhos, ficou com eles, como uma  segunda mãe, a Darva. Mais adiante, apesar da austeridade, ela faria pra ele os primeiros papagaios, de papel impermeável e em duas cores! E costurou uma linda camisa com o número 8 nas costas, de seu herói, Luizinho, do Corinthians...
Contou que a Darva, essa moça que ajudava tanto a mãe, vivia de cócoras no rabo do fogão, sob a janela da cozinha, espremendo aquelas espinhas e cravos da idade dela... Geralmente cantava, aprendida na picape da sala, música dizendo coisas como  mi nombre és Maria, Maria do Carmo; su nombre és Rodrigo, Rodrigo Fernandes...
Pra apurar direito, resta saber  até que ponto ela tinha mesmo raiva e era tanto brava quando ele, arteiro, impossível, se dependurava na cortina da sala, ou raspava os pés sujos no assoalho encerado-inda-agorinha, ou riscava passos no Congóleo e nas Passadeiras tão difíceis de se limpar... Resta perguntar pra cigana, pois isso já passou há muito, como as chuvas assistidas da janela da rua, respingos diluídos na vidraça das recordações...
O Arroba inda se lembrou que detrás da porta da cozinha da casa em que foi menino tinha um moinho, o munho de café, e que a latinha preta, encardida no antigo recolher do pó, estava desde sempre amassada naquela época...
Ele quase não aguentava girar a munheca, caso enchesse de grãos a boca do munho... Tinha de ir pondo de pouco em pouco, ou então, viciar a regulagem que havia atrás da máquina, fazendo o pó sair fácil e grosso, pra tonar mais leve o tocar da manivela... O que a mãe logo notava, na primeira coada, e lá invinha o pito!, pois era de teimoso que ele moía os grãos, tentando ajudar a vovó, que ela não lhe tinha imposto essa obrigação...
Pois ele estava chupando as limas de casca seca, após moer esse café, mal moído, quando veio a notícia da grande garça crianceira, noticiosa, falando da chegada da pequena Pitibi-im... Com o pai, logo foi levado pra ver a mãe e o nenenzinho, no Sanatório Santana. Assistiu nesse dia, de quebra, seu primeiro filminho-desenho, uns carneirinhos de gravura que mexiam como se fossem de verdade, parecendo flocos de algodão, enfeitados com laços de fita vermelha...
Logo a menina engatinhava. Era a Dulce, que andou cedo, esfolando o narizinho nas escadas e correrias da vida...
Depois que ela veio a vida do Arroba mudou. Seu pai transformou o quarto da frente, de janela pra rua, num cômodo de comércio, o heróico Mercadinho Aleluia...


II -  A  MEMÓRIA FALA...


O Arroba nos revela, também, que era chamado por Vitamina, ou Vita, pelos  muitos amigos da cidade, o Niazo, o Zórim, os Batarras, o Robertim e o Zécarlos Rachede, o Régis, Delei, Zé-lixandre, o Scarzim Toféti, o Cícero Sete-Bolinhas, o Samuel Protestante, o Álvaro do Meu-Cantinho, a turminha dos Veloso, punhado, o Renato, o Wéber e o Maurício, o Emival e o Temi,   o Mário e  o Ivam - esses da Vila do Seu Domingos, mais  o Ratim, o Quito, o Tonho Buda, o Dárcio, o Zé Cândido,  da turminha do Posto de Saúde, o Carlitinho primo do Zórim...
A gente muda de lugar e vai pruma sombra maior, pra escutar na folga o que ele nos conta...
Diz pra gente que, às vezes, uma voz vinda lá do fundo dele mesmo, ele acha até que é a memória dele conversando com ele próprio, vai dizendo pra ele coisas acontecidas no antanho... E continua...
— Na reforma de minha casa, senti perigar meu segredo maior: a metralhadora que papai me garantia haver no forro: era o mistério cheiroso que povoava as alturas de minha casa....  De mil formas imaginada, era sempre pressentida - até mesmo quase que vista! - pelos vãos do alçapão, sempre preta, bem untada, do tempo da Segunda Guerra Mundial... Porisso, ali, nunca entraria ladrão, esse bicho feio e assustador que naquele tempo já me magoava os sonhos infantís...
Eu não sei se meus amigos dessa época se tornarão tão invisíveis e intangíveis quanto essa arma-amuleto, no forro de minhas lembranças... Oh! Vocês verão,  um dia, como foi bom esse tempo em que nós somos donos apenas do que sonhamos!!!
Com a feirinha, papai se estabeleceu por conta própria. E, com ele, eu  não iria mais lá pra  Bomba de gasolina, onde trabalhou tantos anos... Restaram, das muitas  vezes e idas que ele me levou, até lá, no caminhão do Arvim, e de não-sei-quem-mais,  pra passar o dia com ele, apenas as brincadeiras sob as saias das árvores copudas, na pracinha da Estação. Antes de mim, ia pra lá ajudá-lo o Zigo, quando era ainda garoto, que rolava-empurrando os tambores vazios pra casa, onde ficavam guardados, depois da descarga perigosa do combustível no tanque da Bomba...
Os chapas carregadores, sempre plantonistas, faziam graça, me divertindo, miúdo Arroba ainda...
Do apito do trem chegando ou partindo, horas marcadas, inda me resta fiapo de som na algibeira da lembrança... Era como um doce que eu saboreava! A maravilha de ver,  aninhado no colo do papai, a Maria Fumaça indo embora, barulhenta, enfumaçando o pátio da estação...
Desse último emprego do meu pai, inda permaneceram por muito tempo certos tecidos - faixas publicitárias da Shell, de algodão cru - que a mãe costureira tornou em roupa, converteu em chortinhos  decorados com cavalinhos e conchinhas do mar, enriquecendo meu minguado guarda-roupa de então...
Ah! Ainda dessa época, minha extasiante primeira longa viagem de trem! A ida a Ribeirão Preto, com papai e a mamãe, pra ver o irmão fazendeiro operado no Hospital São Francisco. Na estada lá, uma tal Pensão Vinte, perto da Rodoviária, onde comi um tal sagu de sobremesa... Depois, na volta, já em casa, sobre o guarda-comida da copa, num vidro de álcool, um certo apêndice boiando em conserva... Votos, promessas, rezas, ladainhas, tudo em conserva...
Antes de vir minha irmãzinha Dulce, mudando a vida  lá em casa, eu tinha um cadilaque de lata, verde, bonito, aristocrático, tocado a pedal...
Tive, muito antes, também uma biscletinha tico-tico, que ficará sempre presente nos retratos da codaque do Zigo, rapaz solteiro ainda, criador de passarinhos canários bicudos e azulões...
O patinete veio depois. Mas o que sempre sonhei possuir e nunca cheguei a ter foi minha Monarque de breque no pé, guidão revirado feito chifres de boi...
(Diz pra gente que tinha um tio, falecido há pouco tempo, por nome Paulo, que gostava muito dele.)
Esse irmão de seu pai não tinha filhos, mas tinha um Chalé de Loteria e tinha sido lutador de luta-romana, um membro efetivo da equipe da Associação Atlética local, o que se pode comprovar numa antiga photo do Jair retratista, que o pai dele ainda tem...
Na casa do tio Paulo, mesmo antes do primeiro derrame cerebral, sempre cheirando a chazinhos de arruda, canela e funcho, tudo era arrumadinho, e havia, além dos doces cristalizados da Tia Adila, a atração irresistível de um Relógio Cuco...
Esperava ansioso debaixo dele, olhando bem  de pertinho, até dar o momento em que, antecipando sua saída, ocorria uma rotação de engrenagens metálicas lá dentro da casinha. Era hora!  Logo em seguida ele apontava pela portinha que se abria, cantava  cuco-cuco-cuco, conforme a hora que saía e se guardava novamente em seu esconderijo escuro, até a próxima escapadela...
Na sala de visitas tinha grandes sofás e poltronas onde ele afundava, de tão macios... Tinha árvores de frutas diversas, plantadas em curva de nível, no quintal.
Indelével, guarda dele a imagem, depois do segundo derrame, na cadeira de rodas, que o pai ia buscar tantas vezes para os passeios e para as reuniões semanais da Legião da Boa Vontade, na esquina do quarteirão...
O Arroba diz pra gente ir beber água. Na volta da mina, continuou contando.
- Lá em casa tinha um Malão. Era um caixotão quadrado, de um metro cúbico, com tampa: uma arcona de roupas velhas, relicário dos apetrechos da meninada toda...
Ali ficavam, quando nem a mãe nem as outras maiores podiam pajear, durante as horas apertadas de serviço da casa, as meninas menores, a Maura e a Dulce... Então o Malão funcionava como um cercadinho forrado... Lá por baixo das roupas, no fundo, habitavam  minhas bolinhas de vidro, piões ganhos da sela, moedas, meu estilingue, as lentes e os botões de jogo, as caixinhas, os gibis já esfarrapados, o revólver dourado de cano quebrado, o cinturão, um laço, minhas máscaras, assovios e apitos, as bisnagas e um ror de cacarecos importantíssimos pra mim...
Na cozinha tinha, e tem ainda, o fogão de lenha onde a gente quenta fogo na época do frio, escutando o chiado das resinas e assistindo a derradeira fuga das formigas,  de dentro das cascas e lascas da madeira-lenha...
Lascas que o papai racha muito cedo, me acordando com as batidas ritmadas do machado pesado de muito corte...
Aí ele nos explica que nessa cozinha, habita ainda a imagem do avô, pai de sua mãe, alto, voz rouca, enérgica aparência,  sempre de paletó, com um curativo redondo na maçã esquerda do rosto...
É o Padrinho de toda netaiada... Ele chega dizendo: -Oi, Nenê! pra filha, empurra a folha direita da porta e entra depressa por causa da corrente de ar. Sempre chega na hora do seu banho, de bacia sobre a pia, a mãe esfregando a poeira do dia. A chaleira fervendo despeja-se, amornando a água fria. E ainda sobra a fervura proiO ooibicarbonato morno do avô, com um cadinho só de açúcar, por causa da queimação...
Nessa casa da cidade existindo ainda as pombinhas que começaram dum casal e logo ele perdeu a conta... As casinhas, os ninhos e poleiros, tudo coisa feita por ele, com ajuda do pai, a poder de ferramentas sumidas, legadas ao arsenal dos objetos perdidos de sua infância manufatureira.
Seu primeiro cavalo de sela é um engradado de cama de molas, amarrado de lado e de pé ao esteio da varanda do tanque. Arreado com um travesseiro, rédeas de velhas meias de náilon desfiadas, cavalga com ele por planícies longínguas, como sua meninice varada de sonhos, com crinas se esvoaçando ao vento do nunca-mais...
Entre outros brinquedos tantos, teve e tem, é só ir lá ver, uma roupa do Fantasma dos Pigmeus, uma capa e máscara do Zorro, caminhõezinhos de pau, carrinhos de rolemãs... Estão lá, a batininha de monge,  o retrato no jardim-da-infância, com Dona Zoé e os coleguinhas... Teve festa de aniversário nesse ano, com pudim de queijo, bolo de fubá,  biscoitinhos de padaria  e quissuco de uva... Vieram um punhadão de primos, muitos tios e tias, e nenhum padrinho de verdade...



III -  FELINA

O Arroba, vendo que a gente estava se aborrecendo com a história sem muito movimento, só esse palavreado esquisito dele, tornou a  chamar a gente pra ir beber água. 
Da Mina, fomos até a Sede pra tomar o café-com-leite e bolo que a Lourdes nunca deixou faltar, cedo, de tarde e de noite pra gente se reforçar...
As meninas se reuniram ao nosso grupo. Fomos pra lá do Paiol, que estava quase sem milho,  e ficamos na beira do Rego, à sombra do Sobrasil, nos fundos do Pastinho dos bezerros, ouvindo o que ele prometeu ser o miolo  da história que estava contando pra gente... No meio da turminha estava também o Mango, campeão da Fazenda no ferrá-lúita...
O Vitamina disse que ia falar para gente do jeito que a memória lá dentro de sua cachola fosse dizendo.  Não era pra gente estranhar... E falou:
"- Antes de começar outras coragens, como asssim nadar pelado e escondido do papai em córgos longes, eu tive minha primeira luta contra um inimigo mortal...
Lembro-me bem, um dia papai comprou uns pintinhos-de-um-dia, um  para  cada um de nós lá de casa.
Nós, eu mais a Laurinha, então construímos um viveirinho ou pinteiro cercado com restos de caixotes de laranjas e legumes, umas tábuas meio-podres, parcialmente coberto e o resto tapado com tela de malha pequena, no alto.
Talvez medisse um metro de comprido, por  meio de largura, com vinte centímetros de altura...
A ração era fubazinho, arroz cozido, milho socado miudinho. Essas alimentações refeiçoadas nos cochinhos compridos, latas de Marmelada Peixe...
A meninada quase não esperássemos o dia clarear pra irmos ver os piantes crescendo... As amigas da Laurinha estavam indo lá ver nosso pinteiro,  admirando nossos pintinhos, sendo a Sandra  e a Sheila lá do Hotel, a Francelina - sempre de tranças, mais a Emilinha, do Géia Barbeiro, a Léia do Jerominho-Guarda-Civil, a Flávia, a Nísia e a Mariinha lá da dona Filipina, mais a prima delas, a Paula do Fisíco... O Zorim levou a Carolina, e o Arroba deixou o Robertim e o Zécarlos trazerem as irmãs Rejane e Eliana e suas primas, a Brotinha e a Heloísa...
Mas, na quarta manhã seguinte, a tragédia! Dois pintinhos não piaram quando o sol raiou: estavam sem as cabecinhas... Aqueles corpinhos já duros, contando de violentas degolas pra nossas vistas de calma e paz... Depois, veio o Choro, primo-primeiro da Mágoa. E a Raiva, com seu tio, o Ódio, mais o sobrinho deste casamento de incesto: o Desejo de Vingança! Tudo assim, brutalmente inaugurado...
E se deu a conhecer a existência de certa gata sem dono, vagabunda, sem telhado fixo, ladra da lingüiça esquecida nas varandas do mundo...
Daí nasceu também a necessidade de sentinelar-se o cercadinho, e tecer-se uma tocaia...
Mas papai não entendeu a extensão daqueles receios.... E então, daí uns dias, outra baixa!... Tentou-se ainda vigiar o sobrevivente, às escondidas... Mas o escuro, o lá-fora-sozinho, o medo daquela cara onde se inscrustaram frios olhos de brasa verde, os flunos, os verbiscos, os pios da noite, tudo mandava a gente ir pra dentro se deitar...
Assim, o último floquinho amarelado que habitava nossas atenções acabou sumindo com o corpinho inteiro, deixando rastro de sangue no muro sem reboque do nosso quintal...
Foi aí que surgiu um pequeno juramento, curto porém incisivo. Com toda a fidelidade que um menino podia depositar em sua própria palavra, eu jurei:  - Essa gata vai pagar por isso!"
Inicialmente, conforme nos contou, o Vitamina tentou pegá-la viva, com algum talvez machucado. Ia amarrá-la dentro dum saco de estopa e, em seguida, pendurá-la num poste da rua, pra moê-la de pancadas, cada moleque batendo de uma vez, num ritual daquele de malhar o Judas...
Porém, nas duas tentativas ele sentiu tão amargo o gosto do fracasso. Na primeira, ele a encantoa no beco do corredorzinho sem saída, fechando a janela da copa. Não sabia ele, contudo, que um gato acuado sempre se volta contra seu agressor... Porisso, enquanto ela lhe fugia por entre as pernas, como acontece entre a bola de futebol e os goleiros frangueiros, ele levou dois arranhões profundos, duplamente dolorosos, no braço direito, que a mãe depois curou com ardida arnica...
Esse, o primeiro confronto. Nele, o nascimento do ódio recíproco entre os dois...
Na vez seguinte, a derradeira, o laço armado sobre a varanda dos fundos nem chegou a funcionar, apesar das longas horas de espera e ânsia que ele emprega nesse ofício. Ela passa ronronando por longe, com desdém, olhando de soslaio para os pedaços de carne dentro do círculo de corda, lambendo os beiços nojentos, embigodados pelo focinho espinhento...
Parava sobre a pratibanda alta, olhando as miúdas carnes, isca da armadilha... (Mas, à noite, quando ele dormia, ela vinha tirar o repasto desdenhado durante sua diurna vigília!) Enfim, ele sentiu a inutilidade daqueles propósitos de meio-termo e ouviu o que lhe disse dona Sedalina, lavadeira de sua mãe, que gato não entrega os pontos nem teme cacetada... Decidiu-se, então, por uma caçada mortal.
Agora, aqui pra gente, ele rememora toda a epopéia arquivada no fundo de sua lembrança...
Primeiro ele arranjou uma fieira grossa, de rodar pião, e untou com vela, parafina e sebo. Depois, no buracão baldio do Júlio Ferraro, ele buscou um bambu: nem broto, nem seco, no tamanho exato, na grossura de encher a mão. Envergado pelo Bazinho a poder de arame e morsa - depois de sapecado e seco - retirado o arame, o arco se desenhou: bruto, elástico, impulsivo, forte. Colocada, a fieira até sobrou no tamanho. Se dedilhada, zunia vibrante, feito corda de viola, o zumbido-saci querendo estourar os gomos do arco, fugir lá de dentro!....
Enquanto isso, aos poucos, avolumavam-se os reclamos contra a gata preta. Os relevados estragos da bicha em outros quintais, as anunciadas arruaças em outros pinteiros da molecada vizinha, tudo que tanto dela aumentou a fama, tudo tudo ajudou-o a firmar-se naquela intenção e jura.
Veio depois, muito escondido, o preparo das flechas: pauzinhos compridos, lisinhos e roliços, lixados com caco de vidro. Numa das extremidades, vestindo seu perigo: caninho de cabo de guarda-chuva, cortado de dez centímetros. Cada tubinho virava uma aguçada ponta, após ser parcialmente amassado e recortado em ângulo agudo. Em seguida a flecha recebia essa carapuça metálica, engenho infantil porém letal... Tantas eram cinco, e vivendo escondidas de pai e mãe, as aluminiais setas mortíferas...
Vieram os treinos. Dona Sedalina, preta boa, lavadeira antiga, de raros fios de cabelos brancos, barba rala de dúzia de pêlos no queixo sob a murcha boca, assiste muitos ensaios seus, quando a mãe sai com as meninas, deixando o Vitamina, a roupa suja e a casa por conta dela.... Ela dá conselho: "... é mió  deixá de mão disso, nada mata bichano de sôfre não... Neles arrenega surpresa!", e conta-lhe das sete vidas dos gatos. Que ouvem aviso até das batidas do coração do seu futuro agressor amoitado. Que até o sungado do ar percebem de longe, nos faros finos do bigode... Ah! E de-noite, tanto quanto de-dia, avistam à extrema...
Tudo em vão: o Vitamina continuou a treinar. O alvo de precisão, tão necessário à eficácia da pontaria, foi desenhado na madeira da frente do Malão, com giz azul: cinco círculos concêntricos, a mosca devendo ser meta única, um centímetro, na aferição ideal! Nenhum sortilégio o movesse, apenas a vaga crença numa justiça infantil...
E tanto as hastes se aperfeiçoam na busca do centro do alvo que, das cinco pontas, apenas uma permanece útil, mas é bastante: ele sabe que não terá uma segunda chance...
Conta pra gente que nos fundos da casa dele há uma varanda de chão batido, coberta, onde o pai guarda a lenha e outras tralhas. Do outro lado do muro dos fundos, fica a serraria do Humberto Lanza... O italiano prédio (sempre recendendo vegetais essências: cabreúva, peroba, aroeira, cedro, jacarandá, sassafrás, cerejeira, ipê, mogno, cabiúna, jatobá, de tantas colorações e variado desenho) tem aquelas altas paredes encardidas que servem de fundo à varanda de sua casa... Nesta como muralha ele decorou o rumo das gatunas travessias, sabido de dona Sedalina que gato corre sempre em decorada trilha... Já sabe, também, onde será mais fácil acertá-la, tudo sendo questão de posição e tráfego, e até onde ela irá cair: no pátio interno da Serraria...
Para disfarçar, camuflando trégua mentirosa, por muitas vezes ele conseguiu trazê-la para perto, jogando restos de carne e pelancas - já desarmado o inútil laço - em cima da varanda do fundo, onde um dia habitariam muitos pombos, com seus arrulhos, rulados, turturejos, turturinhos e volados dançantes... E não foram poucas as vezes em que os dois permutaram longos e inevitáveis olhares, cada qual querendo mais fundo desafiar o outro, porém dissimulando um grito mudo de nojo e sentença...
Há a metralhadora! Mas não pode ser usada nessa questão. Uma: é a coisa mais difícil subir no forro. Duas: o barulho denuncia o instrumento. Três: ele não quer compartilhar com ninguém a confidência dessa luta surda entre ele e aquele animal... Sua jura é muito sua apenas...
Ele diz pra gente que viu passando, assim, várias semanas daquele tempo, cada dia se alimentando de um desejo, imenso e brutal, de castigo e reparo... Em sua intuição sentia a oportunidade se aproximando, inexorável, certa e única... No calendário de sua espera, engatinhando, carregadas duma estranha fatalidade, as horas se escoavam lentas e pesadas... No momento exato, tudo berraria essa evidência....
Dona Sedalina continuou também tentando calibrar sua raiva, porém entornou o pote, ao contar pra ele, num volapuque de songamonga, que toda Gata Preta vive prenhe de malefício! E que nas noites perigosíssimas de Sexta-Feira da Paixão, quando Deus tá morto, então do fundo do negrume que elas carregam, vão saindo, paridos um a um, os sete diabinhos mojados durante a quaresma, ninguém sustentando escutar o desatino dos berros...
Por causa do inconsolo das meninas, o pai resolveu comprar outra leva de pintinhos.
Pra ele, a par da outra, agora havia nova preocupação: proteger aquela gentinha amarela, penugenta e desvalida, infinitamente à mercê das garras da pantera dos quintais.
Então, naquele dia, ele se deita normalmente, após terminar as lições, ajeitar os cadernos na bolsinha de abotoar, tomar o leite, rezar o terço com a mãe e as meninas e pedir o bença-mãe, bença-pai.
Depois de um tempo, quando todos ressonam paz e sossego, sem ninguém notar, com armada desculpa de ir lá fora no banheiro - que fica na varanda -, ele vai vigiar a gata.  E vê, orgulhoso, que já não há o medo. Arco e flecha perto, estilingue e bornal de cascalhos a tiracolo, tudo quieto, ele com os olhos acesos atrás do vão do Malão... Mas o tempo se arrasta e o sono fica tão enorme! O silêncio pesa escuro... Nada e nada! Ele se vai...
Na noite seguinte, apenas sua retirada foi diferente: seu pai se levantou, existindo assim o danado susto, com um trisco de prazo pra guardar tudo no fundo do Malão, sem produzir balbúrdia e dar descarga na privada, como desculpa do uso e precisão... Um rápido bença-pai,  e cama...
Terceiro dia: nada... Quarto dia: não lhe foi possível a vigília, caía de sono, já na reza do terço... O quinto, amanheceu derretido em chuvasca. Lá pelo meio dia, a barrela danada não impediu que ele fosse o primeiro a ver o primígeno dos Novos Degolados, corpinho inerte, cabeça evaporada, um misto de ave e nada... Nem impediu que as meninas se alvoraçassem em lamúrias e choros já de praxe, depois de ver o pequenino decapitado...
Pena! Assim como moleque arteiro nunca é dono da maquinada arte, ninguém quis ser o dono daquele que morrera... E, ou porque era sábado, sem necessidade de escolejar no dia seguinte, ou porque ele muita mágoa bebeu, ficou firme no intento de vigiar pela noite adentro...
Tanto a natureza nadou e se banhou em esterilizadas águas que o dia se fez limpo depois das quatro da tarde... A noite se aproximou com uma enorme lua, amarela na coloração e holofótica na intensidade, e veio envolvendo quintais e telhados com um clarão meloso e fresco...
A mãe do Vita foi visitar sua Tia Maria, como no costume, indo ouvir novelas e o Balança-Mas-Não-Cai. Levou os meninos como companhia. Pra ir, morro abaixo, tudo bem. Mas na volta, era um subidão lascado, aumentado pelo sono. Tentavam dependurar-se, um de cada lado, nos fortes  braços da mãe, que não aguentava também...Então ele e a Laurinha se revezavam, empurrando-se morro-acima, mitigando o esforço, reciprocamente, aliviando um pouco a canseira e chegando em casa se arrastando, em mini-cochilos inevitáveis... Nesse dia chegaram já tarde...
As estrelas sendo demais! Parece que por toda parte tocam clarins... Os grilos, então, que farra! Tudo lavado, limpinho, aromático, a noite sem vento, clareosa... Ele ali, ajeitado para a emboscada, estranhas roupas em camuflo farrusquento - pois gato enxerga até melhor de-noite! - na penumbra, protegido do claro luado pelo telhado da varanda... Tem dor de barriga, vontade de mijar, sono, dormência nas pernas - de ficar agachado - começo de câimbras nos dedos segurando o arco, tremedeira na mão com a farpa na posição.... Mas, na hora em que a gata enfim aparece, tudo rodopia num giro malucote, plena doideira e some!... E ele acorda... Sim, tinha sido um sonho, eis que ele mal suportara chegar em casa para adormecer! Não agüentou ao menos escovar os dentes, cheios de pão torrado lá da tia Maria... Não foi mais que um fiapo de palavra o que escorreu de seus lábios, na intenção dos pedidos de bênção da noite...  Custou a dormir novamente...
A manhã, porisso, chega mais cedo pra ele. Madrugada ainda, vai lá conferir. Ela tinha estado ali, conforme ele temia... Aquele sono, causado pela tardia volta do passeio na casa da tia, custou a vida de mais um felpudo loiro, a segunda morte no pequeno rebanho do qual ele estava sendo o Mau Pastor! As águas dos olhos embaçam suas vistas e salgam seu paladar. Não conseguem refrigerar seu pranto que vem estralado, explosivo, rebentando num ronco de raiva, impotência, ódio e soluços, no palavreado dos lobos sob a lua... E, naquele domingo, não houve consolo que lhe bastasse...
Alguém teve a exata idéia, consolando as meninas: colocassem os pintinhos pra dormir numa caixa de sapatos - foram pedir lá no Agabê - dentro de casa... Assim fizeram. Os pios amolavam, mas logo dormiam... Tudo parecia concorrer para aumentar a distância entre sua vontade e a própria realização dela... O pai até comprou um pintinho de reposição para uma delas, inteirando de novo três. O Vitamina não quis outro, lembra-se bem... Fiel a um secreto propósito, só mexeria com bicho de pena quando a gatuça tivesse finado...
Quando fazia um mês que dormiam dentro de casa, já crescidinhos, os pintos não cabiam mais com conforto na caixa de papelão que substituíra a caixa de sapatos... Um tanto esquecidas do perigo que rondava, certa tarde as meninas se esquecem de recolhê-los do cercadinho onde costumam permanecer durante o dia... Era o que ele esperava, ânsia pura! Forçava por parecer desligado em afeição àqueles galotes...
Então, agora que o dia se vai, ele ajeita tudo, conforme tinha visto nos sonhos. Na hora de moer café, aproveita e mói também um pouco de carvão, conseguindo um negro pó pra passar na cara, pra ficar mais sumido no escuro do canto do Malão...
Quando a casa toda ressona, já ele é frêmito só, arrepiões de repuxar orelhas... Pra maior disfarce, se preteja de corpo inteiro, pele e roupa... Olhos ardendo, tudo muito quieto, noite total... Galos repicando ensaios, vruvrús de curiangos, pipilos pardais, tudo em ventinho brisa, mexendo galhos da jabuticabeira do Bazinho ao lado... Nessa pensão de pássaros ressoam saltos, saltitos,  pardocas e pupilos, chichial de entreninhos, um despreguiçar de perninhas patas, ruidinhos formigais... Nos varais por perto, alguma roupa, sombras leitosas esparramadas no chão úmido de sereno.  O Arroba, que já então se podia considerar acostumado com os mistérios da noite em seu quintal, insone e destemido, recolhendo galardão, graças aos ensaios tantos, até onde as pálpebras sustentavam o sono... Mil olhos refletivos apontam e somem dentre as lapas do muro de taipa socada, cascalhoso tapume: lagartixas, calangos e aranhas-quinhas. Um sapo..., onde? Nessa noite, tudo é diferente, com a certeza do certo embate... E, muito repetidamente, ele se apalpa, olhando de banda, caçando a mentira de tudo ser só um sonho outra vez... Mas é verdade! E, no real,  repete-se aquele luão rodeado de estrelas em corusco arreganhado... Ali, entrincheirado perto dos tesouros do Malão, rico das experiências dos sonhos e pesadelos anteriores, o Arroba diz que podia até ouvir o tic-tac dum relógio que, desde a sua geração, passa os dias contando os segundos de sua existência... Nenhuma nuvem borrando o firmamento... Repetem-se as cólicas intestinais, nervosas, de redemoinhos no umbigo, a friagem subindo pelas pernas, a bexiga cheia, o gosto de caju verde secando a língua e apertando o gogó... Mas não é medo... Nem existem os calafrios que moravam em seus sonhos... Pra dormência nas pernas (que viu no sonho que ia haver), deixou de jeito um banquinho e está sentado, no aguardo... Tremedeira ficou de lado, pois ele aprendeu: preparasse flechaço a partir da hora em que visse a fera!  Assim, tudo ao redor é tensão.... Repipocam num longe insólito os conselhos da velha Sedalina...
Então, surgida do lado-inferno de sua vida, aquela sombra carregada de mortes desliza lentamente pelo telhado sobre ele... Só lhe é possível perceber tal chegada tão macia porque seus ouvidos, treinadíssimos nos cicios noturnos desse quintal, podem distinguir, entre outros, o bocejo duma pulga... Tão gato quanto ela, então, ele toma posição, sem o mínimo ruído: lentamente e maneiroso...
Fosse por causa do orgulho de pastor ferido, ou pela glória de ser herói do quarteirão, ou ainda porque aquilo tinha mesmo que acontecer em sua vida, as coisas sucederam....
A noite parecia ter ficado repleta de aromas saponáceos! No ar, havendo manadas de elefantes invisíveis, tornando o luar palpável, opaco e pesado... Quando do telhado da varanda a Gata desceu com graça e delicadeza para o muro de divisa com dona Tereza, seu veludo faiscou, mil reflexos lunais.
Ele, de seu canto incógnito, pôde ainda perceber dardejarem fixas, hipnóticas, rumo do pinteiro, suas esmeraldas fluorescentes! Só a muito custo ele contém o ímpeto. Mas, a partir daí, não perde um único de seus movimentos, arco retesado, firme, ela constantemente na mira... Sorrateira, ela se achega do cercado, pelo lado descoberto e apenas telado. Uma leve agitação começa a tomar conta das flavas aves - onírico terror? - como se o ar pestilento emanado daquele corpo demoníaco contaminasse o ambiente de plumas e ninhos que forram os sonhos desses pequenos seres que nunca conheceram o calor do choco...
O Arroba diz que não pôde saber porque, mas quando ela projetou a cabeça, milímetro por milímetro, por sobre a tela, tudo se acalmou e uma letargia muito esquisita parecia ter dominado os pintos, petrificando-os num marasmo insólito. Ela começou a ronronar mui suavemente, como uma sereia enfeitiçando incautos marujos... Porém, quando ela passou a arrulhar como pombas no cio, na ventriloquia impecável dos possuídos,  ele sentiu seu raciocínio falseando, num baralho de trapaças... E vem o inaudito arrepio, como se o bafo duma geladeira soprasse muito junto de sua espinha dorsal... Parece que alguma coisa muito mais forte e má do que o felino toma posse de seu corpo sanguinário e perverso... Ele diz que percebeu seus braços começando a tremer e que logo se descontrolariam... Sentiu também, claramente, quando a Dama das Desgraças meteu uma das patas pelas malhas da tela. Pensa então largar o arco, sua haste perigosa, tudo, pegar seu porrete e descer o cacete na desgraçada, a cinco passos dele apenas! Isso porque lhe foi dado conhecer a astúcia da inimiga, seu método, estratégia e artimanha e como ela usava tudo isso, predadora na calada da noite, na carnificina de suas indefesas vítimas... Aí sua raiva fermenta, cresce demais e ele não resiste: por já haver determinado o lugar em que o alvo se mostraria francamente favorável pra ser atingido sobre o telhado da serraria do italiano, o Vitamina  apenas sai das sombras, furtivo e calculista...
Ela o pressentiu imediatamente e no primeiro segundo não saiu do lugar, apenas voltou a cabeça ao mesmo tempo que retirava a pata da tela. Foi aí que seus olhares se encontraram durante uma eternidade fuzilando recíprocas ameaças...
No instante seguinte, dum salto, ela galga o muro e começa a fuga pelo caminho que ele sabia que ela escolheria...  Aí o Arroba se emociona e passa a contar tudo tão ligeiro... Mas, após o breve momento em que os seus olhares se cruzaram, ele não olhou mais para ela. Fixou pontaria rapidamente no local por onde ela obrigatoriamente havia de passar...
Então, quando percebe a sombra se aproximando, e sabendo que ela estará no lugar exato efetuando o salto último, antes de ganhar o telhado com escolha de rumos, numa fração mínima de tempo, sincronizada com o início do pulo, ele não espera mais!
A sete parte! O zunido, a vibração da corda, toda música, todo som logo é encoberto por um miadão horripilante, xingatório animal cruzado com diabólicas imprecações, relaxo de felinos orgasmos indecentes... Na franca claridade luarenta, tudo são tinidos, zangas, baques, sons fragmentados, rangidos e choros, lutas e ruídos infernais... O queixume estigial do bicho judiado, as estranhas borboletas rubras e noturnas pimpalgando ao lado do corpo espiritado e rodopiante, os gemidos apavorantes que antes ele nunca ouvira, fazem-no largar tudo e correr para dentro de casa, coração seguro por um fio invisível à ponta da língua, dentes cerrados num pavor gelado.
Ali, enconstado no munho da porta já tramelada por dentro, quase sem fôlego, ele vai contando, uma a uma, as vidas da fera se escoando, moídas pela imensidão da noite, claramente perceptíveis em meio a cantos desafinados de cucos malucos recitando lamúrias lotéricas...
O descompasso do seu peito só se acalmou depois que, deitado embaixo das cobertas, ele fechou os olhos e, apertando bem as pálpebras, ouviu daquela noite o derradeiro lamento fúnebre... Não chegou a pegar no sono. Teve inebriante sensação de sonho concretizado! Houve ligeira agitação no quarto dos pais, mas não chegaram a acender a luz...
Relembra que viu direitinho, fingindo dormir, quando o pai saiu cedo com as cestas vazias pra buscar verduras pro mercadinho, depois de rachar lenha. Nem bem ele bateu a porta ao sair, o Vitamina se levantou, disparado, gasturoso, e correu pro quintal...
Senta-se no chão, ao pé da limeira e fica olhando... Ele não ouve sua mãe resmungando lá na cozinha que tem que coar o café de novo, pois não sabe o que aconteceu com o pó...  Ele nem percebeu que, antes de ela lhe dar as correiadas, chamou-o muitas vezes, enquanto saía pra varanda do tanque arrastando as roupas de cama que ele havia sujado de carvão...
Só se lembra que, acabada a surra, ela o mandou tomar banho geral, urgente, de chuveiro, com bucha e sabão-de-quadro, não conseguindo resposta dele ao lhe perguntar como tinha arranjado aquela carvãozeira...
Sim, ele não podia responder nada, nem ela pôde medir com precisão o tamanho da arte que ele tinha feito... E ela nunca soube porque ele ria tanto, parecendo ter sete-fôlegos, durante a tunda mais gostosa que já tinha levado na vida...
Diz pra gente, finalizando, que num cantinho de sua idéia de flecheiro vingador, os três pintinhos ainda estão vivos... E, dentro dum cercadinho estraçalhado, bebem o líquido escarlate que ainda goteja de mansinho daquele negro corpo inerte e luzidio, vazado dum lado ao outro por um dardo de ponta de alumínio que na certa encontrou, em sua trajetória, um coração de sete-vidas!


a tuia



O ARROBA, quando vem cá pra roça, sempre sai com a gente pra observar o mato, as ervas e plantas, os bichinhos e insetos, as avezitas diferentes, os bezerros novos, pra caçar os preás e pra matar os morcegos da Tuia...
Quando é tempo da limpeza, a gente vai brincar na montanha de cascas de café que a máquina vai jogando no terreiro da porta da Tulha, antes de serem levadas para adubar o cafezal... Nos ouvidos de alguém sempre entra alguma casquinha redonducha, difícil de sair. Aí é um sufoco danado pra poder tirar de lá...
A Tuia, além de abrigar a enormidade de café em coco, que ali exala seu aroma inigualável, é um local também repleto de mistério... Não que o cheiro bom exalado daquelas cascas seja estranho pra nossa família: o sangue carrega tal perfume desde os tempos antigos... Na memória atávica descansa o registro indelével da fragrância do invólucro da rubiácea ...
O imponderável vem dos Morcegos que moram lá, sendo deles, existentes às rumas, aquele casarão todo de madeira, altolongo, cômodos estanques, contendo sempre café, desde o chão assoalhado até ao  teto de grande inclinação...
A gente pensava era num lugar assim, confortável pra se esconder no dia do fim-do-mundo,  que seria logo, pois lá no Golfiné - livro de profecias sumido por aí - estava escrito: O Mundo de 2.000 não passará...
Sim, que fosse um local como esse, mas sem o cheiro e a presença dos Morcegos ... Eles, às vezes,  cagam sobre a mesona do torno, e a gente tem que limpar pra poder brincar ali  enquanto a Tuia fica aberta nos dias da limpa do Café... A gente achava que os ratos, depois de velhos, viravam morcegos...
Eles eram abundantes demais... A primeira vez que os enfrentamos, foi assim: a gente abriu a porta dum sopetão, entrou e tornou a fechar,  e aproveitando a confusão deles,  agitava umas varinhas firmes no ar, bem alto, quando eles revoavam adoidados, fazendo-as vibrar num zumbido. Aquilo os desnorteava e alguns se chocaram com as hastes agitadas,caindo feridos no chão... Pegamos três deles, que logo morreram.
A gente os observava e o Arroba, enquanto ia indicando as diferenças existentes entre eles e os ratos - que não tinham nenhum parentesco, e coisa e tal - também ia dizendo os nomes das raças lá deles, morcegosas criaturas, assim sendo, os miudinhos, os Pipistrelos, os Tricolores, os Spectrus, os Lonchorinos, os Auritas - que se orientam por ultrassom  e têm pequenas garras nos polegares -, os Mystacimas Tuberculatas, os Horrens e os Matalus Estramineus. Que havendo também os maiorzinhos, os Leporinos, os Diademas, os Tadaridas, os Macrotus, os Centúrio-Senex, os Tebaricas, os Ferreqüinos, os Tafusos Perforatus, os Sinopomas e os Megadermas, e entre estes, o vampiro de verdade, o chupa-sangue, o terrível Desmodus Rotundos. Depois aí vêm os gigantes, medindo quase um metro com as asas abertas, duma ponta na outra, como o Eidolon Helvum e o Monstrosus, ambos africanos e o Flaviventris, australiano. A fêmea do primeiro desses grandes, tendo acasalado em Abril ou Maio, procria uma única cria por vez, em Fevereiro ou Março, transportando-a agarrada a uma de suas tetas quando voa... Por último, o maior morcego do mundo, o Pteropus Vampyrus, habitante da Indonésia, com uma envergadura de metro e meio, e que se alimenta  - ainda bem! - quase exclusivamente de frutos...
Apesar dessa confusão de apelidos o bicho é sempre feio, a gente podia notar. O Arroba ia dizendo que os morcegos são os únicos mamíferos voadores. Ele tinha lido, pra lição da escola, algumas coisas sobre essas criaturas estranhas, habitantes das sombras...
Pegou um daqueles bichinhos mortos pelas pancadas da vara e esticou suas asas.
-"São membranas elásticas, finas, delgadas como um papel, que se estendem de cada lado do corpo, unindo as patas e a cauda. São como que uma extensão, um prolongamento da pele do dorso e do ventre" - explicou o Gordo. E continuou: "A parte principal dessa membrana alar chama-se patágio" - enquanto  isso nos indicava a parte das asas que une as patas dianteiras às traseiras...
-"Uma grande parte deles, como essa espécie, é insectívora, alimentando-se de insetos e pequenos animais. Outros são frugívoros, só comem frutas... Tem até uma raça - a dos Noctílus Leporinus - que se alimenta apenas de peixe, que apanha com as garras das compridas patas traseiras. Esses têm estes feiosos lábios grossos que parecem inchados, com o superior aqui ó, dividido por uma prega de pele..." - falava.
-"A maioria começa a procurar alimento ao entardecer... Assim que a noite cai, abandonam seus refúgios de sombra e esvoaçam sobre as árvores e os rios... Além de se hospedarem em casas velhas, desabitadas como a Tuia, eles também gostam de empoleirar-se suspensos de cabeça para baixo em árvores ocas, entre ramos no abrigo das folhagens, nas cavernas, em fendas escuras e furnas sombrias..." - explicou ainda.
"Os morcegos pequenos e médios têm olhos miúdos, focinhos relativamente curtos e são desprovidos de garras no segundo dedo, possuindo-as no primeiro deles. A maioria apresenta grandes orelhas, utilizadas para orientação e detecção das presas em vôo, por eco-localização... Esses bichos  aqui da Tuia, como a maioria dos outros parentes, são animais gregários que vivem em grupos numerosos formados por indivíduos de diferentes espécie que escolhem pra repousar, de acordo com seus hábitos,  o recanto com a obscuridade adequada à sua dileção..." - finalizou.
O primeiro dos espécimes abatidos que estudamos era, segundo o Arroba, um insectívoro, pois tinha os dentes molares adequados a esmagar suas vítimas...
Nos dois outros morcegos, com um pauzinho, mostrou-nos os molares bastante atrofiados, enquanto suas presas, os incisivos superiores, eram pronunciados, de bordas cortantes, indicando, assim, tratar-se de Vampiros... Como eles sugam o sangue de suas vítimas, possuem os dentes adaptados a esse tipo de alimentação, cada um sugando cerca de 30 gramas de sangue por noite... Têm um focinho grosso e verrugoso, de grandes beiços caídos, queixo fendido e glabro. Gostam de sangue fresco que sugam mordendo, com seus afiadíssimos e penetrantes dentes,  suas vítimas  adormecidas,  em locais do corpo pouco protegidos por pêlos ou penas. Elas, geralmente, não acordam. Nesse local, segregam junto com saliva, espalhando com a língua,  uma substância anestésica e anticoagulante, antes de picar o couro do animal. Assim, a penetração dos dentes é suave, indolor, imperceptível. Quando o líquido doce-escarlate brota da ferida, é sugado em breves goles pelo hematófago que, após se fartar, voa de volta para o seu refúgio, deixando aberta a chaga... Esta custa a cicatrizar e permanece sangrando por muito tempo causando enorme sangria em suas vítimas, entre as quais, as  preferidas são os eqüinos, e o gado em geral... O pior é que os vampiros, quando doentes, transmitem para os animais atacados a doença da raiva, fatal.
O primeiro dos estudados apresentava, também, o Gordo ia nos mostrando, ventosas circulares nos cotovelos e tornozelos e uma garra no polegar... É castanho-escuro, e tem um vôo sacudido e irregular. Notamos nele, ainda, uns calombos esquisitos na testa... - "São excrescências cutâneas nasais, típicas dos insectívoros -  diz-nos o Arroba, - e  chamam-se Folhas Nasais. Eles têm carrancas dessas pra todo gosto!   Uns têm como que um chifre, outros umas antenas grossas, outros uma máscara, outros ainda uma forma de ferradura que se estende sobre o beiço superior e em redor das narinas.  Todas essas espécies de rugas ou protuberâncias são em número par e têm forma simétrica.  Servem para dirigir os sons agudos emitidos pelas potentes laringes do animal. As vibrações sonoras, refletidas - sob a forma de eco - pela caça ou outros objetos à sua volta, são detectadas pelas grandes orelhas desses bichos ecoperceptores... É a faculdade de captar esse eco com seus enormes pavilhões auditivos, que lhes permite localizarem, noctívagos, em pleno vôo, suas presas e evitar os obstáculos... Enfim, é  graças à orientação pelo eco de que se servem esses nictófilos sonares que eles conseguem  voar e apanhar suas presas às escuras..."
Explica, ainda, que os suga-frutas, os morcegos frugívoros, são animais necessariamente tropicais, pois apenas podem viver nas regiões onde haja sempre frutos maduros - sua alimentação exclusiva - que mastigam para lhes extrair o sumo, deitando fora, em seguida, a polpa espremida. Possuem pequenas orelhas e focinhos alongados... Outros morceguinhos, como o Macrotus Mexicanus, são nectarívoros, possuindo prolongados focinhos e compridas línguas, que introduzem nas flores em busca do néctar... Exercem importante papel  polinizador. São desprovidos dos calombos, assim  como os frugívoros.
-"Algumas espécies hibernam, passando o Inverno em cavernas e grutas. Os vampiros nem sempre se empoleiram de trapezistas, a maioria preferindo permanecer agachados em nichos e recantos das grutas ou telhados, escorando-se, senís em seu sono, às paredes de pedra ou nas vigotas e caibros das construções... Outras espécies moram durante o frio em árvores ocas. Suas cores variam entre o castanho avermelhado, o castanho-escuro, o cinzento, o camurça, o amarelado e o fulvo. Uns com o pêlo aveludado, outros com uma pelagem comprida e solta, quer com orelhas grandes, quer com miúdas orelhinhas, ora rabudos, ora cotós... São todos eles, morcegamente tétricos..." - concluiu o Arroba.
Tendo aprendido muitas coisas sobre eles naquele dia,  a gente daí em diante, vira-e-mexe, estava matando esses bichos com nossos estilingues. Para não quebrar nenhuma telha, a gente os atacava - na penumbra - com os espinhentos frutos da palma-cristi, ao invés de usar cascalhos... As mamonas - nossa munição - os abatiam lá no alto, alvos fáceis, pendentes no ressono profundo,  sem danificar o telhado. Por precaução, os bólidos já carregavam em seu nome uma forma de esconjuro pra combater qualquer malefício proveniente da matança desses vampirescos inquilinos da Tuia...  Mas isso era bem cedo,  a gente entrava lá de manhãzinha - que eles estavam de barriga cheia! A molecada, calados, vinham por baixo do assoalho, perreptilmente,  entrando por uma passagem secreta, sem abrir luz pra não despertá-los...
É que, depois da Tuia ter ficado muito tempo fechada, quando de repente alguém abre a porta, há um reflofloar dos vampiricegos, trapos de rabugem em vôos semibreves, alucinadamente, guinchando atordoados com a claridade invadindo seu ambiente de sombras e escuridão... Custam a voltar para seus cantos sombrios, fazem um rápido trapezear balouçante, e logo permanecem imóveis, pendurados circences,  nos altos caibros, fermentais na catingação,  cabisbaixos, no re-dormir em preta paz, no nicterino...
Na sala da limpeza do café, o maquinário intrincado,  uma geringonça cheia de regulagens e segredos, peneiras e parafusos, roldanas e engrenagens, polias e correias... Ali dentro, na parede da frente, perto da janelona dupla,  o local  onde as ferramentas da Fazenda permanecem em seus devidos lugares desenhados com as respectivas silhuetas de cada uma delas... Em cima de seu desenho, na conferência, deve estar cada ferramenta, e isso sendo pra evitar sumiço. Quem tirar, que reponha no lugar exato. O empréstimo é subconditio... Com um simples olhar, se aferisse a ausência do martelo, do trado, da torquês, do pé-de-cabra, - cada qual no seu escaque predesenhado - o serrote,  a enxó, a chibanca, os alicates, as chaves-de-boca, o arco-de-pua, a segueta e a caríssima chave-inglesa...
Ali existe todo um arsenal carpinteiresco que compõe, com a peça  de grandes roscas entalhadas em madeira duríssima - a morsa, uma bancada pesadíssima e eficaz...
O produto da colheita, após lavado e seco,  é recolhido ao depósito, através de uma passagem - um tipo de ponte feita de madeira,  existente sobre o fosso que há entre o Terreirão e a Tuia, -  por um alçapão que fica no alto da construção, numa água-furtada do telhado.
Uma ocasião, passando por essa ponte, curioso,  o Preguinho de um salto pulou pra cima do telhado da Tuia, e foi subindo, cuscuiando lá suas indacas e recheiros, focinhalmente... Chegando à cumeeira, começou a descer do lado oposto, o da água que dá para a entrada do depósito. Devido à grande inclinação, quis voltar mas não pôde e se foi, ganindo um desespero, escorregando de frente rumo ao abismo, tentando inutilmente frear o deslize, o corpo retesado, as unhas em vão procurando se cravar no barro cozido do telhame...  Pensando no pior, demos a volta correndo,  a tempo de vê-lo chegar até o beiral,  o pânico desenhado nas orelhas crispadas, o pavor estampado nos pêlos eriçados do fio do lombo parecendo uma escova de aço. Com os olhos esbugalhados, se precipitou no vazio...  Despencando lá do alto, caiu sobre o monte de palha de café, o que tornou sua queda apenas um grande susto pra todos nós, sem nenhum ferimento pra ele, que nunca mais quis voltar à escalada de coberturas...
Vindo por essa ponte, introduzido por uma porta depois trancada a cadeado, o café é despejado lá de cima do telhado, para  armazenamento e futura limpeza, nos dois grandes compartimentos, como  quartos, formados por paredes de tábuas. Com a barulheira, se renova o reflôflo dos morcegos.... E, de novo, depois, volta a calmaria...
Diz o Arroba que o nosso coração tem similares compartimentos: ora repletos de emoções, ora vazios delas...
Porém, inda que invisíveis, nunca o abandonam os morcegos da solidão.
Eles são como lembranças ignotas de um passado que corre no sangue da gente: silenciosos, ocultos, latentes
Para segurança geral, as Chaves da Tuia ficam sempre penduradas no local determinado, no porta-chaves, na Sala da Sede...


a lúita



I - AS  OBRAS


TONINHO escapou da cobra Boicininga por pouco e  num improviso cresceu e se fez moleque sabido.
Quando acaba de ouvir o caso da Gata Preta, ele diz que relembra direitinho seus apuros de quando ainda engatinhava... O pessoal não acredita muito não... Ele gosta de dizer pros outros que agora tem noções claras do perigo que correu...
Já sabe, e conta pros outros meninos, que a cascavel cresce até um metro e oitenta centímetros, tem coloração  pardo-escuro, com losangos claros que se alternam com outros laterais, possuindo ainda um guizo ou chocalho na ponta da cauda que agita para afastar algum perigo. Algumas serpentes possuem na cabeça células sensíveis ao calor que lhes permitem localizar e atingir infalivelmente a presa, mesmo na mais completa escuridão. Estas células encontram-se numa espécie de fossa situada de ambos os lados do rosto, ou em uma série de pequenas depressões ao longo das mandíbulas em outras espécies, como a Coral... Elas conseguem detectar objetos ou corpos com a temperatura de 0,2ºC apenas superior ao ambiente que as rodeia... A danada dessa Boiquira é uma daquelas... Ela vive cascavilhando entre as pedras, ora remexente em sinuosas contrações,  à sorrelfa, na procura de roedores, ora oscilante e pendular, para botes se armando....Aí impõe coita, aflige penas, aflição, desgraça e sufoco: morte. Essa perigosa Maracá aprecia também   ficar de tocaia, a um canto, sob um ramo qualquer, à sombra, talvez sob aquele enfeitoso cardo-bosta, ornamentalmente cactáceo com suas alvas e perfumosas flores, sobrepintadas ao verdolengo e ereto caule... Ali, mimética,  ela se suprime de nossas vistas, dissimulada no ambiente...
E que a cobra, justo essa, a  Maracabóia,  malvada, não pega coruba.  O arrastamento que é típico de seu andejo, - ela vive pra coscuvilhar - não autoriza progresso de doença de couro... Sarna, nela, não progride!
Sabendo disso tudo, e portanto tomando sempre cuidado com os trilhos por onde anda, cedinho Toninho vai ver a ordenha das vacas no Barracão. Solta bezerros pro seu Sebastião, pro Vito e pro Natal, com quem viaja na carroça do leite até Sãizé, - indo na boléia, controlando as rédeas do  Viajante. 
Após o almoço, vai brincar com os gatinhos curiosos, sentado no banco do Alpendre junto com a manadinha de irmãos e irmãs.
Depois, fica zanzando à toa, caçando rolinhas com o Martinho e o João, tocaiando preás, jogando péla, armando arapucas. 
Com eles, brinca de balançar no balango, mas gosta que o empurrem pra ir muito alto, quase de revirar as cordas no galho da mangueira, o que os outros têm medo de fazer...
Mais tarde, monta em bezerro pulador, galopa no Guarani,  procura ninhos de passarinho. Ah! gosta um tanto de dependurar-se pelos joelhos num galho de árvore e ficar vendo o mundo de cabeça-pra-baixo.
Adora derrubar caixa de marimbondos, perseguir os panapanás - tentando, com um puçá, capturar o máximo de borboletas para sua coleção. Regala-se brincando de esconder e sumir no meio das folhas das mangueiras do pomar. E sabe, como ninguém, cochilar no paiol. 
Às vezes, vai comer bolo perto de um formigueiro, na grama, só pra ver a loucura das formigas, trabalhando frenéticas pra carregar as migalhas para seu ninho, atravessando com dificuldade aquela selva gramínea..
Não dá descanso pra imaginação... É invenção de moda de todo tipo. Vai, com a turma, pescar de peneira, no rego ali pertinho,  aqueles cascudinhos e aquelas gambevinhas que ficam deliciosos depois de fritos. Vez em quando, ó um sapo pulando na peneira!
 É a Maria do Nino, tia paciente,  sempre  atenciosa, bondade estampada nas faces sempre sorridentes,  quem frita, com um salzinho temperado, esses lambarizinhos, gambevas e cascudos que a gente peneira no rego. Ah! ela prepara também pra gente comer os preás que caçamos com a ajuda dos cachorros...
É bom estar com ela, conversa humilde, no usual solícita e caridosa a serviço da família e  dos outros...
Às vezes, é ela quem frita também as muitas rolinhas que o Toninho caça e arrasa com seu estilingue mágico... Elas são caçadas de preferência lá no alto, no Café-novo, onde é o viveiro delas... É uma dar a cara e cair bombardeada por um cascalho inexorável...
Pousam no fio de arame farpado da cerca, e, sem saber estão se  colocando como diante de um pelotão de fuzilamento... Vão tombando uma a uma, sem entender o que acontece direito...
Depois, quando umas poucas restantes se espantam e vão embora, a gente  recolhe as que tombaram... Aí a capanga já está cheia, e então  a gente desce, todos sabendo:  vamos levando nossa caça a tiracolo...
No caminho mesmo  depenamos  as mini-pombas. Depois, ou  na Maria-do-Nino, ou lá  em casa,  é só o pessoal abrir, limpar, partir, temperar, fritar pra todo mundo comer...
Às vezes, quem cozinha as rolinhas é a Dita, que vem toda semana da Colonha à Sede, na lida do tanque, lavadeira de escol e escovas...
Ela chega toda sorridente, dizendo a quem a recebe o seu desabafado "- Devéra!!!", numa saudação ou cumprimento cujo sentido todos ignoramos...
A Dita dá upa pra dealvar as roupas da meninada, tingidas da terra roxa da Santa Rita... Pra desencardir o vermelho do massapé, só um sabão,  cuja fórmula traz na idéia, e que ela mesma faz lá na casinha da fornalha, na dispensa-de-fora, naquele tachão de ferro, com a medida certa de fogo, usando a ótima decoada de cinzas que ela mesma gosta de preparar...  Nas prateleiras do aposento, os quadros saponáceos curtem à sombra, na busca de uma eficiente e agressiva ação detergente... Ao lado, amadurecem as bananas de toda qualidade, principalmente a marmela, que se frita no costume, prato dileto...
A grande trempe da casinhola a Dita também ocupa pra fazer,  nos tachos de cobre, nas épocas delas, as Goiabadas... É ali também que ela cozinha, nos mesmos tachos, os capados, apurando a banha clarinha dos torresmos, fritando as carnes-cheias e as carnes-de-osso, até deixá-las sem umidade, imperdíveis, no ponto de serem colocadas a curtir, em conserva, em meio à gordura, dentro das latas-de-tampa de uma quarta...
Quando é o tempo e ela está  fazendo o que ela chama de  doce de guaiaba,  o perfume exalado dali se espalha muito longe, indo mexer com as fuças e as tripas dos sobrinhos retireiros da doceira, como ela mineiros de Ventania, o Vito e o Natal, lá na tiração do leite. Quando não suportam mais a tortura, um deles vem, furtivo, buscar uma porção de doce, inda mole, fervente às bolhas, fugida pela janela do cômodo, em um caldeirão impossível de se segurar... O pastoso mingau vai ligeiro se misturar ao leite tirado na hora lá no Barracão, onde é comido em  calmas colheradas...
Nesse meio-tempo, Toninho, as irmãs e os meninos já comeram suas porções, na beira do fogo, e ficam ali, esperando a hora de descer o doce, pra rasparem o tacho...
O pai, vez ou outra, leva Toninho e os outros pra pescar lá no corgão da divisa., com  varinha-de-anzol e minhocas -  que arrancaram de enxadão na terra minhoquenta  perto do Chiqueiro.  
É  lá, onde  só podem ir com ele, que moram os Lambaris-Prata, os de faixa-vermelha,  bons de briga, que  se fisga com  o enorme prazer... Melhor que eles, pra se fisgar,  só seus parentes do rabo-verde, viventes nos fundos da Colonha...
Um reguinho, vindo do Terreirão de secar café, serpenteando pelo pomar adentro, vai aguar a horta-de-couve, em zigue-zague ladeira abaixo, contornando os canteiros onde habitam, frescas e  apetitosas, as mais lindas verduras do mundo...
Neste reguinho Toninho e os irmãos  fazem desvios pra servir de aguada de suas fazendinhas, onde montam casinhas, fazem curraizinhos cheios de um gado mágico, vaquinhas e  boizinhos de sabugos, uns pintalgados, outros pampos, trochados e piúnos, pretos e malhados, amarelos e vermelhos, e arquitetam e edificam toda benfeitoriazinha anexa à lida pecuária. Ah! Até um mijolinho tão bem armado que, como os de verdade, pila pequenos terrõezinhos para suprir de ração os chiqueirinhos, os galinheirinhos e as cocheiras de sua meninice..
Às vezes um adulto chega perto, meneia a cabeça em aprovação, se agacha e fica observando com curiosidade e admiração o trabalho dos engenheiros-mirins... Isso os deixa cheios de orgulho, com a obra em construção exposta à apreciação dos mais velhos...
As meninas sempre brincando de casinha sob a sombra da Ameixeira, para baixo da calçada onde escorrega demais, na saída da água do tanque,  arranjando prateleiras com pedações de tábuas velhas empilhadas sobre tijolos partidos. Ali arrumam seus utensílios: cacos de vidro sendo os pratos, e, as panelas, as latinhas de massa de tomate vazias. Faziam lá seus bolos de bolinhas de barro, indo longe, pelos pastos, em busca de florzinhas delicadas para ornamentar seus confeitos... Assam tudo num forninho-fogão feito pelo Toninho, miniatura exata do que existe na varanda-da-porta-da-cozinha, rebocado com bosta-de-vaca-mole.
O que Toninho mais aprecia, demais, é balançar na rede do Alpendre - empurrado cada vez mais alto -  até cair, provocando a gargalhada da penca de irmãozinhos...
A turma toda, meninos e meninas, sempre brincam de tarde de esconder-varinha... Um deles é sorteado pra esconder uma taquarinha ou galhinho seco em qualquer lugar dentro duma área delimitada pelo Jardim em volta do Alpendre. Os outros vão procurar e quem achar primeiro é o próximo escondedor... Tem que ser, além de esperto e rápido pra achar, sagaz o bastante para saber camuflar a varetinha a-mor-de dar trabalho pra ser achada novamente...
Mas, agora, vai se acabando sua época de poder fazer o que lhe dá na telha: chegou a hora de freqüentar a longínqua e temida escola rural da Fazenda do Banco, onde leciona a exigente  Tia Lurdes, professora famosa por seus doloridos puxões de orelha, sua palmatória de oito furos e sua braveza de meter medo...
Dizem que a  Escola fica no centro de uma almainha com belos canteiros floridos. Lá deverá desaprender os maus-modos com que a natureza brinda os moleques até começarem a entrar no mundo do Beabá... Lá será colocado nos trilhos da educação e, baseado no que ali lhe ensinarem, se tornará ou um homem ou uma cartilha, pois perderá, aos poucos, a liberdade do auto-conhecimento...
Agora, toda noite, lápis em punho, fazer a lição de casa: nada de  ficar lendo revistas velhas e antigos gibis desfolhados, de muitas figuras desbotadas. Doravante,  joguinho do Mico Preto com os irmãos na mesa da sala, só no domingo.



II - O PASSARILHO


O caminho da escolinha, meu destino diário,  fica pra diante do ponto da Santa Rita, na estrada de São Joaquim, perto da encruzilhada pra São José.
Foi aí, justamente nesse ponto que o meu tio, o Arroba apeou da jardineira vinda da Franca, na frente do mata-burros dos eucaliptos, bem debaixo da placa da Fazenda Santa Rita, tão cheia de buracos de balas e sinais de chumbinhos.
Ele me contou que estava nauseado de tantos sacolejos da condução    devido às costelas-de-vaca, essas lombadinhas que  - ninguém sabe como - duma hora pra outra surgem nas estradas de terra.  O cheiro do querosene queimado mais os solavancos dos catabis do caminho, tinham o condão de embrulhar-lhe o estômago durante essas viagens.
- Quando desci, Toninho, encontrei com um Andarilho. Inicialmente fiquei amedrontado. Passei por longe, desconfiado daquele estranho maltrapilho que vinha caminhando pela estrada. Mas o Sanhaço chamou minha atenção. Era azulzinho e como cantava! Só depois foi que enxerguei a violinha do homem.
Fosse um cantador-pedinte, ou que um ceguinho? Parou quando pensou nisso, até que de quase dó. E se aproximou, cauteloso, depois que o corumba sentou-se num barranco à beira da estrada. Aí o passarinho, pedacinho de céu voarilho, desceu num volteio sobre os ombros dele.
O esfarrapado viajante acenou pra que o Arroba se aproximasse e lhe disse não saber das alturas onde estava, perguntando: - Estou perto dadonde? e mais: queria saber onde ficava um lugarzim chamado Oraveja, conhecido por Buritizinho.
Obtida a resposta, agradeceu a informação. Aí perguntou: - Ocê não tá com o estamim ruim? Tá amarelo...  Recebendo confirmação, disse que ia lhe dar um vidrinho pra cheirar que logo melhorava.
Então, abriu um bisaco de viagem magrelo - em nada parecido com um almofreixe -, desatando vários amarrilhos. Pegou lá dentro uma capanguinha, de onde tirou um frasquinho muito limpo. Destampou a rolha de borracha e mandou que o Arroba desse uma fungadinha pequena.
Foi mesmo que tirar o enjôo-de-estômago com a mão!
Depois, o homem disse: - Foi mãinha quem preparou faz muito tempo. É tiro-e-tombo, né memo? Vou te mostrá um codaque dela.
destampou a tirar do saco de viagem, como os mágicos fazem com suas cartolas, os mais inesperados cacaréus, cacarenos trastes: um muafo, motrecos de toicinho, bolinhas de vidro, dois estilingues de goma, agiletes enferrujadas, estrelas-do-mar e conchinhas, raminhos inexplicavelmente verdes, um cachimbo grandalhão e retorto no fornilho do pito, cordas de viola canarinhas, um pião com uma fieira enrolada, cordinha de anzóis,  uma binga catingando querosene, duas caixas de fósforos pregadas uma na outra,  duas caixinhas de papelão grosso contendo geotrupes campeões, tentos de bico-de-pato e de olho-de-boi usados em queda de truco,  contas de lágrimas de algum terço-rosário desmanchado, uma trempe e uns enormes secos estrumes vacuns que disse queimar de noite, ao deitar, pra espantar os elfos, as salamandras, os silfos e os gnomos...
 Depois que esvaziou o alforje encardido, arrancou lá do fundo uma fotografia  envelhecida de sua velha mãe. Mostrou-o pro rapazola  e ficou taciturno.
Aí, seus olhos se encheram de lágrimas, que desceram rolando pela cara suja da carusma dos infindáveis fogos acesos nos ermos... Enxugou os olhos com a fralda desfiada de sua camisa imunda e aí deu pra notar que nem barba lhe havia: um apenas frouxel se lhe insinuava pelo queixo...
De seu corpo cantarilho exalava um tal odor ptármico, como talvez o bodum das roupas e botas encardidas de retireiros renatos, desleixados, os quais não as lavassem por infindáveis dias...
Ele tem uns trejeitos de repentista,  desses  camelôs de praça de rodoviária. De repente, se pôs de pé, dizendo: - Vou decantar umas modas pro rapazinho.  
Cumpriu todo um  ritual de salamaleques, fazendo presença cênica impecável, cheio de zumbaias e rapapés...
Arre! Que o multívaro era um simulacro de rapsodo!... Pegou a cantar, não  regendo no correto a melopéia. Inda que rasqueasse duas ou três cordas da violinha ensebada, em aparente intimidade com o instrumento, contudo não se entendia direito o que ele dizia que cantava.
 Mas o Sanhaço, esse sim, sabia cantar! E o acompanhava, aflautando notas azuis celestes como as plumas que o cobriam... A ave era certamente altriz de toda aquela poesia... O passarilho acompanhava o homem-vadiante por puro prazer, a gente via!
E o Arroba, também chamado de Balandrau pela turminha da Colonha, ali,  extasiado com esse artista passarinho voarilho...
O homem logo enjoou de entoar suas xácaras. Aí começou a conversar com voz mansa, em tom pianíssimo...
Contou que veio de longe, de Pedra Branca,  lugarzim perdido nas montanhas de Minas Gerais, onde as casas tem telhados talhados em pedra. São como lascas, obtidas em desfolhamento de imensos blocos de calcáreas rochas rosadas. Dispostas como telhas, amparam o calor, a chuva e o vento.
Tudo lá - casas, igreja, barracos, barracões, paióis, casinholas de monjolo, casebres, casinhas, escola - são recobertos de pedras, lascalmente...
Lá, no tempo-do-frio, nos entre-vãos da serrania, os lobos, manhãzinha, gritam urros uivos até o sol esquentar...
Pois  mora nesse lugar esquecido, onde de noite, só se ouve o silêncio e os grilos. E, apenas  quando  o pessoal se  esquece de  escorar  de-tarde a marreta dele, o mijólo a noite inteira pila o vazio, ofendendo o silêncio, com seus sucessivos socos ecoando pelas furnas em treva...
O Arroba podia ficar ali durante horas, escutando aquele descortinar de histórias, mas disse-lhe  que tinha de ir chegando...
O cantador-errante esbarrou sua ida ainda um pouco, gastando tempo em achar no meio das bugigangas, um embornalzinho, de onde, sobre um pano encarvoado, despejou bozeiras quetais: talismãs, patuás, amuletos, bentinhos, pés-de-coelho, signos, figas, orações, e outros trenzinhos de mandinga, despachos e coisa-feita.
Entregou-lhe uma caixinha, encomendou cuidado pois aquele era um Inseto Invicto... Explicou pra que servia e o jeito de jogar com ele. Deu-lhe também um escapulário e foi-se embora pela Linha, em direção a Franca, acenando um adeus sem convicção.
Disse-me  o Arroba que aí lhe deu pressa. O silêncio ficou quase sólido, palpável, o homem ido embora.
Meu Tio olhou  para baixo e catou do chão um raminho caído do bornalzinho, que o outro não recolhera.
Saiu dali quase correndo pela estrada, rumo à Sede da fazenda. Logo adiante topa com Papai, seu irmão e capataz do Vovô Taveira, que tinha vindo, com algum atraso, para recebê-lo no Ponto.
Foram conversando pelo caminho... Arroba hesitando em contar sobre o viandante que encontrara pois, quem sabe, fizera mal  em cafungar no vidrinho e  em ficar conversando com aquele estranho? E como explicar a caixinha e também o bentinho enfiado na mochila? Mas tinha ganas de contar do Sanhaço, - ah! isso tinha - tão mansinho de vir ao ombro. E o irmão tanto apreciava os pássaros...


III - A SEDE

Era nisso que eu vinha pensando no trajeto...
Ouvimos só um bufado quando, num galope inaudível, como que de sonho-pesadelo, chegou veloz como um raio a vaca Renda, zebuona de quinze arrobas, de bezerrinho novo, a mais investideira da fazenda.
Só tivemos tempo de correr-voando até à cerca mais próxima, que vazamos de rojo, barrigas no chão, rastejantes como largatiús...
A brabeza chegou a babar seu ódio pegajoso nos fios farpados da cerca, que só respeitou por milagre.
Eu  punha meus bofes  pra fora e ainda corria, quando notei o queimor na parte de trás da coxa direita. A custo, parei. Rasgara a pele numa farpa do arame e o sangue minava quente, abundante, ensopando minha roupa lacerada. A pele cortada ardia, mas não tanto quanto a vergonha por tão desabalada fuga.
Ainda mais que a roupa rompida, estava arranhado meu brio de rapazola, diante das tantas inevitáveis risadas do irmão mais velho, pois  já sei que ele, hábil no relato interpretado dos malfeitos e deslizes engraçados, irá contar pra todo-o-mundo o acontecido - do jeito dele...
Enquanto vínhamos descendo, seguidos de longe pela Pegadeira do outro lado do tapume, uma dúvida ferroava, como  bandarilhas, minhas  idéias de recém-chegado: o talismã presente do Vagante nos havia protegido ou  atraíra o perigo?
Logo chegávamos à Sede.
Todo machucado, fui logo apresentado ao vidro de mertiolate... Todo sapiranga,  fiquei morrendo de vergonha da Vera e da Lúcia, as moças irmãs da Lourdes minha cunhada...
 Como meus arranhões ardessem muito, almocei  muito pouco e fiquei meio quieto ali no Alpendre o resto do dia, conversando com os meninos e meninas meus sobrinhos e com as moças fazendeiras.
Pra mim, a Sede da fazenda é uma das coisas mais  aconchegantes, lindas e fascinantes  do mundo, e estar ali é o meu maior deleite...
Você chega ao portão de madeira, e desce pela escadinha de pedras, atravessando o Jardim cercado de altos alambrados. A intervalos regulares, situam-se os canteiros: roseiras de várias tonalidades, folhagens sempre viçosas, plantas de flores cuidadas com esmero pelas mãos habilidosas da Lourdes. Dois coqueiros, um pau-brasil, uma linda árvore - uma talvez sibipiruna? - de folhinhas miúdas, ou é uma Caputuna preta?...
Na principal entrada do Alpendre, o tapete de metal, usado para se raspar o barro vindo do campo no solado das botinas. Em toda a volta do Alpendre, exceto nas duas entradas, a mureta de um metro de altura por trinta centímetros de largura onde a gente se empoleira depois das refeições - quando os adultos não  estão por aqui...
Geralmente também fica um tapete de saca de aniagem no chão, em cada entrada lateral, para se limpar os pés descalços e os calçados enlameados, antes do ingresso ao Alpendre.
Um banco de madeira, grande e confortável, pintado com tinta a óleo, acomoda os adultos.  A criançada se esparrama pelo chão, quando os grandes estão por perto...
Num canto, a porta do Escritório - o aposento proibido!
Residem nele as Escritas, a Caneta, o Tinteiro, o Mata-borrão, a Corneta, os Troféus,  os Talões de Vale, as Fotografias, o Carimbo, os Documentos Zebus, e uma Cadeira. Ah! E uma Escrivaninha antiga, de madeira de lei.  É nela que ficam, muito bem guardados, dentro de gavetas trancadas, todos os Livros da Fazenda, os Borradores, os Conta-Correntes, as Codaques das reses mais famosas, o registro das Efemérides, o Arquivo dos Recibos, o Livro de Registro dos  Camaradas - enfim, toda aquela  papelada incompreensível pra quem é menino...
Tudo ali dentro do Escritório com o cheiro de eras passadas, poeira em idades longínquas. Permanece nesse  cômodo, relicário indevassável, ininvadível, seqüente, regendo o passado registrado, os tempos idos, o espectro das filas de pagamento, à espera de uma impossível quitação dos suores e da muita labuta dos empregados, apesar dos tantos quetais acertos assentados...
De cada lado da porta do Escritório, nas paredes laterais do Alpendre, estão os ganchos de ferro onde penduramos a Rede pra deitar de um, de dois e até de três de cada vez... Às vezes, a gente traz para fora de casa a Cadeira de Preguiça, de lona listrada, aconchegante e igualmente disputada .
À direita de quem chega,  sobre o Banco, à altura de um homem, ficam os cabides metálicos onde colocamos os chapéus. Existe sempre nesses porta-chapéus, descansando, umas quantas varinhas de  tocar gado, coisa de prezo ao bom zebuzeiro que se apresente. Símbolos de todo criador de zebu, podem ser enfeitadas, simples ou com cabo,  sapecadas ou cruas - sempre descascadas - , tortas ou lisinhas, com nós, sem rugas.  De qualquer formato ou jeito, sendo de porte exclusivo do Seu Alberto, as perobinhas, nossa cobiça proibida,  intocáveis...
Logo após o Banco, adiante dos cabides, fica a porta de entrada da Casa Sede.
Pois era ali nesse banco  que  eu estava conversando com a turma. Depois ficamos brincando de arrastar os capachos pros cachorros virem atrás, mordendo e rosnando de mentirinha...
Fizemos planos de novos brinquedos... O esporte preferido aqui na roça é o Ferrá-Lúita, com a presença de um campeão e de seus desafiantes.
A Santa Rita tem seu próprio campeão, o João Mango, que ainda não perdeu lúita pra nenhum representante de fazenda vizinha, dentro de sua categoria: - peso pesado de menino...
Das redondezas ainda não apareceu quem o derrubasse na grama e lhe montasse de-a-cavalo pelo prazo legal ou o fizesse desistir de continuar a lúita por causa duma posição dolorosa...
Mas o pessoal daqui, pelo que andam dizendo, não tem orgulho dele não. Ao contrário, sempre torce pra ele perder, pra deixar de ser papudo, presunçoso, contador de vantagem... Precisava aparecer alguém pra abaixar a sua crista, pois vive se gabando e  judiando dos outros meninos e meninas da Colonha...
A lúita-ferrada consistindo por aqui, nesse longo tentar de rasteiras, derrubadas, capoeiras, galeios, balões, gravatas, chaves, esquivas, montadas, corcoveios, até a submissão final do perdedor, com as costas encostadas por inteiro no chão durante um minuto, ou com a desistência, (pela dor, de um braço torcido pelo outro, ou pelo sufoco de uma gravata no pescoço) se  entregando a lúita, dando as três pancadas de praxe, com a mão, no chão ou no corpo do adversário...
Não vale chute nem soco nem cabeçada nem puxar cabelo. Não pode apertar os cabedais do outro com o joelho, pois pode deixar aleijado ou roncolho...
Dizem que o Mango, patife,  nem sempre respeita as regras... Ganha de todos, mas não se pode confiar em sua lealdade como adversário...
Dizem-me, contudo,  meio misteriosos, que existe um Enigma sobre ele que a ninguém é permitido revelar...
Desde as férias passadas, fui convidado pra participar do torneio. Serão várias eliminatórias. Precisaria  ganhar todas as etapas para poder chegar à luta final. Aí então, como desafiante, se vencer o Campeão na Luta Principal, poderei me tornar o novo Herói da fazenda... Mas  ainda não me decidi, não sei se estou preparado, não conheço bem meu adversário...
As lutas, esse ano, como sempre, serão num ringuezinho armado na grama macia, improvisado sob a luz mortiça da lâmpada do velho poste de aroeira, próximo ao cocho de sal do pastinho dos bezerros.
Após saberem de minha chegada, da carreira da Renda,  - aqui também as más notícias voam - um frêmito percorreu os pequenos habitantes da Santa Rita... Muitos me perguntam: - Eh! Arroba, cê vai luitá com o Mango, não vai?


IV - O COMBATENTE


Todos estão em dúvida: o Arroba, convidado desde o ano passado, aceitará ser adversário desafiante do Biltre? Vão ferrar lúita?
A gente ficou no Alpendre conversando... Quando ficamos só nós dois, o Arroba contou pra mim do Sanhaço, do Camumbembe, com todos os pormenores. Principalmente, me mostrou a caixinha e o raminho-sempre-verde!
Fomos dormir, mas ficamos até tarde conversando e fazendo planos...
No dia seguinte, a gente levantou cedo, animado. Arroba me disse que tinha inventado uma competição onde se joga com bizorros: o Enrola-Bosta.
Cada um escolhe seu atleta-besouro e entra na aposta, pra ver qual deles vai terminar sua tarefa primeiro.
O Arroba é sempre assim, meio cientista... Vem pra cá todo ano, nas férias. Depois de passar de ano, com boas notas,  na Escola,  vem pra Santa Rita gozar suas folgas letivas, coroando-as com o prêmio dessa estadia com a qual meu pai o incentiva a estudar bastante.
Ele adora vir para cá. É pouco mais velho que eu, é gordolento, dono das enormes panturrilhas, inventador de modas e brinquedos, artes e mágicas. Mas era mais magruço até uns tempos atrás... Dizem que engordou assim depois que esteve estudando pra rezar a Missa, de padre, no latinório, em Reberão Preto... Comesse por lá o tal salitre... Falaram...
O Arroba, que magimímico, com seu peletòzão, por certo tendo sido de seu tio Arvo, com o cujo, exato, num tilintar de dedos que estalava depois de exibir a prata, sorvetia moedas que sumiam manga-acima, tapeando-nos, que a gente mal capiscava naquelas mágicas tidas, pelos adultos, no consoante, por fugazes ilusões, triviais. Mas sendo de grande extasio da gente meninada eufórica, contudo.
Ele inventa e pede pro papai sempre que está aqui com a Laurinha, pra gente ir fazer piquenique, lá no Mangueirão... Aí ele  leva a gente pra comer quitandas fora de casa. Forramos, com uma toalha, uma parte de uma imensa pedra amarronzada, e aí a  gente fica sentado, comendo e se deliciando com a tarde fresquinha, debaixo de uma árvore sombrosa...
Quando estamos indo, na beira daquele caminho tem muitos ramos de milho-de-grilo então a gente colhe e come aqueles cachinhos de mini-uvas roxinhas, os midigrilos...
Dá graça ver uma rodinha em volta do Balandrau. Às vezes, quer saber cada coisa! Então a gente explica pra ele que a porca, depois de coberta pelo cachaço, vai parir daí a 113 dias  do enxerto... Ele vai anotando tudo num livrão de capa preta que sempre carrega com ele no maior zelo, parecido  com aqueles lá das gavetas da Escrivaninha do Escritório...
Também lhe falamos das vacas, tempo de parição e mojo.
Uma vez ele contou pra gente que existiam uns enormes vacões pretos, de leite muito gordo, manteigoso, lá nuns Jacintos, pros lados de São José da Capetinga... Que se chamavam blufos, gado esquisito que pastam diferente, sendo negróides, ora asfálticos, rapezados, ou ainda cor-de-cuia, inda  lameiros, tendo penteadas longas crinas de cabelos-de-negro-esticados sobre a testa, com seus tais chifrões chatos, de harpa, bodoengos, gostando de rolar em lamas,  espojar-se em barro e que tendo couro mui grosso.  Mergulhados em poças d'água, permanecessem sempre encalorados, naquele luto sob o sol, nágua gostando de morar feito peixes... Respeitassem cerca-de-arame quando quisessem, e buscando sempre a água de  rios, córgos, represas... Houvesse mesmo tal gado de tão grossa vaqueta, calma tanta e alta força?
O Arroba contando pra nós, aprendido nos livros tantos dele que a carneira demora 148 dias para criar. A leoa e a tigreza, vêm a parir após 105 dias de emprenhadas. Já  a loba,  63, como as cadelas. A rapozinha demora 56 dias. As micas, 80. As gorilonas ficam grávidas por 260 dias e aí desocupam. E, se nas mulheres a gravidez dura mais ou menos 267 dias, uma anta demora quatrocentos dias para trazer à luz seu par de filhotes... Quanto aos papa-formigas, 190 dias após o acasalamento, as serras começam a se povoar de novos tamanduazinhos... Por ele finalmente ficamos sabendo que a jaguatirica, essa gata crescida, aumenta o número das oncinhas deste mundo, 90 dias depois de se cruzar com o seu macho...
Por essas e outras, quando o Arroba chega, aí é uma farra direta, muitos brinquedos diferentes, guerras de bosta seca,  e às vezes nem tão secas, guerra de goiabas podres, passeios e mais passeios...
Ele gosta também da lida no campo. Planta cana e roça juás dos pastos com a gente,  ganhando  dinheiro. Aprecia um tanto ir a São José nos domingos para gastar os mil-réis apurados nas roçadas de joá e ir no cinema.
E, justo nesse fim de semana, vai passar a fita  A Sina do Aventureiro, sucesso garantido, no Cine São José.
O Arroba afirma que vai lotar cedo, como nos filmes do Mazzaropi. Convém a gente ir com folga, e levar um lanche de pão-com-mortadela pra aguentar esperar na fila para comprar o ingresso...
O cavalo Jardim, do Seu Lazo, retireiro que já morou aqui, foi a montaria do mocinho nesse filme,  famoso "bang-bang" nacional, o segundo em technicolor rodado no Brasil... Foi filmado justamente em Sãizé, com as pessoas de lá querendo saber como  apareceram na estória....
Foi o primeiro filme dirigido, escrito e produzido por José Mojica Marins, o futuro Zé do Caixão...  Papai e Seu Lazo também trabalharam na fita, como figurantes... E as filmagens agitaram por uns dias nosso semprequieto  vilarejo... A primeira apresentação, (como disse o Arroba, a avant-premiére) foi no Cine Odeon, em Franca, com enorme sucesso de bilheteria, pelo que ele ficou sabendo...
Esse filme, depois o Arroba nos contou, foi fruto de um Encanto... É que o meu pai, grande apreciador de fitas de mocinho e de cinema em geral, sempre teve vontade de trabalhar no cinema, pra ver como ia aparecer trabalhando na tela... E, de tanto ele querer isso, em algum lugar da Quarta Dimensão foi surgindo aos poucos, cena a cena (conforme o pai ia imaginando),  a história desenvolvida no filme... Até o nome foi pensado por ele... O cavalo do mocinho foi ele quem escolheu... Ele era o mocinho, mas depois resolveu ficar fora desse papel pois podia ser perigoso, ele já era pai de muitos filhos, o lugar lá do filme era muito violento e perigoso, e  nossa mãe certamente não ia  gostar dessa inventação-de-moda dele... O fato, a verdade verdadeira mesmo é que um Gênio de verdade realizou o desejo do papai, segundo o Arroba, arranjando tudo o que precisava pra montar e rodar as filmagens justamente em Sãizé, aqui pertinho... Obra do Destino?  Coincidência? Não! Segundo meu Tio, tudo foi obra do  Encanto e do Sortilégio....





V - O  MESSIAS


Tem dia que a gente vai ajudar no corte da cana e do napiê... Pelo menos, pra andar um pouco no carroção... Sem prática, a gente fica todo empolado de alergia, uma coceira danada, por causa das felpas das folhas das plantas...
O Messias, no cotidiano usual, vai picar o Napiê, com seu tanto misto de Cana-de-açúcar,  a golpes de podão, pra encher as carroçadas, que os burros puxam até à picadeira, pra se fazer o trato da tarde.
Depois de picada, a ração vai espalhada nas cocheiras, pra cada vaca  em seu canzil. Ali na boa imobilidade, lerdas, cada qual come sua exata porção de torta de algodão semeada por cima do trato-ração moído.
Nos longos intervalos de descanso entre a picação do capim e da cana, o Messias dá um trago no cigarrão de palha, e começa a cantar versos esparsos de modas de viola sabidas pelas metades, ou então vai contando as histórias verdadeiras de assombramento do fantasma de estimação do local, qual sendo o Guardamó...
Às vezes, fica contando pra gente da certeza da presença duma assombração em sua casa em certa noite: eu rezava pruma alma, meu corpo rupiava todo. Tornava a me pedir eu tornava a rezar. Meu corpo tornava a rupiá. A gente ouvia uma musga de igreja, mas era de mentira, tudo másga...
Tem dia que o Messias procura nos ensinar como ver a idade dum eqüino: esse tem mais de cinco anos, pois já tem o columim, esse dente aqui atrás, que nasce nos cavalos aos 5 anos!  Pra isso,  vai mostrando o dente do Guarani. Não raro, este coscoseia. Solta-o. Sai sacudindo a cabeça, alardeando o rumor das rosetas de ferro, enfeites da cabeçada. E o freio continua com o seu ruído típico, produzido pelos coscós, enquanto a alimária move a língua...
Ele  explica pra gente como examinar os cabedais: a cincha, o sobrelátego, a barrigueira... tudo devendo estar em ordem nos arreios...
Nas sotas dos serviços, à sombra dos sobosques de unhas-de-gato, ou num canto do Barracão, protegidos da solama quente,  o Messias  ainda conta pra gente suas estórias...
Então, ele gosta de se gabar, demonstrando pra gente seu sistema de acompanhar a passagem das 24 horas de um dia, seu tal de nictêmero, sem ter relógio...
- "A primeira hora da madrugada vem anunciada com o primeiro canto do galo, lá no poleiro da goiabeira.  Sei quandé  duas hora porque o galo canta uma vez e logo repete a cantiga, interando um par de musga..."
Aí ele esbarra sua contagem... O Mango pergunta se esqueceu do resto, fazendo a turminha rir...
- " Dexa de sê besta, siô! - continua Messias. -  É que estamo no intervalo grande, onde fica a hora dos pormões! Em toda  casa, o povo garra na tosse.  Aí o galo torna a dormir e se esquece de cantar... 
Já quando ele destampa a amiudar sua cantoria, feito relógio despertador, ali no repicado, e com as pancadas secas das asas robustas, são quatro horas...  Os retireiros estão começando a zunhar o gado, arrancando o leite das tetas. A bezerrada não para de chorá... Tem barulho de latas, baldes e vão chamando as vacas, os nomes gritados depois de um "ôôô...."
Daí um tanto, se a gente olhar pro céu, lá pro nascente, já vislumbra a barra do dia quebrando a escuridão. Então é a quinta hora.
Às seis horas, o sol vem saindo de dentro do buracão da noite.... Mas vem devagarinho, colocando primeiro a pontinha dos dedos compridos, por entremeio os morros, depois os dedos, depois a mão, e depois põe a carona inteira pra fora, clareando o novo dia... A Maria levanta, faz um chazinho bem doce pra mode quentá o frio, de hortelã ou segurelha,  os biscoitos descem da lata e a gente rói o porvilho...
Quano o sol caminhou um tanto de dois dedos deitados de altura, medindo no rumo do horizonte,  sete hora já deu...
Às oito, o sol tá alto, não pega ninguém da roça dormindo. O almoço já tá quase pronto, se a mulher for boa de zurra...
A gente estano ocado de fome pode saber que é nove hora. Aí se depõe as ferramenta e os meninos vêm chegano com as malmita - quano o serviço é perto de casa... Essa hora ninguém erra não...
Tem gente que costuma pegar o almoço mais tarde, a fome neles sendo mais lerda. Comem lá p'las dez horas.
Se o sol já está quase equilibrado no pino, vencendo o tope que lai-vinha subino, é onze.
O sol no pingo conta que é meio-dia. Aí começa a ser de-tarde.
Se ele deu uma caída pro lado do poente, de leve, tombou pra uma da tarde.
Vem de novo uma fome roendo as tripa e revirando o bucho.... Dura até a volta do dia, as duas da tarde,  quano a gente merenda leite com quitanda ou come o garrote sobrante do almoço...
Daí um cadinho o sol tá no meio da queda rumo ao acaso: é o meio da tarde, depois da vorta do dia: são três badaladas que o relógio dá...
Quatro horas é de-tardinha, o suor começa a secar, virando sal na testa e na roupa da gente...  É bom voltar pra casa... O tempo resfresca...
O sol começando a rodear, cheio de frescor, encolhendo suas forças, se preparando pra deitar no horizonte a oeste:  é o sinal das cinco da tarde.
Às dezoito horas, ou seis da tarde, tanto faz - pra quem sabe ler um pingo é letra e um pingo e um risco é Manuel Francisco - é o pôr-do-sol. Aquela hora másga que até os bicho respeita... Então a gente escuta no ar a musga da Ave-Maria que toca na Aparecida do Norte, no rádio do Seu Tião... Galinha empolera, o gado se deita no maiadô e começa a ruminá... Vai mascá o capim revirado que ingeriu de-dia...
Daí mais um pouco começa a luzquefusca, quano a claridade vai misturano com a escuridão e fica tudo no meio termo, a gente carecendo de enxergá mió... Se é Lua Cheia, ela nasce bitelona, feito um queijo... São sete da noite. Nem claro nem escuro, aos cafus...
A boca-da-noite é preta e aparece direitinho mesmo é às oito em ponto. A gente se deita pra descansá o corpo, pois o sono chega ligeiro... As nove da noite já é tarde pra nós. Não convém preambular pela Colonha assustano o sono do povo. .. Chega as dez: desvivalmas. Uma vaca muge, a cria responde. Um cavalo resfolega e bufa, pastando ruidoso por perto... Os grilos ensaiam, os sons ficam enormes. Coitado de quem não dorme, de quem não tem sono... A noite parece não ter fim... A noite já é velha.
O vento canta mesmo, trazendo o frio que vai fazer daí a pouco, é as onze em ponto. Aí começam a esbarrar os barulhos.... Quem viu visagem não quer ver mais... O frião então se instala...  De repente, tudo morre por um instante! É meia-noite. Não convém falar nisso. Chô, Pelintra!
Aí tudo recomeça denovamente... Vem a uma hora, e assim continua, sem fim...
A turminha que escutava o Messias até bateu palmas no fim desse relato, achando-o apurado, demais de bom...
Mas o Messias também gostasse de falar sempre em burros, especialmente de suas variadas cores, pelagens estranhas...
-  O castanhão-escuro, que pisa no mole e no duro,  deixa o dono  seguro...
Mulo de dois pêlos - vive no desmazelo...
Tem a mulinha calçada - essa não vale nada! - casquilhos  branquicentos, moleza pura, estropia à-tôa...
Burro rateado - trabalha dobrado...
Tem o mulão doirado, da suã escurecida, bufa quando sobe e cansa na descida...
Burro pedrês - esse vale por três...
Burro preto, só com amuleto! 
Pagão rosilho afrouxa de comer milho...
Burro pampa? Nunca vi dessa estampa!
Sempre sabia a pelagem de todos os animais da fazenda, recordando com a gente, pra ser decorado nos conformes...
Certa tarde, quando a gente plantava  cana lá no alto do morro, paramos todos pra um descanso extra,  fora da hora da merenda, à sorrelfa, que o sol estava forte demais.... O fiscal tinha se ausentado, deixando o Messias pra vigiar a turma...
Conquanto voltando no inesperado, o capataz apanhasse  a todos no flagrante, encontrando seu fiscal, o Messias, no galho enfolhado mais alto, na busca daquela  mais foguinha manga,  docílima, premiosa, e trofélica ao apetite. Ele não parava de conversar, chupando u'a manga atrás da outra, contando lorotas e patranhas,  inventando vantagens,  e  dando males moldes aos meninos....
Ao cabo de milzangas do capataz,   foi ele o primeiro a descer nas nervuras raizentas da gorda árvore, suculenta em frutos pra mais adiante, outra hora...
Todos voltando às ferramentas, o Messias nem vermelho ficasse,  rapezão no colorido rosto, risimenso, bocarra amarela na caralarga...
Apenas aquela desculpa murmurada entredentes: - Pra que vergonha, né? Não tamo robano!...
O Zigo nunca se esquece do que aconteceu em outra ocasião, em nova gazeta do folgado. Foi até sem intenção o flagrante daquele dia. Vinha de volta pra casa certa tarde, quando se encontrou com o Messias, que ia pelo trilho da Colonha.
"- Parou mais cedo, Missia?
- Tive que abreviá minha vorta, Somar, pois tô com um buraco destamanho no lugá do estâm'...
-  Uai!  A marmita foi vazia hoje?
- Não, Somar... Eu é que não pude armoçá. Quano parei pra boiá - já era umas dez -, tava roçando lá no Perau, sorsabe. Parei perto da mina, lavei as mão e a cara, mode refrescá. Bebi um gole dágua e sentei pra comê. Quandei fé, senti aquela catinga, olhei pro lado e vi, um pouco pra riba da mina, um monte de bosta de gente, aquele laço armado! E o sorsabe, eu vendo bosta, eu não como!
- E muito me admirava se você comesse! -  respondeu o outro, despedindo-se... E se foi, pensando... Ninguém pode com esse caboclo do fogão encerado... Ele arranja cada desculpa pra terminar a jorna mais cedo, que ninguém aguenta!
Mas era, de fato, muito sabido...
Embora nunca tivesse ido à escola, o Messias sabia coisas que espantavam a gente... Inventou uns versos - ou aprendeu nalgum lugar - pra decorar os dias dos meses do ano:
- "Trinta dias tem novembro,/ com abril, junho e setembro;/ de vinte e oito só tem um / e os demais têm trinta e um".
Numa noite em que veio até a Sede, conversar umas coisas de serviço com o Zigo, depois ficou conversando com a gente, lá fora,  sentados na grama... Era um cariz  lindo de Lua Cheia... Aí ele começou a explicar pra gente as mudanças da Lua...
- Ela demuda por completo a cada sete dias! Mas mudando está sempre, devagarinho, fase por fase...
Então, ao final a gente tinha já uma noção da mecânica celeste no que se refere à Lua...
A Lua Nova nasce junto com o Sol no primeiro dia dela. Ninguém a vê: o Sol não deixa... A cada dia, ela se atrasa uma hora e dez minutos, até que no oitavo dia ela muda.
Aí é Lua Crescente, que nasce seis horas depois do Sol e quando este se põe, a gente a vê no firmamento querendo ficar maior.. E aí vai crescendo, à medida que atrasa seu nascimento, todo dia, uma hora e dez minutos, em relação ao Sol... No oitavo dia, se transforma.
Vira Lua Cheia!  E começa a nascer doze horas depois que o Sol já nasceu... Porisso, é só ele se pôr, ela chega: linda, majestosa, grande e brilhante, clareando os trilhos da Terra... A cada dia ela nasce uma hora e dez minutos - como nas outras fases! - mais tarde, até que a gente não a vê nascer mais, pois sai muito tarde... No oitavo dia, vira outra.
É Lua Minguante, que nasce dezoito horas após o Sol, ou seja, lá pela meia-noite... Com seu atraso costumeiro de hora e dez, vai sumindo até tornar a nascer junto com o Sol... Mas aí é o oitavo dia e ela, de novo, é Lua Nova...
O Messias confirmou pra gente que a Lua é a mãe das plantações e dela depende seu crescimento... Se a gente quer que o cabelo cresça logo, mudado, deve cortar na Lua-Crescente... Se fizer isso na Nova, ele aumenta e logo afina. Na Minguante, depois ele cresce devagar...
A gente pode ficar no tempo assim, sentado na grama, debaixo da luz da Lua... Mas dormir debaixo do luar faz mal pra saúde, a gente que dorme recebendo os raios prateados dela, fica enfraquecido durante o sono,  a força da Lua suga as forças humanas. Nem obrar nem urinar se deve, debaixo do luar: enfraquece por dentro da gente... O corte de madeira deve ser na Minguante, pra evitar que ela carunche...
Depois que o Messias foi embora naquela noite, a gente proseou muito sobre o que ele tinha falado... Comentaram que ele não é muito velho, mas já aprendeu tudo de roça... Conhece o terreno que serve pra cada planta. Explicava pra gente: "- Terra quano vai ficano poerenta e sem sarapieira, tem de descansá, senão esgota e pára de produzir... Da moda do outro: da manipuera é que sai o porvilho!  Ensinava como usar cada ferramenta. Sabe o tipo de cova, a distância, a espécie e o número de sementes por cova... Como plantar casado o milho e o feijão, um aproveitando o aprumo do outro. Qual a época certa para o plantio, em nossa região, de cada planta... Pra ele, é importante plantar amendoim no dia das almas, dois de novembro; o alho em fevereiro, na Quarta-Feira de Cinzas; a cebola em março;  o milho no começo das águas; o arroz no dia 13 de dezembro,  Santa Luzia, pra ficar livre das pragas e do bico das aves...
Teve uma conversa que não se deve assoviar de noite, pois chama cobra... E se aparecer, ensinou pra gente a reza, dizendo que as serpentes são governadas por São Bento, a quem obedecem por milagre do Céu... Ao ver uma cobra a gente tem que dizer: "Esteje presa por ordem de Sambento!" e ela fica paradinha, enquanto a gente foge ou prega o porrete, se tiver coragem... A gente não deve judiar nem brincar com os sapos, disse ele... Eles servem pra feitiçaria...E a gente nunca sabe...
Em sua casa, ele protege os sapos... Põe pedras arranjadas pra eles se enfiarem embaixo, na sombra, durante o dia... De noite,  ele diz que os Bufo-Bufo saem pra pegar, com suas línguas viscosas, os bichinhos que vêm comer as verduras... Ele fez direitinho um cercado pra criar suas galinhas, com ninhos pra elas poderem botar. Simples, com um tapigo de ramos leves, vergame que a galinhada não irá ofender...
Ele ajuda na limpeza do rego todo ano... Tem seu capado no chiqueirinho, aproveita bem as lavagens... Em seu quintal havendo as plantas curativas e as de chá, pra beber com biscoitos, como a alfavaca  e a erva cidreira... Mais embaixo tem a horta-de-couve, ( com uma gruta de pedras onde moram os sapos) com legumes e verduras, como cenouras, aipos, cebola, repolhos, couves, almeirão, salsinha e cebolinhas, tudo bem cercado de lascas de bambu, sege simples protegendo das galinhas... " - De alface não gosto, até fujo! Acalma demais a natureza dos homens... Pra homem macho, verdura boa sendo cenoura, aipo, cebola ralada com mel e manteiga - uma maravilha! -, mangericão, coentro e açafrão. Ali na horta do vizinho tem... Também sendo especial o abacate e o chá de broto de bambu..."  Há ainda um cidral nos fundos, beirando o rego, com aqueles enormes frutos amargos -  nas mãos da mulher viram o doce mais delicioso... Das duas bandas do quintal, o tapume rústico de varas, pra não misturar as criações...
A mulher traz as crianças sempre bem cuidadas... É comum na vizinhança moleques malcuidados, deszelados, usagres espalhados pela cabeça, eczemas da falta de amor e de higiene... Mas ali não... Tudo muito asseado... Nunca nos corpinhos dos filhos o mugre, cascão e sujeira refletindo o pouco-caso da mãe...
 Quando vem  trabalhar com a gente, Messias às vezes traz sua marmita com um de-comer esquisito, uma massamorda gordurosa, com umas garrinhas de carne, que ele aprecia demais... Como vê a gente olhando, oferece, dizendo que aquilo é cogumelo... Notando nosso espanto, explica que não se pode comer qualquer um deles não... Conta pra gente que sempre gostou de variar suas misturas, comendo essas sombrinhas-do-capeta... Mas tinha aprendido com o pai dele... Nunca se deve comê-los frescos, na hora que tiver colhido. Nem se come os que têm cheiro fedorento ou sabor azedo... Esse da bosta de vaca, o mijacão,  passa longe, não presta... Os bons, a gente deve  colhê-los de manhã bem cedinho e ferver em água pura, de mina. Após essa fervura, eles devem ser preparados e comidos o mais rápido possível, pois perdem com facilidade... Espécie que não conhece, nunca experimenta. Nem se ele for velho demais. Aqueles que têm copa branca, ou de cor vermelha forte, ou ainda roxos salpicados de branco, são nocivos, têm veneno. Se comer, tá morto... Pra saber com certeza se é bom pra comer ou não,  polvilha sal na parte esponjosa deles. Ficando preta, ele pode ser comido. Se amarelar, toma cuidado, joga fora, pois esse é venenoso... Sendo dos bons, dá até pras crianças, que já acostumaram...
No serviço trabalhamos até certa hora,  então  ele pára e diz que não aguenta mais, pois está ocado de fome. Aí ajunta umas pedras, faz um poiá e "quenta" a bóia, colocando ali por cima nossos caldeirões, bem aprumadinhos...
Enquanto a gente esperava o requentar da comida, o Messias se exibia... Tinha decorado isso e vivia tentando fazer a gente saber de-cor: - Um ano normal  tem 365 dias,  8.760 horas, 525.600 minutos, 31.536.000 segundos... Um dia tem 24 horas, l.400 minutos e ainda 86.400 segundos! " depois falava pra um:   Repete! em tom de desafio...
E soltava cada gaitada quando o outro não sabia...
Já de-tardinha, depois da volta do dia,  a gente estava roçando lá no alto, por detrás dos calipes, perto da cerca da divisa da Reta, quando um jumento do vizinho zurrou uma jeguice própria lá deles. Repetiu seu choro umas vezes, garrado no soluço, e depois tornou a quietar. Aí o Messias, com a mulher ainda no resguardo da última criança, berrou pra ele, sentido, falado lá do fundo do peito: "- Eh! Compadi, eu tomém tô querendo isso que ocê tá pedino! - e o imitou no lamento:- "- Ônnnti...  ôôônnti... ôôônnnnnnnti!"
Então todos caímos na gaita, rindo até chorar, de tão verdadeiro tinha sido o desabafo do Messias, de jejum mulheral há quase quarenta dias...
A gente envinha voltando pra Sede, andando pelo caminho dos mata-burros, descendo pela estrada cheia de ondulações que entremeia as canas, no lugar onde arrancaram o Café Velho - onde até caminhão podia virar nas ruas, de tão largo tinha sido plantado nos antigamentes.
O Messias perguntou então pro Arroba, se ele tinha um livro dum tal velho, Testa Mento, que precisava ver lá uma coisa pra ele...
- Praquê isso, Missia?
- É que o homem da Tenda, - onde eles oram reunidos como debaixo dum circo, entoando cantilenas e executando terríveis exorcismos, -  tinha contado, gritando nos alto-falantes pro povo na praça em Sãizé, que na  Blíbia tem lá no livro do Levezinho, num carpítudo, sendo o Onze, um rol dos bichos, animais, peixes e aves que a gente pode e dos que a gente está proibido de  comer...
- Praquê quer saber desse ror de bichos?
- Ocê vê lá pra mim se tatu pode?  - explicou o outro, temente de estar ofendendo o Senhor, consoante um cristão atento na doutrina e firme na fé...
Como sempre, a turma riu demais. Mas o Gordo prometeu tirar a lista dos que podiam ser comidos, pra tranquilizar o apetite do Messias...
- Mas tatu tem carne boa, Messias?
- Das mió, mas carece, depois de morto, com urgência,  a gente estripá logo e extirpá certas drângulas, uns caroços, pra não infetá o resto da carne... A do galinha é a melhor, limpa demais, com o toicinzim branco, igual o de um capado, mas uma camadinha pouca. A do téba é mais escura um pouco, o toicim é amarelo, feito gordura de gado.  O jeito bom mesmo é fazê do modo da farofa, cozinhando bem a carne, até quase ir desmanchando, depois de ferventá em três águas, antes de afogá no alho e nos cheiros... A farinha de mandioca  a gente mistura depois de desfiá um bocado das carnes murciças... Pra tira-gosto duma pinguinha, ainda não inventaram nada parecido...
- Mas e se carne de tatu não puder comer?
- Largo esse povo pra lá... E eu me importo lá qüisso!?  Continuo a comer e pronto, horessa!
Depois soltava a gargalhosa risada, cara lambida, risonho rosto de maçãs salientes, - mongol e cabinda?  oxalá chinoso e congo?  ou deveras havaiano e moçambique? -  Era uma mistura,  nele se destacando o narizimenso, achatado feito uma precata...
Descíamos o resto do caminho com  vontade de chegar logo, quando se ouviu uma saraivada de sons: Crahz!, atch!, tuz!, boz!, poouumm-rrrasssgg...
Foi o Messias, relaxando com a turma, que espirrou, depois de cheirar o fumo que vinha picando, e ao mesmo tempo pigarreou e tossiu, tentando disfarçar de araque um peido que deu, azulando o ar em nossa volta. Tudo parecendo um barulho só, mas catingoso demais...
O Mango xingou muito, saiu cuspindo, tendo ânsias de lançar...
Todos saíram correndo de perto e o Messias torceu pelo trilho da Colonha e se foi, rindo de agachar, achando a vida boa e engraçada...


VI -  REVELAÇÃO


O Arroba gosta bastante de fazer pipas e papagaios pra garotada empinar aproveitando o vento...Traz da cidade as folhas, as linhas e a cola... Inventa de fazer bolhas de sabão sopradas com talos de mamoeiro... Faz zarabatanas - longos canudos de bambus e ensina a gente a fazer os canudinhos, os dardos, com papel de folhas de caderno velho, que usamos para furar as caixas de marimbondos...
Na manhã seguinte ao dia de sua chegada, fez pra nós uma jangalamarte.  Ele montou o brinquedo pra gente lá no quintal. Ah! Era um verdadeiro coximpim,  feito de uma tábua muito velha mas forte, de peroba, apoiada num toco de uma mangueira cortada... Ficava cada menino numa ponta e se alternavam no gangorreio, oscilando um e outro, extremidade sim, extremidade não... A gente brincou durante anos nessa gaburrinha.
Naquela tarde, depois do almoço, o Arroba foi, a cavalo, ajudar o campeiro a buscar as vacas pra apartar os bezerros.
O Martinho ia na frente e já vencia a ladeira do outeiro quando ouviu o grito  do outro pedindo socorro: -  Me acode, o cavalo tá espichando! 
Como a barrigueira bambeasse morro-acima, e o gordo havia parado a fim da pobre alimária recuperar o fôlego, logo se foi ao chão, com arreios e tudo, escorrido rabo-abaixo até aos mansos cascos traseiros do Guarani, inda ofegante pela subida íngreme do Morro.
O Martinho, voltando, desmontou. Primeiro acudiu o caído e, constatando que o tombo fora inofensivo, desandou a rir do amigo, enquanto tornava a arrear o animal para prosseguirem na tarefa.
O outro acabou gargalhando também, depois de passado o susto, mas, depois, jurou para todos que se sentiu puxado para trás com força, e que aquilo fora arte do Guardamó...
Logo reuniram o gado, que pastava longe, lá nos Eucaliptos, perto do Ponto.
Na volta, vinham chupando coquinho-macaúba e mapeando um bom assunto.
Teve uma hora que  pensaram ter visto um trem escuro agachar-se atrás duma moita...
Combinaram dar uma volta, cada um prum lado, para cercar aquilo por trás. Cutucaram as esporas e correram muito, e um vulto correu pelo capim, no rumo da Linha. Martinho pregou em cima, mas logo voltava, desapontado.
- Quand'éi fé, a coisa atravessou a Reta, subiu de um pulo no barranco do outro lado e sumiu no meio dumas moitas, depois das árvores...  
Seguiram tangendo o gado, se perguntando se era ou macaco, ou um tatuzão,   ou passarim grande desse desavoante, um mutum, quem sabe?... Ou porventura fosse um capincho que, pastante, se distanciara da Lagoa em que morasse,  aquela bem ali perto, na Fazenda do Bernadino Puz?
Nas encostas, as vacas se iam subindo em confraria, no geral o sim-dizendo, confirmativamente, cabeça-e-pescoço, esforçosas, no quanto, seródias,  quase vencendo o clivo, no passo a passo, perna-a-pé.
Enquanto regressavam, Martinho aproveitou a calmaria reinante nos pastos  pra  incentivar o outro a participar da luta...
Começou nos elogios, dizendo que o Arroba era a última esperança dos meninos da Fazenda, cansados de sofrer nas unhas do malvado Mango...
Quando o outro, parecendo se interessar, lhe perguntou quem, na realidade,  era esse seu indesejável adversário, o Martinho deu-lhe sua ficha completa...
Informou, inicialmente, que ele era um sujeito adversativo, cheio de mas-poréns,  um pantafaçudo estafermo, o rei do basbaque, pessoa sem préstimo. 
Ainda mais: que vê-lo era mau augúrio, presságio, prognóstico, auspício.
Malcriado, asperejava facilmente com a mãe, que tão bem o manejava  a poder de porrete... Ela se lamentava, dizendo: "- Esse ingrato mamou cinco anos no meu peito!" - e suspirasse...
Numa luta, larvado, usa golpes dissimulados. E, disfarçadamente, procura machucar seus oponentes. Quando nervoso, fica desequilibrado, insidioso.
Já no serviço, é lasso. Ninguém confia em seu trabalho, pra isso é frouxo, cansado, fadigado.  No jeitão, relaxado, se mostra bambo de preguiça.  Arremangava as camisas mas não trabalhava direito.   
- Mas é esta, perguntou-lhe então o Arroba, a substância de que é feito o  Campeão de vocês?
Qual a massa usada na composição dessa mistura de homem & animal? No caso, era um mistério... Primeiro, a voz: indefinível, ora em falsete, puberdática, revelava que estava se passando de pato-a-ganso, fase de mudança em que operam os hormônios nas cordas vocais...
Continuou o Martinho:
No caso dele, uma mistura de asno com macaco, tal a sua fama de inzoneiro, relasso.
E continuou nas informações.
A própria mãe o tinha por meio-retardado, bobice que nenhuma benzeção conseguiu curar... E mais, que ela não pode contar muito com sua inteligência e iniciativa nas mínimas tarefas tantas vezes ensinadas e nunca decoradas ou aprendidas com raciocínio... Absolve-a totalmente o fato de ter tentado de todas as formas educá-lo, incluindo-se as inúmeras sovas aplicadas desde pequenino, que o deixaram com o ar de sabaqüela que ostenta.
Confirma-se que, quando mais novo, apanhou demais, e que suas surras eram crebras.
Já segundo o Mango,  que sempre se faz de vítima da mãe,  ela  sempre foi uma bruaca ruim, e, além de seresma, uma megera pura. 
- Mas é mentira, todos sabem que é uma santa a dona Luzia  - desmente-o Martinho.
Na voz geral consta que ele é quem vive na mamparra, dono da maior preguiça, escondendo-se dos serviços sob mil subterfúgios, simulando ocupações, tão velhaco como trapaceiro. Gostando mesmo é de comer demais, o rapa-tachos.
O Arroba fica então sabendo mais: que ele é   um mestre nas evasivas, mandrião, fugindo com desenvoltura tanto dos golpes do adversário quanto das obrigações que a mãe lhe confia, tão simples como tratar das galinhas e do capadinho do chiqueiro, a capina do quintal, rachar lenha cedinho, entre outras...
Está certo que tem outros irmãos... Mas ele tem que fazer alguma coisa também...
O Zé-do-Fole, seu irmão mais velho, gosta de ficar de tarde tocando uma sanfona no terreiro defronte a casa do seu Tião. Mas só depois de trabalhar o dia inteiro!
Ele sempre diz pra gente que o Zé é sacudido no serviço, mas - também pudera! - , come duas malmitas...
Quando sua mãe chama pra tomar o banho completo semanal no bacião de folha,  suprime-se  no ar, madraço, inencontrável,  metido em nenhures. Seria abecedado? Nele, o mugre, crasso.
Crinisparso , enrolado feito um liço, sorrelfo, gosta mesmo é de panriar. Vive armando suas arapucas, vadiando pelo Perau, trepado nas goiabeiras, ou capeando os bezerros mais ariscos, dizendo-se toureiro, mas ensinando-os a pegar os outros, pra depois dar risadas... Vive amoitado nas mangueiras rechonchudas mais altas. Tem costume de andar arqueado, esgueirando-se por trás dos arbustos, como quem anda negaceando um porco amoitado que fugiu do mangueiro...
Sua predileção é raposinhar, às galinhas sorrelfas, e também caçar ninhos de passarinhos - e bebe os ovinhos! -, levando a vida na malandrice, no desleixo,  e ronçaria, dando mal-exemplo ao Panca e ao Ditinho.
Ele faz exercícios nos galhos das árvores, e depois conta vantagens,  vaidoso e galudo, exibindo, néscio, seus grossos muques.  Só que, ante qualquer necessidade de opção, o marmanjão sempre nuta... Entende muito de cruzamento dos bichos... Vive observando eles...
Mas contou pra nós uma coisa que só acreditando pra ver... Disse que uma vez, de noitão, achou um casal de gambás numa farra do cio... Ficou espantado com o freje do acasalamento dos bichinhos. Sem perceber que ele estava espiando, continuaram sua cópla, ofegantes, distraídos, desligados do mundo em seu redor.. O macho tinha um piritoco estranho, um pintinho bipartido, com dois pescocinhos e duas cabeças, com o qual ele cruzava com as duas xoxótas que a gambá tinha, uma ao lado da outra... "- Dá pra  aquerditá? Já viu bicho tendo duas vergonhas, duplas, de par?"
Ele mente e é muito boióta!  Entende patavina de  alfabeto e números. O sambanga foi na escola apenas alguns dias. Como era muito estrabulego,  bagunceiro nas aulas e  amalucado pra responder os mais velhos, ia ficando freguês da férula implacável da professora que tentava, inutilmente, colocar o abecê naquele cérebro zuretado...
Primeiro derrubou um vespeiro já grande que  os marimbondos estavam construindo bem por cima da porta de entrada da Escolinha... Os vespões, desses tatus, nunca tinham incomodado os alunos... Mas naquele dia e no outro ninguém pôde assistir às aulas. O Mango ficou uma semana suspenso da escola.
Certo dia, ele pediu e a mestra não o deixou ir na licença. Como ele estivesse muito apertado, foi pro fundo da classe, se agachou atrás da última carteira, desnalgou-se  e armou seu laço. Depois disso ninguém agüentou mais ficar lá dentro. Isso não sendo coisa de beócio e doidarraz?
Por mais costco      ,,,,cllosteio que recebesse por meio de castigos, punições e reprimendas, não se emendava... A mãe só concordou em retirá-lo das aula  ainda ignaro, após verificar que o inchaço das mãos, resultado das carícias da palmatória daquela lambisgóia de professora, atrapalhava a pouca ajuda que o parvo lhe prestava, sempre sob as ameaças e impropérios do pai, seu Orlando.
Do pai sempre recebia o xingo de um apelido: estólido, tolo, estúpido, estouvado, manzanza, toleirão, desajeitado, indolente. Ajuntava em si todos os epítetos e ainda sobravam muitos...
Ele judiava de todos os meninos cafenguinhos da Fazenda. Essa era sua façanha,  sua gesta, sua proeza.
- No campinho lá perto de casa, onde a gente joga a péla, o Mango é proibido de jogar calçado como os outros, porque sua brutalidade machuca os meninos. Ele é ruim de bola! Quando você não está por aqui, no dia que ele está nervoso, faz o regulamento do jogo e os demais têm de acatar... Aí o campo não tem limites. Quem chuta longe tem que buscar, senão leva uns cascudos... Se marcar gol chutando com muita força e a bola for longe, é anulado.  Bola na trave o jogo pára e é tiro-de-meta... O campo é escorrido pra um dos lados, como você sabe. A gente tira o par-ou-ímpar pra saber quem vai correr morro-acima no ataque... Se ele perde no sorteio, joga morro-abaixo, na marra... No jogo dele não tem dois tempos... Quando ele está ganhando, de repente acaba o jogo... Quando está perdendo, o jogo nunca acaba, prorroga até por outros dias... É que só ele tem uma bola-de-cobertão na Fazenda, dessa oficial, porisso impõe suas próprias regras... Quando o adversário vai fazer o gol, os jogadores do time dele pra atrapalhar podem até pôr a mão na bola e nem falta não é...  Quando isso não adianta, ele dá falta contra o atacante, por  excesso de carreira no campo... A gente morre de raiva! Tem menino que até chora e vai embora... O Mango faz e acontece, vive ralhando com seus companheiros,  mas sua equipe sempre tem de ganhar. Ninguém tolera isso mais!
Diz, depois, que o outro vivia vasculhando o rasquido das outras casas da Colonha em busca de algum trem jogado fora que ainda lhe servisse...
Ah! ele não podia ouvir falar em Gila-Caioba. Ninguém ousasse dizer isso perto dele. Gila ou chila-caioba, era uma abóbora doce cultivada por sua mãe. Havia época em que sua comida era basicamente este legume. Enjoara pra eternidade. Era surra certa chamá-lo de Taioba, o modo dislálico com que pedia o alimento para sua mãe, quando pequeno...
Às vezes, dava uma de arúspice, adivinho, áugure, muitas vezes acertando predições, inexplicavelmente. Com isso, assustava a meninada, e para impressionar mais, tinha mania de pegar em brasas vivas com as mãos limpas. Mas as áscuas nenhum mal lhe faziam... Nas fogueiras de São Pedro era o único que caminhava pelo braseiro como se andasse por um fresco cimentado  de vermelhão... Dizia que o seu destino era grande, ligado ao fogo que não lhe fazia mal... Qual o seu segredo ninguém imaginava...
Quando ferrava uma lúita, se recebesse um golpe mais rude, logo lhe vinha ao olhar  a chispa do ódio, aquele  brilho, fagulha da pessoa encolerizada.
Já quando  resolvia ir trabalhar na roça, vivia secesso dos outros. Ficava pra trás, separado, retirado, abandonado, pois era lerdo  no serviço. Porém, apenas começava na lida,  logo parava. Dizia que os pés forvilhavam demais, porque, então, se via  obrigado a usar botinas, o que lhe ocasionava um misto de formigamento - por lhe ficarem arrochados os dedos -  e fervilhamento  - por eles se esquentarem.  E como não ferviam com o andar nas brasas?
Gostava de          seguir as meninas da Colonha,  quando  iam se divertir no poço raso, na má'tenção  de assustá-las, pra ver sua gritaria, aquela ingresia de menina chorando, verdadeiro ingranzéu. Aí aparecia como que para salvá-las... Com isso, muitos achavam que gostava mesmo era de vê-las em roupas de banho, espiar seus maçotes, procurando devassar por entre folhagem uma visão de seus rabistéis,   por ser-lhe ocasião eretriz...
Quando um marruco estava correndo uma vaca, chamava as meninas pra ver, só pra deixar elas vermelhas de vergonha...
Vivia arreparando nelas... Dizia que tinha muitas que eram bonitinhas demais... Era mesmo! As meninas de lá,  acostumadas no serviço bruto, do pé-no-chão, desfilavam alegres, perfumosas e enfeitadas pela ruazinha defronte suas casas, no domingo, exibindo seus chaprizes de verniz brilhoso...Já as mais mocinhas, até tropeçavam, começando a se equilibrar  em sapatinhos aprumados...
Pois não é que ele  gostava de dizer: - Da moda do outro: pra comer e começar, basta coçar.  E soltava cada gaitada!
Certa tarde, a gente tava tudo junto perto do cocho do pastinho, numa rodinha, quando a Nicinha, inocente e meninota, chegou correndo assustada até ali, chorando... O irmão dela então perguntou porque ela estava apavorada daquele jeito... Ela respondeu que ia passando perto do curral de cima onde estavam uns animais. Aí se assustou com uns relinchos do cavalo atacando com mordidas a égua preta. Ela virava as ancas pra ele e despachava os coices. Ele nem se importava. Aí o cavalo começou a ... Sei lá, entende? Foi crescendo lá por baixo, ficando comprido, dava mordidas no pescoço da égua, sabe?! Depois agarrou ela por trás com as patas dianteiras e aprumou o corpo enriba dela, sei lá, entende?! Ele parecia tão bravo, acho que tava matando ela, sabe?! Vim correndo te chamar pra ir lá apartá eles... O Mango então falou:- Eles tão cruzando, menina boba, mode arranjá um putreco!  O Zé Hamilton olhou pra nós de banda, ficou vermelho, sengraçou e foi embora depressa com a irmã, enquanto a gente explodia as risadas que estava segurando... A gente riu tanto e o Mango gritava que ela era coió, estaferma, irmã de gente boba, que o Zé ficou muitos dias de-mal, sem chegar e nem deixar a outra chegar perto da gente...
Ele gostasse, ainda,  de lançar aos outros cruéis assacadilhas, infamando-os com imputações caluniosas. Dizia que tinha feito isso, mais aquilo, uma bobagem, que bulinava  uma e outra menina lá da colonha...
Tudo que maquinava de errado em casa, punha a culpa em Tilena, a de crenchas mal trançadas,  a quem desgrenhava os cabelos de modo a enfeiar na constância da infernização...
Porém afirmava  que a vida devia ser  maré-viosa para todos, não só pra gente rica... . E, que se um dia precisasse trabalhar para comer, preferia passar fome.  E que gostava mesmo era de mexer com fogo...
- Dizem que, de fato, de noite, imitando o gado, pratica o tal mericismo, ruminando, noturno, o nada comido durante o dia...
Tivera os joelhos  valgos quando pequeno. Depois, inexplicavelmente, se tornaram  varos, da moda dos caubóis.
- Não será por andar demais de a-cavalo, na vadiação? - Perguntou, preocupado, o  cavaleiro Martinho...
Não era um maula, nunca deu  moleza numa luta, e que só se mostrava fraco e covarde diante dum serviço.
Morgava depois do almoço... E, como todo ventusiador dissimulado, o Mango sendo um perverso cacósmico... Pois ora se não apreciasse o mau-cheiro de seu próprio gás desagradável!!!
- Teve até doença de vaca, o danado: a tal febre afetuosa.
Que quando ouviram aquilo pela primeira vez,  contado pelo  próprio doente, pensaram até que ele, fátuo, estivesse se exibindo, por estar sentindo, pela primeira vez, o ardor do sexo, cê sabe, o tal de artesão.
-  Depois dessa sezão, depois disso, ele vive pra mode ficá espiando o tardós das meninas. -  disse, já quase  encerrando Martinho o  seu longo relato.
E, finalizando de vez o assunto, afirmou solenemente:
- Só mais uma coisa, Arroba: sobre o Mango, e isso tudo aí que falei, existe um Segredo que não posso revelar...
Nada mais disse, nem lhe foi perguntado.



VII - O ENROLA-BOSTA


Depois que chegaram de volta ao Barracão,  desarrearam os animais  para soltá-los no piquetinho...
Aí o Arroba, ainda um tanto encucado com o revelatório final do Martinho,  juntou todos os meninos para gente brincar com o jogo do Enrola-Bosta.
Escolhidos os participantes, o jogo começou, com a soltura dos escaravelhos. Uma vez libertos das caixinhas de fósforos em que estavam encerrados, um a um iam levantando seu impossível vôo, para aterrizarem perto dos montes de bosta-de-vaca. Aí começam sua faina, e a gente ficava torcendo algazarramente....
Com as patinhas de trás, vão enrolando o esterco fresco, até moldarem bolas, maiores que eles próprios.
Depois, vêm recuando, empurrando as bolas; escavam buracos para enterrá-las e se jogam ali, onde ficam sob a pelota enrolada, soterrados pela areia.
O besouro que primeiro se precipita na própria biloca, dá a vitória a quem o escolheu, adotando o seu patrocínio,  ou nele apostou.
(Se a gente deixar, os atletas permanecem ali, no cotidiano, quietos, no geral vários longos dias, até consumir totalmente o enorme farnel.)
O Arroba ganhou a primeira partida.
(E, enquanto jogou na Santa Rita, seu Atleta jamais foi derrotado e nunca perdeu uma aposta. Eu e ele, a gente nunca contou pra ninguém onde foi conseguido seu Campeão... Agora, como foi treinado para as certeiras vitórias, nem nós sabíamos...)
Foi  gozado   quando o Mango sem entender bem do jogo,  pegou  uma fêmea,  no geral maiorzona que o macho, bizorrona brilhosa, vernizmente. Então se deu  mal... É que esta, do estrume mais mole, fez também a mesma pelota. Mas, dum jeito engraçado, botou ali um ovo, único, como recheio.
Porém não se enterrou junto, só soterrou a bola com aquele ovinho dentro e foi embora, sem entrar dentro do buraco... Aí, nessa partida, o Mango foi desclassificado, perdendo o que apostou!
Ele ficou um bandeira, humilhado pelo atleta mal escolhido e alvo das zombarias silenciosas de todos os meninos que assistiam a peleja...
E a gente constatou, daí uns dias - miraclo! :- saiu do buraco feita pela bizorra do Mango uma ex-larva coprófaga, escaravelhamente adulta, alimentada da bolota, aquele bombom herbáceo-excrementífero, da qual sobrou apenas uma casquinha frágil, inda que bastante dura...
Engraçado mesmo sendo o apelido da besourada toda, revelado pelo Nédio: geotrupes stercorarius...
Esse joguinho fez um sucesso enorme, chamando a atenção até de gente grande, que começou a praticar o brinquedo... O Arroba, aproveitando que a turminha estava toda reunida no brinquedo, falou que não ia entrar no torneio de lúita...  Foi uma decepção geral...


VIII - A EXATA PROVOCAÇÃO


Em razão da desistência anunciada pelo Arroba, ou por qualquer outro motivo, o Mango, então, chamou alguns de nós  pra irem até à casa dele, que ia contar um caso, e que não podia ser ali.
Quando fomos todos pra lá, foi dizendo pra nós, contado baixinho, meio arretirado de perto da casinhola:
- Ano passado eu chamei uns amigos lá de Sãizé que estavam de passeio na Colonha e falei pra eles vamos matar um porco? Eles estranharam, mas eu expliquei pra eles que na véspera, o intojado do seu Omar tinha me mandado buscar umas vacas de leite, porque o Gerson tinha faltado. Busquei mas uma ficou na arribada. Me mandou de volta pra ir procurar. Estava cansado, saí dali e fui sentar numa sombra, depois da volta do trilho, no alto do tope. Eu fiquei demorando e ele foi atrás, me achou deitado de costas na grama, chupando um talo de grama-de-égua entre os dentes, de olhos fechados, apreciando um ventinho que soprava. Me deu uns arrancos, puxadão de orelhas, ficando bravo-furioso, danado da vida com esse moleque preguiçoso, ele falava. Me prometeu dar umas reiadas com rabo-de-tatu da próxima vez. Aí mostrei pros colegas os vergões dos pinicados, do beliscão. Foi o bastante. Consegui o apoio deles pra minha vingança. Então a gente saiu de casa levando umas varinhas-de-anzol e um marraco, pra dizer que ia pegar minhocas pra depois ir pescar... Descemos até no Córgo e fomos ladeando até os fundos do Mangueirão. Ali cada um pegou um porrete forte. Escolhemos, no meio da vara, um porco pra matar. Saímos cada um por um lado, cercamos o maiorzão deles, um carunchão piau, o cachaço da porcada. Caímos de cacetada nele. Quando estava bem morto, arrastamos e jogamos no Córgo. Ele foi pro fundo, e ficou soltando aquele sangue escuro pelo focinho, que vinha até à tona d'água. Depois foi ele que veio voltando para a superfície devagar, ao mesmo tempo que ia navegando Córgo-abaixo... Aquela massa escura contrastava com a limpeza da agüinha cristalina com que logo matamos a sede. Ali lavamos as mãos e jogamos fora os paus, que foram embora boiando também. Depois de tudo acabado, demos muitas risadas e fomos embora pra casa, cada qual guardando no mais íntimo de si a história desse Segredo...
Quando terminou a história, o Arroba,  muito nervoso,  xingou o Mango por aquela maldade, falou que era um mentiroso, que o Zigo não era entojado nem nunca tinha batido nele. A gente nunca tinha visto o Gordo tão bravo...
Depois que saímos dali e chegamos lá na Sede,  o Arroba anunciou pra todos que aceitava participar do torneio e que, se fosse classificado, seria o desafiante do Mango, pra luta principal.
Uns troçaram, outros, por puro ferruncho, saíam com piadinhas e galhofas envolvendo os últimos feitos do Arroba, - a carreira da Renda e o tombo do Guarani... E, nele, depositavam a mínima esperança de se desforrarem do Mango.
Ficou combinado que o Torneio seria no próximo domingo... Pela folhinha, seria uma noite de lua nova, portanto escuríssima e desluada...
A cotação do Campeão era enorme: os moleques da vizinhança, ali reunidos para o jogo do enrola-bosta contavam potocas e vantagens, lembrando de antigas lutas do João. Os mais papudos sendo o Panca, o Dito e a Tilena, exagerando as incontáveis vitórias do grande lutador, o orgulho da família...
Pra assistir aos embates e participar do confronto, viriam moleques,  meninas, rapazes, moças e adultos da Colonha, da Sede, de fazendas da redondeza, quiçá de Sãizé...
Mas, já na véspera, desde madrugadinha, foi chuva que Deus dava, ficando então tudo adiado até o outro domingo...
Aliás, choveu a noite toda e a chuva amanheceu grossa no sábado.
Deu um trabalhão pro Seu Sebastião mais o Lúcio e o Zé Piau, seus filhos, tirarem o leite naquela manhã... Vacada esparramada, Martinho custou a achar algumas renitentes, ariscas, que não vinham,   fugindo do atoleiro barroso do Barracão.
O velho campeiro já dado às pingas e aos gornopes, quase não aguentava mais se levantar de-madrugada pra mungir a vacada parida...
Inda mais com um chuvão daqueles...
Tossia muitos cigarrões de palha...
- Ah! Seu moço, essa noite me atacou uma dor lascada no peito, não dormi um minuto. Só passei por uma madorna, cochilinho atoa... Ontem foi a câimbraria nas pernas que quase me matou empelotado... Até pareço uma pustema! Já fumei tanto - e não dou conta de largar mais - e o arcatrão já me fez tanto mal que, quando me dá essa tosse braba, vem a farta de ar e parece que tô num fim de vida, muitos como que bichinhos me esgravatando os pormão...  É um sufoco, sabe?  E o que mais me mete medo é a pormonia e a tísica... Essas aí máta os véio!
Choveu, assim, a semana inteira, até na sexta-feira seguinte... Choveu tanto que não se podia ficar nem no Alpendre... Durante o dia, a gente então ou ficava na Sala aos jogos, conversando, ou nos Quartos, contando historinhas, e, de noite, lá na Cozinha,  ficava quentando fogo em roda do fogão de lenha, comendo aqueles  bolos maciinhos, sempre três pedaços pra cada um, mais os biscoitinhos, pipocas e sequilos, acompanhados do leite-queimado-com-açúcar, aquelas delícias de quitandas cheirosas, enquanto ouvia, com arrepios, as histórias do Guardamó até o sono tomar conta de todos...
Sábado estiou, mas ficou nublado, caminhos encharcados..
No domingo o sol logo veio, rachando mamonas... A gente pôde sair de casa pra se divertir um pouco... Contudo, notava-se no Arroba um ar pensativo...
Fomos jogar bola no Terreirão de secar café. Neste futebol de fazenda, entram quantos jogadores estão por perto. Repartidos em dois lados, estão dois times: adultos, crianças, fortes e fracos, todos caem na pelada...
Nosso campo, totalmente revestido de tijolos, fica um verdadeiro quiabo, de tão escorregadio pelo lodo da época chuvosa. É um tombo atrás do outro. E risos, gaitadas, zombarias... Aí a vida vira uma festa!
Após o jogo, suados, os moleques corremos para o lavador de café, banheirona cimentada onde não cabemos todos ao mesmo tempo... Nadamos e espadanamos na maior farra, nessa piscina deixada a encher desde de manhãzinha...
Depois, cada turma volta pra suas casas...
Alguns notaram uma significativa troca de olhares taciturros entre o Arroba e o Mango...


IX - QUASE-CONGESTÃO


Aí vamos pro almoço, hora sagrada na Santa Rita, nos domingos principalmente...
Todos se assentam juntos às mesas. Tem uma na sala e uma para os pequeninos na cozinha.
É uma cerimônia... Ah! Aquelas suínas carnes tostadas... Um feijão vermelhinho, combinando perfeitamente com o arroz solto, cheiroso... O franguinho novo, com o seu molhinho verde - salsa e cebolinha, com os sangues e o fígado picadinhos -, o macarrão com o molho de tomate e aquele tantão de queijo ralado - feito na fazenda... As verduras sadias e deliciosas, lá da hortalinda, enriquecendo o cardápio. Batatinhas, mandioca, banana-frita, o quiabo com polenta, e tantos tantos pratos que se tornarão inesquecíveis em nossa memória...
E nunca falta a sobremesa, havendo todo tipo de doce: a goiabada - da mole e a cascão, o queijo fresco,  o-de-leite, o-de-cidra, o-de-mamão (ah! aqueles cavacos de canela, os cravos, a calda, o vítreo-verde lindo desse doce tão saudável, saudoso...).
Fechando o banquete,  o café até hoje cheira a quilômetros em nossa lembrança...
Fazer o quilo, nossa siesta local:- todos no Alpendre, criançada e adultos, brincando com os cãezinhos da ocasião, ora o Cravinho, ora o Peri, depois o Xéu-Bréu, o Tupi e muitos outros pelo tempo afora, como o Preguinho...
Sendo dia-de-guarda, numa algazarra de praxe, os moleques da Sede vamos, com o Papai, buscar mangas...
E as mangas mais deliciosas são as do pasto do Perau, no que todos concordam...
É uma boa caminhada até lá... Num recanto de meio-mato, no meio das aroeiras, quase no topo da encosta, ali vicejam as rechonchudas mangueiras, beirando a suã do horizonte, onde em noites incertas vagueia o Guardamó...
Encontramos no caminho, já voltando do local, com seus embornais entulhados de frutas,  uma turminha de meninos da Colonha... Trocaram olhares estranhos, novamente, o Mango e o Arroba, ao cruzarem os passos pela trilha estreita...
O que torna as mangas do Perau mais cobiçadas e saborosas, além do difícil acesso e da longa distância da Sede, são as abelhas melissas, cevadas no mel das mangas caídas no chão sem ter quem comê-las...
Eram um fator complicante que tornava difícil e perigosa a chegada ao local... Certo, elas apenas defendiam o território de sua colméia, o depósito do suco viscoso-sacarino tirado das flores e que, em seu estômago abençoado, elaboravam em mel...
Os enxames muitas vezes correram com candidatos ao cobiçado prêmio, que voltavam dali ferroados, em dolorosos inchumes, corpos empolados aqui e ali, sal-picados de ferrões algésicos...
As mangueiras, comuns, antigas, atraíam os enxames pela doçura inigualável de suas grandes mangas oblongas-oblíquas, de casca fina e lisa, amarelas, avermelhadas, pintalgadas de pontos e pintas negras.
Saciava-nos sua polpa suculenta, de mélico sabor, textura e consistência macias, fibras longas e finas, linhas que depois a gente gastava tempo pra tirar dos dentes...
Assim como as do Perau, as mangueiras do Café-da-chegada, lá no alto, na beira da estrada, eram igualmente apetitosas e aprazíveis... Inda hoje lá permanecem, rechonchudas e produtivas, no meio do pasto formado após a erradicação do cafezal...
Lá também a gente ia, levando o bornal... À sombra de suas grandes folhas onduladas formando copas arredondadas, a gente se lambuzou muitas vezes de amarelo, pois o bom era mesmo se ir a-pé, brincando, a meninada na maior farra, antes do retorno festivo com os bornais cheios das frutas escolhidas, trazidas pra quem não ia lá da casa...
Quando já não cabia nem mais um caldinho na barriga da turma, já colhidas as de se levar, então voltamos com muita carga.
Chegamos debaixo da maior festa e se repartiu o fardo: a mamãe, as pagens e as meninas brindadas com fartura...
As meninas sempre se contentavam em chupar as mangas do pomar no quintal da fazenda, como os meninos, quando estavam com preguiça da caminhada às mangueiras do Perau ou às da Chegada... Aí elas tinham gosto de saborear as frutas, numa farra danada,  trepadas nas próprias  mangueiras...  E haviam várias espécies e qualidades de mangas ali, formadas com carinho e zelo pelo papai...
Ao cabo de alguns anos, contudo, quase todas essas árvores  sucumbiram ao ataque de doenças diversas, desde a antracnose ao oídio e outras pragas destruidoras...
Do pomar que ali havia, depois mal-cuidado pelo homem, sumiram as velhas mangueiras-de-qualidade...
No entanto, restam, inda hoje, testemunhas do tempo, soltas pelo Perau, ou livres na natureza, lá no pasto da Chegada,  longe da ação do homem e entregues à própria sorte, vicejando lindas como sempre, as mangueiras de antanho...
Comer mangas era mesmo com o Arroba, glutão feito porco por beldroegas. E, nesse domingo, voltou fornido  do Perau, como se ia dizendo...
Pra se avaliar o que aconteceu com o Nédio, há que se imaginar uma barrica, ou mesmo um barril de cem litros, onde se jogou alimentos sólidos e líquidos e se pôs fermento em tudo. Mexeu-se bem e se aguardou..
Horas depois, ainda se percebia no banheiro, onde entrou com enjôo, um odor mordente do vômito saído de seu gordo matraz, pois a misturada que cometeu só poderia dar naquilo: uma quase indigestão...
Seu cárneo cabaz só teve alívio após ter lançado fora aquela massa corrosiva que sua bílis não conseguia digerir...
Depois, efflo!, soprou repentino gás, cujo peido, tornando irrespirável o ambiente ao seu redor...
Daí mais um pouco, aflou em nossa direção um odor carniçal... Até o nidor vindo dele quando conversava um pouquinho era horrível e insuportável...
De repente, assim como voltou pra cima uma parte daquela lavagem, outra parte, a que conseguiu descer-lhe do bucho às tripas, saiu de dentro dele a uns l00 quilômetros por hora, numa pressão tamanha que ele parecia ter os intestinos movidos pela turbina  lá da Usina...
A leve intoxicação desidratante ensinou-lhe a não fazer misturadas e a respeitar a capacidade máxima de seu triturador estomacal...
 A lúita tornou a ser adiada para o próximo domingo, em vista da fraqueza de um dos contendores...
Foi aí que aprendeu, depois de muito remédio, chá e jejum, que não se come impunemente carne-de-porco com muita manga por cima...
Ficou de cama por um dia e uma noite, numa fisose preocupante... Nos dois dias seguintes, só ingeriu comidinha rala, sopinhas leves.



X - A CIGARRA E A MURALHA DA CHINA



Quando o Arroba melhorou, a gente saiu pra andar um pouco.
Lá no pomar, sentamos numa sombra gostosa, debaixo duma mangueira e ficamos contando uns casos...
Subitamente, uma cigarra, sobre nós, rufla surdamente a barriga como um tambor, emitindo, com um ríspido e hirsuto rasco, o seu amoroso apelo... 
Um grita: Sai de bacho! Goramemo vai mijá ni nóis!  Prevenidos, a gente logo a localiza, atracada ao tronco, com seus três centímetros congrossos, possuindo translúcidas cristalinas asas, zunezumbindo agudamente seu chamado erótico enquanto vai sugando, ininterrupta, as gotas de seiva dos microveios das cascas das árvores....
Seu zumbido agudíssimo se inicia aveludado e macio, e vai se elevando rapidamente até o máximo, estridente e insuportável... Primeiro um rasquento rrrrr, como  serra em dura peroba ou aroeira. Depois, uma lambada rápida  zis... zis, e no repetimento, como açoute, cada vez mais rápida zis, zis, zis, zis, zis, zis, zis, zis, zis, zis, zis, zis, até chegar ao clímax: zisssssssssssssssssss.  Aí pára.  E recomeça.
O Sabe-Tudo  nos conta então que, através de um filtro especial, que só ela possui na Criação, processa, ligeiríssima, o suco vegetal, aproveitando seus nutrientes. Também disse que possuiu uma dessas, que chegou a  viver dois anos.
- Pra quê?  - inquiriu o Martinho.
- Brincar de avião, amarrada na linha, e também pra dar sorte!
Como que pra aguar a terra seca no pé da árvore, logo o bichinho excreta em borrifos o seu mijo - na verdade o excesso de água que havia na seiva...
A gente se afasta pruma banda e vai saindo embora dali.
A Cigarra fica lá, sugando o lenho e saciando  a sede com goles de sucessiva seiva, e enquanto isso, com seu excessivo som,  chama a fêmea  pra saciar o sexo...
Aí encontramos o João que vinha topar com a gente. Chegou correndo, dizendo que descobrira um ninho da enrola-cabelo que devia ter muito mel...
Nós não conseguimos segurar as risadas, ele ali, cara de tacho, sem entender o porquê...
É que às vezes, de  tarde, a gente ia tirar o mel daquela abelhinha, a  trigona, a torce-cabelo. Mas tinha que ter tempo...
A gente só achava a entrada de seu ninho, durante o dia... Eles eram feitos nos ocos dos paus, forrados duma  impermeável mistura de resina com cera....  Durante o dia a portinha é vigiada obreiramente pelas sentinelas...
À tardinha, no trabalho de fechar sua casa, a abelhinha retentriz tem a ajuda do zangão obreiro, usando a mesma mistura do forro interno de sua casa para lacrar a entrada e evitar a invasão dos formigões melófagos...
Reparamos, então, que é nessa oportunidade que os machos retentores se aproveitam para violentarem  as operárias, às escondidas da Rainha...
Certa manhã, tempos atrás, pela primeira vez, a gente ficou observando e viu as obreiras  - estéreis, frustradas em seu sonho de pôr seus ovos,  -  seguirem como sempre, gulosas para sugarem flores, no normal de sua dura faina, para alimentarem Tirana e Zangados...
Mas, como se demonstrando que nelas sempre resta uma revolta remanescente do vespertino e cotidiano estupro, a gente observando atentamente, vimos, pasmados, algumas abelhinhas lambendo retaliativamente, além do néctar das corolas,  as remelas dos olhos do gado, e, tendo engulhos, as vimos também misturando ao pólem das patinhas, o ronco-ranho pegajoso das narinas dos cavalos...
Descoberto o segredo de seu melzinho salobro, dali pra frente nunca mais comemos aquela guloseima, que o João, sem saber de nada, continuava a apreciar...
Ainda rindo demais, saimos dali e fomos lá para a sombra do Sobrasil, na beira do Rego, pra lá do Chiqueiro, no fundo do pastinho dos bezerros. É a mais gostosa de todas as sombras... A Laurinha sempre chama a gente pra ir até lá... Quando tem frutinhas na árvore - parecidas com café -, a gente apanha uns cachinhos e vai jogando uma a uma na água, pra ver qual vai afundar e qual irá  boiar...
Às vezes, lá do quintal da dona Linda vêm nadando contra a correnteza até perto da gente uns patinhos amarelos que bonitos. Quando a gente pensa que vão se aproximar, viram para trás e se deixam levar flutuando água abaixo...
O Arroba fez uma comparação pra gente, na volta, quando paramos no Chiqueiro para jogar milho pros capados... O espesso paredão da pocilga onde se cevam os suínos, disse ele, se assemelhasse a uma Muralha que cerca um país que fica num lugar muito distante, a China... As grossas paredes de pedra lá dos chinos, tendo um comprimento de  milhares de quilômetros, isso dando pra ir e voltar de Sãizé até na Franca, umas cem vezes...  Fizeram aquele tapume de mui grande altura e bastante largo,  pra afastar o perigo de invasão dos seus muitos inimigos...Se fossem amontoadas as pedras tantas de lá daquele lugar orientoso, por riba dos alqueires de terras aqui  da Fazenda, tudo seria tampado de rochas, não restando palmo de terra pra se plantar nada... Que aí virava tudo um morro pedregoso que não ia servir pra mais nada.... Que trem doido!

XI - FESTA GERAL


No outro dia, sábado, de manhãzinha, a Tina como sempre foi lá no Barracão buscar o primeiro caldeirão de leite do gasto pra ferver pros meninos... A Sede gasta de seis a oito litros por dia.  Ele é a matéria-prima especial daquela fábrica de comidas instalada na Cozinha da Sede e gerenciada pela Lourdes, pra alimentar tantos meninos e adultos... Ele se vai todo em bolos, quitandas, bebido nos copos e sugado nas intermináveis mamadeiras... Algum dia também se faz o queijo-mineiro, necessário, depois de meia-cura, nos bolos quotidianos...
A Lourdes desde cedo está cuidando do Jardim, - tanto verde em floridez! - mantendo-o sempre atraente e variado nas flores... Tenta, vez por outra, ensinar às empregadas o segredo das plantas do Jardim ou dos vasos do Alpendre e da Sala.
Inda ontem a gente assistiu ela dizendo pra Tina que um pouco de sal na água dos vasos prolonga a vida das flores, e que estas se conservam melhor se a gente não as colher depois duma chuva... Explicava que elas se conservam mais tempo se forem colhidas cedinho, bem de manhã.
Quando as flores nos vasos estiverem ficando velhas, ela deve juntar à água simples, um pouco de água oxigenada. E pra conservar melhor ainda, basta juntar à água um pouco de sal,  com pó de carvão e uma pitada de bicarbonato de sódio...
Agora, para as flores dos vasos se conservarem mais tempo belas e viçosas, ela deve trocar a água dos vasos diariamente, cortando também uma pontinha das hastes... Já para as flores durarem até quinze dias depois de cortadas, ela deve juntar à água do vaso um cabinho de colher de amoníaco por cada litro d'água - tá lá no vidrinho, dentro do armário da cozinha... Com isso, até algumas flores sem perfume adquirem um cheiro agradável, que transmitem ao ambiente...
E assim, com um conselho aqui, um conselho acolá,  ensina a moça a cuidar das plantas, enquanto espera um bolo assar, o feijão cozinhar,  ou o comer ficar pronto, ou ainda nos intervalos da limpeza da casa...
Mas o bom, pra gente, foi ela terminar o serviço no Jardim e começar a encher de lenha o Forno da varanda-de-fora, para depois nele assar as quitandas da festa do domingo.... Os biscoitinhos ali ficam sempre no ponto, assados por igual... Também vibramos, vendo as mulheres já fazendo, lá no Fogão da varanda-de-fora, os doces que a gente  mais aprecia: o de leite, o de abóbora com coco,  - que elas vão fazer em bolinhas,  com uma casquinha seca por fora e o miolo molinho -, o de batata-doce e  o de cidra... A gente vai rapar muitos tachos...
De noite - no domingo - vai ter aniversário... A Dita veio ajudar no preparo das quitandas e doces... Amassava e tendia as massas nas formas... A casa desde cedo recendia a festa.... Até a Dona Luzia veio pra ajudar, trazendo aquela Tilena jabiraca, escalafobética, sempre amuada num canto, - nariz escorrente em verde.. Essa menina um dia enlindecerá, como o cisne da história do patinho feio...
Todo mundo já estava sabendo que naquele domingo, depois de se cantar os parabéns  e se partir o bolo na Festa,  ia começar o Torneio do Ferrá-Lúita...
À tarde o Arroba fez umas pernas-de-pau com bambu e a gente brincou bastante de se equilibrar e até apostou corrida aprumados nas altipernas...
No tempo das águas, de tanto chover, a caminhonete jaz arriada na garagem, impotente com a barrela das estradas. Pra sair dali, apenas emergencialmente, em casuais doenças inadiáveis... Só então ela se aventura à saída, calçada de correntes de aço nas rodas traseiras, pra enfrentar o barro bravo e colante, o massapé acumulado no deslisável e tortuoso caminho até chegar na Reta, lá no alto, no Ponto do mata-burro dos Eucaliptos... Pra isso, leve-se um enxadão pra ajudar em algum local de atoleiro intransponível...
Aproveitando que o povo está todo ocupado nas quitandas, deixamos de lado as pernas-de-pau e fomos brincar de choferar.
A gente galga as paredes da casinha da fornalha e salta para o interior da garagem, trancada por fora com cadeado...
Um de cada vez é o motorista. Tem o direito de pegar o volante da caminhonete e fazer sua exibição de maestria numa corrida imaginária... Vira a direção de um lado para o outro, se balança, contorce o corpo, faz de conta que muda as marchas e voa! Todos sabem imitar com a boca os exatos roncos aceleracionais e a marcha constante do motor correndo à toda... Às vezes se enfeita a choferada com freadas bruscas, em curvas à beira de repentinos precipícios surgidos à ultima hora... Quando a gente enjoa, depois que todos choferam, fecha a porta devagarinho e sai dali em silêncio,  parte para outra brincadeira...
O Martinho gosta tanto que vive dizendo que um dia vai ser chofer-de-praça...
Quando a gente tinha que ir para a cidade pra ficar uns dias e estava de chuva, era tão aborrecido mexer com a corrente e seus esses de aço, e a barrama  tamanha, que era preferível esperar mais uns dias, até estiar.
Mas o esquisito era um atoleiro que não acabava, bem diante da saída da caminhonete... Era muito estranho tudo secar em volta e só aquele ponto continuar úmido... Pensava-se até que algum olho-d'água minasse por ali.
Só muito depois o João confessou pra gente o seu truque: pra retardar ainda mais nossa ida, não deixava secar a saída da Garagem... Pra  ficar mais um dia com os companheiros de folguedos, levava baldes de água, durante a noite, fora de hora, e despejava na rampa de terra além da porteira que dá para a Garagem, produzindo o barreiro...
"- Agora já vai escurecendo, todo mundo pro seu banho... Cada qual vai pra sua casa porque a festa é só amanhã! Vamos, vamos..." - diz a Lourdes, apartando  os seus e dispersando o restante da molecada...
Domingo! Que dia bonito!
O tempo voou pros dois combatentes e a noite se mostrou amiga, cálida e envolvente.
Houve a festa, o bolo, as velinhas, o povo cantando, os parabéns, a alegria,  tudo quanto era quitanda gostosa do mundo estava ali... Quando cessasse a algazarra...
Aí foram saindo devagar da Sede... Iam todos para o local da lúita, querendo um lugar bem colocado pra não perder nenhum lance... Num canto do piquete, assustados, alguns bezerros exúberes permanecendo de prontidão pra um estouro...
Ao redor do cercadinho, teve até apostas, gente que deu 15 minutos de lambujem para o Arroba...
O Mango chegou escoltado pelos poucos fãs e familiares... O Arroba estava chegando e se insultaram pelos olhos, profundamente... Roupa esquisita a do gordo, um macacão branco, ele falava quirmõe, amarrado com uma tira de pano pela cintura. O povo riu muito daquilo...
O Mango vinha com o calção, de elástico e barbante amarrado, camisona larga e forte.
Anunciada a abertura do torneio, ninguém se apresentou, além dos dois que já tinham chegado... Ao gordo, pareceu coisa armada...
O Zigo era o juiz. Convocou quem mais quisesse lutar. Como não aparecesse ninguém para as eliminatórias, consultou o Campeão pra ver se aceitava lutar com o desafiante, sem este ter passado pelas lutas preliminares. Ele aceitou sem pestanejar. Foi anunciada a disputa pelo título de Campeão da Santa Rita.
Chamou os dois pro meio do ringue, deu avisos, que não se apelasse, e se o alguém sufocando, desse com os punhos três pancadas no chão, visivelmente, se desistindo da peleja. Com a esfrega das costas do outro por um minuto no chão, o cavalgante era vencedor. Tudo entendido, foram para seus cantos, a lúita ia começar. O Arroba tirou do pescoço seus bentinhos e o raminho-sempre-verde e entregou tudo pro Toninho segurar. Fez o pelo-sinal.
A uma ordem do Zigo, malharam um sino e os dois partiram para a refrega, tanto quanto rápidos puderam. E foi um longo jogo de ameaças de agarramento e desvencilhaços bruscos, e medonhas caretas dos dois adversários... O povo em roda aplaudia e incentivava a briga.
No que ninguém esperava, o Balandrau agarrou o Mango pelas golas, virou as costas pra ele, aprumou-o do chão e com um galeio das ancas - usando as costas como apoio -, fez o outro voar por sobre sua cabeça, esparramando-se no chão, fora das cordas do ringue.
O juiz interrompeu a contenda, que o outro ficou imóvel um prazo tanto. Ao se levantar, a fúria habitava seus olhos em forma de chispas invisíveis...
Voltou com estardalhaço e tentou chutar as pernas do outro por trás, numa rasteira. Antevendo a manobra, o Arroba esquivou-se, dele se defendendo enquanto preparava seu golpe.
Quando foi pego novamente pelos peitos da camisa, deu um arranco com o braço, ao mesmo tempo que pulou pra cima do Gordo, tentando derrubá-lo. Desviando-se,  o outro deixou que o Mango, com seu próprio impulso, fosse de barriga novamente ao chão.
Fustigado pelos tombos, logo o Mango previu um desastre em forma de derrota... Sua fama estava sendo consumida golpe a golpe, tombo a tombo...
Os dois eram a elite da Santa Rita, cada qual na sua especialidade... Luitadores de escol, gritavam os outros... Os dois só percebiam um jessé, uma gralhada ao redor... O tumulto de fora não os tirava da concentração...
Veio o intervalo com o sino gongando. Foram descansar nos banquinhos que os meninos colocavam nos cantos. Molhavam a cabeça e davam um trem pra cheirar... O João Mango estava emburrado. No Arroba não se via zanga nem aborrecimento. Enxutos, mais reanimados, voltaram ao centro do tabuleiro, quando tornou a soar o sinal.
O Campeão bofava ainda o gosto de bolo da festa. O outro, prevenido, tinha comido uma bagatela de quitandas e uma tutaméia de doces.
Quando o Arroba foi dar um golpe, chutou a canela do outro, e lhe pareceu que este estava usando grevas, pois nem deu sinal de ter sentido a pancada...
O traquejo do Mango, aos poucos foi se evidenciando... Sairiam ilesos do combate?
Num descuido de mal-jeito, o Arroba deu uma cacholeta no outro que, sentindo-se colafizado, revidou,  o juiz tendo que apartar, pelos golpes fora da regra...
Recomeçaram. Com agilidade insuspeitada, o Gordo conseguiu dar uma gravata no outro... Apertando seu roliço pescoço, tentava levá-lo ao chão, com golpes nas pernas. Mas o outro, pernas afastadas, não permitia a manobra. O Arroba tinha a impressão que ele vestia um gorjal, de rijo e difícil de dobrar... Não estava fácil sufocá-lo para fazê-lo entregar a lida...
De um supetão, o Campeão conseguiu reverter as posições, jogando o Gordo no chão. Montou sobre sua barriga, mas foi a pior viagem... O outro levantou as pernas e enlaçou-o pelo peito, com uma gravata-de-pernas, enquanto o jogava de costas à sua frente, segurando-o pelas pernas, forçando-o naquela posição, tentando alcançar um minuto de imobilidade do outro...
Mas, ao ser apertado pelo Gordo, o Mango deixou escapar um silencioso gás repleto de mal-cheiro, que tonteou seu contendor... E se aproveitando do torpor do adversário, livrou-se da chave de pernas e se levantou. O gongo soou, interrompendo o prélio.
A assistência fragorava. A atroada era ouvida longe. Os lutadores pareciam nem notar aquela bulha... Custavam cada vez mais a se recuperar nos intervalos... A canseira ia se manifestando.
Se o Gordo não tivesse treinado todos os dias, firme nos tentâmens, secretamente, na casinha ao lado da Tuia, quando sumia dizendo que ia armar o laço, não tinha aguentado a barra... Manteve assim, incógnita, sua técnica judoca, de grandes rolamentos e tombos indolores...
Novo assalto se iniciou, trazendo uma surpresa para todos. O Mango tirava sua camisa... O juiz interrompeu. Mandou colocar a roupa. Ele embirrou, que não punha.  O árbitro então disse que ia dar como vencedor o outro, pois ele estava desistindo da luta. Depressa se vestiu.
Por causa das unhas dele, o Arroba estava arrepelado, com os braços gatanhados em longos sinais...
O Mango, gladiante, meneava diante do gordo, gingando, agitando os braços, tentando desviar sua atenção. Conseguiu agarrá-lo e se jogou de costas ao chão, aplicando no outro um balão bem colocado, que o vez voar por cima das cordas do ringue, e pranchear na grama úmida, quase atropelando uns moleques da platéia... Mas a queda foi macia, o outro sabia cair, saindo de um golpe...
Voltando encalorado,  o Arroba, pugnaz, suava na excitação... O outro era púgil, belicoso, estava também enfebrado. Cada um deles queria saber qual o ponto vulnerável do outro...
O gordo sabia que o outro não tinha um milavo de seus conhecimentos técnicos em lutas marciais, aprendidas na escola de judô em poucos meses, várias faixas se sucedendo nas promoções... Mas era força bruta, o Mango...
Provou isso quando se livrou de uma chave de braços e jogou o Balandrau de costas, de jeito ruim... Leso, saiu do golpe sentindo, mancando, as cadeiras afogueadas.... Mesmo contuso, inda assim se portava ligeiro e desembaraçado, difícil de domar...
Cingelou-se ao outro em um momento de distração, caindo por cima dele com seu enorme peso... O juiz nem precisou apartar o que seria um massacre pois quando o Mango já estava quase morto com aquela tonelagem em cima, o sinal o salvou pelo gongo...
O Arroba entendia de lutas mas nunca  o havia demonstrado pros meninos da Fazenda! Conseguira engambelar a todos. Jamais contara a ninguém que era praticante de lutas. Judô e jiu-jitsu, luta-livre, luta-romana... Tapeou todos os apostadores. Iludiu até à última hora todo mundo. Só quando a luta começara foi que notaram a sua habilidade...
A turma da Santa Rita, completamente estupefata, instava-o à luta, esperando tirar a forra de tantos anos de humilhação.
Começou novo round. Foram se topar de frente, peito aberto. Erro do Mango. Pego de jeito, levou um empurrão de banda, caindo feito gente tonta. O outro tornou a aplicar uma chave de pernas, agora  em seu pescoço.
O Mango frendia os dentes, cabeça prensada no aperto másculo das panturrilhas do Gordo. Aí apelou, sem demonstrar... Tafulhou os dedos no rabo do Arroba, que afrouxou o aperto das pernas na hora! E reclamou pro juiz, que fez advertência...
Quando voltava do seu canto, notou um lugar no meio da assistência, que não tinha gente... Calculou a distância num segundo... Quando o Mango tornou a avançar, achou esquisito o jeito novo que o Arroba arranjou pra pelejar, inzoneiro e concentrado... Foi se virando, afastando-se dos seus agarrões, sem atacar, só assuntando... Parecia com más-intenções...
Aí, quando o Mango arriscou  um golpe de força total, foi jogado num balão por cima das lindes do ringue, indo rolar na grama, se lambrecando do esterco mole de bezerro, de que o povo evitava se aproximar. Foi dado um intervalo. pois ficou  impraticável a continuação da luta, sem uma limpeza do lutador.  Este logo se aviou até a casa do Seu Sebastião, donde voltou limpo, daí a instantes.
O Arroba tinha recebido uma ovação delirante da platéia,  enquanto o outro se afastava, sujo de estrume.
O sino tocou pela penúltima vez, reiniciando o pugilato amadorístico...
A pendência ficou mais violenta, pela ira do Mango, querendo revanchear a vergonha.
Apelando pra sua força enorme, pegou o Arroba de jeito e derrubou com raiva, montando em cima deitado, tentando imobilizá-lo pelo minuto fatal, costas pregadas na grama.
O Gordo foi dando um jeitinho, se escorregando, mas ele tornou a apertar, ficando com a cara entre as pernas do outro. Impedia-o, apertando-lhe o escroto, de fazer movimentos para escapar do golpe... Então, quando se escoava a segunda metade do minuto, o Arroba, sem-querer, de dor, emitiu um semi-sonoro vento, que assoviou tão fino quanto fétido, deixando o ambiente circunvizinho empestado com a forte catinga de merda armazenada, o que afastou imediatamente daquelas proximidades os torcedores, enquanto o Mango, xingando, sufocado pelo fedor, abandonava a posição até então favorável, reclamando ao juiz pelo golpe baixo do outro, que negou a autoria... Ninguém, no dia, pôde saber quem tinha, na realidade,  peidado...
Mas continuava a pugna na liça pouco iluminada pelo poste do pastinho... E a pouca luminosidade ajudava o Mango nos golpes menos permitidos... Para ele, tudo tinha que ser usado, pois a cada ataque o Arroba parecia mais medonho, mais perverso, mais sinistro... Fizera mal em bulir com seus brios, desafiando-o com tanta insistência para aquela decisão... Não podia cochilar que perdia de uma vez a justa...
Rolavam de um lado para o outro, enlaçados como tamanduás furiosos, bufantes, espavoridos, no mútuo abraço fatal...
As unhas do Mango às vezes faziam minar sangue nos braços do outro, tentando livrar-se de uma chave sufocante...
A pele do pescoço do Campeão quase se soltava, arrancada pela pressão das gravatas, quando ele tentava se safar...
O juiz interferiu várias vezes durante esse ráunde, separando-os nos recíprocos lances impermitidos... Ora uma cabeçada, ora um murro.
A certa altura da peleja, os dois, com os  dedos das mãos  enlaçados, no mano-a-mano de fazer o outro ajoelhar de dor ou entregar os pontos, até parecessem duas crianças brincando, balançando os braços com rigidez e arrepios.
Até que, num movimento brusco, o Arroba torceu o corpo sem desenlaçar as mãos, passando os braços sobre a cabeça, o que deixou o outro de costas para ele, com os braços cruzados sobre  o peito, imobilizado à força.  A platéia ruidava em vozearia de torcida e incentivo...
O desafiante, então, colocou o joelho direito em suas costas e foi apertando, como se estivesse dando um nó em seus membros. O Mango, estralando-lhe os ossos, nesse momento gemeu e xingou, irando-se em frustração... Mas quando se pensava que prostrado já  entregava a lúita, ele num gesto desesperado ajoelhou-se bruscamente, fugindo do joelho cruel... Isso trouxe a carona do Arroba para junto de sua nuca. Ao perceber isso, deu-lhe uma cabeçada forte, jogando a cabeça para trás, como se não fosse por querer... Acertado no nariz, o Arroba começou a sangrar com abundância. O juiz interveio, separando-os, canto a canto. Enquanto seguravam a custo o Gordo, muito nervoso e revoltado com o outro, molhavam sua cabeça.  Deram-lhe um pano, à guisa de lenço. Estancava ainda a pequena hemorragia quando o tempo pra descanso surgiu, via soado sino...
Num momento descansaram.
Logo começava o último assalto, no tinido do metal. Retornaram, advertido o Mango.  Mais uma dessas e seria desclassificado.
Voaram um no outro, peitados no muito junto, agarradamente pelas roupas se trapeando em rasgos muitos.
No agarro, cabeças lado a lado, boca no ouvido, sussurrou o desafiante para o Campeão: "- Taióba!!!"
"- É a mãe!" - foi o grito de resposta do outro, partindo com ódio para decidir  o gládio. Gravateou o Arroba em seus musculosos braços pra sufoco e desistência, estilo no qual o outro era mais especialista que ele, lutador de chão...
Quando os meninos pensavam já estar desagravados, a situação revertia em favor do malvado...
Então, suplantando o arrocho, com os braços e mãos em volta do pescoço do Mango que o enforcava pelas costas, o Arroba se apoiou no corpo do adversário e, levantando alto as próprias pernas, jogou-o de costas, enquanto se desvencilhava, rolando pela superfície do tatame vivo, com facilidade.
Aí houve um equilíbrio nas posições, e os meninos recomeçaram a crer na desforra...
Continuavam a escoar os minutos... Um avançava, o outro regredia e assim, aos recuos e avanços, se construía essa batalha de titãs...
Então não se engalfinharam, decididos ao tudo-ou-nada??? - a platéia cismava.
Foi aí que o Arroba jogou-se de lado, com as mãos, rodando o corpo, como se fosse uma estrela, e, apoiando-se com as mãos e uma das pernas no chão, aplicou com o calcanhar livre um petardo na boca do estômago do outro, buscando debilitar sua enorme resistência. Mas o Mango, antevendo o movimento do judoca, se afastou rápido e ágil, agachando-se à sua frente, eludindo o golpe e já se preparando para o contra-ataque, com rara elegância.
Foi um momento de incrível beleza plástica dentro do ringue! Esplendorosa performance de ambos, aplaudidos de pé pela assistência, até então apática pela falta de definição no combate.
Ai, um falou pro outro, sem terem combinado, ao mesmo tempo: - Desiste!  - e se responderam, também sincronizados: - Desiste você, entrega os pontos!
Todos estranharam aquilo:  pois tudo o que um começava a fazer o outro também fazia, como se estivesse na frente de um espelho que imitava seus movimentos... Pararam, olhando um para o outro,  sem entender nada.
E o ambiente foi ficando estranhamente repleto de cismas e miasmas, medos e arrepiâncias... O juiz interrompeu a lúita. Consultava e inqueria os contendores.  Os assistentes se entreolhavam,  inquisitoriais... O que ocorria?  Parecia uma manifestação esquisita, um embuste,  uma peça, um ardil dos demandantes...
Alguém gritou para os lutadores, com voz grossa - e não era menino!: " — Dexa de rolo oceis dois, siô!" - pois que já se passara mais de hora, e o povo, assistindo, estava cansado de ficar ali, de pé.
Resolveram reiniciar a peleja, para se apurar o derradeiro vencedor...
O Arroba já tinha uma pista, um plano de ação pra acabar vencendo... Calculara que o ponto vulnerável do Mango fosse  o nariz... Vivia xingando o Messias pelos gases, chegando certa vez a vomitar de nojo ao sentir a nauseabunda carniça secretada pelo companheiro de serviço... Não podia encontrar um frago de macaco rescendendo no mato que sofria engulhos... Era isso, o eureka!
Voltaram aos meneios, aos trancos, agarrões, puxamentos e trava-pernas. Tinha parado de acontecer aquilo de ser tudo repetido, espelhalmente.
O povo apupava. Tiveram que redobrar esforços, moídos de canseira. Então o Mango conseguiu cair com o outro no chão, o que lhe era favorável. As costas estavam de banda, o tempo não podia começar a ser medido... Viravam-se, rolando, enrolados um no outro, como duas minhocas. O preparo de ambos parecia ter se acabado... Eram um esgotamento visível... Prensado contra o solo, o Arroba perdeu as forças e o juiz começou a contagem fatal, que parecia não ter fim para o Campeão, a custo montado  na barriga do outro, segurando-lhe, com os pés, as pernas e com as mãos, os braços...
Com o ventre oprimido pelo peso, o desafiante, fatigado, fluxilânguido, não conseguiu reprimir os espasmos e as cólicas que lhe retorciam as tripas e liberou então um flato intestinal tão forte que mesmo os assistentes mais distantes puderam ouvir. E aquilo fedeu tanto que o povo teve que tapar o nariz, fugindo pra longe do ringue. Enquanto corriam, um - o mesmo - gritou: "- Vai batê o barro atrás das bananeira, ô peidorrero!"
O juiz, caído de costas com o pulo que o Mango deu pro lado dele na hora da explosão, parou a contagem em cinqüenta e cinco. O coitado do Zigo estava com a cara bem perto do rabo do gordo, verificando suas costas junto ao chão, quando foi bombardeado daquela forma... O Mango, protestando pelo golpe sujo, jurou por tudo que é sagrado, que contara até sessenta, antes de sair de cima do perdedor... Mas o certo é que nenhum deles conseguiu ficar perto do Balandrau depois da emissão do vento. O gás nauseabundo os afugentou, como aos outros.
E a luta terminou no tilinto dos metais,  dentro do prazo, alguém - atento ao relógio - tocando o sino lá adiante, longe da catinga, ficando então o combate sem vencedor.
No chão estava, no chão permaneceu o Gordo, estafado, exausto,  rodeado por ninguém...
Bem depois, quando voltaram a se reunir pra saber o deslinde da demanda, o juiz  anunciou o empate na lúita:  - Pela primeira vez na história da Santa Rita alguém não deixou o Mango ganhar. E a fazenda fica tendo agora dois campeões, até o ano que vem,  pra lá se transferindo os respectivos desafios. E tenho dito!
O povo estava perplexo. Tinha sido uma empate estreme de dúvidas! Uma lúita de muita técnica, bonita, espetacular...
O Mango, finalmente eupático, aceitou o cumprimento do Arroba e saíram juntos, abraçados. O Balandrau achou estranho serem ambos festejados com muito empenho por todos os moleques presentes...
Enquanto caminhavam para a casa de Sossebastião  pra  matar a sede, o Toninho devolveu pro Arroba o escapulário e o raminho-sempre-verde, amuletos que o outro logo tratou de recolocar no pescoço. Aí ouviu-se um demorado concerto de aplausos dirigidos aos bravos competidores...
O Martinho aproveitou a ocasião festiva pra contar  pro Gordo o grande segredo do Mango.
Aí todos ficaram excitados, enquanto ele revelava pro novo Campeão que tudo aquilo que tinha informado pra ele sobre o João Mango era mentira, foi só para o Campeão ter com quem luitar, pois tinham sumido todos os desafiantes.
E confessou, também, que todos queriam testar a capacidade do Arroba, - e mesmo tendo alguns querendo vê-lo apanhar também -, pois achavam que era valente só com sua garrucha e que gostava de contar vantagem e conversava demais!
Não, o Mango não era um sujeito adversativo, pressagioso, cheio de mas-todavias,  um pantafermo, o rei do basbaque, pessoa  prognóstica e desauspiciosa, sem préstimo.  Nunca tinha sido malcriado, nem nunca asperejou com a mãe, que nunca precisou manejá-lo a poder de porrete...
Agora, numa lúita, larvado,  isso sim, ele usa golpes dissimulados. E, disfarçadamente, procura ofender os pontos fracos dos seus oponentes. Mas nunca ficou  nervoso, desequilibrado, insidioso ou traiçoeiro com seus amigos. Lúita é lúita..
Aquilo sobre ruindade no serviço, também era mentira: nunca foi lasso. Todos confiando em seu trabalho, que pra isso nunca foi frouxo, nem cansado.  Podia ter o jeitão de relaxado, mas nunca foi bambo de preguiça.  Arremangava as camisas e sempre trabalhava direito, ajudando o pai em tudo que precisasse. Ele nunca precisou de costco      ,,,,cllosteio nem de castigos... Do pai sempre recebia elogios quando merecesse. Dele jamais ouviu um xingo sequer.                  
Confirmou que tudo foi armado para que o Gordo aceitasse participar do torneio. A molecada gostava muito do Mango, e ele a todos agradava. As meninas da Colonha disputavam uma atenção dele... Sempre vigiava pra ninguém se aproximar, quando elas estavam nadando no Córgo. Nunca desfeiteou nenhuma delas  e nem ninguém. Sempre respeitou as meninas e as moças, que o estimavam porisso. A Vanete sendo sua primeira fã, como a Nicinha, que nunca passou vergonha por causa dele... Esse negócio de chamar as outras pra ver marruco correndo vaca também é mentira...
- Aquilo que falei,  dele ser uma mistura de jegue com macaco, e ter fama de inzoneiro, foi ele que pediu pra mim falar.
E continuou nas revelações o Martinho, enquanto o Arroba ia se surpreendendo cada vez mais com as novas informações.
A própria mãe tinha nele um apoio e sempre podia contar  com sua inteligência e iniciativa nas mínimas tarefas e nas obrigações que  lhe confiava,  como tratar das galinhas e do capadinho do chiqueiro, a capina do quintal, rachar lenha cedinho, ajudar o pai em tudo, entre tantas outras...
Logo que alguém lhe ensina  uma coisa, decora e nunca mais esquece, sempre aprendendo com raciocínio... Ele nunca tinha sido meio-retardado, nem tinha  bobice de impossível benzeção...  Os pais sempre sabendo educá-lo, e nunca precisou tomar nenhuma surra, desde pequenino. O Mango   sempre  faz de tudo pra mãe,  pois ela  sempre foi muito boa pra ele.
Nunca ele  viveu na mamparra, nem foi  dono de preguiças, escondendo-se do serviço. Também sempre foi honesto. Ah! Ele come bem, isso sim, tendo enormes apetites.
O Arroba fica então sabendo mais: que ele é   um mestre nas evasivas e mandrião, mas nas lúitas, onde foge com desenvoltura dos golpes do adversário, como teve oportunidade de verificar...
A mãe dele nunca precisa chamar pra tomar o banho dia de sábado no bacião de folha,  pois ele gosta de se banhar é todo dia, depois que chega suado do serviço... Nele, o mugre, jamais existindo. Nada de cascão e sujeiras, ele sendo limpo, detestasse malcheiros...
Agora, a verdade tem que ser falada:  sempre que pode,  arma  suas arapucas, pelas bandas Perau que sempre teve coragem pra ir lá sozinho.
Aprecia mesmo capear um bezerro dos mais ariscos, da moda dos toureiros, mas é só pra diversão da molecada, às risadas,  e não ensina eles a pegar os outros nada não...
Nunca caçou ninhos de passarinhos pra beber os ovinhos! Nem nunca deu malexemplo ao Panca nem ao Ditinho.
Se ele faz exercícios nos galhos das árvores, é pra fortalecer seus muques, treinando pelas lúitas, não pra depois contar vantagens, que nunca foi  vaidoso e tupetudo.
Tá na cara que nunca foi boióta!  Entendeu desde pequeno de  letras e algarismos. O Mango sempre sido um bom aluno, foi na escola o tempo que precisou. Nunca  bagunçou nas aulas nem  respondeu aos mais velhos, e a professora gostava demais dele, pois nunca lhe dava trabalho na escola. Ah! também nunca cagou no fundo da classe...
Ele ajudava todos os meninos cafenguinhos da Fazenda, em tudo que precisavam. Essa era a verdade, verdadeira.
Ele sempre emprestou a bola de cobertão dele pra gente jogar sem  nunca impor aquelas regras doidas  no futebol da gente.
- Agora, o Taioba é pra valer. Ele não gosta, mesmo, sô! - falou baixinho, pédouvidamente...
Mas isso de procurar trem perdido, vasculhando lixo dos vizinhos da Colonha, é pura peta.
Sendo certo que quando dá uma de  adivinho, muitas vezes acertando profecias, o povo estranha e acha que é coisa do Guardamó...  Com isso, assusta mesmo a gente, mas não é para impressionar, fala que é sem querer...
Tem mesmo essa mania de pegar em áscuas vivas de mãos limpas, pois as brasas nenhum mal lhe causam... Nas fogueiras de São Pedro, de fato, é o único que anda devagar pisando no braseiro como se caminhasse  por um chão  de vermelhão... E gosta mesmo de dizer que o seu fadário é imenso, intimamente ligado ao fogo que não lhe causa mal..
Ferrando uma lúita, se recebe um golpe mais rude, fica meio bravo, mas logo lhe volta aquela  concentração, o alheamento que o conduz à vitória...
- "Não fala mal de ninguém, nem gosta de prosear da vida aêia..."
Porém vive mesmo dizendo que a vida deve de ser  mará-velhosa para todos, não só pra gente rica...
A coisa mais difícil é ele morgar depois do almoço, só mesmo no domingo... Já quanto a gostar do cheiro ruim e ser  ventusiador no disfarce, pura inverdade, sendo isso sim, ao contrário, o Mango, intolerável com os peidorrantes...Não vê como implica e vive brigando com o Messias???
Sempre estimou sua irmãzinha, que desde pequena carrega no colo pra toda banda. Tilena vive pedindo pra trazer - e ele traz - balinhas pra ela quando vai a Sãizé. Às vezes, até encomenda pro Natal, no carrinho de leite.
Teve mesmo a febre do gado, coisa de leite mal-fervido, parece. Mas sarou logo,  tendo saúde de ferro, como cê viu...
Nunca matou nenhum porco da fazenda, pois gosta muito das criações... Quando o pai dele mata capado, até sai de perto, de dó... Ah! E estima muito o Sô'mar, que também nunca sojigou nem ele nem ninguém.
Foi dessa forma que o Arroba ficou sabendo que todos estavam de plano com ele, pela participação no torneio desse ano... As mulheres, as meninas, os velhos, os meninos, todo mundo! Parecia que até os bichos, o gado, a tropa de burros, tudo, tudo de conchavo.... Queriam vê-lo apanhar?
O  engraçado dist'udo - disse o Martinho - e o João ria sem parar, - foi que a surpresa veio foi do seu lado. Onde arranjou  aquele jeito de brigar que surpreendeu todo mundo na Santa Rita, que o tinha por um molenga em moles banhas? Foi lá em Reberão, nos padres?
No fim, a mentira virou contra o mentiroso... E todos saíram ganhando, que a fazenda agora tinha dois Campeões!
Então, confraternais, abraçaram-se em amizades, voltando pra Sede, pra raspar o resto do bolo e das quitandas da Festa de Aniversário, que todos agora estavam à disposição da fome...


 o herói



ELE por certo sendo centro, razão de ser de epopéias, fulcro das relembranças...
Apesar do ar zombeteiro, Zigomar não disfarça a introspecção, origem de sua carranca, segundo muitos...
Consoante  os mais chegados, como a Lourdes, sua mulher, o jeito cismático é apenas uma camada de timidez mal disfarçada em cara-fechada, misturada com um tanto de insegurança no trato com a vida... Porisso o viver arredio, o pouco falar, o muito pensar... O olhar na distância... Uma nostalgia da terra dos antepassados, nunca visitada...
Zigomar, quando moço,  fora Congregado convicto, sempre devoto de Nossa Senhora, titular da equipe de pingue-pongue da Congregação Mariana da Matriz, campeã da cidade... Com o João Cintra, o Arsênio e os outros, sempre ganhavam os campeonatos disputados na modalidade...
Era um bamba, também, nas enormes e verdes mesas de bilhar, que exerciam irresistível atração sobre ele. Os salões de snooker que assiduamente freqüentava admiravam sua competência nos tacos e respeitavam seu belo estilo, seu apurado golpe-de-vista, suas tabelinhas e suas inesquecíveis encaçapadas... Sempre se distinguiu nos esportes que praticou... Falava que um dia inda ia jogar tênis, esse jogo de ricos...
Outra distração dele era o cinema. Caprichoso, cinéfilo, anotava  numa caderneta de capa dura todos os grandes filmes que ia assistindo, cujo rol se tornou enorme...
Desde moço tivera prazer na fotografia, registrando com sua Kodak a infância dos irmãos menores, e dos próprios filhos... Gostou também de criar seus pássaros: teve-os azulões, curiós, canários, bicudos e pintassilgos, alojados em grandes e confortáveis viveiros no quintal da casa do pai...
Calmo e persistente, aprendeu o ofício de alfaiate, depois de ter sido frentista de posto de gasolina...
Com verve para as letras, tentou a literatura, começando a escrever um romance de aventuras, Perdidos na Amazônia, ainda inacabado.
Seu pai sempre falava que lhe dera esse nome tão diferente em homenagem a um herói da Primeira Guerra Mundial. Contava-lhe que na oficina do seu avô, por volta de 1914, trabalhava um jovem de origem alemã. Quando estourou a guerra, foi convocado por seu país para lutar na Europa. Poderia ter ficado por aqui, longe do conflito. Mas, para atender ao chamado de sua pátria distante, deixou a segurança e a paz do interior do Brasil e rumou para a Alemanha. Passado pouco tempo, veio a notícia de que morrera bravamente no campo de batalha... Seu pai, Avelino, então ainda menino, ficara tão profundamente impressionado com a história inesquecível desse rapaz tão corajoso e disponível, que, depois, ao seu primeiro filho, deu o nome do jovem patriota alemão, Zigomar.
O poente, o mar e suas inconstantes mas eternas ondas que ele foi conhecer ainda moço,  o céu com suas nuvens móveis, o vento agitando as folhas alegres das árvores, a chuva que passa e refresca, tudo que é colorido, que é efêmero, fugaz,  e sensibilidade, como a natureza, o atrai, exercendo sobre ele um fascínio misterioso...
Seus longos momentos de oração ao anoitecer, nas caminhadas pelo Terreirão, que se tornaram sagradas com a reza cotidiana do Terço de Nossa Senhora, testemunham sua esperança numa Vida Eterna... Quando é Lua Cheia, após a janta, ele sempre vai com a Lourdes  a  passear na "praça" do casal, o Terreirão de Café, para curtir a poesia da noite... Ficam por lá até mais tarde, fazendo o "quilo", observando o céu, rezando pela família...
Teve a graça de encontrar uma companheira com quem combina tanto...
Nostálgico, parece doer-lhe, antecipadamente, saber que um dia os grandes eucaliptos da Santa Rita, serão inevitavelmente cortados e suas raízes arrancadas...
Em seu semblante sempre haverá essa nuvem misteriosa, essa suavidade de pétalas arrancadas, essa persistente saudade do que se foi...
Sua solidão compartilhada com a mulher e cultivada nas noites do sertão, revela seu desejo de conveniente distanciamento de um frívolo convívio social...
Quanto à sua brabice, é um modo dele controlar melhor o crescente clã...
Mas, apesar de tudo, ele é um mordaz contador de causos. Suas estórias e histórias não tem fim... Sempre junta nossa turma pra contar alguma passagem hilária ou um caso verdadeiro de assombração...
Conta que certo dia foi passar um susto no Viajante que dormia de pé, perto do curral do meio. Pra isso, jogou, de repente, um saco de estopa sobre o lombo da alimária, julgando com isso assustá-lo, ao despertá-lo do sono profundo...
O mu,  sem qualquer emoção, apenas pestanejou de leve, olhou de soslaio para a banda esquerda e continuou dormindo, causando o riso desbragado do Wilson, o Nenê da Gerarda, que se desmanchou durante muito tempo em gargalhadas contínuas. Enquanto  isso, desolado, o autor da arte,  voltava sem graça pra perto dele...
Pândego, gosta de contar da mania de grandeza do povo pobre...
Narra que os cachorros da colonha, sempre magros, vivem de brisa... Segundo ele, no dia que não ventava, passavam fome... E que uma coisa prova que os colonhos tinham lá, também, sua mania de grandeza:-  Quando alguém chegava à porta de uma casa, logo meia dúzia de pele-e-ossos murchava as orelhas e vinha latir, ladrando bravuras impossíveis, ouriçando o fio do lombo, e mostrando, na magrura, uma suã lembrando um grupião... Para o cão maiorzinho, sempre era dirigida a admoestação do dono da residência, imponente: - vai deitá, Leão!
O Zigo aprecia muito a companhia dum cachorrinho em suas andanças pela Fazenda... O que mais combinou com ele foi o Veludo, também atendendo pelo apelido de Xéu-Bréu, preto, que o seguia por onde fosse... Podia sair sem ele, sumido lá pelos fundos do Quintal, caçando preás... Logo que percebia a ausência do dono por perto, captava sua direção, seguindo-o pelo faro até encontrá-lo... Muitas vezes o Joaquim Lourenço, terreireiro bom, assistiu o desespero do cão em busca de uma pista, um rastro deixado pelo Seu Omar,  por onde pegasse a trilha seguida pelo dono... Mas sempre achava um jeito!  Logo  o alcançava, alegre, demonstrando satisfação pelo encontro nas mesuras e rabadas de praxe...
Às vezes, depois da janta, reunidos no Alpendre, ele conta pra gente que muito tempo atrás, morou por aqui um certo  Nho Tão - esse um era verdadeiro macho, diz o Omar... Tinha o couro de dentro da boca todo sapecado, curtido em pinga e pimenta braba, curtida no óleo... Sua mania era beber café fervendo... Quisessem agradá-lo, ofeceressem a bebida saída do fogo... Mas se lhe dessem menos quente, pro lado de amornado, era xingamento certo. Brabeza de incomodar a vizinhança... Chamava para briga o dono de um bule de café morno... Dado a valentias, sujeito inconveniente, era tanto respeitado como indesejado...  Tão curtidas  estavam sua boca e sua goela, que descobriram: tinha perdido a noção da quentura das coisas... Já  há muito tempo, não sentia nem o cheiro nem o sabor dos alimentos... Para ele, o importante era o queimor, pelo qual trocara os dois outros sentidos.... O tato  imperava agora onde antes dominaram olfato e paladar... Então, quando passaram  a lhe dar até café  frio sem que ele notasse - pois não dava tempo de sentir o calor nas mãos, eis que virava o líquido de uma vez, como se fosse um gole de cachaça, -  virou motivo de galhofa....
Quando percebeu - por acidente - o motivo da zombaria, certo dia em que derramou o conteúdo de uma xícara nos braços, por esbarrão dum menino que passou correndo, tomou nova atitude... Arranjou um cachorro magro abandonado, despelado pela sarna e arrastava-o consigo em suas andanças de pedinte de café...  Quando lhe entregavam a vasilha com a bebida solicitada, virava um golinho na boca e cuspia de volta, no lombo despelado do cão... Se este ganisse e tentasse fugir latindo de dor pela queimadura, ele sorria, na confirmação do calor do café que lhe fora servido. Daí em diante não puderam mais tapeá-lo impunemente...
O Zigo também gosta de contar das passagens pitorescas ocorridas com seus parentes e amigos tantos...  Relatou num dia de chuva pra gente, num serão lá na cozinha, a história do Jacaré...
Certa vez, o Cosme veio passear na Santa Rita, a Dalva já estando por aqui, esperando por ele. Ao chegar perto da Sede, reparou em um jacaré imóvel, encostado no lado de fora do alambrado do jardim, bem em frente do Alpendre. Logo imaginou fosse um bicho de mentira, uma montagem, uma peça preparada pelo Zigo para assustá-lo diante dos outros... Certamente estariam escondidos, observando suas reações... Então fez de conta que nem tinha visto. Entrou, conversou, não comentou nada, ficando na moita, aguardando a sem-graceza do pessoal com a insignificância do susto que pretendiam lhe passar...
Quando o Zigo chegou, tomaram  um café e saíram para conversar no Alpendre. Logo o capataz avistou o grande réptil imóvel bem ali na frente da casa. Calculou, por sua vez, se tratasse de um animal empalhado que o Cosme trouxera da cidade a fim de assustá-los... Também fez de conta que não vira...
Só quando os moleques - que enxergam sempre tudo ao redor - notaram curiosos aquele bicho estranho enorme e provocaram alarido, querendo ir lá,  os dois não puderam mais ficar na retranca... Cada um começou a rir, pra deixar o outro sem-graça... Mas na troca de acusações: "Foi você quem pôs ali!" ... "Foi você que trouxe pra cá!", apurou-se que nenhum deles tinha colocado o jacaré ali... Então podia - devia ser de verdade!
Aí foi o rebuliço, o alvoroço. Com muita cautela, afastaram os meninos - deixassem de bulha! As meninas correram pra dentro e espiavam do vitrô da sala.
Chamado, Seu Lazo trouxe seu laço, com que amarraram o caimão. Ele até então havia ficado imóvel, no costume, esquentando o sol. Certamente tinha vindo atrás de galinhas, durante a noite, lá da lagoa do Bernadino. Ou da beira do Córgo, lá das bandas do marimbu... O certo é que estacara ali até nessa manhã. Preso na corda, ficou uma fera. Debatia-se com energia, contorcendo-se como uma cobra, dando reiadas violentas com a cauda possante e espalmada, que podia machucar a gente...
Levaram pra longe. Lá adiante, o olho do  machado arrebentou sua testa e ele quietou, morto. Aproveitaram sua carne. Messias levou metade do rabo: " - Carne que nem de peixe, das mió!!!"
O Lazo, com um alicate e uma truquês, arrancou os dois dentões pontudos, os maiores, da mandíbula de baixo da bocarra imensa. Ia mandar encastoar, colocava na correntinha  e pendurava no pescoço:  " - Mode sorte!"
E não é que assim que começou a usar o amuleto teve sorte mesmo!? Logo alugou o Jardim pra trabalhar numa fita de cinema que rodavam em Sãizé, pra ser o Cavalo do Mocinho. Até ele figurava no filme, ao lado do s'Omar...
Grande amigo do Zigo, o Higino Primon, seu tio, era outro visitante bissexto  da Santa Rita. Gostava de armar arapucas no meio do pomar da casa Sede... Vovelino, pai do administrador, que era concunhado do Gino, brincalhão e zombeteiro, certa feita, vendo o outro armar uma arapuca no quintal pra capturar um sabiá-de-peito-roxo, catou  uma cajamanga caída e espetou nela algumas penas de galinha, avermelhadas,  achadas por perto, para que sugerisse um passarinho, a quem visse à distância.  Com muito cuidado e bem dissimuladamente, colocou esse boneco dentro da armadilha, desarmando-a. Logo que o Higino, que vigiava quase sem descanso o artefato, percebeu-o com uma presa dentro,  correu  para lá,  excitado e satisfeito, pois pelo tamanho, julgava tratar-se do seu Sabiá, ave por ele desejada e perseguida há vários anos... Qual não foi sua decepção quando deparou com o suposto sabiá... Desapontado, nervoso e trêmulo de emoção,  percebendo ter sido vítima de uma armação do Arbilim,  só pôde xingá-lo  de sem-graça,   porcapipa, belaroba - e quetais... Enquanto isso o pessoal, que a tudo assistia, dava boas risadas pelo ocorrido...
O Omar gostava dum joguinho de truco, de vez em quando...
Também, com os concunhados Zé da Mélinha e Paulo da Alice, se dedicava ocasionalmente à caçada das rãs, as suculentas ranas comestíveis.  À noite partiam com seus preparos, sacas, lanternas, fisgas.... De preferência pegavam-nas à mão, com cuidado, pois com o arpão podiam furar as tripas e contaminar a carne... Levavam - às súplicas - o Toninho e algum outro moleque pra ajudar... Andassem nos pontos estratégicos, à beira do Rego, ou perto do brejo,  ou lá longe,  margeando o Córgo... Apurassem os ouvidos ao coaxo peculiar, divulgando seus piados... Não roncam -  sendo coisa de sapos... Elas não carregando consigo peçonha, dissimilarmente aos saporões, de cangote inchado de veneno... Aquáticas, elas gostam de sair pra fora d'água só por breves momentos... Aí é que têm de ser pegas... Ao menor ruído estranho, pincham dum pulo de volta pro molhado... Isso sempre acontecia e denunciava onde estavam. Aí voltavam para procurá-las mergulhadas, se o local fosse raso e sem perigo... O Zigo, sempre aprontando as dele, ia atrás de todos e, de vez em quando, pegava uma pedrinha do bolso e  jogava nágua, imitando o mergulho duma rã-paulistinha ou uma pedrinha maior e pensavam ser uma rã-pimenta, só para vê-los esbarrarem a marcha e perderem um bom tempo procurando uma rana impossível de achar. Por dentro, ia gargalhando o galhofeiro...  Iam calçados de botas, evitando o bote de cobra, falsos galhos noturnos atravessados nos trilhos... Cuidado pra enfiar a mão numa loca onde rã se refugia: o buraco pode ter inquilino anterior... O sonho deles era achar uma bitela, como se falava, uma rã-touro, só existente na América do Norte... Nunca encontraram... As miúdas,  sim, por baixo de tanques, subpedrais, lá estavam elas, grandes olhos hipnotizados pelo foco da lanterna... Era a captura!  Em certas ocasiões, ao final de algumas horas, conseguiam apanhar um punhado delas, enchendo-se as sacas, por abundantes... Voltavam ligeiro, para sacrificá-las.  Lá no tanque da varanda de fora, matavam com um talho por trás da cabeça, na nuca... Torava-se a espinha... Remexiam ainda... Tiravam a cabeça,  as patinhas, jogando fora. Elas mexendo.. Um rasgo de baixo pra cima permitia tirar sua pele, ligando o corte às extemidades dos membros cortados... Ainda estremeciam... Espetava-se um palito na medula e às vezes paravam de espernear... Aí, sem o couro, seguras de pé  pelas patas dianteiras, se assemelhassem a uma mulher pelada, incluindo os ubrinhos...  Depois se limpava cuidadosamente, abrindo o ventre e tirando a  barrigada mínima... Partidas em vários pedaços, iam  ao banho de vinagre ou limão-china pra limpeza das gosmas...  Asseadas, as partes eram temperadas com sal, pimenta, alho e cebola. Algumas até aí ainda conseguiam se remexer... Vinha o mergulho final no óleo fervente e a fritura se completava em poucos minutos. Devorava-se a delícia em seguida, não sobrando pros cachorros....
Depois da janta, o Zigo às vezes ia lá pra casa do Seu Sebastião, enviuvado e com tantos filhos pra zelar... O Zé do Fole - irmão mais velho do Mango - gostava de ficar de tarde, na boca-da-noite, tocando sua sanfona no terreiro defronte a casa do retireiro.
Nos dias que não se tocava o Acordeão, e nem se jogava o truco, por falta de palpite ou de parceiro (o Sossebastião gostava, pra parceiro exclusivo, de Seu Paulino, onde se tornassem imbatíveis, treinadíssimos em seus sinais impercebidos pelas duplas adversárias), então ficavam, isso  sempre à tardinha e depois da janta, até certa hora da noite,  ouvindo o rádio do Seu Tião, ligado  na eletricidade da Usina da fazenda.
 Duplas de caipiras se sucediam, desfilando os sucessos sertanejos da ocasião... Eram os cantores Sulino e Marrueiro, Cascatinha e Inhana, Liu e Léo, Zico e Zeca, Palmeira e Luizinho,  Vieira e Vieirinha,  Pedro Bento e Zé da Estrada, Cacique e Pajé, e os reis,  Tonico e Tinoco sempre donos do programa...
Sobre o Sulino, uma cigana tinha predito, e a notícia se espalhou pelo mundo da música,  que comporia e gravaria, como violeiro-compositor, 826 músicas até o ano de 1995, quando inteirasse seus 72 anos de vida... E que, até lá, conheceria 16 afinações diferentes para uma viola caipira, aperfeiçoando o toque inigualável, o som inconfundível  que  aprendeu com o avô e o pai  desde menino ...
 Já nos dias que não tinha Sanfona nem Rádio,  e nem Baralho, ficava-se contando causos, mentiras, e colocando apelidos uns nos outros. Nessas ocasiões, o Seu Sebastião tinha mania de sempre recontar pros outros como tinha sido difícil caminhar durante onze dias, na viagem que fez, inda rapaz, quando veio de Formiga até Patrocínio. Repetia as peripécias, os perigos, o cansaço, a sede, as minas de água providenciais, a fome, as frutas do mato, tudo nos detalhes que tornavam sua história tão importante e digna de ser repetida... Mas quando lembrava da patroa falecida,  de sodade garrava a chorar e se ia para dentro, com a tristeza a tiracolo...
Certa noite, instado pelo Zigo, o Agustinho Xerute contou  para um Seu Orlando assustado, o que havia se passado no finzinho do século passado,  na casa onde ele agora morava...
Seu Lebizário, Belizário de batismo,  fora um camarada da fazenda, sujeito desajeitado, jaburu  e corcunda, que sempre pagara grande tributo de dor a essa lordose que deformou sua coluna. Por causa desse defeito, quando morreu, não havia meio de ajeitar seu corpo dentro do esquife. Ele, tão encorujado em vida, depois de morto ficou inda mais sorumbático...
Pra caber no caixão e lá ficar deitado, tiveram que  amarrar o falecido embiocado no fundo do féretro barato, passando amarrilhos por buracos feitos na tábua, para isso usando algumas tiras de couro cru recentemente aproveitado dum bezerro morto de manqueira...
Corria o velório, altas horas da noite, num comodozinho apertado da casinha do pobre, iluminado por uma única lamparina de querosene, um cafezinho magro pra quem se dispôs a atravessar a noite na companhia do defunto aborrecido com o amarrilho... 
Dois ou três cachorros da casa, sem comer há muitas horas, sentiram o cheiro do couro com o qual haviam amarrado o cadáver por baixo do caixão,  e começaram a roê-lo, silenciosa e ininterruptamente. 
A certa hora, roída e enfraquecida, arrebentou-se a tira do amarrado que segurava o tronco do morto, e, como se movido a molas, o cadáver encolheu-se na posição em que sempre vivera, pondo-se sentado dentro do caixão... Quando isso aconteceu, as poucas flores que enfeitavam o caixão voaram na cara dos veloristas... Além disso, com o repuxado da pele do rosto, seus olhos se abriram desmesuradamente,  refletindo, opacos, o brilho pouco da lamparina. 
Foi o que bastou! Antes que as flores caíssem ao chão,   as carpideiras e amigos, a viúva e os filhos, todos enfim, saíram correndo ao mesmo tempo da pequena sala pela única portinha que havia no aposento, levando junto, na carreira desabalada rumo ao terreiro, o portal com porta e tudo.... O decujo passou o resto da madrugada sentado,   retraído, encolhido e macambúzio, amargando sua solidão num velório sem rezas...
Aquela história  encerrou a noitada, com o que todos foram se deitar, rindo da cara de medo do Seu Orlando que naquela noite certamente não pregaria os olhos...
O Zigo sempre dizia que não sabia porque, mas quando ia pra alguma festa na Colonha e voltava já de noitão, ao passar ao lado do velho bambuzal próximo à casa de seu Anardo, ele como que via nas moitas agitadas pelo vento, no desenho das negras sombras recortadas no azul escuro do firmamento, umas como que manzorras  de algum noturno monstro tentando alcançá-lo do fundo das trevas, com suas manápulas formidáveis... Sentia tanto isso que se lhe arrepiavam os cabelos da nuca... Às vezes, estando a cavalo, a cavalgadura não queria passar adiante desse local nem puxada pelas rédeas... Estaria por ali o Alício, querendo pregar uma peça nele?  Até durante o dia os animais teimavam em passar longe do crioulo.  Tanto o temiam - ninguém sabe o porquê -  que até começassem a saltar, pra se livrarem do controle das rédeas do cavaleiro e poderem fugir dali de perto...
Mas o próprio Zigo também tinha fama de possuir uma reza-forte. Lembram-se todos que certa manhã o Vitor, campeando uma vaca que faltou na ordenha encontrou-a deitada no pasto, muito doente. Aplicou remédio, fez soro na veia, mas ela não melhorou. Chamado, o Omar foi lá sozinho, a pé. Voltou bem depois, dizendo que esperassem até no outro dia,  pois tinha pedido a Deus por ela...  Na manhã seguinte, ele mesmo foi lá e viu o efeito de suas preces... O Pai Eterno, atendendo sua reza contrita, salvou a vida daquela rês leiteira, valiosa, revogando sua morte, e jogando a Parca - como um alívio - sobre um velho burro, já aposentado da lida da carroça e cansado de viver...
O próprio Zigo era também fazedor de proezas... O Arroba sempre recorda com a gente o que aconteceu certo dia, depois do almoço, numa de suas férias de fim-de-ano.
Dizendo que ia testar sua felobé, o Zigo apostou com os meninos que, com um tiro, acertaria a mosca de um alvo imaginário colocado a meio metro de altura no tronco do calipe da frente.
Lá longe, na encosta do Morro, no meio da subida, acima um bom tanto do Barracão, viviam alguns eucaliptos isolados, de velha idade, machos no calibre,  de quase puro cerne.
Fez mira apoiado no peitoril do Alpendre e disparou.
Então foi bom a gente ir até a árvore, cheios de gastura, pressurosos, e descobrir que realmente lá estava, penetradamente sumida, profunda, no orifício, a bala milagrosa...
De tamanha distância pudera ferir, com um tiro certeiro a grossa árvore!
Entre nós nunca mais se duvidou de sua ótima pontaria, pois nela repousava a certeza de segurança em nossos pesadelos infantís nas noites  encantadas da Santa Rita...
O vegetal, ferido, sofreu com a agressão gratuita, mas nem porisso morreu...
Tempos depois, passando perto dele numa roçada de joás, o Arroba  foi  observar,  e, numa investigação incógnita, constatou que um resto de resina seca, sangue vegetal coagulado, assinalava ainda o lugar no eucalipto onde penetrara o chumbo no dia daquele disparo...
Lembrança da ofensa praticada, de galipote,  do óleo de terebentina evaporado pela fenda da lesão, inda permanecia naquele tronco uma lágrima petrificada...
O Arroba, contando pra gente  - depois do serviço - essa sua descoberta, nos fez prometer que nunca a gente ia ofender a natureza, mas, pelo contrário, ia defendê-la...
Daí em diante, sempre que podia, e achava que era uma hora apropriada, insistia em alertar a  gente, dizendo que as  ninfas, primas das afamadas e bondosas fadas-madrinhas, nos acham - aos humanos - seres fantásticos, sobrenaturais, porém nada sutís...
Um perguntou certa vez: - Isso é bicho que avança na gente?
O Gordo explicava, então, que, muito pelo contrário, de longe, essas miniluzes, de lá dos bosques, das encruzilhadas às margens das florestas, desde a borda das matas, ficam nos vigiando, arrepiadas e temerosas, impotentes, nos espreitando, assistindo-nos poluir as matas, as fontes e os rios e  ferir as árvores.
Sempre terminava nos advertindo que, ao herdarmos os resíduos de uma natureza destruída, essas mesmas ninfas, aí sim, se tornarão nossas fadas-madrastas...
Será que já não estavam começando a madrastear a gente?
Então, senão elas, quem ou o quê parecia assustar as montarias, fazendo-as galopear em desabalantes carreiras, cavalos em eriço de pêlos no geral, quando passássemos por perto lá do Matinho?
De lá do matinho situado à esquerda beira da estradita,  bem lá adiante do Napiê - essa  vasta capineira para o fabrico do diário trato fresco das leiteiras vacas malhadas, -  à sinistra do trilho caminho interno inter-fazendas, rumo ao Jaguarão, -  em cujo trecho, no futuro irão proliferar mínimos sítios, -  o que vinha de lá pra assustar as montarias?
Cheiro de onça?  Esquisita invisível patioba? Inenxergável bicho peludo ou pioralgo?
Fosse o que fosse, o que era, o que seria, apavorava os animais. Estes se aterrorizavam, sim, que a gente sentia as agulhas de pêlos eriçados espetando nossas pernas, apertadas aos flancos dos disparóides eqüinos e muares...
Firmados nos estribos, pensos, a custo não se caía, sacolejantes os caminhos no lombo das alimárias, nos trancos transmitidos corpo-acima, através dos loros...
No pior, quando não, as cavalgaduras refugavam, passarinhantes, pondo um de nós no chão, doídos tombos, se inesperados, surpreseantes, os expelentes catapultos, os tais cavalgadoidos, funestos trêfegos, buliçosos, desinquietos à proximidade da aludida quiçá florestinha...
Por que?  Acaso seriam as fadas-madrastas já em ação, pela ferida no calipe, obrando em conjunto com seu compadre, o Guardamó?


o guardamó
                                                                                                                               

I - origens


AINDA contam pela região aquela os descrentes que Guardamó fora uma mui antiga autoridade, um Meirinho-Mor, cobrador de impostos, mazorral e meão,  por nome  Xico-Inês, sendo que madrigaz, gago e míope. Quando mais novo, freqüentasse bordéis, andando nos trinques, adorando se embebedar e dar-se à mazorca... Desde cedo tivessem-no por ominoso, além de execrável.
Com os anos, adoecesse em venéreas moléstias, incorrigivelmente putanheiro, repletando-se  das mazelas do mal-de-amores que, depois das três-cruzes, tiraram-lhe o juízo. 
O Aguazil-Mor fora um judiador de escravos, aos pelourinhos. Era um merca-honras nefasto e detestável, havendo por apanágio espoliar mulheres-de-bem, em especial viúvas, anonadando-as, despojando-as até da saúde,  esbulhando-as moralmente.
Salaz, impúdico, libertino e devasso: eis as qualidades do que seria no futuro um abantesma, e sendo desde em vida um espectro adiado, fantasma repugnante em formação...
Sujeito de estranho vezo, sempre vivera num volutabro de meter medo. Turpitudo, vivesse no geral esterquilínio.
A bem dizer, era caolho, camoniano, e ruim da outra vista, cegado em grimpa de árvore indesde menino, um galho seco pontudo sendo estilete.
Inicialmente, tinha apenas manias. Sua loucura chegou depois, repentina e sifiliticamente,  começando com o dizer disparates e incongruências. Agindo com insensatez e extravagância, perdulário e pródigo,  ficou na miséria. Logo era um maníaco vesano.
Na vesânia, delirava, xingando tanto sua própria e incômoda hérnia, ( a racose o obrigava ao uso de fundas escrotais) como toda a humanidade sadia...
Assim, o Esbirro-Mor, indivíduo repelente, alvaraz, funesto e fuzível,  obnóxio e nefando, tornou-se  o horror do casalejo. Matava, sendo possível, pelo prazer, no chute às botas pontas.
Omagroso, sentia as dores da moléstia bem no meio das costas, ocasião em que jeremiava de sofrimento...
Em Sãizé, as mulheres do bordel  Mel dos Ovos o lassavam de paixão.
Mas, devido ter o pé arranhento, segundo testemunho de raparigas da época, que tinham as pernas todas machucadas pelo contato lixento de seus calcanhares, era constantemente evitado pelas meretrizes...
Já as meninas de bem, nas janelas,  quase inatingíveis, o laçavam de um amor impossível... Ele sempre acorçoado, quando o assunto era fêmeas...
Quando começou a endoidar, esqueceu-se  da morte da progenitora.  E, às vezes, entestava de querer a mãe por qualquer lei!   Qualquer mulher, então, servia para o papel...
Fora morador no extinto bairro da Ponte Seca, de cujo local só resta a velha pinguela carcomida, sem nenhum rio passante por subsombra, só o pó por debaixo.
Ali foi pois também  - dizem -  o lugar onde morreu, fedente em feridas, lazarento de cães caridosos, sublinguais, mitigantes de seus puses e cruzes...
Hoje a palma-cristi invadiu aquele  terreno abandonado e os meninos vão até lá pra buscar a munição de suas guerras de brinquedo...
No vasto pasto que sempre existiu ali, imprestável para o comum pastoreio, havendo até hoje, às centenas, vegetando e flutuantes à tona da terra, esses morrinhos de cupins, naviozinhos de milhares de tripulantes, tais termiteiras, furúnculos e antrazes da Terra, de impossível alívio...
Xico-Mor era imensurável em sua velhacaria. Pai de tramóias, o maior patife. Bisnau e ladino, marralheiro e  astutoejo, de gatunice indimensível. 
Consta nos grimórios que finórios assim, finados, desencarnados, nunca encontram paz no Além... Ficam vagando nas trevas e, segundo os antigos, vez por outra, acidentalmente, por  artes de alguma goétia, penetram nesse nosso mundo, por uma frincha - fissura quadridimensional -, tragados por uma espécie de   redemoinho resultante da maldade humana... 
Vindo assim para o Aquém então recreiam, se folgam, e passam a atormentar os vivos desprevenidos e impotentes para sairem do desespero que causam seus espíritos maus...


II - OBRAS


POIS era dessa Assombração Antiga do lugar, desse famigerado Guardamó, que sempre se contava os casos de maldade, estrepolias e desencantos: de medo e horror... Ele era presença arrepiativa e freqüente nas conversas noturnas do pessoal da Santa Rita..
Dele todos conheciam a capacidade e ninguém duvidava das mauezas que ele sempre fazia...
Consta que a Entidade Fantasmagórica, montaraz,  transitava noturna e velozmente, voando como um raio, nos horizontes negros do pasto íngreme do Perau, lá pros lados da divisa com a Jaguarão, onde fica o Aparado, assustando até as árvores, podando galhos pontiagudos onde os encontrasse, disso se ouvindo de muito longe os ruídos, dado o fragor e a rapidez da podativa atividade... Parecesse uma como futura motosserra, até cavacos lançando à enorme distância.
Sua faina sonâmbula tinha também outra finalidade: assustar o pessoal das fazendas, o que cumpria com absoluta competência e maestria.
Era um fantasma ubíqüo estando em vários lugares ao mesmo tempo fazendo diabruras sem tempo pra fôlego como se estivesse lendo um grande parágrafo sem nenhuma pontuação...
Paradoxalmente, contudo, foi autor de uma cura milagrosa naquela região... Pode, mesmo, haver um mal meliorativo?
Ninguém conseguisse olhá-lo no cara-a-cara, tamanho o descabreio da feiúra. Existindo nele apenas um disfarce do Cussarruim? Sendo certo, isto sim, que suas recontadas atrocidades consistiam  principalmente para nós, crianças da roça, um pesadelo macabro nas noites chuvosas da Santa Rita, quando a luz elétrica ia embora e apenas as candeias - tais velinhas votivas à Padroeira - bruxoleavam nos quartos e salas, entre lampejos e piscados,  num contínuo quase-apagar-se, movidas a mini-estalidos provindos das impurezas do azeite comburente...
Por sendo certo  dele a culpa, seria? de tantas molecagens que apareciam sem dono ou dona por todo-o-lado na fazenda? Por causa dele se rezando toda noite o Santo Rosário pedindo intercessão de Santa Bárbara e São Jerônimo... Era ele o causador, ah seria sim, e o fosse como não? só podia ser! o causador dos trovões e relâmpagos estranhíssimos - sem nuvens nem chuva - existindo no cotidiano pelos lados do penhasco do Perau?
A  Colonha,  no pavor, era pura devoção... O Guardamó também vivia pesadelando as crianças, que já não dormiam na fazenda Santa Rita.
Quem duvidava que dele fosse a devida responsabilidade pela mira inexorável do estilingue do Toninho?  Sendo o que conduzia os projéteis, matando tantas rolinhas e preás ou derrubando mangas maduras? Por certo foi ele quem pôs tamanha pontaria naquela certeira estilingada, cuja pelota de castanha de coquim macaúba entrou pelo fiofó da vaca Sereia no instante exato em que, levantando o rabo enrijecido, ela começou a estrumar o capim da véspera, recebendo reto-adentro o bólido estilingal? A Maura e a Dulce, que a tudo assistiram trepadas na cerca de tábuas do barracão, para o resto da vida relembrarão o espanto na cara do Toninho, nem ele mesmo acreditando no tamanho acerto, caçapa cantada.
E quem, senão ele, poderia ter provocado aquilo que aconteceu comigo, naquela inesquecível caçada às pombas?  Quem, senão Ele-Mor, teria tramado o acasalamento das columbas domésticas que vieram da Franca, da casa do Vovilino, com as selvagens pombas-do-bando daqui, que aí tanto se multiplicaram, virando praga, querque empiolhando as casas da Fazenda, a Tuia, o Chiqueiro, o Paiol, e qualquer lugar onde nidificassem?  A caçada foi a solução encontrada para diminuir os efeitos da superpopulação do imenso pombal... E eu participava com o Zigo, o Paulo da Alice e outros meninos, acompanhando os tiros secos da espingarda-de-repetição...
Eu explico pra todos, até juro, mas ninguém acredita, que limpei um lugar no chão batido do quintal de uma das casas da  Colonha, onde me sentei, num dos momentos de descanso dos caçadores implacáveis de Winchester em punho... Desse meu chão-descanso, dali, reparava num mamoeiro carregadinho de frutas a folga de um sabiá-do-peito-amarelo comendo por dentro um mamão maduro e certamente docinho como mel...
E foi num derrepente: ui! ai! ui! estava cheio de formigas lava-pés sob minhas vestes, me picando, inexoráveis, por todo o corpo, com especial predileção pelo traseiro. O chão tinha virado um formigueiro macio, porém ardido e nervoso...
Teria havido ali a ocorrência  de uma estranha Monera, porém com o elemento terra se tornando inseto?  Tenho certeza:  nos mil-calombos,  - não se  duvide! - mais uma obra  morbífica do Guardamó ...
Esse Guarda-Xico sendo também o real autor da pedrada que o Zé Hamilton levou nas costas quando fomos represar o rego que perdia água pela margem de baixo, desmanchada pelos cascos das vacas passantes rumo ao pasto do Perau...
Quisesse ele prejudicar os colonos que precisavam tanto daquela água rego-abaixo? Motivo que tivesse, revide seria às orações de proteção que a Colonha propunha, reunida na Capelinha,  no Terço de Nossa Senhora?
O fato é que tudo pareceu uma arte , brincadeira de mau gosto  e a culpa pela pedrada  recaiu em mim, de cujas mãos, sem que ninguém visse, além de mim mesmo,  a grande pedra saiu levitando para depois cair, pesada, sobre o companheiro de serviço...
Outro dia, brincando com a Laurinha de guerra de bozerras,  a briga da bosta-seca,  eu peguei um estrume esfarelante de tão curtido e joguei na adversária de guerra... Ninguém percebeu, mas, no ar, o bestouro  retornou ao estado primitivo e, pastoso, foi de encontro ao rosto de minha irmãzinha loura.  Sem palavras, agüentei impropérios sem fim,  o choro da inocente companheira de brincadeiras e a reprovação dos outros meninos, como se a culpa tivesse sido minha... Só podia ser coisa do Guardamó !!! - entendi mais tarde, e, daí em diante, estabeleci   minha convicção sobre a intenção morbígena do Aliciador...
Pode-se afirmar, com certeza, que era o Guardamó quem, assustador e mondongueiro, tocava o gado numa alucinada correria pelos pastos afora, sem descanso, em certas noites de Lua Nova.
Também ele, de madrugada, abria porteiras que separavam os piquetes, misturando as vacas com suas crias famintas, deixadas apartadas desde a tarde anterior, impossibilitando a ordenha por faltar nos úberes o leite já mamado pelos bezerros...
Nesses casos, antes de se descobrir a verdade, a culpa sempre recaíra no burro Trigueiro,  manso de montaria e pedrês no colorido, dado como louco mulo pelas peripécias quetais a ele atribuídas... Como pudesse, tal animal de boa índole, de criança montar,  exercer a autoria de semelhantes disparates?... Hoje ninguém mais duvida: era coisa do Guarda-Mor! 
Esse Um chegou a  incorporar o pobre animal certa noite, mediante testemunho induvidável do vaqueiro Lúcio,  o medroso Peidorra - que ficou de vigília, a ver se descobrisse quem fazia aquelas artes enigmáticas... De atalaia, bem dissimulada dentro do barracão, a sentinela nem podia acreditar no que estava vendo:- o mular, após estrebuchar em convulsões pela grama do piquetinho dos bezerros  -  e parecia que ia morrer zurrando!  -  num átimo depois legalizou-se de pé, sadio e pensativo.  Após destravar focinhalmente as tramelas das cancelas, tangia o gado daqui-prali, trocando-os de pasto, como se fosse uma pessoa sabedora do que estava fazendo... Aquilo surpassou todas as supresas que nos tinham sido reservadas...
Ai, pra nós, se tornou um desafio, merecedor de mil-rezas de afastamento, uma simples saidinha de noite, ao redor da Sede.
Nada da caçada às rãs, para o exato prato delicioso noite alta...
A noite começou a perder seu encanto, e era com calafrios que cuidadosamente a gente saía pelo escuro dos pastinhos para pegar vagalumes.
- Vagalume Tem-Tem, seu pai tá aqui, sua mãe tamém! - a gente ia dizendo num quase-gritando medroso, enquanto agitava um tição aceso, oscilando-o o mais alto possível, pendularmente, num aceno atrativo às lacraias e aos pirilampos, vagando pela noite, noctilucos, com sua linguagem de sinais luminosos codificados lampyrismente...
A  Nicinha, a linda irmã do Zé Hamilton, era corajosa e enfrentava com a gente os medos espalhados na noite. Depois veio a época da Vanete que vinha brincar e também pegava seus iluminados insetos. Já o Valentim  seu irmão menor, possuía o medo, com  que  abastecia seus sempre arrepiados  cabelos loiros. 
Ali, em frente à casa de dona Linda e seu Zezinho, sempre os capturássemos. Sacrificávamos alguns, esfregando-os em nossas roupas, para que sua bioluminiscência verde-neón viesse a impregnar-nos de luz fosforecente, cuja claridade ia diminuindo  à medida em que aquele pozinho mágico ia se soltando do tecido...
Eu sempre pensava:-  seria obra  do, ou o próprio Guardamó, a aparição do Cantarilho aquela vez, em minha chegada,  ao descer da jardineira de San-Isé, vindo para as férias?
Dele, aquele sempre-verde raminho sendo coisa-feita? Até o sanhaço tão lindozinho cantante no ombro do rapsodo, acaso fosse fruto desse Trem?
E acaso não teria ele porventura afrouxado o  látego da barrigueira do arreio do Guarani, o que me fez levar aquele tombo escorregante quando cheguei? 
E não fosse ele quem zangava o motorzão a diesel lá da Tuia, -  que movimentava o limpador de café e o moinho de milho com suas longas correias e imensas polia -  só para o deleite de ver de perto a cara feia, beiçuda e bexigosa do Benelli  - que Deus o tenha! - chegando de Franca na  motocicleta barulhenta?  Ah! ele teria esses gostos...
Consenso entre nós: quem mais podia - a não ser o Cussarruim -  deixar tão indóceis, em determinadas manhãs, a tropa de mulos?
Burros mais ajeitados não havia, segundo sô Anardo, que os tinha por companheiros de serviço na diária labuta... Mas parece que naqueles dias tinham muito medo, cisma aterrorizada, de alguma entidade invisível mui pressentida por eles... Então enguiçavam. Eram coices semoventes, a  teimosia encarnada em mus. Parecia conversassem entre si, emitindo desesperados ornejos de espanto e pânico.
Aí não iam, nem com reza-braba e nem  ouviam  o estalo temido da açoiteira de couro trançado... Empacavam sem nenhum remédio...Nessas madrugadas, o açoute da jibóia lhes era carícia... Não atendiam aos apelos do carroceador, e  dedicavam-lhe o característico desprezilho muar... Dizia seu Arnaldo vendo aquilo, quase perdida a suspiração:  Benzó-Deus!,  enquanto ia repetindo o Pelo-Sinal afastando-se  dali com os olhos marejados de piedade...
Coitados:- Gaúcho, no tronco, entre-varas, um mestre! Despacho, o da rédea, sensíveis beiços, era só relar.  Estrelo, no balancim, um mouro. E o Paraná, na contra-rédea, acertando todos os passos... Tendo esses toda a enorme força para arrastar o carroção com as toneladas de praxe...
Às vezes, estando ali, idem o Viajante, diário viajeiro da carroça leiteira, levando os muitos latões de cinqüenta litros até Sãizé. Era rápido, não sentia peso - exceto na barrama das chuvas, quando a carroça se atolava na rampa de saída dos currais, antes de pegar a estrada. Aí precisava de um companheiro no balancim! - conhecia de-cor o trajeto, podendo se lhe soltarem as rédeas.. Nos dias do Tormento Guardamótico ele participava, inocente, das esparsas indocilidades dos de sua raça... 
Por tudo isso, o tropeiro nos ajudou nos preparativos e no segredo da Empreita: queria seus animais em paz.


III - O MILAGRE


HAVIA outra dúvida: se pudera esse  Pé-de-Cabro milagrar em favor do Entrevadinho, também de outras boas coisas capaz fosse?
Esse Arruaceiro do Vale das Sombras, amálgama de bruxedos e horripilâncias, tivesse acaso inconfessadas  piedades? Ou será apenas uma fábula que oralmente me impressionou, fisicamente enfrentei e estou agora registrando para ressoar para sempre ao longo das gerações?
E quanto aos carneiros que estavam sumindo do sítio dum vizinho, lá pra bandas da Estrada, tivesse também a culpa  o Guardamó?
Ou seja,  estariam  interligados os acontecimentos envolvendo o Aleijadinho e os carneiros sorvidos na noite?
Foi numa junina festa de Santantônio, de terço reforçado, bem rezado e contemplado em mistérios sacros, com hasteamento do mastro com a benta bandeira do Santo venerado, com foguetes, estrelinhas, traques, bombinhas, quentão, pipocas, quitandas e doces...
A certa hora, cedo ainda - nem haviam começado a amiudar os galos relógicos - o quentão da festa acabava-se.  Necessário buscar-se lá em Sãizé mais aguardente, também finda,  matéria-prima básica do aquecedor etílico. 
Os cavalos, amendrontados pelos rojões, tinham sumido pasto afora, incapturáveis. Portanto, de-a-pé que se deveria ir... Noite escura, desluada, nenhum  voluntário se apresentando... Um falou e era o Neném Ditado: Junho não tem remissão. É mês sem perdão! É, como o Maio, o Julho e o Agosto, um dos quatro meses do ano sem o erre.  As almas penadas, pneumoniais, atentam demais, causando gripes e resfriados, esfriando demais a Terra com seus lamentos imperdoáveis. 
Aí a situação piorou... Sem quentão a festa logo teria seu fim decretado...
Chiquinho Mendorrém, então um mirrado Aleijadinho, pernas tísicas, frouxas e atrofiadas - se dizia - da infantil paralisia, menino palarítico, sempre com as  muletinhas sob axilas, envergonhou os marmanjões da festança, oferecendo-se como acompanhante de quem quisesse ir... 
 Ir  era se arriscar na caminhada noturna que  - aí se explica o pavor geral  -  atravessaria necessariamente os reinos do Guarda-Mor.
Apareceu então, tomado de brios, o Ditão, gorilóide cor de cuia, dominador de grandes enxadas, cumpridor de enormes tarefas nos serviços do café... Jogou nos ombros o Entrevadinho, pegou o dinheiro da encomenda, o embornal, conferiu a peixeira na cinta sob a camisa e saiu a passos largos, proseando com seu encorajador companheiro... 
Não demorava muito, quase já saíam da trilha da carroça de leite e chegavam à estrada larga, caminho de San-Izé.
Justo nessa noite estavam agindo naquelas imediações os ladrões de carneiros... Eis então que um deles, o ladrão sócio que ficara de vigia por detrás de uma moita de capim colonião à beira da trilha do cafezal,  mal divisando o vulto que se aproximava, e julgando tratar-se de seu companheiro larápio que viesse trazendo nos ombros uma primeira ovelha como sucesso da ladroagem, sai da moita e  sussurra entredentes, assombratício: Ah! já conseguiu me trazer um aí no ombro!...
Foi o que bastou... Que o Mendorrém Aleijadinho pesasse um nada não veio ao caso, pois, jogando o pobrezito ao chão, carapinhas arrepiadas como arame farpado, o Ditão virou-se nos calcanhares e se expediu como um busca-pé endoidado,  supondo-se perseguido pelo pavoroso Guardamó... Rapidamente, mil  tropeços adiante, roupas rasgadas pelos arranha-gatos (— Me larga, seu Chico-Mor!) chegava correndo na Colonha, perdendo pelo caminho de volta as alpargatas, o dinheiro, o vasilhame, a peixeira e a coragem...
Maior foi seu espanto, porém, ao encontrar ali, chegado antes dele,  com as roupas igualmente aos retalhos, não sabendo como viera, por que atalhos insondáveis, movido por essas adrenalinas da vida, também dilacerado por ramos, galhos e folhas, levando no peito mamoeiros e pés-de-mandioca, ainda arfante, o Ex-Aleijadinho...
Rodeado de curiosos, esfarrapado, e enquanto sorvia longos goles de mulsa, contava a todos a topada que deram  - ele e o Ditão - com o Monstro Cochichante. De como, se vendo no chão, "por diabólicas artes, comecei a correr, sem notar, ceguinho de desespero", para tornar a se deparar,  novamente, a certa altura da fuga do retorno, com o Dito Cujo, no meio dum brejo, sendo que, no encontrão, sentiu que a Assombração tinha firmes tonelagens de peso maligno ao rolar pelo barro apodrecido, onde quase se atolava, tentando agarrá-lo:- Era um mondrongo muliado, gente e cordeiro,  fedendo mais pra carneiro, e berrando, balido de carneirinho, um  Béééééé...  E que, daí pra frente, correra  ainda mais, como nunca pudera correr antes...
O povo então comentaram,  fervilhando, que o susto e a carreira tinham lhe destravado as articulações.... De qualquer forma,  pelo susto ou  por  uma graça, daquele dia em diante o Chiquinho Mendorrém caminhou normalmente... Milagre do Guardamó?... Acrescesse, com isso, ao rol de seus epítetos o de Destrava-Juntas.
No dia seguinte pariu na fazenda uma novilha gyr, muito raçuda. Em memento do ocorrido, Seu  Sebastião lhe deu o nome de Milagraia.  Ah!, por sinal, veio a ser a vaca mais feroz , feraz e pegadeira da história da Santa Rita...
Assim, que ninguém de vocês duvide de sua capacidade de prodigiar maravilhas...



IV - A PESCARIA


TEMPOS atrás, num domingo de manhãzinha, fomos pescar com varinhas-de-anzol no Corgão da Divisa, o Ribeirão do Buriti, do qual é desviado o rego que serve a Fazenda, o Lavador de Café, as Aguadas, o Chiqueirão e as Hortas da Colonha. A pescaria era também um pretexto pro Arroba inaugurar sua garrucha-de-carregar-pela-boca, novinha em folha. Feita por ele com formato de mauser alemã, com cabo de madeira-de-lei e cano reforçado,  melhor que cano de guarda-chuva...
Daquele lugar costumávamos fazer a travessia para a outra margem, mode  pescar  na sombra, através de grossos cipós, por cima do riacho, imitando o Rei das Selvas... 
Sim, foi justo nesse ponto que um dia, anos atrás, passeando com o Nenê da Geralda,  o Zigo foi passar pro outro lado do córgo, com o Toninho pendurado no pescoço... O cipó, antes firme e seguro, então se partiu esfarelante, jogando pai e filho no meio do poço, dando-lhes um banho inesperado, pra deleite do Nenê, rindo de barriga-doer, com o resultado da travessia... Então, de repente, num estrondo medonho, o som amplificado de suas gargalhadas, como que sendo um ribombo de trovões,  ecoou pelo ar circunvizinho, tétrico e horripilante. O passeio acabou na hora. Voltaram dali rapidamente, sem olhar para trás. Segundo se conta, nunca mais ninguém tinha voltado ali...
 Pois nessa pescaria nossa, a da estréia da parabellum  do Gordo  - muito tempo depois,  topamos com um casal de cobras luminosas dormindo profundamente numa praiazinha de areias súbitas, prateadas pelo albedo...
Apesar de sua forma física algo etérea, um apenas dourado lume, ali o casal de Boitatás assumia o jeitão algo sólido de cobras-de-fogo.
 - Na realidade,  explicou-nos o Arroba,  elas são chamas resultantes, tanto da combustão espontânea de gases emanados dos pântanos e brejos, como do hálito gasoso dos sepulcros, o dito fogo-fátuo...
Assim esclarecidos, já mais tranqüilos, nos aproximamos em completo silêncio.  Aí examinamos com calma, demoradamente, aquela visão magnífica que a princípio nos deixara aturdidos e boquiabertos. Eram de uma incandescência sobrenatural, transparente,  - com certeza, gélida!  -  rescendendo a gravetos  de fogueiras inquisitoriais...
Sussurrando, o Arroba levantou uma hipótese, segundo ele apenas por farra, sem nenhum motivo ecológico:-
Que tal a gente fazer um cruzamento da Boitatá-Fêmea - certamente nativa da Amazônia -, com um Nixe germânico, importado duma futura Alemanha Unificada?  Ai a gente não entendeu nada!!! e ele continuou: Com isso criaremos um híbrido-extintor, que tanto protegerá nossas florestas, campos e cerrados, prevenindo os grandes incêndios que poderão ocorrer no futuro, lá por volta do ano 2000,  devido tanto à seca prolongada   como  a  motivos criminosos,  como ainda, em casos dessas queimadas que escapam ao controle, as apagará com  jactos de um mijo cintilante, misto de espírito aquoso, gás carbônico de catacumbas e ecoplasmas de cobras pantaneiras...
Enquanto a gente ouvia o Gordo e sem que percebêssemos, o fogo das najas foi-se apagando, tremepiscaluzindo até que restaram apenas dois riscos largos de cinzas amareladas no local onde estiveram adormecidas.
Aí uma brisa muito forte veio e laifoi, espalhando tudo pela ourela do córrego, impregnando as folhagens, os troncos, os ramos, de uma purpurina mágica, logo tornada geada que escorria em gotas cristalinas para o chão.
Súbito, então, um redemoinho insólito e forte chegou, nos atirando areia nos olhos... Por instantes não vimos mais nada... Era uma como tempestade do deserto, dunas e dunas querendo nos sufocar. Saímos dali correndo, rápidos, acompanhados à distância por um vento mal-cheiroso e maligno, prenúncio agourento da presença invisível e catinguda do gosmento Guardamó... 
Uma mancha preta muito grande continuava a correr atrás da gente, tapando o sol que se filtrava pelas altas ramagens das árvores. E continuamos correndo pela orla do córrego, do lado da Jaguarão, aos tropeços, rumo ao Perau.
Chegamos num atoleiro lá nos fundos do Mangueirão, a terra brejenta, cheia de miasmas, verdadeiro marimbu beira-córgo, onde as vacas iam atolar, na seca, em busca da verdura convidativa das angélicas...
De repente, a sombra negra foi se aumentando até ficarmos cercados por uma escuridão medonha, em pleno dia. O vetusto fantasma se transformou naquele instante em um enorme e rosnante bugio, tentando afastar intrusos, qual orangotango, começando por emitir grunhidos, a princípio devagar, depois mais depressa, erguendo-se sobre as pernas, arrancando folhas e atirando-as para o ar, em seguida esmurrando seu próprio peito com pancadas das mãos semi-fechadas, continuamente, num ritmo de tambores tribais,  postado, urrando, num galho  nas alturas,  quebrando ramos, arreganhando a dentuça e ameaçando abocanhar a gente...
Até hoje ninguém sabe contar direito o que aconteceu  na pescaria-caçada que fizemos com o  Arroba  nas Matas do Jaguarão...
Foi aquele disparo inaugural! Mirando o gorilão-fantasma gesticulante no alto, lá na copa enfolhada de grande Jequitibá, ele arrastou o dedo no gatilho de sua boca-de-fogo, já carregada pra caça grande, e houve o pé...buummm. Estrondo medonho, de quiçá portátil canhão, varrendo as folhas da árvore, sumindo com o micão, galhos e galhinhos, e abrindo espaço pra chegada dos raios do sol cá embaixo... O arranco deixou bambo o braço do atirador, caído sentado de susto, jogado para trás pelo coice da carga disparada.
Na Fazenda, naquele dia, todos confundiram barulho do tiro com um trovão inexplicável, havido a seco, numa manhã sem nuvens, céu de brigadeiro.
Depois disso, encostamos por muito tempo nossas varinhas, resolvidos a pescar apenas  nas rasuras inocentes do rego próximo das casas. Ou a gente ia de-peneira, ou  ia pescar de moponga... Pescávamos de mupunga com uns  batendo varas e paus e as mãos na água, afugentando os peixes em direção a uma rede que ficava estendida mais adiante... Mas era difícil arranjar uma redinha quando o Arroba não trazia a dele..


V - OS  RATOS


QUANDO faltava a energia e a Sede vivia às sombras, tenuemente iluminada por algumas candeias aqui e acolá, a gente podia espiar os ratinhos se debruçarem com as patinhas dianteiras à borda dos copos americanos iluminantes  espalhados no alto dos móveis.
Desprezando as fracas chamas dos pavios, ratificados em fomes, refamintos portanto à extrema, ágeis e suaves, os mini-ratos bebiam, em mil-lambidinhas,  o azeite rançoso de velhas banhas, já usado em inúmeras frituras, que ali servia de combustível às candeiazinhas de São Jorge...
A mínima claridade logo se desvanecia, findo o fogo dos pavios das velinhas votivas. A Sede, então mergulhada na escuridão total, ficava entregue à ação dos  ratos até o raiar do dia...
Era  uma constância de guinchados murinos intermináveis, e um ruído insistente,   um infindável roer, rorr,  rrrr, atazanando o sono de todos...
No desespero, pensaram até em colocar veneno na vesca gordura das lamparinas, para a eliminação dos mus muscullus lambedores... A avaliação dos riscos, contudo, desaconselhou o uso.
Certa noite, percebendo a entrada  de uma grande roedentes num dos quartos da sala, o Zigo fechou-se lá dentro com a Lourdes, ficando presa ali com eles a ratazana preta, sabendo a gambá na enormidade.
Com um calibroso porrete, ele tentava acertá-la de todas as maneiras, enquanto a Lourdes a cercava com uma vassoura, fustigando-a em direção às cacetadas... Mas a bichonha sempre escapasse, rápida, às esquivas...
Certa hora, encantoada, já cansada, acuada no limite, apruma   parede arriba e, apoiando-se nos flancos do encontro das paredes naquele canto, salta com um grande guincho, no contra-ataque, em direção à cara de seu agressor, que foge do repentino bote, lesto no desviar-se... Assim se prolongou, móveis arrastados, camas desmanchadas, roupas rasgadas, vassoura destruída, a inexorável perseguição. E, quando ficava sem saída, curvava-se o rato sobre as patas pernas, formando o salto e  da defensiva  partia para o ataque... Só com muito custo o Zigo conteve a porretadas essa fera ensandecida pelo pânico...
Repentinamente, daí uns dias, como uma praga, começou a Invasão...
Os primeiros a chegar, em levas e hordas contínuas, foram uns menorzinhos, murídeos de hábitos noturnos, os murganhos, de cauda nua e escamosa, cabeças alongadas, orelhinhas médias, bigodes e focinhos compridos, pêlos castanho-escuros, pernas delgadas e garras pouco fortes...
Com o imenso território da Sede devidamente repartido entre suas diversas colônias, os roazes daninhos se multiplicaram desordenadamente,  infestando a despensa, estragando os mantimentos, tornando quase impossível a vida das pessoas...
A rataria só aumentava... À noite era preciso espalhar pedaços de pães velhos pelo chão dos quartos, pra evitar que, na falta do que comer, viessem roer os pés das crianças e dos  adultos... De manhãzinha, não restava uma única migalha nos aposentos...
As ratoeiras, infalíveis, chegaram a inúmeras execuções por noite, mas o crescimento populacional dos ratos era vertiginoso... Com a chegada dos enormes coipus de patas traseiras palmadas, contudo, elas se tornaram inadequadas, pois  após desarmá-las, saíam guinchando - se risadas? - carregando as armadilhas no pescoço, como enfeites...
As colônias desses ratões-do-banhado, vieram em legiões, com os hábitos mudados como que por uma maldição guardamótica. Subiam lá do brejo da Caveira Lumienta, dos fundos do Mangueirão. Grandotes de meio metro, pesados de oito quilos pra mais, enfrentavam a gente com mordidas dolorosas e perigosíssimas que infeccionavam rapidamente... Muitos empregados tiveram que ir pra Sãizé tomar vacina antitetânica, devido às feridas causadas por eles...
A solução foi o Zigo, além de decretar a caça remunerada diuturna,  secretamente proceder ao envenenamento sutil e controlado das colônias da praga...
Os meninos saudaram a novidade e já começaram a fazer planos para o uso do dinheiro a ser arrecadado... Usava-se de tudo: porrete, estilingue, bodoques, pedradas, armadilhas, laços, latas, sacos e,  até o Zigo a espingarda, na tentativa de conter os intrusos...
Como a Sede se defendia a todo custo, esses myocastores peludos, de orelhas pequenas, dentuça enorme, rabos cabeludos e garras fortíssimas, foram roer as paredes de madeira da Tuia, começando a fazer buracos por todo lado, na tentativa de invadí-la... 
No segredo do casal, Omar toda noite pincelava uma mistura de violento veneno - inofensivo para humanos - nos calcanhares da esposa Lourdes, os quais a bicharada infernal  tinha obsessão em roer.
Com esse expediente, toda manhã surgia uma enormidade de cadáveres espalhados pelos cantos. Eram recolhidos e enterrados numa vala nos fundos do quintal...
Havia o chefe geral deles lá ratóides... Esse seu pastor, sendo  na certa o mesmo dos sequilos... Topamos com ele diversas noites, ratazono pretonho, enormemente caolho... Ele, quem os procriasse, murígeno, às centenas, na mágica duma diabrura?
A gente procurando-os durante o dia, se  encontrasse uma ratada, matava tudo no ninho, de uma só vez...
Como os adultos vinham atuar sempre à noite, a gente ficava de longe, murando-os, esperando se agruparem pra depois cair de pauladas sobre eles...
O Preguinho, cão rateiro excelente, nos ajudava demais... No Paiol era um arraso! Pegava esses hospedeiros de pulgas pestíferas, murando-os pelo prazer da caça onde quer que os achasse... Talvez porisso sofreria, posteriormente, a incorporação do Mal que o levou à loucura e à morte...
A população dos murídeos ficou então numerosa demais, havendo-os desde o porão até o forro, dentro do chão e dentro das paredes, atingindo proporções de flagelo, a requerer benzeção e muita reza...
Causavam estragos também fora de casa, na vegetação em redor da Sede, destruindo as raízes das ervas e impedindo o crescimento das plantas...
Até as corujas de fazendas vizinhas da Santa Rita vieram em nosso socorro, fartando-se à extrema com tão numerosa caça espalhada por todos os lados...
Quando já não se suportava mais o tormento, fomos salvos por um mecanismo de controle magiquímico da própria Natureza...
A tensão originada desse sobrepovoamento, mais a ação dos predadores e o canibalismo ajudaram-nos, eliminando o excesso da população roedora... O excesso de animais origina crises nas colônias... O ciclo de reprodução atingiu seu ápice ali na Sede em pouco mais de um mês, o que era coisa absurda e misteriosamente diabólica, pois o normal seria atingir-se esse pico, sem o controle humano, em quatro anos!
No início do segundo mês da invasão,  já devidamente instalados em nosso meio,  verificou-se um declínio no número dos nocivos invasores... Isso devido não só à fome entre eles,  a uma estranha autofagia, à perseguição dos predadores, mas principalmente ao efeito fatal das tensões causadas pelo explosão demográfica na produção de hormonas... Esse desequilíbrio hormonal começou tanto a impedir as fêmeas de produzirem leite suficiente para suas crias, como a causar diretamente a morte dos ratos...
Os tantos que sobraram ao final da crise de des-hormonia, a gente caçava com mais calma, pelos cobres...
Pra meu azar, aquele ratão, - rattus rattus legítimo,  cá entre nós, o Capiroto Guardamó incorporado - entre todos o mais roaz, aquele  que vivia no seqüestro dos sequilos,  sempre surrupiando despistadamente de cima de algum prato algumas argolinhas do alimento, sendo-lhe esta uma atração inafastável, certa noite deu o ar de sua graça..
E, como um esquilo, escalou a reta parede e abrindo a tramelinha do armário da copa, foi, esganado, à grande lata de alumínio, onde habitava a quitanda-guloseima, o perfumoso quitute em adormecimento, hibernante à espera da mastigação das crianças...
Lembro-me de que, indo ver que roimento era aquele do outro lado da parede do quarto onde dormia,  abri devagarinho o armário. Mas o ratanho, encurralado num canto, avançou com ódio e pulou em meu peito, por onde desceu a-jato pro chão...
Na confusão,  tentando agarrá-lo, houve o tamanho tombo,  a lata vindo ao chão, os biscoitinhos-de-doce esparramados, a sala rescendendo a festa de aniversário...
Logo chegaram os outros, assustados... Qualoquê! Sendo na boca da botija o real aprisionamento, indefensável, fiquei basbaque, sem  provas do alegado, restando como o autor dos muitos furtos famélicos de quitutes havidos na cozinha e armários da Fazenda...
Porisso, no dia seguinte, com  ardor redobrado, os meninos solidários comigo dedicaram-se com acorçôo dobrado à  caçada, animadíssimos, na tentativa de acabar com tamanha  ratifaria...
A gente então  trabalhou que nem gato: felínicos,   desafetuosos na matéria, anti-ráticos.
Gatais, o Omar registrou em codaques nossas poses, a gente exibindo, como troféus, fileiras deles arratazados, submortos e supermortos, finados ou quase, em poses pré-sepulcrais...
Às vezes, a gente via uns buraquinhos, estragos da punia, e pensava ser sinal de denticos de camundongos...
Precisava de ver os meninos todos se exibindo, em inglês, chamando-se  mousequilers...  - Que que é isso?  É ratikillers, mata-ratos, em inglês,  inínglis, bobaiada... Dizia a Lúcia... E a Vera ria da gente, os moleques raticidas,  mantendo-se ao longe, com ósga da ratama finada.
A gente a custo espantava os gatos curiosos - nossos concorrentes -  pra longe, pelos mirréis a receber ainda... Se era bom ganhar os mil-réis plantando canas, ou roçando o joá, era melhor ainda  ganhá-los matando as ratazanas...
O caçada aos ramundongos era quiçá lucrativa, pois ao se trazer na hora os defuntados roedores, o vivo metal, moedante, vinha no retorno, infalível, e se levava pra fora as carcaças para longes enterros...
Certo dia o Zigo descobriu nosso segredo e pegou a gente no mistério dos tantos camundongos enormes rateados no diário lucro: era uma seqüência, rodízio de meninos, moleques cafunges,  que caçavam os mesmos ratos, já matados, apresentados - vivos ou mortos - para a recompensa recebida... Iam e vinham, gerando dividendos, um rato valendo por vários, no repetido recebimento.
Mas a abundância gerou a escassês: descoberta a fraude, foi exigido que se encaixotasse ali, defrentemente, na hora do recebimento do níquel,  os ratonhos morridos, onde se iam ajuntando. Aí, de tarde, se enterrava, testemunhalmente, com fiscalização, todos  que extintos fossem naquele dia e pronto.
E foi assim, a poder de veneno, porretes, armadilhas, rezas, ratoeiras, dinheiro,  pela ação da Natureza, e especialmente com  muita reza,  que a Sede se livrou dos hóspedes indesejáveis...
E aí, rato a rato, acabou-se a festa para nós, os ratunos...
Mas o granduço, o ratolho quitandeiro,  ladruno e assaltante,  murina incorporação do Guardamó, esse ninguém matou, jamais foi encontrado, sumiu-se num des-encanto...


VI  - PREGUINHO


CERTA vez,  há muitos anos atrás, o Zigo resolveu fazer, e fez, uns comedouros, espécie de chamariz-alimentador para atrair passarinhos. Nesses cochinhos de bambu instalados no alto do alambrado do Jardim, e sempre municiados de fubazinho e quirelas, acostumaram com o correr dos anos, a vir se alimentar  todo tipo de passarinhos, e entre eles vinham sempre pousar os pássaros mais canoros,  especialmentes os dourados canarinhos, mansos a poder de amor... Não é que a partir de um certo dia  os passarinhos pararam de ali empoleirar para debicar sua merendinha?  Mas logo desfez-se o mistério: qualquer comida que ali se colocava  logo virava esterco seco.  Mais uma aflição imposta ao pessoal, mostrando a ambição morbígera do Lamurioso Xingador...
O que finalmente entornou o balde,  levando-nos à Empreitada, foi o ocorrido com o Preguinho.  Todos tivemos a certeza de que foi Ele-Marraxo quem tomou o corpo do estimado animal, último cachorro-de-estimação que nós meninos  perdemos misteriosamente...
Da moda do outro:  possesso dele, Preguinho amanheceu certo dia endoidado de babar. Desconhecia todo-o-mundo. Havia latido durante toda a noite com algum bicho, lá pros lados da Usina Velha e do Bananal. Enrouquecido, ficou rosnando de longe pra nós, ao invés de vim, cedinho, como no diário ocorresse, beber seu leitinho morno. Os olhos injetados, vítreos, hórridos, raivosos...
Nem parecia mais o cãozito brincalhão, afável, que nos ajudava a passar as horas no alpendre, correndo atrás dos tapetes, abocanhando-os, tornando a soltá-los, distraindo adultos e crianças, enquanto se fazia o quilo do almoço... 
Enjeitando conversa, o antigo companheiro de nossas andanças pelos campos e matos já não era bom entendedor... Naquela manhã se tornara um  perigo para quem ousasse dele se aproximar.
Tentou morder num,  pregou carreira noutro, até que conseguiram isolá-lo no jardim cercado de alambrados...
O Cão, enfurecido, chegou a quebrar vários dentes, mascando o arame do alambrado, e sacudindo  a tela, a ponto de derrubar os  cochinhos de  bosta seca... Raivoso, unhou e mordeu - arrancando-lhe lascas e cavacos - a porta de entrada da Sede. Parecia querer arrombá-la a qualquer custo pra pegar a gente lá dentro...
A situação prolongou-se por várias horas. Ele não melhorava. Seu aspecto lembrava o de um lobo enjaulado, pronto a atacar qualquer um...
Não houve outro recurso. Não se podia arriscar a deixá-lo fazer alguma vítima. Então, por uma pequena fresta deixada no entreaberto portão lateral do jardim, o que dá para a garagem,  permitiram que ele começasse a sair.  Quando sua cabeça saía por aquela brecha, prensaram-na fortemente de encontro à parede, deixando-a do lado de fora do jardim. Ele urrava, se debatia, uivava em ódios. 
Assim imobilizado, sacrificaram-no com  certeira marretada dada com as costas de um machado. Rosnou como fera em sua brevíssima agonia. Dando um como gemido sobrehumano, morreu. 
Morto, suas feições crispadas voltaram à antiga mansidão e doçura.
Algo ficou pelo ar como que  nos dizendo que tudo não tinha passado de uma mentira para nos magoar. Enquanto isso, pelo ambiente recendia um bodum intolerável denunciativo da estada, no local, do Espírito Repelente..
Foi demais para nós. Consternação geral. Agora, de um jeito ou de outro, tínhamos que enfrentar o Morbíparo Infernal...


VII - O BEATO

OS DEVOTOS da padroeira pensaram num eficiente exorcismo do Padre Teodoro, vigário de Sãizé: viesse rezar uma Missa Sagrada, no outro dia, segunda-feira, em solos da Santa Rita e o Pesadelo se ia... E decidiram mandar-lhe no dia seguinte uma mensagem pela carroça do leite. 
Mas parece que por lá, também, o Tocha Fantasmagórica já tinha urdido suas tramas...
Justamente no dia em que se enviou ao sacerdote o recado-convite para a celebração urgente  da Sagrada Eucaristia, o burro Viajante voltou de sua suada ida a Sãizé trazendo nas rédeas um amendontrado condutor, que portava as últimas novidades ocorridas no comércio.
Tinha havido um grande tiroteio no Galpão do Grupo Escolar e Sãizé não tinha mais vigário!... Tudo começara  - hoje não me lembro bem  o que contavam sobre como tudo então se iniciara , já falavam à época de coisas passadas em priscas eras -  tudo começara de uma rixa política entre o Padre e  Sá Bernarda,  a velha viúva  de um finado Tenente Zé-Ozóro. 
Padre Teodoro era desbragado opositor da matriarca, descendente direta de Xico-Inês,  a Maldade em pessoa.  Afamada capadeira de muitos gaiatos da região, - depois eunucos irreversíveis -, governada sabe-se lá por que inspirações carrascas, redeava a política do lugar com mãos de aço, tenazes irrecorríveis... 
Já o Padre, querendo evangelizar aquele povo e ampará-lo das injustiças do coronelismo vigente, tudo fazia para cativar seus fiéis e catequizá-los, longe da influência  maléfica e dos desmandos da Megera. Combatia, do púlpito, a violência e a exploração escravizante dos oligarcas cafeicultores; enfim,  mourejava contra o poder constituído.
Por tudo isso, estava jurado de capação pela Viperina que, apesar de entrada em idade, desmandava e mandava em tudo e em todos.
Nem carta do Bispo de Ribeirão Preto,  ameaçando-a de excomunhão conseguiu pôr água fria na fervura da Ogra... E, como sói acontecer na relação entre o Forte e o Fraco, desde tempos primevos, o povo via no Padre Tiadoro um autêntico apóstolo, rezador inigualável, seu corajoso guia e defensor verdadeiro... E vai por aí que as coisas iam indo nesse pega-não-pega,   fala-não-fala,  cala-não-calo...
Para agradar seu rebanho, o Padre mandou vir da capital um mágico, seu primo-segundo, por nome Heitor, de falas castelhanas. Tinha excelentes dotes prestidigitários, era escamoteador de exímios recursos: um prestímano de estirpe! 
Justamente naquele domingo, em que o pessoal da Santa Rita tinha-se decidido  encomendar  ao padre  o exorcismo que julgaram necessário,  lá em Sãizé, ao depois da missa vespertina,  foram as ovelhas, como numa alegre procissão, seguindo seu pastor para assistirem ao espetáculo do Primo, no salão de festas do Grupo Escolar, um avarandado onde serviam a merenda à criançada.  
E  o povo se divertia sadiamente... Todos aplaudiam, boquiabertos, cada número que era apresentado... Deu o intervalo. A multidão estava feliz.
Ia o mágico iniciar a segunda parte do espetáculo quando a Sibila chegou lá fora, montada em uma ónagra pedrês, à frente de grande séquito de barbados pistoleiros, sequazes indispensáveis.
Quando o portão da escola veio abaixo, derrubado pelos ímpios, e a velha entrou brandindo sua enorme faca capadeira, o padre, num átimo voou pela janela, mergulhando no escuro das moitas da noite.  Na confusão armada, ninguém notou sua fuga e o povo pacato,  imobilizado pelo medo,  hipnotizado pelo pânico, não pode ver que havia ficado ali, para  pagar o pato, apenas o consagrado ilusionista...
Ainda na segunda-feira, quando ficou a par da ocorrência, nosso mensageiro da  carroça do leite só sabia  dizer que, entre abracadabras, em uma magia derradeira e triunfal, o primo do padre sumiu, no meio duma fumaceira infernal...
Devido aos sinais de balas de carabina deixados nas paredes de pau-a-pique, em meio ao sufocante fumo da pólvora, restava uma incógnita: saber se o mandraque sumiu antes  ou depois dos disparos...
Do beato Tiadoro não haviam notícias... Sumisse em paradeiros?  Se desconhecia seu destino...
Sem o santo padre, desamparados, nos tornamos presa do Medo. Na anipsia, a criançada não tinha mais sonhos, só pesadelos...
Acabara-se para nós aquele prazer de,  nas noites de céu límpido,  antes do sereno molhar a grama,  um tanto distantes do postezinho de luz do piquete dos bezerros, a gente se deitar de costas, mais no escuro,  e ficar olhando o firmamento, esperando as estrelas despencarem...
Quem visse  primeiro, dizia logo Deus te guie, Zelação!, para que a cadente se fosse precipitar no mar, para nós o Desconhecido Mundão D'água...  Em certas noites a estrelaria nos proporcionava a oportunidade de rezar dezenas dessa jaculatória, e o Universo era um só na gente, que se perdia na contagem utópica das miríades da metalescência estelar...
Foi aí então que nós moleques e alguns marmanjos assim ditos, o Mango - o quase imbatível luitador da Fazenda, o  Panca, o Gilvaz, que era um menino que tinha uma grande cicatriz na barriga da perna, feita por um caco de vidro que veio voando da Moita de Bambu atrás dele por uns 68 metros, até alcancá-lo e ferí-lo enquanto fugia em direção da Colonha,  o Gerson, o Nenê, o Víto, o Natal, o Ditão e o João Grande,  o ex-entrevado Chiquinho Mendorrém, (que uma vez - quando era entrevado - quase morria sufocado por uma multidão de espirros causados por grãos de  pimenta-do-reino que u'a mão horripilante lhe  enfiara no nariz durante um pesadelo certa noite de Quaresma...), o Donizete, o Zé Hamilton, o Messias, os três irmãos: Varte,  Zezinho e  Luiz do Nino, e  mais os filhos do Sossebastião, o  Tonho - o kibe,  o Lúcio conhecido por Peidorra,  o Zé Piau, o Martinho e o João, resolvemos desafiar, com nossas  armas secretas e pura coragem, o Habitante das Trevas, o Antimatéria, o Fumegantes-Cobras, para um cara-a-cara definitivo. 



VIII - CARNIFICINA


ENQUANTO o dia não chegava, e como não  nos levavam a São José por causa das arruaças recentes, pois a confusão ainda era grande por lá, muita polícia de fora, o padre inachável, ressumidamente, vamos roçar joás no morro, onde boiam sobre a grama os cupins, os ninhos  das termiteiras...Cuidado! pode ter cobra moradora dentro, não convém bulir nem passar por perto...
O Arroba já tinha contado pra gente sobre esses bichinhos estragantes de madeira-branca, paus moles sem cerne... Falou e a gente até duvidou, que as rainhas desses cupins, as aleluias, podem ir crescendo até ficar umas duzentas vezes maior que os outros membros do cupinzeiro, a colônia deles.
Disse que as rainhas vivem fechadas numa câmara real, como se fosse uma sala de palácio, na parte mais segura do murundú termiteiro. As operárias mantêm a temperatura lá dentro sempre constante, graças a um expediente lá delas, de ir tapando ou abrindo os condutos de ar das galerias internas do morrículo...
Ali as rainhas são alimentadas pelas obreiras, as operárias. Uma monarca dessa, adulta, sendo fertilizada regularmente pelo rei, o Siriri,  pode pôr até mil ovos por dia, na base de um ôvo por minuto...
Ele explicou pra gente que com inseto a gente não diz enxerto, mas fertilização.
Perguntaram pra ele porque só tinha uma rainha... Ele explicou que a soberana expele um ácido que os outros membros do cupinzeiro lambem, o qual impede que neles se desenvolva a capacidade de reprodução...
Agora, se a rainha ficar estéril, ou como se diz aqui na roça, maninha, infecunda, e não procriar mais, então deixa de ser alimentada e morre de fome, sendo o seu corpo, em seguida, devorado pelas outras térmitas...
Sem aquele fluído contraceptivo ( ou anticoncepcional), qualquer fêmea da colônia, com idade adequada, desenvolve a capacidade reprodutora, tornando-se assim a nova rainha... Se muitas se desenvolvem, aquela que for mais forte derrota as demais, para reinar com exclusividade.
Já o Rei que se torna estéril, que brocheia, é igualmente substituído por outro macho que a rainha impede de lamber aquele ácido pra deixá-lo fecundo, transformando-o em reprodutor..
E sempre contava pra gente das grandes guerras que acontecem entre as formigas e os cupins...
E não é que nessa ocasião, brindados pela sorte, certa manhã pudemos assistir a uma verdadeira guerra de extermínio entre formigas e os habitantes dos morrículos, os térmitas.
Quem nos alertou para o sinal iminente da guerra foi uma morupeteca, correição gigante, que se deslocava negra, sombria e apressada, por um trilho de gado.
Eram formigonas pretas. Elas são atacantes organizadas... Um batalhão delas chega primeiro, descobre a entrada da colônia e força a invasão. Trava-se aí o primeiro combate, os soldados residentes defendendo o orifício de entrada,  brigam valorosamente num corpo-a-corpo infernal, legiões se revezando com disciplina, tentando bloquear a tomada do castelo-cupim, a termiteira inexpugnavelmente sólida, paredes cimentadas pelas partículas do solo que os insetos-construtores, as formigas-de-cupim,  compactando, aglutinam com saliva e secreções...
A luta é renhida, demorada...
Porém, chegou uma hora em que, numa carga cerrada, uma multidão de  formigas invasoras investiu sem trégua... E, aos poucos, porém inexoravelmente, vão tombando aos pés da colônia os camponotus termitarius, combatentes renhidos...
Os defensores, malgrado suas enormes mandíbulas nas cabeças vermelhas em forma de ampolas, são incapazes de repelir o ataque maciço das negras atacantes...
Vencida essa batalha, rompida a defesa, as guerreiras entram no ninho e vão, pelos túneis adentro, neutralizando as obreiras inimigas com picadas paralisantes, passando-as, inertes, para as carregadeiras-invasoras...
Chega a ser triste ver a destruição de tão singular civilização. Toda uma estrutura social, com suas castas funcionais bem definidas, se desmorona a cada ataque desse....
Extingue-se um mundo miudinho..
Os soldados-formigas-brancas, defensores do conjunto,  perecem primeiro...  Depois morrem as operárias que cuidam dos ovos e da alimentação de todos.
Alguns soldados defensores ainda lutam no interior do termiteiro, mas vão perecendo aos magotes, vítimas da superioridade numérica e bélica das atacantes...
A invasão se completa com a chegada à Câmara Real... Ali paralisam com ferroadas venenosas a Rainha, prenhe e barriguda, juntamente com o Rei fecundador.
Seqüestram por fim o casal real.
Em seguida, partem, em longas colunas num desfile triunfal,  carregando as larvas, os ovos, cada formiga dorilus seguindo com sua presa de guerra  - uma térmita - carregada  nas tenazes da mandíbula.
A enorme rainha de grande pança segue como um troféu especial, ao lado do rei do ninho,  enquanto o séquito dedica o máximo desdém aos soldados inimigos, meros vermes lignívoros, cupins mortos em combate, espalhados pelo chão ao redor, no sopé do cupinzeiro.
Nada mais ali lembra aquele exemplar estrato social... Tudo é destruição... Foi a hecatombe, o fim  para aquele povo enclausurado em barro e trabalho...
Dos vencedores, um pelotão de retaguarda vai recolhendo dali, e levando para seu próprio formigueiro, os seus  guerreiros heróis, tombados na luta, aniquilados na guerra..
No ninho das vencedoras, a Rainha Vitoriosa então, majestosamente, devora - aos bocados, ainda vivos -, a Obesa Soberana e o Impotente Monarca capturados, selando-se assim a extinção daquele reino adversário...



IX - A EMPREITA


OS DIAS passam, pra nós, cada instante se escoando, ampulhetálico,  numa lenta contagem regressiva...
Chega, enfim, o dia combinado para a Grande Obra de enfrentamento do Malvado, e  a gente está indo.  Quanto a mim,  vou com meus bentinhos escapulários pendurados no pescoço,  e gozando ainda da proteção extra do meu secretíssimo raminho sempreverde. Já o Gerson, o Boneca Cobiçada,  a conselho do pai, sô Anardo, leva nosso amuleto infalível, segurança necessária nessa Expedição que decidimos empreender sem o conhecimento dos mais-velhos lá da Sede.  Nossa aventura noturna tem um rumo: as terras do Guardamó, lá pros lados do Perau... O Boneca  sobraça seu galo preto amestrado e segue orgulhoso de ser nossa proteção na Empreitada.
(O Gerson  sendo o buscador de vacas para a ordenha da madrugada,  porém tendo tanto medo de Assombração que se esconde atrás da casa de Seu Tião, segurando o cavalo pelo cabresto, até o dia clarear. Todos vivem mangando dele. Porisso quer de todo jeito vencer seu medo, indo com a gente...)
Alguém se lembrou de chamar o Alício, sujeito bicharedo no serviço... Pretíssimo, com alvura dental à mostra... Tinha fama de meio-feiticeiro. Cavalo não passava por bem perto dele nem com rezaforte... Mas a desconfiança foi maior que a necessidade... E se fosse sócio do Cujo em alguma das feitiçagens?
Levam-se, contudo e sem dúvida, algumas armas brancas, pruma necessidade, quem sabe? E uma garruchinha-de-carregar-pela-boca, aliás muito bem feita, parecendo uma Mauser ou uma Lugger, obra artesanal minha, que a levo na mão direita, carregada nos conformes, espoleta de papel fixa no ouvido do artefato com cera de abelha, o cão repousando ali, no aguardo,  o elástico de câmara-de-ar desesticado... Ninguém ali desconhece o estrago que aquele berro pode  fazer...
Na provável eventualidade de uma súbita aparição assombratícia do antigoso fantasma, os protegidos  sabem o que fazer... Uma lanterna nas mãos do Toninho é nosso lume emergencial, fechando a fila indiana que segue trilhas bovinas.  Na dianteira,  já dito, sigo eu, agora luitador renomado, pelo desempenho na lúita com o Campeão da Santa Rita,  com outra lanterna, mão sinistra. Logo atrás, agora igualmente corajoso, vem o Mango, desvendados segredos, meu novo grande amigo, sempre sendo para todos o inesquecível campeão. Alguém, secretamente, cá entre nós, o Mané, da dona Parecida, exímio imitador de spikers irradiando partidas de futebol,  portando uma lanterna de luz vermelha,  pra uma emergencial claridade em outra dimensão...  Chegássemos enfim em um  êrmo, limpo, cheio de surujes remexidos por tatus. Ali era um terreno esgotado, de terra cansada... Era o local onde permanecia no diurno o Safardana... Aquela terra sáfara, naquele êrmo beira-lajedo, paredão pedroso, chão de pedregulhos, ao pé da penha, lugar deserto sob o penhasco das divisas com a Jaguarão... Esse trecho de terra não devesse nem constar em escrituras, por sinal... A  Colonha, lá embaixo, era uns fogos.  Sobre nós, o refrulho dos curiangos, a noite preta... Na vinda, saltamos o ribeiro córgo, pedra-a-pedra,  para isolar assombrações menores, assim deixadas pra trás, submersas no regato dos lambarís de prata...
Ninguém se lembra da hora exata, nem de onde o Congro veio. Mas, primeiro - e isso ninguém esquece - chegou a sua catinga horrorosa, um misto de merda velha, carniça e rabugem. Foi uma antecipação de um átimo apenas, mas nos avisou. Logo, pflux! era uma giganteza branca e feia, enormidade como de pétrea estauta talhada em gelo que esfriou até nossos ossos. Logo esse mal-cheiroso iceberg choveu-se em  derretida excrescência, nos salpicando de uma neve fecal de insuportável fedor. Ao cair no chão, como uma palpável Monera, foi-se moldando ali, à nossa frente, primeiro em um licorse, com um brilhante de inumeráveis quilates sobre seu único chifre frontal, e depois, de unicórnio passou a ser uma enorme mula, crescente do chão como uma planta, até se tornar uma besta sem cabeça, soltando fogo pelas ventas, cavoucando com cascos de aço o chão de pedras local, donde faiscavam chispas enormes como relâmpagos, enquanto ventusiava enormes peidos que empestavam o ambiente.  A gente, ali petrificados no susto, transidos, via se requeimar a vegetação circundante, e mesmo alguns arrepiados pêlos nossos,  nada podendo fazer,  sustados pelo medo...
Aí transformou-se em um Rei estranho e falador, de vestes douradas, acenando um convite amalucado pra gente  ir a um lugar, um tal Potosi, reino dele, sei lá...
Depois, a  Coisa metamorfoseou-se no que devia ter sido um dia: um homem.  Mas cadáver putrefato de homem, descarnado em várias partes, porém tendo na caveira os olhos intactos, esbugalhados, maus, fixos e avermelhados em sangue e fúria.  Abriu a mandíbula  - (sua língua era uma cobra podre e o bafo, de mil catacumbas e duzentos sarcófagos egípcios, por certo interessaria Champollion, mas em nós, merícico, provocou engulhos e estranha paralisia nas pernas petrificadas) - e emitiu um som dantesco, daqueles que habitam nossos mais macabros pesadelos e o que se entendeu foi um xingamento saindo daquele bruxo demente e medonho: - Merdãos, psífo, minholas, pausepú, segréis, mixúrdios, desoras, meutudo, sembora!  berrado isso ancim na maior hostilidade: assassina no desejo, grotesca no desabafo e fedorenta no resultado. E suas mãos esqueléticas e pútridas vieram crescendo como tentáculos em nossa direção, se multiplicando, virando,  ao fim,  cada dedo uma cabeça de cão nervoso, dentuço, mastim, boleado, babento e bravio.
Se o Carocho plúrimo queria só nos assustar, pra se divertir, ninguém sabe até hoje...
 O fato é que, do meio duma fumaceira colorida que ofuscava nossas vistas, surgiu não mais o bizarro esqueleto ameaçador, de tão feiosa feição, mas uma dançarina árabe, rebolativa em sete véus, envolta em música, executando lasciva dança do ventre, enquanto piscava - no mesmo momento - para cada um de nós, separadamente, com seus olhos azuis, ou verdes?, ou castanhos? e pálpebras negras como graxa nugget.
E de tal modo para cada um de nós ela apareceu de um modo diferente que, na descrição posterior, nunca chegamos a um acordo quanto ao tanto de roupa,  à cor dos olhos, ao formato da boca, à cor da língua... Mas na hora, hipnotizados pela beleza e pelos acordes musicais do ambiente, só com muito custo percebemos que era tudo uma ilusão, uma miragem.
Com essas chanhas, tanto de  nós tanto se aproximou, húmil,  o Guardamó que, de repente, estávamos cercados dentro de um ambiente de cristal, paredes em mármore, com torres de marfim, vidros vitrais coloridos salões enormes, como o de um sendo castelo de outras eras... Nós nos tornamos, então, um só, uma só pessoa, transformados em uma princesa adormecida e ele, o Fero, multiplicado ou subdividido,  passou a transmitir-nos a inocente imagem de Sete Anõezinhos...
Assistimos - como que vivendo no papel da personagem - como num filme, rodado ultra-rápido, o que  esses gnomos fizeram com a Bela  ao encontrá-la dormindo numa cama improvisada pela reunião de seus pequeninos leitos. Nos apavorava ficarmos ali, deitados em forma de donzela, enquanto os anões-duendes partiam lúbricos para o ato de sedução que nenhuma estória jamais ousou revelar...
Teria mesmo havido, naquela diáfana dimensão onde habitam os contos de fadas, um múltiplo estupro guardado em segredo?... Não dá, não deu, nem jamais dará pra saber, porque o palácio, cacos de vidro, camazinhas, tudo explodiu em fezes coléricas fedidíssimas e uma bizonha e mondronga careta nos tirou do encanto, dando enormes risadas, projetada numa árvore próxima, nos trazendo de volta à realidade do Perau, pasto escuro onde  re-estávamos em situação de desamparo e pavor.
- Xico-Inês é o meu nome, cretinos! -  a máscara luminosa sussurrou no ar, rodopiando ao nosso redor e a gente custando a entender aquilo. E falando isso, assim, arrepiava nossos mínimos pentelhos, vibrissas, sobrancelhas, buços e frouxéis...
- Invadiram meus domínios e vão pagar caro por isso!  dizia-nos,  meio grego, um archote humano, bonzo fogaréu, rudo, sáfio, mortinsano... E ainda dissesse, como se para me humilhar pessoalmente, em berros roucos, - ainda bem que ninguém entendeu direito - que "esse ramim semper verdis sua, és folhagem de plástica, gordimbobo, parte de um arranjo de flores falsas, de artifício, achado pelo vagamundo da viola no lixo duma casa de mulédama. Vai sêbobo pralá, siô!".  Na hora não compreendi direito a intenção dele nem mesmo o significado daquele palavreado todo. Mas intui na hora que ele queria colocar em mim um ceitil de dúvida.
Em seguida, foi crescente e rapidíssima a seqüência de transformações do Medonho  nesse encantamento: virando cipó-de-fogo, colunata de incenso, gnômon, touro zebu Charuto, panela preta, cachimbo de barro, invasão de escaravelhos, labareda de fogueira, professora aposentada, ministro de estado, canoa furada, mulher mentecapta pendurada numa forca - enorme língua projetada -, moldura carunchada, um travesti - rapaz de ar muliebre, planta de hospital, esterco de curral, botas engraxadas, locomotiva a vapor, um trem fantasma todinho nos trilhos, galinha preta, chapéu de palha, bambolês gigantes, foco de luz e, de novo, a personagem grotesca do desdefunto, santanário, bioco fantasmagórico, agora rabudo e chifroso, sancarrão, cruel e enfesado, carrascascavelmente...
Quando já não suportássemos o ritmo da taquicardia. No último instante, na horinha de sermos agarrados pelas mãozorras podres, o Boneca conseguiu fazer o seu galo cantar três vezes seguidas... Por encanto, ou simpatia, isso imobiliza a visão tredonha!  A entidade não pode mais andar, transmudar-se, voar, nadar, nem nada fazer...
Volta-lhe um semblante mais humano, porém inda urra berros horríveis, mesclados de melúrias e lamentos de engodo... Venta como furacão, desfolhando árvores vizinhas. Mas não sai do lugar, nem pode desaparecer para surgir alhures... Só sussurra, seguidamente, frendente: -  destruir, destrurr, destrrrr, desrrrrr, derrrrrr, drrrrrrr, rrrrrrrr.
Isso assim ocorrido diante de nossos olhares espavoridos, numa confusão de estupefação e claridade, extasiados com a visão desconcertante dos fenômenos, maravilhados com o funcionamento do Encanto e com a imobilidade daquela força sobrenatural...
Ainda pasmados com o comportamento grotesco da natureza, inda aterrorizados com a fúria e o esplendor dos elementos ali envolvidos acontece, para presenciarmos, algo mais inesperado, insólito e assombroso.
Numa derradeira tentativa pra se livrar dos amarrilhos e sair do lugar, o marroar Guardamó, perplexo ele próprio, num torvelinho, entre coriscos e ribombos, raios, trovões e mais relâmpagos, se  vê sugado, através de uma Janela Cósmica, para a multicolorida, abissal e sutil região da Quarta Dimensão, de onde nunca deveria ter saído, contrariando as Leis do Eterno...
Sua derradeira carranca horripilante e pertinaz,  do avesso, ficou ainda um pouco de tempo, pensa,  desenhada em forma de luz mortiça contra o negro do firmamento, como um arremedo de futuro holograma, e  logo sumiu de vez...
Quando o Portal Sideral se fechou (e tudo acontecia numa rápida sucessão de segundos) terminou a angústia da Natureza... Ouviu-se um arbóreo murmúrio de alívio percorrendo as circunjacências, especialmente entre as centenas de Aroeiras do Perau... 
Do Feio Verdugo só restou no ambiente algo rescendendo a aniquilamento, repugnância, frustração, repulsa, nojo e asco. 
Como um catamênio maléfico, ele empreendeu seu desitinerário ao local de onde partira, porém voltando por caminhos outros, em busca de um diverso fadário...
Bambúrrio, sorte grande... Sim, foi o que se passou com a gente, pois dava pra lembrar,  depois do silêncio atônito que nos deixou tartamudos por vários minutos, entre o absorto e o assustado, o admirado e o amedrontado, que a Aparição era de uma maldade radiante, inimigamente inimaginável.
Ela nos dedicava desprezo e aversão, desejava nosso extermínio. Era nosso oposto, querendo ferir-nos de corpo e alma... Qualquer contato físico com ela teria sido perigosíssimo, de resultados catastróficos, fatal...
Toda a Natureza se aquietou, nos costumes, enquanto vínhamos voltando. Só a gente  sentia que no  Dito Cujo se confirmava a existência do Mal, do Todo-Ruim...
A madrugada vinha surgindo do fundo da noite, como uma onda nascida do mais profundo abismo do mar... Essa longametrágica noite de pesadelos, como de fita de cinema, ficaria durante anos me desdormindo o sono...
Nosso retorno foi recebido com alegria e alívio pelo pessoal da Colonha, já então cientes da Empreitada e agarrados no Terço de Intercessão.  Fizeram uma festa, admirados com nossa coragem e intrigados com nossa lacticoloração. Foram insaciáveis nas perguntas. E a gente ia comendo - que voltamos esfomeados - e respondendo.
Entre muitos, chegou a haver dúvidas sobre nosso relato, devido às nossas respostas desencontradas... Mas, da molecada mais miúda, nos tornamos os heróis... Eles não se cansavam de ouvir - repetidas vezes - o mesmo conteúdo da nossa história...
Já os adultos não acreditaram e nunca acreditarão em nossa vitória definitiva sobre o Guardamó... Mas não é exatamente isso o que Ele deseja? 
Será que sem ele a Santa Rita se tornará uma  Fazenda  monótona como as demais, e se dividirá em muitos sítios, sem nenhuma memória?...
Então, é preferível que para todo o sempre exista o Guarda-Mor - mas também a possibilidade de vencê-lo! - no Perau noturno da fazenda interior de cada um de nós...










fortuna crítica

Fazenda que alicerça
Luiz Cruz de Oliveira


Foi no começo da década de oitenta que soube da existência de um escritor chamado Oscar Kellner. Parece-me ter sido o Mauro Ferreira quem nos aproximou.
Foi na Primeira Semana do Escritor Francano que vi um trabalho do Kellner. Eu ainda era muito conservador, por isso minha surpresa foi enorme. Pareceu-me uma coisa demasiado esquisita aquele (Re) lógicas - poema-processo já então premiado e que ficou exposto no antigo prédio do Banco do Estado de São Paulo. Se a falha memória não me trai, como costuma fazer amiúde a bandida, peças de relógio, de maquinaria, faziam parte do conjunto pendurado na parede, ao lado de um poema de Zulíria Minicucci.
O que sei com certeza é que o Oscar Kellner já era conceituado como artista. Fora citado por crítico estrangeiro como um dos pioneiros no Brasil do poema-processo.
Tempos depois nos aproximamos, li os originais de livro seu. Achei o trabalho de suma importância, mas não consegui convencer o Oscar a publicá-lo. E o escritor sumiu entre rios e serras das minhas Gerais, buscando inspiração maior, talvez.

Um belo dia o poeta Calunga me procura entusiasmado. Descobrira um artista nos arredores de Delfinópolis (MG), onde estivera com os companheiros do grupo Bicho-de-pé. Era o Oscar.
Depois, muito antes de a rasteira divina me escurecer a escrita, li os originais de seu livro de contos Fazenda Interior. Fiquei maravilhado, à época, com o livro todo, mas sobretudo com dois contos que me ficaram. Um falava de cobras, outro, da limpeza de um rego d’água.
O tempo abriu e fechou porteiras muitas. E não é que, dias destes, ao me lerem alguns contos daquele livro, fiquei maravilhado? Tão fascinado como ficara anos atrás.
Não resta dúvida. Somente certezas há. O Oscar Kellner é um contista excepcional. O lançamento de Fazenda Interior é demasiado importante porque o livro do Kellner é tijolo de aço que se fixa nos alicerces da nossa literatura.


Publicado no Jornal Comércio da Francaa, na coluna Artes em 20 de novembro de 2009.


Luiz Cruz de Oliveira é escritor e professor




Fazenda Interior
Vanessa Maranha

Para o filósofo Gilles Deleuze, é beirando os seus próprios limites que a linguagem se mostra. Seria a escrita, para ele, portanto, “um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”.
Ainda que o escritor Oscar Kellner Neto, em seu recém-lançado livro “Fazenda Interior” (Casa do Novo Autor) percorra a literatura memorialística, na reedição de suas temporadas na Fazenda Santa Rita, em São José da Bela Vista, entre os anos 1956 e 1996, por meio de crônicas, no élan da estrutura fabulatória, que cumpre a função do ‘contar histórias’, é pelo trato com a linguagem que se desvela a beleza na sua obra, trazendo à palavra o potencial criador de pensamento.
Nesse sentido, “Fazenda Interior” se inscreve na tradição da narrativa roseana que, se possui linha de base, talvez seja essa: promover, pela palavra, a subversão dos modelos canônicos de narrativa numa prosa algo fragmentária. O experimentalismo, não só na tessitura do texto, nas inovações estilísticas de sintaxe e nos paratextos, também desfigurando clichês e promovendo uma desarticulação do estabelecido, assim como marca a obra de Guimarães Rosa, traduz a escrita de Oscar Kellner.
Não há, no livro de Kellner, o finalismo convencional da hermenêutica que caracteriza certo filão da literatura tradicional
Por isso, não se deve abordar “Fazenda Interior” com olhos lineares. Rearranjos lingüísticos perpassados por deslocamentos inspirados não somente, mas tanto, na fala sertaneja, se constituam em contingente desestruturação entre a fazenda ou, antes, o sertão (num sentido de gênese) e o mundo, numa estrutura marcadamente assimiladora, por meio de construções sintagmáticas que se valem sempre dos recursos da oralidade, como, por exemplo, fugassustada, rápidave, piscaluzir, picaflores, vizinholho no texto que abre o livro, “Paz-sarinha”
Outros aperitivos em elaboração de linguagem serão encontrados adiante em exuberância: “no pior, quando não, as cavalgaduras refugavam, passarinhantes, pondo um de nós no chão, doídos tombos, se inesperados, surpreseantes, os expelentes catapultos, os tais cavalgadoidos, funestos trêfegos, buliçosos, desinquietos à proximidade da aludida quiçá florestinha...”
Para a crítica literária Suzi Frankl Sperber, “ a abertura do sintagma, que abre um hiato entre signo e signo, entre sintagma e sintagma, poderá ser articulada (e, pois, preenchida) pela referência a um intertexto explícito ou implícito”.
O intertexto em Kellner parece situar-se nas miradas de “Tutaméia” e de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, autor, aliás que parece entranhado em toda a literatura produzida por autores francanos e regionais. Isso, em “Fazenda Interior”, se entrevê pela caracterização dos espaços e das personagens, pela apreensão do outro, pelo ponto de vista do narrador que apresenta os olhos virgens da meninez.
Alguns de seus personagens, como o Arroba, claramente autobiográficos, na narrativa, porém, em terceira pessoa, vão se mostrando como alteregos do autor. É que pela magia única (e talvez maior) da literatura pode-se dispor dos significantes aleatoriamente num ir e vir; é possível revestir-se do outro para compreender o mundo como só esse outro, por razões várias que o subjetivaram, enfim, poderia assimilar.
Para Rosa “o sertão está em toda parte”. Kellner carrega em si uma fazenda vasta, fresca e verdejante, com seus perigos ofídicos, suas tuias de café, “a fábrica de comida” em sua cozinha, seus mistérios, seus prazeres, mundos de dentro. Cada um tem os seus.


Publicado no  Jornal COMÉRCIO DA FRANCA, na coluna Nossas Letras, em 09 de janeiro de 2010

Vanessa Maranha é psicóloga, jornalista




Fazenda Interior
Edgard Pereira Reis

Fazenda interior são contos e novelas que procuram fixar, de forma positiva, os tipos humanos e costumes do meio rural. Com uma indisfarçável influência roseana, no trato com a linguagem. O autor, Oscar Kellner Neto, vem produzindo poemas de apelo visual e ficção desde os anos 70, tendo publicado, entre vários outros livros, os relatos Coivaras, em 1984. Trata-se de uma coletânea irregular, alguns textos (os mais afortunados esteticamente) moldados no formato sintético do conto; outros, mais desenvolvidos, tendem ao andamento multifacetado da novela. Os contos (esta evidência impõe-se ao leitor mediano) apresentam desempenho e espessura estética superior às novelas. O primeiro, de nome “Paz-Sarinha”, publicado sob o título de “O boi Charuto”, na revista Globo Rural, nos anos 90, é uma admirável realização literária. Nas peças de maior fôlego, o narrador empreende uma visão panorâmica em variadas frentes narrativas, sem conseguir extrair o núcleo essencial da trama. Se a estrutura se encomprida numa dimensão abrangente, pulverizando o eixo dramático central, não faltam porém, descrições esmeradas e ricas em colorido e graça.
O andarilho flagrado no mato, constante do fragmento intitulado “Lúita”, é outro momento criativo admirável, página digna de antologia. Uma breve passagem: “Depois que esvaziou o alforje encardido, arrancou lá do fundo uma fotografia envelhecida de sua velha mãe. Mostrou-o pro rapazola e ficou taciturno.
Aí, seus olhos se encheram de lágrimas, que desceram rolando pela cara suja da carusma dos infindáveis fogos acesos nos ermos... Enxugou os olhos com a fraldadesfiada de sua camisa imunda e aí deu pra notar que nem barba lhe havia: um apenas frouxel se lhe insinuava pelo queixo ...De seu corpo cantarilho exalava um tal odor ptármico, como talvez o bodum das roupas e botas encardidas de retireiros renatos, desleixados, os quais não as lavassem por infindáveis dias” (p.71).
O terceiro momento de apreciável desempenho descritivo é o relato da luta entre os opositores. Como o título sugere, o autor focaliza o espaço, tipos humanos e costumes das fazendas mineiras e paulistas. São referidos casos típicos, brincadeiras infantis, crenças, pragas de lavoura, receitas e um rol de informações, oriundas da sabedoria popular.
Um dos traços peculiares do livro é o caráter pitoresco da linguagem: a transcrição fonética do linguajar caipira. Tal propósito se, de um lado, reelabora um desdobramento da língua brasileira, propugnada por Mário de Andrade, de outro, dada a exacerbação, configura um aspecto datado e superado na evolução do nosso modernismo. Veja-se a descrição da cigarra: “Um grita: Sai de bacho! Goramemo vai mijá ni nóis!” Prevenidos, a gente logo a localiza, atracada ao tronco, com seus centímetros congrossos, possuindo translúcidas cristalinas asas, zunezumbindo agudamente seu chamado erótico enquanto vai sugando, ininterrupta, as gotas de seiva dos microveios das cascas das árvores...” (p.114).
Intuitiva e exuberante, a linguagem mergulha fundo no registro regional, carregada de modismos e corruptelas. Nenhuma nostalgia autobiográfica, em busca do tempo perdido. À parte as ninharias fonéticas, trata-se de um escritor de inegáveis méritos, de soberbo desempenho estilístico, arraigada vivência, conhecedor de artimanhas e sutilezas de efabulação.
Edgard Pereira Reis - crítico literário, escritor – BH – MG



Fazenda Interior
Marlene Becker


O livro, Fazenda Interior, constitui uma narrativa panorâmica dentro da qual se situam textos estruturados como contos e/ou novelas.
Nove temáticas se desenvolvem dentro desse espaço e cada uma delas retrata características das fazendas mineiras e paulistas, dentro das quais os personagens criam vida com seu linguajar espontâneo e pitoresco. O autor, todavia, não se limita a contar histórias, vai além, construindo um universo fascinante onde o leitor se encontra a cada momento, consigo mesmo.
O sertão é dentro da gente – disse Riobaldo.  Da mesma forma, a Fazenda de Kellner é interior porque escapa do mundo para o mundo reconstruído pela imaginação, pela memória, pela fantasia, tornando-se passível de ser apropriada, recriada, internalizada por cada leitor.
A linguagem utilizada é uma característica forte deste livro.  O autor,no seu processo de criação, faz uma estilização das formas de expressão, recriando, através de procedimentos estilísticos uma simulação verossímil das características do falar rural.
Os personagens, vários e fortes, vão conquistando o leitor, especialmente Arroba, também chamado Vitamina, que vai tomando contornos mais nítidos à medida que se avança na leitura,
Outro aspecto digno de nota é a diferença de linguagem encontrada em cada conto e dentro de um mesmo conto, por força da necessidade expressiva dos personagens. Messias, por exemplo, toma tal estatura que se torna inesquecível: ¨eu rezava pruma alma, meu corpo rupiava todo. Tornava a me pedir, eu tornava a rezar (...) A gente ouvia uma musga da igreja.¨, Seu linguajar é o que mais se aproxima do ¨caipirês¨ rústico e sua imagem configura um tipo humano extremamente interessante.
As personagens femininas inspiram ternura, mas não são tão fortes quanto as masculinas, isso se deve, talvez, ao fato do autor relatar brincadeiras e feitos (pescarias, caça ao gato etc.) mais ligados ao mundo infantil masculino, ou porque na sociedade rural o papel da mulher é mais definido, assim, a Darva aparece de cócoras, sob a janela da cozinha, espremendo espinhas e cravos da idade dela¨, a Dita, cozinhando rolinhas, lavando roupas ou fazendo ¨guaiabada¨.
No conto, Os Ossos do Ofídio, o leitor é levado a perceber o movimento, o espaço, o percurso da criança aproximando-se da víbora. A cena torna-se quase visível: ouvimos os guizos do ofídio vibrando e vemos sua cintilação furta-cor, hipnótica. Essa construção imagética dinamizada pelo suspense reflete a grande maestria do autor.
O primeiro conto do livro, Paz-Sarinha, destaca-se pela delicadeza e lirismo implícitos na construção do enredo, na imagem poética que emerge da história. Quando o boi Charuto era, ainda, vivo, a garrinchinha parda, ao se alimentar dos carrapatos que o atormentavam, dava-lhe alívio, depois de sua morte, em sua caveira ela nidificou. ¨E estava escrito que, no futuro, ele continuaria a se relacionar com ela, sendo seu abrigo, toca, refúgio, retiro ou esconderijo. ¨.
Fazenda Interior é um livro que se impõe pela qualidade textual, pela técnica, pelo inusitado da linguagem, pela originalidade.
O autor, Oscar Kellner Neto, natural de Franca- SP, reside em Delfinópolis, MG e também se dedica à pintura e escultura, áreas em que, igualmente, vem se destacando.

Marlene Becker – professora, ficcionista e poeta – Franca – SP - 12-08-2011.



Acerca da obra ficcional de Oscar Kellner Neto
Maria de Lourdes Hortas

A experiência de criação, segundo os mais atualizados estudiosos da obra de arte, pressupõe uma relação triádica, ou seja, uma relação que envolve o artista, a obra criada e o público. Assim, a  criação só se torna completa quando alcança o  outro, ou seja, o receptor.
Este pensamento não é tradicional. Ao longo dos tempos, a obra de arte  - fosse ela pintura, música ou  literatura – concretizava-se no objeto da criação. Mas, de uns tempos para cá, percebeu-se que a arte é uma experiência estética que ultrapassa o objeto criado pelo artista. Tal percepção exige do criador a expansão de campos e categorias, bem como a preocupação de investigação e pesquisa.
Oscar kellner  Neto é um bom exemplo de artista contemporâneo. Ficcionista, poeta  e artista plástico, vem  desenvolvendo  a sua obra, conduzindo-a confortavelmente pelos vértices  escolhidos, ampliando, assim, o significado  de cada uma das suas vertentes.
Como resultado, e no caso da literatura, por exemplo, cada vez menos lhe importam as classificações de gêneros. Ao debruçar-se sobre o seu processo de criação, jamais se preocupa em enquadrar a sua obra, rotulando-a,  a priori,  de conto, novela, ou romance.  O que o autor deseja, é aquilo que a sua produção causará na relação triádica acima referida.
Tudo isto me ocorre  ao concluir a  leitura do  seu livro   Fazenda Interior.
Diante da riqueza de conteúdo e do valor formal da referida narrativa, concluo que a mesma exemplifica bem o caso da relação triádica que  acima referi.
Escrita com arrojo e sentimento, a fábula desta  narrativa, embora tenha  como suporte  a   recriação das   suas lembranças de infância, transcende e transfigura a realidade.  Utilizando  recursos que vão muito além da  linearidade das memórias, o autor lança mão de imagens poéticas, que pictorizam   os espaços, ultrapassando o plano concreto e atingindo plataformas de surrealismo.
Desencadeando as suas estórias num ritmo singular, que nos alicia e prende, Oscar Kelnner Neto atinge o diapasão só alcançado pelos grandes mestres da narrativa universal. Paralelamente, agrega à sua escrita o resgate de  palavras que o tempo poderia soterrar no esquecimento, acrescentando a estas páginas antológicas  um valor irrefutável, pelos elementos sócio-documentais e antropológicos  que a permeiam.
Por isso, não tenho receio de afirmar que  este livro,  bem como as  demais obras da bibliografia de Oscar Kellner Neto,  hão de  ser objeto de análise atenta e pormenorizada, trabalho que, certamente, será elaborado, no tempo certo, por  estudiosos munidos  de conhecimentos técnicos que não possuo. 
Maria de Lourdes Hortas – escritora e artista plástica
Aldeia dos Camarás, (Recife – PE) - 16/08/2011









OBRIGADO POR LER ESTE LIVRO.

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