terça-feira, 14 de julho de 2015

O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM - CONTO

oscar  kellner  neto





O  crime perfeito
de
Sezogla Suem




- conto -






Delfinópolis-MG - 2009


















































"-Olha Kellner, você escreveu esse livro usando uma pena tirada da
asa de um anjo, mas usou como tinta o sangue de um demônio"...

Salles Dounner


































Dedico este livro
Como um preito
À memória de
Agatha Christie.































NOTA: As situações criadas nesta obra são fruto exclusivo da imaginação doentia do autor: qualquer semelhança com situações passadas ou presentes, ou com pessoas vivas ou mortas da vida real é mera coincidência ...




















“Vai fazer dois anos ... Como me lembrar de tudo? Omitirei algo? Talvez ...
Não sei por onde começar. Onde tudo começou ou onde começou minha vontade de começar?
Mas não sei onde tudo começou. Nem onde começou ou se começou minha vontade de começar ...
Mas preciso. É urgente. Vamos tentar – juntos? Meu nome é Brojes Haller.
Vou fazer de conta que estou vivendo aquilo tudo outra vez. Assim será mais fácil.
Anularei o tempo e o espaço transcorridos!”

 

acordes iniciais





Estou em meu escritório.
É quarta-feira, 16 de janeiro de 1.974.
A tarde é quente e o serviço de fim-de-ano me faz transpirar além do normal. Encerro balanços contábeis, apurando lucros e prejuízos.
Estou de regime alimentar, a fim de reduzir alguns quilos que me sobram (traduzidos em gordura). Nesses dias não tenho ido jantar em casa às 18 horas – meu horário normal – de fechar as portas.
Para adiantar meu trabalho, vou direto até às 22 horas quando encerro o serviço e vou para casa. Então me alimento.
Essa medida tem feito render mais o meu trabalho. Quando ia jantar às 18 horas – para voltar depois e ficar até às 22 – sempre me atrasava, pois os meninos queriam brincar e solicitavam demais a minha presença.
Aproximam-se as 19 horas.
Meu carro estaciona defronte ao escritório e aciona a buzina. Acorro ao chamado de Anicla – minha mulher – encontrando, de surpresa, Laici e os meninos que chegaram da roça.
Anicla, que saiu a passear com eles, manda-me que vá jantar, pois deixou tudo pronto e como saiu com nossos meninos também, poderei ir e voltar rápido ao trabalho.
Após eu cumprimentar as visitas, perguntar a Laici por seu marido Hovil e os outros filhos, e ficar sabendo das novas lá da roça, Anicla diz que vai dar umas voltas. Ainda: que Camélia foi ao dentista e seu pai está em casa sozinho.
Disse-lhe então que iria jantar depois. Ela me respondeu que não demorava muito, e logo chegava em casa para a novela “Evas da Praia”.
Despedimo-nos.
Voltei a me concentrar no livro “razão” que transcrevo do livro “diário”, da firma Honesto Vasto Soar.
Pensando na proposta do jantar – eu, que estava já faminto – resolvi interromper o serviço. Fechando as portas, saí, dirigindo-me para casa. Fui pela rua de cima, a Coco Bugalhões.
Com minha chave abri a porta, que estava trancada, e entrei. Luzes apagadas, persiste no ambiente uma tênue claridade do dia que finda. É o lusco-fusco.
Reparo que meu sogro, Adorasterra, dorme em seu quarto.
De soslaio. Se não dormia, parecia, pois estava na posição habitual em que adormece sempre.
Alimentei-me rapidamente. Ao sair, olho novamente para o quarto do sogro. Tranco a porta de novo e rumo para o escritório.
Desci a rua Federal Ossário, tomei a Injusto Darx, cruzei a Federal Ordeiro. Na esquina da Injusto com a Voluntários, entrei no bar do Pedarlos. Conversamos qualquer coisa e subi para o escritório, no n.º 1.183 da Voluntários de Rodelas do Norte.
Vendo movimento no Foto do Zalinho, encontrei-o em companhia de dois amigos nossos, Verto e Zago. Novamente, converso coisa e loisa e voltei para o escritório, porta ao lado.
Abri-o. Debrucei-me sobre os livros novamente.
Passa um mendigo-larápio que conheço e logo me descarto dele. O tempo corre, estou fazendo agora um índice no “razão” do Honesto, para facilitar a busca das contas.
O Pedarlos, do bar da esquina de baixo, passa e pára um minuto, como tem feito todas as noites anteriores.
Pergunto-lhe as horas. Me informa que é nove menos cinco. Diz que está com pressa, que está levando sorvete na sacola e se demorar, derrete. Tiau. Tiau.
Concentro-me novamente no trabalho.
Súbito, entram no escritório – que conserva meia folha da porta fechada – uma vizinha de minha casa, acompanhada dum rapaz.
– O Sr. Adorasterra está passando mal e Anicla me mandou chamá-lo.
– Ok. Fecho o escritório e já vou indo. Obrigado.
– Não. Nós te esperamos. Você está a pé e nós, de carro!
– Ok.
Embarcamos os três num Fusca. Chegando quase defronte minha casa, vejo – alarmadíssimo – uma multidão concentrada nas cercanias.
O ambiente respira tragédia ... Terá acontecido o pior?
Ouço gritos histéricos. Choros de crianças e mulheres.
Atravesso a custo a multidão de curiosos e chego à porta.
PUTA QUE PARIU!!! NOSSA SENHORA!!! O que vejo?
Adorasterra em decúbito dorsal, mira com olhos vidrados um ponto ignoto no forro de minha sala, em meio a enorme poça de sangue, onde pousa sua cabeça, cujas cãs lentamente vão se manchando de escarlate ... Os pés virados em direção à porta onde estou. A cabeça na soleira da porta da sala com a copa. Pernas ligeiramente entreabertas ...
À minha direita, nossa! Na hora, me vem à idéia a imagem da “Pietá”: Laici, de joelhos, tem no colo a cabeça de sua filha Camélia que sangra lentamente pelo nariz.
Um vizinho me ajuda e colocamos a menina-moça no sofá da sala, pedindo a retirada de adultos com crianças no colo, inclusive, Varizina com o meu Gunther nos braços.
Ela parece alucinada, mirando com olhos fora das órbitas os corpos desalinhados... Mando-a novamente se retirar.
Saem alguns curiosos da sala. Outros permanecem.
Teimam em mirar a desolação e a tragédia que irromperam em minha casa. LOGO NA MINHA CASA! Numa sala pacata da rua Federal Ossário, n.º 1.170 ...
Essa multidão em minha sala!
– Gente, chama o pronto-socorro!
Inocência maldita! Eu não queria acreditar que eles estivessem mortos ...
Telefono. Não atendem no pronto-socorro. Polícia: não atendem.
– Polícia já chamamos! – grita alguém.
Anicla me fita longamente, perdidamente. Me diz baixinho: Foi tiro, Brojes. No papai foi tiro, Brojes ...
Não quero acreditar. Vou buscar um médico.
Pânico. Ninguém me acompanha. Pego as chaves do carro.
Subo no veículo, sigo por minha rua até a rua do Negócio, onde entro a esquerda. Paro o carro sem desligar e desço em casa de meu pai. Fechada! Bato, ninguém atende.
Uma vizinha, D. Luz Ilha, recebe meu recado: mande por favor papai e mamãe descerem lá pra minha casa que há uma confusão danada lá!
Volto ao carro. Sigo a rua do Negócio até a do Boticário, viro à direita, subo, cruzo duas outras, vejo um carro da radiopatrulha bem à minha frente. Vira ele na Amplos Vales e sigo-o piscando os faróis. Ele pára. Peço-lhes – são dois policiais – para irem à minha casa controlar a situação de caos que lá se encontra. Respondem-me que estão indo para lá.
Arranco e vôo em direção à Santa Casa, cruzando ruas até chegar na Voluntários: dobro à esquerda. Na primeira, viro à direita, Túlio Amoroso e chego. Desço do carro correndo em frente à portaria da Santa Casa.
As atendentes me pedem calma. Procuram, mas não acham, nenhum médico, que não o de plantão – que não pode sair – disponível. Pedem para trazer os doentes ou acidentados para o Hospital.
Volto correndo para o carro. Manobro. Sigo a Túlio Amoroso em direção à Federal Ordeiro, onde dobro à esquerda e sigo em frente até chegar à Injusto Darx, onde viro à direita e logo encontro a Federal Ossário. Viro novamente à direita e estaciono o carro à esquerda, longe de casa, pois a aglomeração é tanta que não possibilita maior aproximação.
Desço do carro, coração na mão. Chego novamente para enfrentar a visão daquela hecatombe doméstica.
No alpendre, um policial guarda a entrada da casa.
Me barra.
Após as explicações, entro: os corpos, do mesmo jeito.
Tento ajuda para levar os feridos à Santa Casa.
Mas um policial que vasculha a casa com o máximo cuidado, me desperta: “Não precisa mais não, moço. Eles tão morto ...”
Isso me caiu em cima com tamanho peso, que tive de me desdobrar em forças para não desabar no chão.
Ele me serviu um copo com água e tomei um comprimido.
Fui ao telefone e pedi um interurbano para Galharia. Queria comunicar o fato ao cunhado, Fio Derrapina.
Falo inicialmente com sua mulher. Atendendo ao chamado, ele veio ao aparelho. Com cautela contei-lhe o ocorrido: estavam os dois, mortos. Não se sabia ainda como, nem porque. Aguardávamos as autoridades. Desliguei, após recomendar-lhe vir com alguém que o substituísse à direção, devido ao seu estado emocional.
Procurei saber de meus meninos.
Enquanto o policial cautelosamente examinava a casa e fundos, saí para o alpendre.
Encontro parentes meus. Bêtinha e Darla, minhas irmãs, em lágrimas, desesperadas com a tragédia.
Um homem – cujas cinzas do cigarro caíam-lhe no paletó – falava como se soubesse das coisas e dizia: “Foi crime passional sem dúvida alguma ...”
Não me liguei em sua conversa (por mais tempo do que o de ouvir essa asneira precoce, verdadeira jóia da adivinhação popular ...).
Era o início de seus longos palpites ...
Os meninos estavam nos vizinhos. Fui até eles.
Davam trabalho. Não queriam adormecer. Estranhavam as camas.
Nos vizinhos também Anicla, Laici e seus filhos.
A cada minuto a multidão aumenta. Os murmúrios, as opiniões, as exclamações, o bate-boca. Tudo funde-se num vozerio informe que me estonteia.
Mais curiosos chegando, chegando ... Parentes e amigos se inteirando dos fatos.
Meu irmão, Figonar, chega da fazenda, avisado que foi por Saulo, namorado de minha irmã, Pit-Biím.
Estava de férias com a família ...
Entro na casa novamente, pisando com cuidado para não destruir pistas ou manchar os pés no sangue do chão.
Camélia, no sofá, parece dormir – apesar do sangue no rosto.
Adorasterra, no chão, parece ter estado sempre morto desse jeito.
É tudo uma questão de posições ...
....
Estranho é que agora essas coisas passam em minha cabeça ao escrevê-las, com muito maior nitidez do que eu julgava tê-las visto. Interrompo a narrativa dessa cena de Paixão e Morte, para acender um cigarro e voltar a fita da máquina de escrever que enguiçou. Estou possuído duma paz tão grande em poder narrar do jeito que sei, isto é, dentro de minhas limitações, aquilo que julgava jamais poder relembrar conscientemente. Sim: conscientemente. Pois inconscientemente estas cenas me estragaram sonhos lindos e madrugadas sem número ...

 

alarde geral





Pareço uma barata tonta dentro de casa. Sem rumo.
Dirijo-me à cozinha e o policial cauteloso pede pra me afastar, pois, o matador pode ainda se encontrar no local ...
Agora chegam as autoridades. Os repórteres.
Exames. Fotos. Flashes de todas as posições. Perguntas. Hipóteses.
Primeiro foi Eduardo, ex-companheiro de trabalho no Beco do Arqueiro. Contei-lhe o que se passou comigo durante o dia. Aquilo que vocês já sabem, mais a manhã e a tarde. Contei tudo.
Perguntam se posso imaginar o que terá acontecido.
Penso mil coisas na hora e sai a mais absurda:
– Talvez o Adorasterra tenha se sentido mal e caído, tendo antes aberto a porta com a chave que carregava consigo. A moça ao chegar, o viu no chão, ensangüentado. Terá passado mal e desmaiado, batido com o rosto no chão ... É o que penso!
– Mas, dois tombos e duas mortes? É absolutamente absurdo! fala uma voz atrás de mim. (Mais tarde viria a conhecer bem mais de perto essa personagem, Betro Sacafino ...).
– Você foi o último que o viu com vida ... Comentou outro investigador, após eu contar minha história a um delegado de trânsito. E isso alertou outros investigadores que infestavam a casa.
Como? Quem? Quando? Quê? Onde? E foi um repetir sem número das mesmas coisas que já lhes contei. Horas e horas ...
Após demorada confabulação de todos os delegados, médicos, investigadores, repórteres e familiares, resolvem retirar os corpos para as devidas autópsias, que determinarão as causa-mortis.
Têm arma em casa? Mostro o Colt-38 doado por Adorasterra ao meu pequeno Alex, no guarda-roupas do velho: envolvem-no num pano e o cheiram. Guardam consigo, dizendo: Depois será feito o auto de apreensão. (A arma, descarregada).
Uma bengala que o velho Adorasterra usava como apoio, pendurada numa porta: a de seu quarto. Alguns amassados no cabo de metal. Perguntas. Guardam consigo.
Autoridades e mais autoridades chegando.
Perguntando. Perguntando ... Sinto-me acuado!
Confrontam respostas minhas com as de Anicla, no vizinho.
Nada sei de suas respostas e do seu dia de hoje.
Mais alguma arma? perguntam-me.
Levo-os até ao meu carro. Lá lhes entrego minha Beretta automática, calibre 22, com o pente carregado, sem cápsula na agulha, e o coldre com balas de reposição. Minha arma de viagem ...
Remexem na casa toda. Não falta nada? Nada mexido?
Latrocínio? Crime passional? Problemas na família?
E os repórteres pedindo fotos dos falecidos.
Mostro-lhes meu álbum de família. Forneço a amigos e polícia, algumas fotografias soltas. Guardo o álbum ...
No guarda-roupas de Camélia encontram algumas cartas.
E surge uma primeira pista: Da cidade de Capetinhas, um cara – noivo – quase casando, solicitando que ela fugisse com ele.
Dizem ser “nhambú na capanga”.
E para lá se dirigiram os três mosqueteiros...
A noite segue numa sucessão de chegadas e idas.
Fio Derrapina, filho natural de Adorasterra, chega.
Gente partindo de carro para buscar gente.
Lá fora o tumulto cresce minuto a minuto.
Após diversas conversações, e autorizados pelo delegado Gebofe, passamos à limpeza da casa – da sala, melhor dizendo – para posterior acolhida dos parentes, familiares e corpos para velório.
Colegas do tempo de solteiro, vizinhos, amigos, ajudaram o meu pai, Rubles, na retirada das poças de sangue e dos respectivos respingos salpicados por todo lado.
Lançaram-se dois detetives sobre um mulatinho amigo, o Xirico, pois ele abriu a porta da sala com a mão canhota, fora do natural, para eles. Pediram para fazer aquilo de novo e o amolaram bastante ...
Encontraram, posteriormente, sinais de sangue na maçaneta da porta da cozinha.
Os objetos, jóias e roupas de uso pessoal das vítimas, seguiram para exame pericial. (Coisas que aliás, nunca receberíamos de volta, bem como as armas apreendidas).
E a noite penetrou a madrugada.
E nela, a primeira certeza: uma bala, calibre 22, pôs termo à vida do velho. Na menina-moça, uma incógnita: não há vestígios de penetração de tiro, ainda.
Parentes esparramados pelos quartos de dentro, descansando, vindos de longe. Os meninos dormindo em meio à confusão generalizada. Um sono que me dava inveja ...
E a madrugada transforma-se em alvorada.
Com esta nasceu o dia 17 de janeiro de 1.974 ...
Com ela vieram os jornais com as notícias, em escandalosas manchetes. E a população da Rodelas do Norte, ficou sabendo das novidades, lendo as notícias:

“ANCIÃO E MOÇA ASSASSINADOS ENQUANTO ASSISTIAM TELEVISÃO.
Dois corpos caídos nas sala, em meio a poças de sangue; a televisão ligada; porta do fundo entreaberta e porta da frente fechada, mas destrancada; nenhum sinal de luta nem a arma do crime; um revólver – possivelmente calibre 22. Este é o cenário de dois crimes ocorridos na noite de ontem por volta das 20 horas e 45 minutos, na residência n.º 1.170, da rua Federal Ossário, onde perderam a vida Adorasterra Derrapina, 78 anos e Camélia Zum, 16 anos.
OS FATOS: Por volta das 19 horas, Anicla Derrapina Haller, irmã da vítima, saiu para um passeio com seus filhos de 3 e 2 anos. Brojes Haller, marido de Anicla, estava em seu “Escritório Verde”. Na residência ficaram as vítimas. Pouco depois Camélia saiu para ir ao dentista, voltando para a casa.
Tudo parecia tranqüilo quando Anicla voltou do passeio.
Entrou na residência, acompanhada dos filhos, sofrendo terrível choque ao ver, estendidos no chão da sala, os corpos de Adorasterra e Camélia, banhados de sangue.
Retirou seus filhos e tentou socorrer as vítimas, tendo levantado a menina, colocando-a sobre um sofá. Depois, não teve forças, gritando pelos vizinhos.
O fato foi comunicado à autoridade policial que compareceu ao local, iniciando o levantamento. Os corpos foram fotografados na posição encontrada e transladados para o necrotério da Nova Rodelas, onde na madrugada de hoje, serão submetidos à autopsia pelo médico legista, Dr. Jobaxim Perri Bero.
A princípio tudo é mistério, tendo a polícia levantado algumas suposições. O fundamental – as pistas – para a elucidação do crime, não foram deixadas, o que complica a ação da polícia.
Posteriormente, num exame mais profundo, encontrou-se uma perfuração no ancião, feita a bala, na região frontal direita, saindo na nuca.
Na menina, o tiro foi em uma narina, com chamuscamento na parte exterior do nariz e parte dos lábios.
Os corpos estavam caídos na pequena sala, não podendo haver uma afirmativa categórica em relação à menina, já que o corpo foi retirado pela irmã.
O corpo de Adorasterra estava tombado na porta, entre a sala e a copa.
A televisão ainda funcionava, o ancião estava com um pijama e a porta do fundo entreaberta, foram os detalhes principais anotados pelos policiais.
Pouco depois do crime compareceu ao local o médico Dr. Fieso Jagor de Tornela. A seguir foi feito o levantamento e os corpos levados ao necrotério para a autópsia.
Na residência n.º 1.170, da rua Federal Ossário, residem o Sr. Adorasterra Derrapina, Camélia Zum, Anicla Derrapina Haller, Brojes Haller e seus dois menores com 3 e 2 anos.
O Sr. Adorasterra já algum tempo estava enfermo, tendo sofrido recentemente um derrame cerebral. Quase não andava e só o fazia com auxílio dos familiares.
Camélia Zum, 16 anos, tinha o Sr. Adorasterra Derrapina como pai adotivo, sendo que sua mãe, Laici da Jogatina Zum, reside na Fazenda da Bota, município de Coivaras e que, coincidentemente, estava em Rodelas do Norte ontem para uma visita à filha.
Aparentemente nenhuma informação pôde ser fornecida e por isso a polícia se recusou a dar detalhes.
O que se observou foi que logo após a retirada dos corpos das vítimas, delegados, investigadores, escrivães, iniciaram um levantamento minucioso, observando todos os pontos de interesse.
Como o assassino entrou na residência, também não se precisou. Sobre a possibilidade de que mais de um elemento tenha participado dos crimes, nada foi ventilado, presumindo-se que isto não ocorreu.
Perguntados a respeito, os vizinhos disseram não ouvir tiros, gritos de socorro e nem mesmo uma movimentação considerada anormal.
Para o início das investigações, a polícia deverá descobrir primeiro o tipo do crime. Se passional, latrocínio, vingança ou negócios. O latrocínio, a princípio o mais provável, torna-se remoto, pelo fato de nada na residência ter sido tocado, não se notando, a princípio, a falta de algum objeto.”

Eis aí como a população se inteirou dos fatos.
Só que na correria para a exploração gráfica da tragédia, a imprensa omitiu, inverteu, mudou, torceu os fatos-satélite do acontecimento, generalizando a confusão.
Primeiro: Anicla saiu a passeio, após Camélia ter saído para o dentista, e não antes.
Segundo: Anicla não foi ao passeio apenas com os filhos. Laici a acompanhava com seus filhos também.
Terceiro: Quem levantou a moça foi a mãe. Até o colo somente. Fui eu quem – com a ajuda dum vizinho – coloquei-a sobre o sofá.
Quarto: O Sr. Adorasterra não sofrera derrame cerebral recentemente. Apenas uma ameaça.
Quinto: Quem tem para pai adotivo o Sr. Adorasterra é Anicla e não Camélia, que apenas fazia companhia para a irmã, na cidade.
Sexto: A mãe de Camélia, Laici, não reside na Fazenda da Bota, mas na Fazenda Santa Cordélia, no município de Coivaras, junto ao pai de Camélia, Sr. Hovil da Jogatina Zum.
Vê-se que houve – para quem conhece a família – muita precipitação por parte da imprensa ...



















confíteor




Um parente deverá partir em meu carro em busca do restante da família de Camélia: pai e irmãos que residem na Fazenda Santa Cordélia, em Coivaras.

Viaturas policiais vêm e vão. A busca dos Mosqueteiros foi vã. Querem novas informações. Buscam novas pistas ...
De posse dalgum dado, partem ... às vezes para longas viagens ...
A busca do matador vai-se prolongando demasiadamente ...
E nessa manhã agitadíssima, recordo alguns pontos de minha vida de casado. Vida de contato com as vítimas ...
Em instantes, repasso muitas recordações ...
Casado em 1.969, já não era íntimo do sogro.
Rusgas havidas, por fuxicos e cochichos relativos a questão de casamento por interesse, por parte de familiares seus, levaram-nos a um esfriamento no afeto.
Passamos desde então a nos tratar dum modo cordialmente discreto.
Servia-o eu, no máximo ao meu alcance. E fui servido por ele da mesma forma.
Intrigante era sua disputa pelo afeto da filha única, que julgava perdido para mim.
Nos menores gestos, a opulência de sua posição econômica sufocando meus esforços de conciliação.
Com o nascimento de Gunther, o primogênito, a luta surda teve uma trégua.
Mas voltou reavivada pelos despiques do ancião que não conformava do neto não levar o seu sobrenome ...
Irrompia o velho noite adentro em nosso quarto para vigiar o menino. E discutíamos por coisas banais.
Logo o afeto pelo menino – que doentinho, quase morreu – dobrou-se. Amainou os seus sentimentos negativos em relação à minha pessoa. Foi o padrinho do nenê.
Mas julgava-se o dono da casa, invertendo posições.
A casa era minha. Era ele quem morava em nossa companhia.
A casa, herança de minha mulher por morte da mãe, anos antes, com o nosso casamento passou a me pertencer também ...
E, com espírito conciliador, tocava eu a vida. Dividindo o afeto da esposa com o sogro e o filho.
Com o nascimento de Alex, as coisas melhoraram bastante.
Eu trabalhava fora, em Sópedras, viajando diariamente.
Foi uma solução que encontrei, para me afastar e fazer-me necessário no ambiente familiar.
O que – diga-se de passagem – resultou ótimo.
Alex levou Derrapina no nome. Para euforia do velho. E de Anicla.
Com relação a Anicla, a diferença de cultura e posses influiu diretamente em nosso comportamento a dois.
Acostumada à abastança dos tempos de filha-rica, só não passou privação maior com meu pequeno salário de funcionário público, porque o pai a socorria vez e outra.
Eu, acostumado à abastança intelectual de pintor e poeta oficial da cidade, só não passei necessidade e me estratifiquei, devido aos muitos amigos que amiúde me visitavam e aos colegas de fora, com quem mantinha correspondência pelo país inteiro.
Era impossível um diálogo com minha esposa, em questão de vanguarda e arte em geral, e filosofia de vida ...
As dificuldades de toda espécie nos foram afastando ...
A imaturidade cobrando seu preço.
Choques inevitáveis aconteceram: Adorasterra se aproveitava dessas ocasiões e cobria a filha de razões, “puxando mais brasa para sua sardinha”.
Numa situação insustentável de agressão – alta madrugada – chegamos à beira do desquite, fortemente fomentado por Adorasterra. Tudo por problemas fúteis, relacionados às crianças.
Queixa policial foi recheio dum casamento destinado ao fim ...
Afastei-me do lar, buscando a casa de meus pais, onde fui recebido.
Passou-se algum tempo e tudo se normalizou, com os ânimos serenados.
Com perdões sensacionais de ambos os lados.
Mas o dia-a-dia monótono e pobre ia consumindo nossas reservas de boa-vontade: era a imaturidade – sempre – cobrando seu preço.
Tínhamos uma fazenda em potencial: Fazenda da Bota, que Adorasterra teimava em mal-administrar sozinho na sua longevidade.
No entanto, consegui me libertar do emprego e passei a trabalhar por minha conta: Escritório Verde.
Sogro ajudou com empréstimo. Mas, mais ajuda recebi de Yosef Queimado, de Sópedras. Nos primeiros tempos, meu sócio.
Nosso lema: confiança e trabalho!
Um dia o escritório ficou sendo só meu.
E me dediquei de corpo e alma ao ganha-pão.
Em julho de 1.972, Adorasterra doa sua fazenda aos netos. Aos filhos de Fio Derrapina e aos meus. O gado foi repartido entre o filho e o genro. Metade da fazenda ficou para cada grupo de netos.
Assim as coisas tiveram uma melhora geral.
E começamos a nos dar bem melhor. Engrenamos uma época de muita harmonia no lar.
No dia – aqui volto das lembranças – da tragédia, tentara eu um empréstimo de Adorasterra, por meio de Anicla, que envergonhada negara-se a solicitar ao pai. Era pra consertar alguns amassados ligeiros na lataria de nosso carro Opel, pensando já na viagem que faríamos em fins de janeiro à fazenda, onde faríamos pamonhas, pois o milho verde chegava “no ponto”.
No mesmo dia, à tarde, fui à casa de meu pai, ver uns assuntos do Instituto de minha mãe. Desiludido com a incompreensão de Anicla em conseguir o empréstimo que beneficiaria o nosso carro.
Estive em algumas repartições públicas, tratando de assuntos vários. Regressei ao escritório por volta das 5 da tarde.
Os meninos – meus funcionários – se retiraram e eu fiquei. Ia fazer o “serão” costumeiro.
Foram essas as lembranças ... era esse meu estado de espírito ao ler as notícias dessa manhã, no escritório, onde fui acompanhado dum advogado amigo da família, recolher os jornais.
Sei agora, que todos haviam jantado e que Camélia partira para o dentista, antes de Anicla sair de carro com Laici e as crianças e passar no escritório me avisando para ir jantar ...
Sei agora que Adorasterra – que tinha uma chave da casa – deve ter aberto a porta, que deixei trancada, para Camélia entrar em casa. Nossa! E se Anicla com os outros estivessem em casa com eles, assistindo a novela “Evas da Praia”, o que teria acontecido? DEUS ME LIVRE!
Sei agora que é muita responsabilidade trazer filho dos outros para morar em nossa casa; para ajudar nossa mulher; para estudar – tratar de doentes – pajear meninos e ser tratado como filho da gente ...
Sei agora que Laici veio para ver a filha, após fazer uma cobrança de aluguel na cidade de Bordoal perto daqui. A filha que deixou partir chorando, da barra de sua saia, lá da fazenda para a cidade de Rodelas do Norte ...
Sei agora que Laici veio para ver a filha viva, algumas horas antes dela morrer ...
E sei, sobretudo, que os outros já estão me olhando dum jeito muito estranho...


dor




A casa continua rodeada duma multidão.
A autópsia ainda não foi iniciada. E notícias chegam dizendo que o calibre da bala não é mais 22. (Não sei porque, mas me aliviou um pouco ...).
Não sei o que faço da vida. É completa a desordem.
As perguntas estão me estonteando cada vez mais.
Tanta gente para receber, tantas pessoas vindas de Coivaras. Amigos, parentes de Adorasterra.
Pressinto uma estafa. Mergulho em períodos de escuridão.
O cansaço me domina. A expectativa me consome.
Meus cabelos se arrepiam a toa.
Minha casa é um caos!
Meus filhos, na casa de minha mãe, com uma pajem cuidando deles. A toda hora solicitam nossa presença. E estamos divididos entre eles, a polícia e os curiosos ...
Esclarecer, dirigir, mostrar, relacionar, responder ...
 A autópsia não se inicia!
Revejo meu álbum: alguém furtou – arrancando – algumas fotografias dele.
Passa de meio-dia. Parentes e amigos vindos de todos os lados estão aqui. Como acomodar a todos? E os meus filhos, como estarão? As horas passam ...
Dizem que a autópsia já começou.
Estive no necrotério acompanhando o Fio Derrapina, de manhã. Ele ainda não havia visto os corpos.
Senti por ele. Amava deveras o pai que nunca o reconheceu como filho, em rapaz...
Fizemos, no trajeto da volta, um trato: se não fosse descoberto o matador, oficialmente, nós pagaríamos a particulares para fazer o achado e entregá-lo à Justiça.
Foi numa lanchonete, onde comi um sanduíche, hambúrguer: primeiro alimento sólido em 20 horas.
De manhã ainda, havíamos recebido algum dinheiro de devedores – cujos títulos já se encontravam comigo para recebimento – e cuidamos de detalhes de sepultamento e urnas.
Agora, por volta das 16 horas, uma novidade: a bala assassina é calibre 32!
Pistas desencontradas, suspeitos, cansaço: eis meu cardápio para essa noite de insônia e velório ...
 Os corpos, liberados após a autópsia, voltam à minha casa para serem velados: 17 horas.
Alguém encontra uma cápsula deflagrada, calibre 22, num canto do alpendre. Forma-se um ligeiro bafafá. Logo dão o assunto por encerrado, com a entrega da mesma à polícia.
Os pais de Camélia – agora reunidos – continuam em estado de choque. Seus irmãozinhos, a um canto de seu quarto, amuados.
Os jazigos estão preparados ou sendo preparados.
19 horas.
Meus filhos estão impossíveis na casa da avó e vou lá acalmá-los ... Como responderão ao trauma? Foram os primeiros a receber o choque da descoberta dos corpos ... Qual será a influência em sua formação?
Chegando em casa de meu pai, deito-me com eles.
Adormeço-me com eles. Sobressaltado, acordo de madrugada.
Refeito do cansaço, ainda chego a tempo de velar os corpos por algumas horas, antes do enterro.
Um eletricista – separado da família – amigo de meu pai, é o coador de café oficial. Me faço seu amigo e recebe ele o penhor de minha imorredoura gratidão.
Algum sussurro.
Viaturas, multidão, carros desfilando em frente a casa, curiosos ... Numa mistura que não me sai das retinas: boêmias da zona do meretrício, pedintes, operários, aleijados, bêbados, ricos, comerciantes, órfãos, motoristas, domésticas, velhos, crianças, mulheres e homens, todos vieram com a manhã ...
O desfile diante das urnas – colocadas uma de cada lado da sala – começou com o raiar do sol.
Com o sol, as novas manchetes, trazendo as novidades aos rodelenses, ávidos de notícias: Duas fotos tétricas ilustrando ...
SÓ SUSPEITAS SOBRE OS BÁRBAROS ASSASSINATOS. COMEÇAM A APARECER DIVERSOS SUSPEITOS DO DUPLO HOMICÍDIO.
Embora a polícia tenha trabalhado intensamente durante o dia de ontem, não foram apresentados indícios que pudessem levar a algum ponto positivo sobre o duplo homicídio de anteontem, quando o ancião Adorasterra e a garota Camélia receberam disparos à queima-roupa, de um revólver calibre 32. São várias as suposições, muitos os nomes dos suspeitos, mas nada a revelar alguma coisa.
Fato que despertou maiores atenções: uma camioneta vermelha foi vista rondando a residência das vítimas, poucos instantes antes dos crimes.
A autópsia realizada ontem, das 13 às 15 horas, revelou os pontos atingidos e o calibre da arma (anteriormente noticiara-se que fora calibre 22).
Os corpos serão sepultados na manhã de hoje.
Toda a equipe de investigadores, escrivães e delegados de polícia de Rodelas do Norte, empenhada na captura do autor dos bárbaros crimes; nenhuma pista para auxiliar as investigações; autópsia contrariando suposições anteriores e os sepultamentos para hoje, é a síntese do caso em que foram estupidamente assassinados Adorasterra Derrapina e Camélia Zum.
A polícia continua encontrando grandes obstáculos, visto que não há nenhuma pista que sirva como ponto de partida.
O latrocínio foi apontado como o principal motivo, mas logo afastada esta hipótese, pois nada foi levado da residência (e nem mesmo remexida). Então, vingança, motivos de negócios ou questões familiares?
Ontem foi elaborada uma lista de possíveis suspeitas.
Dentre eles, membros da família (para a polícia “nenhum detalhe pode ser desprezado”), ex-namorados de Camélia e pessoas com possíveis interesses na morte do ancião.
Durante o levantamento efetuado na residência, foi encontrada uma carta de um rapaz de Capetinhas, que pedia à Camélia que fugissem juntos. Acreditando num crime por ciúmes, policiais, comandados por Dr. Vidro Amarelo, foram a Capetinhas e interrogaram o rapaz (em lua-de-mel, casado desde o dia 12), que disse ter recebido visitas na noite do crime.
Brojes Haller, genro de Adorasterra, foi ouvido ontem na delegacia de polícia.
O delegado Dr. Alerto Malvício Gebofe disse: “Encontramo-nos diante de uma situação bastante complicada e para o sucesso das investigações é necessário sigilo absoluto. É certo que existem suspeitos, mas só as investigações poderão indicar um rumo a seguir”.
Foi feita um lista de ex-namorados de Camélia.
Um deles, segundo informações extra-oficiais, teria dito que há tempos não a via. Mas amigos de Camélia disseram ter visto os dois juntos na noite em que foi assassinada.
Somente na tarde de ontem foram fornecidas as primeiras informações consideradas corretas sobre o crime. Segundo consta, os crimes ocorreram aproximadamente às 20 horas e 30 minutos e foram praticados com uma arma calibre 32.
O ancião foi morto com um tiro que atingiu a região direita da face e alojou-se na base do cérebro, à esquerda. Foi disparado de frente, de cima para baixo, e presumivelmente da esquerda para a direita.
Por outro lado, consta que Camélia Zum (16 anos), foi atingida pela frente, de baixo para cima, com o projétil penetrando na narina esquerda, alojando-se na asa esquerda da esfenóide.
Ficou constatado também, que os tiros foram disparados à queima-roupa, com a arma encostada no corpo das vítimas, provado pelo chamuscamento nas regiões atingidas.
O ancião e a moça foram agredidos antes dos tiros (na menor havia um hematoma na região parietal direita, impossível de ter sido provocado por queda).
Algumas suposições foram feitas pela polícia.
Uma delas: a moça fora seguida por alguém que invadiu a casa, cometendo os assassinatos. Outra: foram surpreendidos quando assistiam televisão. Mais uma: teriam surpreendido alguém furtando.
Hovil da Jogatina Zum, é casado duas vezes e pai de Anicla e Camélia (esta do 2º casamento e da 2ª mulher). Anicla é filha adotiva do Sr. Adorasterra e a menor residia em sua companhia, em Rodelas do Norte.
O ancião tinha, ainda, um filho natural, residente em Galharia. Recentemente sofreu um derrame cerebral.
Perguntado sobre os possíveis motivos do crime, Hovil disse que quase não sai da fazenda e, portanto, não desconfiava de ninguém, mesmo porque Adorasterra era muito estimado.
Para Atichim Derrapina Nandes, 57 anos, sobrinho da vítima, seu tio era muito querido, principalmente em Coivaras, onde residiu até 20 anos atrás, quando deixou duas fazendas sob a responsabilidade de dois sobrinhos, Demandeiro Derrapina e Furtagado Derrapina, para cuidar de Anicla (casada com Brojes Haller) e descansar. Pouco tempo depois, uma das fazendas foi vendida por Adorasterra e a outra repartida entre seus dois filhos, Anicla e Fio. As terras doadas aos filhos são administradas por Hovil da Jogatina Zum. Tem um área de 200 alqueires e uma boa renda com lavoura e no gado.
Dos quatro irmãos de Adorasterra, apenas dois estão vivos residindo em Rodelas do Norte, Afastálio, comerciante e Falcidon, aposentado.
Segundo informações, a vítima além da agricultura e pecuária, tinha outros negócios. Um deles, emprestava dinheiro a juros.
Informa-se que diante das dificuldades para encontrar uma pista a fim de dar início a investigações mais concretas sobre os assassinatos, estaria a polícia rodelense pensando em solicitar na capital o aparelho chamado “Mostra-Mentira” para que todos os suspeitos fossem a ele submetidos. Como se sabe, o aparelho registra todas as reações e de acordo com as perguntas, pode-se chegar à conclusão se o depoimento é falso ou verdadeiro.”
Isso que o jornal traz. Jornal “O INIMIGO”, de 18/01/74.
Eu ainda não fui ouvido e já estou incluído no rol dos suspeitos ...
Noto na página onde o redator-chefe exprime a opinião do Jornal, as primeiras investidas contra um possível suspeito, membro da família, buscando um pé-de-briga para sustentar suspeitas futuras e confirmar profecias baratas: “Na época do cangaço, os pistoleiros costumavam acompanhar o enterro de suas vítimas. Esperamos que no episódio em foco tal não venha a ocorrer, pois seria ainda de maior tristeza para todos” ...
E aproxima-se agora a hora do enterro.
Um padre é chamado para encomendar os corpos ao Alto.
Uma multidão a cada minuto reabastecida de novas personagens evoluiu defronte minha casa.
O cortejo de visitas às urnas, me lembra os romeiros nos lugares santos ...
7 e meia da manhã. Sai o féretro.
Acompanho-o de carro, devido à distância e ao impedimento que hoje existe de se fazê-lo a pé.
Desmaios, suspiros, parentes chorando – berrando alguns – numa sinfonia macabra de dor e paixão.
Entra no cemitério o cortejo.
A meio caminho da sepultura de Adorasterra, dividem-se os acompanhantes. A menina será enterrada após o velho, num jazigo próximo à entrada. Há uma comoção geral ...
Ao cairel da sepultura de Adorasterra, mais lágrimas.
Um último adeus. Depois, a lacração da carneira.
Todos se dirigem ao jazigo da moça. Repetem-se as cenas anteriores e a mãe, após a lacração do túmulo, me diz baixinho:
__ O assassino de Camélia ainda vai me pedir perdão de joelhos ...
Flores não foram poupadas ... Os corações não foram poupados ...


relatório




Voltamos agora para casa.
Casa que já não é um Lar.
Procedemos, atordoados, à abertura do cofre do finado Adorasterra. Na presença do delegado Alerto Malvício Gebofe.
Entregamos uma caneta de ouro – doada em vida – para Fio Derrapina: era para o seu primogênito.
Foi feita a contagem do dinheiro em espécie. Em títulos. Foram remexidos documentos antigos. Cartas foram lidas. Guardadas.
O cofre foi novamente fechado com tudo dentro. Menos algumas cartas. Mas o relatório ficou em mãos do delegado ...
Agora as autoridades se vão.
Ficam os parentes, amigos, conhecidos ...
Alguns se despedem e partem ... Todos me olhando com olhares dúbios.
Vêm com umas conversas de consolo e esperança tão longínquas ... hipócritas ...
Parte, enfim, Hovil com a família. Eu os levo à estação de ônibus ... Na hora da partida, uma senhora que acompanha Laici me revela o que ainda eu não havia entendido direito: a causa dos olhares. Me diz: “O comentário do povo, sô Brojes, não liga não ... Em Coivaras tão dizendo que foi o senhor. Mas nós sabe que não foi, não é?”
Isso assim. Cru. Na despedida do ônibus que partia.
Que troço esquisito me deu daí em diante ...
De longe,vinha a causa de meus arrepios: os comentários.
Mas, como eu? Porque eu?
Anicla voltou novamente à casa para uma varrida geral.
Acompanhou-a a mulher de meu irmão. E Daci, uma ex-pajem dos nossos meninos.
Pernoitamos na casa de meu pai.
No dia seguinte avisei aos meninos do escritório que só voltaríamos a abrir as portas na segunda-feira, em sinal de luto.
Busquei jornais.
Retornei a casa novamente: um rápido arranjar de malas. Pegamos algumas roupas de cama e vestuário. Objetos de uso pessoal.
E depois, a busca da paz, no campo, ainda de manhã.
Fomos para a fazenda de Figonar, onde sua família passava férias escolares. Anicla, Gunther, Alex e eu ...
Fomos lá estragar as férias daquela família...
Aquele pressentimento martelando-me o cérebro, incessantemente.
Ver ordenha. Caminhar pelo pomar. Ir ao córrego.
Nada se fala sobre o crime. A busca do esquecimento.
O mudo consolar.
Anicla e eu conversamos então: e entre soluços e lágrimas, fez-me esse relato:
“O dia tinha começado tudo bem ...
Ajudei Camé arrumar a casa, lavei umas roupinhas dos meninos e logo depois troquei roupa. Peguei os meninos e fui à casa de Elga. Lá fiquei até quase 11 horas.
Voltei pra casa e encontrei o almoço já pronto: Camé já o havia preparado.
Demos de comer para papai e as crianças e a você.
Você levou as crianças pra cama e eu e a Camé almoçamos. Depois arrumamos a cozinha e lavamos o banheiro.
Depois que os meninos dormiram, você foi para o escritório. Ficamos esperando os meninos acordarem.
Quando acordaram, fomos com eles ao Parquinho infantil, para se divertirem.
Isso depois de darmos o café para o papai e ele ir dormir.
Ficamos lá, das 2:30 até às 4 da tarde.
Ao voltarmos para casa, havia um tumulto na esquina do Sr. Laudi: parecia ter havido um desastre.
Mas ao chegar lá para ver, não era nada grave. E os meninos entraram na casa de D. Helen, mulher do Sr. Laudi. Eu e a Camé entramos também e lá ficamos até pelas 4:30 mais ou menos.
Quando voltamos para casa, estava o papai no alpendre e junto a ele, a Laici com o Merton e a Zália, os pequenos.
Entramos todos para dentro.
Camé me disse: “Clá, não tem carne pra janta.”
Então eu chamei a Laici e fomos comprar. Enquanto isso, Camé ficou dando banho nos quatro meninos.
Trouxemos do açougue carne moída que Camé fez e fomos jantar.
Enquanto jantávamos, Camé foi tomar banho e trocar de roupa, pois lhe doía um dente e iria ao dentista tratar do dente.
O papai jantou também e foi se deitar, como sempre.
Eram quase seis e dez da tarde, quando a Camé saiu de casa para o dentista. Laici e eu arrumamos a cozinha e deixamos as panelas no fogão, do jeito que você encontrou, pois faltavam jantar a Camé e você.
Você, por causa do trabalho, fazendo “serão”. E a Camé, por causa da dor de dente.
Enquanto isso os meninos estavam brincando com seus jipes e bicicletas.
Depois que arrumamos tudo, ligamos a televisão e assistimos um pouco.
Então eu chamei a Laici para irmos passear.
Iríamos dar umas voltas e uma chegada à casa de Tia Orisalina com os meninos, fazer uma visita.
E fomos, saindo lá pelas 7 da noite.
Deixamos o papai na cama, pois olhei e ele parecia dormir.
Aproveitei, passei lá no escritório e nós conversamos uns cinco minutos.
Falei pra você ir jantar, que as panelas estavam sobre o fogão com a comida e que ia dar um passeio com a Laici.
Você conversou rapidamente com ela, cumprimentando-a e aos meninos, perguntando coisas lá da fazenda e do papai (de lá).
Saímos em seguida.
Quando estávamos na Praça da Padroeira, Laici me perguntou onde era o dentista e eu lhe disse que era logo adiante.
Chegando lá parei. Ela desceu do carro, entrou e chamou Camé para ir conosco à tia Orisalina.
Mas ela respondeu que ainda não havia sido atendida e que o dente doía muito. Completou me dizendo: “Olha Clá, volta antes da novela pois vou assistir lá em casa, tá bem?”
Respondi que estava bem. Que voltava sim...
E saímos de carro, deixando-a à porta da clínica dentária. Fomos à tia Orisalina.
Lá chegando, minha prima Salete nos disse que era seu aniversário e que nós íamos comer um pedaço de bolo antes de ir embora.
Logo chegou a hora da novela “Evas da Praia” e resolvemos voltar para casa, após a mesma.
Eram uns 20 para às nove da noite quando de lá saímos.
Mais ou menos.
Quando chegamos em frente de casa, um dos meninos nossos não queria descer do carro e a Laici ficou tentando tirá-lo.
Eu e os outros meninos abrimos a porta que estava fechada só na fechadura. Destrancada.
Mas, como a porta estava agarrando, pensei que estivesse trancada. Peguei no molho de chaves do carro a minha, e tentei destrancar. Mas aí a porta abriu, desagarrou.
E os três meninos entraram, na minha frente.
E gritaram. A seus gritos logo se juntaram os meus.
Deparamos com essa cena: Camé quase no meio da sala, debruços ao chão, toda ensangüentada e uma poça de sangue ao lado. Papai entre a porta da sala com a copa, no chão, deitado de costas numa grande poça de sangue.
Tirei os meninos de lá, sem ver.
Então saí para o alpendre, gritando quase louca, para a Laici e o povo da rua e os vizinhos: “ACODE GENTE! ACONTECEU UMA DESGRAÇA, VENCÁ LOGO!”
Aí a Laici veio correndo. E vendo sua filha naquele estado, levantou-a do chão para ver o que era. Colocou-a no colo, meio agachada, meio sentada noutro sofá.
Eu, logo em seguida, cheguei perto do papai e comprovei que estava morto, pois do lado direito, estava um buraco no rosto que na hora eu vi que era tiro. E ele já estava com os olhos vidrados, muito abertos. Tentei fechá-los. Ficaram semicerrados.
Que terror senti naquela hora!
A televisão ligada, inutilmente.
Logo chegaram os vizinhos. E as empregadas dos vizinhos. Pedi a Varizina que tomasse conta dos meninos pra mim.
Pedi a alguém que fosse chamá-lo no escritório e fiquei tentando reanimar a Camé que sangrava pelo nariz; tentando acalmar a Laici que ficou fora de si, num estado de choque, murmurando: “Minha filha ... minha menina ...”
A televisão foi desligada.
Foi chegando mais gente.
E aí, você chegou ...”






































vigília




Então nossa conversa foi interrompida.
Em meio aos mugidos das vacas leiteiras respondendo aos balidos de suas crias, chegava uma viatura policial, com investigadores e delegados, anteriormente avisados de nosso destino.
Após curta permanência, levaram Anicla com eles.
Era de manhã. Foram para uma cidadezinha perto, Sanrosé.
Anicla, assustadíssima, concordou em ir para lá prestar depoimento.
Inúmeras vezes Figonar e sua mulher Ordentina foram ver se demorava a acabar o depoimento, na Delegacia do lugarejo.
Em vão. “Daqui a pouco” era a resposta, sempre.
Da última vez, esperaram sua liberação ...
Aquelas horas foram de verdadeira vigília. Cada minuto custava suor e preocupação ...
Abateram-me sobremaneira as forças. Um pressentimento estranho me invadia. Algo me alertava os sentidos. Pontadas ...
Porque a gente sente isso? Um medo sem precedentes ... Um agouro em cada olhar ... Bato os queixos em plena tarde ensolarada ...
Toda a minha família, pais e irmãos com cunhados e cunhadas, sobrinhos, tentavam com sua presença – vendo meu interior – acalmar-me, sem dizer palavra ...
Então, me recolhi a um canto, para ler o jornal, esquecido sobre um guarda-louça da sala, quando de nossa chegada.
Jornal “O INIMIGO”, do dia 19 de janeiro de 1.974.
E leio as novidades:
NADA SOBRE O DUPLO HOMICÍDIO. CASO DA FEDERAL OSSÁRIO SEM NENHUMA NOVIDADE.
(Para surpresa minha, ilustrava a manchete uma das fotografias furtadas de meu álbum de família: Adorasterra com meus dois guris ao colo, com ar de satisfação).
Legenda: Adorasterra, 79 anos, uma morte misteriosa e nada que leve a algum ponto positivo. Vingança? Tentava defender Camélia? Evitava um roubo? Tudo é mistério!
Outra foto: Camélia, recente. Legenda: Camélia, 16 anos, a ida ao dentista, a volta para casa e um bárbaro assassinato. Teria morrido primeiro, foi eliminada para não delatar, foi caso de amor? Ninguém sabe. Mas a polícia espera apresentar logo o autor.
Os rodolenses se inteiraram das notícias como eu:
A polícia local espera apresentar dentro de dois ou três dias, o assassino de Adorasterra Derrapina e Camélia Zum, mortos na noite da última quarta-feira, com disparos de uma arma calibre 32.
Pelas circunstâncias – nenhuma pista e nenhum motivo aparente – são grandes os obstáculos para as investigações.
Entretanto foi elaborada uma relação contendo nomes de suspeitos e está sendo realizado o levantamento da vida de cada um, suas relações com as vítimas e as ações praticadas na quarta-feira. O Dr. Alerto Malvício Gebofe, delegado titular de Rodelas do Norte, deu uma função a delegados e investigadores. O trabalho foi descentralizado e cada equipe desenvolve suas averiguações em campos diferentes.
Tudo está sendo mantido em absoluto sigilo e para o Dr. Gebofe “o fato é bastante complicado, principalmente pela falta de pistas que possam levar a algum ponto inicial. Assim, torna-se necessário um trabalho insano, mas que até agora tem apresentado resultados pouco alentadores.”
Entretanto, se de um lado o delegado assim fala, informações extra-oficiais indicam a existência de um grande implicado (que não se sabe se de Rodelas do Norte ou de outra cidade).
Já surgiu uma revelação e um fato está sendo intensamente investigado: quem e o que, a polícia não revela por motivos óbvios.
Uma equipe, chefiada pelo Dr. Vidro Amarelo, foi à cidade de Coivaras, assim como em Capetinhas, nada encontrando que pudesse fornecer alguma definição.
Surgiram pela cidade as mais desencontradas notícias.
Mas tudo não passa de boatos, já que cada um, nesta altura, está à procura do assassino.
Alarmes falsos, pistas fictícias e coisas dessa natureza aparecem a todo instante.
“Perfeitamente compreensível” – disse uma autoridade. Acrescentando: “Mas isso atrapalha os trabalhos policiais.”
Terminada minha leitura.
Permanece a dúvida, o pressentimento estranho.
Porque eu? Quando eu? Como eu?
Analiso as mil brechas por onde podem penetrar em meu reduto de susto e temor...
O que significa pensarem que fui eu? Desconhecem-me por acaso? Minha vida, minha reputação não contam?
Não dei amostras de minha honestidade até hoje?
Porque querem que seja eu? Porque virou-me a roda da vida?
Meus atos têm me incriminado? Como? Porquê?
Minha honra não pesa nada no julgamento popular?
Revejo instantes de minha glória como poeta ...
Mentalmente revejo a página duma revista, onde com outras personalidades da cidade, eu apareci, anos atrás.
Era o reconhecimento pela imprensa falada e escrita de Rodelas do Norte. Reconhecimento público de minhas qualidades de cidadão e artista.
POETA DO ANO – Personalidade do ano em poesia – 1.969.
Ilustrava a matéria a meu respeito, uma foto dos tempos de rapaz ...
Na legenda:
“Brojes Haller. Filho do Sr. Rubles Haller e de D. Concepta Brejin Haller, Brojes Haller nasceu nesta cidade em 1.949 (2 de maio), realizando o primário no Gal. Ferto Leste. Admissão em Córrego Escuro, no Seminário Menor de São Hilário; fez secundário no Colégio Dom Everaldo, nesta cidade. Diplomou-se Técnico em Contabilidade no IREC (Inst. Rodelense de estudos Contábeis), onde foi professor em 1.968. começou a escrever versos em 1.964.
Entretanto somente em 1.966 é que adquiriu maturidade e espírito de vanguarda.
 Como pintor e poeta, participou da 1ª SEMANA DE ARTE MODERNA DE RODELAS DO NORTE, quando alcançou o 1º prêmio em pintura e 5º em poesia.
 Desde então, passou a escrever. Dedicar-se às tintas e às letras com profunda seriedade.
Em 1.967, participou do Varal Permanente de Córrego Escuro, ao lado de artistas como L. Lima, Amendôa, Bivar e outros, quando foi feito um recital de poesia em plena praça. Ainda em 67, expôs suas obras na Sociedade Moscovita, na semana de Rodelas do Norte. Participou do I Varal do GAI – Grupo Artístico Independente.
Em 1.968, ainda em conjunto com o GAI, participou de um “happening” pictórico, pintando, com um amigo, um quadro em praça pública – cena retratada em um curta-metragem.
Venceu o concurso de Poesia e Pintura do Conservatório Sagrada Família, ambos em 1º lugar.
Organizou, sempre com amigos, o II Varal Tropicanibalesco de Rodelas do Norte.
No final de 1.968, mimeografou meia centena de exemplares de seu livro inédito “Urro da Procura”.
Em 1.969, Brojes venceu o concurso de poemas-processo em Carvilópides, em parceria com Ajax Prents Port.
É casado com D. Anicla Derrapina Haller.
Dedica-se à agricultura e pecuária, sendo também funcionário público por concurso, do I.P.N.S.”
Foi momento de elogios, reconhecimento à nossa luta.
Uma amostragem que todos parecem ter-se esquecido ...
Fui cidadão exemplar em todos os níveis: escolaridade, artístico, humanitário, cívico ...
Estão esquecidos no tempo, os pontos positivos que marquei pela cidade. Na cidade.
Como serei olhado hoje, se voltar a Rodelas?
Os problemas que haviam em minha casa, estarão me complicando?
E Anicla? Há horas que Figonar foi buscá-la e não voltou.
Estou fumando demais ...
Ah! Enfim! Regressam os três ...
Anicla está taciturna, esgotada.
Relembra alguns tópicos de seu depoimento ...
Um sol frio despede o pessoal que passou o dia conosco na Fazenda de Figonar: todos vão-se embora. Ficam meus pais, minha família e a de meu irmão.
Uma noite pavorosa de pesadelos e recordações desce sobre nós e parece que vai permanecer para sempre.
Estou fumando novamente ...
A noite deve acabar logo. Um latido longe...
Os grilos me aporrinham com seu interminável cri-cri ...
A noite não deve acabar logo.
Refugio-me na minha insônia, desejando nunca mais ver nascer outro dia.
Fujo de mim mesmo, como se pressentisse o cálice duma Paixão ...
Preparo-me. Penso respostas. Analiso as brechas existentes em minha vida. Peso prós e contras.
Quando virão me buscar para depor? O que quererão de mim? Ou melhor: O que mais quererão de mim? Além do que já disse informalmente? Que mistério desvendará meu depoimento?
O que tentarão contra mim?
Quem sabe terão, já ao amanhecer, descoberto o autor dos crimes? ...
Parece tão remota essa possibilidade ...
Como repercutirá na cidade o depoimento tão demorado de Anicla? Faço mil conjeturas. Atordoado, vejo que não existem respostas.
Como será estampada a notícia no jornal “O INIMIGO”?
Sonho acordado com essas torturas mentais.
A história dos Irmãos Naves já começa a brotar no mais recôndito de meu cérebro... E toma corpo. Vive em mim ...
Apareceu devagarinho, quando ainda esperava a vinda de Anicla ... E começou a piscar na minha idéia como uma luzinha de alerta ...
Quando pajeava os meninos, que queriam a mãe a qualquer custo, ela vinha e ia, vinha e ia ...
Estou severamente magoado pelas fortes emoções!
Não tenho me alimentado direito, apesar do regime ...
Os meninos, ao meu lado, dormem um sono de sustos ...
Com os primeiros sinais do novo dia, insone, levanto-me.
Vou ao curral assistir à ordenha. Busco refúgio junto aos animais, junto aos irracionais ...
Certo que a polícia, em caso de morte fora do comum, tem o hábito de se tornar suspeitosa de um crime por interesse familiar como nesse ...
Logicamente pesquisará a fundo a vida de nossa família.
Descobrirá, evidentemente, pequenas disputas e discórdias em nosso lar.
Mas, verão que não há seguro de vida algum.
Interesse em herança, idem. Nada há que herdar ...
Mas, suspeita não é evidência. Ninguém é proibido de suspeitar. Inda mais a polícia que tem a obrigação e o dever de assim agir.
Nossa história é uma só. Nossa vida correta de agora não pode ser refutada.
Apesar de vivermos numa classe média sacrificada.
Apesar da fortuna que o sogro guardava num cofre às nossas vistas ...
Creio que não há nada a temer.
Afugentadas as sombras da noite, parece que a vida não se apresenta tão má. Tão negra. Tão eu.
Assim, pacificado conscientemente, iniciei o novo dia.
Inconscientemente os pressentimentos me provocavam calafrios, bambeza nas pernas, diarréia ...
Tomo leite tirado na hora. Nesse barracão onde passei horas deliciosas na minha infância ... que agora recordo com nostalgia ...
Tiramos fotografias em diversos lugares ... Fotos onde não consigo esconder minha fisionomia apreensiva ...


primeira ajuda




Hora do almoço.
Lingüiça de primeira, outras misturas de sabor inconfundível do tradicional prato “roceiro”.
Apesar de tudo, meu apetite não se abre.
E em pleno Domingo, 20 de janeiro de 1.974, justamente na hora do almoço, chega na fazenda uma viatura policial ...
Traz o delegado Vidro Amarelo e os investigadores Mirto Rego e Marginal Domêis. Dr. Vidro à direção.
Meu pai e minha mãe, que haviam pernoitado na fazenda, ficaram – como eu – apreensivos: Anicla foi chamada à parte.
Em particular está falando com eles.
Demoram já por meia-hora. Estamos no alpendre da sede. Eles, à sombra do frondoso “ficus”, onde estão abrigados nossos carros.
Volta e meia acenam e apontam em nossa direção.
Não podemos ouvir o que dizem. Quase que murmuram, devido à proximidade.
Enfim, dispensada Anicla, me chamam.
Dizem algumas bobagens inúteis, “jogando verde para colher maduro”; perguntam de minhas suspeitas. Informam-se sobre o tal Atichim Derrapina, sobrinho do finado Adorasterra – que segundo apuraram – foi assassino de aluguel num estado longínquo.
Nada confirmo. Falo pouco. Receoso. Percebo uma enorme malícia em seus olhares e sorrisos apagados ...
Sua fisionomia é como a da fera prestes a saltar sobre a presa ...
Finalmente convidam-me para acompanhá-los até Rodelas.
“Precisam de minha ajuda”.
Não há como evitar ...
Alguns passos e venço a distância até a sede: explico aos parentes minha ida.
Enquanto tento empurrar pela goela abaixo algum alimento, eles se deliciam no pomar, saboreando apetitosas mangas Borbom.
Não têm pressa.
Me têm à mão ...
Anicla, alarmada, pede a meu pai que me acompanhe até Rodelas, apesar do convidado ter sido apenas eu. Mas, já que era para “alguns esclarecimentos” e logo me trariam de volta, não há recusa por parte deles. Papai concorda de pronto à sua anuência.
Partimos.
Caminho afora, falamos de coisas banais – extra-crimes –, sobre lavouras, arroz, milho, que se sucediam na paisagem à beira do asfalto, engolido às pressas pela veloz perua preta e branca, rumo à Rodelas do Norte.
Fomos diretamente à residência de meu pai, na rua do Negócio, onde se encontravam as chaves da minha casa.
Ali, trataram de escamotear meu pai do grupo.
Sozinho com eles, fomos primeiramente ao meu escritório. Na rua Voluntários.
Lá remexeram em tudo, buscando uma possível arma escondida. No meu silêncio perplexo, viam o consentimento para tal ato.
Alarmadíssimo em meu interior, concordava prontamente e atendia solícito a qualquer pedido.
Minha consciência – tranqüila – lamentava a perda de tempo, o desvio do rumo das investigações para o lado errado.
Tudo vasculhado, do chão de cimento ao teto de concreto.
Sobre prateleiras, sob mesas, nas gavetas, não ficou um centímetro quadrado sem que um dedo deles tivesse encostado.
Acharam badulaques meus antigos. Reviraram as gavetas, desordenaram as pastas de arquivo. Acharam uma caixa de balas 22 curtas, um pente sobressalente de minha pistola Beretta.
O que mais lhes chamou a atenção foi um Patuá de Preto Velho na gaveta dos badulaques. Coisa que achara há tempos em casa e guardara no escritório ... Me perguntam. Explico. Me olham supersticiosos, agora ...
Quanto à arma procurada, NADA ACHARAM ...
Mostro-lhes agora o livro “razão” de Honesto Vasto Soar, em que trabalhava no dia da tragédia.
Pensa que tento desconversar, o Dr. Vidro.
Troca com os companheiros olhares turvos: é que na parede dos fundos do escritório, existem respiradouros que trazem ventilação do porão vizinho, que é aberto para o exterior, pelos fundos do prédio de que ocupo, com meu negócio, parte do porão.
Rodeamos o escritório por fora. Querem entrar no porão ...
Penetramos numa casa vizinha – com concordância da dona – e através do quintal, entraram no porão vizinho ao meu.
Vasculharam entulhos de couro e formas velhas de calçados, por meia hora. Nada encontraram.
Perguntam-me novamente do itinerário executado por mim no dia do crime e saímos, deixando tudo numa verdadeira desordem. Pois não me deram tempo de guardar as coisas novamente em seus lugares ...
Repassamos o itinerário, os quatro, conjuntamente.
Ao passarmos diante dum terreno baldio, fazem alto.
Vasculham os arredores, sem encontrar a arma procurada.
Os bueiros foram examinados. Esgotos, calhas: todo e qualquer buraco foi examinado no trajeto por onde eu passara.
Sem encontrarem a arma procurada.
A essa altura, calculo, já terão confrontado todas as minhas declarações extra-oficiais de quarta-feira à noite ...
A ida para o jantar, a estada, a volta, as pessoas citadas que encontrei na volta, a entrada que dei no bar do Pedarlos, a passagem pelo Foto ao lado ... Tudo terá sido checado ...
O que procuram então? Porquê? O horário não terá se confirmado?
Darla, minha irmã, na fazenda, me disse que telefonara lá para casa entre 7 e 8 da noite, várias vezes e ninguém a atendeu ...
E que havia deposto isso ...
Num telefonema mais tarde, alguém atendeu. Justamente após a descoberta do crime. Na hora da descoberta dos corpos. E informou-a de minha ausência e dos fatos.
Foi assim que ela ficou sabendo. Em cima da hora.
E cientificou o resto da família ...
Estarão desconfiados de algo? Com respeito ao telefonema?
Porque ela queria falar tanto comigo?
Hoje eu sei. Mas eles não: um motivo de suspeita?
Ainda não disseram nada!
Agora, dirigimo-nos, os quatro, a pé, do escritório para minha casa, pela rua Coco Bugalhões.
Cronometram o tempo gasto, na velocidade normal em que fui pra casa, no dia dos acontecimentos, para jantar ...
Abro a porta. Entramos.
Os móveis novamente nos lugares. Exatamente como no dia dos crimes.
Vamos aos fundos da casa, pela cozinha.
Eles passam a examinar pegadas e pistas há muito desaparecidas. Sob a ação do cortejo do velório e limpeza posterior da casa ...
Não há fundamento, eu sei! Porque embromam?
Estão me testando psicologicamente ...
Sobem nos muros divisórios.
Examinam – muito mal – uma chaminé e um fogão a lenha existente na varanda dos fundos de casa, junto ao tanque de lavar roupas.
Na chaminé poder-se-ia esconder uma arma, muito bem ...
Voltam para dentro.
Saem novamente e examinam demoradamente uma janela que julgam ter sido forçada...
Armam-me uma armadilha, apresentando uma hipótese:
“Alguém que não tinha a chave de entrada (ou tinha e não queria que soubessem) forçou a janela para dar a impressão de roubo. Entrou por ela.
Mas encontrou a moça que vinha atender a um telefonema!
Abateu-a a golpes de bengala com cabo metálico.
(Esse alguém não contava com a presença da moça!)
Arrastou a moça até a sala onde colocou-a num sofá.
(Nessa altura, examinam o que dizem ser rastros, feitos pelo salto de alguém sendo arrastado, no chão ...)
Como a finalidade era matar o ancião, o assassino foi surpreendido por ele quando colocava a moça no sofá.
Então ali mesmo, entre a sala e a copa, na porta, à queima-roupa, atirou no velho.
Como a moça voltava a si, atirou da mesma forma, para não errar, em sua narina esquerda, fugindo em seguida pelos fundos. Galgou os muros dos quintais vizinhos e escapou pela rua de lá (apontam a Federal Ordeiro) ...”
– O que acha? Pergunta-me Marginal Domêis.
– Plausível, - respondi ...
Para darem a impressão de estar aceitando e acreditando na estória por eles mesmos inventada, me fizeram acompanhá-los até uma casa, na rua de cima, Coco Bugalhões, de um velho veterinário.
Pediram autorização para entrar até o quintal.
Deram. Entramos e encontramos um quintal que dá fundos para outro que divide com o da minha casa.
Esse outro é uma quadra de basquete duma escola.
Vejo e eles também, que sem escada, de lá para cá, seria quase impossível uma escalada. Ainda mais sem se fazer notar em nenhum dos quintais ...
Não! É muita conversa mole. Muita falta de inteligência ...
Existem falhas lamentáveis nesse plano.
Percebem que não me atingiram, pois nada comentei sobre sua incapacidade laborativa.
Não suportam eles a própria armadilha. Jogo de paciência.
Arma psicológica que se volta contra eles mesmos ...
Decidem não levar adiante a farsa.
Voltamos para minha casa. Trancam à chave.
Assentamo-nos na copa. Olham-me estranhamente ...
Súbito, Dr. Vidro Amarelo me pergunta:
– Onde está a arma do crime?
(Pôxa, esperava qualquer coisa naquele momento, menos essa investida total, fruto de sua impaciência!)
– Que arma, caralho?
– A que você matou o velho e a moça! Diz, cínico, Mirto Rego.
– Pôrra, quem prova que matei os dois?
– A arma! Cadê a arma? Você sabe!
– Procurem vocês! Porque eu mataria? Destruiria meu lar?
– Você é quem sabe. Nunca ligou pra lar nenhum ... Até bater na mulher, você já bateu ...
– Não sei de nada! Não matei ninguém ...
– Você jogou a arma no corgo? Confessa logo. É melhor pra você, sô! Até sua mulher pensa que é você! Sabe dos motivos ...
– Mentira!
– Então leia seu depoimento ...
– Olha Brojes, conta logo pra gente como foi e porque, assim fica mais fácil pra todos nós. Você descarrega sua consciência! Não vamos te fazer nada ... Só prendemos você!
– Mas Marginal Domêis, logo você que me conhece!!! Juro por tudo que é sagrado que estou inocente! Camélia era uma segunda mãe para os meus filhos. Adorasterra adorava os meninos, mais que eu!
– Quer encontrar sua mãe morta, se estiver mentindo?
– Quero! O que há? Vocês não tem capacidade para elucidar os crimes e querem me levar na conversa? Não sou trouxa, meus camaradas! Sai pra lá, bando de incompetentes!
– Modere o vocabulário, mocinho: você tem culpa no cartório ...
– Só se for no cartório da puta que te pariu, viu!
– Vamos levar você pra Delegacia e lá você conta tudo direitinho! Rebate o Dr. Vidro Amarelo.
– Me levem até pro inferno, cambada de burros. Estarei inocente em qualquer lugar!
– Você mantinha relação sexual com Camélia? Diz-me de chofre o Mirto Rego.
– Vá pra puta que te pariu, desgraçado! Como pode dizer uma coisa dessa! A moça era uma santa!
– Ela ia contar pra mãe dela, por isso você a matou, não? E depois o velho, não?
– Não! Não! Não!
– Queria roubar o dinheiro que o velho não lhe emprestou para consertar o carro, queria? Sabe o segredo do cofre? O velho te pegou no pulo? Teve que matar ele, teve?
– Provem o que estão dizendo ou me deixem em paz!
(Silêncio por uns momentos. Relamos “de leve” no assunto).
Depois se levantam e resolvem levar-me para a Delegacia.
– Não nos enganou, deixando a porta da cozinha aberta, para simular um roubo, viu!
Fomos embora, após eu ter fechado a casa.
Não sabia. Mas depois fiquei sabendo que meu pai ouviu aquele interrogatório, abaixado perto do vitrô da sala, no corredor que ladeia a casa, pela direita. E estava pronto a intervir, ao menor sinal de violência...
Imagino agora, como terá ficado, ao ver-me ser levado para a Delegacia, onde não poderia entrar ...
Chacais, os três. Podres, todos ...
Chego com os três mosqueteiros ao castelo de suas ilusões ...
Acalmo-me com um cigarro.
Senti olhares inquisitivos de todas as direções, nas ruas, quando a perua vinha de casa para o prédio da Delegacia ...
Fazem-me sentar numa poltrona sem braços, a esperá-los.
Um deles, Mirto Rego, conversa comigo bobagens.
Dr. Vidro Amarelo vem para sua sala e logo libera um preso que o esperava para isso.
Agora conversam em outro tom comigo. Porquê?
O telefone toca. Vidro Amarelo o atende. Olhando-me nos olhos, responde que “sim, ele está aqui comigo”.
Toma alguma reprimenda, pois franze o cenho, contorce o semblante ...
Depois de desligar, aproxima-se de mim e diz que tudo isso foi um teste. Necessário às investigações ... Como tem feito com muitos suspeitos. Pra mim não reparar não. Que afinal cria em mim, pois me conhecia e nossas famílias estão unidas ...
Pergunto se fizeram isso comigo sem ao menos ter uma prova qualquer, por menor que fosse.
Responde-me ele que é da rotina ...
Perdi as estribeiras. Xingo-os. Provoco-os, amaldiçoando inclusive, suas progenitoras. Aprontei o diabo-a-quatro ...
Quando retomaram as rédeas da situação, era tarde.
Haviam perdido muito de sua autoridade no meu conceito.
O que fizeram?
Mandam-me de volta para a fazenda, com Mirto Rego na direção da perua.
Passo em casa de meu pai. Ele não quer voltar.
Me dá um jornal do dia, que dobro e coloco no bolso.
No caminho de volta, Mirto ameaça a minha vida se eu for mesmo o culpado, pois a mulher dele passa mal no hospital e por minha causa ele não pode estar com ela ...
Chego. Terminando com a apreensão dos que me esperavam ansiosamente.
Mirto Rego desce, toma água fresca. Receberam-no muito bem.
Parte em seguida, desejando-nos uma boa tarde.
Vou ao banheiro.
Expludo em soluços de ódio! Todos querem saber como foi, porque foi, o que foi ...
Desconverso-os: foi rotina, algumas perguntas, precisavam de minha ajuda, algumas elucidações, etc.
(Mal sabia eu, que para Anicla disseram – antes de me levar – que eu era o assassino e tinham vindo me buscar para a confissão. Que possuíam provas incontestes e tudo o mais).
Outra noite chegou. Imaginem o meu estado.
Analisem. Pensem. Reflitam ...


semana santa




Hoje, segunda-feira.
Férias estragadas, voltamos todos para a cidade.
Mamãe, Figonar com a família, Anicla, os meninos e eu.
Até para os empregados rurais, agora, a direção do assassino passou a ser uma só: a minha.
Segunda-feira brava.
Instalamo-nos na casa de meu pai.
Vejo que o velho sofre horrivelmente. Profundamente.
Correm de boca em boca, os comentários.
Nossa casa, meu lar, está destroçado ...
Uma mera construção de tijolos. Alvenaria que repugna ...
Anicla não suporta permanecer no centro da tragédia.
Levamos roupas essenciais, móveis e mantimentos para a lógica alternativa: casa de meus pais.
Restam as recordações. Choros. Missa de sétimo dia.
Orações e lágrimas ...
Minha mãe, fortaleza de ânimo.
Minhas irmãs e todos: consolo e luta para reerguer nossa vida.
Meus pressentimentos persistem, amargando-me as horas.
No escritório, arrumação geral. Assuntos de urgência.
Os meninos arranjando a bagunça. Vizinhos olhando.
Dúvidas, olhares: flechas me espetando como um alvo fixo.
Gostaria de gritar a todos: “Não fui eu, cambada! Cadê nossa amizade? Preciso tanto de vocês agora ...” E só conto com algum parente mais chegado e os meus dois funcionários ...
Meu trabalho cai vertiginosamente.
A produção é mínima. Devo fechar balanços de 1.973. Encerrar o exercício findo. Apurar lucros ou prejuízos.
Imposto sobre os Lucros Líquidos. Sobre os Ganhos ...
Assistência Fiscal. Expediente. Escritas fiscais e regulares ...
Perguntas, olhares esquivos, amigos se afastando ...
Segunda-feira brava ...
Vejo as notícias de Domingo, no jornal “O INIMIGO”.
AGORA SÓ ESPERANÇA RESTA ... (ilustrando a manchete, outra foto furtada de meu álbum de família. Mostrando Anicla à porta da casa-sede da fazenda Santa Cordélia, ladeada de seus dois pais: o legítimo e o adotivo).
Legenda: Da esquerda para a direita: Adorasterra Derrapina, uma das vítimas; Anicla Derrapina Haller, que encontrou os corpos de Adorasterra, seu pai adotivo e de sua irmã Camélia; e Hovil da Jogatina Zum, pai de Camélia e Anicla, residente na Fazenda Santa Cordélia, município de Coivaras, de lá do Grande Rio do Peixe.
Adorasterra Derrapina e Camélia Zum, foram assassinados na noite de quarta-feira passada. De maneira que até hoje não está encontrando explicações. Tudo está envolto no maior mistério.
Pistas são anunciadas, mas nenhum resultado que possa conduzir ao frio assassino.
Suspeitos são ouvidos, mas pelo silêncio da polícia, nenhuma declaração levou a algum ponto. Algo é positivo: duas vidas barbaramente exterminadas. O resto, suposições, correrias e esperanças.”
(No corpo do jornal, sugestões à polícia local, com carapuça de “capitis diminutio” à mesma...)
Penso o dia todo.
“Mas será que não vê a polícia, que o assassino após os disparos, terá fugido às pressas, sem ter tempo de verificar a morte das vítimas ??? E que eu, se tivesse sido o autor dos disparos, não estaria esperando a notícia em meu escritório, mas sim, teria fugido para bem longe??? A lógica: se não morresse pelo menos um deles, eu seria reconhecido! E denunciado!
Ou acham eles que eu fiz os disparos e esperei-os morrer, confirmando a morte, para depois fugir? Não há lógica em sua suspeita ... Não há!”
Segunda-feira brava ...
Terça amanhece e não dormi essa noite, uma hora sequer.
Ao escritório.
Novamente os jornais. No “O INIMIGO”, novas manchetes.
POLÍCIA OUVIU TESTEMUNHA QUE PODERÁ LEVAR AO CRIMINOSO.
A polícia ouviu importante testemunha!
Durante quase 9 horas ininterruptas, a polícia rodelense, através do delegado titular do município, Dr. Alerto Malvício Gebofe e mais o Dr. Vidro Amarelo e o investigador Marginal Domêis, efetuou o interrogatório de Anicla Derrapina Haller, na Delegacia de Polícia de Sanrosé.
Filha adotiva de Adorasterra Derrapina e irmã de Camélia Zum, assassinados na noite de quarta-feira última, ela foi ouvida em Sanrosé pelo fato de se encontrar numa fazenda daquele município.
Em seu depoimento, Anicla relatou fatos interessantes e, segundo o Dr. Malvício Gebofe, “junto com outros depoimentos, indicará a possibilidade da polícia rodelense apontar o real suspeito dos assassinatos da semana passada”.
Ontem, até às 24 horas, a polícia estava reunida, trabalhando para a elucidação do caso, considerado até agora, como um mistério.
Também no Domingo, toda a equipe policial esteve a postos, trabalhando desde às 8 horas da manhã até às 2 horas da madrugada de segunda-feira.
“O importante, disse o Dr. Gebofe, é o trabalho intenso, visando a rápida solução do fato e isto nós estamos fazendo. Só que agora tudo é sigiloso, para não haver nenhum atrapalho em seu andamento”.
Assim leio as novidades. Estou impregnado delas.
A imprensa não anda sabendo de nada ...
Na missa de sétimo dia, hoje de manhãzinha, vigiavam-me os passos. Distribuímos os tradicionais “santinhos” de lembrança ...
Na ida de praxe ao cemitério, após a missa, uma viatura agourenta continuava dando-nos cobertura...
Uma novidade de manhã: um cliente do escritório quer retirar os seus livros daqui.
Alegou ter encontrado contador mais barato...
O motivo real é óbvio ...
E fui eu quem os iniciou nos primeiros passos da fabricação de calçados. Leis, modos de ação. Estrutura industrial. Custos. Tudo. Eram pobres analfabetos. Hoje são uma potência ... Um terço de minha renda mensal ...
Quantos mais virão? Retirarão suas escritas daqui?
Quanto desestímulo, meu Deus!
Outro sobressalto nesta manhã: primeira intimação para depoimento oficial. Na delegacia de polícia.
A tarde vou lá. Espero muito, num sofá verde ...
E comparo minhas esperanças ao sofá: fortemente deslocados, ambos, nesse ambiente.
Mandam voltar à noite.
Existem depoimentos que certamente estarão me complicando a situação ...
Hovil, Laici, Fio Derrapina. Lentamente me envolvendo ...
Presto depoimento das 19 horas até às 2 horas da manhã.
Minha vida é dissecada, por escrito.
Minhas atividades postas a limpo.
Rotina. Longas horas. Tudo datilografado ...
Dispensam-me.
Cansaço, fadiga. Desilusões. Desesperança. Eis o cortejo que me acompanha de volta à casa de meus pais, nessa madrugada.
Sobressaltos à noite. Pesadelos.
QUARTA-FEIRA: 23 de janeiro de 1.974. Raia o dia e me encontra ainda insone.
De manhã, ida à casa da Federal Ossário, pajear uma suposta reconstituição do crime. Assisto a tudo, impassível. Cansado.
Vou ao escritório. Procuram-me a toda hora. Fora de hora.
Lorotas. Indiretas.
Leio, num intervalo, as notícias do dia no jornal de sempre: “O INIMIGO”.
POLÍCIA CONTINUA ESTUDANDO O DUPLO ASSASSINATO.
“A falta de maiores detalhes pode parecer que a polícia está estacionada no caso. Mas isso é tomado como medida preventiva, sendo o trabalho desenvolvido intensamente”. – palavras do delegado – Alerto Malvício Gebofe ontem, ao mesmo tempo que dizia sobre as investigações feitas nesse dia, juntamente com uma equipe, para elucidar o ainda misterioso duplo assassinato do fazendeiro Adorasterra Derrapina e Camélia Zum.
O que fez ontem: Acrescentadas às investigações já feitas desde o dia do crime (quarta-feira última, na residência das vítimas na Rua Federal Ossário, n.º 1.170), ontem foram estas: fizeram a possível reconstituição do crime na casa: ouviram o testemunho de pessoas conhecidas das vítimas na delegacia (quatro à tarde e duas à noite) prosseguiram no levantamento sobre Adorasterra, principalmente suas atividades de usuário, pois além de fazendeiro em Coivaras, emprestava dinheiro a juros.
(Fizeram uma lista dos devedores e alguns foram ouvidos também).”
RECONSTITUIÇÃO DO CRIME: “A reconstituição do crime feita pela polícia foi baseada na hipótese levantada de como tenha acontecido: Assim, Camélia teria chegado do dentista e na casa estava apenas Adorasterra. Ele deveria estar deitado, pois estava fisicamente fraco.
Ela estaria assistindo a novela “Evas da Praia”, o assassino teria entrado (ou batido na porta) imediatamente matando-a com um único tiro na narina. Ouvindo o barulho e levantando-se para ver o que se passava, o velho também receberia um tiro na cabeça, morrendo”.
Eis aí o que tomo conhecimento num intervalo de meu minguado tempo ...
O jornal também começa a “jogar verde ...”
Finaliza as notícias, a nota: “A princípio, o assassino não teria deixado pista alguma, fazendo com que a polícia ficasse aturdida; mas agora, embora não se revele, detalhes estão sendo descobertos.”
Não existem pistas pelo menos para a minha direção ...
O jornal começa a procurar o seu “suspeito” e parece já me ter eleito.
Com essa leitura, o dia passa a revoltoso para mim.
Como os anteriores, parece o presságio duma grande tempestade em meu interior.
Sinto-me fraquejar. Porquê? Nada tenho a temer!
E os irmãos Naves? Tinham? ...
Quinta-feira: amolanças. Novas perguntas. Esclarecimentos. Ida à casa. Um portão que havia sido deixado fechado, encontra-se aberto. Com o vento, bateu a noite toda. Vizinhos reclamaram. Polícia foi ver. E veio me buscar. Fechamos de novo. Assunto encerrado.
E mais um dia estragado.
Sexta-feira, 25 de janeiro de 1.974.
Começo o dia junto com as notícias. Jornal de sempre.
Manchetes: “DUPLO HOMICÍDIO: DECLARAÇÃO DE DENTISTAS PODE SER IMPORTANTE.” (nessa altura da leitura, recordo que meu trabalho no escritório vem sofrendo uma interrupção brutal: não há estado de espírito suficiente; não encontro ânimo para continuar; venho ao escritório para não ficar em casa e ler os jornais com as novidades...)
“Polícia briga com os minutos.”
Com 53 pessoas ouvidas até ontem, resultando num inquérito com mais de 150 páginas e 100 horas de atividades, a polícia rodelense junta elementos que possibilitarão o esclarecimento do duplo homicídio ocorrido há 9 dias, na rua Federal Ossário, quando foram mortos Adorasterra Derrapina e Camélia Zum, a tiros, disparados de um revólver calibre 32.
Hoje a equipe de delegados, escrivães e investigadores, comandados pelo titular do município, Dr. Alerto Malvício Gebofe, deverá ouvir entre 7 e 8 pessoas.
Entre as pessoas que prestarão declaração, estão quatro dentistas da Organização Bom-Dente, onde Camélia esteve momentos antes de ser assassinada.
O importante para a polícia é saber exatamente a hora que a moça deixou o local, pois até o momento isso não foi precisado, o que complica em parte, a ação da equipe policial.
Contrariando o noticiado anteriormente, o laudo médico da autópsia feita pelo Dr. Jobaixim Perri Bero, não foi entregue ontem ao delegado que preside as investigações.”
(Aqui paro de ler a notícia e penso: “quem, a não ser eu, poderia ter matado os dois?” E fico pensando nisso muito tempo, pois é muito importante para mim ...)
Recomeço a leitura.
RETROSPECTO:
Depois de alguns dias de intensa investigação, a polícia sabe exatamente os fatos até a hora do assassinato.
A narrativa de pessoas da família possibilitou esclarecer o que foi feito antes do fato gerador da tragédia: Às 18 horas e 15 minutos, Camélia Zum deixou sua residência para ir ao dentista a fim de continuar tratamento iniciado há algum tempo.
Na residência ficaram Anicla e seus filhos menores de 2 e 3 anos, o velho Adorasterra e a mãe de Camélia, que veio de Coivaras (chegou às 16 horas).
O outro membro da família, Brojes Haller, marido de Anicla, continuava seu trabalho no escritório.
Por volta das 19 horas, todos saíram, com exceção do ancião, para um passeio de automóvel.
Adorasterra ficou só na casa, já de pijama e deitado, com tudo apagado, televisão desligada e a porta da sala fechada a chave.
(Lendo isso, lembro-me do quanto o velho detestava ficar sozinho em casa!)
Anicla (com os demais que lhe faziam companhia) passou pelo escritório do Brojes, avisou o marido do passeio, dizendo-lhe que fosse jantar.
Depois, foi ao dentista, onde Camélia estava e foi convidada para o passeio; houve recusa, pois ela dizia estar com dor de dente e ainda não fora atendida – e este detalhe, se foi ou não atendida, só será definido hoje.
Os que passeavam foram para a casa de uma tia, no bairro Santa Tereza, onde ficaram até o término da novela “Evas da Praia”.
Enquanto isso, Brojes deixou o escritório, foi até sua casa, jantou e saiu 10 minutos depois, deixando tudo como encontrara: luzes apagadas, televisão desligada, Adorasterra deitado e a porta trancada.
Terminada a novela, a família regressou (pouco depois das 20 horas e 45 minutos), encontraram a porta destrancada e os dois cadáveres na sala.”
Foi assim o povo lembrado – e eu também – de como estava preparado o palco dos acontecimentos.
E minha ida e volta à casa, mais uma vez lembrada, mostrando minha condição de último a ver Adorasterra com vida...
Donde provêm os dados que o jornal publica?
Da polícia logicamente. Mas é lícito?
Quem telefona sempre de Galharia pedindo a parentes daqui, para irem à polícia pedir para me apertarem mais? Porquê?
Quem, em Coivaras, disse ao delegado Vidro Amarelo que Adorasterra temia ser morto pelo genro? Quem lá disse que Adorasterra se lamentara dizendo estar “criando uma cascavel dentro de casa”?
Quem disse à polícia que Adorasterra sofreu derrame cerebral por minha causa?
Quem disse que eu devia muito dinheiro a ele?
Quem disse que certa vez – ele muito mal de saúde – e eu dormindo no mesmo quarto dele como companhia, tentei matá-lo derrubando-o da cama e jogando-o na sala, alta madrugada?
Como pode e quem, forjar isso?
Quem disse que na fazenda eu era péssimo patrão? Que xingava Adorasterra na frente de todos, menosprezando-o? Quem? Algum bêbado e jogador ordinário?
Quem disse que talvez eu, não suportando as cobranças de Adorasterra, acabei por fulminá-lo com um tiro?
Como puderam transformar tanto a minha imagem assim para a polícia, que me vê como uma fera? Porque fazer isso comigo?
O velho, apesar de todo o seu dinheiro e arrogância, sempre esteve nas minhas mãos, sendo tratado por nós como um filho rebelde e arrogante – mas filho!
Servíamos de babá, enfermeiro, contador, mas nunca de corretor de agiotagem dele ...
Como provaria o que falou, quem disse que eu fui mau empregado e desviei dinheiro de impostos de certo escritório?
Quem disse que a minha situação financeira era má?
E se a polícia sabia que aquela morte de nada me adiantaria financeiramente, pois os herdeiros seriam os netos do velho de qualquer modo; porque batem sempre na tecla do interesse econômico? Inda mais que foram eles os primeiros a ler o testamento?
Onde me levará esse constante fio-quente. Pega-não-pega?
Que maquinação há atrás de tudo, me apontando como suspeito principal?
E assim, somam-se às outras, mais esta noite de insônia, sobressalto, terror ...
Quem terá sido, se não fui eu, como tudo indica para eles?
Porque as duas mortes? Porque, meu Deus?
Deus me livre daquelas cenas ...
Vade retro, satânica memória ...
Abandonarão as outras pistas para concentrar-se apenas em mim? Mas aí estarei perdido...
Como fá-los-ei ver o seu erro? Minha palavra não tem bastado.
Será que o escrivão acredita mesmo em mim, como se esforça em aparentar?
A amizade que tive com sua filha, em sua casa, ter-lhe-á mostrado o meu caráter?
Porque me instruí, me trata diferente?
Choca-se mesmo quando sabe que alguma pergunta dos outros fere-me o íntimo? Ou será só máscara como tenho, de leve, percebido?
Aristóteles, Aristóteles, o que há de aristotélico em ti?






































primeira sabatina





Surge mais um sábado em minha espera ...
Vou ao escritório por causa do jornal.
26 de janeiro de 1974.
Porque começou-me o ano tão amargo?
Eu o esperei tão cheio de projetos e planos...
Há quantas noites não encontro o sexo da esposa?
Perdi a conta ... E que gosto teve isso algum dia?
Nem o sentido do prazer restou em mim ...
Carrego minha solidão pelas ruas.
Manchete de última página:
DELEGADO ESCLARECEU A QUESTÃO DO HORÁRIO.
Um detalhe considerado dos mais importantes foi esclarecido pelo Dr. Alerto Malvício Gebofe, durante as investigações efetivadas ontem, juntamente com sua equipe: o horário em que Camélia Zum deixou a Organização Bom-Dente em direção à sua residência, onde foi assassinada.
Para garantir o êxito das investigações, o delegado preferiu não divulgar o horário, mas acrescentou que mais um detalhe foi elucidado, contribuindo destacadamente para o caminho dos esclarecimentos.
Ao contrário do que se esperava, o médico legista, até às duas horas de hoje, (quando foi mantido o último contato com o delegado) não entregara o laudo médico da autópsia, justificando ser um caso complexo a exigir maior atenção na definição das mortes.”
Procuro não ler mais.
Ao invés, amarroto o jornal e o atiro longe de mim.
Fui para detrás do armário, à pia onde urinei.
Sem querer, vi-me de bruços sobre minha escrivaninha, soluçando ...
Recordava o velório.
De Adorasterra não senti tanto o passamento: mais senti foi a violência de seu fim.
Para mim, morrera o afeto há muito tempo.
E quando morre o afeto – o laço que nos liga a alguém – acaba o interesse.
Mas não tive, não tenho, não teria condições ou coragem para matá-lo. Nunca!
Não matei nenhum dos dois ... Deve haver alguém que acredite em mim, porque tenho dito a verdade desde o princípio.
Mais uma convocação me tira desses pensamentos: me intimam para novos esclarecimentos na polícia. Para a tarde.
Nem almoço direito. Contrariado. Pessimista.
Agora é sábado à tarde.
Estou a subir o prédio da delegacia regional: três andares. Chego bufando com o meu peso.
Estou quase a decorar o número dos degraus.
Não sei mais qual é esta, das tantas vezes que já estive aqui, nestes dias.
Tudo muito quieto na repartição.
Apenas um atendente, que logo vai-se embora, me manda esperar e ouço, ao longe, discutirem minha sorte.
 E espero no sofá verde ...
E vem o bando de algozes, querendo mais uma vez, me enroscar nas próprias declarações.
Agora devo repetir minha história uma vez mais, recordando cada detalhe com meticulosa honestidade, na esperança que haja entre eles, algum que reconheça minha verdade, que é a única ...
Mas, quando chegam e me rodeiam, vejo o meu engano!
Recebo, de sopetão, um tapa-ouvido dado por trás, que faz minha cabeça estalar, como se um peso enorme houvesse desabado sobre ela.
E um zumbido parece fazer estourá-la!
– Conta agora, rapaz, como foi que você matou os dois? diz-me um deles, Mirto Rego, que ouço de longe ...
–  Não matei ninguém!
Um soco me resvala a orelha e acerta meu ombro em cheio.
Outro murro me acerta a nuca, vindo por trás e a primeira coisa que vi após passar a escuridão, foram uns flocos de neve flutuando em frente aos meus olhos, descendo preguiçosos, como nos natais estrangeiros.
Tudo fica nebuloso. As pessoas e os objetos se obscurecem quando se afastam de mim alguns centímetros.
As vozes soam agora mais nítidas. Lembro a interminável espera na ante-sala luxuosa da delegacia, e me situo novamente no lugar onde me encontro ...
Uma mão musculosa levanta-me o queixo a pique e me funga no nariz, uma boca fedorenta de álcool, umas palavras que soam como se houvessem sido pronunciadas num microfone ligado no último volume.
– Conta logo, desgraçado! Onde jogou a arma?
– Levou pro seu pai guardar no dia do crime?
–  Só pode ser você, não há outra pessoa!
– NÃO! Não fui eu. Esperem ... Não me batam mais! Vocês não sabem o erro que estão cometendo! Eu não precisava matar ninguém, não. Vocês estão enganados!
– Você se sentia massacrado em sua masculinidade. O velho era o chefe e você o odiava! Você é um frio, calculista! Queria dinheiro emprestado e o matou!
– Não o odiava não. Era-me indiferente, apenas.
– Porque matar a mocinha? Qual dos dois matou primeiro? Conta, gorducho duma figa! Você está enrascado!
– Você está mal de situação, Brojes. Esperava coisa melhor de você, um camarada tão legal que conheci. Um menino de boa família, estudante exemplar, artista refinado, profissional competente ... Como está você enrascado desta forma nesse crime, amigo?
– Ah! Palavras, palavras ... Você quer me dobrar Marginal Domêis. Mas não consegue, viu! Não matei ninguém, pode acreditar. Se tudo está contra mim – como dizem – é porque há alguma coisa muito errada em tudo isso. Podem crer!
– Você pensa que fez o crime perfeito?
– Não penso nem fiz nada!
– Bato mais, doutor?
– Não, Mirto. Vamos aos depoimentos.
Aí foi a lengalenga de contar toda a minha história – novamente, tim-tim por tim-tim, até a exaustão.
– Porque virou a cara, quando foi com o Fio Derrapina ao necrotério, evitando olhar os corpos desfigurados?
– Ora, porque já tinha visto aquilo demais!
– Era a sua consciência, isso sim! Assassino!
– Foi o Fio quem disse isso? Estávamos só nós dois lá!
– Foi ele sim. E acha que foi você quem matou o pai dele! E tem pedido pra gente te apertar que você solta logo o serviço!
Isso me magoou muito fundo... Realmente...
E o interrogatório, recheado de bordoadas, água fria, xicrinha de café, cigarros e provocações de ambos os lados, prosseguiu noite adentro, até duas da madrugada.
Saio de lá com vontade de morrer.
Quando me dispensaram, após assinar os documentos datilografados – sem ao menos ler – parecia renascer.
Sigo agora, morto psicologicamente, para a casa paterna.
O pior, é que fazem tudo isso, crendo que estão certos.
Sem o mínimo remorso ...
Evito passar defronte de um clube de bailes.
Não posso suportar o som de uma música propositadamente alegre. Não há condições.
Tento banir tudo isso da memória, pensando nos filhos inocentes que certamente dormitam em seus berços ... Sinto com esse pensamento, uma liberdade tal como não conhecera por muitos dias.
Mas o temor caminhava ao meu lado.
Meu pé dói. Meu tornozelo inchado me faz mancar.
Foi na hora que o Mirto Rego me chamou de bicha, dizendo também que a moça me provocava e eu não dava no couro e que foi por isso que a matei e o velho.
Atirei-me sobre ele, mas ele então se desviou para um lado e me atingiu o tornozelo com um pontapé.
Gemi de dor e quase caí, mas consegui segurar-me no encosto duma cadeira.
Levantei o pé são e o atingi de resvalo na região do-baixo-ventre, de bicuda, mas parecendo não sentir a dor, recuou, parou o peso do corpo bem equilibrado nos pés.
O estalido foi quase inaudível, mas suficientemente alto para atrair meu olhar para a mão dele.
A comprida lâmina de uma faca cintilou fracamente na sala mal iluminada.
E ele me chamou de estúpido.
Então, quando ele veio para o meu lado, senti a raiva dentro de mim transformar-se em pânico.
Eu não era “de briga”!
Quando o delegado mandou-o afastar-se, tentou ainda chutar-me no mesmo lugar, mas esquivei-me a tempo, me sentindo salvo pelo gongo, como um boxeador ...
E provocando-o lhe disse: “Agora, tanto a rã arranha a aranha, como a aranha arranha a rã ...”
Agora chego em casa. Sem fazer ruído.
Esperando encontrar todos dormindo.
Ilusão. Todos esperavam minha chegada. Insones.
Até Saulo, namorado de Pit-Biím, minha irmã caçula, estava velando com minha família ...
Realmente me comovo. E me desangustio um pouco ...
Meu pai fora inúmeras vezes até a delegacia a espiar, da rua. As janelas iluminadas lhe dizendo que eu ainda estava ali ...
Indagam-me acerca da demora. Conto parcialmente os fatos.
Pesquisa, problemas de enrascação nos horários, desencontros entre depoimentos, é o que tem provocado demoras em meus interrogatórios.
Mas, meus olhos não mentem ...
E as lágrimas de desespero se esgueirando de mansinho, vencem a barreira e afluem nos cantos dos olhos, revelando meu medo, meu desengano.
Há um momento de oração geral.
E a felicidade que morava conosco, parece haver-se despedido para não mais voltar ...
É como no poema do Cineasta: “INTERVALO”: “Foram colhidos os trigos/ num dia de sábado./ Ceifaram suas espigas/ e o caule do fruto/ alimentou animais na cocheira./ O fazendeiro pensava lucros adviendos./ Os colonos e suas mulheres/ tinham terminada tarefa./ Os pássaros foram tomados de espanto:/ não existia mais o campo amarelo/ não existia mais o grão amarelo./ Foram colhidos os trigos/ sem cerimônia.”


descrença

 



O domingo em que eu já entrara, despontou radioso, com umas nuvens rosadas enfeitando a aurora.
No portão da casa de papai, engano o sono que não chegou.
O domingo perdeu o significado.
Como em CIRCUNPECÇÃO do mesmo grande poeta Cineasta:
“Azulejas/ os menos duros sentimentos./ Dobras/ a rosa/ até que ela vire pedra./ Nasce maior espera,/ manhã difícil:/ o circo se abre/ sem nenhuma função.”
O telefone de uma certa redação deve ter funcionado a noite toda, juntamente com os linotipistas, repórteres, redatores, distribuidor de provas, diagramador, arquivista, alimentador de rotativa, calandreiro, chefe de composição e impressor: com a manhã, chega o “INIMIGO” e logo destaco uma manchete dentre muitas:
BROJES PRESTOU DEPOIMENTOS QUE PASSARAM DE 16 HORAS.
Às 2 horas, quando encerrávamos esta edição, há 16 horas que uma equipe de policiais composta pelos Drs. Alerto Malvício Gebofe e Vidro Amarelo, investigadores Mirto Rego e Marginal Domêis e escrivão Aristóteles, estava ouvindo o testemunho de Brojes Haller, um dos envolvidos, e considerado dos mais importantes depoimentos para o esclarecimento do crime cometido dia 16 último, no qual perderam a vida Adorasterra Derrapina e Camélia Zum.
O Dr. Gebofe, que preside as investigações, preferiu não informar as declarações de Brojes, uma vez que as considera de grande importância para os próximos acontecimentos.
Com isso, mais de 60 pessoas já foram ouvidas pela equipe que trata do caso, com mais de 160 horas de atividades e um inquérito de quase 200 páginas.
Os fatos tomam rumos que a polícia prefere não divulgar, “pois o trabalho sigiloso rende mais.”
Possivelmente nos próximos dias, o Dr. Gebofe convoque a imprensa e detalhe os acontecimentos desde o dia do crime, que até hoje estão indefinidos.”
E penso “quanta coisa a cidade ficou sabendo por esta notícia” ...
Principalmente pelo que vai nas entrelinhas...
Aqui, o jornal começa claramente fazer pressão sobre o suspeito, indicando uma possível culpa, pelo tempo de depoimento, ou seja, interrogatório medieval ...
Começo a relembrar outras passagens que preferiria esquecer. As ameaças de morte, em caso de recusa do reconhecimento da culpabilidade ...
Queriam arrancar-me a confissão de todas as maneiras.
E agora contam com o apoio da imprensa marrom ...
Já não se atêm a mais nenhuma pista que divirja dessa: a culpa é de Brojes Haller... Pura e simplesmente.
Engendram tanta historinha para me confundir, tanta papagaiada, que fico, às vezes, estupefacto.
“Olha, Brojes, você confessando espontaneamente, diminui a pena ...” “Mas como Dr., se não fui eu?” “Acha que está certo eu confessar uma coisa que não fiz?”
“Olha, vamos trazer o seu pai aqui e com ele o serviço sai logo; vai dizer direitinho onde jogou a arma.”
“Ele já se contradisse em seus depoimentos, sabia?”
“É um pau d’água ...”
“Qual dos dois você matou primeiro?”
“O velho quis te comer o rabo? Dizem que ele era fogo!”
Em certa hora, puseram-me de pé, “de castigo”.
Começaram a me rodear, como os índios de filmes de faroeste, feito bestas, dizendo que iam tirar-me o escalpo, a unha, se não confessasse ...
Perguntaram-me a certa altura: “Nunca escreveu – já que é considerado escritor – contos policiais?” “Talvez você tenha imaginado o crime perfeito ... só pela ausência da arma...” “Mas, tudo te condena: seus depoimentos se contradizem e só existem mentiras.”
“Testemunhas te viram saindo da casa, na hora dos tiros. Te viram rondando a casa na hora aproximada do crime.”
“Você não estava no escritório no horário que nos forneceu por escrito!”
Então me pediram: “Faça uma relação de horários – de hora em hora – e o que estava fazendo neles, pois com isso vamos te mostrar a tua condenação.”
Fiz o que mandaram. E nada!
Xinguei muito também. Dei muito berro.
Prometeram me levar para longe, qualquer dia desses.
Vão me ensinar a fazer escândalo ...
Comi de marmita, igual ao Dr. Vidro Amarelo.
Arroz, feijão, salsicha e um legume ordinário.
Saiu-me um bloco do dente. Uma obturação ainda nova ...
Esqueci do regime, por causa da fome.
Por terem achado no meu escritório, no dia da vasculhação, uns remédios controlados, inibidores do apetite, me chamaram de viciado em drogas... Disseram ontem que vivo tomando entorpecentes.
É ... lendo as notícias, quanta coisa recordo agora ...
Será que me devolverão as armas apreendidas?
E os objetos de uso pessoal dos mortos?
Onde andará Adorasterra nesse momento? E Camélia?
(Aqui penso numa prece por sua intenção. E peço à mártir Camélia que me ajude a encontrar seu assassino ...)
Qual defendeu qual?
Como foi sua morte?
Por Deus, como gostaria de ter o assassino nas mãos!
Como tudo terá se passado?
Saio pelas ruas, sem direção, carregando novamente a solidão ...
A cabeça já não tem forças para se erguer e o queixo parece grudado ao peito.
Dentro do esquema deles, chegam a organizar cadeias de palavras tão bem arquitetadas, evidências tão evidentes, que, às vezes, até eu próprio duvido de minha inocência!
Estou, para os outros: amigos, conhecidos, parentes, clientes, vizinhos, comprometido até o pescoço.
Ninguém quer complicações. Afastam-se cada vez mais ...
Eu me pergunto: onde estará o assassino a estas horas?
Não terá ele remorsos pelo que fez?
Ou o seu medo será maior?
Porque não assume espontaneamente a sua culpa?
Não vê que estou, inocente, no seu lugar?
Todos têm o direito de suspeitar de mim ...
Tenho suspeitado de muita gente também: gostaria que outro estivesse no meu lugar e experimentar ver se não tenho razão ...
Certamente mereço o que estou passando ... Pois tenho desejado que esse cálice seja oferecido a outrem ...
Volto pra casa.
E quando volto, caminhando passos incertos, abro devagar a porta e encontro minha mãe orando à mãe de Jesus ...
Tenho orado muito também ...
Mas não tive coragem ainda, de assumir o lugar de mártir nessa causa que não é do Cristo, mas de Satanás!
Rezo o terço diariamente. Contrito. Mais que nunca.
Devoção da qual nunca me afastei de todo, desde os tempos do seminário de Córrego Escuro ...
Tendo me confessado, vou à comunhão diariamente, onde encontro e recebo forças para passar por essas adversidades físicas e morais.
Às vezes, na igreja, sem uma resposta para minhas orações, me vem uma grande descrença ...
Vem o medo duma condenação injusta ...
E os Irmãos Naves? ...
SEGUNDA-FEIRA = hoje não saí de casa. Medo do mundo!
Terça-feira, 29 de janeiro de 1.974.
Logo cedo, no escritório, recebo uma carta anônima.
Uma pretensa testemunha (forjada pela polícia) recomenda-me um lugar para nosso encontro, para tratar do preço de seu silêncio: me viu sair da casa após os dois estampidos.
Coisa monstruosa, que nunca existiu! Que jogo sujo!
Vou até a delegacia e entrego a carta ao delegado.
Promete tomar providências, verificar impressões digitais e etc. E aproveita e me interroga nuns pontos que considerava obscuros no depoimento de 16 horas, do sábado.
Era só o que faltava.
Aproveito a calma, pois é dia e hora de serviço: então, na presença de outros, há mais respeito pelos outros.
Conversa comigo num intervalo, o Aristóteles – o aristotélico Aristóteles, que finge acreditar em mim, para ver se consegue algo mais que os outros não conseguem pela força ...
“Mas não me enganas, Aristóteles: teu papo é furado!” Penso comigo ... “Trouxa... vá caçar soldado que faz mal pra filha de escrivão, vá ...”
Dispensado novamente, nem regresso ao meu escritório.
Vou para a casa paterna, que já devem estar rezando pela minha volta, são e salvo, avisados que foram por meu funcionário e sobrinho, Serguei.
E não me engano.
E a tarde acaba. E a noite passa.
Chega a quarta-feira, 30/01/74.
Fico sabendo que outros crimes engrossam o caldo da grande sopa digerida pela polícia local.
E a incompetência cobra o seu preço: as dificuldades e a minimização de seu preparo intelectual são patentes ...
O povo, inseguro, reage surdamente ...
A massa popular agita-se inconscientemente.
E torna-se alvo fácil das especulações do “INIMIGO”.
Absorve qualquer palavra dali saída ...
Há um acréscimo de arautos, anunciando ...
E leio então as manchetes do dia.
“OS SUSPEITOS SÃO OUVIDOS MAS OS MISTÉRIOS CONTINUAM.
CRIMES MISTERIOSOS... CONTINUAM MISTERIOSOS.
O Dr. Vidro Amarelo e os investigadores Mirto e Marginal, além do escrivão Aristóteles, estão empenhados no esclarecimento do crime e continuam ouvindo pessoas na delegacia de polícia, juntando as provas para se tentar chegar ao assassino.
Mais de 70 pessoas foram ouvidas e ontem à tarde notava-se o otimismo dos policiais, que acreditam na solução do caso em breve. Embora não sejam divulgados nomes, há dois suspeitos.”
Não leio as outras notícias.
Calafrios me repassam o corpo inteiro.
O jornal, sem fornecer a fonte da informação, diz que há apenas dois suspeitos e que se juntam provas para se chegar ao assassino: é a pressão sobre as massas ... Indiretamente, pelas notícias anteriores, se deduz que Brojes Haller, para o jornal, é o suspeito principal ...
Como estou sendo reparado ...
Ao passar, sou indicado. Alvo de olhares e indicações.
Não tem mais bate-papo amigo.
Não há mais amizades.
Serviço ruim. Péssimo rendimento.
Família acabrunhada, chororó ...
Tudo vai mal.
Apenas me salva, a fé na Justiça Eterna ...
Os dias estão passando nulos na minha vida.
Não tem havido construção de nada. Nem ação, nem omissão.
Sou um zero à esquerda, na vida.
QUINTA-FEIRA: 31 de janeiro de 1.974.
Hoje, logo pela manhã, apareceram Gebofe e Marginal.
Vou até a casa com eles, atendendo seu pedido.
Lá me explicam:
“Uma tua prima, sobrinha de Adorasterra, amiguinha de Camélia, depôs ontem e disse que passou em frente ao escritório Verde (veio de ônibus do bairro onde mora), e o mesmo estava fechado.
Veio até a casa, isso no dia do crime, por volta de oito e meia da noite. Vinha chamar Camélia para ir com ela a um circo.
Mas, entrou no alpendre e na hora de bater na porta, viu pela janela de vidro fosco da porta, a televisão ligada.
Um vulto se mexia na sala e tapou momentaneamente o clarão da televisão. Então ela resolveu não chamar Camélia e foi-se embora.
Não sabe porque não chamou. Teve um pressentimento, disse.
Virou rapidamente as costas e foi-se daqui.
Apertamos ela bastante, para ver se havia aberto a porta, mas ela diz que não abriu. Não viu nada de anormal. Só foi embora.”
– O que acha disso, Brojes?
(E isso soou-me como um golpe!)
– Ela mente!
– Onde?
– Com relação ao escritório. Não estava fechado. Apenas uma das folhas da porta!
– Como sabe que ela mente?
– Nisso: se veio de ônibus, não precisava passar defronte ao escritório para vir até a casa. Era só subir a Federal Ordeiro – onde tem o ponto do ônibus – dobrar a esquerda, entrando na Injusto Darx, virar à direita na esquina e subir pela Federal Ossário até a minha casa. Ela mente, descaradamente, para me complicar!
– Qual o interesse dela?
– Pode ter sido instruída por alguém!
Nada mais disseram. Fomos embora.
Parece que para eles, está patente a minha culpa.
Era isso o que queriam dizer com aquele “O que acha disso, Brojes?”
Não trabalho mais.
Como provará a mocinha do peeting municipal-varzeano, que eu não estava no escritório? Quem a terá instruído?
Para checarem um simples horário de saída do dentista, foi preciso quatro deles! Mas, para me inculparem, para checarem um horário importante como o de minha saída ou não do escritório, basta uma biscatezinha qualquer! Há coerência?
Creio que eles julgam ter em mim aquele que procuram ...
Ou são modos de agir, “rotina”?
“Há algo de podre no reino da Dinamarca...”
Chega a noite.
Voltam, agora à casa de meu pai e me chamam, para ir até à casa novamente com eles.
Lá chegando, ligam a televisão. Saem pela porta da frente.
Ficam olhando através do vidro fosco da portinhola de segurança da porta.
Mandam-me chegar para frente. Para trás. Para o lado.
Mais um pouco. Recuar. Adiantar.
Tudo na frente da televisão ligada.
Ora com as luzes acesas, ora com elas apagadas.
Não comprovando nada de incriminador, ou comprovando a mentira da biscate, dispensaram-me a ajuda.
Fechamos a casa.
Volto para junto de Anicla e os meninos, na casa de meu pai.
Fico bastante intrigado.
O que a moça terá visto, se é que viu?
Acaso não presenciou a tragédia e silenciou?
Por medo?
Por cumplicidade?
Não terá visto os feridos e os abandonado?
Terá chegado na hora dos tiros?
Não dormi mais essa noite ... Após conversar com a família por longas horas ... Contar por alto algumas passagens ...
Sexta-feira passa ligeira: uma má entrada de mês ...
1º de fevereiro de 1.974 ...
Hoje me senti esgotado o dia todo. Há uma inexplicável pressão, uma carga negativa que me irrita os mínimos terminais nervosos.
Expludo a qualquer hora, sem dúvida ...


segunda sabatina




Entramos em meus últimos pressentimentos: um novo sábado.
O primeiro do segundo mês do ano: dia 2/2/74.
Minha depressão não tem tamanho. É uma grande cratera.
Existe um silêncio na imprensa nesses dias, como um presságio ...
De manhã, já a intimação.
À tarde, o mesmo trajeto ao prédio da Regional.
A mesma escadaria. O mesmo silêncio. A calmaria velha ...
A espera também é a mesma: angustiosa, nervosa.
O mesmo medo de ter de confessar, à força, o que não fiz.
Deus, dai-me forças ...
Exaspero-me logo de início, devido ao esgotamento.
Recebo o mesmo tapa-ouvido inicial.
Como que impelido por uma mola, precipito-me sobre Mirto, gritando, xingando. Mas, quando vou alcançá-lo, ele se esquiva.
Recebi uma cutelada nos rins e cambaleei.
Aí, veio-me o impacto entre os olhos.
A consciência voltou-me lentamente, com mãos ásperas procurando pôr-me de pé.
Protestei debilmente e fui empurrado contra um sofá.
O verde. Onde me apoiei, cabeça entre os braços.
Tapas no rosto, que estalam, me fazem retornar à realidade.
– Você matou o velho primeiro?
– Qual dos dois quis defender o outro?
– Fala, cão gordo!
– Não! gritei, e inclino-me para diante a fim de me atracar com ele. Mas minhas mãos não encontraram o que segurar no corpo delgado, na camisa escorregadia. E seu joelho subiu, alcançando-me a boca do estômago.
Enquanto eu arfava de dor e me dobrava em dois, ele se esgueirou de mim e correu, pegando um cassetete pequeno sobre uma poltrona ao lado.
Corri atrás dele e estava a pique de pegá-lo, quando ele se virou e arremessou algo em meu rosto.
Automaticamente levantei o braço para proteger os olhos.
Uma coisa macia tocou-me as pontas dos dedos.
Tropecei e caí pesadamente, desajeitadamente, raspando a cabeça numa parede que pareceu vir sobre mim, com um impacto absurdo.
Por um momento, uma dor intensa trespassou-me. Depois, tudo se desvaneceu na escuridão ...
Sonhei. Tomava aulas de judô. Um japonês pequenino como o investigador de cabelos ruins, forçava-me a aprender a cair ao solo.
Um chute na barriga veio me fazer virar de costas e as coisas começaram a embaralhar, me dando vertigens e náuseas.
Não sei como não vomitei.
– Conta onde está a arma, Brojes. É melhor para você.
– Conta onde comprou, de quem, onde está ... Era a voz rouquenha do nojento Marginal Domêis.
– Não matei ninguém. Cambada de idiotas! Vou processá-los, vocês me pagam... seus ...
– É melhor ficar de bico calado, mocinho ...
E Mirto Rego completou as reticências, dizendo:
– É fácil ser morto numa esquina escura ... E nunca acharemos o seu assassino também, sabe? Você me entende? Um atropelamento acidental ... Está me ouvindo, cão gorducho? Bico calado!
– Olha aqui, cambuia de assassinos, sei quem matou os dois.
– Quem???
– Vocês! Sim, vocês, nessa sua inércia, seu comportamento animal com os seres humanos! Sim, vocês causam mortes por revolta, cambada de imprestáveis!
Colocam-me então em frente de uma lâmpada de umas quinhentas velas.
Tudo some na penumbra. Tudo me ofusca ...
Um calor intenso me chateia a cara.
Ao tentar desviar os olhos da claridade, recebo um pé-de-ouvido que zune feito marimbondo no ataque.
– Conta como foi que os matou. Só isso. Nós sabemos que foi você. Frio! Calculista!
– Não matei ninguém. Nunca ...
– O velho não quis emprestar o dinheiro pro conserto do carro! Você o matou, cretino!
– Você sabia que eles estavam mortos, quando chegou do seu miserável escritório. Estava calmo ...
– Você fingiu que não sabia e fez onda. Chamou pronto-socorro, chamou polícia... Aí está: porque polícia? Como sabia se tinha havido crime?
– As recepcionistas da Santa Casa acharam que você representou mal, ao mostrar-se exageradamente preocupado com o estado das vítimas, à procura do médico. Se queria médico, porque não foi a outro hospital? Ao invés, voltou pra casa ...
– Porque precisou de um calmante antes de telefonar? Já havia tomado outros antes, não? Viciado!
– Porque no interurbano ao Fio, você disse que foram mortos? E se fosse acidente? Como sabia que foram mortos?
– O policial lhe disse que estavam mortos e não: foram mortos!
– Percebe, como a lógica mostra que foi você?
– Não! Não!  E não!
– Porque no necrotério não quis olhar de frente os corpos deformados pelos seus tiros? Fio reparou nisso e acha que é você. Nos contou como foi...
– MENTIRA!
– Porque todos duvidam de você?
– Se fosse o bonzinho que quer parecer, ninguém suspeitava de você!
– Na cidade é voz geral: “Porque ainda não prenderam o Brojes?” fala roucamente o Marginal Domêis.
– É PORQUE NÃO TÊM A PROVA DISSO!
–  Mas foi você, não foi??!!
– NÃO! ENTÃO ME PRENDAM SE PUDEREM!
– Você pensa que sumida a arma não temos força, não é?
– Pois olha: as provas circunstanciais te acusam e mesmo sem a arma do crime você logo será indiciado.
– ENTÃO, MÃOS À OBRA! ME ACUSEM. ME PRENDAM. MAS NÃO CONFESSO UMA COISA QUE NÃO FIZ, POXA!
– Não precisa gritar, mocinho ... Mirto, pegue-o por trás!
– Agora são só vocês três e eu, cambada. Partam firmes!
Pego uma cadeira, arremesso sobre Vidro Amarelo que se desvia, mas cai. Mirto tenta se aproximar e recebe um chute no peito, ao mesmo tempo que caio com o pé esquerdo no pescoço do Amarelo. Marginal assiste impassível ...
Mirto se refaz, pega no revólver e tenta me acertar o crânio várias vezes. Preocupado em desviar-me de seus golpes, não pressinto Marginal que me agarra numa gravata. Elevo os dois pés firmando o equilíbrio no corpo que me agarra e desço ambas as pernas de súbito. De soslaio vejo o corpo do Marginal voando sobre minhas costas.
Vidro Amarelo grita: “Afastam-se, vou atirar!”
Com o revólver na mão, faz mira sobre mim.
Sem alternativa, levanto os braços.
Aí, me esmagam ...
Tento achar alguma coisa pra xingar, para encobrir minha covardia, mas antes que as palavras tomem forma, mergulho numa escuridão ...
Desperto, com o busto despido, todo molhado.
Jogam-me ainda, respingos de água no rosto.
– Como foi que você disse que permaneceu no escritório, se temos uma testemunha que diz o contrário?
– Minha palavra contra a de uma biscatinha...  Provem e pronto!
– Porque não atendeu ao telefonema de sua irmã, se estava em casa?
– Não estava em casa! Quando estive jantando, o telefone não chamou!
– Você pensa que, por ser um intelectual, fez o crime perfeito, mas se engana. Vamos achar uma falha em seu plano.
– Ainda não acharam? Então porque essa conversa fiada de provas circunstanciais?
– Você lavou as mãos após o crime: tinha sangue no lavatório, numa bacia!
– MENTIRA! Vocês sabem que era menstruação, resquícios de menstruação ...
– Você tentou deflorar a moça e ela não deixou? Ela estava ferida !
– MENTIRA! Estava menstruada, que eu já sei!
– Você já teve relação com ela antes, sacana! Ela então era sua amante!
Me calo. Horrivelmente entristecido. Lágrimas de ódio e desespero querem aflorar aos olhos com tamanha infâmia ...
Mas me contenho ... não posso fraquejar ...
– Vamos terminar logo com isso, Brojes. Confesse, vamos!
– NÃO CONFESSO NADA! E vou processá-los, bandidos!
– Sobre isso, já conversamos: bico calado. Você tem família para criar ...
Então, chamam o escrivão que vem sonolento, despertado dum sono de longas horas ...
Bate os papéis, maquinalmente.
Assino as folhas, após lê-las. Não queriam deixar. Mas me recusei assinar sem ler...
Mandam-me esperar numa sala.
Confabulam.
Demoram.
Quando vim embora, apenas o Vidro Amarelo me despediu. Prometendo me ensinar boas maneiras num próximo encontro ...
Desci desanimado a escadaria.
Perdera a noção das horas.
No clube da esquina adiante, outro baile ...
Dobro a primeira esquina.
Por um momento, julgo ouvir um assobio. Leve e sibilante. Veio da escuridão. Sigo. Estaco de súbito e viro-me: Mirto e Marginal, saindo das sombras, batem nos flancos direitos, mostrando os volumes de seus revólveres e se afastam com um sorriso maroto, cheio de promessas ...
Chego em casa e quero morrer.
Mamãe e os outros, como sempre, aos pés da senhora Aparecida, iluminada por uma bruxuleante vela votiva ...
Olho profundamente para a imagem da santa ali representada. Uma lágrima desce sem controle.
Parece que todos temem perguntar-me alguma coisa.
Me deito com toda a solidão do mundo ao meu redor...


viagens de recreio






DOMINGO.
Vou a missa. Comungo.
As páginas do “Inimigo” não trazem nada além dum comentário de certo colunista afeminado, dizendo do silêncio acerca dos crimes. Fala ele de “montes de suspeitos” ... Não entendo porque esse jornal quer “pegar no meu pé ...
É dia 03 de fevereiro de 1.974.
Dezoito dias se passaram e tudo mudou.
Não tenho vivido normalmente.
Vivo um ano por dia, envelhecendo com os segundos ...
Não acredito mais na Justiça Humana. Nem na humanidade.
Não tenho amigos.
A sociedade é uma ficção.
Amizade é uma instituição falida, falsa ...
Faço hoje algumas visitas a parentes e familiares.
O dia passa voando. Calafrios a toda hora.
SEGUNDA-FEIRA, 04/02/74.
Casa-trabalho-casa. Vivo maquinal. Como um robô.
Dispo-me de minha personalidade para ainda poder sair às ruas. Visto uma couraça para me proteger das flechas dos olhares inquisidores e acusadores.
Por que me julgam sem me conhecer?
O que há de errado com o mundo?
Por acaso serei eu o “algo de podre do reino da Dinamarca”?
Quem está errado?
Quem está certo?
Hoje aconteceu um fato curioso.
Aparece um cara, desconhecido meu, no escritório, à minha procura.
Atendo-o. Não se apresenta.
Fala de esperança, que as coisas vão melhorar ...
Que acredita ele – e seus irmãos de fé – que não sou culpado.
 Fala que estão orando e fazendo preces por mim.
Que logo vai acabar essa agonia. Que Deus é justo ...
Que isso por que estou passando é provação.
Algo que nos desígnios do Altíssimo, eu mereço.
Por atos ou omissões dessa ou de uma pregressa vida ...
Um cara “espírita”. Um verdadeiro cristão.
Me comovo com suas palavras. Não entendo nada de sua doutrina teórica. Mas a prática, o exemplo, são salutares.
Devolvo-lhe mil agradecimentos. Falo de meus desenganos.
De meus temores. Conversamos bastante.
Depois, se foi, descendo a rua ...
Fiquei a fitá-lo até que sumiu de vista.
Já o vi em algum lugar.
Mas, por mais que me esforce, não recordo onde.
Inda descubro quem você é ... Amigo-desconhecido!
Alguém já escreveu: “somos eternamente responsáveis por aquele que cativamos...” E você me cativou, pastor.
Seguí-lo-ei, após descobrir quem você é ...
Fora da família, só tenho um amigo, com a descoberta, você será o segundo-conhecido ...
TERÇA-FEIRA: cinco de fevereiro de 1.974.
Pensei em você, Amigo-desconhecido, por longas horas, como um raio de esperança em minha crença no Homem ...
Sabe, muitos covardes se afastaram temendo complicações por minha amizade ...
Você tem cara de funcionário público ... Fala manso, convence. Tem estudos e não tem ambição. É solteiro. Espiritualista demais. Religioso.
Comove-se com o sofrimento alheio.
Acredito que tenha orado por mim. Creio em você!
Para mim, é como o salvamento pro naufrágio ilhado..
Como o mocinho dos filmes, me livrando das mãos dos bandidos ...
Penso em você hoje o dia todo.
Trabalhei pensando em nossa futura amizade!
Até onde vão os desígnios do Altíssimo?
Como sabe você que vão se acabar os meus problemas?
Que não sou eu o culpado?
Nos jornais de hoje, nada de novo.
Continuam em sigilo as investigações ...
A família se tranqüiliza com minha melhora de ânimo.
E isso devo ao Amigo-desconhecido.
Noite amena, durmo à base de Passiflorines, Lorax, etc.
QUARTA-FEIRA: 06/02/74.
O “Inimigo” traz novidades.
Vidro Amarelo foi a Coivaras em busca de pistas.
Sei eu: arregimenta provas do meu proceder para me inculpar.
Como terá se saído por lá?
Alguém tem algo contra mim, de concreto, por lá?
MANCHETE DE última página: “PROSSEGUEM OS INTERROGATÓRIOS QUALQUER PISTA É ÚTIL.”
Às duas horas de hoje, quando encerrávamos esta edição, a equipe da Delegacia de Polícia de Rodelas do Norte, chefiada pelo Dr. Alerto Malvício Gebofe, continuava as investigações, para tentar a elucidação do duplo homicídio da rua Federal Ossário, no qual foram vítimas Adorasterra Derrapina e Camélia Zum.
O delegado Vidro Amarelo, que fora a Coivaras a fim de tentar outras pistas para orientar as investigações, não havia regressado.
O delegado titular do município rodelense informou que “todos os detalhes são observados, mesmo os mais pequenos, pois só assim poderemos chegar ao autor da tragédia.”
Encerro a leitura.
Passo o dia em trabalho de balanços, rotina fiscal e expediente normal.
À noite, comentários em mesa redonda, em casa de Figonar.
Novelas. Televisão e filmes.
As noites de calmaria têm sido assim ...
QUINTA-FEIRA: Ao alvorecer, leio o jornal trazido por meu pai.
Já não mais funciona seu ganha-pão. Fechou as portas.
Sua quitandinha acabou ... O velho está esgotado ...
Devo sustentar a casa? Meus proventos estão minguados.
Saíram alguns clientes do Escritório Verde...
A freguesia habitual, de guias mensais, afastou-se ...
Época de penúria se aproxima?
MANCHETES DO DIA? Nada de novo. Sigilo.
Vou para o trabalho. Não sou mais eu. Quem serei?
Casa-trabalho-casa.
Outra visita do amigo-desconhecido. Não me empolgo como antes. Apenas me conforto. Porque o anonimato?
O Imposto sobre os Ganhos está na pauta do dia. Pouca gente procura meus serviços ...
Ah! Recebi um recado hoje, lá de Matavacas, duma ex-namorada, dizendo que confia na minha inocência. Me comovo bastante. Fiquei sabendo que se mudou para Rodelas do Norte ...
Recebi hoje a segunda carta anônima (da polícia).
Como num ritual, fí-la chegar de volta às sua mãos.
Procurei um advogado amigo da família e lhe pedi que a entregasse ao delegado chefe.
E que pedisse a ele, para parar com isso, que não cola!
Com o costumeiro conteúdo “joga-verde-para-colher-maduro”.
Asneiras. Rimando tragédia e humor negro...
Com isso, ficaram sabendo que pretendo usar e me revestir de meus direitos de cidadão. Pus as cartas na mesa!
E tranqüilizo-me um pouco. Lorax & cia.
SEXTA-FEIRA: 08 de fevereiro de 1.974.
Sigo o hábito: no “INIMIGO”, busco as Manchetes do dia.
DUPLO HOMICÍDIO LEVA A POLÍCIA A CHIFRARIA:
Deverão seguir às 5 horas de hoje para Chifraria, o delegado Alerto Malvício Gebofe e o investigador Marginal Domêis, para investigações e tentativa de pistas relacionadas aos parentes de Adorasterra Derrapina.
Em interrogatórios, ficou apurado que a vítima possuía muitos parentes naquela cidade.
SUSPEITOS: pelo menos seis suspeitos foram eliminados pelo Dr. Gebofe, depois de investigações e extensos interrogatórios.
 O delegado informou que os suspeitos provaram suas ocupações no momento do crime, bem como os locais em que encontravam.
Mas as diligências continuam em torno de outros suspeitos que aparecem com o desenrolar dos acontecimentos.
ORIGEM: o Dr. Vidro Amarelo regressou ontem de Coivaras, com importantes declarações de pessoas conhecidas de Adorasterra Derrapina. Como se sabe, ele nasceu e viveu longos anos naquela localidade, sendo bastante conhecido.
Por isso, todas as pessoas relacionadas com o ancião foram ouvidas e as declarações estão com o Dr. Vidro Amarelo, que as estudará minuciosamente, a fim de tentar encontrar um ponto de partida para a elucidação do crime.
À reportagem desta folha, o delegado titular de Rodelas do Norte disse que fará amanhã, um retrospecto das atividades da polícia, com referência aos homicídios da Federal Ossário, divulgando, inclusive os nomes dos suspeitos.”
E a leitura acaba. Vejo a força da imprensa marrom ...
A carga psicológica, forçando as barras gerais.
Relaciona “O INIMIGO”, parentesco com suspeita, reportando-se instintivamente à primitiva idéia “do tempo do cangaço, de assassino assistir enterro da vítima”, que passa agora a nortear o rumo das notícias.
Admite no entanto, a existência de “suspeitos”, que surgem com o desenrolar dos acontecimentos, das investigações ..
Como se estarão saindo nossas “autoridades” em Chifraria?
O que acharão contra mim? Pois é isso que foram buscar ...
Como se comportarão os “parentes” de lá? O que terão contra mim? Acharão lá mais comprometimento para Brojes Haller?
E sinto hoje, como faz falta a visita dum amigo ...
Um papo alegre sobre arte, literatura, qualquer coisa...
Uma conversa sobre o meu serviço, minhas dificuldades.
Em nossa casa, estamos no limiar da loucura coletiva.
Os arrepios voltam com a proximidade do sábado.
Me perturbam, como pressentimentos, presságio e agouro.
Porquê? Sexto sentido? Até onde irá minha resistência?
Hoje, apesar dos comprimidos, não durmo.
Viro. Reviro-me a noite toda ...

 

terceira sabatina





E o sábado chega, finalmente.
Apesar de minha resistência – insone – de não recebê-lo.
Penetra em mim, como o pênis na virgem, na 1ª noite.
Apertado. Doído. Rangendo. Ferindo. Sangrando.
Mas desejado! Rejeitado, mas inexorável ...
Hoje, dia 9 de fevereiro de 1974: - Sábado.
Um dia radiante. Poderá ser negro em acontecimentos?
É quase inacreditável ...
A intimação invariavelmente virá como sempre?
O que pensa a polícia? Os três mosqueteiros?
Que trabalho honestamente a semana toda, com meus problemas e dificuldades, tudo atrapalhando, para “descansar” no sábado e domingo em suas mãos?
Será que julgam não me afetar com seu interrogatório?
Estou perdendo as esperanças rapidamente.
Como um avião em pane perde altitude ...
Não procuram mais o assassino. Querem a mim!
Querem que eu o seja. Por minha própria vontade!
Buscam, procuram, desejam tudo o que possa me incriminar.
Provas circunstanciais, na falta da arma, me condenarão?
Se no caso dos dois Irmãos, não apareceu nem arma nem a vítima ... O que não poderá me acontecer?
Como achar o verdadeiro assassino?
Cedo ainda, leio as manchetes.
E só agora noto: perdem em sua grafia, as letras garrafais, à medida em que os dias vão passando e os crimes distanciando ...
DUPLO HOMICÍDIO: MUITAS PESSOAS FORAM OUVIDAS EM CHIFRARIA.
Das 5 às 22 horas de ontem, o delegado Alerto Malvício Gebofe, acompanhado pelo investigador Marginal Domêis, esteve em Chifraria à procura de pistas para o esclarecimento dos assassinatos ocorridos no dia 16 último, em Rodelas do Norte.
O delegado do município ouviu 8 pessoas relacionadas com as vítimas, já que em interrogatório, foi apurado que Adorasterra Derrapina possuía muitos parentes naquela cidade.
Segundo o Dr. Gebofe, foram feitas várias diligências em Chifraria.
Com isso, a polícia de Rodelas do Norte está somando vários esclarecimentos para tentar elucidar o duplo homicídio.”
Encerro.
Alerto Malvício Gebofe: um cínico, como homem.
Um competente, como polícia.
Até hoje, não presenciou nenhum interrogatório meu.
Não se compromete. Quer o serviço pronto. No prato.
Não entrou na jogada ainda ... Diretamente, não ...
Temos tido contato amistosíssimo e não deixa transparecer nada do que pensa sobre mim.
Atendi-o no que pude, solícito. Atendeu-me da mesma maneira. Sempre cortês. Bom-falante. Professor ... Nunca usou uma palavra errada, sequer uma gíria ... Espertíssimo profissional.
Despreza o trabalho “de sapa” e cego de seus subordinados.
Trabalha no sigilo ... Os outros são marionetes em suas mãos. Tenho certeza. Nele, há um potencial incalculável de malícia e maldade ...
A intimação até agora não veio ...
Mas em seu lugar já vem chegando a viatura bicolor.
A perua da delegacia de polícia de Rodelas do Norte.
Estou me familiarizando com o seu banco traseiro.
Tenho estocado paciência ali. Esperado confabulações ...
Ah! Se essa perua falasse ...
Recolhem-me no portão da casa de papai.
“Para prestar alguns esclarecimentos.”
– Esperem: vou telefonar para o advogado me acompanhar.
– Não precisa. É rápido, na regional. Pode avisar os seus pais.
E me levam os três mosqueteiros: Dartagnam careca, Baixim complexado e Muitossono Marginal.
Saímos, de início, do roteiro da regional.
– Vamos comprar umas laranjas ...
Muitossono desce na regional.
– Ele deve ir conosco. Não pode faltar. Localiza ele. Diz-lhe o Vidro Amarelo.
“Quem será esse?” penso eu ...
Compramos as laranjas em Nova Rodelas.
Voltamos. Passa o Vidro Amarelo novamente na regional.
Entra no jogo, um novo artilheiro: Betro Sacafino. Ou – BÊ Arranca-Confissões... Entra no jogo e na viatura.
Com ele, Marginal “Muitossono” Domêis.
Sobre o “Arranca” já ouvi falar muito. Veio de Córrego Escuro. Tem problemas com a família. Um renegado, sem escrúpulos.
Ao volante, Vidro “Dartagnam Careca” Amarelo.
Ao meu lado, Mirto “Baixim Complexado” Rego.
Uma companhia indesejável, sem dúvida.
Não tive alternativa. E agora, tudo é mistério. Nada dizem sobre nosso destino.
Já anteriormente, cruzara olhares esquivos com o “Arranca”, quando estive na delegacia entregando a 2ª carta anônima ...
Após abastecer o veículo numa bomba de gasolina – invariavelmente – sob olhares indiscretos gerais, saímos da cidade.
Tomam a direção de Restinhos, localidade vizinha a Rodelas do Norte, onde Vidro Amarelo é delegado titular.
Pelo caminho – percurso de 10 minutos, a toda – ameaçam-me de todas as formas.
Apavoro-me. Desespero-me. E o advogado?
Terá chegado minha hora?
Abusam do vocabulário.
Arranjam mil e uma insinuações sobre minha masculinidade.
Apenas um fica compenetrado como carrasco em dia de execução: O Arranca-Confissões.
Chegamos. Discretamente. Nos dirigimos ao presídio local.
Recém-inaugurado? Talvez.
Pintado de novo? Sim.
Abrem-se as portas e as janelas e o cheiro de mofo e tinta fresca sai do ambiente.
Saem dois deles. Permanecendo comigo Mirto Rego e Vidro Amarelo, fazem-me sentar.
Ausentam-se pelo prédio adentro.
Vidro Amarelo, nos fundos, descasca laranjas.
Me oferece uma, que aceito, mostrando cordatez.
E volto pro meu lugar: uma das cadeiras do corredor, uma vez que saíra dali para chupar a fruta na pequena cantina daquela Delegacia.
Trancam-se os dois numa sala à minha frente e permanecem algum tempo.
Quero fumar. O lugar me abafa. Saio para a pequena área de entrada, onde acendo o cigarro.
Logo me buscam, zangados. Me põem brutalmente na posição anterior.
Arrancam o cigarro de minha boca e o amassam devagarinho sob meus olhares pesarosos ...
– Pra quem pediu ordem para fumar? A partir de agora, está proibido! De castigo! completou Mirto Rego.
– Hoje você poderá berrar à vontade, meu camaradinha. Estou seco nocê ...
Diz ainda o Baixim Complexado, lembrando talvez do peito dolorido, com emplasto Sabiá ...
– Vamos entrando.
E dizendo isso, o Vidro Amarelo me introduz na sua sala de Delegado Titular.
Colocam uma cadeira no centro da sala. Rodeiam-na com quatro outras.
Mandam-me assentar-me na central.
Saem e trancam a sala à chave. Aguardo.
Passa um quarto de hora, mais ou menos.
Chegam os dois que haviam saído.
Reúnem-se aos outros que estavam papeando numa saleta fronteiriça à minha e irrompem no aposento.
– Com licença – diz Mirto em tom de escárnio e retira-me os óculos, como tem feito das vezes anteriores.
– A parada hoje é comigo, mocinho. Já lhe disseram que não brinco em serviço? – pergunta-me Betro Sacafino, o Arranca-Confissões.
– Não senhor! respondo-lhe.
– Pois comigo o senhor achou.
Nisso, já estavam sentados ao meu redor, os quatro.
– Vamos começar do princípio. Eu nada sei de sua história. Me conta tudo direitinho. Digo: direitinho. Já estou treinado com caras como você. Já ajudei muito nego desembuchar. Cada mentira, um sopapo!
E começo tudo outra vez ...
... e aí é tudo – concluo.
Acabo assim de contar. Cheio de esquimoses e hematomas que Vidro Amarelo foi curando com um líquido que me cheira a vinagre e cujo teor salínico é elevadíssimo.
– Mas e a moça que o viu em Matavacas, no dia do crime?
– Não saí de Rodelas nesse dia!
– Disseram que levava uns 50 milhões para depósito  ... Onde está o dinheiro?
– Não sei de nenhum dinheiro!
– Você roubou o velho! Ele descobriu e teve que matá-lo?
– Não roubei ninguém. Nem matei ninguém.
– Em Coivaras, falaram que você judiava do velho. Que ele tinha medo de você. Porque o matou? Perdeu a Paciência?
– Não judiava dele não. Não matei ninguém!
– Porque não fez velório para os dois, com sua mulher? Todo mundo estranhou.
– Não tive condições de velar desde o começo. Mas antes de amanhecer o dia, fiquei no velório com minha mulher!
– Olha rapaz, não brinque comigo e responde direito, sem berrar, tá ouvindo?
(E esse “tá ouvindo?” veio acompanhado dum pé-de-ouvido de lascar.)
– Você é um frio e calculista. Quer que lhe mostro?
– É um favor!
– Debaixo duma suspeita dessa e você escrevendo poesias publicadas toda semana no jornal “O Amigo”! Onde está sua sensibilidade e respeito pelas mortes?
– Eles estão publicando matéria deixada lá há muito tempo. Estão tentando mostrar à opinião pública, meu interior, minha sensibilidade – a que me impedirá de cometer qualquer tipo de crime – em qualquer época ... Querem mostrar que não sou eu o “monstro” que quer mostrar o outro jornal, o “Inimigo”...
– Não me convence, fresco!
– Conta pra nós: porque a mãe da moça acha que foi você?
– Não sei se ela acha!
– Olha: só pode ser você. São as evidências, entende?
– Não entendo!
– Aquele outro, motorista de caminhão que podia ser, não é. O pretinho seu compadre não é: não tem a altura que ficou patente na autópsia. Quem atirou no velho tem a sua altura. E tem os seus motivos!
– Não atirei em ninguém. Não tinha motivos, também ...
– A velha que morava com vocês, contou direitinho suas brigas ... Você dorme separado de sua mulher? Por causa da moça, era?
– Não! Não admito essa insinuação!
– Não berre conosco!
– Eu, às vezes, brigava com a mulher, como briga qualquer casal. Era só isso. Às vezes, dormimos separados, por causa das crianças: fica mais fácil para ela olhá-las durante a noite, em nossa cama.
– E a história das porradas que você deu nela? E o desquite?
– Não dei em ninguém. Brigamos e levei vantagem, apenas. E o pai dela queria que nós desquitássemos. Mas não conseguiu.
– Você disse pra alguém em Coivaras que só desquitava quando o velho morresse, pra você entrar na herança!
– Mentira! Nunca disse isso: sabia que os herdeiros seriam os netos, pelo testamento!
– Não me chame de mentiroso, moço. Já estou ficando nervoso! Você tem as respostas preparadas para tudo!
– Vamos ver como ele se sairá no Demonstrador da Verdade ...
(E assim, deram-me uma trégua, com o Arranca-Confissões, passando o interrogatório para o Mirto e o Marginal).
– Vamos fumar. Um atrás do outro agora. Tome.
Acendeu um cigarro pra mim e o colocou em meus lábios.
Dei uma tragada e joguei no chão, pisando.
Mandaram usar o cinzeiro.
Pedi outro cigarro.
Mirto, vendo que logo o maço se esgotaria, abandonou a idéia de me fazer fumar feito um sapo!
Me deu um tapa-ouvido de repente.
Quando o zunido abaixou, pude ouvi-lo novamente.
– Não queira você me tirar sarro, canalha! Assassino de velho e moça!
– Não sou assassino de ninguém!
– Em Chifraria tem um rapaz que forma esse ano pra advogado e diz que quer funcionar na acusação contra você. É seu primo – primo de Anicla – Gil Berra. E tem certeza que foi você, pois disse que você não gostava do velho!
– Acredito que ele tenha dito isso, por despeito. Nada sabe de minha vida particular o Gil Berra. Pretendia ocupar o meu lugar nessa casa, como genro do velho. É isso...
– Porque naquele dia você não suava como agora?
– Vocês me metem medo. Esse suor é frio, olha. Estou me sentindo mal. Mal mesmo. Com falta de ar. Me dá um pouco d’água?
E Vidro Amarelo buscou correndo um copo de água doce.
Nesse intervalo, eu penso rápido. Está escurecendo. Vou perder a comunhão hoje. Estou com fome. Deu certo o golpe de passar mal. Vou levá-lo adiante ...
Vidro me entrega o copo, e sorvo de um gole, tremendo por querer ...
Saem todos da sala, pensativos, por uns momentos.
Agora esgorço uma mão fechada contra a palma da outra, como quem esmurra e ponho todo esforço nisso, até começarem a tremer os bíceps de ambos os braços. Me canso. Começo a suar abundantemente. Ruborizo-me no esforço. Como planejei ...
– Melhorou do “grupo”? perguntam-me o Dartagnam Careca, quando retornam os quatro.  
– Vocês não sabem o que estão fazendo comigo. Tá errado! Não tenho nada com crime não. É porque está difícil pra vocês acharem a pista? Mas não fui eu.
– Quem foi então, biduzão?
– Olhem, eu tenho pressão alta por causa da gordura. Vou ter um troço a qualquer momento!
– Nós baxa ela no tapa! diz o Baixim Complexado.
– O troço você vai ter agora mesmo! completa o Muitossono.
– Tira o sapato, ordena o Arranca-Confissões.
(“Pra que isso”, penso eu ...)
– Vamos, tira a camisa, a calça, a cueca, tudo. Te queremos peladinho como nasceu! Ironiza Mirto Rego ...
Digo ao Betro: você um dia há de ser rebaixado ou expulso do seu cargo, por não ter condições psicológicas para tratar com seres humanos!
Digo ao Vidro Amarelo Careca: você subirá à custa dos pés-de-chinelo. Enriquecerá com o produto do roubo de pivetes ...
Ao Muitossono Marginal Domêis: você sabe que não fui eu. Larga do meu pé, cara!
Profetizo ao Complexado Mirto: Canalha é o que você é. Você carregará o assassinato de um inocente pelas costas pelo resto de sua vida...
E dito isso, estou nu.
Falei lentamente, olhando fundo no olho de cada um...
Me empurram, portas e janelas fechadas para o exterior, Delegacia adentro, até uma cela vazia.
Abrem-na. Me lançam dentro.
Mandam-me encostar à parede, pés unidos, distantes da parede meio metro. Braços estendidos, mãos apoiadas na parede. De costas para eles.
Passam rápido um fio de cobre em meus tornozelos e me imobilizam.
Mandam-me sentar.
Unem meus pulsos nos mesmos fios de cobre que passaram nos tornozelos. Estou de pés e mãos atados.
Põem-me uma venda, feita dum lenço sujo de algum deles.
(pra quê? meu Deus ...)
O cimento frio, a sensação de vazio, a latejação do sangue nos pulsos apertados ... O desespero dessa escuridão avermelhada pelo lenço ... Sinto calafrios. Os mesmos de sempre.
Tudo é sacudido de repente, por um choque elétrico que me trespassa o corpo num segundo.
Berro horrivelmente pelo susto. Tomo uma bordoada na nuca.
Ouço uma voz vinda do alto, como se estivesse num plano bem superior ao chão.
Cochichos. Apalpam-me na altura do peito.
Meu suor escorre agora.
Os olhos se encharcam e um ardume me impede de abri-los, de fechá-los.
Uma sensação estranhíssima, quando tento trazer as mãos até eles e elas não vêm.
Súbito, tudo paralisa-se outra vez. Penso ter-me tornado elétrico. Outro choque. Dessa vez, mais demorado.
Um relaxamento me invade, como num desmaio.
– E agora, vai nos contar?
Enrolam filamentos em meu pênis: outro choque. Doloroso!
– A moça de Matavacas já te reconheceu. O pessoal do Banco já reconheceu sua fotografia!
Novo choque. Algo metálico se encosta em meus mamilos ...
– Seu horário é fajuto. Você está perdido!
– Confesse, vamos.
Outro choque: ânus. Mais outro. E outro. Outro mais ...
– Porque os matou?
– Cadê a arma?
– Qual quis defender o outro?
Perguntas repisadas, intercaladas aos choques ...
– NÃO CONFESSO COISA QUE NÃO FIZ! DESATEM-ME DAQUI! ESTOU INOCENTE!
E um desespero me invade duma tal forma que me ponho a chorar como criança.
Outro choque.
E a voz do alto desce num salto.
Ouço, apenas: nada vejo.
Tiram-me a venda.
Arranca-Confissões – nervoso – está para ter um ataque.
Pega um cigarro aceso e chega bem perto de meu pênis.
Isso me queima e urro como um animal ferido. Ele afasta o cigarro e a dor permanece, como se a carne estivesse se cozinhando lentamente.
Vejo então a arrumação do suplício: dois longos fios sobem de minhas ataduras metálicas até o bocal duma lâmpada.
De lá, vieram os choques.
Eu fecho o circuito. Como não sou lâmpada, não acendo!
Apenas estremeço novamente, quando me viram de lado no chão. Aumentam o comprimento dos fios. Me estendem braços e pernas com brutalidade.
Os fios querem me cortar.
Conto isso a eles.
Então, vibram de emoção.
Mas, viram-me de costas para o cimento.
Introduzem uma barra de ferro entre os meus tornozelos, e passam-na entre meus braços, rente aos pulsos.
Tentam erguer-me do chão dessa forma. Reclamam do peso.
Não agüentam. Os outros dois ajudam.
Fico dependurado, suspenso na barra, como um quarto traseiro de gado no açougue.
É por alguns segundos: eles se cansam com a minha tonelagem.
Porque permaneço mudo? Terei entregue os pontos? Cochicham entre si.
Meus pulsos tendem a partir-se. E meus tornozelos parecem já cortados.
Põem-me a venda suja novamente.
Soerguem-me. Sinto que uma das extremidades da barra de ferro – a próxima às minhas mãos – apoia-se numa forquilha metálica, que não lembro ter visto antes.
Gemidos partem dos quatro.
– Agora!
Bufados e suspiros, quando apoiam a outra extremidade da barra em outro ponto fixo.
Resfolegam pelo esforço.
Os fios judiam de minhas carnes a ponto de minha pele parecer partir-se, romper-se.
E começam a dar-me pancadas na altura dos rins, com algo macio, flexível, horrorosamente dolorido.
Serei eu o Mundo e esses os quatro cavaleiros do Apocalipse? S. João me perdoe a comparação, mas não seria esse o sentido de seu exílio em Patmos?
Pendurado aqui, o mundo não tem o mínimo sentido em meu entendimento.
Vou me adormecendo nos lados.
As pancadas, infinitamente dolorosas, vem vindo sempre.
Ritmicamente férteis ...
Boca do estômago é invadida por dedos em posição de caratê. Às vezes, tento contorcer-me, mas isso aumenta a dor em meus extremos atados aos fios, pendurados à barra de ferro ...
– Confesse logo e tiramos você daí.
– Só pode ser você. Porque tenta nos enganar? Somos mais espertos e mais fortes que você. Não está vendo?
– TIREM-ME DAQUI. VOU MORRER!
– Quem atirou no velho tem a sua altura.
– Você e não nós é “a cascavel que o velho criava em casa.”
– Você perdeu a paciência. Casou-se por interesse. Não tem amor aos filhos.
– Já pensou, quando eles estiverem grandes, entendendo as coisas e virem que o pai, que têm na cadeia, não teve coragem para confessar o crime de matar o avô? Vão te odiar para sempre!
– Eu te disse que a parada comigo não é brinquedo, moço!
– PODEM ME MATAR ENTÃO! MAS CONFESSAR NÃO CONFESSO. NÃO MATEI NINGUÉM, PORRA!
– Você gostava da moça, não? Confesse. Ela não correspondia?
– Você lhe fez mal e ela ia contar para a mãe? Era sua amante? Queria ir embora com a mãe, de volta pra fazenda?
–  Porque você a matou?
– PAREM, CANALHAS. ESTOU INOCENTE  DE TUDO ISSO!
– Não vamos parar até você contar a história como ela é: de verdade, tá?
– Você dormia separado da mulher por causa dela?
– Você abriu um quarto a mais na casa, só pra ela, não foi?
E uma pancada a mais foi acolhida inapelavelmente por meu fígado.
– Você confundia ela com a sua mulher. Pareciam, não?
– NÃO. NUNCA A CONFUNDI COM MINHA MULHER!
– Não precisa gastar seu português. Gasta sua confissão e nós te tiramos daí ...
– NÃO. NUNCA!
– Eu acreditava em você até o dia em que arrumou advogado!
– Mas ele não te adiantou, tá vendo?
– VOU PROCESSÁ-LOS POR ISSO! PODEM ME DEIXAR AS MARCAS QUE QUISEREM ...
– AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH!
(Uma risada geral acolheu minhas últimas palavras.)
Um tapa-ouvido do Rego Complexado fez cortar o som que permanecia dessa risada em meu cérebro e o vácuo comprimido fez zunir meu tímpano até eu perder o sentido do equilíbrio.
O mundo começou a girar. Parecia que eu ia cair.
Tudo ficou roxo e foi escurecendo junto com minha dor e tudo foi sumindo e a dor também ...
Agora, molhado por água duma vasilha que não vejo bem, recupero os sentidos.
Tiraram-me do pau-de-arara.
Afrouxaram os fios.
Não vejo mais possibilidades de novos choques: tiraram os fios do bocal de lâmpada.
Estou de costas no chão ensopado, numa mistura de suor, água e dor ...
– Como é? Não agüentou as pontas, hem! Você é um fracote, um mastodonte com miolos de galinha. É só contar o que fez direitinho e vai embora.
Noto que não ficaram sinais da amarração nos pulsos nem nos tornozelos: o fio é recoberto; descascado em alguns pontos de contato com a pele, apenas. Não vejo a barra de ferro nem o que foram seus suportes.
– Vai contar agora, ou prefere levar um cassetete no jiló?
– Olha: sei que você vai gostar. Me disseram que você já foi bicha. Eu acho que ainda é! – ironiza Mirto Rego.
– Vai a seco!
– Não vai confessar? Onde está o revólver?
– NÃO ME AMOLEM! NÃO MATEI NINGUÉM! BICHA É A VÓ, TÁ OUVINDO?
Não pude gritar alto como queria: o peito está como que dilacerado pelas pancadas, pontadas de cassetete, cuteladas. Todo meu interior deve ser uma chaga. Por fora, nada noto.
Então, ainda amarrado, viram-me de bruços, dois segurando as pernas e um com os joelhos sobre os meus ombros.
O outro cumpre a promessa do cassetete ...
Não adianta contorcer: a natureza do suplício pioraria.
Os músculos do reto são exigidos ao máximo.
O conveniente é ficar quieto. Pedindo a Deus. Xingar.
Mandar fazer isso nas respectivas mães ...
Tento esgotar sua paciência e começo a rezar alto uma Ave-Maria.
Aquilo desce sobre a cena e a torna profundamente patética.
Mas surte efeito na hora: abandonam a tortura.
Xingando, esmurrando as nádegas dilaceradas, mas abandonam ...
(Única marca que tenho para lhes mostrar, de todas as sevícias que passei!)
– À merda! – Grita Arranca-Confissões para Vidro Amarelo – Desisto! Te entrego o homem!
Rezo então bem alto um Pai-Nosso. E digo a eles que estão perdoados ...
Peço-lhes por piedade, que me livrem das amarras, que não sou eu, que deixem-me vestir as roupas, tomar um banho e rezar um pouco sozinho ...
Sou milagrosamente atendido.
Em pouco, estou vestido. Nenhum sinal exterior.
Apenas o ânus dói, como nunca senti dor alguma.
Arde demais. Como ou pior do que quando se come pimenta brava em demasia.
As dores interiores melhoram com um pouco d’água.
Farei ainda um exame de raio-X, para tirar as dúvidas.
Estou sozinho há uns dez minutos, na mesma sala onde estão as quatro cadeiras em torno de uma.
Respiro alívio.
Confabulam os quatro algozes na sala do princípio, há meia-hora.
Começo a sentir os efeitos do jejum.
Vertigens. Sento-me. Me levanto.
Fumo desesperadamente.
Não consigo pensar em nada. Rezo algumas preces.
O momento não ajuda.
Num interrogatório anterior, quando pedi pra rezar um terço do rosário, consegui.
Agora, absolutamente, não conseguirei.
Nem preciso começar, para advinhar ...
Entram na sala apenas dois elementos: Marginal e Vidro.
Com a porta aberta, pedem-me que vire naquela direção.
Então, da porta, um jovem negro me olha com demora e sai a mando deles.
Saem também.
Daí uns minutos, voltam.
– Como é? Resolveu confessar?
– Não tenho nada a confessar.
– Vamos te levar pra Capital, que lá te farão falar, pelo Demonstrador de Inverdades.
– Eu faço questão de ir!
– Você diz isso pensando que estamos mentindo. Mas vai ver!
– Isso. Mandem-me. Assim verão o erro que estão cometendo.
– Esse criolo foi o que te viu saindo da casa, após ouvir as duas detonações; e te reconheceu! Você está enrascado!
– MENTIRA! MENTIRA DE VOCÊS. MENTIRA DELE!
– Você teve tempo. Saiu do escritório, tranqüilamente ... Outras pessoas também te viram: o dono duma loja de artigos para automóveis. E havia até um delegado de trânsito em sua companhia, por acaso ... Confirmaram o horário em depoimento ... Você esteve de campana, esperando ...
– MENTIRA! NÃO SAÍ DO ESCRITÓRIO!
Os dois se retiram novamente.
Fico entregue ao meu próprio desespero. Minha própria revolta.
Vontade louca de sair correndo!
Não ouvir mais nada. Sumir do mundo!
Então voltam os quatro. Um deles palita os dentes.
O outro, que estivera ausente da última palestra, usa como sempre, o tradicional “palito de pressão”, para retirar dos interstícios dentais, os restos da última alimentação ...
__ Vamos embora! diz  Dr. Vidro Amarelo.
– Sim. Em Rodelas, com o chefe, ele vai contar ...
Rezo, no meu íntimo, pra acabar logo essa agonia.
Que eu morra! Não agüento mais!
Saímos.
Antes, me devolveram os óculos. Mandaram-me pentear os cabelos ...
Eu começara a deixar em meu rosto, um bigode ralo, desde o início dos interrogatórios.
Fecharam tudo.
Limparam, decerto.
E para qualquer pessoa, ali nada se passou...
Entramos na viatura. Está escuro e não tenho noção das horas. Não há lua. O tempo é fechado.
Aliás, por eu não ter nunca me importado com as horas, elas têm me comprometido ultimamente: meu relógio sem ponteiros, digital, há tempo está enguiçado numa oficina da cidade, esperando pela peça que substituirá a danificada.
Sei que é escuro, apenas.
Rodamos. Velozmente cobrimos o percurso da volta, pela rodovia pavimentada que liga Restinhos a Rodelas do Norte.
Ninguém disse uma palavra durante o retorno.
Pouco movimento nas cercanias da Delegacia Regional.
Nenhuma viatura além da nossa.
Fico apenas com Marginal Domêis.
Saem os três outros.
Algum curioso passa e não me reconhece na penumbra local.
Esperamos não sei o que, já há meia-hora, mais ou menos.
Retornam.
Vêm em companhia do Delegado Chefe.
Ouço, do longe, finalizaram um diálogo.
“O peixe ‘tá quase caindo na rede ...”
Ainda ouço bem, apesar dos tapa-ouvidos amiúde.
O que me consola. E desespera.
Entramos todos escadaria acima.
Até a mesma sala de espera do sofazão verde ...
Me deixam.
Fico só, com uma vontade louca de correr dali.
Confabulam, como bispos num consistório ...
Agora, me introduzem na sala do chefe.
Começo novas declarações, perante o escrivão.
Ratifico as de sempre.
Novas perguntas. Investidas diferentes.
Outros ângulos de ataque.
A coisa mudando de figura: enfim, alguém luta comigo com palavras. Em pé de igualdade. Finura, malícia, ironia ...
O Dr. Alerto Malvício Gebofe ... Súbito, perde também a paciência.
Pega o dossiê do caso. Sacode diante de meu nariz, dizendo: “Tudo isso te condena, moço! Vamos, confesse normalmente, evitando uma ida à Capital.” “Os agentes da Especial virão amanhã lhe buscar!”
Sinto calafrios a essa menção ...
– NÃO TENHO NADA A CONFESSAR! NÃO MATEI NINGUÉM! NEM SEI QUEM MATOU!
– Você está entrutado!  (E este termo nunca mais saiu de minha memória...)
– NÃO ESTOU COISA NENHUMA! PROVAS! ONDE ESTÃO AS PROVAS?
– Você será hoje mesmo indiciado em inquérito por assassinato!
– SEM PROVAS?
– Temos tudo contra você. Provas circunstanciais, se é o que deseja!
– Então o que esperam? Porque precisam duma confissão? Nunca confessarei. Ajam então, cambada de imprestáveis. Vão procurar o assassino, pois não sou eu!
– Modere sua linguagem, rapazinho ... Estamos mantendo a conversa num alto nível.
– Nosso trabalho está no fim. Você não agüentará nosso ritmo. Só falta sua confissão! completa Vidro Amarelo.
– NÃO POSSO CONFESSAR UMA COISA QUE NÃO FIZ! NÃO TEM CABIMENTO! VOCÊ CONFESSARIA?
– Colabora com a gente, Brojes ... Veja o nosso esforço. Não jogue tudo por água abaixo. Acompanhamos o seu jogo até agora. Vamos acabar com isso logo! Quem me “canta” agora é o Aristóteles.
– Vá pra puta que te pariu, cara! Logo você, que me conhece! respondo indignado para o escrivão ...
– Abstenho-me de maiores comentários com um assassino!
– Vai confessar ou não? ameaça-me Gebofe, brandindo a bengala que foi de Adorasterra Derrapina...
– NÃO!
Retiram-me da sala.
Nervosíssimos.
Ainda ouço dizerem que não podem me reter por mais tempo, devido às circunstâncias, questão de provas, etc.
Espero no sofá verde.
Muitos vão-se embora pela porta da frente.
A espera alonga-se ...
Ouço descerem a escadaria comentando.
Fico olhando muito tempo para o mesmo quadro – uma paisagem – na parede à minha frente.
Já descobri nela inúmeras falhas de composição, contraste, equilíbrio: num jogo em que tento relaxar os nervos e distrair-me.
Os minutos vão-se escoando pela porta envidraçada da entrada ...
Deve ser madrugada já.
Lá fora o silêncio é absurdo!
Enfim reaparece apenas um.
Despede-me após assinaturas de praxe.
Ainda verei se esses papéis estão sendo guardados ...
Desço lentamente, respirando com dificuldade o ar frio da madrugada. Ele me faz doer o peito, os lados, o corpo inteiro.
Mais uma vez, olho para os pulsos.
Paro.
Me abaixo, desço as meias, olho os tornozelos ...
Uma risadinha abafada revela a presença de Mirto Rego atrás de uma viatura.
Bate no lugar onde certamente existe o coldre de sua arma, com umas palmadinhas lentas, ordinárias.
Sigo em frente, dobro a esquina e pareço entrar em outro mundo.









































alta pressão
 



Terá a minha procura ao advogado realmente influído no seu modo de proceder?
Terá mesmo o Promotor lhes exigido apresentar o maior suspeito, dentro de no máximo 30 dias da data do crime, como me disseram?
Como estarão os meninos, Anicla, os meus pais e meus irmãos?
Chego em casa caminhando devagar ...
Nem pergunto mais as horas.
Cansadíssimo, devo lhes contar o que tem se passado comigo?
E as ameaças?
Deito-me.
Vejo as crianças dormindo, inocentes ...
Não sei mais em que pensar, o que pensar ...
Quantos telefonemas fizeram os policiais nessa noite?
Inúmeros ...
Onde conseguem eles tantos argumentos contra mim?
Porque as coisas estão armadas a me apresentarem como suspeito?
Porque terão me deixado livre, apesar de tudo?
Perguntas para as quais não acho respostas.
A não ser as deles mesmos ...
Até onde irá tudo isso, meu Deus?
Inauguro um novo domingo, após passar por pequenos períodos de sono.
Vou à missa das nove.
Comungo. Experimento paz.
Na saída da igreja, após a celebração, um meu conhecido, barbeiro de profissão, me pergunta: “Brojes, você está calmo, tranqüilo ... por acaso não leu o jornal de hoje, o “Inimigo”?
Diante de minha negativa, me aconselha: “Então vá para casa, rapaz. Eles tão te metendo o pau!”
Feito bala, segui direto pra casa de meus pais.
Lá os encontro lendo o jornal ...
Percorre todas as mãos antes de chegar às minhas.
O asno do diretor, num “furo” próprio de sua capacidade, sentiu-se iluminado e justificando-se na extensão dos interrogatórios feitos por mim, jogou sua seta, antecipadamente.
A Bomba!
Sem a mínima solidariedade humana. Sem pesar conseqüências morais e profissionais, em sua ânsia de vender manchetes ...
Pensa, com certeza, ter acertado o alvo.
Urra o leão-de-chácara ademarista, nas linhas dessa porca manchete:
GENRO, UM DOS MAIORES SUSPEITOS DO DUPLO HOMICÍDIO!
O principal suspeito do duplo homicídio da Rua Federal Ossário, quando foram assassinados Adorasterra Derrapina e Camélia Zum, está sendo ouvido pela polícia rodelense desde às 10 horas de ontem, tendo seu interrogatório prolongado pela noite a dentro.
Trata-se do Sr. Brojes Haller, genro da vítima, Sr. Adorasterra Derrapina.
Sob a supervisão do Dr. Alerto Malvício Gebofe, delegado de polícia da cidade, cujo trabalho exaustivo vem sendo acompanhado por toda a população, a polícia espera elucidar este crime o mais breve possível, dentro dos recursos técnicos de que dispõe.
Sabe-se que não obstante as dificuldades encontradas, pretende o Dr. Gebofe com toda a sua equipe, destrinçar o grande enigma que se lhe apresenta.
Este jornal, que vem acompanhando o desenrolar do acontecimento, tem testemunhado o trabalho de nossa polícia, aliás eficaz, e que deseja a todo custo alcançar o objetivo a que se propõe, isto é, revelar, se possível em breve, o nome do criminoso ou criminosos da rua Federal Ossário.”
Este, o corpo da notícia.
Ilustrando-o, uma fotografia furtada de meu álbum de família, onde me apresento ladeado pelos dois sogros e meus filhos. Com essa legenda: “Ao centro, um dos maiores suspeitos da polícia: Brojes Haller, abraçando à esquerda uma das vítimas, Adorasterra Derrapina e à direita o pai da moça assassinada, Hovil da Jogatina Zum.”
Uma foto batida meses atrás, na porta da sede da Fazenda Santa Cordélia ... Atestando nossa recente trégua ...
Isso me arrasa, literalmente.
Vestido nessa roupagem, com uma foto roubada, me apresentam a toda a população rodelense como o “maior suspeito” ...
“É dose pra elefante!”
Tudo se turva. Enfim o fim ...
A mancha que não se apagará... O mísero jornalista consegue meu assassinato moral... Esse, sim, o crime perfeito...
As lágrimas escapam. O ódio rebenta num grito:
– CANALHAS !!!
E vem um vago tempo incomensurável ...
Uma letargia semelhante ao poder anestésico ...
E claramente vão desfilando pelos meus sentidos, todos os sentidos, os responsáveis por essa apresentação maquiavélica ...
Quem colaborou com isso?
Para isso? Aguço a memória... Relembro cada setor que vi funcionar num jornal de verdade...
O redator ... Preparando os textos, atendendo os pedidos do diretor, em sua função técnica, com interesse literário, com sua preferência por leitura, gosto por redigir.
Com sua função predominantemente mental, sua imaginação e técnica para causar efeitos, utilizando o recurso e o gênero literário exigido pelo Diretor.
Em seu trabalho abstrato, psicofísico, percepto-reacional, qualificado, de iniciativa própria, em seu espaço de pequenas dimensões.
A espera da notícia que esperava anunciar, ter-lhe-á afetado a capacidade funcional dos membros superiores, da coluna vertebral, do sistema nervoso ...
Ter-lhe-á certamente afetado as funções psico-temperamentais no que diz respeito à iniciativa, investigação, entusiasmo, senso estético ...
Logicamente sua função intelectual foi afetada também, no que se refere aos requisitos profissionais de memória, observação, crítica, raciocínio lógico, precisão de raciocínio, imaginação, discriminação, associação ... pelo jugo do despótico diretor.
Sua função sensorial terá falhado no que diz respeito à acuidade visual. Sua função percepcional-temporal também falhou.
No que se refere à somatotonia, a notícia o apresentou com aspecto e atitude de imaturidade.
No tocante à cerebrotonia, o aspecto é de hipointensidade mental e atenção ...
Um homem desses, colaborando para me arrasar ...
O pederasta mercenário Deny Dengoso.
Quem mais?
O clicherista: este, com a elaboração do clichê que ilustra a matéria.
Trabalha o pobre com filmes e retículas, numa função técnica de interesse mecânico, de preferências por trabalhos manuais, por máquinas e equipamentos.
Terá certamente a mando do diretor, assentado a foto roubada numa prancheta móvel.
Pela escala guia, determinou a sua altura: ajustou as posições; verificou as marcações de ângulo e distância para regular o foco, o nível e a abertura do diafragma.
Colocou o filme, a chapa, na tampa do chassis, fixando-o na área calculada ao pisar o botão da caixa compressora. Em seguida, terá apagado a luz e ligado a máquina, que após alguns segundos desligou-se automaticamente.
Pisou então no botão da caixa compressora para desfazer o vácuo e retirou o filme, encaminhando-o para o laboratório.
No caso da fotografia, interpôs entre a objetiva da máquina e a chapa, uma retícula – uma lâmina de vidro usada na reprodução de imagens a meios tons por processos fotomecânicos e constituída de dois cristais finamente raiados, com linhas paralelas e colados um ao outro, de modo que as linhas se cruzem em ângulo reto; a reprodução dos meios-tons é então possibilitada pela decomposição da imagem em inúmeros e pequeníssimos pontos maiores ou menores, de acordo com a intensidade dos diversos tons do original.
Dos diversos tons do meu original ...
Vejo o trabalho agora, do linotipista.
Com o texto do redator nas mãos, faz uso de sua engenhoca linotipo ...
Trabalha num lugar insalubre, calorento, úmido e tóxico, motivado pelo movimento constante das máquinas e o vapor das caldeiras com o chumbo fervendo-liquefeito, anexas à linotipo.
Seu trabalho é mecanizado, com interferência manual, psicofísico, semi-automatizável, percepto-reacional e especial de pequenas dimensões, que lhe exige destreza manual e rapidez de movimentos na função física; quanto à função anátomo-fisiológica, exige capacidade funcional dos membros superiores; da coluna vertebral com lateralidade do pescoço e curvatura para frente; dos membros inferiores.
Exige-lhe ainda integridade dos aparelhos circulatório e respiratório, coordenação vísuo-motora, tátil-motora e estabilidade motora.
Quanto às funções psicotemperamentais, exige-lhe: resistência à monotonia de ritmo, responsabilidade, atenção concentrada, atenção difusa.
Seus requisitos intelectuais são, memória, observação, rapidez de raciocínio, associação, coordenação. Os requisitos sensoriais são: acuidade tátil, acuidade visual e campimetria. Os percepcionais solicitados enfim, são: volumes, espaço, medida, velocidade, tempo e ajustamento.
Trabalha com liga de chumbo, antimônio e estanho.
Numa engenhoca elétrica, de médio porte, que compõe caracteres tipográficos em lingotes de chumbo derretido e moldado.
Gasta, para compor uma linha de notícia, em média, dez segundos.
A estabilidade de seu ritmo é marcante, com movimentos sucessivos, ações repetidas e coordenação motora continuamente solicitada.
Trabalha sentado, apresentando movimentos variados dos membros superiores, com as mãos e os dedos coordenados sucessivamente para teclear num movimento de elevação, abaixamento e oponência sobre a tecla.
Sobre o teclado onde achou me nome, minha desdita ...
Outro colaborador de minha “apresentação”?
O paginador.
Com sua função de distribuir a matéria e os clichês na página, de acordo com o esquema do diagrama fornecido pelo redator e o diretor ...
Na colaboração de minha derrota, o revisor: antes dos tipos irem para o paginador, passam por sua correção. Corrige a prova tipográfica, comparando-a com o texto original do redator.
O programador de produção que fez a previsão e estimativa de consumo de materiais, analisando a capacidade de produção.
O fundidor, que preparou em chapa metálica a reprodução da composição da página, através do vazamento do chumbo derretido sobre o flã – um papelão especial usado na feitura das matrizes de estereotipia, composto de folhas de papel de seda colocadas com outras de papel mais grosso e de amianto – que é fortemente comprimido contra a forma da prensa chamada calandra.
O calandreiro foi o responsável pelo preparo do molde da página no flã.
O caldeireiro alimentou a caldeira com lingotes e telhas fundindo-os para o processo de estereotipagem recurva (telha) que se adaptou ao cilindro da impressora.
O retranca retirou, depois de preparado pelo calandreiro o molde de flã, os clichês, os lingotes de chumbo com caracteres tipografados pela linotipo e os caracteres brancos – linhas, espaços, marginadores, barras e fios de entrelinhas.
As entrelinhas do “eu suspeito” ...
O impressor foi o responsável pela apresentação estética da impressão ...
Impressão de minha difamação ...
Enfim vejo o trabalho de todos. Do menor ao maior. Do faxineiro ao diretor. Todo organizado em função de ganância desse último em vender manchetes, sem importar de jogar na lama o meu nome.
E os comparo aos algozes.
Inocentes úteis ...
Pessoas talvez sofridas também. Massacradas pelo interrogatório diário da vida ...
Serão no futuro aguilhoados pelo remorso dessa cooperação?
Me invade uma desesperança sem limites: o que antes se falava, escreveu-se!
A imprensa é um vasto tabuleiro. No meu caso, onde as peças do jogo estão em constante posição de ataque – de um lado – contra a inércia dum peão adversário – solitário – de outro ...
Um dia, numa metalinguagem singular, outros profissionais de análogas funções me ajudarão a mostrar a todos seu esforço para minha destruição moral ...
E quando saio do vasto e vago tempo incomensurável gasto nessas proposições, saio também da letargia.
Penetro nos domínios da dor.

 








































joão diogo ajuda,  santa rita resolve





O “Inimigo” provoca certo movimento contra a minha pessoa em vários níveis.
Domingo, 10 de fevereiro de 1974: data inesquecível para todos nós rodelenses ...
Minha Anicla é o desespero em pessoa.
Minhas crianças não brincam como antes: papai não tem ânimo ...
Parentes aproximam-se lentamente: solidariedade.
Primas vindas de Galharia trazem alento, palavras de esperança.
João Diogo – uma alma bondosa, guia espiritual de Adliz – marca para 15 dias, no máximo, o término da provação. E me conforma e conforta violentamente.
Meu trabalho recomeça com a segunda-feira.
Sofre interrupções freqüentes.
Desejo serenidade e não acho.
A vida não me oferece nenhum sabor ao paladar espiritual.
Minha esperança é posta somente em Deus, que busco alcançar com promessas minhas e alheias, através de seus Santos ...
Vivo desejando morrer, numa contradição absurda que me haure as forças.
Ontem dei um passo em direção ao abismo. Empurrado ...
Mas o ontem passou.
Hoje, 11 de fevereiro de 1.974. Único passo válido meu: a comunhão com Cristo, na eucaristia. E o dia termina pálido. Frio.
Terça-feira, 12 de fevereiro de 1.974.
Hoje, silêncio jornalístico.
Minha vida tornou-se um imolar interminável de atos e oferendas como oração, em prol da descoberta do verdadeiro criminoso.
Promessas, novenas, tríduos. Tudo reveste-se  da maior importância para mim.
Na oração me consolo e me esperanço.
Trabalho frouxo. Vivo cansado de tudo, de todos.
Quarta-feira: o amigo – desconhecido volta a me procurar – no escritório.
Promete-me um livro salutar, próprio para meu estado.
Que fará mudar muitas coisas no meu modo de encarar a vida.
Consolou-me o amigo!
Sou um robô no trato com o público.
Tudo dentro do esquema da rotina.
Minha vida irreversivelmente mudada, estragada.
Nas manchetes do “Inimigo” de hoje, as razões da suspeição:
“PORQUE ELE É SUSPEITO:
A polícia continua afirmando que Brojes Haller é um dos mais fortes suspeitos do duplo homicídio ocorrido no dia 16 de janeiro. E apresenta um dos motivos: Brojes dissera que naquela noite estivera em seu escritório das 10:30 às 21 horas, com as portas abertas. Entretanto, segundo testemunhas que passaram defronte do estabelecimento do suspeito, ali não havia ninguém: tudo apagado e portas fechadas.
“NO HORÁRIO, O TRIUNFO DA POLÍCIA:
Um dos maiores suspeitos do duplo homicídio ocorrido em 16 de janeiro ma rua Federal Ossário, continua sendo Brojes Haller, genro de Adorasterra Derrapina. Continua afirmando a equipe policial que trabalha para a elucidação da tragédia.
Segundo foi apurado junto aos policiais, há várias contradições por parte de Brojes, o que o torna suspeito. Uma delas: segundo testemunhas, fora visto no dia do crime em Matavacas, no interior duma agência bancária.
Brojes nega, dizendo que há mais de um ano não vai àquela cidade. Por outro lado, nas 30 horas em que foi ouvido pela polícia, Brojes Haller disse que na noite do crime cumpriu os seguintes horários: das 15 às 19:05 horas, ficou no escritório. Foi jantar entre 19:10 e 19:30. Depois, voltou ao escritório, trabalhou até 21 horas de portas abertas.
Tudo foi desmentido por diversas testemunhas.
Algumas viram o suspeito quando passava pela rua Federal Ossário por volta de 18:45. Outras disseram ter passado pelo escritório por volta das 20 horas, estando o mesmo fechado (quando, segundo Brojes, estava aberto, desde às 19:30 horas).
O delegado Alerto Malvício Gebofe preside o inquérito, contando com a colaboração do Dr. Vidro Amarelo, investigador Marginal Domêis e escrivão Aristóteles.
O processo conta com 300 páginas, sendo ouvidas mais de 120 pessoas em 25 dias de investigações.
“Os trabalhos irão continuar – disse o Dr. Gebofe – pois o cerco está sendo fechado e a qualquer momento poderemos ter a definição do duplo homicídio.”
É ... amigo desconhecido ... Traga-me logo o tal livro!
As coisas estão ficando ansiosamente pretas para o meu lado.
O jornal, muito vivaldo, atribui à polícia as afirmativas do dia 10, baseando-se numa discutível/discutida questão de horário, que nunca chegará a ser esclarecida. (Não era do interesse da polícia). (O intento único dela é apresentar-me como autor do crime, para mostrar seu trabalho ...)
Nas manchetes e na matéria, o jornal continua afirmando que sou o suspeito principal. Que sou um mentiroso ...
Ora, se a polícia tem suspeitos tão fortes, já deveria ter-me preso. (E isso é o que quase exige o jornal, no seu papel de – inocentemente – informar à população, dentro da “neutralidade”).
Os testemunhos que desmentiram são desencontrantes. E isso eles esqueceram de publicar ...
E posteriormente eles serão – os testemunhos – checados e dados como falsos ... Eram hipóteses infundadas, inventadas pela polícia e que o jornal, no afã de acertar o alvo, publicou como verdades ...
Mas a acusação de que o “genro é o maior suspeito” não leva o timbre da polícia... E o jornal anda apertado para justificar-se, prevendo (quem sabe?) algum aborrecimento com a Lei da Imprensa ...
Na publicação de antevéspera, explorara a notícia à vontade, na ânsia de se antecipar à ordem natural dos acontecimentos que, na sua medíocre dedução, não tardariam em revelar-me como culpado definitivo.
Esquece propositadamente que são “vários” os suspeitos, por ele próprio admitidos anteriormente.
Como provará que as notícias lhe foram fornecidas pela polícia, na hipótese duma Ação por Calúnia e Difamação?
É ... definitivamente, o diretor não anda bem da cabeça!
Certamente espera um dia, responder pelo sensacionalismo feito com nome alheio e matéria fotográfica particular: agora não pode retroceder ...
Tenta, a partir de agora, de todas as formas, desmoralizar o “suspeito”, tornado seu inimigo n.º 1, comprometendo sua idoneidade moral, atingindo-o profissionalmente – para isso unindo escritório com mentiras e o citando na matéria.
Com toda a porcariada que trouxe, o jornal de hoje me enriquece de esperanças.
As asneiras do redator estão ficando patentes e o perigo se afasta ...
Contudo, meu interior treme à lembrança do sábado que se avizinha.
Será dia de interrogatório – “depoimento”, para os leigos.
Mas a noite chega com sua escuridão e nivelo meu íntimo ao seu. Durmo com entrechoques.
Estupefacientes estão me obrigando ao sono...
Quinta-feira.
Pelas manchetes do dia, o público toma conhecimento das arbitrariedades do “Inimigo”.
O DUPLO HOMICÍDIO E UMA NOTA OFICIAL.
Os últimos noticiários fornecidos pela Polícia de Rodelas do Norte, a respeito do duplo homicídio (que depois de amanhã completará um mês) sempre destacaram serem vários os suspeitos – embora um deles merecesse maiores atenções por parte da equipe que investiga o caso, conforme as notícias inseridas em nossas edições, fornecidas pela polícia.
Agora, o Dr. Alerto Malvício Gebofe enviou à imprensa uma nota oficial, na qual destaca que “todas as pessoas ligadas às vítimas são suspeitas”, fazendo questão de salientar no mesmo texto “... continuam as investigações sobre todas as pessoas envolvidas ...”
Eis a nota, na íntegra:
“A delegacia de polícia de Rodelas do Norte, em relação do duplo homicídio da rua Federal Ossário, esclarece que desde o dia do infausto acontecimento, equipe de policiais constituída de delegados, escrivães e investigadores, tem diuturnamente, trabalhado à procura de pistas e provas colhidas nesta e em outras cidades, envolvendo todas as pessoas que tiveram ligação com as vítimas.
Dessa maneira, como até o momento não foi esclarecido o referido homicídio, TODAS AS PESSOAS LIGADAS ÀS VÍTIMAS SÃO SUSPEITAS, estando a polícia investigando as alegações até agora prestadas por dezenas de pessoas envolvidas no volumoso inquérito que conta com quase 300 páginas.
Tendo em vista a característica do crime, que se revestiu de uma violência incomum, eis que os tiros foram desfechados à queima-roupa, havendo assim a necessidade de um critério mais sigiloso na investigação que envolve ainda resultado de perícias técnicas e legais e também a colaboração de outros setores da Polícia Estadual, cujos resultados ainda não nos chegaram às mãos, esclarece ainda que continuam as investigações sobre todas as pessoas envolvidas e NÃO APENAS SOBRE UM SUSPEITO PRINCIPAL, eis que não possuímos até a presente data, qualquer prova concreta da autoria”.
Acompanha o texto, uma Nota da Redação:
“Nota-se por aí, que as investigações poderão levar mais tempo do que se supunha, com suspeitos sendo ouvidos por mais de 30 horas e sendo dada bastante importância à questão de confronto de horários ...”
Jornalista canalha!
Publicou, a contra gosto, a Nota Oficial, que deverá lhe por um freio no duplo queixo de mula teimosa, ansiosa pelo “furo” final ...
A polícia se eximiu do abuso e lavou as mãos pelo crime de difamação praticado pelo “Inimigo” contra Brojes Haller – vítima das circunstâncias – ao citá-lo como “MAIOR SUSPEITO”.
A nota oficial quer dizer claramente que a polícia nunca forneceu ao jornal nenhum nome (que possa ele provar), e donde se conclui que o abuso partiu do proprietário – um cínico – que inda reitera ter recebido da polícia as notícias.
Há um visível jogo de “empurra” com a responsabilidade da difamação ... Mas o jornal escorrega novamente e na Nota da Redação deixa transparecer novamente que vê, num tempo longo de depoimento, o sinal de culpa do depoente ...
Essa canalhice toda para concretizar as irrisórias conclusões do diretor – inseridas na edição de 18 de janeiro último – sobre o “tempo do cangaço”.
As coisas parecem melhorar, com a anarquia geral.
Resolvo distanciar-me de tudo. Parto com a família para Sanrosé, cidade vizinha, a passeio.
Procuro o pároco local. Amantíssimo Padre Agostinho, agostiniano recoleto..
Ele – tem fama de milagreiro – me conforta no seu linguajar repleto de sotaque italiano. Conta-me sua história. Suas desditas.
Invoca sua Santa Protetora – Santa Rita. Uma devoção de fé e confiança que parece atingir as raias do absurdo... Me impõe as mãos trêmulas...
Após minutos de silêncio e calma indizíveis, ele volta a falar-me, com os olhos evitando, disfarçando as lágrimas.
A Santa há de me conceder a graça ...
Dentro de três dias!
Todos vão descobrir que sou inocente!
Mas há que orar. Fazer voto. Limpar a alma...
Penitências e sacrifícios. Pedir. Pedir o milagre!
Perdoar a todos. Tudo! Pedir perdão ...
Nessa hora, com fé inabalável, faço minha promessa....
Despedimo-nos emocionadíssimos. Na mútua compreensão do acordo...
Volto reconfortado. O retorno é um sonho ...
A crença firme no milagre torna as coisas mais fáceis.
Tenho novas forças. Estou valente, cabeça erguida!
O resto do dia transcorre gostoso. Algumas pessoas visitam-me no escritório e em casa de papai.
A noite desce mansa e macia, como veludo. Assim me encontra.
Apaziguado como uma nuvem de outono.
Sou invadido por sensações infinitamente contrastantes.
Medo, valentia, tristeza, alegria, aborrecimento e paz.
Sou como as cisternas da Terra, onde as nuvens se reúnem, aos montes, de tarde.
No entanto, uma dúvida me consome: por que os parentes de Adorasterra me acusam tanto? Não tiveram muito contato conosco ...
Imaginam talvez que com minha culpa consigam derrubar a doação das terras e herdar a parte que tocou à minha família?
Impossível: pareciam gostar tanto de mim, de nós ...
Quem sabe?
Numa nota duma seção do jornal “Inimigo”, escrita pelo pederasta Deny Dengoso – que é o redator disfarçado do jornal – este tenta confundir a opinião pública sugerindo que a polícia forneça ao público os nomes dos OUTROS suspeitos, inclusive, as causas de sua suspeição, horários, etc.
Não, cara boneca.
Não desejo que alguém passe pelo vexame que estou passando ...
A alegria pelo perdão que lhe concedo pela malícia, iguala-se ao ódio que senti anteriormente na primeira leitura, em intensidade ...
Os pensamentos díspares vão se afastando lentamente.
Durmo feito um anjo, sob efeito dos calmantes.
Sexta-feira me acolhe renovado, posto que temeroso.
Espírito remoçado.
Trabalho dobrado.
Brinco com os filhos.
Arrisco-me a acariciar alguns sonhos antigos ...
Penso hoje nos mortos e oro por eles.
Hoje a tragédia completa mês: 15 de fevereiro de 1.974.
E por ser um dia bom, corre célebre.
Logo me vejo envolto em colchas, na tranqüilidade dos lençóis brancos de minha cama.
E, orando, adormeço ...






































quarta sabatina





Madrugada.
A lua vai fugindo, as estrelas se esgueirando.
Lentamente um sol moleza se impõe bronzeando os horizontes.
E logo me entristeço, porque hoje é sábado.
Os sonhos se vão numa sinfonia de realejo, porque hoje é sábado.
A fé estremece porque hoje é sábado.
O medo retorna brutal, porque hoje é sábado.
Desde a manhã a raiva concentra-se e a calma dilui-se.
O ódio efervesce: porque hoje é sábado.
Não sei se vou ao advogado e conto tudo que andam fazendo, porque hoje é sábado.
A tragédia voltará a se abater sobre mim: porque hoje é sábado.
E Deus me ajude, porque hoje é sábado!
SÁBADO. 16 de fevereiro de 1.974.
Silêncio na imprensa.
Outro silêncio daqueles agourentos.
Nada nos jornais. Será efeito da Nota Oficial?
Arrepios traçam-me o corpo nos lugares previamente machucados ...
O que arranjarão comigo desta vez? Que acusações?
Que torturas?
Buscam-me agora, após o almoço.
Passei a manhã inteira à espera.
E sinto-me realizado que tenham vindo. Não me enganei. Meu sexto-sentido ...
Tudo está engrenando como uma horrenda rotina.
Estarão de prontidão os funcionários do “Inimigo”?
Do menor ao maior?
Como estará imaginando as manchetes de amanhã, o expedidor? Último elo entre as máquinas e os homens ... Confere, registra, embala e endereça os jornais, distribuindo-os ao setor responsável pela entrega propriamente dita ...
O que estará imaginando para manchete de amanhã o pequeno jornaleiro meu primo? “Manchete de domingo será uma bomba?”
Entro na viatura.
Vamos direto para a Delegacia Regional.
Pouco conversam comigo.
Estão reunidas as cabeças principais do rebanho policial de Rodelas do Norte.
O chefe me acusa, nos mínimos detalhes e o resultado é um menear coletivo de cabeças aprovando o que disse.
Alvo de olhares dúbios, enfrento-os ora com altivez, ora com autocomiseração ...
Súbito todos estão falando de uma vez, a um só tempo.
Há uma confusão geral. E como não viram ainda, em minha reação, um sinal de confissão espontânea, saem alguns da sala.
Ficam apenas os quatro cavaleiros do apocalipse.
Levam-me para a chamada sala do café.
Mandam tirar a camisa. Deitar-me no chão.
Estender as mãos. Abrir os braços.
Mirto Rego me pisa sobre as mãos e fica aí.
Pingam um líquido fervendo em minhas costas e grito depressa, que dói.
Vertem ainda por algum tempo as gotas, lentamente.
Penso que desta vez deixarão sinal.
Mas logo deitam no mesmo lugar da queimadura dos pingos, pedras grandes de gelo, tiradas dum refrigerador.
Na hora refrescantes. Contudo, ao contato duradouro com a pele, o gelo tende a me queimar, mais que o café pingando anteriormente e detectado por meu faro.
Tento me levantar. Levo um chute na boca do estômago.
Um pisão nas costas e torno a me abaixar e estender novamente, pernas esticadas. Ameaçando-me uma cãibra na barriga da perna esquerda ...
Braços adiante, cabeça virada para o lado da porta, orelha esquerda no chão, colada.
Arranca-Confissões pisa devagar em meu ouvido direito.
Fico enxergando o salto de seu sapato bem adiante e ao lado de meu olho direito.
Ele tenta subir em meu crânio como numa escada.
Mas o couro é frouxo, desliza e ele perde o equilíbrio.
Mas ao resvalar seu pé, dá-me tamanha torção na orelha que a julgo arrancada do lugar.
E grito e recebo um tapa-ouvido fortíssimo...
Julgo estourar-me a cabeça. O gelo das costas está a me queimar as carnes. Enlouqueço!
Súbito, me ponho de pé.
Ao puxar as mãos, Mirto cai. Desequilibrado como quando puxam um tapete onde se está de pé, inesperadamente.
Ao vê-lo na minha frente, aproveitei: chuto seu peito com vontade.
Urrou feito bicho ferido e tentaram pular sobre mim.
Aos safanões me safo de um e outro: evito que me agarrem, aos murros a torto e direito. Mas minha vista está turva por falta dos óculos e recebo uma bordoada no flanco esquerdo.
A crença palpável na certeza de minha culpa os faz brutalmente fortes.
Mas a amargura da velhas memórias e o medo me fazem gigante. Com golpes de judô, defesa pessoal, caratê, os derrubo a todos e saio da cozinhola correndo.
Entretanto, na sala, impassível, encontro o chefe em pessoa: u’a mão – a esquerda – estendida na posição de pare; a outra, empunhando uma arma de cano curto apontado diretamente para o meu peito.
Sem palavra, viro-me devagar e volto ao encontro dos derrubados, seguido pelo chefe. Caminho apressado e já não procuro ouvir o som de passos. Me basta o ruído de meus próprios calcanhares – seco, cadenciado – pelos tacos ensebados da sala de recepção ...
– Onde pensava ir, mocinho?
– LIVRAR-ME DESSAS TORTURAS!
– Que torturas? ironiza o chefe. Você está se precipitando. Estive aqui o tempo todo e não presenciei tortura alguma ... Você fugia do interrogatório, não é mesmo?
– CÍNICO! CANALHA É O QUE VOCÊ É! GEBOFE DESGRAÇADO!
Apanham a minha camisa.
Entram comigo numa sala. O vitrô de correr expõe os fundos duma grande empresa de energia elétrica.
Ao entrar sou pego numa “gravata” brutal que me estala os ossos do pescoço.
Passam uma toalha em meu pescoço, enrolada no sentido do comprimento. Marginal a segura e como um torniquete a vai apertando.
Sufoco.
Não consigo emitir som algum.
Aí, me batem no estômago, fígado, rins, testículos.
Pareço desmaiar. Não consigo curvar-me para proteger o escroto.
E mais uma vez as dores me invadem e me fazem sentir uma única dor: a morte.
– No rosto não!
__ Mas, Dr. Amarelo, se é ele, não importa! Veja o que fez no meu peito!
– No rosto não!
– Traz o alicate, Marginal! diz Arranca-Confissões, tomando lugar do outro ao segurar o torniquete.
Abrem-me a boca, como se fosse um animal a se examinar a idade.
Com o alicate, prendem minha língua e sinto o gosto de borracha velha na mesma hora.
A ferramenta está forrada com pedaços de câmara de ar.
Começam a puxar-me a língua, por entremeio aos dentes ...
– Confessa ou não? Vai morrer sufocado, desgraçado!
Apertam mais a toalha em meu pescoço e puxam minha língua que parece arrancar.
Aceno-lhes coma cabeça que sim. Desesperado.
Afrouxam os apertos e grito que estou inocente.
Reapertam os instrumentos da tortura.
Largando-me a língua livre, me perguntam:
– Como é? Vai confessar ou não?
– NÃO POSSO CONFESSAR UMA COISA QUE NÃO FIZ, GENTE!
– Porque matou o velho? Qual matou primeiro?
E foram feitas as mesmas perguntas idiotas já ouvidas anteriormente. E as respostas, invariavelmente, foram as mesmas. E as pancadas, como não podia deixar de ser, também foram as mesmas.
Então silencio de vez. E apertam ao máximo o torniquete.
Começaram a puxar minhas unhas com outro alicate menor, tipo turquês. Numa derradeira agonia, sem poder gritar, expressava minha dor nas contorções, nos olhares e nos gemidos.
Trocam de alicate. Puxam-me agora os mamilos.
Aproxima-se Mirto. Toma um cigarro de Arranca-Confissões e o chega próximo ao mamilo direito. Depois ao esquerdo, sem encostar.
(Não. Não sei descrever as dores mais. Sai fora do entendimento o sentido delas, agora que passou.)
O alicate forrado de borracha, novamente, agora me apertando os testículos. Preocupo-me unicamente com minha fertilidade ...
A dor é indescritível, incalculável.
Nenhuma dor se aproxima dessas que fazem-nos sentir de propósito.
As dores naturais, as decorrentes da natureza humana, das doenças, não servem de parâmetro ...
Não são perversas. São tratáveis ...
Mas essas ... Ah! São estudadas psicologicamente, fisicamente!
Abatem o moral de forma fulminante.
Os quatro me deixam numa canto agora. Jogam-me a camisa.
Tomo. Visto.
Choro feito cão: ódio, raiva, medo, desespero e dor.
Um animal desprovido de alma, entendimento.
Nivelaram-me aos vegetais, aos minerais.
Em mim experimentaram suas últimas fórmulas de sevícia.
E saíram-se bem.
Pois eis-me aqui: inerte, acuado no canto.
Olhos perdidos numa esperança que foi embora ...
Doente interiormente. Psicologicamente quebrado.
Desejo morrer!
– Venha ver isso aqui, Brojes! ordena Vidro.
Olho, após arrastar-me para perto da mesa.
Vejo uma confissão dentro de mínimos detalhes que imaginaram ser a verdade.
Uma monstruosidade de documento.
Embaixo, minha assinatura ...
– Apanhamos sua assinatura e já sabemos imitá-la com perfeição!
– Agora você escolhe: ou assina essa outra folha e vive, ou vai morrer deixando a outra confissão que assinamos por você e que ninguém notará a diferença!
E me apresenta um documento idêntico ao primeiro, sem assinatura.
– CANALHAS! MAS SE ENGANAM. FALTA UM “IT” NA RUBRICA DE VOCÊS! EM MEU BANCO DESCOBRIRÃO QUE É FALSA! MINHA MULHER DESCOBRIRÁ QUE É FALSA!
(Minha última cartada: a rubrica era idêntica!)
– Desgraçado! Assina ou morre!
E Vidro Amarelo saca o revólver, puxa do cão do gatilho e o aponta para mim.
– VOCÊ TEM CORAGEM DE FAZER ISSO COMIGO?
– Na cabeça! Assine logo!
– MAS ESTOU INOCENTE!
– Provará em Juízo, depois. Agora, assina!
(Relembro os conselhos de meu advogado: numa hipótese remotíssima, segundo ele – como essas, eu deveria assinar.)
Debruço-me sobre a mesa.
– ASSINO, MAS EXIJO A PRESENÇA DE MEU ADVOGADO!
– Assina agora ou morre, vamos!
Pego a caneta oferecida por Vidro Amarelo. Aproximo-a da folha de papel.
Há um silêncio pesado, uma expectativa angustiante ...
Finjo ler o documento e penso num plano, rapidamente.
– Vamos logo. O que está escrito é o que você fez!
– DEIXE-ME LER AO MENOS O QUE ESTÁ ESCRITO! COMO VOU CONFIRMAR DEPOIS?
– Ele tem razão! diz o chefe, entrando na sala.
E com isso, Amarelo relaxou a guarda com a arma. Num salto, tomo-lhe o revólver, que aponto a todos eles, mantendo-os sob minha mira, em leque, e a Amarelo, estupefacto, caído no chão.
Peguei a folha com a assinatura falsa e, amarrotada, a coloquei num bolso.
– AGORA SAIAM DE MINHA FRENTE OU ATIRO EM LEGÍTIMA DEFESA. E A CÓPIA ASSINADA ESTÁ COMIGO AGORA, CANALHAS! PROVO QUE FORJARAM O DOCUMENTO. MATO TODOS VOCÊS! SAIAM DA FRENTE!
– Você não vai longe, moço.
– SAIAM DA FRENTE OU FAÇO FOGO! DEITEM-SE TODOS NO CHÃO! O PRIMEIRO QUE SE LEVANTAR E PUSER A CARA PARA FORA QUANDO EU SAIR, MORRE!
E saio. Saltando sobre os cinco esparramados no chão.
Empunho a arma com mão firme.
Não encontro ninguém. Desço as escadas disparado.
No térreo, deixo a arma no último degrau de quem desce.
Corro. Dobro esquinas.
Chego em casa devagar. Naturalmente.
Ofegante por dentro, tento dissimular.
Todos aqui notam que o interrogatório foi mais breve.
Querem saber. Como foi, onde, porque, com quem, quando ...
Entro no banheiro.
Procuro o espelho e não me reconheço.
Sou uma fera em fuga!
Molho o papel da confissão falsa. Amolecido, coloco-o na privada e aciono o botão da válvula dágua. A operação se completa e o documento forjado desaparece no meio da descarga.
Tomo um banho muito devagar.
Peço as roupas para trocar. Me examino à procura de alguma marca. Uso o espelho. Nada ficou.
Apenas o ânus dolorido ao defecar, revela algo de anormal.
E sinto, ao exame do tato, que tenho uma prova logo ali.
E me consolo ...
Saio esquivo do banho.
Espero a chegada da polícia a qualquer momento.
Mas para sua chegada, preparo-lhes uma surpresa.
Só sairei daqui acompanhado de advogado.
Mas, me engano. Não chegam.
Espio a rua e vejo o fusca negro do chefe estacionado a dois quarteirões atrás.
Repleto de gente. Certamente terão recolhido a arma na escada ...
Estão indecisos. Pensam talvez no que eu faria nessa situação ...
Não espero mais.
Chamo Anicla e saímos com os meninos a passear.
Procuro um abrigo: a casa dum amigo. Mora num beco defronte do templo do Santo Flechado.
Tento parecer normal.
Quanta coisa desejaria eu contar-lhe!
Conversamos muita coisa vaga.
Sem ele saber, o chefe está de campana num bar quase em frente ao beco.
Eu o notei chegar, sorrateiro ...
E não tem coragem de aproximar-se.
Como terminará esse jogo de gato e rato, pega-não-pega?
A tarde finda e a noite desce rapidamente.
Volto pra casa de mamãe.
Jantamos. Eu, debaixo da maior pressão havida até o presente momento.
Há perguntas em todos os olhares.
E no meu semblante, respostas para nenhuma delas.
Deito-me cedo.
Ameaça chuva. A noite é fresca. Durmo logo, com os comprimidos fazendo efeito depressa ...
E tudo correu mal como eu previa.
Porque hoje foi sábado!

 








































baixa tensão





Sonho nessa madrugada como não sonhava há tempos.
Acordo e é domingo: 17 de fevereiro de 1.974.
Vivo em família. Oração. Missa. Comunidade.
Almoço. À tarde aparece em casa o amigo-desconhecido.
Traz-me o livro prometido há dias ...
Na dedicatória, o espanto:
“Ao Brojes. Que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo o ajude e ampare nesses momentos difíceis de sua existência. A calma e a resignação é a melhor arma para vencermos os momentos difíceis e nunca esquecermos que DEUS está na frente de tudo que nos ocorre e que todos os sofrimentos têm uma causa justa, que um dia nos será permitido compreender. Rodelas, 17/02/74. Um amigo.”
__ Isso me traz felicidade, amigo! Lerei seu livro. Farei orações. Peço-lhe orar por mim ...
Ele se despede sem entrar.
Olho para o livro. Bela capa, flores servindo de fundo.
Rosas vermelhas ...
O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO.
Penso muito em quem seja o amigo-desconhecido e porque ele não se apresenta. Medo de complicações? Desejo de simples anonimato em seus atos cristãos? Como de outras vezes, quando vai embora, fica em seu lugar uma incógnita ... E não decifro o enigma!
Saímos a passear de tarde. Casa de Figonar, deixo Anicla e os meninos. Vou a uma igreja próxima. Inicio um tríduo ao Espírito Santo. E volto. Conversamos lenta longamente ...
Os meninos usufruem minha companhia nesse domingo ensolarado.
Voltamos então pra casa, a fim dum banho e descanso.
Gunther toma banho comigo.
Meus filhos são a única coisa pura no mundo!
Aperto Gunther nos braços sob o chuveiro, e ouvindo sua gargalhada inocente, peço a Deus que me ajude a permanecer em liberdade, pelo amor dos meus filhos ...
Jantamos agora. Vesti o pijama.
Leio o início do livro do Amigo-Desconhecido.
A tendência geral, inda que cedo, é cama.
Todos buscam dormir cedo.
Pit-Biím saiu com o namorado e voltará mais tarde.
(E novamente não entrará com ele em casa, pois o sofá da sala já terá sido transformado em cama e nele, deitada, minha mãe estará dormindo ...)
Então subitamente a campainha dispara!
Estremeço violentamente e bambeiam-me as pernas.
Terão vindo em pleno anoitecer neste domingo?
Deus, dai-me forças!
Atendem, pois não me encorajo a ir.
Vêm me chamar! Que mal-estar me possui!
Atendo. E para surpresa minha, não é a polícia.
É meu cunhado Zuil, com um seu irmão Tinonho.
O marido de minha irmã Bêtinha e seu irmão ...
Ainda assim, penso num – talvez – recado (pois ambos são sobrinhos de Vidro Amarelo) e estremeço nas bases.
Pedem para falar comigo em particular, evitando os olhares de vizinhos curiosos.
Entram no pequeno alpendre.
Pedem-me que me acalme, ao notar-me trêmulo.
Soltam então o ininteligível, o inesperado, o incongruente:
– BROJES, ACHARAM O ASSASSINO!
Não há meios de descrever o meu alívio e o meu contentamento nessa hora.
É inexpressível através de palavras.
Só quem sente, sabe!
Só quem passou o que passei, avalia o encontro do criminoso.
A confirmação das promessas!
Corro gritando aos fundos de casa e a família toda vem a saber, por Zuil, da boa-nova.
Ajoelho-me nos fundos de casa, no quintal cimentado de minha cimentada infância, abro os braços e rendo graças a Deus ...
Numa oração sincera e pouca.
As lágrimas jorrando como num torvelinho, molham-me o rosto completamente.
E juntam em todos os rostos da família, todas as lágrimas de alegria, revolta, dor, agradecimento ...
Uma momento inesquecível, eterno ...
Entro em casa. Aos pés do Crucificado, da Virgem Maria e de Santa Rita,  agradeço a todos a graça alcançada!  Benditas Almas que me ajudaram!!!
Lembro-me das orações todas, recito-as em voz alta, louca.
Lembro-me das promessas a cumprir, entre efusivos cumprimentos, abraços e congratulações.
Peregrinações, publicações e votos para o futuro ...
E gente, cada vez mais, chegando com a boa-nova.
– FOI DESCOBERTO O ASSASSINO!
Agora, após o contato com o Altíssimo e seus Santos, volto-me aos homens.
Quero saber quem é, onde está, se está preso, onde foi ...
Me informam de tudo.
E continuam chegando pessoas. Os que haviam se afastado para redutos inexpugnáveis ...
Ao ouvirem no rádio a nova, criam coragem e vêm visitar-me.
Parabenizar-me pelo que suportei! (como sabem?)
O jornal “Amigo” me entrevista. E me abro, parcialmente ...
Recebo a todos, de braços abertos ...
A polícia chega, ressabiada.
Já não me buscam mais.
Querem as chaves da casa da Rua Federal Ossário, local do crime.
Entregamo-la sob promessa de devolução.
Informam-nos da incomunicabilidade do detido e que amanhã será procedida a reconstituição do crime.
Algum investigador que acompanhava o chefe do rebanho, olha-me sem graça. (E agora, José?)
Mas não tem nada não: estão perdoados, cambada de imbecis!  Trato é trato... E o bom Deus já fez a sua parte!!!! O próprio remorso irá lhes roer as consciências por toda a sua vida ...
E os “amigos” de antes continuam a chegar e ir.
Coam café.
Bebe-se café.
– Sabia que não era você. Tinha certeza!
– Você foi um herói. Toques aqui!
– Não podia ser você. Logo um poeta!
– Sabia que não era você. Mas o povo, sabe como é...
– Estive viajando e quando cheguei, soube e morri de dó de você. Coitado!
– Você está de parabéns! Sofreu calado!
– Como agüentou essa parada? Parabéns!
– Vai processar o “Inimigo”? Pode sim. Ganha na certa!
– Você alcançou um legítimo milagre. Qual o santo?
(E lembro-me do prazo do Amantíssimo Padre Agostinho ...)
(E lembro-me do prazo da Prima Adliz e seu  guia espiritual João Diogo ...)
Os cumprimentos os mais esdrúxulos, falsos, comovidos, sinceros, acanhados, lagrimosos, secos, entraram noite adentro e principiaram a madrugada.
Os covardes ouviam a notícia pelo rádio e vinham, aos bandos.
Agora tenho apenas parentes, familiares.
Amigos, dois. Considerados como familiares.
O resto  risquei do mapa.
Restaram os amigos distantes, ignorantes do crime, conhecidos através de cartas somente ... Um dia saberão. E estarão comigo!
Passei a noite inteira remoendo a história que ouvi ...
SEGUNDA-FEIRA, 18 de fevereiro de 1.974.
Passo pela redação e oficinas do “Amigo” e me presenteiam com sua Edição Extra. A primeira.
Desço até onde era o meu lar. Uma multidão aguarda a chegada do assassino; disputando os melhores lugares para assistir à reconstituição do crime, estão velhos, crianças, homens, mulheres, operários, empresários, numa vasta fauna de curiosos...
Outra vez, minha casa, Meca dos curiosos.
De um lado da rua, um carrinho de picolés. De outro, um pipoqueiro atarefado, rebenta os grãos sob olhares de crianças ávidas de saborear o milho do avesso ...
Aguardam ambos, imperturbáveis, o acréscimo dos curiosos.
E todos – rádios portáteis colados aos ouvidos – ouvem as últimas notícias, como numa partida de futebol.
“Vai ser irradiada?”
Esperam a polícia com o assassino. Todos querem conhecê-lo.
Ingênuos ... Imaginam que a polícia virá numa hora dessa ...
Defronte a casa, novas congratulações. Novos cumprimentos. Pessoas me apontando com orgulho, como amigo ...
Chega às minhas mãos uma Edição Extra do “Inimigo”.
As manchetes, garrafais, gritando:
DESCOBERTO O AUTOR DO DUPLO HOMICÍDIO!
Fulano, sapateiro, 22 anos, disse: “É um assalto”.
Camélia Zum atracou-se com o jovem bandido. Levou um tiro no nariz.
Adorasterra que estava sentado no sofá, apesar da prostração física em que encontrava, tentou reagir: levou um tiro à queima-roupa.
Antes, Fulano disparou duas vezes, mas as balas não foram detonadas.”
Essa, a matéria. Curta, super-sintética.
Ilustrando a primeira página, dois clichês: De um lado, Adorasterra com os netos no colo, com a legenda: Adorasterra morreu porque presenciou o assassinato da moça; de outro lado, foto de Camélia, já publicada anteriormente, com a legenda: Camélia foi morta porque reagiu.
Fico sabendo de inúmeros pormenores: houve reação e o sapateiro fulminou o velho e a moça.
O assassino trabalha como sapateiro, na fábrica de um tio.
Como foi o crime, seus passos, seu cúmplice que na última hora não veio à minha casa ... Mas que sabia do plano. Sabia do crime, depois, o tempo todo e silenciou. Por medo de morrer também.
Sei agora que ele pensava em se entregar, se eu fosse preso. E sei muito mais: como foi descoberto “POR ACASO!”
Nem isso; fico sabendo que se entregou espontaneamente, após confessar o crime ao tio. E que este o levou à residência de Vidro Amarelo, que no fim ficou com os louros da descoberta ...
Creio mais que nunca que minhas orações foram o forte desse desfecho.
Fico sabendo que, roubando, queria saldar suas dívidas.
E leio, ávido, os jornais todos.
Vendo ilustrarem as manchetes e matérias do “Inimigo”, mais fotos roubadas, no dia do crime, de meu álbum de família, há 33 dias atrás ...
O crime, do começo ao fim, relatado pelo assassino:
“No dia do crime, 16 de janeiro, às 18 horas, saí da fábrica. Tomei um ônibus em frente ao cine Avenida e me dirigi à Zona.
Trazia comigo dez cruzeiros que gastei em bebida nas paradas que fiz nos bares do Meretrício.
Achei uma turma de conhecidos que me ofereceu bebida.
Levava na cintura meu revólver com quatro balas.
Acabei me embriagando, saindo do bordel lá pelas oito da noite.
Desci a pé para a cidade. Do bairro das Locomotivas, passei pela pracinha e desci a rua Federal Ossário, para chegar ao meu quarto.
Na casa de n.º 1.170, a de Adorasterra, parei.
Foi quando me deu a louca. Veio-me à cabeça realizar o assalto antes imaginado. Quando abri o portão, devia ser umas oito e meia da noite.
Subi os degraus, entrei no alpendre e vi o reflexo da televisão ligada. Quando cheguei à porta, ela já estava sendo aberta pela moça, que deve ter ouvido o barulho do portão.
Eu lhe disse: “É um assalto!”
Intimidada, ela gritou por socorro, partindo pra cima de mim, que ainda não estava com a arma na mão.
Ela me agarrou pela camisa e a atirei sobre o sofá. Ao se levantar de novo, tirei o revólver. Ela avançou pela segunda vez pra cima de mim, chegando a me pegar no braço esquerdo.
Nós estávamos cara a cara. Eu mandei um tiro no nariz dela.
“Saí para o interior da casa.” O velho Adorasterra queria de todo jeito levantar do sofá, dizendo coisas que não entendia, como assim se ele quisesse me pegar. Eu sabia que ele era doente. Por fim se levantou e partiu pra cima de mim. Me virei e atirei no velho, a uma distância de mais ou menos meio metro. Na cara dele!
Na porta da sala, o corpo da moça. Na porta com a copa, o corpo do velho: como me impedia a passagem, arrastei-o de lado e passei para a cozinha.
Abri a porta e saí pelos fundos, pegando o corredor lateral, saindo pelo portão que entrei.
Uns vinte metros abaixo, tinha um casal de namorados que não me viu.
Não roubei nada como pretendia, porque fiquei apavorado pois nunca pensava que fosse obrigado a matar alguém.
Saí dali e subi para meu quarto, nos fundos da fábrica de meu tio.
Passando perto dum campinho de futebol, joguei fora umas balas.”
Converso com muita gente. Comentários voam ...
Sabendo dos passos do assassino, tento me colocar em cena pra ver o que daria, se estivesse eu em casa, naquela hora. Me arrepio. Teria evitado? Teria morrido? Teria matado? Não acho respostas.
Recebo das mãos dum repórter amigo, a Edição Extra n.º 2 do jornal “Amigo”.
Matérias mil, bem redigidas, esclarecem todo o crime.
Detalhes enriquecem a tiragem.
Como essa confissão do delegado chefe: “A sorte nos ajudou, mas cumprimos nosso dever”...
Como, através do roubo dum gravador e sua troca por maconha, chegaram, sem saber, ao assassino. E este, sem saber que era por causa da maconha, apavorou-se. Confessou ao tio a autoria do crime. O tio o entregou às autoridades ...
Na última página, uma manchete me diz respeito exclusivamente. Fruto da reportagem do dia anterior:
AGORA ELES JÁ PODEM DORMIR EM PAZ!
“A noite que passou foi muito importante para o casal Brojes Haller: eles não dormiam, impedidos pela emoção de saberem que finalmente a polícia colocara as mãos sobre o assassino de Adorasterra Derrapina e Camélia Zum.
O casal recebeu a notícia no começo da noite de ontem e experimentou uma longa vigília – a última de todas – que encerra o doloroso período de todo um mês, tempo durante o qual os menos avisados – desde o homem comum até alguns informantes da imprensa e rádio – não vacilaram em atribuir ao jovem contabilista Haller, a culpa do hediondo crime.
Exibindo nas faces os efeitos da noite não dormida, Brojes e Anicla passaram esta manhã pela Redação do “Amigo” para levarem seu exemplar com a certeza de que agora poderão dormir tranqüilos, sem o quase insustentável clima de suspeita gerado à sua volta.
Mas apesar de todas as pressões sofridas, o contabilista, pintor, poeta e contista Brojes Haller não se mostrou abalado esta manhã.
Confiando na vitória da verdade e acreditando na providência Divina, ele conseguiu atravessar – embora com dificuldades – esses trinta dias que transcorreram desde o duplo assassinato até a confissão espontânea do sapateiro Fulano.
‘Doíam como agulhadas os olhares que nas ruas as pessoas me dirigiram durante todo esse mês’, disse Haller para o “Amigo”, na casa da Rua do Negócio, onde moram seus pais Rubles Haller e Nenê Brejim Haller.
Falando agora em esquecer e em recomeçar, o “principal suspeito” do crime da Federal Ossário pensa principalmente em colocar em dia o volumoso trabalho de contabilidade que ele não conseguiu manter em ordem, pois via seu tempo e energia consumidos, ou por longas horas de depoimento, ou pelo desânimo que a situação absurda lhe impunha.
‘Senti-me transformado num personagem de Kafka ou Ionesco’ lamentou-se esta manhã o contabilista sorrindo o sorriso plácido e ainda meio desconsolado de quem ainda não se refez de uma injustiça.
E a alusão de Brojes a uma personagem literária tinha razão de ser: há dez anos cultiva a pintura e a poesia, coexistindo pacificamente com as atividades práticas de seu Escritório Verde, que instalou há três anos diante da Agência do IPNS. Amante do realismo mágico – a nova tendência latino-americana de literatura que inverteu os valores do mundo objetivo, Brojes Haller também se dedicava nos últimos anos a uma nova forma de poesia que lidava com símbolos, eliminando a palavra convencional: o poema-processo.
Ele não poderia imaginar que de súbito – com o assassinato do sogro e da cunhada um mês atrás – ele veria o absurdo de suas preocupações estéticas transformado em algo por demais real e contundente ao ser visto como principal suspeito do duplo crime de morte.
Agora, com seus dois filhos, sua esposa Anicla e seus pais Rubles Haller e Nenê Brejim Haller, Brojes não se mostra ressentido, mas apenas magoado, mas disposto a recomeçar: “Sempre confiei na Providência Divina”.
E tanto confiou que, em meio a um longo depoimento de catorze horas, pediu para tirar do bolso um terço e rezar. ‘Foi essa fé que não me deixou ir ao desespero’, insistiu ele esta manhã, depois de trinta penosos dias de expectativa e inúmeras horas de depoimentos, em Rodelas do Norte, Restinhos e outros lugares, que lhe consumiram muitos quilos de peso, muitas noites de sono e muita produção de seu Escritório Verde, onde permanecera das 19:30 às 21 horas do dia 16 de janeiro, e donde foi arrancado pelas súplicas de sua esposa Anicla que lhe comunicava a tragédia da rua Federal Ossário, n.º 1.170.”
Por ser um desagravo espontâneo do jornal “Amigo”, me comovo profundamente.
Vendo que nada seria feito, em meio àquela multidão, pela Polícia, retirei-me do local, seguido de familiares e parentes.
Alguém me passa a 2ª Edição Extra do “Inimigo”.
Levo-a comigo.
Um imenso clichê estampando o rosto do assassino...
“ESTE É FULANO, O JOVEM CRIMINOSO”
Lembro-me aqui, de que o proprietário do jornal foi testemunha – a convite da polícia – do depoimento do criminoso e o viu – pessoalmente – confessar tudo.
O jornal publica dados, dando tudo como verdadeiro, certo.
Acredita piamente em todas as palavras e declarações do assassino e as publica. (Os iguais se entendem ...)
Visto não mais ser possível atribuir-me a autoria do crime, desde já passa a conjeturar duma ligação entre mim e o criminoso: “Se Brojes fosse preso, ele se entregaria”. (acordo prévio? fica nas entrelinhas ...)
Na 2ª Edição Extra, repetem-se suas investidas nesse sentido. Mas Fulano não deixa margem a dúvidas quanto à autoria dos crimes.
O hipócrita redator tenta realizar suas profecias de 18/01, se valendo do argumento de que o criminoso compareceu ao enterro ... O que não aconteceu.
No íntimo voraz do abutre dono do jornal ainda não está saciada a fome de calúnias, carniças típicas de seu mísero tablóide...
Algo lhe diz que fracassou, como imprensa...
Não quero entrar em pormenores publicados aqui sobre o assassino, pois não assisti a nenhum depoimento e não confio no que está escrito nesse porco jornal sem sentido.
Cairia eu no mesmo erro que critico nele: hipóteses, invenções ...


reminiscência e paz





Volto pra casa: leve.
Casa de meu pai. Do pai que sofreu comigo minuto a minuto.
Que palmilhou o caminho de meu desespero e me apoiou nos trancos da jornada.
Pai que, chegando em casa, encontro chorando ainda, há uma noite e um dia.
Traumatizado. Inconsolável com a injustiça imposta por todos ao filho ...
Pai que velou, orou e chorou intimamente a cada segundo!
E fecho os olhos.
Sento-me no sofá, perto do dele, e recordo...
Eu criança ... De olhos azuis, meu pai. Grande.
Naqueles idos, enamorado de uma Alemanha pós-caos e dum tal Hitler duvidoso...
Meu pai: seu olhar idôneo-celeste.
Sua descrença na propaganda americana ...
Sua coleção de charges da segunda guerra mundial, recortadas pelo mano Figonar.
Influência do sangue, papai contava da metralhadora no forro de casa, pra meus sonhos e fantasias de menino.
De caminhão, me trazia pro almoço lá da bomba de gasolina pra casa. Lá do bairro das Locomotivas, vinha eu contente, orgulhoso.
E brincava com as meninas de trança que vinham em casa buscar a marmita com seu almoço.
Lá na bomba de gasolina eu brincava na árvore casinha e selva, enfolhada até o chão, me escondendo.
Inventava, no som do Benedito – hoje cego previdenciário – um leão.
E meu pai dava rédeas à minha imaginação. Brincava comigo.
Recordo sua mímica com a mudinha nossa vizinha, a Bá.
Eles se entendiam. Ele a amou como irmão, e confidente.
Meu pai grande de me pegar no colo.
Me arranhar os dedinhos na barba espessa, cerrada.
De me pôr camisa n.º 8 do Corinthians – do Luizinho – craque da época ...
Me ensinava ser goleiro, o papai de então.
Na sua quitandinha de frutas e verduras, a “Feira”, hoje fechada, as pencas de banana nanica.
Eram sonhos ...
A carinha da primeira namorada, Léia, as sardas nanicas da Emilinha, todas as frutas foram sonho ...
O Hotel, com seu porão-esconderijo, o corgo, as jabuticabeiras – tudo – : muito sangue de ampulheta ...
Desde cedo tive orgulho do nome e descendência germânicos.
De estirpe. Estrangeiro inteligente ...
Papai me deu brinquedos inesquecíveis.
O melhor pião que tive, foi ele quem deu. (Fora os que ganhei na cela com o Zorim, dos turquinhos da esquina!)
Pião do Fóster. – nosso sonho de consumo.
Os piões giraram muito, pipocaram tanto no asfalto, que hoje bicam – dormindo devagarinho – o meu coração. Como esses anos que envelhecem as lembranças ...
No internato em Córrego Escuro, papai me levou balas, doces, roupas e muita bondade: única visita que tive da família, num ano. E matou muita dessa coisa enrustida que fica no peito quando não se vê gente amada por muito tempo.
Ele deixou que viesse de volta do Seminário para casa.
Pagou o táxi verde (ou foi Darla?) quando cheguei ...
E vi o murro que ele dava pra sustentar a casa ...
Papai doava sangue. Deu uns vinte litros, no mínimo. Dava a quem precisasse. Para mim e os de casa, legou o “universal”, o Rh O – negativo.
Coração de papai, grande ...
Como bom alemão, aprecia cerveja. E preta, de preferência.
E forte.
Desde que me conheço por gente o vejo tomá-las. Sempre.
Papai e suas ferramentas ... no caixote lá na feira.
Eu brincava com elas fingindo consertos. O martelo original – ex-peça de fordinho 29 – ...
Fui perdendo tudo. De todas, como diz papai, daquele tempo restaram o martelo e o alicate.
Eu emprestava pra outros meninos e sumiam com elas.
Ainda assim, conserta tudo em casa. Ele mesmo.
Me deixou criar coelhos, pombinhas (que viraram um tantão que tive que dar e vender). E criamos, incentivados por ele, aqueles pintinhos de um dia – branquinhos. Cresceram demais. E , grandes, avançavam na gente. Quito, dodói de Bêtinha, foi exceção: ela o carregava no colo, onde ia. Quinquinha, a galizé, enfeitou meus sonhos com seus pequenos ovos de páscoa. Tudo isso, porque papai deixou!
Papai foi o último a se despedir do Ron – nosso gato oficial.
Amigão felino. Foi embora – sumiu – quando nossa casa morreu. Numa reforma que mudou as estruturas da velha construção para dar lugar à casa atual de papai. Ron, como a alma da velha casa, fugiu pra não mais voltar. E papai todo dia levava sua ração de carne ...
Eu fujo, papai, como o Ron, de meus dias mortos!
Pai ... seis filhos vivos ... Seu olhar azul, o louro-castanho alemão ...
Papai e suas entradas – que no prenúncio de uma honrada – meia calvície, também já se me insinuam ...
Grande e vermelho pelo sangue. Esse sangue escuro e grosso – bilhete de ida para o derrame – que é assim, diz papai, por causa da Niger ...
Enamorado das valsas vienenses, rodelenses...
Não tenho músicas a lhe ofertar, meu pai!
Digo-lhe apenas: passamos... homens calçados de flores pelos canteiros da Vida!
(E em meio às flores ...)
Seu grande sósia, tio Cazé de Bonlugar ...
Ficarão eternos os alemães ...
Como também me ajudou a suportar esses dias, o tio Cazé... Sempre junto, solidário.
Papai nos levava, Bêtinha e eu a um cineminha do Grupo Escolar, semanalmente.
Um dia não houve mais: o dentista já havia arrecadado o dinheiro suficiente para comprar o motor do gabinete dentário da escola.
Nossa! Quanto tempo faz que não busco mais: sal, arroz, feijão, açúcar, pórroial, óleo, nas vendas do Futil e do Felão ...
Lembro que foi dureza juntar ferro velho e vender pra dona Chica portuguesa e ganhar dois mirréis. (E de meia com o André-Bicho-de-Pau-Podre, comprar no seu Vitório meu primeiro maço de cigarros – Macedônia, por quatro mirréis ...)
Fugi de medo de apanhar muito de meu pai, quando ele soube.
Eu fazia sim arte grossa.
E sua correia dura doía muito também ...
Mamãe sempre interferia, me ajudando. (Não deixava bater com cabo de vassoura, porque – segundo ela – machucava o menino!)
Por teimosia, quantas vezes me machuquei.
Quase arranquei o dedo polegar do pé, subindo numa jabuticabeira nos fundos do Hotel (e que tinha caco de vidro no canteiro). Papai me levou, no colo, lá na farmácia do seu Soares para fazer curativo, na hora.
Lembro o choque elétrico que recebi, por teimosia e artes. O amigo Siger desligou a força na hora agá. E olhe, papai: a marca do queimado está aqui, no minguinho, até hoje!
Vivíamos os dois, de cabelo cortado à alemão. Papai exigia, mas dava o exemplo ...
Mandava-me cortar no Géia, pois no Pacheco era mais caro e ficava a mesma coisa.
Engraçado: depois de crescido, quando fazia alguma coisa errada, papai não me batia mais. Terminara o aprendizado.
Às vezes, ele nem ficava sabendo do malfeito. Mas tudo saía errado e eu, perdendo ...
E foi me ensinando, pelo exemplo, a não fazer coisas reprováveis.
Lembro, por causa de você, papai, daquela turmona da fábrica vizinha, que depois do almoço não saía da feira até tocar a sereia da hora de entrada: comiam doces, frutas, paçoquinhas feitas por mamãe ... Compravam de tudo para o lanche.
Marina, Lucas, Terezinha, Arsênio, Brandão, Verzola....
Após o trabalho, lá ficavam os homens: ouvindo as piadas do Rei das Piadas de Rodelas do Norte: meu pai!
Essa turma toda me viu crescer ...
Com uma caixa de engraxate feita por papai, a meu pedido, engraxei muito sapato no clube vizinho. E nem assim o seu Gareldo – o porteiro – me deixava entrar no cineminha de quarta-feira: era pra sócio ... Guardei mágoa dele muito tempo. Mas hoje sei: era seu ofício. Ele era mero executor de ordens. Um instrumento do sistema ...
No salão do Pacheco, mais tarde, vim a engraxar. Numa caixa grande, profissional, com cadeira e tudo. Um “negócio”!
Levantava um bom dinheiro. Dava pras despesas, material de reposição, “royalties” ao dono do salão, etc.
Chegava na sexta-feira, após o expediente, tinha o “tutu” pra ir no cine Avenida assistir dois filmes pelo preço de um ...
Ali me fiz amigo de Saulim, filho do dono. Mais tarde teve o coitado morte trágica: afogamento.
Ficando mais moço, não dava pra engraxar mais.
Então papai, com meu argumento de “limpar as notas velhas de sua carteira”, me financiava os cinemas, o cigarro: em troca não era pra ficar andando com turma ruim, principalmente com o Zébosta.
Levei até namorada ao cinema com as notas velhas dele ...
Antes disso, eu ajudava missa, como coroinha. Assim que cheguei do Seminário.
Nessa época eu tinha o monopólio pra ajudar nos enterros. Carregava na frente do féretro a cruz de metal.
Tinha um parente sacristão e ele me convocava.
Ganhava cinco mirréis pra ajudar cada enterro. Da porta da Igreja, até a porta do Cemitério: a pé.
Nessa época, vista desse ângulo, a morte foi rendosa pra mim.  E NUNCA MAIS, DE QUALQUER MODO, SERÁ.
Num dia apertado, de muitos enterros, deu confusão.
Negligente com as ordens paternas, fui brincar no “buracão” do Jíluo Farrero com a turma, no meio das serragens e bambuzeiros.
Abri um joelho numa tora de quina.
Precisou dar pontos. Papai me levou no Samdu, carregando nas costas...
Nunca mais ajudei enterros: deixei o sacristão num apuro e perdi a função. Outro coroinha assumiu meu cargo.
A desobediência assumiu ares de irresponsabilidade ...
Papai me disse então: nunca brinque em serviço!
E então compreendi o exato sentido do serviço: responsabilidade. Era uma criança com onze anos: em meu joelho ficou a marca, cicatriz dum aprendizado inicial ...
Já aprendera, nesses onze anos, a fazer muita coisa com meu pai.
Mas o tempo correu léguas e o terreno do aprendizado foi arado. Aprendi com ele que se vive sempre em função dum ideal. Se este perecer, morre-se.
Deve-se manter vivos, pelo menos no coração, os costumes.
É preciso cultivar os amigos. A negligência os afasta e o tempo mata as amizades.
É preciso semear, mas antes há a preparação do terreno ...
Nenhum animal aprende fora da cativação. Muito menos, o homem ...
Guardo isso comigo, pai.
Papai então foi ficando pequeno.
Há muito não me pega no colo mais ... Fisicamente ...
Fui enjoando do carrinho de rolamentos.
Enjoei das caminhadas infrutíferas.
Papai foi ficando de passos curtos, madrugadores.
Não pude mais brincar de arranhar meus dedos em sua barba de lixa ...
O colégio foi me educando proutos horizontes.
Coisas de ginásio, futebol, esportes.
Quando vi estava nadando, em competições, por Rodelas.
Estava, como diziam pro papai, um “homão”.
Agora posso pegar papai no colo. Fácil.
Ele está ficando leve. Cada vez mais leve ...
Sua idade: meia-meia.
Trabalhando ainda: carregando seus anos numa cesta abarrotada de verduras – diariamente.
A turma da fábrica, reunida, não vejo há anos ...
A sinalização do trânsito mudou. A placa com o “VEHICULOS” da velha casa de esquina está lá: rezando um absurdo argumento de saudade em meu cérebro esquecido.
Veio esse manejo astral. A perícia dos campos de força.
Mudaram os girassóis de meus poemas em óleo comestível.
Os pontos cardeais, estudados ao nascente – ao vivo – são  meros rótulos nessa época sem distâncias ...
Em meus rumos-crianças, houve a invasão dos muros-trabalhistas.
Sim, velho grande pai: de nós o tempo está por findar.
Posto que inda vivos, aos poucos nos morremos.
E temos a exata compreensão desse tal significado: nosso mesmo olhar maduro-convexo-míope ...
Os táticos bloqueios da vida, em nossa pequena vida.
O abraço dos anos, irreprimível, eludindo nossos desejos.
Você hoje, esse velho acabado em dor, Grande Pai.
Prometo agora aqui aos seus pés que choram caminhadas infrutíferas de manter honra, junto a sua calça rústica, zulmarinha, que vingarei em minha safra as sementes que me legou.
Choro com você, meu pai.
Pagamos um eterno tributo: brilhará em outros sóis a luz que perderemos.
Não chore mais, meu pai.
A injustiça não fica sem conseqüência: pra quem fez, pra quem sofreu. Da mesma forma.
Deus é Justiça!
Não suporto mais ficar em casa.
Um entra-e-sai de gente desconhecida ...
Saio. Quero respirar um ar diferente de todos: o ar da felicidade.
Ando. Procuro. Não encontro. A vida não é mais fel. Mas não é mais mar de rosas. Nunca mais.
E tenho o exato sentido nas próprias carnes.
Nunca mais serei o mesmo.
Nunca mais seremos os mesmos ...
A cidade parece diferente. Ou estarei eu diferente?
Ando mais.
Procuro algo que não consigo decifrar.
Ando a procura do nada: nada desejo; nada temo.
Só possuo uma dor. Infinita. Única.
Só a injustiça, latejando. Pedindo reparo.
Me aborrece, pois não desejo reparo.
Não quero nada com nada.
Quero paz.
Quero andar sozinho, sem falar com ninguém. Olhar as coisas inanimadas. Fixas. Permanentes.
Olhar o firmamento e ver o azul atrás das nuvens que passam ... Das tempestades em potencial que passam ...
Olho para o alto.
Identifico-me com o infinito.
E encontro a paz ...


guerra fria





Os dias passam rápidos.
Não consigo saber do tempo passando ...
Diariamente os comentários girando em torno do assassino.
Acompanho as notícias, com reservas. Sem comentários.
Não quero incorrer no erro que critico.
Acompanho de longe. Faço minhas deduções sozinho. Ou em família.
Após a retirada de meus móveis e utensílios deverei alugar minha casa destroçada.
Não suportaríamos voltar para o palco da tragédia.
O “Inimigo” busca, agora, elevar a pessoa do assassino.
Procura inocentá-lo, num movimento de comover a opinião pública para o julgamento. Estabelece confusão. Interroga. Lança dúvidas.
Nesse mês – quase – passado, o assassino nega a autoria, se contradiz, clama justiça. Brada inocência, após ter confessado tudo!
Dentro desse – quase – mês passado, algo positivo: identifico o amigo-desconhecido!
Encontrei-o casualmente na rua. Fi-lo, com minhas súplicas, confessar sua profissão.
É  escrivão de polícia ...
Que nunca acreditou na minha culpabilidade. Que via a fragilidade, a falta de consistência nas provas que me apontavam ...
Marcos Mercado, seu nome ...
Terça-feira: 19 de março de 1.974.
Estou no escritório.
Hora de fechar para o almoço.
Carteiro chega, entrega a correspondência e sai. Rápido.
Um envelope ordinário, trazendo uma mensagem ordinária.
Fulano, da cadeia local, manda-me uma carta assinada, onde tenta – certamente orientado por seu advogado – lançar-me como autor intelectual do crime, colocando-me como mandante do “serviço”.
Fecho as portas.
Corro – alarmadíssimo – até a casa de papai. Encontro Anicla. Mostro-lhe a missiva.
O choque é forte demais para nós.
Destempera-nos. Nos desorienta ...
Procuramos o advogado amigo. Me aconselha o que fazer com a carta.
Procuramos o Promotor Público da comarca, Dr. Tacaferro e lha entregamos.
Me conhece desde criança. Publicou no jornal de seu falecido pai, anos atrás, minhas primeiras poesias ...
Sabe da minha inocência. Tranqüiliza-me.
Peço-lhe usá-la no que for necessário para a condenação do Fulano. A carta confirma sua confissão primeira. Assassinato!
Digo-lhe do meu receio para com a imprensa “Inimiga” ...
Como evitar?
Me consola de antemão: “Vão fazer o que estavam planejando há tempos; na impossibilidade de autoria, uma co-autoria virá de encontro aos desejos bestiais do diretor ...” “Agüenta firme. As coisas serão rápidas.” encerra ele.
Despeço-me e vou-me embora com o advogado.
Fulano, na carta, tenta extorquir-me 30 mil “pacotes”, sob pena de me indicar como mandante do crime!
Quanta maldade!
Não tendo dado certo o golpe do assalto, e tendo morto as duas vítimas, pensa conseguir dinheiro agora com CHANTAGEM!
Lamentavelmente, COMIGO!
Aguardo a bomba ...
Averigua-se a procedência da carta e logo a imprensa é cientificada.
Abre-se novo inquérito.
Ouvem-se testemunhas. Ouve-se o assassino.
QUINTA-FEIRA: 21 de março de 1.974.
Manchete do “Amigo”:
 “ASSASSINO TENTA CHANTAGEM COM GENRO!”
Manchete do “Inimigo”:
FULANO REVELA QUE MATOU PELOS 30 MILHÕES PROMETIDOS POR BROJES!”
(Um desastre!)
Um clichê do assassino ilustra a manchete e a legenda reza:
“O jovem sapateiro pediu a um companheiro de cela que escrevesse uma carta endereçada a Brojes Haller, na qual solicita o dinheiro que o genro de Adorasterra lhe prometera para assassinar o ancião.
Onde está a verdade? Muitos acontecimentos foram registrados sobre as duas mortes. Surgiu a primeira declaração: Fulano é inocente. Posteriormente o criminoso disse que não estivera no local dos crimes, mas em casa de uma anciã, assistindo televisão. (O que ela confirmou, havendo o desmentido dos filhos). Agora uma carta e uma declaração, envolvendo seriamente uma pessoa. Fulano convidara seu amigo Beltrano para, juntos, assaltarem a casa de Adorasterra. E agora diz que foi à residência do ancião. A carta trará mais confusão ou haverá algo de positivo? As investigações da polícia – a mesma que nos trouxe as últimas declarações – e somente elas poderão colocar um paradeiro no caso que a população estava esquecendo.”
Rilho os dentes nessa leitura ...
Quanta inconseqüência do diretor ...
Na página central, mais podridão. Engrossando o caldo nauseabundo dessa sopa de invencionices ...
SUB-MANCHETE:
NA CARTA DE FULANO A BROJES, O PEDIDO: “QUERO OS 30 MIL”.
Por trinta mil cruzeiros, Brojes Haller mandou matar Adorasterra Derrapina, segundo depoimento feito ao anoitecer de ontem na polícia, por Fulano, que não agüentava mais o peso na consciência. O conhecimento do importante detalhe só foi possível graças a uma carta enviada por intermédio de um companheiro de cela de Fulano a Brojes Haller, cobrando os trinta mil cruzeiros.
A CARTA.
Sábado último, desesperado pela condição de ter trinta mil cruzeiros para receber e estar preso, Fulano pediu para um companheiro de xadrez que escrevesse uma carta, alegando que sua caligrafia é ruim. O companheiro escreveu e endereçou sem saber para quem.
Fulano assim se expressava (respeitamos o original):
Cadeia Pública de Rodelas do Norte, 15/3/74. Ilmo. Sr. Broje Hales. DD senhor. Em face e eu está sendo horivelmente prencionado para dizer quem é o mandante do crime. Atraves desta venho lhe avisar que deposite no banco a quantia de 30.000,00 do que ficou combinado entre nos. Veja bem: Estou erremediavelmente perdido, portanto não tou umportanto de arastá em minha desdita você, caso não me dê este dinheiro que estou lhe pedindo, vou dizer para o Delegado e o Juiz que tu mandaste, etc e tal, vai ser o maior escândalo. Se tens amor a tua familia, atenda-me porque para prová em Juizo o contrário não vai ser mole. Agora quero estes 30.000,00 e se voce não me atender vai gastar mais sem contá o abalo moral é melhor me atender e esquecer, se não tuvais sentir o amargo do cárcere. Preste atenção, quero o dinheiro em ordem de pagamento pelo Banco Xis ou Ipsilon. Você deve depositá o dinheiro em ordem de pagamento em meu favor de uma agência que não seja Rodelas, para não lhe comprometer, omita o nome do remetente. A ordem deve ser me enviado para o seguinte destinatário – endereço Fulano, Rua Maiano Claudijor N: 1418, de preferência a orde deve vir de Axará ou Milagrosa, onde tenho familia é só o que quero de você para poder ampara minha mulher que tá mal. Porem se este aviso não tiver em minhas mãos constando que o dinheiro está depositado até o dia 30 de março de 1.974, Emcaminho as autoridades competentes minha declaração. Agora veja o que é melhor. Darme este dinheiro ou se complica com a Justiça. Aguardo sua sensatez e providencia, até o dia 30-3-74. Fulano. CPRN. Maiano Claudijor nº 1418, Rodelas do Norte.”
TRAJETÓRIA:
Depois de pronta, a carta tinha que sair do presídio, sem ser visada pelo carcereiro. Assim, utilizou-se um processo bem estudado: a carta foi ter com Sicrano que está na mesma cela; este passou para sua mulher (que é analfabeta), dizendo que não poderia passar pelo carcereiro, para não ser visada, pois era para a namorada. Mas não podia ser do conhecimento de ninguém. Devia ser colocada no Correio e pronto.
A carta foi escrita em bloco comum, conseguido dentro da cela com outros presos. E com caneta esferográfica vermelha.
Foi ter a Brojes Haller. Deste para seu advogado e ao promotor que convocou o delegado Malvício Gebofe para proceder às investigações preliminares, que culminaram com a confissão de Fulano.
A NOVA CONFISSÃO:
No novo interrogatório efetuado pela polícia, Fulano contou que conhecia Brojes há muito tempo, pois sempre viajava em sua companhia para Coivaras, no estado de lá do Grande Rio do Peixe.
Inclusive, citou testemunhas de uma viagem, seu primo Carneiro dos Magos. Alegou também que viu Brojes diversas vezes na casa de sua tia Varizina. E contou com detalhes, a história do crime, desde o convite feito por Brojes: “Há quatro ou cinco meses, encontrei o Brojes em frente de sua residência (Rua Federal Ossário, 1.170) e este dizia que não agüentava mais aquele velho e tinha prazer em que ele morresse.
Brojes afirmou que não tinha coragem suficiente para matar o velho e que se tivesse mais intimidade com Varizina pediria a ela para colocar veneno na comida.
Nessa mesma conversa, Brojes disse que “se soubesse de alguém, estaria disposto a gastar vinte ou trinta mil cruzeiros para acabar com o velho.”
Animado, Fulano disse que assim até ele aceitaria o negócio.
Seis dias antes do crime, andava pela avenida Presivargas Dente, por volta das 19 horas, quando Brojes, em um Olapa passou e o convidou para entrar. Depois de algumas voltas, pararam em frente ao quarto onde Fulano dormia e ficaram uns vinte minutos. Brojes voltou ao assunto anterior e perguntou se estava disposto a cumprir o tratado. E informou com detalhes, dizendo que entre 19:30 e 20 horas Adorasterra ficava sozinho (sem entretanto citar a moça) “em recompensa me daria 30 mil cruzeiros, depositados através de ordem de pagamento em um banco”. “Como possuía o revólver, aceitei e disse que mataria o velho, recebendo as últimas instruções de Brojes.”
Não ficou tratado o dia do crime. Na quarta-feira, dia do acontecimento, não falou com Brojes. Passando em frente à residência e sem ver o Olapa, entrou e matou as duas pessoas. “Não pretendia levar nenhum dinheiro e nem mesmo assassinar a moça, mas como ela apareceu primeiro, fui obrigado a matá-la, dando um tiro, depois, no velho.”
DECISÃO:
Fulano cumpria alguns dias de prisão em Sópedras, sendo transferido para o presídio de Rodelas do Norte. No xadrez n.º 80, travou conhecimento com Sicrano e contou seu drama.
O outro detento “sugeriu que fosse dada uma prensa” em Brojes e caso não lhe fosse enviado o dinheiro, “era pra deixar de agüentar as pontas e contar toda a verdade”. Quando então veio a idéia de escrever a carta.
Trinta e três dias após sua prisão, Fulano resolveu citar detalhes e disse:
Só não falei antes, porque havia prometido segurar as pontas e porque estava esperando os 30 milhões.
O DETENTO:
Sicrano, 35 anos, foi procurado sábado por Fulano que solicitava-lhe escrevesse uma carta “a um amigo que me deve trinta mil cruzeiros”.
Fulano dizia que estava preso e esperando receber o dinheiro, mas nada recebera. O conteúdo da missiva foi ditado por Fulano, que tomou as precauções necessárias para não transparecer qual o “acordo” feito e que lhe daria tanto dinheiro.
Para que Sicrano escrevesse a carta, Fulano ofereceu-lhe um maço de cigarros.
Sicrano também foi interrogado, ontem à tarde e disse que até a assinatura da carta era sua “pois Fulano dizia que não sabia escrever.”
“Depois de pronta, a carta desapareceu e não fiquei sabendo o que Fulano fez com a mesma.”
AUTORIDADES:
A carta chegou às mãos do Promotor Público anteontem, sendo mantido o maior sigilo a seu respeito. A reportagem quando tomou conhecimento da existência da carta, procurou o promotor, encontrando o Dr. Alerto Malvício Gebofe com o Dr. Tacaferro, que elaboravam um plano de ação para comprovar “o escândalo”.
O Dr. Alerto Malvício viajou ontem para a Capital, à noite, informando antes que “foi aberto um processo por extorsão contra Fulano”. Quanto a Brojes, “se comprovada a denúncia, será tão responsável quanto o criminoso, POIS É o autor intelectual do crime”, finalizou o delegado chefe.”
...
Agora penso eu: não teria sido melhor jogar a carta fora?
Mas não teria sido um ardil da polícia que saiu pela culatra?
Onde está a verdade, meu Deus?
Quem escreveu? Porquê?
Quanta mentira, para ressujar meu nome!
Nos dados da carta, vejo instrução superior.
Certos termos não são compatíveis com o grau de escolaridade do detento: há uma clara instrução superior ... erros propositais!
Na história urdida há falhas gritantes: Varizina há mais ano não trabalhava em nossa casa! Não há verdade na informação de horário: nunca se sai de casa, por causa das novelas, entre 19 e 21 hs! Não passeio de carro sozinho! E nunca – pior – de noite! Nunca conversei com Fulano mais de um “como vai” nas raras vezes em que nos encontramos na casa de Varizina! Nunca lhe dei carona!
Há mentiras e falhas na história inventada e decorada por ele, para o depoimento da “nova confissão”. Eis porque vejo instrução superior, para divisão de pena no processo.
O diretor do “Inimigo”, desde o dia 22 de fevereiro achara a pedra angular. Seu testa de ferro é agora um advogado barato e afeminado convicto: Gracildo Loló. Com pretensões políticas, já programado pelo diretor, começou a maratona patrocinada pelo jornal: a razão absurda; a transferência da culpa para mim! Velada, mas compreensível!
Como mau escritor, o abutre não sabe das seqüência à estória sozinho. Não esquece que fracassou e quer ir à forra.
Por ele, Fulano é visto como um pobre diabo em minhas mãos de Grã-Satã.
Dia 02 de março continuou a forçar situações.
O descarado jornalista recalcado, que esteve presente ao primeiro depoimento-confissão do detido – em 17/02 – não viu a mínima coação nem qualquer sinal de pressão psicológica exercida sobre o autor dos homicídios ... Mesmo assim, publica notas vindas da boca de um criminoso. Inverídicas. Sem sentido ...
O que lhe importa é vender manchetes, sustentar polêmica. Sugerir “antigos suspeitos”.
Tudo o que vem de um assassino é publicável. Verdadeiro.
Cretinices reproduzidas em alta-fidelidade: tal disco, tal som ...
Já no jornal de 03/03, o arrojado jornalista procura de todas as formas dar o amparo de sua imprensa marrom ao seu “protegido”, o criminoso.
Arrola, para isso, gente honesta em suas manchetes ávidas de cruzeiros.
Constrói frases, atribuindo-as a outrem.
Usa pessoas no afã de encobrir o protegido, almejando a transferência da culpa para mim ...
Seu objetivo: desenterrar antigos suspeitos.
“Limpando a barra” do criminoso confesso que tanto desejou, “para tranqüilidade da população rodelense”, encontrar em mim!
Falsifica declarações, cria situações e quase consegue provar que o seu protegido não é o criminoso.
Objetivo? Recuperar-se do malogro de suas faltas e infelizes acertivas com o “genro suspeito” ...
Compromete pobres anciãs e engole seco com as represálias!
A cascavel da imprensa rodelense perde o senso de direção.
Aí surgiu a Carta!
Ele explodiu em exultação. Viva! Mais carniça para a hiena!
No abuso das letras garrafais, a manchete busca regenerar a reputação do porco pasquim.
TINHA RAZÃO! (imagino ...)
E assim, goza, estrebucha e ejacula em seu orgasmo retardado o tarado das notícias!
Bastaram as palavras de um malfeitor e refinado mentiroso – que inclusive simulou debilidade mental – para que a honra dum inocente fosse novamente manchada nas manchetes nojentas dum jornal que serve apenas de papel higiênico – assim mesmo – para quem prefere a 3ª classe! Mais pesa na balança de um igual, a palavra de um assassino!
O pseudo-jornalista não mede conseqüências e revela – exala – seu veneno à população “frustada”, através duma história mal escrita e cheia de falhas. Unilateral.
A estória é inventada na íntegra.
Publicada igualmente.
Como merece fé a palavra do declarante!
O “Inimigo” não se conformava de Brojes Haller não ter parcela de culpa em dois assassinatos!
Atribui brilho de Verdade às infames maquinações provindas da cela infecta de uma prisão! (Lugar onde se sentiria mais à vontade o viciado das notícias ...)
Não existe moral alheia nem reputação sobre a face da Terra, no entender do podre jornaleco.
A arma mortífera da imprensa voltar-se-á um dia contra o guerreiro displicente ...
Eis a verdade: estou – indefesamente – sendo pisado e massacrado pela imprensa marrom!
O jornal não quis – por conveniência – enxergar, na entrega da Carta à promotoria, a liberação da suspeita ...






































ressurreição geral





Agora já é mês de abril. Dia 3, uma quarta-feira serena.
Acordo satisfeito pelo sono que volta a se normalizar.
O segundo baque não foi tão duro.
Alguma dor de cabeça. Mas tive “cara-de-pau” suficiente para agüentar ...
Com a polícia, apenas um depoimento, no Curral Regional.
Sentado em frente dum escrivão e dum delegado. E nada mais.
Mas a mentira da carta não pode perdurar.
Urge providências. Há minha reputação ...
No jornal do dia, primeira página, uma notazinha embaixo.
Humilde, como uma derrota.
“FULANO CONTINUA DESMENTINDO CARTA E CRIMES”
Na página central, leio com crescente alegria uma pequena nota, com mínima manchete:
“FULANO NEGA PELA SEGUNDA VEZ TER SIDO O AUTOR DO DUPLO HOMICÍDIO!”
“Pela segunda vez Fulano negou ontem às 13 horas, na sala de audiências da 5ª Vara no fórum Local, ter sido o autor do duplo homicídio da Rua Federal Ossário, a 16 de janeiro.
O sapateiro de 22 anos compareceu ao segundo interrogatório formulado pelo Dr. Pielder Zênith na presença do promotor Dr. Tacaferro e o advogado de defesa Gracildo Loló, dizendo “não ser verdadeira a imputação, pois não matei qualquer das vítimas mencionadas na denúncia.”
“A CARTA.
Fulano também surpreendeu a Justiça ao dizer que nada daquilo que consta na Carta que acusa o genro da vítima como mandante do crime corresponde à verdade e que não escreveu nem pediu para qualquer companheiro de cela que a enviasse ao genro de Adorasterra Derrapina, pedindo 30 mil cruzeiros prometidos.
Ao mesmo tempo, Fulano, que se encontra detido há quase dois meses, também negou que tenha havido prévia combinação com Brojes Haller para que ele praticasse o fato da denúncia, mediante a promessa de pagamento.”
...
Eu exulto, é o termo exato.
Poderia talvez ser maior minha exultação se houvesse uma grande manchete com o desmentido de tudo ...
Mas, “para quem sabe ler, um pingo é letra...” E como sempre completa meu pai: “e um pingo e um risco, é manuel francisco!”
Minha reputação outra vez se restabelece. Dessa vez, pelo próprio jornal “Inimigo” ...
Outra vez, a prova duma injustiça de imprensa marrom!
E penso cá comigo ... E digo para uma Ausência:
– Acorda do sonho de gozo, ó príncipe das trevas off-séticas! Fulano não levou adiante a farsa que você pretendia alimentar e sustentar!
Até os criminosos primários se auto-criticam ...
Mas os de sua estirpe são amorais.
Não sabem dessas coisas.
Você pagará pela malícia de sua existência perniciosa, daninha e inútil ...
Como ficará a vida do “suspeito”, “mandante”, e as manchetes e todo o teu empenho?
Quem não percebeu, um dia perceberá toda a maquinação de quem desposou sua própria maneira de ver a vida!
Você confiou no seu porco e pobre tirocínio diplomado nas vielas super sujas duma capital “belle-époque” ...
Você é uma besta ao quadrado, pois errou duas vezes, bestialmente ...
Logo você ... Confiando cegamente nas palavras dum assassino primário ... Uma raposa velha enganada! Cadê o triunfo das teorias de Maquiavel?
Tudo em benefício comercial do sujo jornaleco ...
Um dia verá as coisas em pratos limpos, nojento...
...

E desse dia pra cá, os cumprimentos se sucederam.
A tensão relaxa, enfim.
Surgem os primeiros sintomas duma psicose minha ...
E meus dias, apesar de floridos, não agradam mais.
Os que erraram repararam o engano, direta ou indiretamente.
Meu trabalho me enjoa.
Nada me satisfaz.
Muito frio.
Solidão.
“Hoje flutuam, entre a tumba e o sepulcro de meus restos, a coroa e o diadema da glória que perdi...”






































prova final





O “Inimigo” noticia a índole “pacífica” de seu protegido: é um dos cabeças duma rebelião havida no presídio local ...
Notícias de última página dão conta do julgamento do facínora em junho.
O “Inimigo” ingressa na era moderna, com suas oficinas.
Não mais a rotativa.
Agora é a off-set.
Mas a mentalidade do dono permanece medieval ... Maquiavélica...
Passam os dias.
Rápidos.
Mais rápidos.
E hoje é terça-feira, dia 18 de junho de 1974.
Véspera do julgamento.
Numa manchete covarde, pobre, leio: “FULANO SERÁ JULGADO AMANHÃ.
Fulano, acusado do assassínio do fazendeiro Adorasterra Derrapina e Camélia Zum, no dia 16 de janeiro passado, será julgado amanhã, em sessão marcada para às 13 horas (e término às 2 horas do dia seguinte).
A duração normal da sessão será de cinco horas: duas para a acusação – a primeira a se manifestar – duas para a defesa e uma hora para os jurados se decidirem.
Mas reserva-se também certo tempo – indefinido para que sejam ouvidas as testemunhas (seis ou sete de acusação e uma de defesa).
Incluindo-se os intervalos normais para refeição e lanche, possivelmente a sessão seja encerrada depois das duas horas da quinta-feira.
Acredita-se que este será um dos mais emocionantes julgamentos já realizados em Rodelas do Norte, pelas condições que envolveram o fato, desde o crime até a captura do réu e os acontecimentos posteriores – provocados por Fulano – quando contrariou suas afirmações na polícia, dizendo-se inocente.
A defesa promete – e não revela – lances sensacionais, com uma completa reviravolta na atual situação.
Sobre o júri, o Dr. Cracildo Loló, advogado de defesa diz: “Estou tranqüilo, acreditando antes de tudo na capacidade dos jurados”.
Quanto à rapidez do processo, declarou que “tal fato deve-se pela razão do pseudo-réu declarar-se inocente e assim não é justo que permaneça por mais tempo recluso”.
O Dr. Tacaferro, promotor da 5ª Vara, que funcionará na acusação, completou seu trabalho a ser desenvolvido na sessão, dizendo que agirá normalmente, “mas, como numa sessão de Júri tudo é possível, porque o que vale é o voto do jurado – não posso adiantar nada, muito menos um final”.
O juiz será o Dr. Fhind Papo.”
Termina a nota.
Será que o jornal com seu advogado-fantoche ainda espera algo positivo para o seu “protegido”?
Comentários na cidade.
Prévias da pena, por todo lado.
Apostas.
Nenhum prognóstico abaixo de “20 anos!”
Todos querem Fulano “fudido de cabo a rabo”.
Pra variar, no “Inimigo” de hoje, outra foto roubada – de Adorasterra (detalhe) – ilustrando a matéria ...
O dia passa numa expectativa geral.
A noite chega.
Passeio descontraído com as crianças e Anicla.
Refresco as idéias.
Vou para a cama tranqüilo e ansioso ...
Amanhece.
Em casa de papai o reboliço é contagiante.
Ida ao fórum.
Não vou.
Manas vão.
Jôrca funciona como um estafeta. Vai e traz – continuamente – as novas.
Informa da lotação da sala do tribunal do júri.
Da acusação.
Das testemunhas. Quem. Quantas. O que deu.
Da acusação.
Detalhes: começou às 13 horas; e demais correlatos desse tipo de assunto.
Testemunhas, prós, contras.
Defesa de Gracildo: ler depoimentos de pessoas contra mim, no inquérito policial. Esta sua prometida “reviravolta na situação”?
Todos os presentes repudiaram a inconsistência de seu pronunciamento ...
As horas vão passando.
Manas voltaram. Jôrca e Darla vêm embora. É tarde. Vão para suas casas ...
E vou dormir cansado, sem saber do final do julgamento ...
DIA 20 DE JUNHO DE 1.974. QUINTA-FEIRA.
O jornal traz a tão esperado notícia.
Após 154 dias do crime. Uma manchete boa.
Mas, na matéria, fofocas, frescuras e cretinices gerais.
O acerto final.
O encerramento do assunto.
Eis o prato.
O JULGAMENTO!
Cinco meses depois de ter confessado à polícia que havia assassinado duas pessoas, o sapateiro Fulano, 22 anos, foi condenado em sentença pronunciada ontem às 23:30 horas, no fórum local pelo Dr. Fhind Papo, Juiz de Direito da Comarca.
Durou dez horas e meia o julgamento.
Assistido por dezenas de pessoas que lotaram a sala do júri, na rua Amplos Vales.
Às 13 horas, davam entrada na sala, o promotor público, Dr. Tacaferro e o advogado de defesa Gracildo Loló.
Calmo, sem olhar para o grande número de pessoas que queriam vê-lo de perto, Fulano sentou-se no banco dos réus e só abriu a boca duas vezes, para negar a autoria do duplo homicídio.
Dois dos nove jurados sorteados pelo Juiz não foram aceitos pelo advogado de defesa.
Fulano, na frente do Juiz, ouviu novamente toda a história do duplo homicídio.
Foi lembrado que um mês depois se entregou ao delegado Vidro Amarelo dizendo ser o autor dos crimes. E contou tudo em detalhes. Foi feita a reconstituição do crime normalmente.
Mas ao ser interrogado negou novamente todos os fatos, depois de ter entrado em contradição várias vezes durante as audiências.
E contou novamente a história da televisão.
Conheceu Adorasterra oito anos atrás em Coivaras e nunca havia visto antes Camélia. No dia do crime saiu às sete horas da noite do emprego e foi à casa duma vizinha assistir televisão, como sempre fazia. Tinha um revólver calibre 32 “Taurus”, mas seu tio o entregou à polícia. No dia da prisão ele estava bêbado e havia tomado entorpecentes, por isso foi com o tio na casa do delegado Amarelo onde confessou o crime, mas não se recorda porque.
Falando a mesma coisa que confessou na segunda audiência ao Juiz Pielder Zênith, Fulano disse que foi obrigado a confessar os crimes devido a torturas e ameaças impingidas pelos policiais.
Sobre o companheiro que teria combinado praticar o assalto, Beltrano, vulgo Noêmia, Fulano disse que nunca mais o tinha visto após brigarem por causa duma partida de esnuque.
Terminando o seu depoimento ao Juiz, Fulano falou sobre a carta a mim endereçada: confessou que ela foi escrita por um companheiro de cela, mas não disse de quem foi a idéia.
Alguns minutos depois, afirmou: Não sei quem praticou os crimes. Eu não fui!
Após a confissão do réu, foram lidos os seus depoimentos anteriores.
As acusações das testemunhas.
Exame balístico e de autópsia. (Que despertaram grande interesse por parte da acusação.)
Após um breve intervalo, prosseguiu o julgamento, quando foram chamadas algumas testemunhas de acusação.
Foi feita a leitura da carta a mim endereçada.
Finalmente apresentaram-se as testemunhas da defesa.
A seguir foi comentado que quando da reconstituição do crime, Fulano estava muito calmo quando repetiu as cenas – cinco meses atrás – perante às autoridades. A testemunha foi inclusive orientada na encenação, pelo réu. Que sabia a posição correta das vítimas ...
Por volta das cinco e meia da tarde, dona Agnela, a vizinha da televisão, respondeu calmamente às perguntas do juiz.
Disse que realmente o acusado ia todas as noites à sua casa, para assistir televisão. Mas afirmou que não se lembrava de no dia do crime ele ter ido lá.
Disse que por outro lado, se recordava de ter recebido um estranho pedido do Dr. Gracildo Loló, advogado do réu, para que ela afirmasse que Fulano estivera em sua casa.
Na ocasião o advogado, de joelhos e mão postas, suplicou-lhe dizendo: A liberdade de Fulano está em suas mãos, lembre-se disso!
Essas declarações da honesta humilde senhora causaram um mal-estar geral na assistência do tribunal ...
O promotor Tacaferro foi de uma energia brutal.
Às 18 horas e pouco começou o seu ato de acusação, numa alocução que durou cerca de duas horas, observado pela assistência eletrizada que lotava as dependências da Sala.
Mostrando-se incisivo, indignado pelo hediondo crime, o promotor imitou vários gestos do velho morto, que não mais agüentava andar e o fazia segurando o pijama.
Quanto à moça de 16 anos, menina no arrebol do amanhã da vida, segundo o promotor, ganhava 100 cruzeiros por mês da família, como ajuda de custo, e sempre ia ao campo com a irmã, levando presentes vários, a visitar seus pais e irmãos, antes que surgisse o vendaval das profundezas do abismo cuspindo fogo. (Nesse ponto apontou o indicador em riste para Fulano).
Disse não poder trazer as vítimas até ali, naquele momento.
“Mas existe o terceiro personagem”, e apontou para Fulano com os dois braços, bradando: Hei-lo inerte e desarticulado!
Relembra em tom de ternura: “Quando eu era criança, sentava no fogão de lenha e minha mãe contava histórias de bicho-papão, saci-pererê, branca de neve e os sete anões, histórias do capetinha. Assim eu crescia ... Satisfeito da vida ... Era feliz e não sabia ...”
Mudando radicalmente o tom da voz, numa explosão de gritos e gestos, gritou num urro fortíssimo: “O demônio existe! Ele está aí!”
Explicou aos jurados como foram as investigações sobre os homicídios. Falou da Segurança Científica e dos exames de balística feitos na Capital e rendeu graças à ciência moderna que criou um sistema para desvendar crimes perfeitos. Apresentou a arma aos jurados. O laudo médico e o exame das vítimas.
Lamentou outra vez com outras palavras o acontecimento, dizendo que no momento das mortes as vítimas (os coitados, como os tratava) assistiam à novela “Evas da Praia”.
E gritando, disse num impacto estarrecedor: Agora lhes apresento o Adão do Lôdo! – apontando para o réu.
Falou em Deus.
Falou da velhice do morto. Que estava no fim da jornada.
Porque o réu não esperou que a Força Suprema fizesse a coisa a seu modo?
Finalizando, disse que o castigo deveria corresponder à enormidade do crime.
Concluiu teatralmente dizendo: “Segurem esse demônio!”
Perdido, desajeitado, às nove horas começou o defensor seu ridículo papel.
Falou de torturas impossíveis ...
Ameaças sofridas pelo réu ... no presídio de Sópedras.
Que a polícia agiu com precipitação pois o povo pedia a cabeça do assassino ...
Falou que o “homem é um erro em busca da verdade”, e citou amplamente o caso dos Dois Irmãos, comparando o seu àquele.
Tentou sensibilizar o Júri, dizendo que a amante do réu esperava uma criança e sua felicidade estava nas mãos do Júri.
Leu alguns trechos de depoimentos acusadores de minha pessoa, para desviar a imagem do acusado da mente dos jurados.
Encerrou sua defesa pedindo a absolvição do réu.
A sessão foi paralisada às 10 da noite.
Uma hora e meia depois, Fulano estava condenado a 18 anos e 08 meses de prisão.
epílogo




Eis aí a história.
O julgamento.
A condenação.
O fracasso da imprensa marrom.
Minha “glorificação”.
O preço de duas vidas que prezávamos ...
O assassino não foi descoberto pela polícia... Apesar de ter-se entregado, fez realmente um crime perfeito...
O jornaleco, diante de todos, trucidou uma vida honrada, sem condições de retornar atrás... Protegido pela lei da imprensa, cometeu um crime perfeito....
A polícia, impune em relação aos métodos atodados com o “suspeito”, cometeu também seu crime perfeito...
O povo que se calou, que se afastou, que me virou as costas, condenando-me antecipadamente, matou minha vontade de conviver com ele em minha terra natal... Cometeu, enfim,  seu crime perfeito.
Assim se passou ...
Os dias foram célebres em sua investida pelas folhinhas de meu escritório.
Perdi a vontade de trabalhar ali.
Hoje meu pai cumpriu um voto feito à sua Santa.
Foi de Rodelas do Norte a Sanrosé, a pé, num percurso de 30 quilômetros. Tudo por amor ao filho ...
Me comovo. Vou buscá-lo.
É muita felicidade.
Não mereço, meu Deus!
Fiz um raio-x dos pulmões. Negativo.
Surgiram problemas nos rins ...
Mudei-me posteriormente para uma nova casa.
Aluguei a casa do desastre.
Saí da casa de meus pais. Fiz tratamento médico-psiquiátrico: melancolia. Não a prosaica, mas a doença: depressão...
Não tive mais vontade de trabalhar como antes.
Estou no natal de 1974.
A família, esfacelada, passa o Natal repartida.
Família de Hovil, mudou-se há tempos da fazenda.
Agora, em Bordoal, recebem Anicla e os meninos.
Estou só.
Houve época em que estivemos separados por um mês.
Não achávamos casa para alugar. Dificuldades financeiras.
Ficaram em Bordoal por uns tempos.
Lá eu passava as quartas e os finais de semana.
Pior época de minha vida.
Tudo ruim, meus filhos eram um oásis: mas, passou!
Mergulhei numa depressão econômica, recentemente.
Estivemos viajando para a capital do estado Para Lá do Grande Rio do Peixe.
Tenho tentado vender meu escritório falido...
O fim de ano se aproxima.
Tenho feito muitos negócios. A prazo.
...

Hoje inicio o ano de 1975. Festa em casa. Durmo cedo, causando mal-estar nos vizinhos presentes e nos amigos convidados.
Vendi o escritório. Vendi meu gado. Troquei meu Olapa, perdi dinheiro. Estou falido!
Realizei mais maus negócios para minha já precária situação econômico-financeira.
Mergulho numa apatia total, passando os dias sonhando ao lado de meus meninos queridos ...
Tento ser feliz e não consigo.
...

Agora sou eletrizado por um halo independente de minha vontade e me atiro à boêmia, aos maus negócios e comprometo meu patrimônio.
Entrado o ano, os dias passam. Mudo-me de Rodelas do Norte.
Em Coivaras, tento uma reabilitação.
Debalde ...
A situação financeira não melhora.
Colheitas perdidas. O resto do gado vendido.
Volta a depressão. Fase eufórica...
Negócios estapafúrdios, espertalhões de plantão se aproveitando...
Perco tudo o que tinha.
Internamento em hospital psiquiátrico.
Vários meses. Sem família.
Só. O ano voa. Dr. Pedrinho, advogado amigo, ajuda minha esposa, vai colocando a situação sob controle.
Tantos velhacos que se aproveitaram impunemente da situação, cometeram também seu crime perfeito!
Saldo no final do ano: principia a recuperação.
Dívidas pagas. Euforia psicótica regride.
Normalidade chegando.
Estou afastado do trabalho, “encostado” pela previdência... O tratamento médico evolui.
Novas lavouras. Novas atividades.
Integração familiar.
Poucos negócios. Alguma renda.
Fase artística desponta: muita produção na área das artes plásticas.
Esboço de livros: contos, poemas e trovas.
Dois amigos de Rodelas me visitam amiúde. Leais.
Inicio o ano de 1976.
Longe das inimizades gratuitas.
Estou ilhado das incompetências de antigamente.
Lido com a fazenda.
Distraio-me. Brinco com as crianças que crescem saudáveis nesse ambiente não poluído. Calmo. Tranqüilo.
Horizontes azuis de serras.
Um ecossistema peculiar.
Tenho novos amigos: três.
Vou a Rodelas vez ou outra: visitar a família sagrada.
Consultas, cada vez mais distantes. Normalidade vindo.
Não sabendo quando comecei a escrever isso tudo, sei  apenas o dia em que estou a acabar: Em meu reduto. Escritório-atelier. Cercado por meus quadros, meus livros, meus discos, minhas fitas.
Zero hora de hoje.
Dia 16 de janeiro de 1976.
730 dias e 730 noites após o dia do crime.
17.620 horas após o dia da tragédia.
1.057.200 minutos após o dia do caos.
63.432.000 segundos após o dia “D” de minha vida.
Termino.
Já entrei na sexta-feira.
Agora vou descansar.
Porque amanhã é sábado...




























Tu que tombaste no caos extremo
Da noite imensa do meu Passado,
Sabes da angústia do Torturado ...
Oh! Tu bem sabes porque é que eu gemo!” ...

                                 Augusto dos Anjos
                                 In “Dolências”




























“E agora, de tal modo a minha vida é dura
Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos
Que sinto só desdém pela literatura
E até desprezo e esqueço meus amados versos!”


Cesário Verde
In “Nós”, estrofe 128 





























“O que fui ontem, senão um espectro?
Do que me lembro realmente,
A não ser de sombras
Que me atormentam?”

P.J. Ribeiro
In ”Água Solitária” – pg. 78




























“O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente” ...
           

            Fernando Pessoa “Ele-mesmo”
            In “Autopsicografia”                                                                    
















Opiniões/comentários de pessoas amigas que tiveram acesso aos originais deste livro



WALTER PERES CHIMELLO, escritor, membro da Academia Francana de Letras:

Primeiramente, cumprimento-o pelo texto denso, conciso, enxuto, que prende a atenção do leitor do início ao fim. A prosa tem a beleza plástica da mão do poeta, que mesmo narrando fatos doloridos, passa ao leitor uma emoção forte e  corajosa, que o leva a uma viagem por caminhos íngremes, encharcados de águas impuras pelas  mazelas da vida.
Mas  também está recheado de ternura e conforto, quando, com sensibilidade, mostra a fortaleza da alma dos homens que vivem numa dimensão humana muito acima dos pobres de espírito.  O livro também liberta e denuncia. Liberta sentimentos de profunda dor enraizados na alma do narrador, bem como é um balsamo a todos que passaram por momentos iguais a esse, e denuncia, com exatidão, fatos que ocorrem num mundo onde a maldade ainda, está longe dos comezinhos sentimentos humanos. Quiçá acenderá uma luz no coração daqueles que vivem no meio da escuridão.
Enquanto autor domina a minuciosa descrição com elogiável vigor, e, enquanto narrador/personagem transpassa para as páginas deste belo livro todo o sentimento represado nos recônditos da alma, desnudando, com sinceridade, momentos de verdadeira via-crúcis por que passou, contudo -  com semelhança do Nazareno -  não deixa transparecer sentimentos de  mágoa, pelos acúleos que o feriram e sangraram sua alma.
 O livro narra também, com rara beleza, momentos de ternura vividos pelo autor no seio de sua família, em fase da infância e juventude e que o levaram a ser portador de fé inabalável, dando-lhe forças suficientes para enfrentar, com galhardia, o episódio que tanto o fez padecer. Entende-se também, pelas belas metáforas construídas pelo autor, poeta de envergadura, que seus algozes foram perdoados, pois, a exemplo das palavras do Nazareno, eles “não sabem o que fazem”.
Faça muitas edições do livro, poeta maior.
Amigo e irmão de fé,
Walter Peres Chimello
24-07-2008   

ANA RITA DE ALMEIDA LEITE, técnica em contabilidade, residente em Delfinópolis-MG:

Ontem não tive como dizer, digo agora: seu livro é deliciosamente irresistível! não consegui parar de ler e quando terminei, ficou indo e vindo na minha cabeça...  me tocou profundamente. Amigo, como você sofreu... nunca imaginei que tivesse sido assim dessa forma, por aqui os comentários  não te beneficiavam também, agora vi "por dentro". Se servir de consolo terá minha admiração e a minha total confiança, de agora em diante.  Claro que quero te dizer isso pessoalmente! A sua fé te salvou e me comoveu várias vezes - você é um exemplo de pessoa humana...  Rezo para que Deus te recompense.
                                                                                  Ana Rita
23-08-2005


MAURO FERREIRA – escritor, arquiteto, residente em Franca-SP:

Lí o “livro proibido” (OCP). Gostei demais, achei muito verdadeiro, a autenticidade é tanta que às vezes espanta a literatura. Acho que para publicar seria necessário retocar formalmente algumas coisas. Mas o conteúdo, putz, tá na hora de desmascarar o “bom” delegado Vidro Amarelo, personagem que deveria ir para o lixo da história.
Mauro  
24/11/84


Nota do Autor: Os amigos envolveram-se tanto na leitura da obra que ao final chegam a pensar que ela representa a realidade. Isso é uma glória para qualquer ficcionista – que seu leitor chegue a crer que os episódios absurdos da ficção que leu sejam algo real.



WANDA BARROSO BORGESEscritora e Pacifista - Nova Friburgo-RJ.

Caríssimo Oscar. Li seu livro “O Crime Perfeito”. Fi-lo em três dias. Digo-lhe de início: “AHLOM ALEICHEM!”. O livro consegue “puxar-nos” para o ALTO dentro de uma textura bem tecida, com observações tácteis, visuais, sonoras, psicológicas, até atingir o clímax com uma “cacetada” na cabeça. Daí ficamos meio-barro-meio-tijolo até fechar a capa. Mensagem de Fé muito Feliz. Psicologicamente foi LIBERTAÇÃO!

Wanda
08/03/1977.



WILSON CASTELO BRANCO – Escritor – Redator do Suplemento Literário do Minas Gerais – Belo Horizonte - MG

Lí ontem à noite, de uma assentada, “O Crime Perfeito”. A primeira impressão por mim recolhida é a de que o romance foi escrito a jato.
É o único reparo que tenho a fazer, pois a história está conduzida com movimento. Há um processo descritivo, uma coisa puxa a outra e leva a outra, num envolvimento típico do gênero policial. Os meus parabéns por ter se realizado num gênero tão pouco encontradiço em escritores brasileiros.
...Você me despertou para um aspecto de seu romance que me havia escapado: A Câmera Cinematográfica revelando para o assistente aquilo que os protagonistas não podiam ver. A multifacetação da verdade. Tem razão: cada um, de seu ângulo, propõe, analisa e resolve o problema. Até que surge o exato deslinde, eliminando a problemática, inerente ao julgamento... Pois cada participante viu o crime a seu modo...

Wilson
09/07/76.




PAULO CÉSAR GARCIA Turma do Bicho de Pé – Cristais Paulista-SP

Lí o “Crime Perfeito”. Numa noite, lá pelas duas da madruga, o Vardá comentou sobre o livro e mo indicou. Levei-o para casa e comecer a ler às 2,30. Terminei às 6,30. Não fui capaz de parar, aliás, nem pensei nisso. Nem sono houve. Gostei imensamente do livro como um todo. O seu livro á uma denúncia contundente. Vibrante. Um alerta. Perigosamente real. Aí reside seu principal mérito. É um livro que ao ser lido é meditado... O crescendo das emoções é terrível... O seu livro é mundial, tenho certeza... Faz-nos perceber, uma vez mais, e entristecer por isso, a pequenez do homem diante das forças que ele criou para sua proteção... O livro não é de suspense. O suspense reside na própria história (ou estória?). Os diálogos são excelentes, os personagens são vivos, presentes. As descrições, quando não subentendidas, são precisas. O livro é um alerta. É muito mais que um romance, muito mais que um Agatha Christie... Entre cada palavra, tudo o mais é imaginação... E nada mais real que a imaginação fértil.
Paulo César
31/01/78



SÔNIA MARIA SOARES ROCHA – Escritora - Niterói-RJ

Li o seu trabalho “O Crime Perfeito”. Achei-o mais reportagem que romance. Reportagem por você ter pretendido contar a tragédia exatamente como aconteceu. Tenho a impressão de que foram mudados apenas os nomes dos personagens. A literalidade dos fatos faz o leitor sofrer à medida que a narrativa vai se desenrolando. Dou-lhe os Parabéns por ter atingido tão bem o seu objetivo que, tenho certeza, foi gritar para o mundo, foi dizer àqueles que ainda não perceberam, que até aqui o homem não deixou de ser selvagem, que os seres humanos são capazes de matar pela inveja (Brojes Haller quase foi morto pela polícia!). Acredito, inclusive, que no seu íntimo você não quis faze de “O Crime Perfeito” uma obra opaca, obscura. Penso que, propositadamente, procurou narrar os fatos e forma bem transparente. Por isso senti e vivi como que de perto o sofrimento da personagem central (Brojes)... A linguagem usada é bem denotada, concreta, objetiva. O diálogo é direto. A força de seu conto (se é que posso assim chamá-lo) se dá  pelo jogo narrativo que tem o privilégio de prender o interesse do leitor. Em síntese, o seu trabalho mostra-nos a Realidade do Real, a realidade concreta, desnuda, nascendo daí a verossimilhança dele com a vida. O ritmo da narração é tão marcante, acelerado, que nos leva a correr, ansiar, a desejar juntamente com o narrador, que a narrativa termine...
Sônia Maria
03/05/1977                                     


TELKER OSLEN NARCO – Escritor-crítico literário  – Hungria – 27-05-78

Feita uma análise do texto, concluo que o epicentro do livro é o CRIME em si, por isso o Autor dispensou análises psicológicas mais profundas dos personagens. Apenas explorou um pouco o personagem ancião-morto sob este prisma. Nota-se que o crime é visto de vários ângulos:  pelo narrador Brojes, pela mulher dele, Anicla, pela polícia, pela imprensa, pelo povo e pelo criminoso, e sob cada ângulo, apesar de ser apenas um crime,  é visto de um jeito diferente! Assim, o crime perfeito que dá nome à obra é múltiplo, desdobrando-se:  no crime propriamente dito, o duplo assassinato da estória, descoberto graças à entrega voluntária do assassino – sem o que não teria sido desvendado e permaneceria insolúvel; em seguida no crime da polícia em tratar o suspeito Brojes da forma como revelada na obra,  e,  por último,  no crime da imprensa  marrom representada pelo jornal “O inimigo” que,  para embasar sua hipótese inicial e continuar vendendo jornal, não hesitou em destruir,  pela tendenciosidade ao abordar o caso, a vida de uma pessoa da comunidade, sem que fosse penalizada por isso...
 Telker Oslen Narco
27-05-78


DOM BELCHIOR NETO – Bispo Católico – Escritor – Luz-MG.

Olhe, Oscar: já comecei a ler o livro “O Crime Perfeito”. MARAVILHOSO! Seu estilo é vivo, natural e atraente. Estou preso ao caso das duas mortes: Adorasterra Derrapina e Camélia Zum. Dou-lhe os parabéns. Vá em frente! (Luz-MG, 30-05-82)

O livro “O Crime Perfeito” continua aqui, a meu lado, como livro de cabeceira. Ótimo! Continue a desenvolver o talento que N.S. lhe deu! P.S. Aguardo, ansioso, o seu livro de contos. (Luz-MG, 11-08-82)

Dom Belchior Neto
1982.

                  





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