terça-feira, 14 de julho de 2015

O OUTRO LADO DE COIVARAS - O MUNDO








oscar  kellner  neto



o outro lado
de coivaras: o mundo



contos



2ª edição
 revista e aumentada




Delfinópolis - MG
- 1983 / 2013 -

Notas necessárias:

- A primeira edição deste livro saiu pela Editora Pirata, de Recife-PE, em 1983, em porte humilde, como resultado do esforço de amigos como Maria de Lourdes Hortas, Jaci Bezerra e outros “piratas”, malhando em mutirão.

- Já ampliado, porém sem fortuna crítica, o livro saiu com o nome de O JUIZ E OUTROS CONTOS, pela Editora Clube de Autores, de São Paulo, em 2009.

- Para resgate da publicação original, utilizamos aqui a mesma Capa criada pela turma de Recife, para a primeira edição do livro.

- Foram tantas as cartas de estímulo recebidas quando da publicação da primeira edição, que nos sentimos no dever de incluí-las nesta nova edição, pois tiveram papel fundamental para o desenvolvimento do trabalho literário que se seguiu.


- COIVARAS-CIDADE-EXISTE: em 2006 descobri que existe uma cidade com o nome de Coivaras, no Piauí:

“Coivaras fica a 70 km da capital do Piauí, entre Campo Maior, Altos e Alto Longá. Coivaras é uma cidade pequena, tem uma população muito acolhedora, Ah!Tem uma praça linda, a terceira mas bonita do Piauí e a sexta do Brasil. Depois coloco umas fotos daqui, p/ vc conhecer um pouco mais.”
GIRLENE DE COIVARAS – em um e-mail de 31/03/2006

















para

Maria Alcina

o grande amor da

minha vida

sumário & manchetes


projeto da obra – (auto-prefácio)  –  9

texto do autor sobre seu fazer literário –  17

depoimento do autor sobre a “obra” kellneriana –  20


os contos

a  origem  - 28
onde fica claro que as notações léxicas também são, em parte, acentos gráficos

o  agouro - 31
do relaxamento geral das estações no campo específico do espaço etéreo

o  legado - 34
sobre um estranho diálogo no alto do tempo

o  nome - 36
da imensa incógnita que se origina de um quadrúpede voando

o  personagem - 39
da primeira aparição daquele velho muito estranho

a  fábula - 42
onde se nota duas nuvens de médio porte se afastarem às pressas da Terra


o  espetáculo - 45
onde se manifestam um escafandrista, uma rua esburacada e um ventríloquo

a  piada - 48
e a balsa voltou à tona, numa posição ridícula, como se nada tivesse acontecido

a  missão - 51
sobre seres biônicos e cabos de aço suficientemente camuflados

o  ataque – 57
no redemoinho maluco as bruxas chegam, e Coivaras desperta ao coro dos  bezerros famintos

o  circo - 65
do primeiro grande caso comprovado duma útil e capetosa aparição

o  invento - 70
da nova aparição daquele velho estranho

a  amizade - 73
que dúvidas sempre existirão numa relação amorosa entre um baca­lhau e um pastel

o  presente - 77
o canivete chinês era a peça mais rara de sua coleção

a  praga - 81
foi naquela madrugada chuvosa, esmaecida pelo musgo do tempo, que tudo aconteceu...

a  prisão - 85
da aparição de Dulico, cego e poeta, o rei do riso

a  mina - 88
daquela descoberta fenomenal do vastíssimo veio de urânio

o  saco - 91
dum príncipe anão e seu saco de surpresas - borboletas e vagalumes anexos

o  sobrevivente - 95
incidência primeira da famosa epidemia do sumiço - cronometre-se


a análise - 99
onde um abajur lilás analisa as reações dum velho de 500 anos e Janaína completa sua milésima estupefação

o herói - 107
onde se instruem os leitores nas artes erótico-marciais

a viagem - 112
sobre uma viagem de recreio que nenhum leitor absorto deve deixar de fazer

o canivete - 133
várias considerações  compiladas ao sabor do Zéfiro e a critério de Bóbi, um cachorro metafísico

a delação - 147
de como, em Coivaras, um caso de polícia dá assunto para uma estória de primeira, apesar de tudo quase ter ficado na estaca oito

a carta - 159
um passeio sem compromisso, onde se assiste, verbi gratia, Astor Piazolla esfaquear Carlos Gardel no além-túmulo

o juiz - 168
onde surge um terceiro velho, com a nítida figura dum Quaker renascido duma lata de aveia

o preço - 173
vida e morte dum fantoche sob a ótica dum bonequeiro de arraial; em anexo, pererecas, sapos, rãs e familiares, com suas línguas de mola

a placa - 177
aprendendo a buscar a água da saúde nas lágrimas dum gigantinho; veja-se o sol desabrochar numa visão proctológica

a rotina - 187
as primeiras dúvidas nos ensinam a buscar o mais horrendo dos livros

o epitáfio - 192
registro sensitivo-encantoso daquela marcha maravilhosa rumo ao Pico-do-Cão

biobibliografia - 240

fortuna crítica sobre a primeira edição, em fac-símiles –  245

fortuna crítica sobre a primeira edição, em textos – 252













O OUTRO LADO DE COIVARAS: O MUNDO
PROJETO DA OBRA
(AUTO-PREFÁCIO)

Quando se escolhe um caminho, uma rota, pra esse atingir o tesouro que é a vida (e tal busca é um mergulho no coração da verdade total), aparecem nele os homens, as coisas, as doutrinas, os livros, as luzes e os espinhos. Esse conjunto (não outro, de outro caminho que não o escolhido) deve ser conhecido cirurgicamente.
Não é essa realidade ambígua, não é este um proceder alienante. O que está por fora da rota escolhida nos chega por noticias de outros caminheiros. Aquele que busca algo importante  com toda a paixão (não só com a lógica fria e científica) conhece, de certo modo, todos os caminhos e todas as buscas. Uma experiência pessoal, nesse sentido, sendo profunda, permite um acesso a todas as experiências. Ou seja: mergulhar no próprio interior equivale mergulhar no interior de todos os homens.
 As verdades científicas oferecidas pelo cérebro, pela razão pura, não são o todo do homem. A ciência investiga apenas parte de verdade. Um teorema, por exemplo, demonstra uma verdade límpida, irrefutável, universal e válida para sempre. Mas essa verdade demonstrada é apenas parte da verdade total. A fórmula de um teorema, demonstrando uma exatidão ou verdade inconteste, não depende dos sentimentos ou das paixões: a ciência é fria e lógica. Há infinitos e obscuros fatos ou atributos do ser humano, que não têm nada a ver com essa verdade de um tal teorema onde a razão (o uso do racionalismo) é usada como instrumento supremo na demonstração de uma evidencia desintrincada.  A vida  é surrealista! O homem em sua existência carnal, sentimental, apaixonada, repleta de músculos, nervos, vísceras, glândulas, pele, ódios, guerras, simpatias, amores e angústias,independe das lógicas exatas. Há verdades existenciais que mais importam ao homem que as verdades científicas.
Assim como o apego a um conceito pré- estabelecido estagnatiza o homem, as soluções, as chaves para os problemas humanos dificilmente se encontram nos tratados filosóficos. Por mais geniais que esses sejam, são obras estritamente conceitualistas: tentam explicar (às vezes explicam – mas não resolvem) o problema existencial... Aí, a ficção faz o meio-termo! Ela não incorre na fuga nem se firma no pensamento puro. O ficcionista apóia-se tanto neste como no mundo dos sentidos em ebulição, no pensamento mágico. Reflete a vida, surrealisticamente. Revela  a totalidade da experiência humana. E os personagens da ficção, assim, não são apenas esguias abstrações: são seres, homens, objetos. Desiguais, concretos e mágicos.
 Numa tentativa de aplicação de princípios análogos aos de Ernesto Sábato, tenho a grande oportunidade de construir-evidenciando, em Coivaras, uma supra-realidade, uma realidade fantástica, mágica, mais rica, sã e profunda do que aquela do homem universal e abstrato que nos foi legada pelo pensamento da civilização ocidental. (Muitos querem Coivaras como “reino” e me chamam de “rei”. Não os proíbo... Se não for rei de meus próprios pensamentos de que serei então?)
Coivaras quer diferir no tempo, no espaço, na moral e no Homem, de todo conceito de civilização robotizada, estereotipada. É um mundo diferente dessa espantosa selva de massa desumanizada. Em Coivaras o homem foge à coisificação, sem apelos às ciências: apenasmente e mais (pelo nascimento de nova mentalidade – oposta ou harmônica com os conceitos humanistas –  todavia extrapolando os sentimentos e atos mágicos) como cópia da vida e a própria vida, em sua essência. (Lógico: existem os parâmetros!) Coivaras não é apenas um retrato (ou pior, um esboço) das situações-limites e lugares geográficos onde me situo presentemente. Coivaras, de há muito, paira -invisível- sobre o lugar denominado Delfinópolis, no Estado de Minas Gerais. Navega, ao sabor dos ventos, no éter envolvente de um município nada espantoso: rotínico, mineiro, parado. Coivaras, obrigatoriamente, está ancorada (através de minha máquina de escrever) a tal lugar pacato. (Se bem que rico em material contável-dialético). Não confundir, portanto: a distância é incomensurável...
Coivaras é um povoado-arraial-município de raças distintas, sem nome, que gravitam no nada como se fosse o experimento e o fermento de um Homem real, aguardando o “Fiat!”.
Coivaras foge às normas políticas, matemáticas e cientificas pela maneira de existir: absurdamente. Assim, portanto, Coivaras não é tão apenas absurda, surreal: se retratada, existe. Pelo menos e no mínimo, em meu mundo ficcional (o que importa, nada mais!).
Coivaras poderá, ou não, parir um novo Homem. Depende de quem a ler e viver, eis que a ficção como qualquer ato pode ou não desencadear reações... Busco isso e disso faço a razão de ser  de Coivaras.
Lá, o crime e o terror não são objetivos a atingir nem meios para. Temperos, diria, na impossibilidade de maior delação. Coivaras será – eternamente - uma comunidade em construção, onde não se empregam os meios massacrantes que  arrasam, objetivando uma sociedade abstrata. Os vários aspectos filosóficos (!) e psicológicos, discrepantes ou não, os sonhos, os fantasmas, visarão todos, em Coivaras, à unificação, à restauração de uma sociedade onde os homens sejam mais que peças de uma máquina, sejam homens-com-nomes.
Coivaras é minúscula. Coivaras é imensa... Sofrerá constantes apocalipses, ressurgirá das próprias cinzas, sobreviverá aos inúmeros dilúvios, sempre anjo, sempre demônio... Não se encontra a sua longitude ou a sua latitude em mapas ou cartas geográficas convencionais. Nem consta de História Alguma. Não tem pesos nem medidas. Coivaras é idéia: por isso existe!
 Em Coivaras, o individuo é respeitado em suas taras e inocências. Será atingido e redimido todo homem: seja ele um apelido ou um nome com DR. Antes... Lá se preserva o espiritual, em detrimento de uma Ordem que deificou o material. Coivaras não pertence a sistemas falidos. Não representa apenas fruto conseguido. Antes: meta a atingir. O tesouro Procurado. Nas situações encontradas, o mapa, a rota.
Mário Palmério divisou-a de longe, por baixo, em seu Chapadão do Bugre e pensou tê-la encontrado em sua Vila dos Confins. Ledo engano, Mário... Esticasse um pouco mais a vista interior –pra cima-, além da serra e lá a encontraria: refulgente e beneplácida...
Guimarães, sem sonhar com ela, pressentiu-a por todo o Grande Sertão. Nas Veredas, ela lhe aparecia em forma de sonhos e propiciava-lhe neologismos...
Existe, em Coivaras, independente da gente que a irá procurar, uma argamassa e umas pedras esparsas para que se construa uma comunidade estruturada sobre a noção do bem-comum. Em Coivaras a argila é fresca e não existem moldes. O homem poderá ser modelado manualmente ou com o poder da mente. A questão é chegar lá. As fórmulas científicas ou os teoremas, a geometria ou a medicina nos mostrarão o caminho?  Nem pensar! Se não o encontrarmos com o que temos de mais nosso em nós, com nossas próprias emoções, jamais  – de outra forma – a atingiremos.
Ela e nela: seres livres e respeitáveis. Em seus erros e omissões... Prevalecerá o direito humano- inalienável- em qualquer circunstância. Os personagens humanizados terão todo direito inerente à nova caracterização. Coivaras vale a pena - como sociedade - à medida em que respeita a pessoa humana. Lá os homens têm o princípio sagrado de direito individual e a consequente responsabilidade por seus atos. Coivaras não é socialista nem capitalista: - sem fórmulas. Existe porque alguém necessita que exista. Não um deus. Eu! Sem outras preocupações mais que fazê-la existir, como objetivo. (Talvez lá, para variar, encontremos a Fome e uma Água nem sempre potável... O que fazer nessa contingência? Não sei!)
Coivaras, após atingida seguirá seu idealizador? Quem saberá dizer?  A autonomia está programada, para após a conquista...
Sei que Coivaras me é a opção única que permite superar a oposição medonha - trágica mesmo - entre o capitalismo e o comunismo. (Ela será cooperativista?)
Sendo literatura, Coivaras é meu reflexo e, posto que ficção, é engajada com a Humanidade e não com políticas, opiniões ou correntes partidárias...
Em Coivaras o homem é dignificado até na humilhação e na morte. É libertado em todos os sentidos, de todas as prisões, através de todos os instrumentos e ferramentas...
A arte é instrumento. Poderoso. Uma arma. Para uma idéia, minha arma é a caneta e a máquina de bater os contos. Os projéteis, as palavras. Sei que assim deve ser e basta! Com diria Fernando Pessoa: ”e deve estar certo porque o penso sem fazer força alguma!”...
 Não posso abandonar a busca de Coivaras,( minha condição e meu cargo de guia e batedor nessa caravana da vida,)  em nome de nenhum interesse, nem mesmo em face de uma mortal ameaça. Não faz sentido renunciar-se ao que se mais valioso a gente possui em nome mesmo da “salvação” do Homem”. Quem se cala nessa conjetura é um covarde e um canalha: coisa que não assenta bem em um pretenso escritor visando à glória e à fama...
 A trilha é sombria, já me avisa minha “especial” premonição. (Certos calos internos, subcutâneos, acostumados a pancadarias & torturação...)
Mas não admito retrocessos. É iniciar e seguir. Não há retorno... Não há volta...
Coivaras é miragem concreta, sem ambiguidade. Mesclo-me entre os seus habitantes, procurando propor enigmas, descobrindo o fantástico onde aquelas apenas vêem a rotina e pouco mais...
Do homem faz parte seu sonho. Sua utopia. Seu mito.
Devo aperfeiçoar meu instrumento bélico: a ficção. Devo dar testemunho dessa dramática experiência  humana: a vida!
Ao expressar a condição única  para minha realidade emocional, como literatura, COIVARAS é meu tesouro, é minha Meta...
No fim da Obra mesmo que termine como alguém espera, Coivaras terá apenas iniciado seu existir.
É bom que seja lido desarmadamente: a resposta do homem no mundo da técnica não se encaixa em Coivaras como elo: o espiritual desmoronado, a angústia e o desespero são apenas ingredientes...
Em Coivaras a ecologia é inerente as ser. A vida se preserva com naturalidade.
Em Coivaras, o Cosmos não arrotou sua resposta À estupidez dos tecnocratas.
Enfim, Coivaras, a possibilidade...


                                                                        Oscar Kellner Neto

TEXTO DO AUTOR RETIRADO DE UMA CARTA ENVIADA A KÁTIA BENTO, EM 1981, FALANDO SOBRE SEU FAZER LITERÁRIO...

“VIDA E OBRA- taí o nó! Suas digressões sobre o assunto são salutares!
Oh, como gostaria! mas não consigo, permanecer em Coivaras... Sabe por quê?  É que primeiro vem a Vida,depois a Obra: é isso aí! Como você disse. A escrita, maninha, é realmente um atalho para nossa paz. A gente de fato escreve, troca contatos literários, se esforça, coisa e tal, mas não é isso o que  importa no real e no fundo, como a coisa por si própria, antes porque nos aproxima e nos permite a mútua ajuda na conquista individual e gratificante que nos leva à mansidão...
Eu lhe digo: em minhas criações, em primeiro lugar, recolho material folclórico em abundância, através de variadas fontes. Depois observo a vida que desejo retratar. Apaixono-me pela coisa, por seu nome, seus traços, suas características e entro em sua psicologia. Aí invento meu próprio Código para transmitir essa matriz, exprimindo-a reinventada...
Você sabe: a invenção deve transformar os objetos catalogados, as coisas documentadas, a vida enfocada, a psicologia normal, em significados Universais, através do escamoteamento das matrizes iniciais, fazendo-as exprimir os grandes lugares-comuns, aqueles indispensáveis e eternos elementos da ARTE: Dor, Amor, Júbilo e Morte...
(Em Coivaras tento arrastar para a órbita desses elementos a narrativa, demonstrando que o pitoresco é somente um acessório e que no fundo, no reverso e na verdade, Coivaras é o Mundo!)
Sei: vai uma distância enorme entre o Poema e a Ficção, após concluídos os textos... Mas, na concepção e em sua geração, ambos vêm da mesma vontade que temos de ultrapassar nossa condição... Fugir do aniquilamento... 
Ah! menina amiga irmã: minha vida é um romance de estória fabulosas que ainda não contei pra ninguém. Primeiro minha expressividade deve ultrapassar as convenções estilísticas.
Quero que no futuro, ao coivarar, meu leitor (ao menos um!) esqueça suas ligações com o real, para penetrar na atmosfera disjuntiva onde se cruzam o mágico & e lógico, o lendário &  e o real, o aparente & o oculto, o dado & o suposto... Só assim ele poderá sondar o debate que  proponho sobre a conduta da vida e os valores que a escoltam... (Quando esse leitor me ler, quero que minhas fantasias o devolvam sempre enriquecido à realidade do cotidiano, que é onde realmente se escrevem as linhas do Bem e do Mal do livro de cada um!) Assim tento fazer, na literatura, a lenda simbolizar a vida, para reconduzir o leitor dos mitos, aos fatos...
Todo escritor com pretensões sérias tenta explorar isso aí, Kátia. O problema é COMO explorar, pois em literatura o importante é a maneira escolhida para abordá-lo, (assim como na vida o é o modo de vivê-la!). Creio que você já aprendeu a trilha que conduz a essa decifração! Quanto a mim, inda tateio, careço ainda daquela absoluta confiança na capacidade de inventar, pois sou inédito ...
Sei de muita coisa, sabemos de muitas coisas... Mas não é ainda o suficiente. Procuro o atalho. Sei que para um criador, o Mundo e o Homem são poços de infinitas possibilidades e que deve haver criação na Linguagem, na Composição, na Psicologia, no Tema, enfim em Tudo.
O autor será tanto mais original – e por isso tanto mais gratificante-a-si-mesmo-trilhando-uma- senda- única, - quanto mais fundo descer na pesquisa, trazendo, na Volta, Homem e Mundo diferentes, formados de elementos que ele modificou a partir dos modelos reais. Só assim eu posso criar o Meu Mundo, o Meu Homem, mais explícitos que os da observação comum, porque feitos por fragmentos que permitem chegar a uma realidade – fictícia mais convincente e significativa...”

ANTIGO DEPOIMENTO DO AUTOR SOBRE A “OBRA” KELLNERIANA, EM CARTA ENVIADA A JOSÉ VALDAIR COSTA RIOS, TAMBÉM CONHECIDO POR “DOM VARDAH”, SAGRADO DESDE SEMPRE EMBAIXADOR DO REINO DE COIVARAS JUNTO À COLÔNIA DO BICHO-DE-PÉ, E DETENTOR DA PROMESSA DE UM CARGO DE PRIMEIRO MINISTRO EM UM REINO FUTURO.

“Premier! Vivo uma obra que, sei, vos suscita perplexidades; quer diante do hermetismo metafórico dos contos, repletos de símbolos falo- heráldicos, cujo núcleo  imagético tento manter coeso- posto que ao nível do  onírico -, quer pela carga emotiva do louvor ao Reino – (Coivarismo insubmisso? -) traduzido nas loas endereçadas ao Eu-Rei (El- Rey)...
 Já não chamaria perplexidade à vossa surpresa  ao sentirdes, no eco da síntese  de meu fazer contátil, meu pensamento messiânico  aliando-se numa crença reinol, ao paganismo, ao lendaísmo (d.vardá) e ao misticismo esotérico. Sei que achais deveras curiosa a realização (ride! ride!) ou (raid?) desta síntese harmônica de tendências tão díspares do pensamento kellneriano: o fato é que esse equilíbrio que (parece) evita o misticismo sectarista, possibilita a adequação de cada procedimento filosófico meu (meus personagens) a um papel especifico, dentro do conjunto nivelador.
Sabei: os componentes da mitologia proposta em Coivaras, interessam apenas enquanto ajudam a traçar o perfil multiforme (mas inconfundível) da nação coivarense. (The World, em síntese). Vos confesso: além de outros , dois recursos me possibilitam a manipulação ordenada (?) lógica e (su)+(o)bjetiva dos diversos estilos adotados. Primeiro: a rigorosa base da Realidade, que , sem me limitar a imaginação, me servem de âncora nos vôos mas altos, tão perigosos nesse campo fundamentalmente compromissado com minhas emoções. Embora submisso aos ditames estéticos, a objetividade dos fatos reais, centrada num período de exceção da vida nacional (-externa a Koivaras-) assegura o vinculo de meu pensamento doutrinário e místico com a Realidade concreta.
(Pausa: e.t. continua nevando em Coivaras! Aqui na Real Biblioteca, dentro desse ambiente enfumaçado, resfolega minha máquina de escrever!)
Segundo: a utilização da ironia como veículo de manifestação de uma consciência crítica e trágica, que dolorosamente contempla o reino vizinho (The Brazil) através de duas atitudes paradoxais: a fé e a descrença. Tal atitude me leva a manter-me com os pés fincados em terra, voltado para um mundo caótico e desintegrando-se, onde ninguém sabe quem realmente é. A ironia nivela o conjunto. Possibilita o lançamento de nova luz sobre a perspectiva confiante adotada para descrever “valorosos” feitos, culminando na inevitável denúncia tácita  do contraste entre o heroísmo passado e a inércia presente do Reino. Essa sutil ruptura do equilíbrio só encontra sentido devido ao cotejo com a rigidez esquemática que preside de obra em temas ou partes, onde reside o ponto nevrálgico da tensão programada.
 O núcleo de Coivaras está contido em cada ponto (conto) que são desdobramentos ou exemplificação das tendências e peculiaridades que foram expostas em nível conceitual no Projeto da Obra.
Enquanto tal “Projeto” caracteriza Coivaras  como SER, num plano mágico e místico, de tempo e espaços indefiníveis, já os contos correspondem ao instante em que o Reino se transforma em ato: alguns num passado concentrado em torno da infância e epopéias do Rei, outros numa amargurante experiência  do presente, outros mais numa projeção para o futuro, onde os destinos de Coivaras já estão traçados.
(Other pause: Neva muito, o frio racha meus lábios . Meus braços peludos estão cobertos de um gelo invisível! O  ar sibile fora do castelo, fustiga os estandartes do Reino. O diabo & o Abominável Homem das Neves, castigam o reino bendito! Meus pés, meio congelados, não mergulham em água há muitos dias. Cheiram mal. O chulé excita-me as frieiras. Já não  sei se me coço ou continuo escrevendo! Pelas janelas vejo os pinheiros vergados  sob o peso dos flocos alvíssimos. Sem caminhos, os atalhos são pistas ébrias. Tempestade sem par. De encontro às janelas aquecidas por dentro, os floquinho de neve vão se liquefazendo em lágrimas geladas... Recomeço.)
De qualquer forma, o ser e o vir-a-ser , são como que predeterminados por uma ordem supra-humana  de idéias, da qual os momentos grandiosos permitem participar e de que os períodos de decadência conduzem ao afastamento, concitação sutil à bravura  e à luta. Esta equação platônica visa situar no tempo o comportamento psicológico coivarense, tornando o Homo Coivarensis permanentemente voltado para o mundo transcendente, de onde emana a força vital, que move e delimita o Reino, conferindo-lhe um  Ser-em-si  único e intransferível. Como é este Ser, perguntaríeis? Apenas posso representá-lo heraldicamente...
Brasonar, como sabeis, segundo a heráldica, é a ação de pintar ou traduzir por palavras as partes do Escudo. Descrevo, na impossibilidade de vos mostrar ao vivo, a caracterização do Ser do Reino, um ser ambíguo, produto do casamento entre o Mistério e o Dever, entre o Mito e a Solidão, entre a predestinação dos desígnios divinos e a força do sacrifício humano.
Assim: O Reino, através dos “feitos” do Grande Rei, caminha na grande jornada através do Sonho (parte branca do escudo), empreendendo uma espécie de retorno às origens (cor do esperma) a um mundo perfeito (nenhum) para o qual nos move nossa ânsia de sublimação. Tenho comigo que tal potencialidade, (sugerida, inclusive, por nenhuma epígrafe!) concretiza-se de maneira admirável pelo menos uma vez – ao longo da história do Reino – durante o  período de alargamento do Império Coivarense, pelo desenvolvimento da literatura, quando todos os súditos se uniram nos mesmo sonhos, nos mesmo anseios de crescimento e elevação do Reino e da Raça, móbil da valentia a da vontade de “luta” que os possuiu, tema implícito de vários  contos da Obra-Vida. Observai, aqui, que o Rei se interessa muito mais pelo estado de espírito que o conduziu à busca das Colônias, congruente que é  com os objetivos socializantes da Obra, do que pelas conquistas propriamente ditas... Por esta razão, as referências históricas  são “concretas” apenas por existirem como literatura (in Fossapogeu) onde se denota o espírito da Obra, em que o Apogeu é já  principio de Decadência (assumida a Loucura Pacífica), ele é  o esgotamento da Dor que alimentou  e susteve o Sonho:  como o verso “Na vida o que vale é o sonho, mais vive quem mais sonhou e o sonho melhor da vida é sempre o que já passou.” Donde o momento perfeito é sempre anterior àquele em que Reina o Rei.
No plano mítico temos o Projeto da Obra (o Auto-Prefácio, com o brasão e tudo); no plano concreto temos o Fossapogeu (equilíbrio ) e os Outros Contos (desequilíbrio).
Concretiza-se o heroísmo transcendentalmente vislumbrado e a Fé e a Vontade ganham corpo, permitindo conferir que o céu é mais profundo do que  qualquer abismo. E deste ponto de vista, haveis de compreender a insistência obsessiva na imagem do Rei, presença marcante na maioria dos contos, símbolo da Loucura Quixotesca (!) por demais dependente do Acaso.
Na Obra, os anseios do Reino são racionalmente sustentados por cerrado sistema de indagações sub-reptícias. Ainda: o sertão é a grande metáfora do Reino: é o significante (sopro divino + vontade humana) de que o significado é o misterioso Ser-Coivaras ;
Através dos símbolos míticos procuro assegurar a permanência do Mistério Nacional de Coivaras.
Debruço-me no presente tão apenas a fim de nele captar e gravar na Obra os sinais daquela essência harmonicamente dual, que é impermeável à derrota. Se no Projeto da Obra houve a tese, e no Fossapogeu a antítese, o processo dialético se fecha nos “Outros Contos”, com a síntese.
Neles, rompe-se o equilíbrio que havia entre as partes, que sustentavam a dualidade do Ser Reino, pela sobrevivência tão apenas da pré-disponibilidade divina a que falta o contraponto da vontade humana.
São eles, os Outros Contos, a nota dissonante da confiança anteriormente depositada na Loucura-Texto do Fossapogeu, eis que através dele, apesar dos inúmeros avisos proféticos, paira dolorosa duvida no espírito do Escritor-e-Rei.
Se no Fossapogeu o lado negativo do Reino foi apenas sugerido, sem que isso deslustrasse o brilho de seu panegírico, a brusca mudança de atitudes dos Outros Contos surpreende não só  porque abrupta, mas também porque nova  relativamente à atmosfera anterior, de Sufoco e Ânsia.
Sim: o Agora é Coivaras, o Reino. Novo horizonte que se descortina. Temos aí o negativo daquelas fotografias que me enviaste, o verso e o reverso daquelas mesmas medalhas. É aí, metalinguisticamente denunciado o contraste irônico mais denso, pela comparação entre a Alienação e a Abulia da vontade presente.
A Pátria reinol é constantemente bombardeada em seus mais elevados valores (15mm.). O Reino é a contemplação dolorosa da inércia e da decadência circundantes, de onde ressuma vaga esperança, se procurada na Natureza.
Assim, Premier querido, a Obra acaba por revelar, muito mais que nojo pela baixeza passada, uma profunda mágoa pela miséria presente, indigna da Potencialidade da Nação, o que incita o contista a apelar a ninguém, por nada.”










E, como diria o poeta ensandecido:
-Eia, penacho, à esbórnia... Que venham as estórias...

a origem


Quando ele iniciou a música, todos caíram n'água. Durante 50 dias estiveram nadando em círculos. Ele os dirigia, ao piano, duma canoa a remo. No 51º dia, cessado o concerto, foram saindo lentamente do lago e se deitaram. Uns, na areia (e adormeceram pro­fundamente), outros, nas pedras. Outros, ainda, rolaram pela praia e se internaram nas matas. Todos ficaram aguardando suas ordens. Este, o 3º e último ensaio. Os treinos foram necessários: já não pereceriam, no caso dum naufrágio...
Como o dilúvio se aproximava, ele se dedicou com ardor ao término da Arca.
Quando o dia chegou e todos em­barcaram, ele notou que um passageiro não aparecera. O que sempre lhe dera trabalho, um animal lerdo e matreiro, ambicioso e possante: Urro.  Era um animal desconhecido quando surgiu nas cercanias da aldeia certa manhã, anos antes. Por achá-lo forte como um urso (UR) e por sua fala se assemelhar a um zurro (RO), ele o chamou  Urro. Com paciência o domesticou. Teve estima por ele. Escolheu-o e o incluiu na lista dos salvos. Não obstante, eis que, chegado o dia, o animal sumira! Por esta razão, já embarcados os utensílios domésticos e o piano de cauda, os familiares e todos os animais da lista, o dilúvio se atrasava! Após cansativas buscas, um corvo localizou o relapso e o entregou. Discutiram muito. Urro queria ser rei dos animais na Terra Pós-Dilúvio. Negado o cetro após diversas negociações, o irracional optou por ir nadando. Quando o velho lhe implorou ficasse, ele ventusiou três vezes e se distanciou do embarcadouro, a trote.
Já na Arca, o velho músico lamentou o erro de sua escolha: uma fêmea, a Mula, não continuaria a forte espécie. Não sabia ele, porém que, por via das dúvidas, às escondidas, e em sobreaviso, Urro já a engravidara há tempos... Como já estava embarcada, deixou-a ficar.
Abertas as torneiras, o temporal começou e as águas subiram. O Dilúvio, oficialmente, estava previsto para 40 dias. O velho, na Arca, executava e compunha números ao piano, não se esquecendo do estimado. Este, teimoso, nadava em diversos estilos olímpicos, safando-se dos perigos e acompanhando a embarcação, de longe. E chuva em riba!
No 38º dia, o incólume animal se alerdou: quis descansar, nadando de costas. A chuva penetrou-lhe as largas narinas, afogando-o.
No 39º dia, uma pombinha branca, trazendo no bico um ramo de oliveira ou de canela-de-ema (a confusão só mais tarde se desfaria), viu seu cadáver boiando. Como estivesse irreconhecível, ela dedicou-lhe a mínima atenção.
Mais um dia e a Arca encalhou no sopé duma grande Serra. A inundação da represa estava completa! Era noite. Um luar cúmplice trazia saudades à Mula. Duas nuvens de médio porte se formaram da névoa originária do hálito quente dos abrigados. Algumas ovelhas saltitavam à possibilidade duma relva nova. Alguns pássaros apaziguados distendiam as asas multicores. Sapos de diversas famílias suspiravam por brejos iluminados de estrelas esfareladas. Certa água de divagação repousaria num oceano negreiro. Formigas e abelhas planejavam colméias comuns, impossíveis: tudo ficaria depois no terreno das intenções. Algumas flores ansiavam por jardins exóticos, de grama aparada. Outras se contentavam imaginando ligeiros canteiros. Algumas mudas de manga ressonavam episódios perdidos, sugando pelas raízes tenras a terra original. As águas baixaram, conforme o prometido. O velho, que esperava reencontrar na chegada o amigo ingrato, com nada deparou.
Todos desembarcaram e se espalharam pela Terra nova. O velho, cumprida a missão, bebeu muito vinho. Reservou, para custeio de suas roças, a fêmea do amigo extinto. Quando Mula pariu rechonchudo filhote, demonstrando seu crime, o velho - com uma praga e um abrenúncio - esterilizou para sempre sua raça. Passado algum tempo, o iluminado macrobiótico, em homenagem ao desaparecido e pela descendência bestial (B) do pequenino muar, denominou-o Burro. E lhe compôs, ao piano, diversas sinfonias.
Diferente da maneira original, sua raça se multiplicou, habitando os mínimos rincões da atual Coivaras...

o agouro


                        Estabelecidos os contatos, a TV reúne certa família numa determinada sala esquecida do Tempo, em  Coivaras.
                        A noite então se paralisa, condensada em sofás e poltronas.  As classes gerais telespectam.  Visitas noturnas sumirrarearam-se...
                        Enquanto o aparelho blablableia, os instintos surdos se reencontram nas imagens perdidas e os sons mesclam-se nos olhos, penetrando os ouvidos perdidos de luz.
                        Na sala em penumbra, um a um, os espíritos telespectadores, esgueirando-se, como é próprio de seu estado, partem dos corpos tomados e invadem o vídeo.
                        Válvulas e tubos, bobinas e transístores, diodos e condensadores: tudo revolve-se, saído da inércia...  Forma-se num plug desesperado um ligeiro bate-papo: a televisão palpita, repleta de sílfides humanas, almas eletrônicas.
                        Os estados cristalizados das peças mudam-se, aguardando...  Sob labirintos sonoros há uma estranha esperança: a vinda de um teleteatro engajado, participante, vitorioso!
                        A essência dos móveis, cortinas e objetos da sala (junto aos espíritos dos seres) escoa pelas antenas de alumínio -com suavidade- mergulhando no éter.  Tais arbítrios libertos são soprados, então, por uma qualidade de zéfiro especial e flutuam pela noite que, penetrada em seu recôndito, torna-se gasosamente densa...
                        A multidão invisível, opaca e lépida segue numa direção (que apesar de vária, é uma apenas): demanda o topo do templo religioso. Mais precisamente: portais e forros do templo religioso de Coivaras, onde estão os Ninhos...
                        Ali, uma a uma, as andorinhas são fecundadas de escolha e seiva etéreas, durante os minutos de interesse entre os comerciais da tevê...  Como poucos parcos momentos são suficientes, nos intervalos publicitários do passeio voltam os espíritos conscientes. Mais robustos: eis que essas maratonas são como treinos de atletismo... Logo se reúnem nas caixas noveláceas (que novamente são retomadas em seu espanto) de onde, após desligados os aparelhos, retornam os espíritos às moradas de carne, madeira, tecido, plástico e ossos...  Aí há um relaxamento geral nas estações...
                        Após o relax total das emissoras começa a imperceptível influência...  Muito aquém e além de nossas consciências... De acordo com seu estado, o vídeo nelas se realiza.
                        Eis a razão das personalidades nervosas e neuróticas, individualidades parvas de som e imagem...
                        Durante a noite toda, leves, os pássaros bicolores (ativados em seu sono passageiro) ressonam regressos e liberdade, religiosamente...
                        As andorinhas, de madrugada, despertam.
                        Pela manhã, partem: buscam a proximidade das antenas...
                        Inauguram poleiros nas solitárias mãos metálicas desses aparelhos tão carentes de recepções humanas.

o legado


                        - Como era você quando moço, papai? Sinto-me confuso...  Nada sei acerca desse meu primeiro trabalho!
                        “Antes de tua vinda, meu filho, eu achava que as horas madrugais eram a sede da poesia, e vivia meu ofício nas horas mortas: gravava, nos sonos, minhas intenções. A mim não bastavam as horas do dia: essas doze horas -testemunhando atos e oferendas, risos e lágrimas, - em nada me envolviam...”
                        - Por quê?
                        “Não sei...  Parece que nelas faltava um certo espanto de primeira descoberta.”
                        - E agora?
                        “Hoje sei: no silêncio, as outras doze horas gravavam no coração da noite a promessa do teu advento.”
                        - E antes?
                        “A vida terminava para mim à meia-noite. A vida comum. Agora compreendo: no intervalo entre o dia e a noite (zero hora, mais exatamente), um suspiro mecânico (suave, inda que metálico) coloca, naquele segundo que morre, a vida em nossas horas noturnas.”
                        - Diga mais, papai. É tão emocionante vê-lo dizer essas coisas tão lindas!
                        “Hoje sei que a Meia-Noite não se compõe de badaladas frias como o vento que entra pelas frestas do vitrô... Elas são dores e sorrisos convertidos em som. Não uma dança lânguida de peças em pânico! São rosas de bronze em eflúvio de máquina, na oração dos Relógios, sincera e pouca.”
                        - Mas não são doze punhaladas no dia que finda?
                        “Não! Pelo contrário. Somente uma dúzia de ruídos em procissão abrindo o pórtico da madrugada...”
                        - Papai, donde vim, pra que existo, pra onde irei? Acabo um dia?
                        “Sabe, meu filho, hoje não mais pergunto pelas almas dos sonâmbulos nem pelos espíritos que vagam.  Aprendi que no ritmo madrugal de nossos pêndulos, a vida progressiva recria, à própria imagem e semelhança opções cambaleantes em nossos corações de rubi. Nesse vai-e-vem, fogem do tempo nossas obrigações e desesperos. Nascemos e morremos a cada minuto, literalmente. Contudo, ao chamado mudo dos ponteiros, retornam do espaço os fluídos da rotina e nossa vida continua... Deixei tudo bem claro, meu filho?”
                        - Sim, papai.
                        ”Então agora te pergunto, meu reloginho querido: doravante qual o teu ofício na madrugada?”
                        - Gravar num sono uma intenção, eis minha função nas horas mortas!!!
Disfarçando um sorriso de satisfação, voltou então a dormir o grande Relógio da torre da igreja Matriz de Coivaras...

o nome

                        Não queria acreditar naquilo que os seus olhos focalizavam: uma visão impossível. O pequeno animal se instalara desde a manhã nos galhos mais altos da paineira do quintal, informaram-lhe quando chegou.  E lá estava ele, encolhido, medroso como uma ave quando inicia o vôo.  Alvo como um floco de algodão.
                        Você abriu sua valise ao lado do leito onde delirava o jovem retireiro: ele, chamado Perseu, se ardia em febres desde o dia anterior, quando o potro nascera. Seus olhos doentes perscrutavam o teto sem forro do aposento, tentando penetrar as ignotas regiões dos próprios pesadelos.
                        Você lhe ministrou um antipirético. Auscultou-lhe completamente, tomou informes, mediu temperaturas, tomou pulso, tudo no regulado, escolarmente. O que comera? Algum tombo? Desmaiou?... Nada escapou ao exame que nada acusou: o paciente tivera uma saúde inabalável até assistir ao parto da égua pampa, na véspera.  Após o nascimento do filhote, caiu no transe...
                        Foram longas horas de vigília ao lado do enfermo. A multidão que velava o potro no poleiro ajudou-o a não cochilar.  O zumzum varou a madrugada, eis que ficara de pouso, aquilo tudo, conjuntamente, mexendo com seus nervos...
                        Manhã seguinte a febre cedera mas o peão permanecia no torpor. Bebeu um leite sem saber que o fazia. Falou um mínimo: gregamente... O potro arriscara um curto vôo logo ao nascer do sol e alojara-se agora sobre o teto do barracão, próximo à janela do quarto. Ficou por ali um pouco. Alçou mais um vooíco de alguns metros.  Logo depois se afastou e sob a admiração dos curiosos foi subindo até grandes ares, onde ficou urubumente descrevendo grandes círculos, já agora com suas belas asas totalmente recobertas de penas imaculadas.
                        Tornara-se impossível acompanhar o ritmo dos acontecimentos dentro dum raciocínio lógico. Além de tudo, o quadro mórbido apresentado pelo indivíduo era desconhecido.  A normalidade de suas batidas cardíacas e seu estado geral demonstravam a inexistência de qualquer tipo de moléstia enquadrada nos moldes da Medicina.
                        Ao meio-dia, o imponderável penetrara a mente de todos. A multidão movia os pescoços como que hipnotizada em direção ao firmamento, acompanhando as evoluções graciosas do pequeno eqüino voador.
                        Quando o doente se levantou e encaminhou-se para o terreiro fronteiriço à morada, ouviu-se um ruflar de asas e o potro pousou suavemente perto dele. Aquele homem já não estava doente! Os longos afagos que dedicou ao ser alado o curaram à vista de todos. Em seguida, dirigiu-se ao paiol, voltando com algumas espigas de milho. Com as mãos trêmulas de emoção, alimentou o cavalinho e este, diante dos olhos extasiados de todos, começou a crescer. Em poucos minutos atingiu as dimensões dum grande quadrúpede!
                        Visto de perto, o belíssimo garanhão parecia irreal. Logo atrás da tábua do pescoço, na região das omoplatas, surgiam os músculos fortíssimos, que sustentavam a enorme envergadura de suas asas mitológicas. A elegância do porte era realçada pela causa espessa e a longa crina formadas de fios prateados.
                        Depois que Perseu, sem se despedir de ninguém, galgou seu lombo macio, o cavalo alçou vôo e foi se elevando no espaço, em espirais suaves, até sumir de vista.
                        Quando retornava à sua clínica em Coivaras, donde você logo partiu para não mais voltar, lhe veio à idéia um único nome possível: Pégaso.

o personagem

                        O homem já comprara de outra vez, uma “queimada”: ilustrava o artista a devastação duma floresta pelo fogo.
                        A pintura certa manhã desapareceu. Apenas um chamuscado na moldura e cinzas no rodapé, indicaram-lhe que a “queimada” se consumara, em certa época, em outro espaço.
                        O realismo do quadro o encantou: o novo trabalho, alvo de suas atenções, mostrava um músico executando ao piano uma melodia de Palmares.
                        O porte do personagem o cativou. O estilo, as pinceladas miúdas e o brilho da composição pictórica eram extraordinários. O sapato sempre reluzente e as unhas bem cuidadas do pianista ressaltavam à vista.
                        O pano de fundo do palco, onde era instalado o piano, era dum lilás de mau gosto. Mas, posto que reformado, o piano de cauda era perfeito.    A música, o antiquário supunha audível, num segundo de silêncio total.
                        Os cabelos grisalhos do pianista pareciam despenteados na hora do instantâneo pictórico. Um candelabro de prata, numa extremidade do piano, produzia sombras perfeitas nas várias direções captadas pelo exímio pintor que, no canto inferior esquerdo do quadro, assinara Salles Dounner.
                        O homem ficava horas contemplando o velho do quadro na parede e este lhe parecia duma antigüidade diluviana.
                        À tardinha, os pentes da casa se agrupavam no sofá da sala, após o banho das poltronas e ficavam ali, mirando embevecidos os cabelos em desalinho do personagem.
                        O espanador do antiquário, toda manhã, tirava o pó do piano. Este, ao mais leve contato, despertava preguiçosamente, distendendo as cordas musicais.
                        Quando numa noite de inverno faltou energia elétrica em Coivaras, o dono da casa não se surpreendeu com a tênue claridade do vestíbulo: o candelabro da composição continuava iluminando em várias direções, incluindo os móveis da sala, a televisão turista, os abajures em desuso e os velhos cinzeiros de cristal.
                        Era cristalina a perfeição do quadro. As notas que tirava das velhas cordas soavam límpidas. Sobre o instrumento, as velas do candelabro da tela se consumiam, como em certas fogueiras determinados bonecos humanos se auto-destróem.
                        Terminado o número, o pianista levantou-se lentamente da banqueta aveludada, guardou suas músicas escritas em papiros, fechou o piano de cauda, ajeitou os cabelos e desceu da tela, apoiando-se na grossa moldura trabalhada.
                        Era o velho de uma solidão permanente, vinda de festas reais que não mais lhe importavam.  Tinha em si vários ideais sepultos, várias mensagens naufragadas e inúmeras arcas de incertezas.    O dono da casa, ao cumprimentá-lo, notou seu cansaço.
                        A posição em que foi pintado, deixara-o com os rins afetados e as mãos dormentes. Indicou-lhe um urologista da cidade vizinha, pois Coivaras não tinha médico.
                        Quando o velho ia saindo - tinha atingido seu tamanho normal - o homem desamarrotou seu fraque e entregou-lhe a cartola.
                        Depois, esgotada a parafina, o candelabro negou sua luz e a sala, rescendendo a submarinos, mergulhou na escuridão.
                        O dono da casa continua esperando seu retorno, como esperou durante muitos anos o retorno de seu capataz Perseu.  O piano de cauda, fechado, está empoeirado com seus remendos à vista. A silhueta branca do personagem ausente ficou delineada no feio lilás do pano de palco.
                        Na gaveta, o quadro desafinado permanece praticamente morto.

a fábula

            No princípio, a Treva compunha-se da Noite e da Sombra. Feitas da mesma substância opaca, ambas se revesavam no obscuro ofício... Uma vez criado o Sol, Sombra passou a existir somente à sua luz, dele se tornando natural, através do Dia.  Já a Noite, majestosa, diretamente natural do Sol, era absoluta durante a escura ausência do Astro-Rei num período de doze horas.
                        Noite era boa.  Tinha a essência da Vida, como o próprio Sol...  Às escondidas, devolvia um pouco da água retirada durante o Dia à Terra...  E sempre o Sol se intrigou com o orvalho encontrado pela manhã sobre a relva.
                        Sombra tinha por essência a ausência do Sol durante o Dia. Jamais chegou a majestade: ao Meio-Dia, quase não existia...  Devido a um estranho processo sombrífero de se chegar a conclusões, passou a odiar a Noite.  Não mais palestraram nos rápidos encontros forçados pelo Nascente e pelo Ocaso.
                        Sempre medíocre, Sombra desconhecia sua própria função Maior...  Ao se afastar do essencial, começou a perseguir os Dois Homens que existiam na Terra, os Objetos, as Plantas, os Animais e as Coisas, plagiando tudo o que existisse à luz do Sol...  Mesmo quando na Noite foi instalada a Lua, (isso como prêmio à sua mansidão!) a Sombra persistiu em seu propósito plagiador...  Neurótica, afastou dos corvos as suas fêmeas e as lançou no Espaço, onde permaneceram em órbita. Revoltadas, as aves negras começaram a dizimar as alvas aves do Dia.  Os urubus se ressentiam da falta de fêmeas. Atacavam de surpresa as ovelhas mais pacíficas, posto que brancas.  Duas nuvens de médio porte se afastaram às pressas da Terra, perseguidas pelos pretos pássaros.  Os frutos de certa árvore se entristeceram sem suas películas cotidianas...  E mais e mais as aves - feras se embruteciam...
                        Os urubus...  Quando sua revolta atingiu o Clímax, os refrigeradores futuros -em sinal de protesto- partiram como turistas para a região das Mangueiras...
                        Em certo poente, os corvos, insuflados pela Sombra, combateram o Sol morrendo; depois, sexualmente, se internaram na Escuridão. A partir daquela Hora, os Homens notaram a Noite povoada de pássaros ardentes, orgásticos.
                        Quando se fez na Escuridão uma Luz Artificial, (aqui começou a Era do Fogo) os pássaros lascivos, esgotados, voltaram para o Dia.
                        Sombra, artificialmente, voltou a existir nas Trevas, junto à violentada Noite, graças às labaredas habitantes das bocas das cavernas.  Ela estava psiquiatricamente curada pelo Grito Primal...
                        Findo o encanto, as aves espaciais, molhadas de estrelas, fugiram da órbita e retornaram a seus machos...  Fértil, a Noite permaneceu grávida em seu silêncio adúltero.
                        Os negros casais voadores, reorganizados, logo sexuaram, nidificando em seguida. Em pouco, os filhotes brotaram -que pimpolhos!- dentre as cascas dos ovos.  Aprendido o mistério do vôo, os filhos das etéreas fêmeas, por força do hábito, continuam a viver durante o dia voando em círculos no Espaço.  Também, cordatos, se dedicaram a limpar da Terra os resíduos das alvas aves e das ovelhas pacíficas e dos Homens esparramados.
                        Quanto aos venéreos filhos da Noite, hoje são incontáveis. Nela vivem com naturalidade; estimam-na pode-se dizer...  Prole sempre crescente, evitam o Dia, conquanto não aprenderam a amar a Luz do Sol. Para a procriação -somente para a procriação- os Morcegos buscam a Sombra...

(*) Colhida da tradição oral, na região de Coivaras.

o espetáculo

                        Quando nesta região os frutos apenas despontam, ainda insinuação, ainda essência, a mangueira Borbom se debruça ao solo com o seu peso.
                        Aí os namorados a procuram, buscando sombra madura ou pano pra mangas. A mangueira treme e seus frutos aumentam.
                        O tatu da horta escolhe um recanto de sua quietude e constrói a entrada de sua toca. Penetrada, a terra cresce. A árvore treme seus frutos aumentam.
                        Chegado a resina, certo leite escorre pelos galhos fálicos se infiltrando na crosta endurecida -grandes lábios intumescidos- do corpo-caule.
                        Marimbondos e abelhas sugam os canais repletos de néctar em flor.
                        Borbom se contorce e os frutos se agitam.
                        Os navios, os televisores, os refrigeradores, os boeings e outros eletrodomésticos, passeando pela região como turistas, chegam até aqui e apanham os frutos inda verdes. A mangueira treme e pelos talos cortados expele seu ódio de seiva.
                        Velhos cinzeiros de cristal abandonados, ao amanhecer são os primeiros a chegar: o orvalho escorre das folhas e os inunda da essência da noite.  A Borbom treme e chora pelos desamparados.  Os frutos bebem do sereno amanhecido e ela se acalma.
                        Alguns trechos do pomar estão em branco:         inexistem vegetais! Sabe-se apenas que sumiram da noite para o dia e que foram raptados e levados para Antares, um reino muito distante de Coivaras.
                        Antigos seriados de Flash Gordon são projetados, à noitinha numa nuvem que se aproxima, toda amabilidade: vem acompanhada de uma outra, de médio porte, para o caso duma tela panorâmica. As duas procuram algo perdido e se entregam nesse gesto de regresso.
                        Os frutos, ainda “divez”, encerrada a sessão, adormecem ressonando um próximo episódio...  A mangueira não treme: apenas suspira.
                        Um escafandro, ao meio-dia, mergulha entre suas raízes a limpá-las: eis que filtros de mangueira Borbom requerem todo cuidado...  Então, bolhas de terra estouram à tona, como nos terrenos sendo arados pela primeira vez.  O escafandrista, executada a missão, emerge dentre as folhas mortas, empoeirado de húmus. A Borbom, na vigésima limpeza, treme diferente e seus frutos principiam o amadurecimento.
                        A rua esburacada que vive ao lado, apenas nessa fase de amarelamento dos frutos se manifesta. E o colorido dos meninos do mundo chegando engalana o pomar.
                        Todos os fantoches queimados nos arraiais do mundo comparecem com seus ventríloquos a tiracolo e executam números de variado padrão. Centenas de floridos aplausos estouram a uma flauta adormecida em fá-menor.
                        Mulinhas sobreviventes comparecem à comemoração. Vêem-se, de mãos dadas, algum condenado e seu carrasco.  Castelos iluminados comparecem com seus fantasmas e armaduras, medievalmente.
                        Um pianista executa uma sinfonia de ausência e se despede apressado, como se o buscassem para comandar alguma Arca.  Refugia-se numa estrela escondida. Várias nebulosas, de calibre variado, assentam-se sobre os galinheiros vizinhos e iluminam a função.
                        Peixes futuros, humanos, anfibiogênicos, espreitam com sua visão biônica o espetáculo. A Borbom treme. Com leves flexões de caule e galhos (ajudada pela brisa da estação) agradece.  Nisso, alguns frutos, mais afoitos que maduros, precipitam ao solo e se oferecem aos presentes que os disputam em duelos de esgrima. A gorda árvore, com severidade, retém seus frutos maduros. Eles, sem experimentar a doçura da doação, sem atingir a preferência infantil, cobrem-se de sardas e apodrecem em pastoso pranto...
                        No deleite das bicadas, as aves engordam...
                        Acostumada às doações anuais que a deixam sem seus filhos-frutos, outra mangueira, delgada árvore cujas estrias do tronco (caminhos da meninada apanhar mangas) lembram as varizes dessas mulheres grávidas, sente, em seu mundo clorofílico, o caos social.  Não tem chances -sabe disso- e nada pode reclamar.  Apenas indaga às ciganas que periodicamente visitam o arraial porque nasceu mangueira comum...

a piada

                        A estrada poeirenta era interrompida bruscamente pelas águas da enorme represa. Uma balsa velha ligava o ponto interrompido com a estrada que seguia além, na margem oposta. A barca de chapas enferrujadas era o elo de ligação com o outro lado de Coivaras: o Mundo.
                        Naquela manhã, as águas do grande lago estavam particularmente calmas. O nascente, há algum tempo, ali completara sua função dentro do dia sem nuvens.  Céu azulíssimo. Azul nas montanhas ao longe...  Um sol preguiçoso se subdividia em milhares, nas águas levemente onduladas, buscando, em marés sucessivas, o barranco do embarcadouro.
                        Ancorada, a embarcação gingava imperceptivelmente ao sabor das pequenas ondas.  Espalhadas ao redor, algumas reses pastavam restos de capim verde-pálido e cascas das frutas ali vendidas nas horas vagas pelo Vatevino - poeta e repentista -  e  jogadas displicentemente pelo público usuário da balsa.
                        Dois enormes caminhões já...
                        (Mas, por que repassava essas coisas naquela hora, em que seu único interesse era salvar a própria vida, nadar pra longe, agarrado a um destroço?)
                        Após o baque surdo nos porões, quando fendeu o casco, um gemido gigante -como um soluço mal contido de quem bebeu uma pinga forte- estremeceu toda a superfície das águas. E veio o pânico geral: “Tá afundano!”
                        O barco fez água rápida e visivelmente.  Os objetos maiores foram lançados fora, como uma carga incômoda à barcaça.  Todos se agarravam às amuradas, mergulhando no redemoinho criado pela sucção dos veículos e animais imergindo...  Agarravam inutilmente a destroços que também afundavam...
                        Após libertar-se da carga que a fez submergir depressa, a balsa voltou à tona, numa posição ridícula, como se nada houvesse acontecido. Tendo uma parte feito água, duas divisões de segurança lhe fizeram flutuar a proa, ficando metade submersa, como um aicibérgui metálico.  Depois, tremia e afundava, tremia e afundava como uma baleia ferida...
                        Foram poucos os pedidos de socorros ouvidos.  A rapidez e a violência dos acontecimentos, a precipitação dos incautos, tudo serviu pra elevar consideravelmente o número de vítimas do naufrágio.  Também não havia salva-vidas a bordo.  Nada.  A balsa trabalhava em pêlo!
                        Semi-inconsciente, impotente diante da catástrofe, ele submergiu várias vezes, ingerindo água em demasia.  Enfim, conseguiu agarrar-se a um caixão que flutuava, com alças, onde segurou...
                        (Foi quando essas coisas começaram, como um pesadelo, rodopiar em sua cabeça...)  
                        Só ao chegar extenuado à praia de cascalhos, e após recobrar a lucidez, compreendeu tudo.  Em seguida, desmaiou sobre o ataúde vazio, sob os olhares parvos de duas vacas magérrimas... 
                        Em estado de choque, foi encontrado horas depois: vagava ao longo da praia, olhando e gesticulando, desesperado, em direção do naufrágio.  Foi o único!
                        ... Dois enormes caminhões já haviam embarcado quando chegou à margem e introduzia o carro na balsa.  Alguém conversou com ele sobre a falta de chuvas, preço ruim do gado, limpa de café, financiamento cortado, pouca garantia existente na travessia que iam empreender...  Outro, lembrou a morte do Lonca Pescador, ocorrida na noite anterior.  Inclusive um grupinho se aproximou e comentou-se a impossibilidade da execução de seu último desejo: Ser enterrado nas águas... (Foi aí que ele retrucou, pilheriando: “Pra Deus nada é impossível”.  Os outros: “Pois gostaríamos de ver um milagre desses!”).
                        A perua da funerária, trazendo a urna, chegou por último e embarcou. Deslocava-se de Coivaras para a cidade natal do Lonca, onde o corpo repousaria no jazigo da família.
                        A balsa fez-se ao largo e navegava tranqüilamente quando.

a missão

                        Viajavam três no grande automóvel. Seu destino -comum e secreto- parecia distanciar-se quanto mais andavam, tal era o estado dos caminhos que lhe davam acesso. O Cão, do alto de seu pico, os aguardava...
                        Quando adentraram o lugarejo, o sol já devia ter nascido, pois o dia se tornara claro, apesar das nuvens, bombachos sombrios, que alagavam a região com uma espessa tempestade.  Já haviam rodado centenas de quilômetros, desde o dia anterior, revezando-se na direção do veículo.
                        A carta de apresentação - codificada num estranho braille- estava bem guardada.  Quimera ou não, aquela seria outra grande oportunidade em suas carreiras de engenheiros eletrônicos.
                        Não pararam no povoado.  Na vigésima-sexta curva, assinalada pelo gigantesco jatobá, pararam.  Camuflada pela vegetação fustigada pela chuva, a ENTRADA.  Deixaram a estrada principal, embrenhando por um caminho mal cuidado que parecia desaparecer sob a ação das águas.  Após inúmeros atolamentos e solavancos chegaram às margens do grande Reservatório Fluvial.
                        Num pequeno barraco, o piloto da lancha os esperava.  Após examinar com os dedos a carta que exigira e lhe foi apresentada, fez uma reverência e se afastou. Uma alavanca disfarçada sob o assoalho encardido: um leve acionar.  Uma abertura principiou a levantar-se sob os narizes do trio de doutores.  O que se abriu no chão à sua frente era uma grande garagem, repleta de autos.  O próprio guia -após retirarem a bagagem- ali guardou seu automóvel.
                        Depois de fechar a garagem subterrânea, o robô perfeito, com um meneio de cabeça lhes indicou que o seguissem.  A chuva cessara...
                        Colocada toda a bagagem na embarcação, zarparam, deixando o embarcadouro para trás muito rapidamente.
                        Eram 7 horas e l8 minutos de um domingo pálido. E o Cão, do alto de -seu pico, os observava detentamente...
                        Haviam sido contatados, notificados e convidados, na sexta-feira e no mesmo dia começaram a arrumar os apetrechos...
                        Às 7 horas e 58 minutos desembarcavam na Ilha do Prazer.  O prostíbulo situava-se no município de Coivaras, que, aliás, fornecia a matéria-prima necessária ao seu funcionamento. 
                        (A ilhota, de uns 30 hectares, pertencera a uma dinastia de idiotas, antes de ir ter às mãos daquele médico ousado e aventureiro que modificou tudo...  Os campônios abecedados, antigos donos, jamais puderam usufruir da posse daquele pedaço de terra no meio da Represa. Os recursos e a mão-de-obra não permitiam maiores vôos...  Uma visita vez ou outra. 
                        A vítima do boi...  O afogado...  Isso não lhes saía do pensamento.  Temiam explorar aquela glebinha no meio das águas, a “ía”, devido à experiência de uma morte no costado norte da propriedade. A ilha,  também  porisso extremamente desvalorizada para fins agro-pecuários:  por sua localização e riscos no desfruto...)
                        Apenas um homem os veio receber.  Era uma cópia do piloto.  Aguardaram o Início-do-Dia, num banco colocado à esquerda do embarcadouro... Não repararam no longínquo par de olhos caninos que os seguia por onde quer que fossem...
                        Às 8 horas e 15 minutos, iniciou-se oficialmente o dia na ilha.  Foram levados ao Centro de Controle.  Ali reunido, o Conselho os aguardava.  Foram cientificados dos miseráveis pormenores, dos mínimos detalhes da rebelião ocorrida na antevéspera.  Dirigiram-se ao Centro de Processamento.  Lá, as garotas.  Todas atadas às paredes, através de correntes curtas, debatendo-se furiosamente.  Gritavam mudas imprecações, somente percebidas pelo esgar de seus olhos e movimentos dos lábios.  Lembravam bruxas desgrenhadas, ou a Louca Ivone, em seus dias de lua...
                        Começaram seu trabalho.  Examinaram lentamente uma por uma.  O problema geral: 1º) fusíveis queimados nos controles da sensualidade;  2º) Fios desgarrados na Zona de contração vaginal;  3º) Danos de pouca monta na região das placas de taras;  4º) Distúrbios nos diodos da compulsão da posse e 5º) Estranha influência lunar ou coisa parecida que influía na prosa, na feição e no comportamento acerebral das garotas...                 Operaram-nas pacientemente, trocando as peças danificadas e recolocando as minúsculas Caixas de Programação Sexo-Prostibular de volta nos lugares próprios, dentro de suas caixas cranianas.
                        Apenas um pequeno sinal -escondido por cabeleiras louras, pretas e ruivas,- atrás da orelha esquerda de cada uma, denunciava o seu trabalho: cicatrização imperceptível...
                        Entendendo pouco do que se passava, os turistas aguardavam ansiosamente a liberação das prostitutas Biônicas, para eles, inexplicavelmente recolhidas ao Centro.  (Jamais fora revelado o segredo de sua incansável disposição...  Muitos atribuíam seu inesgotável erotismo à paisagem ultra-afrodisíaca da ilha, ela mesmo, um desenho sugestivo, uma silhueta nitidamente sensual...)
                        Às l5 horas e 40 minutos, todas elas saíram: dóceis, encantadoras, em seus imaculados biquinis uniformizantes.  Foram avidamente sorvidas por um olhar impressentido e distante: do cimo de sua cadeia habitacional, o Cão as devorava mentalmente...
                        Após os acertos, perfurações de cartão, e mil outras burocracias irremediáveis, os três físicos -que o eram- deram por terminada sua segunda missão na ilha lacustre.  O paraíso de gozo e moedas mais camuflado da Nação Erótica!  Poucos privilegiados receberam a graça inefável de uma visita ao local.  Não havia fortuna que chegasse: lugar terminantemente asséptico, os convidados eram escolhidos a dedo.  Gente havia,  aguardando o “Chamado”,  numa fila de meses sem fim...
                        Às l9 horas e l8 minutos, longe do lugar, os três tomavam cerveja gelada num boteco de Coivaras, no roteiro de sua volta.  Nesse espaço de tempo, ficaram abrigados dos olhares fulminantes e imperceptíveis do Cão, gigantesco e invisível, no alto de seu pico...  Ficaram sabendo:  a rotina do lugar fora rompida por um motim havido na prisão local recém-inaugurada.  Notícia para a qual, aliás, dedicaram a mínima atenção.
                        Às l9 horas e 58 minutos, a chuva atrapalhava a visão da estrada. A água era tanta que o limpador do pára-brisas não executava seu trabalho satisfatoriamente.  Vez em quando, um relâmpago iluminava a silhueta dos montes à sua volta.
                        De repente, elas surgiram no meio da estrada, encharcadas até a alma.  A condução freou bruscamente, derrapou uns metros e parou atravessada.  Eram três: duas louras, uma morena.  Houve um uníssono de júbilo quando elas, respingando, entraram no cálido interior do veículo, equipado com ar condicionado, bar, telefone, tv-zinha e outros badulaques. Eram 20 horas e 15 minutos. A noite nem cheirou nem fedeu.
                        Após longas horas -sexualmente agradabilíssimas- em meio ao temporal, venceram a barreira natural da grande serra, leito daquelas estradas sem pavimentação, e transpuseram a barreira estadual.  Numa estrela, por sobre o chumbo das nuvens desaguando, dois olhos dotados de raios-x acompanhavam-nos, uma vez que haviam deixado, há muito, a silhueta do Pico Fatídico...
                        Logo depararam com o asfalto, entre risadas e chacotas, lambeções e carícias intermináveis.  Andaram alguns quilômetros mais. Então elas pediram parada.  Nada demais: fisiológicas necessidades...
                        Foi pararem e a orgia terminou: alegremente, sem lhes dar a mínima chance, as três avançaram sobre eles, tomaram a chave de ignição e os estrangularam com finíssimos cabos de aço.  Quando jogaram-nos para fora do auto, no acostamento, entre moitas de capim gordura, a estrela fulgurou de maneira singular...
                        Eles morreram tranqüilos: a ausência do sinal camuflado atrás das orelhas esquerdas das vedetes (que verificaram, não sendo bobos!) mostrava-lhes que nada havia saída errado naquela sua última missão.  Eram 3 horas e 40 minutos de segunda-feira.  Do alto de seu patamar, o Cão fechou os olhos e adormeceu. 
                        A polícia de Coivaras soube, apenas muito mais tarde, que as fugitivas do seu Presídio Feminino Estadual estavam motorizadas...

o ataque

                        “Você tem que se libertar...  Os amarrilhos vão sumir...  As coisas vão melhorar...  Você vai sarar se fizer isso...  É coisa espiritual...  É só quebrar, esmigalhar, atravessar o cacete, arrastar com ele! Não! Não pode encostar a mão, desfaz o conjuro! Primeiro uma, depois a outra: as duas, bruxecas de meia tijela.  Tudo antes de sair sol: feitiço só acaba num combate à noite...” - dissera-lhe a entidade.
                        Despertou com o frigir do óleo, pensando aglutinado: “já é quase hora.” Levantou-se envolvido no aroma saboroso dos bolinhos sendo fritos.  A noite toda o mesmo sonho: ele bom, aureolado, liberto, curado, macho de admirar, de mulher nenhuma botar defeito.
                        Já havia preparado tudo.  Deixaria seu povo, vizinhos: ia pra longe!                      Fez a mãe-senhora vir, tadinha, noite passada, pra pouso. “Medo de mim pruquê, mãe?” -bastou pra convencê-la.   “Sodade, solidão e fome, mãe!”                           Sabia que iriam levá-lo: fugiria antes! Soube das andanças da mãe, da procura às autoridades, do trato para levá-lo.  Silenciou e bebeu da companhia materna por longas horas: infantil e triste.  Dormiu cochilante no colo da velha, cabelos longamente alisados com as mãos que embalaram seus dias...  Sempre há uma descoberta em cada despedida...  A buchinha de roupa, travesseiro, cobertas, o documento, a enxada: tudo, na casinha lá na saída da cidade, onde dormiu dois dias antes.
                        Quando terminou de passar a limpo -largos minutos- suas lembranças, virou-se preguiçosamente, esticou as juntas.  Aí encostou no porrete, relou de leve, encostado no vão entre a cama e a parede, perto do travesseiro. Sentiu a segurança de sempre, como se ainda tivesse o punhal que roubaram. Havia jogado a foice na cacimba, quando deixou de trabalhar, -a conselho de benzedeiras- e guardou apenas o cabo, que podia sim.
                        Aí tudo escureceu num redemoinho maluco e as bruxas começaram a chegar: desgrenhadas, sujas, fedorentas, manchadas de sangue ruim, seco.  Desdentadas, fedidas, riam e debochavam.  Aterrorizavam-no.  Encolheu-se, diminuto, na cabeceira da cama.  Queriam levá-lo arrastado!  Caçoaram, punham língua, berravam, xingavam, cuspiam-lhe no rosto, e as imundícies proliferando...  Tentavam enforcá-lo, imitavam vozes conhecidas, ventríloquas! queriam levar sua pinta de nascença, puxavam seus pés, cabelos: davam choques como enguias.  Ao menor toque, a descarga o deixava semi-paralisado.  Aí, no último assomo da coragem, que cedia terreno ao pânico, pegou o porrete.  E saiu feito um possesso, vibrando-o na direção das desgraçadas! Sumiam e tornavam a surgir e, como fantasmas, eram atravessadas pelo pau que nem lhes encostava!  Aí, mais riram, e ele entrou definitivamente no desvario da loucura!
                        Foi quando choveu.  Pelos olhos dele choveu e coriscou.  Os relâmpagos, parecendo chibatadas, zurziram sobre ele.  Sentiu-se vergastado pelos anos que passaram feito raio pela memória: fustigaram-no a valer.  Foi contínuamente mortificado por moscas gigantescas.  Quando chegou ao cúmulo, os ornejos das sibilas se tornaram uma canção.  Os flagelos passaram a ferir as frestas do telhado e se perdiam, -relâmpagos- numa noite sem estrelas.
                        As águas subiam. Desabadas, no ardor de suas pálpebras, as barragens do pranto. As águas escorriam, como uma chuva branca, qual uva manca caída em cachos: e o riacho inundou a choça.
                        As bruxas voltaram piores.  Aí ele as enfrentou a cacetadas, semi-afogado em suor e pânico.  Em meio à repugnância geral, sentia-se assaltado sem piedade.  Martelavam gongos invisíveis, ensurdecedores.
                        Logo começou a ver (ou sonhar?) coisas inopinadas.  Latas de marmelada, médiuns em transe, favos de mel, meadas de linhas, medalhas de santos, meias de náilon, meias pretas, mendigos felizes, fechaduras trancadas, feixes de lenha, estufas floridas, evangelhos rasgados e ...  feiticeiras! As ogras lançando sanguessugas, gusanos e lacraias multicoloridos e ofuscantes, junto a gemidos e urros apavorantes!  E elas reviravam seu quarto às avessas.
                        Foi saindo dali, empurrado por mãos invisíveis, agitando -possesso- os braços-garras.  Em seu caminho, uma das megeras!
                        Distraída, dera-lhe as costas, enquanto enfeitiçava milhões de larvas nojentas num caldeirão de azeite fervente.  Quando ela quis se voltar, foi tarde: o porrete já lhe atingia a cabeça.  Na surpresa, ainda quis se defender, usando imenso garfo maléfico e retorcido.  Não agüentou muito tempo.  Logo tombou, vítima de suas pauladas.  As outras desapareceram e tudo escureceu; então, como ela ainda se mexesse, ele galgou suas costas, acertou suas mãos-tentáculos, seu rosto máscara e perdeu a conta das porretadas que desferiu em uma cabaça ressecada, envolta em algas marinhas.  Sentiu-a quebrar-se. Dos súbitos olhos da planta, voavam nuvens de borboletas escarlates perseguidas por vermes nauseabundos, saltitantes.
                        Pelo ar, esguichado, um sangue-seiva cintilava de encontro às paredes de aço duma prisão prestes a desmoronar.
                        Pelas brechas da cabaça encipoada, sentiu uma absurda sucção atraindo a ponta rombuda de seu bastão encantado.  Deixou-o seguir seu curso, e colocou ajuda, atravessando-o pelas lascas da cabaça quebrada.
                        Um rio muito caudaloso, exuberante, nasceu vermelho e quente daquela massa de ex-bruxa massacrada.  Profusamente, uma sirena soava em suas idéias.  E o que era chuva virou um grito, que, escorrendo pelo chão, foi contar recados de horror às sargetas da cidade.
                        Quase sem fôlego, vestes dilaceradas, manchadas de amor & adeus, saiu dali cabisbaixo, rasteiro. Na idéia, um propósito: jamais voltar àquele antro de morte, bruxedo e azar.  Encolheu-se e  o mais que pôde em si mesmo.  Quando terminou de passar por baixo da porta, como uma carta, um envelope, percebeu, pros lados do nascente, as primeiras manchas dum dia que chegava...
                        Eis Coivaras despertando ao coro dos bezerros famintos...
                        Na rotina de suas manhãs, apenas uma novidade se destaca: o sol.
                        Cada alvorada é um hino pictórico!  O astro-rei não se contenta em apenas surgir, inaugurando nossos dias.   Faz questão de desfilar, a cada nascente, durante todo o ano, com uma coloração diferente.
                        Nesse dia nasceu roxo.  E logo foi tapado por uma multidão de nimbos curiosos.
                        Lentamente a notícia se espalhou, ganhando manchetes divergentes na difusão boca-a-boca em que veiculam as novas no povoado.
                        “Cê ficou sabendo?”   “Cê já sabe da mulher?  A que o filho matou!” “Foi de foice na goela!”  “Sabe da mulher?  Diz-se que foi matada com pau!”  “Quem matou?”  “Curúis, o fio dela?”  “Cortaram a cabeça duma mulher lá na Capoeira!”  “Separou do corpo!”  “O matante fugiu!”  “Cortaram e retalharam uma senhora lá no fim da rua!”  “Diz que foi o próprio filho?”  “Coisa horrorosa!”  “Já prenderam o criminoso?”  “Tá sabendo, ô meu?”  “Uma véia virou lenda, lá na Capoeira, diz que foi o filho, meio lelé, entende?”  “Onde fica a casa, tem coragem de ir lá?”  “É em frente ao Xing chinês.”  “Falam que inda tem miolo esparramado pra toda banda.”  Te contaram da muié que mataram lá na Capoeira?  Diz que foi um filho, meio-doido, que andava com a idéia leviana...  Cumé que pode, sô, matar a mãe daquele jeito?”  “Sabe da muié?” “Até os vizinhos tão com medo do moço voltá.”  “Ele tinha jurado ela e uma véia que mora em frente, sabia?”  “Quem falou?”  “A da frente!”  “Sabe da muié, lá da Capoeira?”  “Sei!”  “Mais: os vizinhos escutou ela gritar um tempão e não foram acudir!”  “Ele andava de idéia frouxa, feito munho faltando parafuso...  Não conversava quase mais...  Era maníaco.”  “Cê viu contar da muié da Capoeira?”  “Diz que um filho, mordido de cachorro doido, acabou ficando e matou a mãe!”  “Diz que é praga de puta!”  “A polícia já pegou o cara?”  “Sumiu ninguém sabe pra donde!”  Já veio notícia dele de toda banda:  Zé Coquim jura que viu lá pros lados do porto.”  “Será que num pegou a jardineira?”  “Que hora foi?”  “De madrugada, dizem.”  “A muié gritou muito, pedindo socorro e ninguém acudiu!”  “Diz que ela pedia pelamor-de-Deus, mas não adiantou.”  “Morava sozinha qüele!  O outro fio, que pede esmola nas fazenda não tava lá.  Num combinava com o que matou.”  “Qualquer dia pegava o coitado do pedinte.”  “Qualé?”  “O magricelinha, que anda sempre de paletó preto, um aposentado de bobeira!”  “Não, não foi esse que matou não!”  “Foi o Tóim, que trabalhava no Serviço de Todos.  Diz que mexendo com saravá, acabou endoidando...”  “Mas, porque ele atravessou o cabo da foice na cabeça da mãe, depois de esmigalhar de porretada?”  “Acharam a véia com o pau enfiado na cabeça, saindo uma ponta de cada lado!”  “Curuz Credo, Avêmaria!”...
                        Assim, a multidão dos informes crescia, avassaladora.  Alguns curiosos arriscam uma chegada até o local.  Várias pessoas vomitando ou cheirando limão pra não vomitar: elas viram!  Agora a entrada tá proibida.  Estão tirando retrato, do jeito que acharam.  Depois vão lavar, pro médico examinar direito e costurar...  Rodeando a casa, alguns chegam ao quintalzinho.  Porta da cozinha aberta: grandes manchas de sangue semi-talhado, meio absorvido pela terra batida...  Pra todo lado, facilmente identificáveis, placas de massa encefálica...  Estranho apelido pra miolo...  Aqui e ali, alguns fragmentos,  milhões de neurônios inutilizados.
                        Hoje se sabe: hemorragia  aguda também pode ser chamada de “nova pintura nas paredes descoradas de uma saleta miserável”...
                        Um flash espouca na penumbra, cegando os intrometidos.
                        A cena é horripilante: debruçada no degrauzinho da portinhola entre a cozinha e a saleta, o corpo inerte, afrontado, mutilado, martirizado... Os hematomas  são incontáveis: cortes e rasgos e rombos revelando uma carne em decomposição. Uma estranha, essa carcaça, entre os pensamentos desencontrados dos curiosos.  Nenhuma carpideira para a miséria ambiental..  Um como hino de malefício parece existir, imperceptível, pelo ar, como uma sinfonia macabra dum concerto de moscas ávidas e hematófagas...  Por um instante, pasmam as consciências, na omissão.  Há um momento de reflexão, uma parada no tempo.
                        Depois, um girar ininterrupto dos relógios.  Milhares de anos depois, cá ainda em Coivaras, uma Culpa se apresenta, corroída pelo Remorso, pronta a assumir seu Castigo.  Todas as serras, as grandes pedreiras, os vales escarpados haviam sido trilhados por seus pés errantes, em espaços e épocas remotas.  Não traja vestimenta.  Mal parece visível.  Um esqueleto que mal suporta a própria epiderme...  Teias de aranha na boca e demais orifícios em desuso, dizendo duma Pena Capital...  Nem as trevas aceitaram suas inúmeras tentativas de suicídio.   Quer se entregar, pagar pelo Crime!
                        Exausto, sentado numa sombra à beira do Tempo, aguarda.  Sonha com a mãe! Sonha-se nas grades, nas acalentadas correntes...  Sim, o filho da mãe, o terror de gerações,  o perseguido e jamais localizado, o fera, o encantado, sonhando-se nas grades.  E sorri, liberto do Peso.  Uma noite de sono, é o que pede!  Em troca, a própria vida!  Não precisa Juri, nem Juiz.  Que alguém o mate, ele pede.  Sonha-se numa prisão, sendo encontrado numa manhã, debaixo de vinte chaves.  A barra de ferro que atravessa seu crânio, não falta em nenhuma janela do sonho.   Não ouviu os próprios gritos.  As lâmpadas permaneceram acesas...  E o sonho segue:  definitivamente não encontra sangue...  Positivamente: ele está morto.  Um sorriso lhe foi devolvido.  Os dentes se ausentaram.  É um velho... 
                        Mas, quando desperta do breve cochilo, vê que tudo ainda vai começar...

o circo

                        Seus escritos tinham tendência de império.  John, um excêntrico: barbicha tipo bode, monóculo e gorro merdejado de azul e vermelho.
                        Freqüentava Magia Negra onde, cabalístico, seu espírito se “carregava” facilmente.
                        Adotara, há anos, o pseudônimo e o conservava como sinal de Boa Sorte...  Com suas crônicas de guerra e roteiros cinematográficos horripilantes, o escriba conseguira ser maldito e querido, a um só tempo.
                        Repentinamente, porém, seu nome se distanciou de todos os noticiários.  Seus livros foram sendo esquecidos nas prateleiras das livrarias: colocados em recônditos lugares os volumes recobriram-se de teias de aranha.  Seu nome se eclipsou das listas de best-sellers.
                        John recorreu a vários subterfúgios, em vão.  Numa sessão de magia vodu, encontrou-se com Satanás.  Trataram e confirmaram a troca fatal; a fama pela alma.  Um detalhe a seu favor: a fama viria imediatamente; quanto à alma, não havia prazo certo de entrega.
                        Recomeçou a escrevinhar horrores...  Novamente seu nome, em evidência, tornou-se o centro das notícias literárias.
                        Tudo fazia com as palavras.  Nelas trabalhava dia e noite.  Com o suceder dos dias foi se tornando mundialmente conhecido...  Milhares de livros escritos em tempo recorde.  Suspeitas não confirmadas de psicografia, etc e tal, projetavam-no cada vez mais.
                        Trabalhava dia e noite, literalmente.  Para alimentar-se, escrevia o nome do alimento desejado e logo o sentia no estômago, sendo digerido. Na hora do descanso obrigatório, bastava mencionar, por escrito, o tipo do sono e sonhos pretendidos e seus desejo era imediatamente cumprido: em um segundo, dormia e sonhava várias horas...  Assim, obtinha tempo integral para seus escritos.
                        Não notava a fome dos que tinham seus alimentos roubados nem as olheiras dos que tinham dormido em vão, sem descansar...
                        Foi uma correria nas Profundas quando começou a desejar os livros já escritos...  E no seu estilo!  (Não mais adorava escrever e sim contar dinheiro, foi sua explicação ao Demo, já possesso...)
                        Vendo o tiro saindo-lhe pelo cabo do tridente, este convocou todos os seus hóspedes escritores.  Mormente os viciados em clavículas e alcalóides decrescentes.  Por que?  Não se sabe até hoje...
                        John notou, certa ocasião, que Satã era duma ideologia duvidosa e proibida mesmo em certos países do mundo.  Usava como vestimenta u’a malha colante vermelha que tinha -na altura do peito- um emblema onde figuravam, em negro, uma foice cruzada com um martelinho de cabo curto, desses usados pelos ferreiros...  E como o notou!  Daí então começou a ensinar que lugar de comunista é no Inferno...
                        O escritor se acomodava na situação: dominante! Seus prêmios literários se acumulavam por antecipação.  Tudo o que escrevesse, se o desejasse, se materializava: homens, mulheres, riquezas, luxo, países: a seus pés.  (Com essa exigência esgotou-se a lista de possibilidades/desejantes que lhe cabia no sinistro contrato).
                        E John, com ironia sutil, gozava a cara do Capeta... (Este, pacientemente, esperava um deslize dele...)
                        O trato, agora, entre ambos, tornara-se uma questão diplomática.
                        Como acontece nesses casos de enriquecimento inexplicável, John mudou-se para o interior.  Mais exatamente: para o pequeno arraial de Coivaras que o acolheu como um hóspede pródigo...  Ele tornou-se um filantropo, adotando o sugestivo e afetuoso cognome  “Tio Sam”...  E suas fazendas se multiplicavam em américas...
                        O escriba não se saciava.  Quando teve tempo extra, lembrou-se de seu mais antigo e acalentado sonho infantil: mencionou por escrito-desejando “um circo de mulinhas brancas, ensinadas”.
                        Obteve imensa companhia circence de oitocentos muares (na época, a maior do mundo, em extensão e profundidade...)
                        Foi-lhe concedido o título de “Cidadão Coivarense”.
                        As autoridades - saturadas dos circos de tourada- ao seu lado assistiam as cotidianas funções, vendo aportarem as caravanas que afluíam de todas as cidades vizinhas e até de lugares remotos, como Macondo e Comala por exemplo.
                        Dessa forma, Coivaras conheceu dias inigualáveis de alta em sua balança de receita, graças ao incentivo dado ao seu turismo pela “Cia.” de Mister Tio Sam John.
                        Ao se aproximar o fim de certo espetáculo, um malvestido escritor nacional, autor de “Jeremias Pequeno Porte”, praticamente de ioga, acercando-se do dono do circo “Estults but United Artists” sugeriu-lhe incluir nas sessões (que já tendiam à monotonia) números com animais selvagens: seria maior a atração -maior o público- MAIOR a RENDA, etc, patati, patatá...
                        Apenas o usuário escreveu-desejando: “URSOS, TIGRES, LEÕES, PANTERAS NEGRAS, CAMELOS, KU-KLUX-KLANS, ELEFANTES E TUCANOS”, sentiu-se oprimido num grande vácuo...
                        “Porque camelos e tucanos?” - certamente me perguntarão...  Como saber?  São mistérios os desejos de um tolo!
                        Como John se esqueceu das respectivas jaulas no pedido, todos os seus bens desapareceram, confiscados por legiões de anjos negros e liunbeúngueres.  Suas mulinhas brancas se tornaram panteras negras e, num estranho ritual antropofágico, toda a lona do circo foi comida pelas feras insaciáveis...
                        Com exceção de um anão impassível-atracado a uma insólita mochila-, todos, amendrontados, ao  relento, viam aquilo tudo sem nada entender.
                        Na hora de cobrar do opresso o preço, o maltrapinho escritor nacional, suspirando, livrou-se de tal caracterização, surgindo em seu lugar (e tudo fedeu!), para o maior susto que o povo coivarense já sofreu em toda a sua existência, o Diabo, em pessoa: chifres e demais acessórios!
                        Acomodou-se no melhor camarote, bem próximo ao picadeiro. Dali assistiu, confortavelmente, um leão comer o dono do circo...

o invento

                        No período conhecido por “Era Erótica”, existiu em Coivaras um artesão (artista plástico, sábio e inventor) que, numa hora de folga entre um coito e outro, criou o que chamou, tecnicamente, “aparelho lúdico-sensual”.
                        Como todos os ângulos sexuais tivessem sido explorados na localidade -até à exaustão- e como todos os habitantes maliciosos, mesmo praticando o sexo em todas as suas variantes, se faziam de puritanos, (ah! sado-masoquismo!) o artista se viu forçado a disfarçar seu invento.
                        Fabricou, então, dois frisos formando grandes círculos raiados com arames de aço: essa estrutura recebeu dois pneumáticos infláveis, conjunto a que ele mesmo denominou “rodas” em seus manuscritos.
                        Sobre elas montou um aparato metálico que, dirigido por algo parecido a chifres de bode montês, era movido por energia muscular.  Mas, a enorme velocidade alcançada pelo veículo (47,8 Kmh.) na hora do êxtase das meninas eróticas, aliada à natural cegueira do momento, produziu o que se convencionou chamar de “acidentes de trânsito”.
                        O problema foi equacionado e resolvido pelo sábio que viu, na necessidade de controlar o impulso,  um autêntico desafio à sua imaginação criadora.
                        Aplicando um dispositivo junto à transmissão de força do veículo, conseguiu o efeito de dosagem desejado e, com isso, as donzelas puritanas podem movimentar as pernas com o máximo vigor de suas idades, sem que o veículo dispare em desabalada carreira.  Na hora de aumentar as contorções das lindas coxas, é só mudar a “marcha” da máquina que, então, mesmo tendo aceleração máxima, transita normalmente.
                        Para locomover a estranha viatura -alugada por hora- sensual e confortavelmente, a donzela assenta-se sobre um estranho banco feito de fina pelica: o próprio aparelho lúdico-sensual, disfarçado!
                        De fato: os clitóris das garotas mimadas se encaixam num nicho-glande, saliente, a um tempo macio e intumescido, sempre aquecido por uma bolsa térmica camuflada sob o banco-invento, o que dizem produzir efeito afrodisíaco fulminante.
                        A notícia da invenção se infiltrou -confidencialmente- nas salas de visita das chamadas famílias de bem de Coivaras, sob a forma -aliás, bem aceita!- de receita médica...
                        As mais frágeis donzelas do lugarejo se contorcem sensualmente à vista de todos, mediante a complacência geral, chegando sem exceções ao orgasmo, cavalgando sua fonte de prazer, iniciando-se -assim- em adultos divertimentos.
                        O único adulto que não aprovou o invento -nem como meio nem como fim- e o combate de seu púlpito improvisado sobre o obelisco da fontezinha da praça, foi o espectro dum velho juiz sem cargo, cujo público, infelizmente, se compõe de crianças inocentes...
                        Certos andróginos do lugar, alugando a condução de madrugada, se tornaram, com o tempo, exímios em pilotá-la...  de costas!, recebendo o nome de “acrobatas”.
                        Por sua vez, os machões locais, para não ficarem atrás dos novéis malabaristas, idearam maquinismo idêntico, com as “marchas”, porém, produzindo efeito contrário, dando origem ao que ficou conhecido por “plágio”.
                        Para discrição e disfarce, apelidaram tal cópia de “bicicleta de corrida”, cognome que, presumo, ocupado amiúde, se consagrará pelo uso...

a amizade
    
                        Esperando fazer amigos, chegou ao centro de Coivaras.  Na loja Geral criada pelo sistema, rasgou a ponta do dedo médio, experimentando o zíper duma pasta preta.
                        “Veio da Zona Franca de Manaus.  Tem fecho moderno, cujo mecanismo embutido nas alças grossas e de madrepérola é da mais completa segurança” -explicara-lhe o vendedor.
                        De fato: os dentres-trilhos do zíper pareciam espinhos metálicos. A pasta pesava uns três quilos. De couro de crocodilo.  Seu preço, alguns meses de economia.  Media 60 x 42 cms. e tinha duas repartições sanfonadas.  Quando vazia, se a apertassem, ela (então fole ocasional soprando por entre os dentes do zíper) emitia um sibilo suave e tétrico, lembrando as notas de uma cornamusa.  Seu fecho de segurança, quando tocado por mãos estranhas, logo voltava à posição de lacre, movido e impulsionado por complexo sistema de molas.
                        “Precisa ciência, moço, para ao menos tentar abrí-la” - dissera-lhe o vendedor, garantindo o segredo da combinação.
                        Quando, após comprá-la, se despediram, o homenzinho da loja, suspirando alívio,  transpirava em bicas.
                        Em casa, depois, muitas vezes, surpreendeu a pasta preta aberta, se arrastando pelo chão, em direção à geladeira.  Ele já tinha visto coisas demais em sua vida.  Desde frutos originais a muralhas intransponíveis.  De execuções duvidosas a mulas teimosas.  Desde cremações horripilantes a pianos desacordados.  De flautas encantadas a nuvens estimosas.  De velhos poderosos a bichas inconformados.  Desde escravos naufragados a fanáticos atormentados.  Desde coaxos ensangüentados e hematomas humilhados.  De furtos consentidos a fantasmas imaginados.  Desde vampiros travestidos a amantes desmentidos.  De cinzeiros sedentos a árvores egoístas.  Desde acoplações secretas a conluios enluarados.  De mãos calejadas a frutos agitados...  Porisso, aquilo não o impressionou.  Apenas examinou a pasta em diversos lugares: lojas, hospital, oficinas de conserto, relojoarias nipônicas, repartição pública, açougues, máquinas de beneficiar arroz, vendas diversas e cemitério.
                        Nada - passes, rezas cruzadas, despachos, missas - curou a fome anfíbia da maleta adquirida.  Parecia que o tempo o perseguia, que as ciganas o apontavam, quando consultadas pelos astros...  Mas não se atemorizou: acostumara-se à solidão das nuvens de médio porte.  Sempre buscou um gesto de início em que findar...
                        A pasta adorava as secções de frios dos supermercados das cidades grandes que visitavam.   Tinha tara pelos frigoríficos e açougues...
                        Duas vezes atirou-a no rio.  Chegando em casa, lá estava ela, no seu lugar: no canto do armário, ensopada e reluzente como os sapos samaritanos.
                        Quando, distraído, ele colocava nela algum alimento, ela em segundos o devorava: sorvete, carne pra janta, batatinha pronta, biscuís, pastéis a fritar, bacalhau, abacate, jurubeba, alface e agrião, pimenta, salsichas, frutas silvestres,  etc.  Tudo desaparecia em seu interior só restando as embalagens.  (Uma exceção: as mangas borbon sempre repugnaram à pasta!)
                        Ela -devagar- foi se acostumando com ele, seus momentos de raiva e suas horas alegres...  Alguns meses depois, já se alimentava à mesa, mais civilizada...  Diversão de crianças era, contudo, a incógnita de Coivaras!
                        Alguns bares proibiram-lhe a entrada, caso estivesse com a tenebrosa...
                        Outros pagavam-lhe cachaça por uma exibição do que supunham ser um número de ilusionismo: era só deixar a pasta a seus pés, na hora do aperitivo.  Ela lentamente se aproximava do balcão frigorífico com leves requebros e se postava ali, como um cão, mirando com olhos ausentes o presunto, o queijo, o tomate...
                        Em casa, de noite, a deixava trancada no guarda-roupa.  Como ela não dormia, rosnava de fome a noite inteira...
                        Não entendeu direito quando ouviu seu próprio grito de terror no escuro do quarto, dentro da noite...  Um vento frio e sólido penetrando suas costelas, denunciou um gatuno fugindo pela janela violada!
                        “Encomendaram sua morte e tudo parecerá uma tentativa de roubo! Mas o homem maneta será descoberto!” -Deveria ter dado atenção para o aviso da vidente, na época um tanto estranho...
                        Acesas as luzes, guarda-roupas completamente revolvido e manchas rubras por todo o quarto.  Com vertigem e náusea, encontrou a pasta junto à janela, escancarada, se remexendo toda.  O sereno madrugal que entrava logo a acalmou...  Dentro dela, um semi-esqueleto de braço humano e um dinheiro inventado e não tocado: apenas levemente úmido e vermelho.  O ruído do braço sendo comido pelos dentes pontiagudos do zíper indicava o membro se dilacerando num movimento ritmado e enjoativo de vai-vem. O odor de sangue quente e a agitação foram se apagando em seu olhar de cinzeiros velhos de cristal...
                        Com sua partida estariam se concretizando os desejos de muitos coivarenses...  O sono ficou-lhe tão enorme!  Apenas percebeu o neón em frente se transformando em cataratas diluvianas, essenciais.  Notou, então, o que lhe causava tanto frio e cócegas no peito: o cabo do punhal enterrado em suas costas!
                        Sentiu-se nevando sobre regiões ignotas e retornando ao mar.  O sangue escorreu todo por suas pernas e a pasta avidamente o bebeu.
                        Sentiu-se, finalmente, envolto em armaduras antigas que o apertavam.  Estranho escafandro invisível parecia levá-lo a profundezas irreais.
                        Quanto tombou ao chão a pasta se colocou sob sua cabeça, como um travesseiro: macia e embriagante.

o presente

                        A notícia chocou toda a população da pequena Coivaras.  Coronel Furdina era um homem condenado, está certo.  Doente e condenado... mas, sensato!
                        Colecionar canecas de chope e canivetes raros era, ultimamente, seu hobby.  A sua era a maior coleção de que se tinha notícia em toda a redondeza.
                        Eram comprados, ganhos, furtados, doados, enfim, objetos aos quais dedicava sua imaginação e desvelo - em sua vida sedentária.
                        Cada um, com sua história dramatizada vez em quando por ele, constava de um longo catálogo.
                        O canivete chinês era a peça de máxima raridade de sua coleção. A mais atraente.
                        Um mistério instigante envolvia esse objeto e sua origem.
                        Fora encontrado pela governanta na soleira da porta certa manhã.  Ali, supunha-se, fora deixado por algum amigo que preferiu ficar no anonimato.
                        “Made in Hong-Kong”: estava lá a inscrição, em relevo, gravada ao longo do cabo de madrepérola.
                        Premido um botão-chave camuflado, uma lâmina pontiaguda lançava-se rapidamente do cabo para fora, num movimento que os olhos não percebiam.
                        O movimento contrário -o recolher da lâmina- era da mesma maneira, imperceptível.
                        Ventilação? Lubrificação? Desmontagem? Não atinava com a necessidade da existência daquela profunda fenda na parte posterior do cabo.
                        Não importava muito.
                        Bastava a lâmina, esmeradamente talhada dum aço puro, inoxidável, para obter a admiração de todos aqueles a quem demonstrava o mecanismo de apontar e esconder a peça afiadíssima.
                        Seus esforços para identificar o autor do presente foram nulos.                              Romanticamente o imaginava presente de alguma conquista sua, que galante se considerava...
                        Nunca poderia imaginar que um elaborado plano de vingança, arquitetado por um de seus inimigos mortais, descansava sobretudo na existência daquela peça que tanto admirava.
                        Este homem seu inimigo: estivera perdido nos recônditos da própria mente conturbada, duramente torturada numa questão policial.  Quase louco, numa noite de catacumba e sombras, viu pairar, entre calvário e sepulcro, a coroa e o diadema da glória que perdeu! Naquela ocasião, tudo lhe fora possível: sua vida era uma fictícia valsa: últimos passos dum ritmo fértil...
                        Dezenas de negócios foram concretizados por todos os espertos da cidadezinha com o idéia-frouxa.  Mas o maior golpe  por ele sofrido fora desfechado pelo Coronel Furdina, o colecionador: havia lhe vendido, num negócio- da-China, nada menos que maquinaria velha e animais defeituosos por preços mirabolantes, o que apressou seu desastre financeiro.
                        Só quando o homem foi internado em hospício, acabaram-se as oportunidades de golpes. 
                        Já nessa ocasião o Coronel adoecera.
                        Sobrevieram-lhe as disfunções cardíacas: o sono ficou-lhe tão enorme quanto aos velhos carregadores de pastas pretas; sentia-se nevando sobre regiões ignotas, e às vezes, envolto em armaduras antigas que lhe oprimiam o peito, num ritual misterioso onde estranho escafandro invisível parecia levá-lo a profundezas irreais, como acontece nas agonias de velhos assassinados...
                        Passados alguns meses, enquanto ele se restabelecia do mal do coração, o tal meio-doido retornara à vida normal. Vivia, contudo, esquivo de todos, afastado de tudo, pois denegrira seu nome com dívidas e encontrara o caos econômico.
                        Foi nessa época que o presente misteriosamente surgiu...
                        Não. Decididamente ele não sabia que aquele mecanismo tão delicado, que projetava a lâmina da arma, tinha passado por mãos que ele já apertara em muito cumprimentos.
                        Havia um botão-chave, a custo descoberto, em que só ele punha os dedos.  Sim: apenas seus polegares treinados, e fazendo muito esforço, sabiam executar, à altura do peito, a manobra que abria e fechava o canivete.
                        Coronel Furdina também não tinha como saber que, na extremidade da lâmina que ficava escondida no cabo, havia outra ponta, igualmente afiada.
                        E não poderia prever que após 68 manobras da lâmina para diante, na 69ª exatamente, o aço cintilante seria projetado calculadamente para trás.  E com uma força triplicada pela ação das camufladas  molas traseiras combinada com o desgaste das molas da frente.
                        Não teve tempo de perceber aquele frio penetrando tão agudamente em seu coração.
                        Definitivamente: na mente dos coivarenses sempre existirá a dúvida.  Porque um homem tão sensato como o Coronel Furdina escolheu o suicídio a canivete como meio de apressar seu fim?

a praga

                        Esse é um fato acontecido que, de tão triste, preferiria não contar.  Mas, comprometido, sob juramento, a relatar o que vi e fiquei sabendo em Coivaras, não posso voltar atrás.
                        Definitivamente: só Virgínio  enxerga em Reginalda a antiga musa que lhe estocou o coração de jovem com a seta de cupido.
                        Deve pensar que está a mesma dos velhos tempos, intacta, imutável, pois a aguarda todos os domingos na clareira do bosque, à mesma hora, há anos.
                        Dizem que ele ainda se recorda de quando, nos furtivos olhares trocados nas missas dos domingos à noite, sempre lhe piscava a senha do convite e ela aceitava num diáfano esgar dos olhos azeitonados. Mas que já não se lembra desde quando ela passou a lhe devolver a contra-senha da recusa, num sorriso débil e sem direção definida.
                        Virgínio atribui a culpa da má sorte no amor, à maldição de José Lindoso, o  bêbado  inveterado que quase matou em sua mocidade, deixando definitivamente aleijado.
                        Sempre desconfiara das atitudes desse tal José, um pingaiada.
                        Quando ele começou a não dar tréguas ao recato de sua Reginalda, Virgínio, estabelecendo relações, chegou à conclusão de que ele tinha “parte” com o Diabo.  E teve suas suspeitas confirmadas quando, após a difícil e lenta recuperação dos estragos do acidente, o bebum impertinente explicava a todos -exultante-, que tinha o corpo fechado, motivo de sua sobrevivência à  tragédia...
                        A versão que flui sub-reptícia pelas centrais de fofocas do arraial narra a estória direitinho...
                        Foi numa madrugada chuvosa, já esmaecida  na recordação, pelo musgo do tempo, que tudo aconteceu.
                        A oportunidade faz o crime, reza -inda hoje- o adágio nascido naquela noite.
                        O bêbado, caído junto a uma poça, enlameado, encharcado por dentro e por fora, entrou como por encanto por baixo das rodas do velho sedã negro de faróis apagados...
                        Tudo foi involuntário, mas, após o impacto - inevitável e sem testemunhas -, o motorista, Virgínio - covardemente e sem socorrer sua vítima - prosseguiu na mais desabalada carreira que lhe permitiu a pouca perícia ao volante.
                        Reginalda, na manhã seguinte, ao madrugar em busca de pães quentes, descobriu o corpo. Sofreu tamanho choque  que daí a uns dias foi  acometida duma definitiva amnésia.
                        Socorrido por ela naquela manhã, o ébrio se esvaíra em sangue durante toda a noite.  Todo arrebentado, diversas costelas fraturadas, pernas esmoídas e a bacia partida em vários lugares, escapou por pouco, mas nunca se restabeleceria completamente.
                        E a praga que rogou em sua dor ficou pelo ar, à espera do autor de sua desgraça...
                        A demora de Virgínio em voltar ao lugarejo (morava em uma chácara fora daquele amontoado de rudes construções) foi encarada com normalidade.
                        Para sorte dele, a praga rogada (cegueira) já estava bastante atenuada quando, após uma semana, voltou a pôr os pés no perímetro urbano de Coivaras.
                        O castigo, para ele, começou com um ligeiro embaralhamento das vistas, após o que, nunca mais pôde afirmar, com convicção, a cor do que via...
                        Aí começaram alguns boatos maldosos relacionando-o com o autor do acidente, conjetura, de resto, nunca devidamente esclarecida.
                        Dizem as más línguas que para fugir à maldição de José Lindoso hoje, além de bêbado, demente e côxo, Virgínio se refugia nos vários movimentos religiosos do arraial, buscando o resgate de sua culpa.
                        Comenta-se também do estranho encantamento de suas vistas, pois, para ele, Reginalda parece jamais envelhecer: sendo sempre a desejada, mas nunca a possuída.
                        Ele parece não perceber que o tempo correu léguas e tudo  passou pela peneira do esquecimento.  Por informações de terceiros - recebidas com reserva- ele conhece a situação de Reginalda - treslouca-  e porisso a evita, sem deixar, contudo, de desejá-la secretamente.
                        Contam, finalmente, que sua musa, mentecapta,  apenas sorri enigmaticamente quando  lhe falam desses assuntos de namoro e casamento que ela não mais consegue decifrar.
                        Todos comentam que,  na sua inocência eterna, Reginalda ainda experimenta o privilégio duma leve excitação quando, com olhares lânguidos, Virgínio, o rapaz definitivamente solteiro, lhe dedica alguma atenção nas missas dos domingos à noite...

a prisão

                        Após a condenação sumária, dois filósofos o despojaram de seus adornos, acentos e símbolos que julgaram ultrapassados e incineraram.  Depois lhe tiraram a visão com um ferro de marcar bois, em brasa.
                        Então, enclausurado num compêndio chamado “Gramática -Nova Ortografia”, concederam-lhe o último pedido: desejava recordar.
                        E o senhor, com o tato -seus novos olhos- apalpou o passado e sua proximidade lhe parecia perceptível, sensitátil e aconchegante.
                        Quando começava a remexer nas cartas e poesias, contos e novelas, saía deles um pozinho que ficava pairando no ar.  Então aspirava aquela brisa velha, zéfiro apreendido e nu.
                        (Os escritos envelhecidos soltavam uma poeira seca que parecia sumo de areia fina, roubada de alguma ampulheta em desuso...)
                        Quando o senhor relia um estado triste, uma revolta social, um personagem deslocado, uma passagem erótica, um arranjo lírico, um trecho mordaz, ao mesmo tempo era visto por milhares de letras que o reencontravam e festejavam isso. O senhor me dizia que, então, era relembrado também por elas que lhe agradeciam o tempo gasto em sua criação e perdido naquelas releituras.  Me contou, muito em repetido, que nessas horas fechava os olhos e de cada um -arredando os cílios com delicadeza- uma lágrima brotava...
                        Quando recomeçava a mexer nas poesias, cartas e contos velhos, sentia: todos tinham um sabor de imaturidade fixa, de adolescência eterna.  Vigorava neles um quê de coisa inacabada, mas intocável...
                        Todos sabemos, Bardo Incorrigível, que em certa ocasião, você quase morreu de remorsos após destruir -numa fogueira junina- sua “Lira Gramatical”, tachada de arcaica pela nova era da indústria cultural...  Ali se resumia todo o seu tesouro, composto de excepcionais momentos de clarividência e lógica apreendidos no decorrer de sua existência longeva.
                        A auto-crítica, depois, inda riscou alguma construção e mais frases: já não o faria mais: sentir-se-ia carrasco se o fizesse.  Do jeito que estavam lhe satisfaziam...
                        Porisso, quando mexia no bloco de escritos velhos, o senhor sabia: permaneciam ali, virgens, os primeiros alumbramentos e os fictícios encantos. A única coisa que importava e lhe fora proibida.
                        Algum adendo, inserido nas entrelinhas, já não conseguia decifrar: letra ruim, minúscula, microscópica. (Mas não se importava: se tornaram mistérios e estes apagam-se por si...)
                        O senhor sabia também, Bardo Total: mesmo que lhe rasgassem (como ameaçaram!) e queimassem todo aquele papelório, ainda ficaria a essência do que foi montado, criado e escrito.  A responsabilidade por tais construções perduraria, ainda assim, num espaço dentro de si.  E mais: permaneceria a totalidade daqueles alicerces na arquitetura do que o senhor fora...
                        Nem lhe passou pela idéia que o que estavam lhe fazendo era uma injustiça. Nunca reinou o miolo em mesquinharias dessa espécie, nem caçou a glória nessas futilidades convencionais...
                        Nos últimos momentos de sua lucidez, compreendeu então que isso era o preço e que as letras venderam caro sua liberdade...
                        E, antes de sobrevir a esponja que lhe varreu da memória todas as lembranças, viu, ó Bardo, no firmamento da recordação -em forma de arco-íris- uma última linha e nela leu que, da mesma forma, seus escritos e o senhor seriam sempre cúmplices: no delito e no reparo; desde o alfa até o ômega...
                        Depois desandou a rir.  Riu dias e dias feito besta.
                        Tanto riu que, quando parou, não mais sabia do que estivera rindo...

a mina

                        Esta é a Mensagem, meus concidadãos! -exclamou o velho, chamando a atenção dos transeuntes.  E continuou, dando o intróito à preleção, enquanto ia desenrolando um esfareloso papiro:- “Assim se cumprirá a Profecia da Garrafa do Enigma, enterrada no Pico-do-Cão!  Seremos o oráculo vivo de tal Anunciação!”  E lentamente leu.
                        “No princípio a pele ficará levemente avermelhada, como se houvesse tomado sol em demasia.  Alguns dias depois, provirão os vômitos e diarréias de uma tonalidade violeta, que prostarão o contaminado.  No leito, sobrevirão os tremores incontroláveis do paciente e a palidez se acentuará.  A pele, então, principiará a se descolar das carnes como que apodrecida e um odor insuportável de carniça sobrevirá dos corpos.  No sétimo dia do contágio, destruídos os glóbulos vermelhos do organismo, as dores lancinantes coroarão a agonia do doente.  Segundos antes da morte, um inchaço inconcebível.  A epidemia não terá beira nem precedentes.  Após o deslocamento de todo um dispositivo governamental até nosso arraial de Coivaras, ela será, então, batizada, estudada e proclamada:  Peste Radiativa!  Muitos dirão:- ‘Mas, como: Contaminação atmosférica?  E as cidades vizinhas, como estão livres?  Castigo Divino?’...  Será como se nosso povo fosse sendo queimado por um fogo regenenerador, apocalíptico.  Os cientistas, que não se apegam muito a esses conceitos místicos, buscarão a fonte do contágio nas muitas autópsias efetuadas.  Após estafantes pesquisas e estudos a água potável será condenada...  O diagnóstico:  ‘Sem tratamento pelo cloro, a população sempre se serviu dum manancial buscado a dezenas de quilômetros por encanamento metálico que demanda as alturas do Pico-do-Cão, na grande serra que circunda a vasta região.  A fonte mineral parece límpida e impoluta, segundo as análises atuais.  Mas, naqueles dias que hão de vir, traiçoeiramente radiativa, a mina estará brotando das profundezas subterrâneas, contaminada por reações químicas inexplicáveis...  Espoucarão as bombas: dinamite mergulhando a terra como um tatu imaginário.  Implosivamente...  Longas horas, dias, e semanas demandarão o evacuar de nossa localidade condenada, incluindo o transporte da população bovina das propriedades agrícolas não poluídas pela radiação.  Toda espécie de surto flagelará os habitantes.  Logo, os visitantes que aqui tiverem estado há menos de um ano, começarão -em suas respectivas cidades- a mostrar os sintomas do contágio...  O número dos mortos, só em Coivaras, ascenderá a milhares...  As lavouras abandonadas, serão lentamente sufocadas pelo matagal miúdo.  As enxadas enferrujarão na inércia.  O recrudescimento da moléstia se acentuará sobremaneira nas lesões epidérmicas, devido à poeira das explosões, incluindo, também, parte da equipe técnica...  Quando finalmente detectarem o vastíssimo veio de urânio este será um lugarejo deserto.  Terão achado o que sempre procuraram!...  A população, pela metade, será sido lançada numa enorme vala-comum, dessas usadas em campos de concentração.  Devagar, mesmo os evacuados serão dizimados...  Após as desapropriações de praxe, um único proprietário tomará posse de todas essas terras, num raio de 1.200 quilômetros quadrados que serão transformados em Parque Atômico Nacional e donde sairá toda a matéria prima para os reatores atômicos das usinas nucleares atualmente em construção...  Nas barreiras provisórias, nos cavaletes galvanizados, placas indicarão: ‘P.A.N  - Coivaras - Trânsito Impedido’... 
                        E não restará um coivarense sobre a face da Terra!...”

o saco

                        Com o volume de entulhos e trastes incoerentes jogado nas costas acompanhando seu gingado, o anão pardo, olhos patagônicos, cumpre seu itinerário cotidiano, alheio aos desencantos políticos e aos desastres econômicos do arraial. Conversa -sussurrando indecifrações- com os pássaros, as borboletas, as árvores e os animais.
                        O seu linguajar estranho lembra, às vezes, um som glacial há muito esquecido pelos ouvidos do Homem.
                        Sempre ao pôr-do-sol, senta-se num barranco do rio represado e os peixes vêm à tona e conversam com ele, formulando- quase sempre- queixas ecológicas contra o desaguamento de dejetos fecais em seu meio ambiente.  Ele gunguna qualquer coisa que não se entende e os aquáticos saltitam, numa borbulhante demonstração de seu contentamento.
                        Jamais se conseguiu descobrir o conteúdo do saco que leva às costas.  Percebe-se apenas ser duma substância macia como a dos tecidos amarrotados, assim como se fossem máscaras recolhidas ao fim de algum baile a fantasia de eras remotas.
                        Uma profusão de cordéis e amarrilhos fecha hermeticamente a boca encardida do grande embornal, formando uma espécie de cabo que o pequeno Mutuquinha não solta em hora nenhuma.
                        Presume-se, todavia, que à noite, quando mergulhamos nos sonhos, então sim, ele abre o depositório de seus segredos, pois, no silêncio de sua choça se ouve nessas horas um burburinho formado de risadinhas esganiçadas, rugidos surdos, xingatórios incompreensíveis e cantigas mortas que se prolonga até o nascer do sol.
                        Em certo anoitecer, um homem de cor, aproveitando-se de sua fragilidade e natureza pacífica, tomou-lhe à força o enigma ensacado e fugiu, indo satisfazer a curiosidade longe de seus impropérios guturais...
                        Muitos dias depois, do negro, encontraram apenas a pele já seca, esticada por meio de varas verdes, perto do Matadouro Municipal, dependurada numa grande árvore onde os magarefes, ainda hoje, põem a secar os couros das reses abatidas.
                        De carapinha, que não foi separada do corpo, os urubus comeram uma terça parte dos miolos e as formigas sugaram os olhos liposos.
                        Ninguém pensou culpar o homenzinho, uma vez que, depois do furto, nada estancou a torrente de seu choro infantil e seus lamentos se tornaram tão ruidosos que a população de Coivaras não dormiu enquanto ele chorou, sem parar, durante dez dias.
                        Sua palhoça, nessa ocasião, se coalhou de curiosos tentando consolá-lo, penalizados com aquele arremedo de gente -nem criança nem adulto-  chorando sangue quando se acabaram suas reluzentes lágrimas de vidro.
                        E lá sentia-se, pelo arrepio dos pêlos e pelo zumbido contínuo, a presença invisível de inúmeros seres murmurantes, compartilhando a aflição do pequeno roubado.
                        Borboletas multicores enfeitaram as paredes sem reboco, se revesando em revoadas ininterruptas; vagalumes incontáveis forraram o teto durante as dez noites do pranto-anão, piscapiscaluzindo iluminação esverdeada no ambiente ladrilhado pelas lágrimas, onde o chão se recobriu de peixinhos de cristal translúcido que refletiam o colorido das borboletas, as luzes dos pirilampos e o escarlate do plasma, inaugurando maravilhosos espectros ainda desconhecidos à visão humana...
                        No nascente do décimo dia, milhares de pássaros se dirigiram rumo Norte, numa formação tal que lembrava a rigidez marcial das esquadrilhas aéreas.
                        À tardinha, os que estavam presentes viram e aclamaram a chegada triunfante da mochila que veio planando da direção da Serra do Pico do Cão, trazida pelos amigos alados de Mutuquinha e pousou suavemente em seu quintalzinho de brinquedo.
                        Só aí sua mágoa terminou e ele sorriu...
                        Nessa hora, então, seu rosto se iluminou duma tal maneira que ofuscava a vista de todos e, num crescente resplandescimento, numa transparência de asceta em êxtase, ele levitou por longos minutos.
                        Subitamente, emitindo um urro de alegria ensurdecedor, fez abrir, no centro da casinha, uma cratera sem fundo que, exalando gases intoleráveis, tragou tudo o que se encontrava ao redor, num raio de três metros e quinze centímetros.
                        Dos curiosos que sobreviveram, nenhum conservou intactos os tímpanos e depois disso nunca mais alguém voltou ao casebre.
                        Isso foi na véspera do achado do couro seco de Zoé Caolho, aberto e espichado segundo as normas elementares do aproveitamento da pele bovina, que foi reconhecido graças à cicatriz duma pálpebra intacta: a mesma que lhe originou o apelido. Ninguém mais ousou, sequer, tocar o saco encardido.
                        Ele voltou a perambular pelas ruelas poeirentas carregando nas costas o fardo enfeitiçado de sua solidão...
                        Mas, na mente e no peito de cada coivarense ficou uma certeza após esses acontecimentos: quando o Mutuquinha achar que é hora e resolver terminar com a farsa da demência inofensiva e despir os trajes da mendicância e assumir sua real condição de Duende Guardião do Tesouro Mineral de Itaniope e, por fim, do alto da torre da igreja matriz, libertar o mistério lacrado por cordilhos e amarréis, o lugarejo se tornará encantado e todos conviveremos, felizes, com toda sorte de silfos, duentes, sacis, bruxas, ogros e dragões oriundos dos contos de fadas ouvidos na infância e perdidos nos meandros do esquecimento humano...

o sobrevivente
           
                        Digo por ter visto, não de ter sabido de boca alheia... O estranho não foi recebido com bons olhos pela população ao descer da jardineira das dezoito horas.  Mas isso não era novidade: ao contrário, muito normal.
                        Não se sabe o que chamou mais a atenção popular: sua roupagem esquisita ou os trastes que trouxe como bagagem e que iam chacoalhando e tilintando conforme ele mudava os passos em direção à praça central.
                        O que causou espanto, realmente, foi  a máquina pendurada em seu pescoço: automaticamente, disparava clics a torto e direito, rastreando, com anteninhas flexíveis, os lugares exóticos e monumentos públicos de Coivaras, para fixá-los em instantâneos cuja finalidade se desconhecia.
                        Seus modos, contudo, logo desfizeram a primeira impressão desfavorável: era de educação refinada e viva inteligência.
                        Solicitado quanto aos dados pessoais, disse ser tretarca de profissão e que veio da Galiléia e preferia não declinar seu nome. (Ah!  Foi um estímulo para o estudo da Bíblia!)
                        Quando conseguiu que uma anciã viúva e solitária lhe alugasse um quarto de sua grande casa vazia, e lá se instalou, as coisas começaram a acontecer...
                        Certa manhã, um menino do Grupo Escolar, brincando  na hora do recreio de esconde-esconde em volta da fonte da praça, entrou no foco da mira telescópica de uma requintada maquineta, instalada na grande casa da viúva solicentenária ao longe e, após o clic silencioso -disparado na penumbra do quarto- a criança pairou no ar, a dezoito centímetros do solo, para pasmo de seus coleguinhas e deleite do operador da máquina, que se puseram a rir sem parar.
                        Preocupado com o tombo iminente, o garoto nem notou que ia diminuindo diminun, diminu, dimin, dimi, dim, di d, até que seus movimentos se tornaram imperceptíveis e ele sumiu.
                        Após a desintegração, foi instantaneamente atraído e transportado magneticamente pelo éter, entrando no quarto pela janela semi-cerrada em forma de neutrons, prótons e elétrons: alojado numa câmara do aparelho.  Aí o homem delicado, de unhas impecavelmente esmaltadas, após regular o mecanismo de reintegração molecular para três centímetros, acionou os controles, invertendo a operação...
                        O menino tornou a surgir -agora desfalecido e miniaturizado- do meio de um brilhante facho de luz concentradíssimo, sobre uma prancheta de vidro raibã.
                        Com as mãos enluvadas (problemas de radiação), colocou-a numa redoma de cobre (cheia duma solução viscosa sabendo a verniz) e, acendendo um fogareiro a gás, desses portáteis, pô-lo a ferver.
                        Cronometrou...
                        Aos quinze minutos, cravados, deu o ponto.  Retirou-a do fogo e deixou esfriar.  Depois, furou a cabecinha da miniatura com puinhas e sovelas minúsculas, constatando o êxito da mumificação.  Betuminou!
                        Então, onde existiram os olhos, engastou dois diminutos e sangüíneos rubis, o que concedeu à exdrúxula figura um aspecto de fino bibelô.
                        Trespassou pelos orifícios do pequenino crânio uma correntinha de prata com pequeninas algemas de enfeite, completando a confecção do primeiro chaveiro.
                        Era um colecionador!
                        Daí uns anos, quando tomou o ônibus das seis da manhã -para não mais voltar a Coivaras, apenas três crianças tinham escapado à peste do sumiço, graças a um longo período de enclausuramento forçado.
                        Elas tiveram, então, notícia da partida do ônibus e do que ocorreu: as coisas e seres foram sendo sorvidos por um redemoinho gigantesco que varreu e lançou aos ares tudo à sua passagem, à medida em que a condução se afastava com o homem, sua máquina de lentes infravermelhas e telescópicas e seus chaveiros que entulhavam inúmeras maletas lacradas...
                        Uma semana depois de sua ida tudo voltou aos lugares originais.
                        Das três sobreviventes, duas ficaram loucas e vivem presas devido à mania que têm, de enfiar objetos pontiagudos nos próprios ouvidos.
                        A terceira, inda hoje, depois de tanto tempo da volta à normalidade, não crê na versão oficial -e adulta- da peste do sumiço...
                        Nos períodos de férias que lhe concedem fora do sanatório, o rapaz investiga em Coivaras o porquê do infanticídio ocorrido...
                        Mas, como conta apenas com o apoio dum amigo invisível nessa utópica pretensão, tentará em vão, para o resto da vida, descrever com clareza esse episódio de sua infância interrompida...

a análise

                        Ela chega às oito em ponto e sabe.
                        Ele já terá chegado: no porta-chapéu, a capa e o coco.
                        Estará a postos no cômodo contígüo, no consultório-mistério, até a vez do primeiro cliente.
                        Ela então espana graciosamente os móveis da salinha, ajeita das cortinas as rugas, ondulando-as simetricamente.  Também ajeita as flores nos vasos e -água nas que precisam-, nivela os diplomas esparramados pelas paredes, impecavelmente emoldurados.  Pós-Graduações.  Honoris-Causa.  Etc.
                        É aí...  Aí sente -como sempre- renovar-se-lhe o cotidiano espanto: no quadro a óleo disposto na parede à frente de sua mesa, falta a figura principal...
                        A clínica fora instalada há tempos, suprindo certa deficiência de Coivaras, disputando clientes com os curandeiros, passistas e ledores de baralho.
                        Certo: o gráfico estatístico da espontosidade local, inda não foi reelaborado depois da instalação da clínica, o que impossibilita por ora, a avaliação dos resultados de tal empreendimento - no que toca aos interessados, logicamente - pois o doutor anda satisfeitíssimo...
                        O velho calvo - como o chamam- na sala ao lado da recepção, folheia alguns papéis entre os dedos trêmulos.  Coça a barba rala, onde ressalta o cavanhaque solene, de fios prateados.
                        Aspira um cachimbo -nitidamente inglês- e o fumo espirala cheiroso pelo ambiente.
                        Está reclinado no sofá -o mesmo sofá onde costuma ler, após o expediente, o suplemento literário do jornal oficial do Estado Pra lá do Grande Rio do Peixe.  Aconchegante, o móvel...
                        Equilibra, na busca ocular, nervosamente, sobre o nariz desbotado, o monóculo de aros de ouro e lentes grossas.
                        No calhamaço finalmente encontra o que procurava.  Suspira alívio.
                        Na mesma voz (que da primeira vez que é ouvida, áspera, engana a gente na aparência) principia o diálogo com o homem bicentenário deitado a seu lado.
                        -Podemos começar, Jacinto.  Estamos perto, na fase final mesmo, da solução de seu caso.  Creio que sim. E isso acho ótimo!
                        -Já não era sem tempo, já não era!  Eu mais o senhor nós se damos muito bem nós dois...  Fico sastifeito se fico!
                        -Olha, deixe de lado essas expressões.  Reserve-as para as ocasiões certas, adequadas, tá bem?  Sem isso de sinhô, sem o assuncê, essas coisas viciosas, entendido?
                        -Se prefere...
                        O médico espera que passe o efeito das reticências e ordena:
                        -Associe!...  PRETÉRITO NEGRO!
                        -Chibatas macabras.
                        -TERROR E NÁUSEA!
                        -Grilhões e lavagem   -  retrucou o preto, olhos desorbitados...
                        -LIBERDADE INTERROMPIDA! - prosseguiu o diplomado.
                        -Não há fuga... (E as lágrimas brotando:)  Todos os caminhos são negreiros.
                        -CARAVELAS! - vociferou o careca.
                        -Suco de frutas! - associou o interlocutor, sem nexo.
                        -Nada disso, Jacinto! Eu disse “CARAVELAS” e não “CARAMBOLAS”!
                        Pasmado pela inclemência do pós-graduado, Jacinto completa tímido:
                        -A bordo todos os gemidos são negrinhos!
                        E no ritmo alucinante que ia tomando a sessão, o facultativo reatacou: “-Velhos desdentados de esperanças!”
                        -Ah!...  (As reticências, novamente... Apelando para pausa pacificante).  Lamentos a Ogum.  Ritmados bocejos embalando o balanço do barco...
                        -NEGRAS MOJANDO! - ferroou o clínico, na linguagem dos capitães-do-mato.
                        -Gestantes e gestados partindo escravos da pátria enlutada...
                        -DESPEDIDAS!
                        -...
                        -VAMOS, O QUE VÊ? - quase grita, imperioso, o indagador, não dando tempo para o outro pensar.
                        -Na costa próxima, na África-Mãe, permanece camuflado o choro sentido das pastoras foragidas...
                        -ALTO MAR!
                        -Trevas!
                        -PORÕES!
                        -Catinga, bosta e morreção...
                        -TEMPESTADE!
                        -Balanço de enjôo, inundamento...  Correntama tililintano.
                        -REVOLTA!
                        -Chicote!
                        -NAUFRÁGIO!  - berra o cavanhaquento exasperado -de propósito- como se o perigo estivesse ali mesmo, de realmente.
                        -No vendaval emerso do ventre das águas, naufraga a galera repleta de breu...
                        -FIM DAS CONTAS? - pediu o outro, sombriamente calmo.
                        -Penetrada, a água cresce de mortos ideais sepultos em si.  A origem das contas -das contas escuras- e a liberdade comum -comum para todos- submergem ao longe...  Margulham em nós...
                        Súbito, no interfone, um chamado da atendente.
                        “Doutor, o cliente l95 está à beira de um colapso.  Deseja vê-lo agora, a todo custo...  Pode ser?”
                        -Negativo.  Que espere um pouco mais.  Aplique o sedativo de sempre!
                        “OK!”
                        Antes de voltar à carga, o velho aperta um botão e diz para o aparelho ligado: “Janaína, por favor, sem interrupções, sim?” - e desliga sem esperar resposta.
                        -SEU JACINTO, E OS NEGRINHOS?
                        Chegara a fase favorita.  A ansiada ante-hora.  A roldana que leva a sede ao fundo do poço.  Sempre que chega aí, o psiquiatra arrepia os pêlos:  parece ver descortinar-se-lhe um filme em eastmancolor. Fecha os olhos, funga fundo...
                        -Os negrinhos afogados cresceram submarinamente.  Como serventes da rainha das águas, foram chamados pais-de-santo...  Antes que qualquer luz aparecesse nessas águas, seus olhos -escamas estreladas- passearam em processão por esses litorais inconfundíveis.  E depositaram nessas praias mensagens de Iemanjá...
                        -E DOS LAMENTOS?  - indagou o outro, atalhando a rota poética.
                        -... E do canto que havia -e que ficou submerso- restou um murmúrio, uma canção de palmares!
                        Ambos suando prolixamente.  Sintomas da ineficiência do ar condicionado.
                        -QUEM É VOCÊ?   JACINTO? DIGA AGORA!  - explodiu  incontrolavelmente o médico, achando a hora propícia.
                        -... Hoje (suspiros) quando a brisa me traz a calmaria das flautas, me imagino pastor, navegando perdido numa caravela de samba!  - divagou o analisando...
                        -Mil raios o partam!  Quero sua identidade concreta, caduco duma pinóia!  Assim não acho um elo, não encontro um caminho, não percebe?  Você tem que me ajudar, Jacinto!  - disparou, descontrolado, o analista, num só fôlego, cavanhaque esvoaçando com o movimento do maxilar.
                        -Então me desamarre, doutor - pediu o outro. E completou: Chega por hoje!
                        O idoso honoris-causa, sem dizer palavra, levantou-se vagarosamente, gestos litúrgicos. Acendeu algumas velas de vário colorido.  Pôs queimar o incenso.
                        Sentou-se novamente.  Empunhou o atabaque africano e colocou-o entre os joelhos magros.
                        Começou um tam-tam monótono.  E uma reza-canto fluiu de seus lábios. Serena, balbuciada, inundou o consultório, conferindo-lhe certa suavidade de carpetes...
                        O vulto do preto-velho principiou a desmaterializar-se e foi se esvaindo do divã, lentamente.  O sorriso de sempre. A alvura dental. Aquela aura luminosa cada vez mais...  As rugas respeitáveis -de duzentos anos!
                        Tudo sumindo...
                        -SARAVÁ!  - saudou, na rouca voz, ao desaparecer de vez...
                        Nessa hora, num canto da sala, em minha “atual personalidade” - segundo o bode analista - então estremeço: após guardar o instrumento de percussão, levar as velas para acabarem de queimar no compartimento por trás da parede oca da biblioteca, o velhote vem e apaga as quinze lâmpadas que trajo -acesas- sob a anágua lilás...
                        No interfone, momentos depois, a atendente ouve:
                        -O próximo, por favor, Janaína!
                        Ela, então, volve automaticamente o olhar para a tal moldura à frente de sua mesa, na saleta de recepção e deixa escapar a exclamação:
                        -Outra vez!
                        Sim: sem que ela visse, -embora vigiasse-, numa fração de segundo, imperceptivelmente, o vulto do velho negro voltara à tela, completando a lacuna do conjunto pictórico.
                        Sabe que pode então, aliviada, começar mais um dia de trabalho.
                        Mero enfeite, - a austeridade do consultório foi recomposta -, me calo...
                        O que mais pode dizer um pobre abajur lilás apagado?

o herói

                        De manhã bem cedo o circo chega: o Lisco-Lisco.  Recrutamento de ajudantes, os chapas.  Na montagem árdua, dia inteiro, revela-se a inovação: tapumes de latão ao redor, pintados em vermelho-amarelo-azul, dispositivo anti-moleque-por-baixo-da-lona.  Ninguém entrasse mais subaixo da grande tenda de velho plástico multicolorido, habitado por tantos novos buracos por onde é coado o piscado das estrelas, depois de apagadas as luzes.
                        Para a estréia, conforme o anunciado, chegaram da Capital as lutadoras, famosas na luta-livre, gigantes do ringue.  Desfilando numa carroceria de caminhão toda enfeitada, envergando colantes malhas esportivas, são deleite e atração para olhos acostumados a saias até os tornozelos.  Um escândalo passeando pelas pudorosas ruas de Coivaras...  Um rouco alto-falante propõe ultrajante desafio à comunidade dos barbados locais:- Homem qualquer pode, em troca de grande soma de dinheiro, num tira-teima desarmado, tentar vencê-las se aventurando em surras por baixo de qualquer uma delas: Mulher Gorila - a como que tal; Naja Vermelha - a ruiva até dendágua; India Paraguaçu - a morena modelada, caiçaramente; Tia Morgana, a viperina enrugada, maleficamente.
                        Foi ver o desfile: aí começou o calvário de Talico Bueno.  Paixão por mulé-macho!
                        É maio, as laranjas ilhoas já murchando, rugosas, nas árvores dos pomares.  Findas as colheitas: grãos, espigas e vagens.  As ruas de Coivaras se dourando do arroz em casca, tapetes em homenagem à deusa Ceres, dias infindos durando a secagem do cereal.  Serviço e trabalho pra toda gente. Muito dinheiro correndo, algibeiras recheadas, o circo sempre vem...
                        Talico vive dos braços e acaba com o que ganha na cachaça.  Recebendo o dinheiro da semana bebe-o até desacordar-se.  No outro dia acorda com o dia pelo meio e, numa rotina registrada, diz sempre abanando a cabeçorra:
                        -Que calor!  Até parece que o sol abaixou um palmo!  Que sede!  
                Nessa noite de estréia, contudo, não tomou nenhum trago.  Tinha um propósito premeditado?  Conseguisse planejar alguma coisa naquele bestunto?  Foi o primeiro a chegar, bilheterias inda fechadas.  Foi o primeiro a entrar, camarote mais perto do picadeiro, pertinho donde armaram o tabuado em forma de ringue, almofadas e tatames em capim forrados.
                        Dali, unidinho, bem próximo, vê marmanjos apanhando de fazer dó.  Não sabe como pôde se atrever àquilo, onde arranjou loucura suficiente para desafiar a linda Paraguaçu, longos cabelos negros, uma braveza esculpida nas faces angulosas, uma beleza estampada no corpo escultural.
                        Começou tomando puxões de orelha doloridíssimos.  Foi jogado de um lado para o outro.  Tomou vários balões, voando como um albatroz desengonçado e quase se desmanchando em aterrissagens suicidas...
                        De repente ela se enroscou como cobra em suas pernas e ele, ao tentar abraçá-la, só encontrou o vazio.  Foi quando o pegou pelo braço direito, armou firme golpe, chegando a anca e as nádegas em seus baixios machos, tremenda macieza.
                        (Ah!  Como lutar justa pugna em supergolpes no rostinho, costas, pernas e seios durinhos de uma ferazinha assim?)
                        Aí, num rodopio, voou sobre ela e tornou a cair... Talico ia apanhando até rir. Parecia gostar daquilo! 
                        Depois de um tombo e outros, quando a macha gladiadora dava um arrocho final com a cabeça do adversário entre as musculosas coxas, e ele ia desistindo, sufocado em asfixias, ocorre insólito fato...  Ela começa a tremer entre gemidos, como se entrando em convulsões, e seus sussurros vão se alteando e podem ser percebidos até pelos moleques dos mais altos poleiros da arquibancada circular que oscila perigosamente sob o peso do grande público.
                        Suas mãos descem delicadamente até os cabelos de Talico e querem como que arrancá-los, porém sem violência, à quisa mesmo de carícia-sem-jeito.  Tudo durando longos minutos até que ela, sem ouvir os urros alucinados da platéia excitada, desmaia, perdendo o combate quando a vantagem era toda dela...
                        O circo quase veio abaixo!  Estava lavada a honra dos machos locais...  Os aplausos ajudaram a tirar do êxtase o franzino combatente vencedor. Carregado como herói para fora do ringue, faz passeata (ou volta olímpica) nos ombros dos amigos ao redor do picadeiro, sob a ovação ininterrupta e entusiástica do povo satisfeitíssimo...
                        Interessante é se ouvir de sua própria boca a narração do que realmente aconteceu naquela noite inexplicável e inesquecível.  Quando ele começa a contar, onde estiver, junta a rodinha de curiosos e excitáveis ouvintes:
                        “Num golpe de chave de pernas no meu pescoço, que quase me esmaga o atla, ela retorceu tanto as coxas que eu ali quase me afogava no perfume de sua pombazinha se mostrando por causa do muito perto que meus olhos se chegaram e o nariz cheirava, e das retorcidas malhas se entrosando entrevãos adentro.  Entre os pentelhos repuxados, me produzindo cócegas e deleite, vi o teso grelinho.  Era uma frutazinha macia, úmida e pirra.  Tive com ela nos lábios, sobretons, perfumes:  unto do fundo.  Aí, quando lingüei os gordinhos à minha frente, enfurnando a dura língua loca adentro, uma lambada como que pancada ou pescoção, de pau, chicote ou correia, não sei, sei lá, me doeu demais.  Nem porisso eu  me afastei daquela felicidade maravilhosa.  Ela se contorcia como uma serpente.  Nênias soaram e meu pescoço nérveo foi-se enrijecendo à medida em que suas coxas foram afrouxando a pressão e se tornando suaves forros do arreio que ela me era.”
                        (Assim ia possuindo a adversária temida à frente do respeitável público.)
                        “Quando a custo consegui arrefecer o ímpeto de minha língua, o tempo parecia ter parado e tudo sumiu: uma colônia floral, como que escuridão líquida, se derramou sobre os meus olhos...”
                        (Índia, durante os movimentos enérgicos e ritmados da oral entrega, balbucia lascívias, murmura tigrezas indecências.  Atordoada, a platéia custa a entender o que se passa na erótica arena.  No rosto da fêmea realizada, antes talhado em dureza macha, há agora um semblante carregado de inafáveis suspiros).
                        “Só voltei a mim quando quando o juiz me arrastava para o outro lado do tablado, cara lambuzada em méis fêmeos, cueca molhada, pra longe da fera domada.  Fiquei sem jeito de me levantar da lona.  Aí a turma veio e me tiraram para carregar nos ombros...  Foi aquela festa pra mim...”
                        Ah! o valor do prêmio - uma nota preta! - Talico juntou ao dinheiro das apostas que ganhou, formando um razoável pé-de-meia. Logo pôs a juros nas mãos duns fazendeiros de café daqui, apertados com as colheitas da safra.
                        (Antes de quedar exangue, a lânguida lutadora navega por ondas de prazer.  Cada célula sua parece se dissolver num turbilhão povoado de borboletas fosforescentes.  De alguma parte de seu corpo exausto, triturado pelo gozo  a tanto reprimido, sente fluir uma cachoeira de flores.  Quando a multidão atordoada, sem compreender aquele mistério de ausências, se põe de pé, pode assistí-la, entorpecida, numa derradeira convulsão, mergulhar, serena, a profundezas abissais...  Fora do circo, uma sinfonia de relâmpagos e coriscos clareia a grande noite coivarense...)

a viagem

                        “-TIRFEGUS À VISTA!  Preparar para o pouso!  - disse animado o comandante, como se ali se achasse alguém mais, além de mim, dele e do agente.
                        -Seu parente já foi avisado, senhor, Por certo deverá estar à sua espera... - emendou o ensaboado agente.
                        Após o pouso.
                        -Feliz permanência! Voltaremos no prazo de praxe: vide catálogo!  - e despediram-se.
                        Quando desci no heliporto jamais imaginara a real situação que envolvia aquele estranho povo enclausurado.  Não acreditava nos folhetos, simplesmente: como eu podia crer em alguém que mantivesse um cara como meu primo Lécio trancafiado sem motivos?
                        E dele, o brando abraço.  Másculo, face crespada de brios.  Lécio não mais velho que no tempo de criança: minha última lembrança sua...
                        Ao contato com o solo, senti: os vulcões embalavam docemente o solo amargo de Tirfegus e a manhã (visível ali) corria célere na brisa que espigava pássaros.
                        Descemos a escadaria em espiral.
                        Apenas a roupa do corpo, minha bagagem. Camuflada, uma vontade imensa e uma curiosidade maior de conhecer a minha -talvez- futura morada...  Eles não convidam a gente, à toa...
                        Num mural de dimensões gigantescas (ali os pintores haviam empregado todo o material que lhes restava) pude ler na pouca luz do nascente:
                        “...APESAR DISSO FUI NESSA NOITE VISITAR MINHAS PRISÕES. JÁ ESTAVA Á ESPERA DISSO:- OS GUARDAS TINHAM AGARRADO E METIDO NO CÁRCERE, PRECISAMENTE AQUELES QUE SE MOSTRAVAM PERMANENTES, OS QUE NÃO FINGIAM NADA, OS QUE NÃO ABJURAVAM DA EXISTÊNCIA DE SUAS VERDADES.  E TINHAM DEIXADO EM LIBERDADE OS QUE ABJURAVAM E TRAPACEAVAM.  LEMBRA-TE DAS MINHAS PALAVRAS: QUALQUER QUE SEJA A CIVILIZAÇÃO DO POLÍCIA E QUALQUER QUE SEJA A TUA, SÓ AQUELE QUE É VIL SE AGUENTA DIANTE DO POLÍCIA DOTADO DO PODER DE JULGAR. SEJA QUE VERDADE FOR, SE É VERDADE DE HOMEM E NÃO DE LÓGICO ESTÚPIDO, É VÍCIO E ERRO PARA O POLÍCIA.  PORQUE ELE TE QUER DE UM SÓ LIVRO, DE UM SÓ HOMEM, DE UMA SÓ FÓRMULA...  É CARACTERÍSTICO DO GUARDA CONSTRUIR O NAVIO Á CUSTA DE SUPRIMIR O MAR.”  (SAINT-EXUPERY/ CIDADELA / FLS. 279 e 280/ EDIÇÃO A2 / EDITORA ASTER / LISBOA / PORTUGAL)”
                        Foi quando me recordei de Rodelas do Norte, seu sistema tortuário, e seu polícia-fera, o malfadado Gebofe...
                        Era evidente o alvo das tais citações muralísticas...  O folheto.
                        Terminada a leitura caminhamos até o centro do aglomerado de construções (em ruínas), sem tetos, onde -mais tarde soube- os habitantes copulavam a qualquer hora.
                        Paramos numa estalagem improvisada e serviram-nos uma bebida -feita por velhos raizeiros- de sabor agradabilíssimo.
                        Um odor de aurora, sadio, ia lavando as ruas.
                        O dia chegou mostrando-me aquele povo totalmente despido, natural.
                        Um ex-poeta/estalageiro, abriu a manhã doutrinando um ruivo montanhês.
                        -Ela é rastro de estrutura e desabará dum fogo de pedras.  No advento do reino pressentido ela estará na curva dessa geração.  Será avalancha, se não impedirmos.  Certeza!
                        -Qualoquê! -explodiu, mordaz, um velho balseiro de vinte naufrágios.  Ela é venérea neve no desfalecimento das estrelas.  No inverno, o destruir das provisões.  É a ponta de pau no casco fendido da escuna ferida!  Isso Sim!  Que mané pedra parada que o quê!  De pedra sabe o pedreiro.  De montanha, o montanhês!  Isso aí...  Ensinar dique a castor?  Essa é boa!
                        -Na guerra -remendou um ex-combatente- ela se alimenta do sangue dos pracinhas.  De manchas de sabre, no ventre das guerrilhas!
                        Lécio me apresentou a todos.  Um prisioneiro da sarna, Khalun-Ghá, beduíno irretratável, já sem seus cavalos & dunas, disse-me, enquanto se coçava até aos vergões: (E de seus lábios respingavam picuás, bichos de pé e resto de polenta mais olhos inhumáticos mais assombrações e caronas duplas):-  “Ela reside na fonte seca das surpresas do deserto: é fragmento da vertigem no poço das miragens.  Ela impede até um bom-dia, que é um canal (seco) de comunicação!  Ela revela sua inércia na sombra dos oásis: convite paralisante, coopção irreversível...  Seca os cantís dos princípios.  Cega a escolha.  Espanta o canto.  Amassa as cafeteiras que buliçam no acampamento das caravanas guapuânicas...”
                        -Ela é capaz de criar olhos-crianças nos tubos de ensaio, pra nos enganar, nos enganar, -disse um livro aberto, altissonante.
                        Um poeta -carne esfarrapada de galgar roseiras- bradou:
                        -Ela, o desacalanto em que morrem fadas no aleluia dos anões que o vento dispersa.  Conquista urge, camaradas, dum reino sem a força dos tiranos!
                        Confesso: foi um impacto saber quem era “ela”.  Jamais vira tanto fervor palpável.  Percebi estar no seio dum povo vivendo um poema sem fim.  Começava a entender as coisas...
                        Fui puxado pelo braço, hipnotizado que estava com os diálogos.
                        Lécio levou-me à rua.  Andava ao meu lado.  Foi dizendo, na qualidade do poeta que eu conhecia nele:
                        -Ela perfura a tarde como a desculpa do poema por fazer “quando tiver tempo”  (e deu a inclinação fonética apropriada).  Mas será página duma História Invés.  Ela gravita em nosso meio, mentindo verdades estatísticas no gráfico das fomes.  Ela intui a estabilidade às nuvens da tarde que assim, apenas de uma só forma, podem pintar o crepúsculo...  Nós somos, da montanha, não o alto, mas o sopé.  O desbarrancado.  A pedra solta que faz ruir, um dia, toda a edificação...  Somos os ovos do vento, invisíveis.  E, das águas, bactérias.  Sementes de borboletas nas avenidas desse tempo...
                        Levou-me a um bordel onde as dançarinas discutiam.
                        -Ela é a desperta herança dos sexos flácidos: torna nosso poema mercenário, agiganta em nós o medo do gozo, bebe e fode de graça...
                        -Isso aí...  Sendo assim, antes -com eles- um michê inacabado, Flora, antes! - e riu um ré-ré-ré-ré- desdentado a que falara por último.
                        Outra, vendo minha roupagam indecente e estranha, balbuciou fitando-me:  “Essa grita que te inunda o coração, ó estranho, é responsável pelos versos que te navegam o ventre...”
                        -Ela está naufragada na poesia das estrelas.  Nessa madrugada, como sempre - ela se tornará essência...  Essência, a mansa lágrima.  Essência, a inaudível música.   Essência, a minúscula semente.
                        Ainda pelo primo fiquei sabendo: ela era vidente.
                        -Vê, primo -prosseguiu ele- só nós poderemos ceifar, à noite, desse mundo amordaçado, o bairro mais impossível de egressos objetos: chorinhos esfomeados, pobres cada vez mais coitadinhos, violações e o escambau.  A desperta herança dos flexos genitais nos faz lãs de lobos.  Assim, mascarados, um dia veremos dessa prisão só o nome nos versos do amanhã...
                        Era evidente o “Danger”...  Eu estava no seio de uma revolta profunda, calculada em frases, incutida como alimento.  Estava entre um povo consciente bastante para -se preciso fosse- morrer por uma verdade!
                        Recordei-me dos dizeres do agente, ao desembarcar-me:  “Temos aqui um fermento a ti desconhecido, poeta-menor...  Como és inimigo da fome, crescerás com ele.”  E concordei, em retroação.
                        Seguimos caminhos, conheci a manada que abastecia o lugar.
                        Conheci a maioria dos moradores do reino...
                        Almoçamos, depois, na pensão duma viúva-romancista:  Hirta, a da vagina costurada.  Com o prato do dia foi servida uma verdade mimeografada à maneira de um cardápio.  Era uma verdade mais ou menos assim:  “Que a alegria do canto seja una.  Não seja meta e sim recompensa pela intenção que o gerou”.
                        Por sobremesa, um início, um puxa-conversa geral.  Lécio.
                        -Somos homens inda nervosos.  Será na raiz de um silêncio que moldaremos nosso destino.  No calor da treva, da trova, elegemos esse exílio.  Um dia emudeceremos.  Passaremos a nos entender pelos olhos.  Se demora, ainda não sei...
                        Hirta não tardou na resposta.  A mesa estava rodeada de rostos famintos.
                        -Condenemos ao nada essa hibernação, Lécio.  Tanto martírio reclama um delírio extra.  O rubro choro dos meninos reclama seu destino, Hora-Que-Tarda!  Ela é fruto dos bacanais, a agulha no sexo torturado.  Ela é consolo de frouxos e perpetua nosso nojo.  (Cuspiu!)  Irmãos, enterremos a força dos tiranos!  - terminou num empolgamento juvenil.
                        Um matemático, especialista em prognósticos de jogos de advinhações oficiais, perito em previsão de ganhadores em loterias futebolísticas, pediu palavra.  (Eu o havia notado perdido em equações durante o repasto.)
                        -(-25m2 n7 x 4):  (5mn2  x4)  F (V3 - Y %) L (4º) O (l/2 = /-( ) R.  FLOR!
                        -Ok, Placário.  Talvez seja isso mesmo...  Vá tentando!  - disse-lhe a anfitrioa. 
                        Me veio à lembrança nessa hora, a figura de um poeta mergulhado em astrologia, fixação de datas cabalísticas.  Um Dante não Alliguieri.  Em sua nítida náusea-loucura-voluntária, em Rodelas do Norte, era medo só.  E falsas profecias...  E conversões sacrílegas.  Sanatório nele!
                        A tarde principiava e esse “sanatório nele!”  não foi meu não.  Era a vidente, mais uma vez.  Sorriu-me como se pedindo desculpas pela intrusão em meus pensamentos...
                        A tarde chegava na praça de grama pisoteada por comícios diários.
                        Um cutucão.  Com o queixo, após me chamar a atenção, Lécio apontou-me um velho que se aproximava.
                        -O curandeiro dessa Aldeia Global! - disse-me entredentes.
                        E o gordo idoso, escroto com hérnia, rendido, passou apressado.  Reuniu uma turma grande.  No centro da pracinha formaram uma ciranda e colocaram-me no meio; complacência irônica do primo...
                        E cantaram:  “Encontrei a verdade / de mansinho / no brilho da estrela, / que partindo / acidentou a noite. / As palavras têm portas nas janelas do ocaso. / Os versos são vitórias / os versos são derrotas mas na liturgia do poema / a vida é uma oração!!! / (bis, bis, bis)”.
                        Nisso, estacaram.  Um engenheiro chamava a atenção de todos, trepado num coreto de concreto sem teto.
                        -A força do tirano -começou ele- é namorada dos soldados.  É apelo animal dos viciados.  É aliciar de corpos proibidos, pelos porcos precomidos!
                        Agudamente saudado pela colônia de pederastes local, sob olhares complacentes das meretrizes, recebeu uma cuecada no rosto.  Imediatamente a vestiu e todos gargalharam.
                        Aquilo contagiava.
                        Em seguida, quase sem ninguém perceber, uma puta velha e gorda apareceu vestida -pra espanto geral- em calcinhas que atolavam banha adentro e meias (com ligas) -que mal sustentavam as arrobas de celulite dobradas sucessivamente desde a coxa até o tornozelo.
                        Despiu-se.  Despiu o entendido em engenharia.  Pulou em cima dele.  Copulou em cima dele, passivo, ali mesmo no coreto e as risadas cessaram progressivamente, acompanhando o orgasmo frenético daquela montanha vermelha-arroxeada de frenesi acumulado.
                        Quando acabou, suava cubos de gordura pelos poros planejados.
                        Lipoliticamente, seu sexo, encoberto pelas fraldas de toicinho embutido, transbordava de espermas alucinados.
                        O arquiteto se tornou por longos minutos motivo de velório, uma vez que parecia ante-projeto recusado, alicerce protendido de ferro, pedra & cálculos do gênero.  Uma placa, uma lâmina que aos poucos se refez do peso liberado.  Num fio de voz terminou:
                        -Mas, cedo virá o verso ou o reverso de tanta dádiva.  (Notava-se claramente a confusão de suas idéias) -Até que nos reinos do mundo todo respirem, enfim libertas, as estrelas extraídas dos ombros apodrecidos!...
                        E estava acabado o comício: todos buscavam relações sexuais, estimulados pelo espetáculo -que só depois eu soube- preparado por Lécio.
                        O jantar foi realmente jantar: salada de tomate com palmito, tutu, costelas de porco fritas, picadas em pequenos pedaços, arroz de forno, vinho verde, guaranás, polenta, feijão (!), bananas (de três tipos = nanica, prata e marmelo) mamão, pêssego em calda e ah! creme de leite...  O café  -de cedo mesmo! e daí?- esteve ótimo!
                        Às oito da noite, o Comício Noturno começou.
                        O jardineiro - que deveria não vigiar os que pisassem na relva-, chegou atrasado e foi se justificando.
                        -Vivi essa tarde a verdade da água e do lampião!
                        Suspense... (!!!???)
                        -Não passamos de noite e mágoas!  - associou, enfim.
                        Foi aplaudido por sua impontualidade e asneirice.
                        Ali em Tirfegus todo aquele que TENTA viver uma verdade, está justificado.
                        Prosseguiu o leviano jardineiro, lançando novo slogan:
                        -Que a força do tirano premedite o seu fim.  Nosso jardim já sorri uma matéria nova, mescla de flor e liberdade.  Abaixo a grama!  Nossas rosas ensangüentarão seu futuro e nossas foices feridas flutuarão na trilha de sua vida!
                        Emocionou-se a ponto de endurecer o sexo.  Saiu depressa, à procura de vagina receptiva.
                        Um campônio, de gestos rotos e nádegas toscas, subiu ao palanque improvisado na própria carroça que puxava momentos antes.
                        -Retroceda tal músculo para seu primeiro de abril!  Dos sórdidos cânticos de louvação, virá a arribação, pois essa verdade coxa se crispa -inútil- num corpo já ausente, como minha unha no chão que me sustenta!
                        -Irmãos, no crânio do fantoche, a marreta do poema!  -Bradou do meio da platéia indendiada o ex-poeta/taverneiro, ao mesmo tempo que batia e manipulava o sexo entumescido, numa delirante masturbação pública.  Gozou!
                        -No Reino D’Além Serra, a inspiração foi-se com martelo na mão dos carpinteiros...  - Disse, entre momentos de poder e não poder se ouvir, um anão que levitava nervosamente, ora visível, ora na invisibilidade desse estranho povo de Ãu-Paug...
                        E tanto foi dito e falado que não se recorda com nitidez.
                        Finalmente nos retiramos, em grupos.  Outros ficaram debatendo planos, organizando conferências, fundando colônias de novas verdades...
                        O jardineiro, tendo retornado, acoplou-se a nós.
                        -Nesse solo de fronteira única, será essencial moldar a flor no rosto dos jardins. - pensou alto, esfregando as mãos melequentas ainda...
                        Lécio incentivou sua permanência no ofício:
                        -As flores, atualmente, desabrocham no solo de nossos sonhos, Fermo.  Mas a rosa humilde da verdade virá de mansinho duma eclosão submarina.  E gigante, goleante, cogumélica,  explodirá na boca dos fuzís...  É só esperar...
                        -Como ninho perdido, ela volverá -a maldita força- ao enigma dos pássaros e ficará então uma liberdade fresca nesse solo de fronteiras. - somou Paulo, um simpático criador de pássaros libertos, fabricante de gaiolas sem gradeamento e manipulador de cifras intraduzíveis.
                        Era patente: essas pessoas não poderiam viver num outro lugar que não Tirfegus.  Pelo menos atualmente.
                        Dispersos, seriam sumariamente internados em hospícios ou sanatórios, infalivelmente.
                        Um rapazola de gestos donzélicos aproximou-se glamuroso, claramente interessado, olhando-me em direção ao volume sob as calças.
                        -Aos domingos, nada descobrimos aqui, além de nossa ausência no espaço das ruas.  Vem... - convidou-me.  E requebrando-se, rumou para sua choupana, na colônia pederasta.
                        A custo resisti: Lécio o socorro:        convidou-me para seguir caminho.
                        Os calos abrasavam-me o descostume das caminhadas frutíferas...
                        Quando chegamos à porta de sua cabana Lécio dirigiu-me aos companheiros acompanhantes.
                        -No inverno que chega, dediquem a ela o frio.  É necessária a mentalização, entendem?  Se ela é a árvore, somos o solo!  No percurso das raízes, a seiva passa por nós: objetos de pedras adormecidas, de sonhos & húmus.  Saberemos despertar a queda de suas folhas e atrasar a vinda de seus frutos, não? Ah! será outra vez uma noite deveras extraordinária...  Façam vigília: o sono virá assim mesmo.  Mas, podem dormir em paz: pois acabada a tensão, o desencanto permanece...  Boa-Noite!
                        -Boa Noite!-  o coro de vozes acarismadas, partindo.
                        Disse-me depois - e parecia falar para sí próprio - que toda noite precisava fazer aquela preleção.
                        Definiu-se pra mim, a sua qualidade de líder.
                        Deitamo-nos em catres penitenciais.  Parecia ter assistido a um estranho filme surrealista.
                        No entanto, estava ali: diante de meus olhos, aquele povo...
                        Antes do sono me abater, deplorei antecipadamente minha partida.
                        A autorização fora pra dois dias de permanência: prazo excepcional, sem dúvida!  Além daí -e eles tinham toda razão- o aliciamento seria irreversível...
                        Mas estive aprendendo depressa e muito.
                        Depressa e demais.  Muito e rápido.
                        Ia quase adormecendo de todo quando Lécio me disse:
                        -É bom que te interesses, primo.  E olhe: só vale Deus!  As outras verdades, são de uma outra escala que, doidos ou covardes, por necessidade inventamos... Boa-Noite!
                        Era material pra ruminar a noite toda, se meus olhos suportassem o peso das pálpebras...
                        Na manhã de hoje, visitamos um jangadeiro.
                        Apesar do perfume de petúnias e pétalas imprecisas, seu aspecto inda assim me repugnava: era cego, idade indecifrável.  Suas carnes expostas, chagas vivas.  A carne apenas em algum ponto se vestia de pele, numa estranha putrefação inodora.
                        Os vermes apontavam se revirando, debatendo-se em alguma pústula na massa de carne podre.  A claridade fazia retornar pús adentro, ofuscada, amendrontada, a colônia de parasitas.
                        Bem, -atinei- daquele homem o que esperar?
                        Aquele homem (insensível?) concretizava a idéia da carne plástica, imperecível, buscada em inúmeras bulas e receituários de magos medievais?
                        Sei que chegamos para a visita.  A cela (aquilo não chegava a casebre!) competia em nojo com a figura esquálida, ossos visíveis.
                        E o homem sorriu, cegamente satisfeito.  Disse haver encontrado sua verdade e contou-me.
                        -Fala o mar à praia e sua linguagem é sal e rumor...
                        Ofegou.
                        -Neste cloreto sonoro, o sódio se mescla às verdades submersas...
                        Pigarreou demoradamente limpando a garganta perfurada, donde emergiam certas repugnâncias pardas.  Depois dum acesso tussígeno continuou:
                        -É aí  que a inspiração se veste de tubarões, palmeiras e corais!
                        Depois disso, incrivelmente, morreu!
                        Lécio me tranquilizou: quando fosse novamente requisitado, ressuscitaria...  Era uma rotina, uma mania dos sábios marujos: buscar no outro lado da vida uma razão para os dias intermináveis da Espera...
                        Passamos, por sobre um abismo, para a outra banda da cidadezinha reino, usando uma pinguela balouçante.  Fiquei sabendo: ali só poderia passar um homem de cada vez.  E deveria ser puro e estar desprevenido.
                        A tosca pontezinha não suportaria o peso de duas pessoas e “um homem prevenido vale por dois!”...  Era uma tocaia, do tempo da inauguração do reino...
                        Conheci então “Flago, o garimpeiro surrealista”, segundo sua auto-apresentação.  Também me deu a conhecer sua verdade.
                        Foi quando me convenci de que todos os que -realmente- atingiam a sua verdade, eram afastados do convívio direto dos outros.  Intuição de Lécio que os dirigia... Disse o faiscador:
                        -O corpo submerso da força do tirano revelará diamentes brutos no garimpo nacional.  Pelas caspas de cristal boiarão os diamantes lapidados, estilhaços do canto. Até imperadores depostos emergirão de exílios malandros e, deserdados, repartiremos o pão da intemperança na batéia do futuro.  Na batéia do futuro.  Na batéia do futuro.  Na batéia do futuro.  Na batéia do futuro...
                        Lécio me levou pra fora da paliçada onde estávamos.  Explicou-me que durante o resto do dia Flago repetiria o último parágrafo de sua mensagem, obsessivamente, até à exaustão, quando perderia a voz até nova apresentação a uma nova visita.
                        Pude então aquilatar o ideal daquele povo e seu poder de permanecer na vocação...
                        Passou o dia.  A tarde se dispunha solene.  O sol nos obrigara a um cochilo, tipo siesta, após a refeição do meio-dia.
                        Saímos de casa.  Uma multidão, descida dos montes, nos esperava.
                        Os pastores, sabida minha chegada, sabendo minha partida, vieram me oferecer lã de ovelhas em cio.
                        As poetisas velhas teceram, desde a noite anterior, uma renda de algodão: presente indescartável, em que trago até hoje a alma envolta.
                        Como numa procissão, seguindo o líder, todos me acompanharam até à plataforma de embarque.
                        Subi -e alguns me acompanharam ainda- a escada espiralada.
                        Entre outras despedidas, marcou-me a de Cóf-Cóf, um tuberculoso duplamente condenado (jamais acharia sua verdade!).
                        Disse-me convulso, caindo depois em coma:
                        -A força do tirano arrancaremos na tosse da igualdade!
                        Não pôde, em decúbito dorsal, inconsciente, ver minha aprovação velada, no leve menear da cabeça, afirmativo.
                        Mas a vidente, observadora apaixonada, adiantou-se.  Tocou-me o ombro como numa sagração de cavaleiro medievais (e me ajoelhei!) e pronunciou essas palavras:  “Os objetos imersos no tempo protestam sua inexistência por sua causa...”
                        O ruído do helicóptero ao longe, interrompeu-a momentâneamente.  Em todos os olhares fuzilando naquela direção, um mesmo entender de ódio.
                        -Mas, no leito dos caminhos, estrangeiro, a verdade reclama teu navio, porque és o estranho navegante que sonda a noite! -Finalizou a mulher.
                        Poderia ser uma profecia velada?  Junto ao arrepio, a lágrima.
                        E o aparelho pousou.  Os ocupantes foram sacudidos por dezenas de braços que sacudiam o pássaro metálico.
                        Mas, armados com carimbos de borracha (um xis enlameado de tinta preta) dispersaram os curiosos predadores, que fugiam como danados, à simples visão do símbolo censúrico.
                        E me deu dó e me compadeci e uma lágrima -mais uma- rolou-me pela face.  O que não passou despercebido aos tripulantes que riam da fuga dos “selvagens”...
                        Quando embarquei - e depois de acomodado - olhei pelo visor: todos estavam longe, cada vez mais virando miragem...
                        “Sobrevoamos agora a grande Serra que se espicha como uma dorsal no horizonte de Coivaras, a Capital do Insólito”. - blagueou um trouxa.
                        Tornei a olhar e reli o Catálogo Oficial de Visitas, fartamente ilustrado.
                        “O Rei ordenou construíssem, anexos ao seu, dois reinos com muralhas intransponíveis.  Um para os intelectuais da localidade de Coivaras.  O destino alternativo do outro foi mantido em segredo até para os pedreiros que o edificaram.  Uma ordem real separou do povo os pensadores de múltipla raça.  O rei prestou-lhes homenagens e concedeu-lhes regalias e liberdade de expressão na terra inaugural.  Num dia de abril, sol miúdo e pouco, a multidão dos intelectuais -com suas famílias- penetrou a terra prometida.  Os artesãos do rei fecharam a fenda da muralha.  Os auto-segregados,, em seu reino, embeveceram-se no princípio.  Os jardins de flores exóticas, orientais, bem traduzidas.  A grama sempre limpa e aparada.  Cada árvore, de cada pomar, com o nome registrado o e natalício comemorado.  Suas casas limpas, repletas de criados para todo serviço.  Fazendas-Modelo. Liberdade artesanal. Tinham o Registro Público para suas criações estéticas.  Ausência de policiamento ostensivo ou ofensivo: nenhum ladrão.  Clubes de todo tipo para sua recreação.  Aeródromos, confeitarias, carnavais.  Visitas do Rei e da Corte, amiúdes, helicopteralmente.  Formigueiros amigos e colméias irmãs.  Museus e bibliotecas ambulantes para serví-los a domicílio.  A melhor bebida, a melhor alimentação.  Hospitais Super-Equipados.  Estolas e Escolas de variado grau.  Prostitutas para todos os gostos.  Gigolôs educados.  Amantes -masculinos ou femininos- à escolha livre.  Nenhum dinheiro.  Recantos turísticos, play-grounds, parques infantís.”
                        Mais embaixo, em letras diminutas, uma advertência bilíngüe.
                        “Perigo/Danger: Atenção/Attencion: Após ligeira permanência, toda a regalia nada significou para os ingratos intelectuais.  Amuados, atentaram contra a integridade física de nosso Rei.  Foram banidos como servos da Coroa e relegados ao abandono, após a retirada dos criados arrepiados e violentados.  Seus familiares, mediante renúncia por escrito, conseguiram se retirar do local cercado.  O Rei jamais voltou ao lugar.  O exótico desse passeio, senhoras e senhores/ladies and gentlemen, são: o nudismo dos moradores (que denominaram o lugar “Reino da Censura”), sua dança erótica -motivada por desequilíbrio mental, o ambiente ressumando a revolta (coisa ultrapassada, remontando ao início da era atômica) e a incrível e hilariante insolência de pensarem em assuntos políticos.”
                        Volvo os olhos: entre a neblina de um passado palpável, entre as ruínas de ideais humanos (feitos fumaça) o lugar inda se insinua.
                        Eu recebera -receoso- o convite para essa visita...
                        Achara inusitada a regalia.  (Isso era algo estranhável - disseram na entrega do chamado...)
                        Começo a me afundar em indagações...
                        -”Passamos agora sobre o Reino da Palavra.”
                        A voz sem timbre do piloto me desperta, fisgando-me duma profundeza sem limites, chamando-me dum beco sem saída.
                        “-São os liberados que o habitam.  São antagonizados pelos vizinhos que os chamam Bajuladores Reais...”
                        A voz do co-piloto me faz mergulhar novamente no escuro ignoto.
                        Sei apenas que devo esperar.  Será a qualquer momento, penso.
                        Um dia voltarei a Tirfegus:  uma ida sem possibilidade de retorno!

o canivete

                        Coivaras, adiante da Serra do Carca-Fogo, pra lá de Deus-Me-Livre, Minas, 13/04/78.
                        Mui estimado Don Vardá: recebi (milagre!) suas escorregosas, misteriosas e inefáveis notícias datadas de 11 último, que me ponho a comentar. Ah! E seu pedido, acerca daquele cortante objeto fumeiro, fica pra mais logo, ao pé da página. Quero, primeiramente, dizer do que mais gostei, o trecho mais delicioso da missiva da Grande Notícia: “de susto a fera xispa, ficando-lhe na mão a camisa da criatura, o que mais tarde o canivete tornou tiras e as destras mãos tornaram laço...”  Divino!
                        Sabe, nobre embaixador Don Vardá, toda tarde quando Bob me leva a passear pelos jardins do Reino e redescubro a beleza das coisas simples, nem me lembro da derivação dos continentes, das políticas nacionais, das hipóteses ou certezas acerca dos cataclismos naturais, tremores de terra, dilúvios, erupções vulcânicas, quedas de corpos celestes, continentes desaparecidos, invasões planetárias, ou coisas do gênero.
                        (Amigo, eu estava com tanta coisa engaiolada no pé da idéia, aguardando merecer um pronunciamento dessa Colônia onde me embaixas, que agora tá saindo, meio de borbotão, ao sabor das teclas. Repara não!)
                        Dizia, que quando sou levado a passear, de tarde, pelos jardins de Coivaras, e paramos de árvore em árvore, de poste em poste, não fico procurando corações gravados a canivete, com iniciais de amantes temporários já meio engulidos pelo caule que engrossou... E muito menos penso nos papiros que a árvore poderia vir a se tornar, cheios de caracteres mágicos.  Nessas ocasiões, não atento mais que ao vôo das andorinhas, em busca da noite, e ao chilreio dos pardais aninhando-se ao pôr-do-sol.  Não me preocupo com meus manuscritos, que se perderão dentro em poucos anos, como os da Biblioteca da Alexandria, que Júlio César mandou incendiar e o califa Omar definitivamente queimou: ao passo que estes serviram durante vários meses como combustível às caldeiras dos estabelecimentos de banhos de Alexandria, aqueles mal serviriam como papel higiênico, durante, digamos, uma hora, nos banheiros públicos da rodoviária da cidade de São Paulo...
                        Diga, amigo, ao Manolo, que se algum dia a raça terrestre se modificou ao ritmo das flutuações cósmicas e geofísicas, se alguns continentes foram absorvidos e outros emergiram dos oceanos, isso é coisa que nem me passa pela idéia quando saio de tarde, a passear com Bob, pelos jardins de Coivaras.  Fico, ao contrário, feito besta contemplando as diversas tonalidades por que passam os lados do poente quando, tangendo as nuvens do ocaso, o sol se precipita no fim do mundo, sem esboçar o mínimo gesto na tentativa de voltar atrás.  Nem penso que já li muito jornal em alguma época de minha vida, como se as letras fossem alimento de guardar na gibeira...
                        Noto também, nessa hora definitivamente bela, a algazarra deixada no ar pelos meninos que saíram do grupo escolar, alí pelas l6 horas, numa fusarca só.  E também, e ainda, as duas operárias que, saídas da fábrica, como toda tarde, atravessam a praça com suas latinhas de leite respingando as pedras.  Aí, se passa uma condução mais depressa, faço o de praxe:  reparo, xingo e condeno.  (A calma não pode, de maneira alguma, ser quebrada, pois a hora sacra não se pode macular...)
                        Sabe, Vardá, curtimos, Bob e eu, nesta tarde em que não fomos passear nos Jardins do Verbo, (jardins que você, aí em Guapuã, talvez não tenha tão plantados no coração, como eu, aqui em Coivaras) as peripécias do imortal Quindindumbá, cuja raça, ameaçada de extinção, agora funga aliviada, ante às próximas núpcias que enfeitarão a família Embaixal!
                        Diga, Vardá, ao Alcaide Tunico & primeira dama aí de Guapuã, que quando saio de tarde, levado pelo Bob a trilhar antigas pegadas, gestos esparsos no ar de velhos acampamentos, não tenho tempo nem saco pra ficar me preocupando com o futuro de certas nações, nem com o passado que já virou lenda...  Haveria graça, ficar ligado, por exemplo, à lembrança dos Hiperbóreos, cujas mulheres eram de uma beleza inigualável e as que tinham nascido em quinto lugar em cada família possuíam extraordinários dons de clarividência? Se eles eram quase transparentes, habitavam um país onde reinava um calor doce e não existia um mínimo contato entre eles e o resto do Mundo?  E o principal: seria interessante ficar sabendo onde eles submergiram e em quais famílias se encontra - sempre- um descendente deles?
                        Peço, Vardá, que diga ao Kalunga que quando Bob me puxa pela mão e contorno a fontezinha da praça com seu fálico obelisco refletindo-se milhares de vezes na água levemente ondulada pelo subvéspero, a serra, lá longe, tingindo-se de lilás, convida às coisas presentes, materiais.  Precisaria ficar rememorando os homens voadores de Zimbabwé, e os que se diziam “os alados de Machu Pichu”?  E, se os hierofantes egípcios criaram ascendente sobre as feras, pouco estou ligando, eis que quando saio de tarde a passear com Bob, nos entendemos perfeitamente bem, apenas com o olhar.  Reparo, isto sim, que a catarata do olho esquerdo do meu amigo progride, visivelmente, e um corrimento amarelo sempre está a exigir limpeza e cuidados veterinários...
                        Pouco se me dá que a Bíblia, o Talmude, os Vedas e o Lendaísmo talvez tenham sido uma conseqüência do Livro dos Grandes Segredos, se bem que provavelmente várias vezes atualizado, recopiado, retificado no decorrer dos milênios.  Nada disso me importa quando uma capa escura, salpicada de estrelas, cobre o dia,  fornecendo aos boêmios a matéria prima de seus versos...
                        Ao Miguel, diga que nem chego a recordar, nessas tardes em que sou levado a passear pelos jardins de Coivaras, dos circos que por aqui um dia aportaram, com suas bailarinas-trapezistas-bilheteiras-partiners-de-mágico-equilibristas-etc, com seu pano-lona-ralo, por onde o sereno entra comigo sem pagar e assiste aos espetáculos recheados de palhaços, bodes amestrados, bandinha com guitarra elétrica, malabaristas, dramas caipiras e chou de músicas sertanejas. 
                        (Sim, porque por aqui, depois da Vampiresca Acontecência, nunca mais vieram circos tianis, gran-moscou, & sucedâneos insôssos & outros gigantescos espetáculos movidos a feras, com elefantes dançando apenas de tanguinhas e gorrinhos vermelhos, com a máxima atração de um globo-da-morte, eis que o reino nunca mais se dispôs à responsabilidade da travessia de tão tonelosos paquidermes na tosca balsinha que serve o fosso real tão sempre recheado de aligátores de prontidão...)
                        Para o Paulo, diga que quando estou vagando entre os eflúvios das matricárias, dos jasmins, das amendoeiras, das hortelãs, das ervas-cidreiras e das jarrinhas, (essas também conhecidas por Mil-Homens, ou Aristolochia Apendiculata, e é planta brasileira, volútil, glabra, estípula, reniforme, com folhas trilobadas, base cordiforme, pedúnculos de uma só flor de tubo do perianto oboval, com limbo caído de um só lábio dilatando-se em forma de coração, etc, etc.  Garanta a ele, Vardá), que nem isso me distrai a atenção e o olhar, do rumo da serra amena, esverdeada em azul diáfano, que se tinge de rosa clarinho, com reses invisíveis, pigmentais, pastando os últimos raios de um sol pititinho que se vai junto com o dia...  Ele saberá, o Paulo, que a minha maior atração nesses crepúsculos, é a lembrança do velho juiz enforcado, com sua sonatinha movida a lenha pendurada no ombro esquerdo.
                        Quando avistar o Reginaldo, explique-lhe que, se há algo de bendito no ar vespertino, é o dom que ele tem de mexer com a caixinha-de-pandora de nossas saudades.  É ali que vive a recordação dos pares, as semi-escaladas até o Vale do Claro Amanhecer, as fugas repentinas, as romarias de Reparação e as mutilações dos povos invasores (que ainda não vieram até o reino, apesar de terem saído da Turquia, lá pelos idos de l248...)  É o recordar dos dias de outrora, das tardes cálidas do último outono, quando um ventinho -velho conhecido meu- me contava, pra mim e o Bob, coisas que já havíamos esquecido...  É quase-chorar a ausência do jequitibá Jaleno, que um raio matou há vinte anos, e em cuja sombra não pudemos mais nos esconder: ela agora é que se esconde em nós!
                        À embaixatriz Rutilante, diga que à sombra -que não existe mais- de Jaleno, foi que Zéfiro ainda sussurrou pra mim e o Bob as histórias que gostaríamos que todos conhecessem.  E que sempre a essa hora, Bob mijava no pé de uma roseira, a sempre mais bela do jardim-do-meio.  E que, antes dele começar, se achegavam os besouros, as abelhas, as minhocas, os colibrís de tão diáfano vôo, todos como que precedendo a chegada do corpo astral de Talbo, que sempre comparecia à sessão de causos com seu conhecido bafo de templo inca, cripta necrófaga, caverna milenar ou gruta de zumbis...  Ah! Diga a ela, caro amigo, tão próxima afilhada, tão virgem de olhos bem dormidos, tão grinaldílica, tão-ventre-inquieto-de-fecundidade, diga a ela que quando Bob recostava a cabeça em meu colo e ressonava muito de leve, ficávamos sabendo de coisas como esta: que as pirâmides foram criadas -além de seu destino transcendente, com o objetivo prático de provocar a chuva em certas luas!  De fato, o papel esotérico delas era o de refletir a claridade lunar, modificando-lhe a polaridade e propalar a atmosfera de forma a fazer chover.  Isso devido às chapas de metal branco -talvez de prata, mais tarde substituída por uma liga de metais, visto ser mui rara no Egipto- que recobriam os monumentos gigantescos.  E que ela saiba: um sultão meio besta e persa, teve a ousadia, lá pelos idos de ll96, de tentar destruir uma delas, a Pirâmide Vermelha, a menor de uma região.  Mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores, sapadores, pedreiros e despendeu fortunas mirabolantes, para, no fim, ver o resultado irrisório de suas tentativas: após oito meses a demolição foi abandonada e, de longe, a piramidezinha não apresentava a menor arranhadela!  (Quando contei isso a Gesmo, outro dia, ele teve um acesso de raiva que durou setenta e cinco anos!)
                        Sei, Vardá, que estou desviando um pouquinho do assunto, dizendo coisas cifradas, em código absurdo, mas, perdoa, é passageiro!  Tou sabendo do casório e da data, 28 deste, hora 13: sossega, lá estaremos, família real em peso (e quanto!)...  Só que não poderia deixar de mandar um recado ao Jamil/jamel: “Quando o Bob às vezes começa a grunhir baixinho, como se perseguisse uma dezena de gatos lá nos sonhos dele, Zéfiro prossegue, numa guinada de mil graus, suas lorotas, tão espera-de-janta e acalanto, ao mesmo tempo. Saiba que se estivesse agora passeando com Bob nos jardins que já falei, não teria sequer a coragem de desextasiar o momento tocando nesses assuntos, pois o sol, hemorroidal, estaria tingindo de escarlate todas as terras contidas nos limites do Reino, como um fogo regenerador das desordens praticadas durante o dia já agonizante...)
                        Antes que esqueçamos o assunto, cutuque o Pipeta, fazendo-o ciente de que certamente Zéfiro iria repetir alguns tópicos e a gente não ia protestar, por respeito e vontade de agradar.  Começaria também a contar causos do futuro, onde ele vai quando quer, e donde traz novidades que ainda não ocorreram.
                        Favor relembrar aos Vitrolinhas que, duma sentada, Zéfiro é capaz de reunir lendas vivas, antigas, com personagens nacionais e mortos das estórias-em-quadrinhos: os Flintstones (Barnei, Fred, Wilma e Beti) mais o Zé Carioca, Luluzinha, Gasparzinho, Aninha, Lelo, Lanterna Verde, Arqueiro da mesma cor, o Soldadinho de Chumbo, Saci-Pererê, Mônica e sua turma, Cebolinha, Donald, Zezinho, Huguinho e Luizinho, Pateta, Miquei, Walt Disney, Tio Patinhas, Fantasma, Lee Falk, Cascão, Diana, Capeto, Vovó Donald, Speed Racer, Catatau, Zé Colméia, Dom Pixote, Lassie, Hopalong Cassid, Tarzam, Bidu, Franjinha, Zorro, Tonto, Mandrake, Lotar (por que não?), Bronco Piler, Roy Rogers, Korak, Batman, Capitão Asa (arrgh!) Tom & Jerry, Espeto, João-Bafo-de-Onça, Madame Min, Maga Patalógica, Zé-Buscapé, a Moeda Número Um, Mulher Maravilha, Barbarella, Peninha, Superman e uma multidão galopante de índios em pé-de-guerra, capaz das maiores estripulias nesses nossos universos infantís...
                        (No rodapé, os dados solicitados, despidos da Real Túnica Inconsútil)
                        (Relí a história do impávido objeto cortante, lágrimas a custo travadas.)
                        Ao Vicente, Orpheu Cabloco, Soprano Real, comunique que enquanto Bob funga, Zéfiro traz até nosso conhecimento coisas que ouvimos por ouvir pois nossa atenção é uma apenas: o poente, seus múltiplos espectros e a música que não há nessa hora agônica!  E preste ao Vicente o préstimo de minha gratidez pelas retesadas que deu nas próprias cordas vocais, em homenagem ao Luar do Sertão, ao Ébrio que fomos, à noite...
                        Que ele saiba que Zéfiro conta causos melhor que eu, casos que chegamos a presenciar, tal a força de sua narrativa.  Como certa vez durante uma história de bandeirantes, em que uma rajada de vento mais forte trouxe até nós, de improviso, com o hálito cheiroso da mata virgem (hoje deflorada), o estampido surdo das escopetas e o zumbido áspero das frechas emplumadas.  Nessas ocasiões, se respira por perto uma atmosfera saturada de sertanismo, casos de onça e espelhos a tiracolo. Às vezes nos deixa perplexos, indo embora no meio duma estória, pontilhada de esmeraldas, onde, a princípio, nos acende o desejo de afrontar as mesmas aventuras para, depois, de súbito, num cotovelo brusco do caminho, nos jogar no horizonte vago das nuvens do próximo capítulo.
                        Que o Piorra fique sabendo: às vezes, um pouquinho antes de Bob despertar do cochilo no banco, Zéfiro reproduz estiradas fórmulas de transmissão de posse, euremas os mais sutís, como naqueles paradigmas onde “toda a posse, ação e domínio, tudo põe e remete e cede e traspassa na posse do comprador, para que os haja, logre e tenha e possua, e deles faça o seu querer e sua vontade, como cousa sua, comprada com o seu dinheiro”.  De repente, rodopia sobre o próprio rabo e some.
                        Após sua partida, me levanto, puxado por Bob.  Aí (conte pro Xico, Vardá) cumprimento as sombras de vários morcegos, de velhos personagens, de cães embruxados, e o campanário que estará, com toda certeza, badalando as seis plangentes notas do batido Ângelus.  E aí volto pra casa, trazido pelo irmão. Mais tarde, posto em sossego, realimentado, desligado de tudo, quase em êxtase, aprofundado em nenhumas questões da existência, tomado por irrisórios poderes suprahumanos, ponho-me à luz duma forte lâmpada de duzentas velas e passo a catar as pulgas de meu companheiro.  Aí nem penso na origem dos cães!  O máximo de tempo que dedicasse ao assunto, não seria superior ao lapso entre a captura de uma pulga e outra, ou seja, àquele instantezinho sublime em que, premido entre as unhas dos polegares, o inseto estala, se arrebenta, pressionado por uma força - baseada no princípio da Alavanca (de Arquimedes)- milhões de vezes superior àquela que ele poderia suportar...
                        Te adianto, Vardá, a bainha está intacta!
                        Se acaso passar pelo Rosendo, dê-lhe um alô, diga-lhe que, se pousasse um disco voador no meio dum canteiro, na hora em que costumo ser levado por Bob a passear, o máximo que eu faria era uma saudação: “Olá!”, acompanhada de alguns latidos do amigo, em tom amistoso. Talvez, porisso, fosse até confundido como grosseiro: “Imagine, chegar do espaço, assim de repente, num átimo, nesse fulgor relampioso, como extrema novidade e apenas um olá?”  “Ora -diria eu- vocês pertencem ao futuro, e ainda estou no presente!”  E talvez eles retrucassem: “Pô, Rey, estamos apenas retomando os caminhos siderais que nos conduzem às nossas antigas colônias!”  Então eu teria, assessorado por Bob que mostrar a eles que a nossa ciência, do infinito passado, ao infinito futuro, está sempre no presente.  E mais: demonstrar-lhes-ia que cada vez mais a aventura humana se afasta do contexto terreno para se integrar, sem limitação de tempo nem de espaço, na evolução do Universo.  Com isso eles iriam embora, e continuaríamos, Bob e eu, nosso passeio pelos jardins, por sinal trescalando exóticos perfumes à partida dos extragaláticos...  E eu nem teria reparado na forma de vida interplanetária com quem conversara.  Só depois sobreviria uma certa preocupação desse naipe:  “E se entre eles estivesse, disfarçado, o Pequeno Príncipe?”...  Mas não duraria mais que segundo.
                        Antes de irmos pra casa (corra Vardá a dizer pro Xico) toparia algum conhecido dos que gosto, simplório, que me falasse de chuva.  E do dia, Santa Bárbara!- em que o sol nasceu quatro vezes em seguida, uma vez de cada cor, uma vez em cada ponto cardeal.  Foram dois dias num só, ou quatro meios-dias, pois do Zênite o astro retornava para de onde havia saído.  Isso apenas cá em Coivaras...  Porisso, se pesquisam coisas antediluvianas, pouco estou ligando.  E não me preocupo com enigmas, cidades ciclópicas como Ophir e outras.  Porque essa perda de tempo com alienígenas, dada a abundância de acontecimentos locais?
                        Além disso, a par das notícias da tevê, da rádio américa e do interlocutor, preciso deixar patente que perco tempo também poetando.  Isso deve ser dito aí ao Zizo:  Se algum gozador me diz:  “Ó, aperta meu negócio pra amanhã!”,  sei que ele quer me pegar de calça curta, no deslize das palavras de dúbio sentido, porisso rebato, em cima da hora e da espoleta: “Te cavuco, bicho!” Então, iniciada a brincadeira, eu o convidaria “Pra me ajudar a desenrolar o negócio do porco”, e ainda, lhe diria “Aquele negócio que ocê me deu, eu rasguei!” E vai daí, vai dalí, até que chega o Aís, com suas últimas invenções gramático-metafísicas,  sabedor dessas conversas fiadas que desfio à tardinha quando Bob me leva a passear nos Jardins, e ele me diz que inventaram a xícara pra canhoto, com a asa do lado esquerdo, e mais: espeto pra assar carne moída, pra assar ovo cozido, e a gengiva de plástico pra se comer carne de cupim.  E completa, queixando-se de não conseguir vender sua porca:  parida, mojando, amamentando dezoito cabritinhos.  Porca, que sendo dele, dá tiro em dois canos, tem a marcha picada, pura de sela, tem bocal para dezoito lâmpadas, firme nos andaimes, dá-se uma remada nela e ela vai lá diante, ótima pra passar roupa, tem tomada pra barbeador, chuveiro com oito regulagens, não canta pneus, pisca-pisca sem parar, quatro rolamentos novos, e vai por aí a fora...  Aí costumo ter acessos de riso, involuntários, não desses pra agradar o contador de piada sem-graça.
                        Essas coisas simples, palhaçadas gratuitas, sem maiores preocupações com o resultado e a linguagem, isso aprecio bastante, quando Bob, etc, etc.
                        E, já catadas as pulgas, Bob ressonando, ponho-me a decorar poemas.  Porque meu mal é não guardar de cor (pra dizer como “improviso” em certas ocasiões) os meus próprios poemas e trovas. (Ainda guardo um bilhete do Expoeta, onde eu me dizia:  “Hoje não preciso mais exercer o ofício poético: sou realista e aprendi coisas/ a noite não é tão cálida e apenas naturalmente se embriaga do próprio orvalho/o dia não  é tão áspero: apenas docemente se arrasta no próprio asfalto doentio/ hoje não preciso e nem posso mais ser poeta/ aprendi a diferençar as coisas, dos sonhos: sou realista e sei ofícios...”
                        Logo começo: “nos recôncavos de nosso mar penetram algas de incerteza”...        E Bob, lá no sonho dele: “e de cada ostra partida, esvai-se um pouco de nós...”
                        Pensa, (pergunte pro Laurindélio) que então me lembro que algum dia, um poeta português, ouvido na Rádio Central de Moscou disse: “Proíbo a solidão dos velhos nos bandos das praças, dos jovens nos seus apartamentos e das jovens nas menstruações...  Proíbo o pio da coruja, proíbo meu internamento psiquiátrico pois  proíbo que me controlem os pensamentos!”?  Nem sei se o ouví realmente!
                        Mas sei que o Juca Nó Cego, batedor dessas serras escalavradas de Coivaras, vai me trazer novidades, do outro lado do mundo.  E Vatevino me terá mandado novas trovas, que por minha vez enviarei ao Kalunga.  E Anaíra, a guritense, vai ter-me mandado lembranças, abraços e beijos e mandado dizer que me espera pra comer uma galinha com arroz qualquer sábado desses...  E o pessoal de Tirfegus, entre eles Lécio, estará gozando de ótimas saúdes, graças a Deus!
                        E meu pombo-correio, que só navega de noite, me trará, igualmente, notícias dos mil súditos esparramados por colônias deste e doutros planetas: ganhará a ração de minhas confidências e decolará jubiloso como um arauto sem dono!
                        Nome, profissão, idade, estado civil, nacionalidade, residência, seguem à parte, pois só o nome, só ele, enche três folhas dessa!  Já a tão esperada notícia, posso dar agora:  o canivete tá guardado comigo.  Ficou numa caixa de mantimentos que não coube numa das carruagens e foi doada para o castelo real.  Sacerdotiza Minininha  queria ele, pensando em tocar a corneta que ele tem na marca, veja só!  Só usei uma vez ou outra, pra cortar chifres de gado nas mochações.  Não há melhor!  Que Quindindumbá  sossegue na sepultura!  O neto, idem, na alcova!  Abrace a todos por mim.  Me espere na véspera, l2. Minha bênção!
                                                         Seu padrinho, El Rey.

a delação


                        Foi a terceira horripilância dessa natureza desde que a companhia de eletrificação rural se instalou no povoado.  Portanto, nada mais natural que as suspeitas se convergissem para a velha casa que a companhia alugou e onde os peões e os eletricistas estabeleceram morada.  No meio deles forasteiros, sempre ouvindo rádios transistorizados pelas janelas, estaria, segundo o consenso geral que norteia inda hoje nossa vidinha, o assassino, maníaco-sexual.
                        Sexual porque, quando acharam o corpo inerte, mutilado e frio da loura, logo constataram a violência com que fora abatida e o motivo da agressão...  O tijolo, ou o que restou dele, manchado...  O sangue seco ou viscoso por todo lado, coalhado em inúmeros salpicos...  Sob um lindo queixo voluntarioso, duas perceptíveis mangueiras plásticas:  as artérias...  As pernas de cera com marcas de dentes antropofágicos.  E o que sobrou das roupas: farrapos em frangalhos...
                        Em vida, ela refrigerava tensões pelas datas sujas de mato...  Era a namoradeira da lua, o pesadelo louro das senhoras coivarenses, a rapariga mais animada do Planeta: trinta repassos numa só noite...
                        Sua presença entre nós sempre foi uma incógnita.  Dizia aqui ter chegado nadando desde uma terra longínqua, banhada pelo mar.  Fugia de pressões...  Amava a vida demais.  Entregava-se a qualquer um pelo prazer apenas de saber-se viva, longe da gordura e da velhice.
                        Não tinha compromissos. Não tolerava autoridades moralistas...
                        Com ela terceirou o número das vítimas.  Então se puseram a campo os mecanismos de apuração policial, vindos do Arraialão, uma vez que o delegado municipal -semi-analfabeto- não dispunha de elementos para levar adiante investigação desse porte.
                        Ex-companheiros, pivetes imberbes, pretensos coronéis, tarados esquecidos, coveiros de olhares turvos, porteiro de cinema, chefe de banda, encanador, um barbeiro, varredores de rua, enfim, todos os homens da cidadezinha, de roldão, chegaram até à delegacia para apresentar álibis.
                        Todo um aparato policial-militar garantia os comparecimentos, a borrachadas. Fato estranho se deu com o Zé Burrim, que era cego por preguiça.  Mas teve que prestar seu depoimento.  O que nós até ali sabíamos dele se resumia nisso: apesar da cegueira, enxergava de maneira fantástica!
                        Sim, era cego-por-querer. Por preguiça de abrir os olhos, foi se acostumando com a escuridão, a mais não poder com a luz do dia.
                        As autoridades que investigavam o caso, não se deram por satisfeitas com essa justificativa para uma cegueira que não conseguiam entender.
                        Após as anotações, levaram-no para o pátio interno da repartição, agindo como curiosas crianças irresponsáveis.  Após desembaraçar-lhe o feixe de cabelos das sobrancelhas e descolarem o empapuçado de suas olheiras, sem importarem com seus protestos, abriram suas pálpebras! Frêmito arrepioso, descobriram: os olhos, se é que existiram um dia, estavam extintos há milênios. Atrás da película, vazando já pelas órbitas purulentas, o próprio miolo, nu e cru!  Nessa hora, um apenas raio de sol cauterizou aquela massa encefálica, fulminando de vez seu portador. Sua cabeça, a seguir, murchou como a de quem, tendo merda na cachola,  toma, sem querer, um purgante bravo.  Depois, o resto do corpo.  Hoje Zé Burrim deve ser uma manchinha preta que a gente vê no piso cimentado da cadeia local: como um carrapato, vaga cego numa planície tendo quatro paredes por horizonte...
                        Intimaram (e aqui relato mais detalhadamente os fatos assaz interessantes)  Seu João da Tapera, um preto já ruço de velho que ninguém ainda conhecia de ser apresentado e morava no extremo norte do patrimônio, beirando o término do perímetro urbano, num lugar onde antigamente existiu um cemitério.  Há anos aparecera da noite pro dia, (na mesma roupa branca que sempre usou e nunca se sujou) sem mudança e sozinho.  Ergueu um rancho de pau-a-pique e cobriu com capim membeca.  Nunca precisou retoque!  Seu João não trabalhou pra ninguém no arraial um dia sequer.  Jamais proseou com alguém e em parte alguma comprou algum mantimento ou coisa qualquer.  Lógico, então, que, apesar de idoso, suspeitassem dele.  Levaram.  Apertaram.  Custou a falar.  Tinha desaprendido a.  Se torturaram não soube.  As coisas se deram atrás duma porta onde hoje inda se lê  DELEGADO.
                        Nada arrancaram dele a não ser que “já havia morrido tempos atrás e era uma alma penada ou uma assombração -como quisessem- porém boazinha que não bulia com a vida de ninguém”.
                        Para provar -que o exigiram- evaporou-se na frente dos homens que o interrogavam, deixando uma lacuna no lugar da impressão digital, o que obrigou o assentador a se deslocar até o casebre donde o haviam trazido.  Lá, após inúmeras tentativas, (a tinta preta não se fixava em seus dedos trêmulos de cisma e tédio) o escrivão resolveu rasgar o depoimento e deixou o negro definitivamente em sossego.
                        Também convocaram o semi-anão Nham-Nham, amigo maior daquele que morreu de sol nos miolos.  Tinha também o palpite de não prosear com ninguém. Com sua carinha miúda, de rato de igreja, sua mania de saquear varais, envergava a túnica dos pequenos larápios vagabundos... Como um curiango, não por aversão à luz -, vagava pelas vielas da noite. Morava em parte alguma e em todo lugar.
                        Trouxeram. Não disse declaração. Às vezes confirmava, ininteligivelmente, ou negava, com um acenozinho da cabeça povoada por um outrora cabelo de aço, já amarelecida pelas poeiras da última seca. Coisa pirrela que só!
                        (Esclareça-se que, a essa altura, toda a população desfilara diante das perguntas das autoridades e nada se apurou que servisse à elucidação das mortes em foco.  Outrossim, nesse prazo, algumas pessoas faleceram de morte natural, ficando livres da inquisição que se aninhou no povoado como um enxame de abelhas africanas.  E, se nada de novo se acrescentou para o deslinde dos crimes, em compensação o que se ficou sabendo da vida alheia daria para preencher vários volumes bíblicos...  Monstruosidades vieram à tona. Jovens, rapagotes, moleques desde que púberes e taradinhos foram engaiolados num velho barracão para serem investigados, torturados, sodomizados... Tornaram-se públicos: aberrações sexuais, vilipêndios, demandas, orgias, bacanais, casas suspeitas, fofocas, adultérios, enfim, serviço pra dois mil anos a quem se dispusesse a um levantamento-monstro da vida do arraial. O jardineiro, a carrocinha de pipoca, carrinhos de picolé, o vendedor de alpiste, o criador de cãezitos rabicós, dois molucanos degredados da Holanda, duas gêmeas argentinas -exploradoras do próprio sexo-, todos esses personagens e vários outros humildes serviçais de bordo, fatalmente se condenariam em outro lugar do Planeta -devido ao cultivo e uso inocente de uma plantinha, arbustífera, nada inocente, conhecida cientificamente por “canabis sativa” (cuja exploração corre solta em Coivaras, como a briga de galos e o jogo do bicho...)
                        Como dizia, Nham-Nham, ou Nhã-Nhã, convocado, apesar das ameaças,  nada dizia, apesar das ameaças.  Como o homenzinho acenasse amedrontado, parecendo ter algo a dizer, mandaram me chamar pra auxiliar como intérprete da conversa.
                        Ele começou me pondo ciente e eu ia  explicando o assunto pras autoridades.
                        Que, na noite do último crime, estava cochilando dentro da horta do Calistênio, do lado que dá  de banda pro Beco da Alegria.  Se apoiara, de pescoço, no muro. Eis senão quando foi acordado por um baque do outro lado, que fez vibrar o tapume. Meio zoró, ousou bisbilhotar o que se passava.  E a cena não era outra. Uma dona - a mesma que foi levado a ver no necrotério - se debatia no chão, agredida, subjugada parcialmente por um homem moreno e forte.  Ela parecia tentar gritar.  Mas não ouvia som algum sair-lhe dos lábios. Depois de semi-estrangulada, desmaiou.  Nessa hora o declarante, que assistia a tudo, se abaixou, temeroso que o agressor o visse.  Permaneceu assim por vários momentos. Quando voltou a olhar, o homem já estava trepado na mulher desmaiada.  Descera-lhe ambas as calças - a rancheira e a de rendas- até o joelho.  A blusa já era trapo e os peitos estavam apontados para as estrelas, rijos, de encher as mãos.  O homem, de quatro sobre ela, arquejava e talvez rosnasse feito lobisomem.  Levantou a fuça pra cima e o assistente voltou a se abaixar por detrás do muro.  Quando seu olhar tornou a escorrer pelas frestas do reboque, o agressor já virara a vítima de bruços e cavalgava a mulher por trás, ávido e insaciável.  Demorou um tempão em suas múltiplas cavalganças até que a dona começou a despertar, se debatendo, e parecia estar tentando gritar.  Então, mesmo exangue de tanto gozo, começou a socá-la com fúria bestial.  Em seguida pegou um tijolo e deu com ele na cabeça dourada até que ambos principiassem a se esfarinhar.  O tarado nem por isso amainou o sexo: depois de empoeirar-lhe a idéia, deitou a morder-lhe as coxas, como se quisesse comê-la a dentadas...
                        Apenas quando ele tirou a navalha e começou a cortar o pescoço dela o declarante desceu do posto de observação e, impotente, paralisado, quedou num mundo de sangue, orvalho e pânico. Ali se deixou ficar, à espera da fuga dos instantes...  Nas sombras, momentos depois, saiu pelo portão de cima. Arriscou quebrar a esquina com os olhos: numa olhadela divisou, lá embaixo, junto à moita de bambus da horta onde estivera, na calçada irregular, de chão, o vulto agredido...
                        O agressor sumira? A dúvida acompanhou sua covardia pelas ruelas sujas da noite...  Procurou um porão pra se agasalhar e o dia chegou sem que tornasse a dormir.
                        A bem da verdade, devo dizer que a coisa não foi saindo assim tão naturalmente.  Bordoadas, safanões, beliscões, tapas, copo d’água, cafezinho, mil outros ingredientes dessas sessões muito ajudaram durante a semana que durou o depoimento do indefectível Nham-Nham. 
                        Digo -de passagem-  que ele não dormiu nesses sete dias.  Um terror palpável obrigou o mini-ladrão a permanecer trancado na cadeia anexa à Delegacia, numa cela vazia, durante as noites insones. 
                        Por minha vez, em troca de meu trabalho exigi que, durante o período de labor, eles fossem assando cupim de boi, da seguinte maneira:  após extirpá-lo do animal, que o lavassem; espetado num bi-espeto (duas varetas de aço ligadas pelo cabo), que o fossem banhando de salmoura, com a ajuda de uma vassourinha de palha de milho; colocado a uma distância de vinte centímetros das brasas, que o fossem virando de cinco em cinco minutos;... ao se assar um dos lados (um sempre chega no ponto primeiro) que tirassem, mediante o emprego de um instrumento altamente cortante,  a parte assada (uma crosta com uma espessura de, no máximo, dois milímetros, fininha como uma casca de ferida) a ma servissem - uma a cada vez - num prato de louça chique, florido...
                        Prosseguimos.  Às respostas desvairadas, progressivamente afoitas e nervosas do Nham, os homens foram sabendo:  que o homem não podia ser loiro, pois era moreno (podia estar de peruca!).  Que, se suas roupas eram claras não notou, pois que ele vestia uma capa de boiadeiro cinzenta, que tirou depois.
                        Que se ele continuava sem saber a cor das vestes, mesmo depois do homem ter tirado a capa, foi porque não arreparou no homem tanto quanto eles estavam pensando, mas na mulher desmaiada, coxas e bunda à mostra, de fazer qualquer cristão tropeçar em maus pensamentos.
                        Que não ouviu o homem falar nada, nem a moça:  só fungava um e resfolegava o mesmo.
                        Que o cara era realmente avantajado de físico, pois assistia de perto o festim.  Que o cara deve ter virado o rosto de banda pro seu lado, mas nessa hora agachava-se para não ser visto por ele.
                        Que não tentou salvar a moça, temendo ser igualmente maltratado ou quiçá morto pelo vil agressor.
                        Que, graças ao seu silêncio, salvaguardou sua pureza e integridade anal.
                        Devo dizer também que sua descrição do personagem-monstro correspondia a qualquer sujeito moreno, pauzudo, olhos arregalados, orelhas acabanadas, braços peludos, dentes alvos e cintilantes, meio sanguinolentos, cabelo indecifrável -como as idéias sob ele...  Ah!  E uma volúpia digna de quinze mulas viciadas...
                        Em determinado instante, perguntado, respondeu que, se visse o tal membro, novamente ereto e distendido, reconhecê-lo-ia entre milhares de outros.  Não precisou falar duas vezes...
                        Nesse dia interromperam o inquérito e começaram a despachar papéis.  Todos os homens do município, com aparente ou ostensiva virilidade, foram intimados, sob pena sanções legais, a comparecer ao prédio do grupo escolar local...  Nas beiras de esquina e nas pontas de rua anunciava-se que o criminoso seria desmascarado por um método  infalível.  Barricadas foram erguidas nas saídas do arraial.  Proibido o trânsito de gado.  Feriado forçado!  A reunião foi num sábado.  Alvoraceira.  Nesse dia, no lugar programado, -dezoito salas repletas - levaram a efeito o teste.  Logo à entrada da classe, todos recebiam pedaços de barbante de vinte centímetros.  Com o amontoado de barbados sem saber pra que estavam ali, começou.
                        Apagadas as luzes, as autoridades projetaram um filme sueco,  obviamente pornográfico, desses apreendidos em cineminhas clandestinos.  Aos assistentes, a liberdade de dar vazão aos instintos onanísticos.  Porém, antes que alguém chegasse ao êxtase -excitado por cenas de fornicação inesquecíveis e variantes infinitas do Kama-Sutra, depravações incabíveis na tela, determinavam que cada um amarrasse bem apertado, no pé do pau,  bem no sopé das mangüaras, bem rente aos pentelhos, a cordinha recebida anteriormente.  (Nesse dia quebraram-se todos os recordes de rapidez em amarrilhos.)  Então, logo depois, interrompida a projeção, sala às claras, começava o martírio.  (Nego feito doido pelejando pra amolecer o bicho!)  Todos, em fila indiana, num como caracol, se apresentavam -um a um- para a vistoria do Nham-Nham, ladeado pelas ávidas autoridades à procura do Cacete Fatídico...
                        Quanta decepção!  Quanta caçoada, chacota e revelações se deram!  Quanta mentira posta a limpo...  (Inda hoje muita gente passa apertada pelas esquinas do fuchico)...  Da primeira à última sala, a coisa se repetiu.  Tudo em vão...  Não encontratam ali o Pau da Desgraça!  A maldita Roseta da Insinuação!  A malvada peça de artilharia com seus pneus balão!
                        Com o malogro dessa tentativa, um profundo desespero tomou conta do lugarejo, em forma de uma dúvida irônica: Teria o arraial criado em seu recôndito alguma muié-macho, paraibana, de imenso grilo?  Ou uma lésbica incomensurável, digna de figurar nesses muses de cera?
                        Ficou nisso.
                        Tudo na estaca oito!  Os homens da lei, longe das famílias, se irritavam à medida que os dias passavam.  Sentindo-se tão perto da solução, chegaram a consultar oráculos improváveis.  Puro desespero!  Não conseguiam desvendar a teia de pormenores fornecidos em código por Nham-Nham, sob o crivo de minha pobre interpretação...
                        Numa sexta-feira radiosa, tendendo a chuva, de tardezinha, de saco cheio, resolvi terminar com aquela ladainha!
                        Já colhera material para um conto de primeira!
                        Começavam a ameaçar o Nham-Nham.  Acenavam com a possibilidade de botá-lo como bode expiatório, ou apontá-lo como cúmplice do assassino:  ele não tinha álibi, apesar de comprovadamente inofensivo nesse campo.  A cordata opinião pública, já impaciente, o exigia...
                        Escrivão a postos, juntei os olhos, a mímica, transmimento de pensação, baixos astrais, fé no santo forte e soltei o dardo, escondido até àquela hora:
                        (Tradução):  Por acaso, Nham-Nham, você conhece o nome do bandido?
                        Um aceno de cabeça, um gurgulho, um cacarejo, um reviro no pomo-de-adão e o arregalo espantoso:
                        (Tradução):  Sei...
                        Num espanto igluano, gélico, mãos em prece, balbuciando como jacaré, arrisquei a última cartada:
                        (Tradução):  Qual é?...
                        Quase desmontei!  A custo, verti para o mundo das palavras sua resposta, sua última mímica funesta:  um desenho de estrela sobre o peito!
                        (Tradução):  Macábio Simão, o delegado do arraial.
                        A equipe me largaram falando sozinho.  Tropeços e encontrões desordenados.  Saíram numa só histeria.  Gritos.  “Atrás do Home!” - “Tá pescando na represa!”.  Lá fora, os populares, dezoito dias de vigília, em coro:  “Linchemos o filho-da-puta!”
                        Como se pode imaginar, tudo bateu.  O álibi não existente.  O órgão genital.  Foi inevitável:  no choque entre o povo querendo linchar e os soldados defendendo o detido, as balas zuniram.  As baionetas, caladas, arrancaram gritos.  O saldo caótico:  dezoito policiais e setecentos e quatro civis, mortos, emolduraram a tela pintada na boca da noite. 
                        No cedro despelado, uma corta tesa.  O nó corrediço funcionara!
                        Tranqüilizem-se... 
                        Nham-Nham ficou livre da cumplicidade:  é surdo-mudo de nascença...                           A pé, todo dia - passos trôpegos-  vai ao cemitério de Coivaras e chora sobre a campa de Mariela.  Ali, até o fim dos tempos, implorará perdão por sua omissão...
                        Assim como já ocorrera alhures, Mariela escreveu, em sua passagem por Coivaras, a história de uma tragédia que a eternidade transformará em lenda...
                        Daquela época em diante, nas madrugadas da vida, os bóias-frias tiveram em que pensar, no sacolejo da condução.
                        E, ao retinir no cascalho, suas enxadas sempre dão um gemido a mais...

a carta

                        Sabe Paulo, estive aí e não me encontrei contigo. Foi um rápido chegar, como a turma deve já ter comentado com você...  Explico, conforme segue.
                        Da primeira vez que me transportei pelo pensamento cometi uma gafe, e foi recentemente, Paulo.  Logo após sua estada por cá.
                        Li em qualquer lugar que “as coisas acontecem como devem, dentro de uma ordem natural onde o poder mais forte é a nossa intuição: deixar acontecer, não forçar barra nenhuma porque o encadeamento normal das energias se encarrega de fazer tudo sair perfeito”.
                        Já há tempos eu sugava a natureza...  E a gente vai sendo aquilo que suga.  Carregava comigo a imagem inconsciente de um Éden perdido, repleto de anjos bichistas e virgens deslumbradas.
                        Atinei metódico meditoso e sorumbático, livre dos pestejantes e lacraiosos laços laboríferos que me prendiam a determinado ambiente urbano e poluído: um escritório com mesas cinzeiros máquinas carbono - essas fábricas de doido!
                        Então, na amena savana, na estepe suave, no Sítio Aziago da Visitação, bem ao lado do Fogão do Improviso, cerca de cem metros distante do Bosque Encantoso, fiz minhas últimas preces e ladainhas.
                        (Já escrevera as trovas e as enviara ao Bicho-de-pé.)
                        Caminhei por entre alamedas frondosas, saudado pelo repicar dos guizos das cascavéis, em marcha batida.  Montei um cachorro fila, de passos compridos.  Após descadeirá-lo, abandonei-o entregue à própria capenguice. Cobras corais evoluíam frente à fanfarra ofídica apresentando números de balizas, enfeitadas com sainhas de dançarinas de balé.
                        O reino era castigado, no momento, por um frio insólito, como se mil múmias de bocas escancaradas, soprassem do Sul um vento glacial com saiotes, miçangas e serpentinas esvoaçantes...
                        Uma época remota se aproximava, com um revoado de nuvens estranhas, plúmbeas.  Numa vitrola mesquinha, um tango soava nostálgico na memória de meus passos perdidos.  Astor Piazolla esfaqueava Carlos Gardel no além-túmulo.  Nem me importei, Buenos Aires, capital do Brazil!
                        Como dizia, naqueles momentos, um tremor me sacudia convulsivamente. Ao lago, uma garça. Ao lado, a postos, meu curinga e vice-rei.
                        Pois é: coloquei o manto, a coroa e tomei o cetro.  Sentei-me no trono. Fechei os olhos. O curinga se ajoelhou e entramos a meditar, voltados para o lado da represa imensa, meu rio sagrado, receptor de todas as intuições e fluídos do espaço cósmico.
                        Isso era dia 3 de maio, da nossa era.
                        Senti pelos ouvidos o emudecer de tudo.  O silêncio era palpável e até o ar parou de se misturar com o pensamento.  Pressenti que tudo ficava dourado e o sol resplandescia como nunca.  Em tudo: harmonia e equilíbrio.
                        Uma euforia sutil percorria todos os meus terminais nervosos. Destranquei, um a um todos os meus canais sensoriais. Mentalizei a verdade e não desejei que algo acidental acontecesse: queria única e exclusivamente chegar à plenitude do Amor.
                        Era como que concretizar Gandhi: “estar no mundo mas não ser do mundo”.
                        Desejei lentamente e depois com mais intensidade, estar ou aparecer lá em casa de minha mãe (v. sabe onde é), no alpendre, como se estivesse chegando daqui de Coivaras, aí em Rodelas.
                        Calculara - bem antes - que o amor do Ser para com aquela que o gerou era maior que qualquer outra espécie de amor dirigido...  Através dele conseguiria algo? Tive certeza.  “O princípio maior de tudo é obscuro, sem forma. Nada há de estável ou fixo neste Universo.  Sempre que tentamos agarrá-lo, ele muda e nos ilude”.  “Se algo se torna suficientemente grande, se transformará no seu oposto...”  Procurei me desligar do menor pensamento de ódio da atual Consciência Superior, com seu Grande Vazio.
                        O Ser que me gerou, que me permitiu estar pensando àquela hora, o Ser palpável onde pudesse visualizar o amor puro, era minha Mãe.
                        Alta madrugada.  O tempo ainda me obedecia.  Mas eu queria dominá-lo completamente.  Primeiro deveria fazê-lo com o ESPAÇO...  pensei fortemente: EU QUERO”
                        A coisa então aconteceu. Tudo rodopiou num átimo.  Abri primeiro os ouvidos à cata de um som que identificasse o lugar de minha chegada, conforme aprendera em um livro de São Cipriano.
                        Notei que o trânsito intenso me contava uma história de cidade, infância e sonho. Em seguida pisquei um olho, ligeiramente, vislumbrando entre uma brumanévoa o portão de entrada da casa de mamãe.
                        Quando abri os olhos definitivamente, notei a presença de muitos estranhos, horrorizados, me olhando. Tentei parecer natural.  Disfarcei.  Fiz de conta que chegava naquela hora, de longe.
                        Os hóspedes dum hotel morubixaba se acumulavam na portaria, em frente ao portão, me olhando.  Aí voltei os olhos para mim mesmo e gelei: estava nu. E não identifiquei o tempo com precisão. Era um dia-noite, havia no céu um sol-lua e estrelas junto aos postes de luz.  Chovia e o chão estava seco. Eu jogava barquinhas de papel na enxurrada, como se fosse um menino. (E peladão, o saco se arrastava pela calçada cansada de minha infância).  Tornaram-se destróiers e os naufraguei com uma pezada de raiva.
                        Esta, a Gafe!  Entrei espavorido, correndo para o banheiro, chupando um picolé de salsicha e linguiça, com pedacinhos de queijo e azeitona. Desfiz, assim o elã de surpresa que reservara para Mamita.  Minha entrada assustada a todos assustou e só do banheiro pude - trancado - falar com a mãe mais calmamente. A voz que eu ouvia parecia gravada. E os cabelos grisalhos da minha querida e velha mãe eram prata em filetes sobre sua cabeça...
                        Expliquei por alto. Ela nada entendeu. Perguntou cadê minhas roupas e fiquei mudo sem saber o que falar por muito tempo. Depois disse que fazia uma experiência com o pensamento. Que ela não se preocupasse que ninguém “do trecho” me atacara, que ficasse sossegada.
                        Quando ficou definitivamente cética (à medida que eu mais entrava em pormenores esclarecedores da situação) só pude convencê-la, usando o inverso do processo empregado para ali chegar.  Disse-lhe (eu deixaria a porta destramelada) que dentro de alguns minutos ela poderia entrar no banheiro que eu já teria ido embora.
                        Só disse: “Entojado! Pára com isso, menino!”
                        Voltei, como lhe prometera, após assumir uma posição yoga e longos minutos de purificação e desprendimento dos fatos escandalizadores mais recentes, que fazia uma multidão de acumular à porta de casa, querendo saber o que tinha havido, quem era o pelado e tudo o mais.
                        Quando abri os olhos e me achei no bosque, não teria passado mais de meia-hora.  Pensei: pode ter sido um cochilo extremamente com cara de realidade. (E fiquei nessa esperança.)
                        Voltando pro arraial telefonei pra ela. Quando confirmou minha estada lá em Rodelas e perguntou onde eu estava e eu lhe respondi, ela calou a boca e ouvi um baque de um corpo que caía ao lado do aparelho que também caiu dando um baita estalo que quase me deixou surdo.
                        Aí então tudo ficou confuso.  Muita gente gente. Gritos. Um desligo no aparelho telefone, e me preocupei. Quando era pra se estar com tudo claro, surge um caso desse.
                        Eu me transportara telepaticamente, levando meu corpão junto! Pela vez primeira!
                        Como todo estreante no assunto, cometera a gafe: como poderia saber que o pensamento transporta só o corpo e deixa as vestes num cabide magnético que imita os contornos do corpo que se foi? (Em tudo de teoria que lera sobre o assunto, nada previa isso. Aliás, só pelas teorias nunca teria conseguido o que consegui!) O que mais me ajudou foi a natureza. Peguei o primeiro carroção do dia e me mandei pros lados de Rodelas...  Os solavancos permitiram pouca concentração.
                        Lá chegando, pus tudo às claras. Mamãe já estava boa, se bem que um tanto encucada. O povão tinha se dispersado e consideraram “alucinação coletiva” a aparição que viram, surgida de fora do tempo e de fora do espaço. Uma voz fininha me chamava insistentemente de algum lugar. E notei que era o Espaço, querendo ser penetrado, juntamente com o Tempo. Mal tive tempo de me despedir da família, fazer compras, deixar roupas por lá e papear com Laurindo, Vardá e Rosendo.  Fiz as coisas que deveria, com pressa máxima, e voltei pra cá.
                        Porisso não pude ir à sua casa ou ao banco, como desejava.
                        Isso explica bem, não?
                        Sabe, Paulo, de ontem pra cá tanta coisa aconteceu. (Essa carta já tá virando conto, né?)
                        Falar nisso, incluo, anexo, um volume de errata, pra você ver se junta e gruda lá no Livro da Visitação, o hinário de fé do Bicho-de-pé. Como dizia, vão umas lembranças do Gustavo, Alcina, Menininha e Luciano pra Soninha, Gustavo, Au-Aus, Ziza, seu velho pai, e pra você, com  saudade...
                        Aconteceu, dizia, tanta coisa... Tou acumulando experiências adoidado. Ajudado pelo profeta Ricardo que se apresenta como Talbo (o que prevê o passado), tenho ido a lugares incríveis. Cheguei até o Quilombo de Palmares (que não existiu em outra parte que não atrás da Serra da Canastra - segundo Talbo-) andei de caravela com Simbad, o marujo (que não era pirata e sim marujo e tinha as roupas de nylon bufante e não afundava quando o navio naufragava e ia deslizando nas cristas das ondas e espantava tubarões com essência de tubarão..., etc, etc,) voltei à Idade da Pedra e escrevi coisas hieróglifas mais nítidas para os descobrimentos de hoje, estive no acampamento do Borba Gato (que foi Fernão Dias ou Bartolomeu Bueno) e mil lugares outros.
                        Sabe, Paulo, agora quando quero ir a determinado local, sei que lá já deverei ter deixado umas roupas minhas. Nunca chego a lugares públicos ou quartos ocupados. Sempre saio, de onde parto, trancando o lugar por dentro. Em poucas horas tenho vivido léguas de tempo. Para chegar a determinado sítio sei que devo, antes de ir telepaticamente pelo Espaço, dar por lá um passeio pelo Tempo, como um viajante qualquer.  Arranjei vários meios de me safar instantaneamente caso dê algum boró ou contratempo de presença inesperada. Para países estrangeiros, viajo após mentalizar postais que amigos me mandam (minha coleção é a maior do mundo em extensão e profundidade). 
                        Portanto, aí está: pra vocês, que não sabem ainda desse negócio de transporte mental, minha experiência. Tenho encontrado inúmeros seres estranhos quando estou viajando, em frações de segundo, dum lugar pro outro ou dum tempo pro outro.
                        Mandei fazer tatuagem sobre o sexo, para o caso de chegar num lugar onde não tenha deixado roupas e estar camuflado. (Nossa! Entre as japonesas duma casa de gueixas, causei sensação com o torete!)
                        Muitos caras brincalhões (Uri Keller é conhecido meu!) divertem-se, freqüentando lugares exóticos onde o povão os chama, supersticiosamente, espíritos de luz, ou caboclos, pretos-velhos e outros apelidos... Morrem de rir! Nosso contato é rápido como o próprio pensamento, mas permite ligeiro entender telepático.
                        (Anexamente e disfarçado respondo sua carta, ok?)
                        Atualmente me especializo em voltar aos sonhos dos contos de fadas.
                        Tenho visto filmes de piratas, caubóis e cangaceiros - ao vivo! É um sarro, pode crer, Paulo.
                        Depois que apareci em plena Guerra de Secessão (USA), e recebi um balaço entre os olhos, fiquei com a testa esburacada e deixei desse negócio de visitar filmes de guerra. Não suporto mais tiroteios .  Imaginou se fosse um Exocet?!
                        Meu maior sonho: visitar Alice, no País das Maravilhas. Reitero: abraços e recomendações a todos.

o juiz

                        De tanto os aldeões desejarem a elevação do lugarejo a Município e Comarca e graças aos encantos, poções e caldos mágicos vertidos no rio represado, em forma de dejetos fecais, um dia, na fontezinha da praça local, materializou-se do nada uma substância invisível e palpável que, com o tempo, recebendo configuração humana, transformou-se num juiz togado para o arraial.
                        Pelo vendaval que assolava a cidadezinha ao entardecer, percebia-se sua passagem entre as velhas árvores do jardim.
                        À tardinha, aquela névoa (que, devagar, foi se tornando cada vez mais densa) passeava pela praça sobraçando um grosso volume de capa negra onde anotava coisas que ninguém jamais conseguiu ler.
                        Sua cabeleira postiça francesa, de cachos encaracolados, imperceptivelmente tornada visível, lembrava os senhores de escravos das gravuras de Debret e seus sapatos, que chiavam como botinas novas, possuíam saltos estilo Luiz XV e eram delicados como murros de mentira.
                        Apesar da austeridade de seu porte, quando tomou posse de seu fictício cargo -após materializar-se de vez-, sua barba ruiva encrespada e seu olhar semi-vesgo lembravam um auto-retrato de Van Gogh de chapéu.
                        Surgia pouco antes do pôr-do-sol e desaparecia logo após o sol posto, quando, no horizonte, as nuvens se tingiam dum escarlate gotejante cada vez mais escuro. Nesses raros momentos as crianças, às vezes, o cercavam e dele recebiam uma infinidade de lições práticas para a vida... Nesse raro tempo ele contava coisas de uma família que tivera, filhas folientas, divertidas, dadas a festas e à curtição de faixas sonoras, filhos pescadores e esposa decifrática, enigmística e cabalística...
                        As outras pessoas dedicavam-lhe a mínima atenção. Naquela época os afazeres e fainas diários não eram feitos automaticamente pelas máquinas: porisso, diziam, não tinham tempo para ele...
                        E ele foi  se adaptando em nosso meio, com aquela solidão própria das pessoas sem serventia e agastadas pelo desuso...
                        E, como todo só, vivia curtindo uma saudade baiana e outra carioca, netos impossíveis e vontades de fugir  - outra vez - para o nada...
                        Dizia-nos que a todos enxergava transparentes como ele próprio fora, porém com espaços opacos como o das radiografias, segundo ele, nossos sentimentos impuros.
                        Nas flores arrefecidas do jardim, soprava um hálito fertilizante que as renovava instantaneamente.  Às vezes, apanhava uma rosa ou outra flor qualquer e ia despetalando-a sem maiores explicações.
                        Gostava de pedir fitas mini-cassete virgens -emprestadas- (que não devolvia!) e garantia ter um aparelho a pilhas com que gravava, pra não se esquecer, (nessa ordem) o canto dos pássaros, o riso dos garotos chegando, a canção da brisa assoviada entre as árvores e o murmúrio -  que só ele ouvia - da noite caindo.
                        Tinha especial predileção por uma canção fúnebre de discutível bom-gosto.
                        Com os anos, perdido o aspecto de fantasma que lhe conferia toda a originalidade, o perscrutador dos recônditos anseios e sentimentos da população foi relegado ao esquecimento.
                        Quando aparecia, diziam, era pra incomodar...  Principalmente quando, sem querer ser moralista, fazia investigações sorumbáticas em seu livro iniciático e encetava investidas lógicas a favor dos bons costumes que, naqueles dias, desandavam para o deboche e o relaxo total, devido ao aparecimento de um invento diabólico chamado “Aparelho Lúdico-Sensual”...  Nessas pregações, verdadeiros sermões de Vieira, usava princípios práticos e salutares de envolvimento emocional que os irreverentes taxaram de afeminação.  Quando soube, ele sentiu triste tristeza tristezante e tristou de vez...  Mas passou.
                        Então, após amealhar argumentos irrefutáveis, convocou as crianças para o seu primeiro julgamento.  Alvoroço no arraial...
                        Numa grande tela panorâmica formada de nuvens de médio porte e armada sobre a serra que dentilha o horizonte do lugar pelas bandas a nordeste, elas assistiram como que a um filme onde, num cenário que sugeria uma sala de Júri, os adultos hipócritas ocupavam o banco dos réus.
                        Soberbos, nem apresentaram defesa. Foram julgados à revelia e condenados.
                        Os visados -aquilo era uma indireta- encararam o fato (após assistirem clandestinamente à projeção) como uma farsa, uma brincadeira de mal-gosto.
                        Mas, desse dia em diante, viveram procurando um meio de se livrar do magistrado de meias justas,  fixadas com ligas à altura da barriga da perna; daquela “” como diziam...
                        Nunca souberam que ele participara, na acusação, de todos os julgamentos do tribunal do Santo Ofício.
                        Se ao menos desconfiassem, não teriam, em represália à comédia da condenação e em repúdio à adesão infantil ao veredicto final, contratado, para dizimar os inocentes, um famoso profissional conhecido como Herodes, o Colecionador...
                        Os adultos, de tanto ler e reler manuscritos e tratados de Magia Negra, tornaram-se bruxos razoáveis e tanto pesquisaram que, um dia, encontraram a fórmula (exata e única) para eliminar o magistrado.
                        Nessa época suas barbas e cabelos mais pareciam espumas de algodão cascateando-lhe o peito e os ombros.  Por isso, nada mais natural que, no futuro, um talentoso pintor sacro se inspirasse em sua figura, sem chapéu, para fixar a imagem do Criador no teto da nave Central da Igreja Matriz de Coivaras.
                        Certo domingo, o juiz, de toga e beca, apareceu enforcado na corda do sino de um templo que ainda não existia.
                        Aqueles que o fizeram, decidiram a própria sorte.
                        Fiquei sabendo de tudo, ainda no sanatório: ele mesmo mo contou!
                        Depois da igreja edificada, de vez em quando, de surpresa, os sinos dobram e a aparelhagem de som paroquial leva longe os acordes duma cantiga de réquiem.
                        Então, quando isso acontece, algum adulto morre e vai se encontrar com ele para o acerto de contas...

o preço

                        Os habitantes de Coivaras eram fanáticos. Época junina: o lugarejo nessa ocasião costuma celebrar o suicídio milenar de Judas Iscariotes.
                        Quando a turba chegou ao lugar tradicional, a figura já estava amarrada ao poste de sempre.  Ali, no esteio de aroeira dum outrora curral, malharam-na bastante.
                        O ritual prosseguiu no chão, onde o judas reagia aos pontapés com piruetas e tombos peculiares.  Sem um grito, sem gemidos.
                        No silêncio da região desolada, a execução prosseguia...
                        Os namorados haviam partido dias antes, com um transatlântico amigo, para a região do Pomar...
                        Certos insetos noctívagos, as aleluias, infestavam o retângulo pouco iluminado da malhação. Os troncos de uma queimada fumegavam na paisagem além e suas brasas se confundiam com as lacraias e os vagalumes pimpalgantes.
                        Como a ideologia do arraial era o fanatismo, os ânimos se exaltavam, radicalmente céleres.
                        Na malhação, as contrações de dor do desafeto pareciam vivas.
                        Meu amigo Juca Bonequeiro, artesão dos judas encomendados anualmente, fizera um trabalho perfeito. (O comentário era um só...)
                        Aliás, notaram: até àquela hora ele não aparecera para cobrar o serviço,  - o que era de se estranhar -  pois gostava de receber os cobres adiantados!
                        O tumulto no pasto crescia demolidor.  Móveis quebrados virando lenha amontoada.  Uma velha cadeira de preguiça virou cinzas: era uma relíquia da família dum homem que morreu de velho no alpendre de sua fazenda com os pássaros ciscando farelo de bolo de fubá em seu colo acolhedor.  Quando quebraram um velho piano estrangeiro para -aumentar o combustível da fogueira, suas cordas soaram desafinadas...  Arrancaram-nas, entregando-as para um velho de cartola e fraque que não parava de chorar...
                        Os sapos da redondeza, como todos os anos, acorreram ao local: ali as aleluias seriam presa fácil nessa noite.
                        Aos poucos, a sede de sangue da turba adoidada se aplacava na surra aplicada ao traidor de Cristo.
                        (Psicologicamente, um simples caso de transferência masoquista...)
                        Para desespero de todos, ele resistia aos golpes: nos anos anteriores já teria se desintegrado nessa altura.
                        Às pancadas    - mais fracas já -   dos  fanáticos  babando  traumas,       ele - consistente e elástico - caía ao solo como um acrobata, encantando aos batráquios...  Pererecas, sapos, rãs e familiares, assistiam aos folguedos alimentando-se das incautas aleluias, usando suas línguas de mola.
                        À medida em que perdia seu aspecto folclórico, o títere parecia mais real, mais hematoma. Mais humano. Mais sangue e menos tinta. Mudo, suportou toda humilhação e pancadaria.
                        Apenas quando o coloquei -solicitamente- na fogueira (e as chamas já o devoravam) seus gritos lancinantes e o bonzo odor de carne assada horrorizaram seus algozes.
                        Rebuliço geral!
                        Quando apagaram o fogo - depois do espanto inicial - era tarde: nada encontramos. Tinham as aleluias desaparecido e os sapos samaritanos carregado os restos da marionete (semi-cremada?) para sua lagoa, conhecida por “Brejo da Caveira Lumienta”.  Manhã seguinte, notaram a água de seus coaxos coalhada de palha rubra, trapos coagulados e esparadrapos inexplicáveis...  Os restos de pano e o que sobrou do material adesivo-silenciador pairaram -assim o sol nasceu- sobre a superfície de águas turvas.  Após alguns minutos de exposição solar secaram e deslocaram-se a seguir, para o alto, numa velocidade incrível, até encontrar um satélite que os transportaria para a Região do Pomar... O Brejo, num redemoinho maluco, foi sugado por um Portão Sideral, e partiu também para uma região transitória da Quarta Dimensão. Serviria de atalho para a volta à Terra de  uma entidade maligna, tal Guardamó, conforme se registrou alhures, nas Efemérides de uma Fazenda Interior...
                        Nunca mais o pequeno artesão de fantoches de Coivaras criaria um modelo tão perfeito...  Uma vez sumido o mestre bonequeiro, assumi seu posto. (O que por muito tempo garantiu minha sobrevivência!)  Eu sei que ele jamais aparecerá para cobrar o serviço.  Na condição de seu ajudante, cobrei-lhes,  aos fanáticos,  um preço (cá entre nós, Juca) relativamente baixo...
                        (Você não tinha preço, caro amigo...)
                        Recebi...  Mas como relutaram!
                        Mil vezes mais idiotas, os habitantes do arraial continuam fanáticos...

a placa

                        Desde muito tempo, bem antes da fazenda me pertencer, as duas esferas luziam por algumas horas, por sobre as cristas sombrias da serra distante, nas noites de lua nova.
                        A lenda varou gerações: dizia que eram os faróis de um caminhão Fargo - carregador de toras-, desastrado morro-abaixo, na curva duma vacilante trilha já desaparecida pela erosão dos anos...
                        Quando adquiri a propriedade, conservei-lhe o antigo nome: hoje é outro.
                        O pessoal de Coivaras sempre vem até aqui com potes, moringas e garrafões de vários tamanhos, buscar a “água-da-saúde”, gratuitamente.
                        Verdade: falido quase estive, devido ao insucesso de várias lavouras consecutivas.
                        Mas, depois do que aconteceu e antes que eu formasse as pastagens e as enchesse de reses, minhas colheitas bamburraram inúmeras vezes...
                        Relembremos...
                        No começo parecia uma bolacha escura, opaca, absurda. Surgiu horizonteante e atrasou o nascente na fazenda, tapando a saída do sol que brotaria por detrás das serras, inundando de luz os campos e, de fogo, as águas.
                        O rio, de há muito represado pela formidável barragem da primeira usina hidrelétrica construída em seu curso, tornara-se imenso reservatório, denominado, conforme uns e outros, “represa” ou “lago”.
                        No galho mais alto do limoeiro, o galo entoara sua cantiga diversas vezes e suas asas já cãibravam pelo esforço repetido do ruflar que lhe antecede o canto, sem resultado: o dia, teimoso, não raiava na hora costumeira...
                        As vacas, ordenhadas, esperavam o sinal, sem afastar-se dos currais.  Era estação em que o astro primeiro desponta, para o gado, então, se dirigir ao pastejo, por certo ruminavam em sua intuição irracional...
                        Os peixes noturnos, que costumam buscar a profundeza, assim a luz vem chegando, se atonitonizaram.  Tal ocorreu, também, com os que, fugindo àqueles, mergulham à noite para volver à tona na aurora...
                        Ecologia, instintos, flora, fauna, tudo perplexou!
                        Contudo, à medida em que a estrela do dia ganhava altura, a bola pôde ser identificada: uma cabeça morena, infantil, descomunal.  Estava a léguas de distância e, no entanto, percebíamos-lhe os mínimos detalhes do rosto.
                        Os olhos eram castanhos, límpidos, e, quando piscavam, deslocavam o ar, provocando pequenas ventanias, desnorteando o vôo dos urubus acima de nós.
                        Do nariz bem feito, pendia uma substância sabendo a chiclete esverdeado: porém o visgo verde voltava à cavidades, a cada suspiro das narinas craterais.  (Na hora não pude avaliar o alcance epidêmico daquele monstruoso resfriado, caso o muco nasal chegasse a escorrer ao chão...).
                        Os cabelos negros, reluzentes, sem artifícios, caíam-lhe sobre o pescoço cobrindo as orelhas perceptíveis e enfeitavam, em franja, a testa da criatura.
                        Da boca extasiada redonda, os lábios eram mordiscados, a intervalos regulares, pelos dentes alvos, perfeitos, de segunda dentição e sua coloração acompanhava o tic nervoso do ser: ora se avermelhava, escarlate, com o auxílio aliviante da língua rosada, ora se empalidecia devido ao arrocho dental...
                        Tudo escureceu novamente, de súbito.  Uma sombra se abateu sobre a região, renovando temores apocalípticos nos colonos agrupados à minha volta.  As mulheres, então, histerizaram.
                        O gigante levantara-se.  A trincheira natural, à sua frente, parecia feita de papel, como as fictícias paisagens dos presépios.
                        Ao colocar o pé sobre a montanha anfractuosa, o chão se arrebentou e as pedras se deslocaram, como nos terremotos. Aos passos que se seguiram, renovaram-se os abalos estupendos e, espetacular, ele caminhou em nossa direção. Oito ou nove passadas foram suficientes.
                        Como não corri para abrigos -que sabia, inúteis- foi a mim que ele se dirigiu ao agachar-se.
                        Tomou-me em suas mãos - cálidas, aveludadas- e levou-me até rente aos olhos, levantando-se ao mesmo tempo.
                        Procurei não olhar para o chão enquanto subia, num átimo.
                        A vertigem e o enjôo cessaram: o vento soprava forte naquela altitude.
                        Ao ser examinado, senti-me, à visão de suas franjas, como se estivesse debaixo de pendentes toras de grandes jacarandás.
                        A tempestade e o trovão que se seguiram às suas primeiras palavras, fizeram-me rolar na palma enorme, tapando ouvidos que ensurdeciam.
                        Passada a momentânea tormenta, me animei a olhá-lo: havia me colocado a uma distância segura. Sua expressão de espanto -ante a minha fragilidade-, logo se tornou -como se ele tentasse escusar-se- em um ar de mil-desculpas...
                        Sorri para ele.  Jamais me esquecerei de seu contentamento ao ver-se perdoado...
                        O sorriso de criança mais lindo que já pude contemplar!
                        Então, entredentes, sussurrou: “Você conhece o Gulliver?”
                        Não me deixou responder.  Um avião -Cherockee ou Cessna, particular, não recordo o prefixo- se aproximava distraído.
                        Mesmo tendo guinado violenta e repentinamente, foi alcançado pela outra mão do infante colossal.
                        Teve -inconscientemente?- o cuidado de não esmagá-lo, tomando-o pela cauda. Nem permitiu que a inércia liquidasse seus dois ocupantes: acompanhou a velocidade de cruzeiro do aparelho com um movimento do braço, reduzindo lentamente sua trajetória antes de trazê-lo até perto de mim com outro movimento do membro.  Desapercebidamente roçara nas hélices que se esfacelaram. O motor tossiu, engasgou e morreu, sem maiores conseqüências.
                        Examinou-o detidamente.  Cheirou, escutou, lambeu o inseto mecânico.  Depositou-nos cuidadosamente no solo e se afastou.
                        Pude retirar do aeroplano os homens desmaiados e levei-os para a sede da fazenda, onde ficaram aos cuidados das mulheres da casa.
                        Com apenas um passo ele alcançara a beira do lago e saciava uma sede inimaginável.  Ao terminar, em mais de metro baixara o nível das margens.
                        Sentou-se.  Arrancava -como se fossem cenouras- algumas palmeiras, coqueiros-macaúba e comia-lhe as folhas.  Demorava-se degustando o sabor da polpa -o “palmito”-, sem se importar com os espinhos -em certos casos, mortais, para nós da roça...
                        Tendo se alimentado, esticou o pescoço de banda e tocou, com o indicador, no veículo vermelho estacionado no declive dum terreno em cultivo.  Oh! Deus! Logo estava brincando com meu trator, cuja caixa-de-câmbio ficaria em frangalhos: eu o deixara engatado...
                        O eco do meu grito ficou muito tempo no espaço, onde outro som não havia.
                        E ele continuou se divertindo com a máquina, estragando os implementos...
                        Tudo calara-se: a natureza quedou num transe mudo.
                        A ilusão, enquanto dura, aquinhoa os que vivem seu encantamento com a rica experiência do silêncio...
                        O menino gigante andava nu, razão de sua pele bronzeada.  Pernas e tronco roliços, severamente proporcionais ao resto do corpo: poderia contar seis-sete anos, se reduzido à nossa estatura normal.
                        Comeu, daí a instantes,  todo  o  fertilizante  que  usaríamos  na  safra:  saquinho por saquinho.  Então, recostou-se a um monte e de lá ficou a contemplar, com uma saudade infinita, o gado esparramado pelos pastos, o tremaguar da represa, as aves e as nuvens passageiras.
                        Em breve, ressonava. O som desse leve ronronar era como se mil colhedeiras trabalhassem numa mesma gleba, a um só tempo.  E seu cochilo profundo devolveu às coisas e seres o desconcertante impacto da realidade.
                        Passados cinco dias, como ele ainda dormisse, voltamos aos afazeres.  Mas, como todos receassem uma nova visão do gigante, e executassem apenas serviços periféricos nas imediações das benfeitorias, ao redor da sede, tive  - eu mesmo - de campear o gado, apartar bezerros e abastecer de sal os cochos mais distantes...
                        O conserto do trator danificado ficaria para um amanhã em que houvesse suficiente ânimo para uma ida à cidadezinha.  Ademais, já não me preocupavam as coisas pequenas, de somenos importância, como prejuízos e anexos...
                        Na noite do nono dia do sono sísmico, um maior ruído, um arrastar de enormes passos tateantes me despertou, terrificado.
                        Ouvi, num sibilo, o chamado: “ôi...”
                        Abri a janela do quarto, após acender o lampeão.
                        O rosto rente ao chão brilhou na pouca rara luminosidade da chama e os olhos longínquos -faróis amarelados de caminhão Fargo?- refletiam a luz como se fossem a superfície vertical de algum brejo anti-gravitacional, gelatinoso.
                        -Você conhece o Gulliver? -perguntou-me outra vez...
                        Ainda daquela vez a resposta morrer-me-ia na garganta: o gigantinho assustou-se com o clarão fugidio duma estrela cadente e ergueu-se presto. Estendeu seu longo longuíssimo braço e amparou o astro que despencava no imenso vazio.
                        Colocou-o novamente em seu devido lugar no firmamento: tudo estremeceu quando, nessa tarefa, arredou algumas nebulosas, com gentileza.
                        Sentou-se. Olhando para o alto, pôs-se a contar: “uma, duas, três...!
                        Não tive coragem para interrompê-lo.  Após alguns minutos parou a contagem: sei que contou apenas até quarenta e cinco: seu murmúrio era audível a quilômetros.
                        Não contava além daí? Ia eu perguntar-lhe.
                        Mas logo virou-se todo satisfeito, como se me dando satisfação pela brusca interrupção de nosso diálogo: “Tá certinho! Conferi!”
                        E verifiquei que -no alto- as estrelas tinham um brilho novo e a lua clareava diferente.
                        Ousei acusar-lhe o problema acarretado pela danificação das máquinas agrícolas e queixar-me da destruição das centenas de sacas de adubo.
                        Procurei demonstrar-lhe, em termos acessíveis -carinhosos mesmo!- o resultado de suas façanhas.  Ele, no princípio não entendeu.  Longas explicações adiante, compreendia afinal!
                        Pegou-me em sua mão e conduziu-me até à gleba em preparo para plantio.
                        Sob minha supervisão, em dez minutos, amanhou todo o terreno, utilizando-se dos dedos.  As unhas funcionaram como autênticos discos de arado e as impressões digitais do polegar fizeram o serviço de desterroação.
                        Nunca a terra fora tão bem preparada...
                        Depois, na parte mais alta do terreno recém-arado, defecou.
                        Em seguida, sobre o monturo, urinou com capricho: irrigava-estercando, com parcimônia, cada recanto da terra revolvida.
                        Sem esforço, fez o necessário nos sítios dos vizinhos que me haviam contratado serviços de arar e desterroar.
                        Tudo em questão de hora e pouco, com o testemunho das galáxias piscaluzentes...
                        Bem antes do sol surgir, tudo estava resolvido.  Aí ele bebeu e banhou-se no reservatório prateado, fazendo-o transbordar.
                        Levou-me de volta à janela.  A coriza o abandonara.
                        -Você conhece o Gulliver? -perguntou-me pela terceira vez.
                        Não conhecia. E na região não existia tal pessoa, -foi minha resposta.  Aliás, adiantei-lhe ainda que jamais ouvira falar nesse homem, me desculpasse a ignorância...
                        Demoradamente, na linguagem peculiar das crianças, narrou-me uma história um tanto quanto inverossímel. Mas, me convenceu: ao fim da conversa estava triste, fez beicinho e, por mais que reprimisse, não impediu a queda de algumas lágrimas. O resultado do fato só pude aquilatar quando amanheceu...
                        Nas cavas profundas, duas poças gigantescas, o líquido permanece. A fonte, inesgotável, possui propriedades medicinais - segundo as análises.
                        Findo o breve pranto, pediu-me algo para levar como recordação.  Facultei-lhe a escolha. Destinou-me um desajeitado, triste, enorme adeus antes de rumar em direção ao lugar de onde viera, levando a placa de entrada da fazenda, sobre cujo fundo negro, letras azuis diziam “FAZENDA GULLIVER - Município de Coivaras”.
                        Quando sua cabeça desapareceu por trás do perfil montuoso do horizonte, o sol desabrochou sangrento, hemorroidal...

a rotina

                        “Ôooooo vaca!  Ôoooo...  vacôoooooo”
                        Soava na noite escura o chamado cadenciado do rebanho.  Estávamos de sobreaviso.  Dentes trincando.  A um sinal -comum a todos os amoitados- uma gama de sinais luminosos, provindos das lanternas de mão, varreu os ares e se concentrou numa área cinqüenta metros à nossa frente.
                        Nenhum corpo estranho recebeu a iluminação artificial! O círculo formado pelos fachos foi-se estreitando até convergir-se a um ponto central comum, e nada!  Nenhum objeto ou ser animado poderia escapar ao cerco luminoso que organizáramos.  No entanto, nada!
                        Então, acima de nossas cabeças, reboou -em repetição- o chamado do rebanho.  Com nosso ímpeto de busca transformado em cabelos arrepiados voltamos para a sede vazia.  E, mais uma vez, incrédulos, fomos gozados!
                        Havia começado meses antes, quando tomáramos posse daquelas terras adquiridas do poder público de Coivaras.  Fora na ocasião do caso do cavalo voador...  Não faltou quem nos avisasse.  Honestamente, fomos prevenidos das novidades ocorridas nas terras recém-negociadas.  Debocháramos da velhinha habitante da tapera situada numa faixa de terras-de-ninguém.  Segundo ela, aquela região havia sido palco de inúmeros Sabás na antiguidade.  Nos arredores de antigos brejos, eram realizadas periódicas assembléias de bruxas e feiticeiros que realizavam malefícios carnais, produziam terrores e criavam mistérios abomináveis.  Horripilantes profanações tiveram lugar ali, em outras épocas...  Um exagero de luxúria, incestos e vícios inconfessáveis...  Não demos ouvidos à megera, cujos olhos pareciam brasas relampejantes ao relatar horrores que parecia ter assistido...
                        Nas primeiras noites após a mudança, objetos caíram sobre a casa, numa sincronia de espaços que parecia cronometrada.  As pedras, cascalhos, castanhas de coco-macaúba, estrume de gado, tudo caía sobre o telhado, volatizando-se a seguir e, às vezes, atravessando as telhas sem deixar sinal, despedaçava-se no chão, às nossas vistas...
                        Coivaras, distante três léguas, era o refúgio único: um padre...  Uma igreja e as águas bentas das capelas do lugarejo...
                        Ainda nos primeiros dias, vários seres repugnantes surgiam e desapareciam por entre as bananeiras do quintal.  Faziam caretas e gestos indecorosos, portadores de grandes, enormes órgãos masculinos e femininos. Vários peões foram contaminados de uma volúpia indescritível: sua rebeldia contra os costumes, sua reverência ao vício e às paixões, suas manias sacrílegas (pisoteavam crucifixos, queimavam estampas de santos, quebravam imagens) suas aberrações no campo da sodomia, tudo fazia crer numa completa submissão ao Príncipe das trevas...
                        Começava a surgir, nítido, num quadro incrível, o esboço de antigos freqüentadores de Missas Negras!  Os homens pareciam tomados e tinham suas forças multiplicadas.  Algo nos segurava naquele lugar, sem possibilidade de fuga.  Realizaram ofícios descabidos para nossa época,  que terminavam em banquetes orgíacos.  Então, nus, loucamente excitados, totalmente embriagados, entoavam hinos estranhíssimos, para depois realizarem as mais hediondas e repugnantes conjunções carnais.  Meus homens  foram se tornando bestas...
                        Desde as primeiras dúvidas, compreendi tudo: éramos escravos duma entidade misteriosa e não poderíamos escapar da atração e do lento aliciamento daquele monstro invisível...
                        As coisas chegaram a um clímax e o poço onde mergulháramos parecia não ter fundo.  Foi quando a velhinha vizinha nos visitou.  Contou mistérios, como se não temesse nada.  Parecia ter certeza de sair incólume daquele lugar aziago.  Enfim revelou: fora a última virgem consagrada no último Sabá ali realizado havia três séculos antes!  Disse que aguardara todo esse tempo, à espera da vingança.  Sua hora, então, chegara!  Portadora de fluídos poderosíssimos, alçou vôo e foi se transportando por sobre toda a região, recitando salmos inintelegíveis e exorcizando todos os homens tomados que iam voltando à sua vida normal, como se estivessem saindo de um longo período de letargia e amnésia.  Quando o cântigo terminou, as legiões de demônios que andavam pelo lugar tinham sido recolhidas às suas origens.  À medida em que exercia seu domínio sobre as criaturas medonhas, a velhinha se tornava talvez transparente talvez santa, sei lá. Sabemos que sumiu com a tapera e o canto.
                        Os homens permaneceram com os olhos saltados das órbitas e nunca mais os tiveram na posição normal.  Pelo menos enquanto estivemos juntos!
                        De tudo, ficou a perturbante evocação do rebanho, a voz trovejante que chamava as vacas quando a noite descia.  E as poucas investidas contra a casa, já agora encaradas como fenômenos menores.  E repetiam-se com variações em seus efeitos.  Materializavam-se pedras dentro da casa.  Dos armários saíam seixos e terrões que se esfarinhavam de encontro às paredes.  Clarões ofuscantes - como flashes fotográficos - iluminavam repentinamente a casa dentro da noite, quando então os cômodos eram varridos por mãos invisíveis em meio a um forte odor de chifres queimados.  Os cães de guarda sofriam verdadeiras sessões de surra coletiva, no quintal.  Logo recomeçaram as manifestações diurnas do incômodo visitante que nos recebera no início da ocupação.  Não se cozinhava impunemente:  as panelas se enchiam de barro e detritos, estragando-se a comida.  Tomávamos sopapos saídos do nada, caso reclamássemos com imprecações.  Nos pratos fumegantes de nossas refeições, -algum dia feitas na dispensa fora da casa- apareciam, colocados por mãos invisíveis, minhocas, sapos, lesmas, vermes, gusanos e  insetos peçonhentos.
                        Seria a hora da cobrança?  O pagamento pelos prazeres irregrados?  O fantasma se tornava sadicamente lúdico.  Os homens, simples lavradores, que por obra de feitiçaria recolhida ou bruxaria retroagida haviam servido de instrumentos para uma vingança entre demônios, uma vez voltados à sua pureza primitiva, à sua caboclice supersticiosa, e já podendo crer ou não no que viam, iam perdendo lentamente seu juízo recém-recuperado...
                        O fantasma, numa noite, esmurrou tanto uma janela que o barulho e/ou o medo terminou por enlouquecer os peões ocupantes daquele quarto,  e que até aquele momento rezavam, contritos, velhas orações ouvidas na infância. Saindo os restantes à procura do autor das batidas, elas tornaram a se repetir, agora, de dentro para fora da casa.
                        Uma cartucheira de tiro duplo teve os canos amarrados em um nó.  Nossos facões encontravam um aço invisível e faiscavam quando vibrados na direção de algum som incompreensível.
                        Então, achei um livro bruxesco, numa escavação para cisterna.  Encadernado com pele humana (reconheci pelos polos), trazia inúmeros manuscritos e mapas estranhos.  Após anos de estudo, consegui decifrá-los!
                        Quando o tempo não mais existia para nós, na fazenda, e sem mais poder fazer que dar atenção às peripécias de nosso hóspede e verdugo, organizamos a patrulha noturna que diariamente saía para localizar o autor dos chamados que se arrastavam pela noite adentro: “Ôoooo vaca! Ôooo vacôooooo...”  E porque quando, sem nada encontrar, retornávamos tudo recomeçava, tomei a decisão.  Com o Manco e o Homérico, auxiliares diretos, parti para a conquista de nossa liberdade.  Mas ai já é outra estória...

o epitáfio

                        (Nota inicial: “Lembranças Obrigatórias”. “Anotações-De-Não-Esquecer”.  “Registro Sensitivo-Encantoso Na Falta De Câmara Fotográfica”.  “Documento da Marcha Aventurosa”.  “Pesquisa de Curiosidades Serranas Nas Cercanias De Coivaras, a Pérola da Canastra”.  “O Desafio Da Serra Insólita”.  “Ruínas Castelares Da Diabólica Fascinação”.   “A Conquista Do Eu”.
                        Com toda essa titulança aí engatilhada, esclareço que poderia logo de início elucidar a trama, fornecer pista do enredo e colocar todos vocês no rumo certo da compreensão do texto.
                        Mas, como tenho aversão a tudo quanto seja enormidade titular e chamariscos adjacentes, jogo, pra contrariar, o titulozinho escabroso que leram lá em cima. Faço, contudo, uma ressalva quanto ao preterido “A Conquista do Eu”.  Se funcionasse como “A Conquista Doeu” seria uma frase, não um título; porém me serviria.  Se tirasse “Do Eu”, ficando “A Conquista”, poderia parecer nome de vaca, de arraial, de parada de trem ou sei lá mais o quê.  Porém não importaria: usá-lo-ia assim mesmo, caso não houvesse, no fim de tudo, atinado com o que achei. E vão me dar razão.  Portanto “A Conquista”  substitui, na primeira suplência, o escolhido. Caso se esqueçam do primeiro, vale o segundo.  Se bem que “Epitáfio” não deixa de ser uma “Conquista Do Eu”. Vamos aos fatos...)
                        Os três cavaleiros, municiados de sortilégios, planos indecifráveis, sensualidade aventurística e ambições individuais (e ocultas!), iam levantando poeira rubro-negra naquela hora madrugal, apesar do sereno e do orvalho na estrada.
                        As ferraduras tilintavam sob um arsenal de bichos, homens, ferramentas, víveres, armas estranhas e fluídos negativos.  Garbosamente galopeantes, as coisas vinham escarrapachadas, penduradas e amarradas nos ginetes madrugadores.
                        (Enquanto não chegam na encruzilhada Fatal - onde tomarão rumo pré-determinado, uma rápida descrição dos três.  Ela segue-se nessa ordem, devido à colocação das cavalgaduras, uma vez que vinham emparelhados ombro a ombro, adiantando-se o que tinha o cavalo mais tropeçante).
                        O primeiro, de chapéu de feltro Ramenzoni legítimo, botinas de goma de Saltos Perdentes, óculos de aros dourados, cabelos revoltos, curtos e alourados, era um tanto baixo em relação aos outros e vinha armado de um Schmidt -32, balas anexas, um naco de geléia de mocotó (pra refazer energias), meio quilo de queijo tipo-minas, - meia cura -, vestindo camisa de malha vermelha, calças jeans (índigo-blue) surradas, parecia envergar uma panóplia; no rosto sério um cavanhaque de fios de cobre e um lacrimejar intermitente em ambas as vistas - donde saíam rugas entalhadas no dia-a-dia de lutas funrurálicas e intrigas sogrosas previstas para o futuro.  Quase não fumava.  Era leve, delgado, porém musculoso: nervos de aço e fibra de bandeirantes.  Previa-se, à moda de sobrancelha, um bigode alvo e basto para a sua velhice.  Sob ele, um magnífico eqüino, pampa de roxo, marchador repicante, acelerado...
                        O segundo (o do cavalo que se encontrava logo atrás na hora desse flagrante-e-descrição) era um gigante agilíssimo, de idéias geniais: o cérebro organizador da expedição. Olhos míopes, cor clara, sangue indígena-germânico: verdadeiro mente-aberta, vidente nas horas vagas, pretenso poeta e prosador, pintor e esculturista.  Pirata dos Céus das Bocas, segundo donzelas atacadas. As roupas largas, facilitando o movimento da montanha de músculos que abrigavam, iam esvoaçando ao movimento do galope.  Cinza e de brim, a camisa, por baixo da enorme arreata de penduricalhos onde se exibiam, esganchados, a cartucheira, os utensílios de uso serrano-escalatório, os cantís, as ferramentas perigosas, os espantosos Mapas Enigmáticos (numa sacola-bolso camuflada) e o coldre com a parabelum 45. De bandoleira, o fuzil ia a tiracolo.  No pescoço, um crucifixo carcomido de velhos suores, pendente-balançando na ponta em “V” duma corrente de ouro roubada.  Um vasto chapéu de palha, dos bem baratos, sem marca, deixava na penumbra o rosto viril, barbudo, bigodoso, ressecado de vento e poeira, crespo de solagem exagerada e frios imperceptíveis, vincado pelas injustiças do Mundo, carregado de ódio e sensualidade desenfreada.  Os cabelos longos caindo negros por debaixo da aba abaixada.
                        Os braços livres seguravam rédea e cigarro de filtro barato, baiano.  O traje dos pés era um velho e ressequido coturno militar de épocas remotas, calibre 44, que ia entalado no estribo, sustentando no lóro, ao sacolejo da galopeada, com o molejo das pernas hercúleas, o corpo cavalgante.  As calças, duma mescla rústica, aninhavam o tremendo corpanzil sobre o pelego macio e ruivo, de lã argentina, amparando-lhe os sensíveis fundos bundíferos à dureza dos arreios.  Montava o maior animal, um soberbo alazão marchador e usava óculos de correção com lentes cinzentas, fotocromáticas.
                        (Aqui volto à cena geral, afastando-me -em zoom- dos detalhes em close. Fica pra depois a descrição do terceiro personagem e sua montaria porque, nessa justa hora, chegam ao lugar onde devem tomar rumo à direita, após terem alcançado o alto da ladeira em que vinham.  E isso o sei por tudo o que passo a dizer mais adiante.  Cumpre-me, nesse ponto, também, deixar a narrativa que fazia na terceira pessoa -que vinha utilizando por uma questão de modéstia-, passando para a primeira pessoa, integrando-me na história que agora adquire o tom de relatório-documentário.  Justificam-se essas explicações entre parênteses por colocarem-me no epicentro das ocorrências tragediciais e homeopáticas da Aventura.  Assim esclarecido e uma vez que eu fazia parte do trio de Aventureiros empenhados em galgar o topo e adjacências do Pico-Do-Cão -uma falange pétreo-férrea da Serra da Canastra-, passo a descrever-reconstruindo, com fidelidade, sem exageros, o andamento daquela arriscada missão de Reconhecimento, Busca e Decifração).
                        Saímos da estrada principal pela direita e topamos a tranqueira. Tranqueira, colchete, jararaca, tudo isso serve pra nomear um engenho bem mineiroso, substituto econômico da porteira comum de madeira.
                        Ultrapassâmo-lo com prática, rapidamente, sem tempo pra xingatórios à mãe do fazendeiro dono das terras -coisa muito praticada por cavaleiros usuários de caminhos onde há essa praga metida nas cercas por medida de economia.
                        Um duplo trilhote, arremedo de estrada e picada de gado, nos levou a um beco bestamente sem saída. Terminava numa cerca de arame farpado -tapume duma roça precisada de chuva (que logo cairia, se Deus quisesse!), ao lado dum casarão.
                        Um velho moirão de Pau-Ferro impedia definitivamente o caminho.
                        A tapera não nos assustou, apesar dos roncos que emitia em seu profundo sono de séculos. Era o antigo solar-sede da Fazenda Perde-Chão do abastado criador Zéca O. Sinai, um dia próspera e magnífica, porém hoje decadente e duvidosa de lucrações.
                        ¬ “Depois daquela noite de terremotos, trovões inexplicáveis e tremores diabólicos, que colocaram a Serra Insólita no lugar onde se encontra atualmente, ficaram soterradas minhas melhores terras e todo encascalhado meu mundo de chão massapé!” - costuma dizer o proprietário entre lágrimas e soluços histéricos.
                        A coisa, contam os outros -que não é do meu tempo!-, se deu tão enigmática e indecifrável que Zéca, vendo o estrago irreversível, tendo trabalhado todo um ano tentando limpar a Serra de suas terras, e não achando um responsável com quem demandar, embirutou de raiva e mora procurando Baixos-Astrais em terreiros de macumba e centros espíritas, em busca da Assombratícia Revelação.  Teima em afirmar que dele, O.Sinai, após conversar com Deus, desceu um homem com faroletes na testa, carregando uma tabuinhas com algarismos romanos...
                        Na outra ponta da meada de cerca aramosa da rocinha de milho, outro casaréu: em ruínas, mas habitado.  Sede da Fazenda Ganha-Chão, do miserável Osdalvo A. Tálio, o Mata-Cavalos, gleba de desprezível alqueiragem -comparada à vizinha, latifundiária e pedregosa Perde-Chão, com a qual confronta, desde os quintais até às cachoeiras serranas, num corredor imprestável ladrilhado de cascalho e nada mais.
                        Enorme nosso espanto, por chegarmos tão cedo a um fim-de-linha. Além da cerca, a roça; pelas laterais, os mausoléus; bem acolá, a Serra escura -que daí a algumas horas, vista dali, seria um fotograma azulado pela lonjura.
                        Apeamos.  Homérico, o primeiro qualificado, aproximou-se dum curral em atividade de ordenha, próximo à casa habitada.  Nele, meia dúzia de reses eram esgotadas e suas crias (que se encontravam em lastimável estado anêmico devido à retirada total do leite que lhes cabia, por direito, ao nascerem) berravam famintas, após toda uma noite apartadas das tetas maternas.
                        O Mata-Cavalos puxava as mamas com preguiça, sonolento como um puxa-saco.  E informou e concordou.
                        As montarias não subiriam por aqueles caminhos.
                        Desarreamos os cavalos e os soltamos, num piquete rapado, antecipadamente compadecidos com a fome que iriam passar...  Dos três, o branco, o que atendia pelo nome de Prata, relinchou satisfeito, com a proximidade duma égua. Ele era “inteiro” e não percebêramos a presença da fêmea no mesmo pasto.  Ah! Logo trocavam carícias animalares!  Em pouco, todos nós estávamos excitados com a Dança da Mordeção Cariciosa que antecede as fodas cavalares.  Subíamos às nuvens com o estupendo desempenho do macho insaciável.  Foram necessárias algumas vezes, em meia hora, para contentá-lo e à companheira...  Ela chovia uma cascata de líquido vivo pelas ancas abaixo, toda vez que ele desembainhava a espada multicolorida e inquebrável.
                        “Coisa de louco!” “- exclamava baixinho o fazendeiro...
                        Depois do espetáculo de erotismo puro, os dois recém-acasalados se afastaram rumo a um rego d’água, saltitantes, infantís, inocentes.
                        Abrigamos os arreios sob um cedro centenário, transferimos toda a tralha para nossos ombros e pegamos o trilho indicado pelo retireiro, satisfeito com a emprenhação de sua égua por tão raçudo reprodutor.
                        A pé, iniciamos a Marcha da Conquista, cortando a roça pela direita, escafunchando caminho num brejo que logo surgiu, traiçoeiro e obstaculoso.  “Seguiríamos sempre por terras de O.Sinai.  Redobrássemos os cuidados como andarilhos e alpinistas, uma vez que aquele era um sítio aziago, fatídico, repleto de emboscadas naturais e enigmas espantosos.”  Eu havia dado esse alerta quando passávamos, de coque, pela cerca da rocinha, lá atrás.  E não me enganara.
                        Logo ocorreu o primeiro incidente do dia.  Manco, o terceiro ás da Aventura, o inidentificado, o hóspede-por-tempo-indefinido (e, perdoem-me - uma dúzia de outros atributos heróicos), com sua mania de batedor experiente adiantara-se, saltitando pelas pedras lodosas, até cair numa poça negra do pântano, num escorregão de seu calçado de látex e lona -alpercata modernizada-, que eu avisara, impróprio para tal tipo de andanças.  Ele espadanou, feito pato chumbado, por alguns minutos, jogando barro pra todo lado. Como não havia tempo disponível para banhos de lama, jogamo-lhe a Corda Salvadora no momento em que a armadilha movediça do lodaçal já lhe sorvera o corpo até à altura dos rins.
                        Antônio Leopoldo, o caçador de palmitos, o encantador de grãos, adestrara a Corda para tais ocasiões de Perigo Serrano e nô-la havia cedido para o desempenho da Missão.  Ele, também, um perscrutador dos Ermos.
                        Manco, depois de lavado e desenlameado, era o próprio Adão da Bíblia, após seu nascimento adulto. Longos cabelos alourados cascateavam-lhe os ombros largos, despidos do fuzil e da carabina, no chão.  A cintura, vincada e vacuosa.  Ele parecia um surfista camponês, em seu traje esquisito: curtíssimo short de malha e os tênis Iris ou Arco-Puma, não recordo bem.  Do ventre, nasciam-lhe os quadriláteros de músculos rijos que subiam simétricos, proporcionais, distribuindo-se pelo tórax amplo, torneado em aço dourado-inoxidável e descendo, enleados como cipós, pela ossatura dos braços.
                        “Alto de dois metros” - calculei, quando ficou num plano superior ao meu, olhando, dum rochedo negro na subida dum morrinho, o mato que atravessáramos, ainda no terreno plano.  Sua silhueta destacava-se no horizonte azul-prússico de fim de noite, como a de um vigia, no velame de uma caravela. E tocamos o barco...
                        Outra bifurcação à nossa frente! Pra variar, tomamos a opção à direita, caminho de andança bovina e cáprica.  (Procurávamos nos desviar de trilhas batidas, onde pudéssemos encontrar gente curiosa e policial).  Galgando um outeiro macio, recebemos - à maneira de recompensa- o Sol na cara, eis que o Bicho-De-Fogo se mostrava pela primeira vez naquela manhã.
                        Andáramos pelo espaço de uma hora, calculamos, comparando a coloração cerúlea desde o início até àquele momento da jornada.  Os relógios de pulso confirmaram nosso acerto!  Fizemos alto, pois o lugar propiciava uma pequena vista panorâmica de Coivaras bocejando os primeiros sinais de vida, semi-desperta, parcialmente iluminada por engatinhantes raios solares.  Os bóias-frias embarcando...  Os “caminhões-leiteiros” se mandando por mil galhos estradeiros em busca do “leite-de-Cooperativa”.  Uma multidão de pássaros acordados, piando, chilreando, pipilando pelos ares coivarenses, saudando o romper do Dia.
                        Essa parada, a primeira de inúmeras e cada vez mais freqüentes -à medida em que a ladeira ficava mais forte-, foi providencial para mim. Apesar de minha compleição avantajada, convalescia de um tifruço infernal e recente, que me deixara acamado por oito dias, de molho, tomando sopa de fubá com ovos batidos, indicada para expectoração e limpeza brônquica.  Eu começava a fungar, sibilante feito um pneu furado, num sinal de falsa cura.  Porisso digo que aquela genial parada, pra mim, caiu do céu...
                        Embromei a conversa até recuperar-me da primeira arrancada.
                        Depois, descemos a encosta, pelo outro lado do morrote, retomando a caminhada.  Em meio à vegetação espinhenta, local de ranhagatos e malícias, o íngreme declive obrigava-nos a uma traiçoeira manobra de apoio em arvorezinhas e arbustos que -não raro- saíam em nossas mãos com raiz e tudo.  Daquele lado desfraldava-se, no horizonte à nossa frente, o Pico-Do-Cão, nossa meta.  Pra disfarçar, ele imitava velhas ruínas de castelos medievais e coliseus estrangeiros. Na verdade, havia (e só eu sabia!)  um invisível e encantado Cão, sob aquele monstruoso disfarce, caricatura de escarpa serrosa, deitado de costas, o lombo situado a duzentos metros abaixo de nossos pés, terra a dentro...  Pensando nisso, me senti como uma pulga, dono dum segredo indevassável e imune a qualquer tortura delatante...
                        Quando atingimos, no sopé da elevação que descêramos, o nível dum regato serpenteante, uma frescura matinal ainda trescalava pelo ambiente.  Sentamo-nos num lajedo, sobre uma cachoeira ruidosa, alegre, espumante como uma champanha de Natal.
                        No céu azulíssimo refletido na água, nenhuma nuvem: o infinito apreendido. Bebemos o espelho mágico, líquido brotado do coração das pedras no seio da Terra, até à saciedade.  Enquanto contemplávamos, deliciados, os arredores eneblinados, divisamos o Rochedo Recheado.  (Eu ia batizando, na hora, os lugares turísticos, de acordo com as Instruções e confirmava sua localização, nos Mapas Enigmáticos, quando podia). O Rochedo era um corte na montanha, e mostrava, parecendo bolo de aniversário, o colorido das fatias em azul, verde-musgo, rosa, laranja, tudo malhado de ferrugem e ouro, umas sobrepostas às outras.
                        Mais afeito que os outros ao ofício de colorir as telas da retina com a beleza campestre, eu ia-lhes indicando os pontos lindos e as pictóricas maravilhas naturais.
                        Descansados, vistas limpas -definitivamente- das manchas da noite mal dormida, nos enfiamos mato adentro.  Súbito:
                        “Não se movam!”  - uma voz estranhíssima nos ordenou de algum lugar que não enxergávamos.
                        “Quem são? O que querem? Para onde vão?”- disparou a mesma voz, num tom imperioso, de espantar.
                        “Somos de boa paz, Irmão!  Buscamos exercício para o corpo e para o espírito, numa andança com destino!  Vamos ao Pico-Do-Cão, numa marcha de alpinistas!  Essas armas são pra defesa de nossa vida, somente!”- arrisquei a responder pro misterioro interlocutor.
                        “Dêem um giro em torno de si mesmos!”
                        Assim o fizemos.
                        “Não trazem nenhuma espécie de arapuca, gaiola, alçapão ou armadilha de pegar passarinho?” - tornou a perguntar a voz, menos ríspida agora.
                        “Não! Absolutamente!  Pode ver, não?  Adoramos os pássaros e não gostamos de tirar a liberdade de ninguém.  Podemos jurar, se quiser!” - terminei, convencendo até meus companheiros que menearam a cabeça afirmativamente.
                        Então, um bando de pássaros veio voando até perto de nós.  Uma espécie de líder se adiantou e era um pássaro-preto.
                        Estendeu-me sua asa direita, em cumprimento.  Pediu perdão pelo susto e disse dever-nos uma explicação.  Dizendo-se um pássaro ventríloquo, confessou ser artista de circo fugido.  Já havia morado em casa de tolerância, cantado em bares de luxo e botecos baratos.  Veio para aquele sopé serril pra regalo do atávico anseio.  Que por ali tudo era sossego até tempos atrás, quando começou um homem a aparecer por perto todo sábado, vindo de Coivaras (que já haviam-no seguido na volta!), sempre trazendo um capanga negro.
                        “Ele traz uma gaiola com uma ‘chama’ nitidamente dopada - afirmou.                  Com a qual vivia tentando cativar os semelhantes. A passarada não dava pelota praquele canto narcotizado, mas foram se revoltando com a perversão do gajo, fazendo a menina ficar ali feito doida chamando um companheiro pro cativeiro...
                        “Tentamos fugir daqui nos dias em que ele aparece...” - continuou.            Pensavam, assim,  fazê-lo desistir de voltar à região, não vendo nada ali.  Até que hoje, estranha coincidência, colocaram seu plano em ação para a libertação da donzelinha cantadeira.  Tinham já chegado muito passarim e passarão. Tudo sabedor da malvadeza! Tucanos, quero-quero, cará-carás, gaviões, urubus, sanhacinhos, coleiras, canários, tordinhos, melros, gente de cá e de lá detrás da Serra! Iam desfechar dali a pouco o Ataque da Libertação!  Dariam o troco da natureza revoltada ao Homem Predador!  Aquele grupinho que nos contatou estavam ali como sentinelas, para evitar possíveis testemunhas do massacre: seria desagradável - eles achavam - novas vítimas em troca de um silêncio.
                        A seguir nos deu passagem.  Se quiséssemos, - nos autorizaram -,  poderíamos tentar demover aquele cabeça dura do Rima daquela maluca empreitada de pegar curiós daquele jeito revoltante.  Mas nem um pio sobre o ataque.  Tinha que libertar a cativa na base do entendimento, por espontâneo, sem ameaças: salvaria assim a própria vida e a do negro. 
                        Saímos depressa daquela clareira chilreante, atravessamos um braço do riacho, escalamos um desbarrancado e chegamos até próximos ao famigerado caçador e seu assecla.  Gritei:  “Oh!  Rima!  O que faz por essas bandas sem curiós?  Endoidou?  Nunca vi dizer que se pega curió em beira de serra!”  Ele replicou: “Ó Alemão, vá encher outro. Sei o que faço! Ocês tão atrapalhando a ‘chama’ aí perto.  Cai fora! Se manda siô!”
                        Ainda tentei: “Deixa disso, solta a bichinha, homem sem coração!”
                        “Deixá disso?  Ela vai valer cincoenta mil contos, coiózão! Arreda! Cê tá doido, ó Alemão? Sortá a bichinha? Que história é essa?  Ficou maluco, sô!  Já enjeitei quinze mirconto e nem tá no ‘ponto’ ainda!  Vá caçar coquinho e me dexa queto com meus passarim!”
                        Seria inútil - percebi - qualquer esforço meu.  A ameaça que pairava sobre eles nem precisava mesmo contar: não acreditariam e zombariam ainda por cima. “Ah! Passarinho ventríloquo, é?  E na bunada, não vai dinha?” -  era mesmo que estar vendo o Rima sarrear pra cima de mim.  Torci o pescoço disfarçadamente em direção à mata e pude notar um relampejo de asa preto-azulada me acenando um adeus...
                        Andamos sem parar até atingirmos a Planície das Aroeiras, rescaldada por inúmeras queimadas.  Uma extensa faixa recoberta de capim jaraguá.  Um oásis de terra boa, frutas silvestres, mangabas e articuns.  Algumas reses se aproximaram de nós, esperando sal.  Ah! Foi um custo dominar o Manco e convencê-lo de que aquilo não eram bisões e, nem ele, o Búfalo Bill!
                        Novamente molhamos os pés em um brejo: agora, em plena planície. Menos perigoso, era, contudo, traiçoeiro em atolações e perdeção de calçados.  Superâmo-lo, atingindo de passagem, sem querer, (não constava do Mapa Enigmático) um recanto que marcou, por sua singular beleza natural, o Início das Descobertas Violentas:  uma grota curiosamente iluminada.  O enigmático clarão ofuscante provinha dum gigantesco espelho incrustado -há quantas eras?- na ladeira, do outro lado da fenda profunda, arborizada com capricho pelo Eterno Arquiteto.  Nele, o sol se refletia em milhões de espelhinhos mágicos, lantejôulicos, miçanguentos...
                        Com o auxílio da Corda Salvadora, descemos, ávidos de maravilhas, até ao fundo da furna, onde um regato cantante, lambendo as pedras, nos convidou a despir e descalçar as bugigangas.  Ah! Delícia das delícias! Banhar-se numa gigantesca banheira natural, cavada num pedril encantado que jamais tomaria Sol, não fosse o refletir do Penedo Espelhoso, de malacacheta lavrada pelo tempo!  Que contato com a Natureza!
                        As paredes acima de nós, ungidas de musgo e líquem -de raríssimo odor agreste, davam à estreita garganta a majestade de um Corredor do Tempo. Isso mesmo! Exatamente! A água ali correndo -por quantos mil anos? -sulcara, na rocha viva, seu leito atual.  Essa geração há de passar e as águas não terão sulcado mais que poucos milímetros!  Que grandeza!  Quão diminutas nossas forças, crenças e pretensa sabedoria, comparadas à Natureza Eterna...
                        O regato, limpo do turvo das enchentes, águas cristalinas e transparentes, deslizando como prata derretida, esmeraldado pelo reflexo da ramagem das margens, sobre seixos alvíssimos, antisséticos...
                        Foi um momento de Encanto, Mistério e Meditação: os lagartos cochilando nas esteiras naturais de areia branca na margem oposta à nossa!  Quanta calma, meu Deus!
                        Tempo mais que suficiente para a recuperação de meu fôlego.  Logo tornávamos ao topo, pela Corda, e tocamos adiante.
                        O perfil,  a silhueta do Pico, logo tornou a surgir no horizonte alto.  Nova descida e desaparecia novamente.  Embrenhamos num matinho arranhoso e fresco.
                        Homérico, entusiasmado, seguia lépido, com seus ossos ocos como os dos passarinhos, ressequidos como costelinhas de colibri.  Andava seguro pelo chão irregular, seus passos sabendo escolha. Resfolegava ritmadamente, como deve um andarilho camponês.  Ia pensando no futuro, tenho certeza.  Sonhava com um ronronar de motor acionado a óleo Diesel, imaginando-se motorista dum enorme ônibus: mecânica Mercedes-Benz e carroceria Ciferal...
                        Enquanto eu reinava na vida alheia, Manco tomou a dianteira da fila indiana e ia pulando, corpo quente, em qualquer rego ou filete d’água que surgisse à nossa frente, pois o calor crescia a cada braça percorrida.
                        Meu fôlego novamente fraquejando...  Um suadouro seco: sem tempo de molhar nossas roupas, o suor logo se evaporava, como, das pedras, o pó.
                        A encosta começou a se repletar de canelas-de-ema, em floração amarelo-arroxeada.  Ramos e arbustos parecendo envernizados em sua folhagem. (Mistérios da Mãe-Natureza, como proteção às intempéries e ventos constantes.)  Possuíam espinhos nas pontas das folhas...  O ar era mais seco e o vento soprava constantemente. Quase não se viam moscas, besouros, maribondos e outros insetos voadores.  E logo sumiram de vez!
                        Ar de Serra!  A ramagem foi se resumindo a moitas de capim-agulha entre as pedras.  O arvoredo se reduziu a algumas plantas raquíticas, cujos troncos abrigavam, nas reentrâncias de suas cascas, baratas branquelas, percevejos nojentos e outros bichos-de-pau-podre.  Entre outros raros ramos, reconheci o Carrapicho, um subarbusto de folhas lanceoladas, acuminadas, denteadas em serra, face superior pubescente, inferior tomentosa, pedúnculos de três flores, ternadas e opostas às folhas; com seu fruto globoso, piloso e espinhento: inconfundível!  (Os antigos sempre usaram o cozimento das folhas e frutos contusos, em injecção na uretra, contra a gonorréia...).
                        Nossos pés, apesar de protegidos, iam se esfolando nas protuberâncias ósseas.  Uma parada ali, outra acolá: parcos minutos. Cigarros, sempre, a desculpa.
                        Por sugestão minha, aclamamos-unanimemente-um rochedo bonito como “Chatosidade Pedregosa da Merenda” (tudo, segundo as Instruções...). Nele, saboreamos queijo com geléia e café, conversando besteiras, trocadilhos infames e piadas picantes: tudo em jorro, sobre a vista panorâmica -quase total- de Coivaras, agora apenas um amontoadozinho de casas sumidas em meio à arborização frutífera dos quintais. Coqueiros, jaqueiras, jabuticabeiras, laranjeiras, mamoeiros, bananeiras, mangueiras e outros arvoredos frutuosos matizavam o retângulo irregular da Sede do município com mil-e-um tons de verde.  As estradas que riscam o lugar assemelhavam-se, de onde estávamos, a carreiros de saúvas -mais pela cor do chão do que pelo possível movimento que contivessem.  Impossível identificar ao menos um automóvel, àquela distância.  Algumas nuvens no horizonte longínguo iriavam-se, certamente garoentas.  Os meandros da enorme represa, que deixa ilhado nosso lugarejo, desenhavam na paisagem arabescos espelhosos de rara beleza.  Dentre umas cinco ilhas incrustadas nesse lago colossal, ressaltava a Ilha do Prostíbulo: grande, longilínea, delgada como uma serpente marinha.  Destacava-se no meio do Reservatório da Usina Hidrelétrica como um diamante bruto, repleta de indagações e misteriosa sensualidade fálica. Confronta com a antiga Fazenda Gulliver, da qual trocaram o nome, local em que se deu a Aparição do Gigantinho e onde os romeiros, diariamente, buscam a Água da Saúde...
                        Reabastecidos, continuamos a Marcha, passando pelas Pedras do Lavador de Caminhões (batismo nosso).  A subida asperosa danava-me o peito numa chiadeira de velho pigarrento e fanhoso.  Meu coração repicando como o sino da Igreja de Coivaras em véspera de missa.  Tive que me sentar, atrasando-me dos outros que se distanciaram a perder de vista, por trás dum morrote lumioso.  Atinei que qualquer descanso seria pequeno demais pra mim, naquele estado.  Não agüentaria dar mais um passo sequer. Porisso, sugeri nova parada, aos gritos: eles me ouviram e esperaram.  A custo, me aproximei. Acendi o cigarro com indisfarçável tremor nos dedos e fumei demoradamente. Isto é, o cigarro se fumou por si, que fiquei apenas segurando, no disfarce,  poucos tragos conseguindo aspirar...
                        Como queriam retomar o passo, consultei um mapa desdenhoso e enigmístico, em forma de desenhos pornográficos e constatei -mostrando-o aos outros- que estávamos em Terras do Tamanduá-Bandeira, o do temível amplexo.  Ratificamos a localização com a ajuda sinalizadora das Grandes Pedras Brancas. Aproveitei a ocasião e acionei o “Plano Estratégico Para Descanso -nº 2”, resumido em “contar um caso fantástico, extasioso e medonho, em meio a ambiente propício, onde campeiam o receio e a covardia”.
                        Empunharam -imediatamente - revólveres, fuzil e carabina.  Acompanhavam com impaciência o desenrolar do meu enredo mentiroso: olhos desgovernados, olhares soslaiosos, mal esperando o final do caso, doidinhos de vontade de se afastar dali.  Não me admirei.  Dei-lhes até razão: o lugar era um recanto de palmitais nativos, esguios, danoso de pernilongos zunindo -vindos da beira dum brejal mal-cheiroso-.  E, para complicar, imensos formigueiros vazios por toda parte...
                        “Tamanduá é bicho manso e até corre de gente” - eu lhes dizia, arrematando a narrativa com meus indefectíveis conselhos - “mas, se for acuado e conseguir proteger suas costas com um pedregal ou rochedame, ou ainda, se perceber um pouco de temor em quem o persegue, aí vira o Cão!  Se alevanta nas pernas traseiras e vem abraçar o freguês, com aquelas unhas navalhosas e olhinhos de piedade...  Mata abraçando!”
                        Lentamente, a canseira me deixava....  Prossegui: “Só vai embora depois de chupar sangue e miolo pelos ouvidos do defunto...  Teve gente que, não tendo morrido do abraço, morreu de cócegas com aquela linguona comprida e fininha penetrando e saindo, sem parar, de suas orelhas: foram achadas com expressão de quem morreu de rir, cabeça oquinha e sem uma gota de sangue no cadáver!”  Nessa hora, um frêmito arrepiático percorreu o monólogo, como uma lufada de Vento Polar ou geladeira aberta.
                        Tranqüilizei-os, porém, dizendo num toque de erotismo zoográfico:
                        “Se o animal for fêmea e estiver no cio, há uma possibilidade de salvação!”  - e seus olhos brilharam de esperança...
                        “É tentar manipular sua florzinha e coitar com a Bicha-Formigueira.  Depois ela vai embora rebolando e deixa o freguês ir também...  Segundo estatísticas confiáveis, uma delas, num milhão, costuma aceitar a coisa nesses termos...”  - terminei, reticente e inocentemente.
                        “O que não deixa de ser alguma coisa!”  - retrucaram os dois, azedamente. 
                        Como já descansara o suficiente, convoquei-os a seguirem-me.
                        Galgamos uma ribanceira altíssima e o sol tornou a lategar nossas costas, como faz há milhares de anos com os homens que andam sem guarda-chuva nem guarda-sol.  Vimos embaixo, à nossa direita, um riacho (era sempre o mesmo, soube depois por uma Iara) que corria, vindo da direção do Pico, em nosso rumo e depois virava, tomando a esquerda.  Fincamos pé morro-abaixo e chegamos nele.
                        Repetiu-se um saciar de sedes, um entoar de cânticos e uma explosão de tosses.  Submersos, os seixos fulgiam, ao lado de pedrilhos e cristais reluzentes que refrigeravam o olhar, à sombra dum jatobá.  Alguns girinos levantavam uma fictícia poeira entre os cascalhos do fundo, alguns palmos diante de meu nariz.  Os lambaris-prata, esverdeados, espantavam-se com a intromissão humana em seu aquário natural e fugiam feito balas.  Não suportei a tentação: tirando o chapéu modesto e a arreata que carregava, metí-me na água por longos momentos, refrescando as partes pudentas com satisfação.  De fora, os dois, caçoando minha alvura íntima, procuravam, ridicularizando, fazer-me desistir do banho e retomar a Marcha.  Em vão: quase adormeci de fluídico prazer...
                        Foi quando explodiu o primeiro tiro de fuzil: Manco!
                        Um vulto negro, atingido, despencou berrando do penhasco sobre nós, vindo arrebentar-se nas pedras a alguns passos donde estávamos. Tudo num giro de maçaneta, num tilintar de telefone!  Nem tive tempo de olhar direito: nu, corri até à proteção dumas rochas maiores levando minha roupa, onde saquei da arreata a Parabelum e destravei-a rapidamente.  Configurava-se uma emboscada e estávamos numa ratoeira sem saída, à mercê dos atacantes!  Foram longos minutos de espera e silêncio,  entrecortados de rumor de água correndo córgo abaixo, pios agourentos, risadinhas estranhas e cochichos debochantes.
                        “Bandidos?”  - gritei, perguntando aos dois.
                        “Nada não!  Apenas um macaco!”  - berrou Homérico ao mesmo tempo em que ambos saíam dum esconderijo improvisado, gargalhando até ao rego.
                        Furioso, iracundo, mandei-os fazer certos atos perversos e masoquistas entre si (impróprios de se escrever numa folha de papel que se preze) e, degradando-os à estirpe dos muares e asininos, nivelei-os aos piores vermes e lacraias da face da Terra.
                        Depois fui constatar: o símio estava morto, com um balaço entre os olhos arregalados e um rombo que quase acabou com a parte superior traseira de seu crânio.  Ele agarrava o bilau com força, como se o protegesse.  Agachei-me para  melhor exame na raça da ferazinha inerte.
                        “Viu?  Ia mijar nocê!”  - disse o Manco por sobre o meu ombro.
                        “Esse negócio dá boró, não sabiam?  Macaco é bicho que saiu do homem, é ‘semelhante’, aziago, fatídico, estranho e não, não mexe com gente!  Mata-se pra comer, e isso, em último caso!  Nossa matula já está completa, ô Manco!  Praquê a judiação?”
                        “Brincadeira, Alemão...  Esquenta a piolhenta não!  A idéia foi minha, pra testar pontaria e ligeireza...”  - acudiu Homérico, em defesa do outro.
                        Com um muchocho, apaguei os refletores pondo fim à cena.  As cortinas desceram.  Atrás delas, petrificados, restaram a sismiesca figura  morta, três homens cabisbaixos, estando um deles pelado como veio ao Mundo.  Na penumbra ao lado do palco, invisíveis, inúmeros pares de olhos espreitando!
                        Confesso que a piada me amolou e a intuição me avisou, na mesma proporção em que o banho me refrescara o corpo e a idéia... Contei-lhes.
                        Eu sabia, de conhecimento anterior: a carcaça do macaco seria velada pelos companheiros ocultos, contra os animais predadores e as aves de rapina, no lugar onde perdeu o sopro da vida.  (Uma questão de “almas-grupos” que os não-iniciados não conseguem entender.  Esperarão...)  O corpo secar-se-ia em mumificação, sob um sol de cozinhar pedras, por vários dias. 
                        Aí entrou a vantagem de minha vivência: fora um ritual a que assisti, amarrado, sentindo a catinga da carniça por longos dias. Aconteceu certa vez em que matei à-toa,  bestamente, um desses pequenos bichos bugios. Quando ia  saindo do mato, tropecei num cipó e caí, batendo a cabeça numa ponta de pau.  Desmaiei.  Nunca pude saber quem (e como) me arrastou de volta até ao lugar da morte do miquinho sagüi e me atou a um tronco de Angico, com cipós espinhentos que só se quebraram após se secarem, como a mumiazinha à minha frente...
                        Sobreveio uma total mudez  no desanimado recomeço da Marcha.
                        Eu seguia à frente: parecia que a raiva me reanimara, despertando-me estranhas forças letárgicas.  A íngreme vertente parecia não ter fim, apesar de vermos, já perto, defeituosamente crescido pela proximidade, o Pico-Do-Cão, nossa meta.
                        Houve uma parada ainda, um tiro pro ar em busca de eco,  um gavião morto por acaso, um “êta pontaria”, uma procura de tocas, um espinho no braço, várias talagadas no cantil, um bote de cascavel, um ninho de escorpiões, dois cigarros perdidos, um dente latejando e muito gesto de cansaço... Mil cigarros, diria, antes de se completarem as cinco horas da caminhada estafante.
                        Vencemos o penúltimo tope: um entre-vão, um rasgo na serra que se avista, como um horizonte azulado, lá de baixo, do nosso arraial e de várias fazendas da região.  Então, vimos os Dois Caninos: rochedos pontiagudos, inconfundíveis e perenes!  Antes de os rodearmos e sumirmos por trás do falso horizonte, ainda deitamos um olhar de ternura para o caminho percorrido, para as pedras que nos ajudaram e para as águas que nos saciaram...
                        Descendo um pequeno declive, fizemos nova parada.
                        Paramos pra refeição quando contornávamos o Pico, buscando o lado mais alpinisticamente viável para a escalada final.
                        À nossa esquerda se estendiam os terrenos férteis do extenso planalto do Chapadão: pastaria colosso!  Tapete aveludado em verde...
                        Antes de sumirmos desse lado, avistáramos, a dez quilômetros de nós, numa diferença de 500 metros de altitude, bem esmaecida pela distância, uma  colossal vista panorâmica de Coivaras, com toda a área do município sob os nossos narizes, a nossos pés: paisagem que não se prestaria a enfeitar as vistas de qualquer mortal.  Apenas alguns eleitos conseguem atingir tais Alturas da Contemplação...
                        Aquilo abrira -definitivamente- nosso apetite voraz!
                        À sombra dum Amarelinho, o repasto foi generoso e demorado: almoçamos atrás da Serra, comendo o presunto, a galinha com arroz, o pão, o feijão mexido com ovos (que ninguém prepara tão bem como eu!), meu fubá de curação, as frutas frescas do alforge duro, a geléia, o queijo, as broas de amendoim, os biscoitos de polvilho e os sequilhos estralantes que sumiam no céu da boca.
                        O guaraná abriu tudo, à guisa de champanha camponesa.  A Cachaça das Quimeras, preparada especialmente para a Marcha, acompanhou e encerrou o banquete de monges, logo seguida da água que lavou gargantas e dentes, e do café para a boca-de-pito.
                        Os cigarros, degustados lentamente, sublimaram nossa digestão em nicotina e sonolência.
                        O “quilo”, nosso original da versão mexicana “siesta”, prolongou-se por longo tempo e, graças aos vapores etílicos da Beberagem Encantada, todos adormecemos tendo visões sensacionais.
                        Acordamos juntos, como se houvesse hora marcada e despertador. Pedi a cada um relatasse seu devaneio sonífero e revelante.
                        Homérico, sorna, como que hipnotizado, foi o primeiro:
                        - “Uma miragem surgiu dum arbusto perto de mim, às margens duma represa e era mulher.  Não tinha cor assim de gente como nós.  Trazia um microfone antigo na mão direita e um áudio ultra-moderno mal colocado nos ouvidos, por trás, pela nuca.  Sorria um ar de l920 nos lábios arroxeados.  Embora não saísse da posição em que se deu a aparecer, era bem viva, notei.  Seu corpo que não era visível de todo, era uma vitrola estereofônica, último tipo, linda, de marca desconhecida: tenho certeza! No olhar parado, a musa tinha o mesmo ar antigo do sorriso débil.  Nos cabelos curtos refulgia uma tiara de bijuteria -imitando diamantes- em forma de coroa.  A veste imitava uma túnica romana, dos tempos de Nero.  Era uma visão em preto-e-branco, emudecida.  Parecia ter recebido um retoque daqueles que eram usados em pintura de retratos quando não existiam os filmes coloridos.  Repito: era em preto-e-branco e não mais que o busto era humano e perfeitamente visível!  Sua mão surgia do nada, empunhando a peça insólita de irradiação.  Meu cavalo estacou, quis pinotear, boleou e depois quedou paralisado, como se uma âncora o prendesse a alguma profundidade subterrânea.  Uma grande ferradura de sete furos, dessas que dizem trazer sorte (o que é mentira, pois se desse mesmo o burro não puxava carroça!)  surgiu camuflada em ímã, e segurava o pampa pelos pés ferrados, sem que pudéssemos fazer nada.  Quis descer e mexer com aquilo, coisa de feitiçaria, descendo o pau pra todo lado.  Mas, surgiram uns quinhentos meninos rodando piões e fustigando formigas saúvas com as fieiras.  As inimigas das lavouras foram crescendo, crescendo e viraram velhos camponeses aposentados, que me agradeciam não sei o quê e se precipitavam nas águas, se afogando em suicídio coletivo. Uma figa de madeira de peúva, encastoada de alpaca, balançava-se à nossa frente, pendurada numa árvore atoa.  Dois cachimbos enigmáticos de madeira de roseira brava  e uma fita de gravações urrando blasfêmias e uma dúzia de pilhas e um eliminador-alterador de voltagem vieram em nossa direção, gingando no ar, ao ritmo do silêncio.  Não se ouvia um pio.  Tudo transcorria numa algazarra silenciosíssima, própria mesmo de sonhos!  Quando a atração magnética se desfez, virei o pagão num chasco da rédea  e fugi por uma estrada boiadeira.  Naquele mesmo instante um carnaval começou naquele barranco do rio, num estrondo de enlouquecer.  Tesouras, confetes e serpentinas voaram pra todo lado cortando os ares. Acordei, quase asfixiado pelo um cheiro estranho de lança-perfume muito fedorento...”
                        A confusão visagística enrolaria qualquer decifrador menos experiente.  Para mim, porém, era clara demais.  Contudo, a pedido de Homérico, dei-lhes uma mini-interpretação do Sonho, desviando-os, porém, do Núcleo Fatídico que só eu poderia entender:
                        “Sabe, companheiro, o arbusto do início, pelo jeito era um Carquejo Amargoso, não era?  - e ele aquiesceu meio duvidoso. E continuei: - “Planta alvissareira essa, sub-fruticosa e ramosíssima, caule de três decorrências foliáceas, interrompidas de distância em distância, com as interrupções ora de um lado, ora de outro, flores brancas em capítulos dispostos em glomerulas nas sumidades dos ramos, formando espigas interrompidas...  Seria o sentido de sua vida?  Veja bem, caro amigo...  Simboliza, por outro lado, a Cura Total.  Já a mulher-miragem-sem-corpo significa a Doença-Em-Surdina.  Ou também a Miséria Terrível e a confusão nascida dos cogumelos tornados pó...” 
                        Aproveitando as reticências para uma olhada sonhosa aos céus, logo encerrei a mensagem interpretativa numa conclamação assustadora: ”Tome cuidado com lombrigas, velhas intriguentas, e vermes que podem estar morando em seu corpo, como a Miragem, em seu Coração.  Ambos bebem-lhe as energias...  Tome rarical, losma, qualquer outra bebida amarga, aromática e resinosa, como tônico e anti-helmíntico!” 
                        Aproveitara-me de sua condição de ex-candidato a farmacêutico e um pouco conhecedor de plantas medicinais, para impressioná-lo...
                        O Manco, assustado, relutava em apresentar sua Sonharia.  Enfim concordou e disse: “Nós três, a cavalo, já ultrapassáramos treze quilômetros além do Indaiá.  De repente, tivemos que parar à sombra de uma Imburana.  É que as (oito + quatro- hum...)  doze patas dos malungos viraram pneus e murcharam juntos, totalmente dilacerados por anzóis de fisgar Dourado de todos os tamanhos que se engarrancharam neles.  Os animais pneumáticos foram tremelendo, orofuscando, rarimelhando e se metamorfosearam  num fusca l300, de oito cilindros e doze rodas.  Então, a sombra da árvore sumiu e, de tudo ao redor, ficou apenas o carro, prateado, estacionado.  Você, Alemão, virou um velho fazendeiro antigo, gordo e patenteado e o Homérico aí, um ordenança de coronel, aposentado e puteiro.  O agro-pecuarista latifundiário fungou a meu lado, de pé, no meio daquilo que fora a estrada.  O imediato começou a chorar, pois compreendeu que o deserto onde nos encontrávamos ainda estava fresco porque era de manhã e soprava um resto de brisa noturna mas que, daí a algumas horas, o ar estaria irrespirável e o sol, rachando abacates, cairia sobre nós, obrigando-nos a entrar no carro, então transformado em forno crematório.  Os dois, -vocês!-  se consolaram com palavras sindicais eruditas e abriram o guampo de cachaça Lopinha (um velho berrante de boiadeiro com o fundo vedado e uma rolha no bocal).  Mediram, em seguida, doses no copinho próprio e, de uma em uma, se embriagaram.  Não pude acompanhá-los porque minha boca estava cheia de algodão, pregos de caixão de defundo e formigas pretas roendo-me a língua (era a sede, em sentido figurado!).  Vocês ficaram tão de-fogo que o calor do sol nem os perturbava:  os centígrados internos eram mais fortes.  Peguei minha forquilha de vedor de água (que trazia disfarçada em estilingue de moleque) e saí andando ao redor, por muitas horas, enquanto o encanto permanecia.  Quanto voltei ao ponto de partida o carro estava rubro, em brasa e vocês, numa frigideira de ferro colocada sobre o capô, cheia de suor gorduroso do fazendeiro gordo, estalavam os ovos dos seus escrotos, os próprios culhões de vocês!  Comeram-nos, após, com o melhor apetide canibálico.  Aí surgiu a camela.  Duas corcovas, em pleno cio.  Percebi, pelo relampear de sua pomba.  Pestanejou de longe, na clássica atitude de espanto dos “Navios do Deserto”  e se aproximou, curiosa.  Mentiria se dissesse que ela falou com qualquer um de nós!  Requebrou-se demoradamente, como uma odalisca fugida de algum harém sultânico, diante de nós.  Quando parou, percebeu nossa sede e, para me agradar e conquistar, vomitou num caldeirão de isopor três litros de água, um para cada um, de seu tanque sobressalente.  Matamos quem nos matava!  Ela me sorria, enternecida, feminina, sedutora.  Esperei a noite com seu manto escuro e quando ela se deitou acariciei-a nas partes sensíveis e ela, excitadíssima, expeliu um líquido altamente afrodisíaco que me endoidou de luxúria e desejo.  Depois, levantou-se e se pôs em posição de receber camelos, o que, infelizmente, distanciou-me de seu lânguido e lascivo sexo.  Eu tinha a obrigação de satisfazê-la!  Vocês dois, acordados com meus sussurros e murmúrios tentando fazê-la deitar-se novamente, aproximaram-se já escarnecendo de meu estado de ‘alta-tensão’.  No começo, tentaram dissuadir-me -puritanamente- da relação zoofílica.  Depois, ante minha cegueira e insistência, foram contagiados de sensualismo bestial e dirigido.  Sem nenhum respeito, sem ternura, o velho fazendeiro disse: -Ah!  Se eu fosse mais novo e ela uma donzela loura lá da minha colônia!!!  O ordenança retrucou-apoiando: -Ah! Se ela fosse uma morena que eu gamo, sem esses cupins fedorentos!!!  Aí foi minha vez de sarrear vocês.  Joguei-lhes na cara que não passavam de eunucos e só poderiam, doravante, gozar por trás, uma vez que tinham comido os próprios bagos...  Disse-lhes, ainda que a insinuação de sua superioridade em matéria de tesão, não me atingia.  Muito menos seu menosprezo pela falta de fidalguia e tato em minha posse camelosa.  Muitíssimo menos seu esbravejamento e ofensa,  acusando minha tara bestial.  Eu lhes disse alto e bom som, pra terminar de vez com a frescura dos dois: -Ah!  Se ela fosse mais baixa!  Ah!  Se eu tivesse uma escada!  Ah! Se eu fosse um camelo pauzudo, se eu fosse mais alto, se eu tivesse amigos que me servissem de escadinha!  Ah!  Se ela me entendesse e tornasse a se deitar!  Ah! Eu ia fuder essa danada, fazê-la feliz até murchar essas corcundas!...  E, tendo dito isso, tirei o desejado pra fora e masturbei na frente dos três até conseguir.  E foi um estrondo danado quando as gotas, em jacto, atingiram a areia!  A paisagem desértica desencantou-se e o carro transvirou de novo nos três cavalos...  Seguimos caminho até atingir a Ponte Alta, com roupas andrajosas, meleca de toda ordem, sujeira e barbas crescidas.  Fomos vaiados, ao chegar, pelas éguas que pastavam defronte à capela da vilazinha.  E começou um terremoto: mas era um vento que eu soltei e o Homérico aí pensou que era lança-perfume.  Acordei com o ronco do meu próprio peido!”
                        Percebendo que o Manco mentia, aumentando ou inventando passagens,  me abstive de comentar sua Visão e notei que ele ficou aliviado com isso pelo desanuvio que estampou no semblante...
                        E logo relatei minha Visão, em poucas palavras: “Íamos cavalgando -por coincidência, Manco, - nós três, pra lá do Arraial do Sapé, quando, na encruza da estrada com a rodovia asfaltada, uma barreira nos impediu a passagem.  Foi de repente!  Eram enorme pedras de Dominó que surgiram do nada e entulharam o caminho.  Negras, com aquelas pintas vermelhas, amarelas e verdes, pareciam semáforos enlouquecidos. Nisso, já não estávamos a cavalo mais!  Sim, num ônibus Scânia, pilotado pelo Homérico aí, tendo o Manco por cobrador e eu, por único passageiro. estávamos presos entre uma avalancha e um engarrafamento do trânsito.  Algumas bombas-de-São-João principiaram uma bateria anti-aérea e foguetes, do mesmo santo, começaram a espoucar por todo lado, como nos comícios políticos de Coivaras.  -’Cáspite!’  -foi a única coisa que eu consegui dizer antes de soar um apito agudo e tudo se transformar numa praça de esporte, parecida com o Estádio do Maracanã.  Na azáfama, o veículo tinha se transformado, em reencanto, num camarote ou tribuna de honra e o que assistimos parecia ter sido extraído das Sagradas Escrituras e das Anedotas de Bocage.  Inicialmente, foram cenas brutais, de onanismo, perversão, violentação de donzelas, feitiçarias, alquimização e anarquia sexual generalizada.  Aquilo mexeu com meus tendões e me enervou.  Senti que era um tempo assim, meio de Sodoma e Gomorra...  Mas, num turbilhão redemoinhoso de ventania repentina, as cenas foram sumindo para o fundo do gol e o quadrilátero gramado foi invadido, entre escoltas, por escolas de samba em desfile, bandas marciais, carros alegóricos, museus de cera com quadros patrióticos, velhinhos disputando renhidas partidas de bolinhas de gude e bocha; numa outra parte, campeonatos diversos: arremesso de quimbas, levantamento de copos, tênis-com-frutas-de-lobo, tudo associado falicamente, numa coluna penífera, em toda a extensão do estádio.  Uma garota romena, impúbere, com movimentos graciosíssimos fazia evoluções nas barras assimétricas, impecável, arrancando demorados aplausos ao público constituído por nós três.  Um negrão, recordista, errava o bote, perdia a medalha e não batia um recorde facilmente superável: dirigia olhares inconfundíveis para nosso camarote.  Logo acenava, da boca do túnel dos vestiários, como se nos provocando... Manco queria ir lá para dar um pau nele.  Sei lá!  Ele não parecia de briga não.  Acho que queria era outra coisa e o Manco sabia disso.  Foi um custo controlá-lo...  Num canto à nossa direita, um velho peão domador de burros fazia seu pito de palha, com paciência e arte.  Foi chutado, sem cerimônia, como se fosse uma bola, da marca do escanteio e, voando, penetrou a rede num gol olímpico, virando, entre as malhas da cidadela, um peixe grande, uma curimba.  Seu canivete veio -enferrujado- ter às minhas mãos, a palha virou chapéu e o grosso tagote de fumo veio planando em nossa direção.  Infelizmente, penetrou pelas pernas da calça do cobrador do ônibus e foi sumindo em seu recôndito enquanto ele se remexia sem parar, o que só fez quando o rolo de tabaco, misteriosamente, foi engulido por seu corpo, absorvido por seu organismo sequioso, na região intersticial das nádegas.  Ele, (você, Manco) desmaiou pela grossura penetrante, estrebuchando, com o membro ereto visível por baixo das vestes.  Nós desconfiávamos, Homérico e eu, dos reptos de valentia e rompantes de machismo do companheiro.  E naquela hora se configurou sua intersexualidade...  O motorista levou uma colherada de pau entre os olhos quando tocou a mão entre as saias duma vendedora de cocada-baiana, com tanta força que o sangue esguichado do nariz molhou recentes torcedores fanáticos e deu origem a um regato rubro que logo inundou todo o campo e se transformou no Mar Vermelho.  Por pouco tempo, porém.  Logo um profeta barbudo -esculpido em pedra-sabão por um aleijado- bateu na superfície com seu cajado de sucupira e o mar se dividiu em dois. Pelo caminho aberto nas águas sangrentas, uma multidão começou a penetrar no camarote, após atravessar o leito seco do Milagre, até chegar ao nariz do motorista.  Ele espirrou, alérgico, e uma senhora, que disputava um concurso de fantasias originais, teve as vestes levantadas, deixando à mostra suas formas esculturais, refrescadas pela brisa do espirro.  Quando tentou tocar em sua macieza, o motorista apertou um botão ao invés do clítoris e ocorreu um desencanto e o camarote voltou a ser o ônibus.  Um veículo desastrado na rodovia, melhor dizendo.  Apertando a buzina por socorro, Homérico estava era se afirmando na cabeça do arreio, no meio da estrada movimentada, em tempo de ser atropelado, enquanto o chamávamos, com pressa, do outro lado do asfalto,  o Manco  e eu.  Seguimos caminhos, com o Manco -impossibilitado de ir sentado-, levando a montaria pelas rédeas.  Um redemoinho zumbindo no meu ouvido me acordou, nocauteado por um mal-cheiro filho-da-puta!”
                        Pedi então licença pra satisfazer necessidades e me afastei, deixando-os perdidos em conjeturas sobre o real significado daquelas visões.
                        Afastado, remexi nos mapas pela centésima vez.
                        (Ah! Sim! Explico agora o porquê dos meus atrasos na Marcha, em relação aos outros.  É que não deviam notar a existência dos Mapas, enquanto não atingíssemos o cimo do Pico-Do-Cão.  Uma medida de precaução que tomei desde o início da Jornada e que respeitei não obstante a apresentação daquele Falso Mapa, nas Terras do Tamanduá-Bandeira, feita para fins de Teste de Assombramento, cuja utilidade verão logo adiante.  Como tudo correu segundo o previsto, evitei de mil maneiras que me vissem consultando os verdadeiros Mapas.  Porisso me atrasava, vez ou outra e, perdoem-me, ia contando, sem explicar, disfarçando, esse meu relato, despistando vocês da verdade dos fatos, para que também não deixassem de ler o resto da história, por medo da Intriga Nefanda e da Mesquinharia Odiosa.  Fiz -como viram- o impossível para conseguir que chegassem até nesta altura do texto.  Cheguei -contra meus princípios de vaidade halterofilística!-  até a convencê-los de uma profunda fraqueza minha, de minha pouca valentia, mínimo heroísmo e diminuta resistência física.  Como vêem, não poupei sacrifícios, usei de todos os artifícios para mantê-los interessados em minha história!  Agora esclareço isso tudo, pois sei que não deixarão de acompanhar essa epopéia até o fim!).
                        Como dizia, remexi mais uma vez nos Mapas, longe deles, e voltei.  Já haviam juntado os talheres do repasto formidável e perguntaram-me se eu havia ido fabricar prego...  Reencetamos a Marcha Gloriosa, revigorados em nossas forças!
                        Manco, a uma ordem minha, se pôs à frente, levando a Corda Salvadora e iniciamos a última etapa da escalada: a mais perigosa, arriscadíssima.  Ele fincou estacas, colocou as argolas e ia atando a corda por onde deveríamos subir, escalejando a Vertente Oeste do Pico, uma pedra acetinada, cortada na vertical, a prumo de 90 graus com o chão, sustentados apenas por nossos músculos sendo exigidos ao máximo em sua resistência.
                        Suávamos horrores.  Nenhuma nuvem no azul.
                        Por sonoplastia, apenas o grito metálico dum gavião, espantado com a invasão de seu reino nas alturas.
                        Pelo caminho foram se amontoando répteis mortos: cobras, tiús, lagartos, camaleões, pequenos dragões.  Tudo conseqüência e alvo de pontarias infalíveis.
                        A toca da Jaguatirica, ultrapassada há muito, estava deserta e uma velha ossada de veado mateiro, nos dissera duma ausência ôncica já antiga.  Umas lebres que pastejavam lá perto confirmaram, com sua tranquilidade, a presença afastada.  Atinei que morrera ou mudara-se dali.  Retirei- pesaroso- aquela fonte de encanto do Catálogo, retificando, na hora, o Mapa.  Quando quase atingíamos o Pico, pedi cuidados redobrados, uma vez que, se estivesse viva, a Bicha poderia estar zanzando lá por cima, ou até nos aguardando numa tocaia traiçoeira...
                        Extenuados, chegamos.  Quanto a mim, rolei pra longe da beira do precipício, uma vez que não aguentava -realmente- andar com as pernas.  Estiramo-nos no chão, exangues, esfolados pelas escarpas, depois de duas horas de enérgico alpinismo camponês.  As cãibras percorriam-nos de lado a lado, e quase adormecemos de cansaço.  Só os cigarros nos mantinham despertos!
                        Então acionei o Plano Três.  Antes que cogitassem do segredo que os fez seguir-me na busca conjunta do Tesouro da Garrafa-do-Enigma, deveria espantá-los, para que não atrapalhassem meus planos de Êxito Solitário.  Como já os havia testado no Teste de Assombramento, foi excluída por completo a possibilidade de eliminação sumária.  Para grande alívio meu que, se necessário,  os teria executado, embora esta opção me contrariasse.
                        Passei, então, a lhes relatar, detalhadamente, o perigo com que estariam lidando na Busca, mostrando-lhes o Mapa do Assombramento Total (um velho pergaminho de letras apagadas que eu forjara e passava, maravilhosamente bem, como verdadeiro).
                        Fazia isso para afastá-los do lugar, já que não me serviriam de nada após terem me ajudado a chegar até ali.  Fazia-o, também, (e aqui se revela minha veia humanitária)  por amor aos dois, uma vez que, não sendo iniciados nessas coisas de Mistérios, Enigma e Decifrática, poderiam, inclusive, sucumbir na Hora das Acontecências Sinistras...
                        Dizia lá o pergaminho: “Caso se liberte o Feitiço do Pote Encantado, ele poderá agir em pessoas duvidosas de conhecimento alquímico, da seguinte forma, em escala crescente de Malefício: os efeitos do Mal notam-se claramente em três graus de intensidade. No primeiro, manifesta-se a mucosa da boca e a do tubo digestivo ligeiramente irritada, a língua saburrosa, despida de seu epitélio, as glândulas salivares engorgitadas: tudo como se a vítima tivesse praticado um Coito Oral com um Demônio Macho; então haverão secreções dos brônquios, rins e pele; e algo mais ativo, feitiçárico mesmo, produzirá dejecções alvinas de cor esverdinhada e denegrida.  No segundo grau, ficam as gengivas, língua e paladar entumescidos, inflamados, doloridos, as glândulas salivares irritadas, acompanhado tudo isso de um repuxamento e distensão incômoda no queixo (como nas vítimas do tétano), seguido de uma salivação estranha e gosmenta, como a que se verifica, de praxe, nas Mulheres Faladeiras que baixam ao Inferno!  Pela boca, justamente, expele-se um hálito fétido, um gosto metálico -coisa particular da carne podre-, ao mesmo tempo que há um emagrecimento, uma redução na estatura -violenta-, uma reação febril e disposição para hemorragia pelos olhos, nariz e ouvidos.  Haverá aborto certo se, grávida, a Vítima for Fêmea!  O terceiro grau é um verdadeiro envenenamento crônico, onde se manifestam todos os fenômenos acima descritos, com maior intensidade.  A língua fica inchada, as gengivas ulceradas, os dentes abalados -e caem-,  sobrevindo, afinal, gangrena da cavidade da boca e necrose das maxilas.  A salivação é abundante demais, chegando a afogar, assim como, nas dejeções alvinas, pedaços dos intestinos, não raro, são expelidos no lugar das fezes.  Todos os intensos calafrios, prenunciando febre irreversível.  Todos os tecidos sofrem, os músculos são laxos, os ossos friáveis; na pele manifestar-se-ão diferentes afecções. As glândulas linfáticas incham, o fígado é afetado, sobrevém icterícia, as funções dos nervos são alteradas, sobrevindo um tremor convulsivo das mãos e nos pés, gagueira, paralisia, falta de memória, asfixia e, finalmente, a Transformação em Cantárida!”
                        Para eles, que estavam recuperando energias para encetar a Busca, isso foi como água fria na fervura.  Os ânimos arrefeceram por completo.
                        Tentei - fracamente, pouco convincente, confesso - fazê-los animar-se e abandonar a idéia da Fuga, explicando-lhes:
                        “Ser Cantárida, significa apenas tornar-se inseto (para quem ainda não seja), ter um cheiro adocicado, desagradável, narcótico e acre, um gosto quase cáustico.  Significa, apenas, ser reduzido à insignificância de 6 centímetros, em média, ter a cabeça, tórax, elitros e abdômen coberto por uma felpa curta, de cor branco-acinzentada, deitado e aderente em toda a sua extensão; significa, ainda, ter cabeça quadrada, quatro asas -duas superiores de bela cor verde, que se muda, de lado, para azul e áurea; duas inferiores, membranosas, transparentes e pardas. Significa, também, nutrir-se de folhas de cururu, pimenteiras, batatinhas e algumas leguminosas; ser amiga das borboletas silvestres, das lagartas e dos bichos-da-seda; verter pelas articulações um líquido oleaginoso e vesicante, caso seja-se capturada; conter um óleo essencial, volátil, verde; mais: osmozoma, ácido úrico e outros elementos químicos essenciais à Arte da Feitiçaria e à Ciência da Alquimia!”
                        Em vão! Uma nervosia os acometeu (como eu previra!) e ficaram revoltados comigo por fazê-los tão perto de tal perigo e maldição.  De nada valeram meus protestos de “inocência por sua ignorância”.  Ofendidos, torcendo os narizes, buscaram rapidamente o caminho da volta, deixando-me a falar ao léu, a sós com meu  Dilema...
                        Gritei-lhes que iria enfrentar sozinho qualquer feitiço e enigma que se apresentasse.  Gritei mais forte, para que me aguardassem debaixo do Amarelinho onde almoçamos e que deixassem a Corda Salvadora atada no lugar por onde viemos.  Chamaram-me de louco, maníaco das ocultices, mas concordaram em esperar-me.  Eles não puderam ver meu sorriso de satisfação, pois virei-lhes as costas e rumei ao encontro do Ignoto...
                        Demorei-me talvez por duas horas.  Quando voltei, descido do Pico, trazendo a Corda, eles me aguardavam na esplanada, no local combinado.  De longe, já começaram a me xingar...
                        “Enganei-me no aquilate de sua bravura!”  - pensava eu, quando os seguia Serra abaixo, ungido e batizado pelos Fogos da Clarividência.
                        Não me deixavam alcançá-los.  Por eles, abandonavam-me naqueles ermos, na serrania.  Fugiam espavoridos de mim, como se algo intangível os assombrasse...  Tropeçando nos rochedos, torcendo tornozelos, quebrando galhos, espinheiros e canelas-de-ema, só pararam ao tombarem exaustos, após uma hora de descida desenfreada, à beira de refrescoso poço.  Aí os alcancei!
                        O céu tendia a chuva: eles me olhavam ressabiados.  O vento começava a sibilar violento e tétrico.  Foi um tempinho apenas, para um trago no café e um naco -o resto- do queijo.  Tornamos a calçar os sapatos que tiráramos para resfriar os calos na água abençoada.  Novamente a correria serra-abaixo, pés estourados, tornozelos escalavrados de espinhos e pedregulhos.  Menos beleza na paisagem.  Nenhuma parada para Admiração à Natureza...  No céu, as gordas nuvens, antes chumbo, agora cascatas iminentes...  Um rebôo de trovão ricocheteou na estratosfera.  Tudo esvoaçando, fremendo de receio frente à violência dos elementos.
                        (Penso agora, nesse meu Silêncio de Pedra, relembrando tudo aquilo, que não deveria ter tocado a nuvem indócil e coceguenta que passava sobre o Pico...  Muito menos deveria ter arrancado um pedaço dela para obter algumas gotas de água destilada e matar a sede.  Mas, por outro lado, o que poderia ter feito?  Os dois companheiros, na pressa fugosa, levaram os cantís e no Cimo onde me encontrava não havia o precioso líquido hidratante...  Isso não deu para justificar a depredação?  Não!  Não deu...  Penso mesmo ter sido essa a causa da revolta que se verificou, subitamente, no firmamento...)
                        Na descida, ofegante, pressentia que dentro em pouco iria enfrentar as Águas da Penitência, tornando-me Oráculo Vivo de uma Profecia, tendo em vista o que se passou no Pico-Do-Cão, o que a seguir relato fielmente.
                        Lá, sozinho, procurava, enquanto os dois desciam, o Vasilhame da Simpatia.  Logo depois que desmantelei um canto da nuvem e satisfiz minha sede, o encontrei!  Graças, em primeiro lugar, à memória atávica que me onceja o faro.  Em segundo, aos Mapas Enigmáticos.
                        Sob a Oca Rochosa cabiam, no mínimo, cinco pessoas, com folga.
                        Ela estava com a entrada disfarçada por avencas secas e uma poeira de centúrias (camada de meio metro).  Quando a penetrei, as vistas se me estatalaram nas órbitas.  A gruta estava repleta de teias que impediam a passagem.  Ao rebentá-las notei a animosidade de várias aranhas em conluio sinistro.  O primeiro objeto que vi foi um duende ou ser extra-gelático esculpido em pedra, que levei comigo como lembrança.  Ele imitava um aleijado pedindo esmolas ou um lavrador implorando chuvas...  Depois encontrei inúmeros bonecos alfinetados com agulhas já enferrujadas.  Nas paredes internas, hieróglifos, mensagens rupestres, tudo louvando o Cão, o Senhor daquele mundo subterrâneo.  O medo ameaçava meus planos.  Providenciei, imediatamente, uma proteção moral, invocando ancestrais santificados.
                        Descobri, em um nicho acolchoado, a Garrafa do Enigma!
                        Brilhava ofuscantemente.  Toquei-a, sentindo um choque arrepioso de emoção percorrendo todos os meus pêlos, em especial, os íntimos.  O arrepio concentrou-se-me no escroto, fazendo recolher-se toda minha “maquinaria de guerra”  corpo adentro, como uma hérnia ao inverso, clipsorquemente!
                        Acendi meu Cachimbo Sorumbático repleto de tabaco perfumado e especial.  Defumei o ambiente.  Peguei, em seguida, sete tocos de velas:  três verdes, três marrons e uma preta e, na brasa do meu pito, incendiei seus pavios de Rastilho Bento.  Os “pontos” firmados à Floresta, à Pedreira e às Trevas, coloriam o ambiente múmico, tirando aquele aspecto de sarcófago egípcio e tornando-o propício à Cerimônia da Abertura.
                        Desembrulhei minhas figas, amuletos, ferraduras, defumadores, talismãs.  Protegido, também, por uma nuvem de gafanhotos de aço e uma miríade de pirilampos mecânicos, coloquei uma peruca unissex, meus cílios postiços e pintei os lábios com baton sabor morango.  Tomei vinte sanguessugas da algibeira e instalei-as em mim, em pontos acupunturais e zodiacais sabidamente estratégicos.  Superstições antigas me ampliaram as forças, juntamente com o fascínio da Cabaça Dourada, repleta de pós mágicos e ossos triturados de sapo-jia.  Então, abri a Garrafa!
                        Nada aconteceu na hora...
                        Mas logo, perto de mim, uma pedra se esfarinhou em implosão e um membro masculino, enorme, ereto, humano, rijo e vibrante apareceu, retinindo um som de harpas, proveniente das pulsações de suas veias entumescidas.  A glande aveludada e vermelha pulsava, lumiosa.
                        Então, outra rocha se abriu e uma bruxa-e-feiticeira de idade indefinível, até então tida por mim como ditadora de estabelecimentos educacionais, apareceu acenando-me, toda nua e repugnante.  Enrugada, pelancas empoeiradas de Assombrações, ela surgira lasciva e sensual.  Teias de aranha cobriam-lhe o sexo babento.  Deitou-se no chão duro e fechou os olhos como uma gata viciada.  O apelo foi atendido, num átimo, pelo fálico monumento a meu lado que a penetrou por baixo até sumir, fazendo crescer, por dentro, seu ventre já volumoso e nojento.
                        Ela dizia, louca de desejo refreado por séculos, entredentes, estrebuchando de prazer:     “Ah!  Meu  querido consolo de viúva!”
                        Pelo ímpeto alucinante, por seus movimentos ávidos de dor, parecia estar em seu último ciclo menstrual, entrando na menopausa...
                        A sem-vergonha nem se importava com minha patética presença de travestí e começou a executar perversões sem cabimento com o vibrante pênis-sem-corpo.  Quando atingiu o orgasmo, toda melada, zarpou no membro -então tornado vassoura-.  Vestida, num zás-trás, de grossa vestimenta negra, chapéu afunilado e fivelas de aço inox, com uma verruga na ponta do nariz, partiu inocente, como nas histórias da Luluzinha.
                        Rodopiou na tarde enegrecida, sibilando, expelindo faíscas, relâmpagos e coriscos, impedindo nomeações, atrasando posses, feito um rojão, como fogos de artifício, completamente possessa do Cão!
                        O espetáculo pirotécnico como que me eclipsou o espírito, deixando-o como um pássaro cego recém-capturado em alçapão.  Em minha sombra, em meu hálito, foi lentamente se manifestando uma alma gêmea da minha e, junto a ela, meus instintos puros e impuros se associaram à Penumbra e à Vã Consciência.
                        Aquilatei, então, de como era vulnerável a tais cotidianos imprevistos.  Tirei todos os artifícios que vestia: peruca, cílios, baton.
                        Percebi que o punhado de nuvem espremido molhara-me a cabeça e o sobrenatural atraía-me como um ímã, levando-me -sem proteção- ao encontro dum horrendo malefício.  Mera especulação!  Logo a bruxa pousava a meu lado.  Aparou-me as unhas, mostrou-me, retirando ao acaso, dum maço de cartas, um  Valete de Copas e uma Dama de Paus.  (Percebi que estava mesmo menstruada pois, ao andar, a fedida salpicava o solo de sangue ruim).  Cortou-me o topete do cabelo, deixando-me a testa nua.
                        Inesperadamente, chupou-me a boca num longo beijo de luxúria, muito sinistro, sabor-morcego.
                        O presunto do almoço se desfez em meu estômago e vomitei o toicinho, que serviu, segundo a megera, para um “filtro-de-fisgar-donzelas”, feito por ela num piscar de olhos e guardado em minha Cabaça Dourada.  Um beija-flor seco foi triturado e seu pó colocado numa bandeja de pedra.  Uma abelha picou ferozmente minha testa desnuda, inoculando-me um líquido alcalino, cheirando injeção balsâmica.  Urubus estranhos, que brotavam das pedras, se aproximaram a uma ordem da feiticeira e ciscaram o farelo do pássaro moído, engulindo-o em seguida.
                        Minutos depois, estando eu paralisado com a picada abelhosa, eles vieram voando e defecaram-me, em pleno rosto, golfadas violentas de dejetos nauseabundos.  Aí terminou minha paralisia.  A bruxa passou-me uma pomada paregórica na região da picada, e, semi-entorpecido, vi quando ela sangrou, com um punhal de cabo cravejado de pedrarias preciosas, os setes corvos cagantes, bebendo-lhes o sangue.  Ela gritou-me, depois, já de dentro da pedra:
                        ¬ “Iééééhhoouuuuuu!!!  Doravante terás o corpo fechado!”
                        E, numa explosão de silêncio e neblina, tudo sumiu e me encontrei à borda do abismo, perto da Corda Salvadora.
                        Então, desci até aos companheiros que me aguardavam e xingavam, de longe, como já disse, protestando pela demora.
                        Foi assim que tudo se passou...
                        Dizia eu dum pressentimento.  Iria enfrentar as Águas da Penitência...  Tornar-me Templo Andande de uma Previsão, pelo que relatei acima.
                         Pois é.  A chuva que eu pressentia e o medo que se aproximava, chegavam de mansinho.  Houve uma longa caminhada pela frente.  Os coriscos, como setas ardentes, cruzavam sobre nós. As nuvens retorcendo-se como lençóis nodosos.  Tambores soando celeres, entoando o ritmo da chuva, reboando nos cinco cantos do Mundo, sacudindo as massas gasosas.
                        E o temporal principiou!
                        Quanto suor brotando nos poros do céu!
                        A tormenta aumentando chegança do fim-dos-tempos!  Não houve agasalho suficiente.  Fugíamos, sob pequenas árvores da encosta, os pingos se arrebentando em nós como jabuticabas de veludo e estanho.
                        Ensopamo-nos, num enorme perder de rumos.  Num patético florescer de rios.  Num silente morrer de ninhos...
                        Homérico e Manco, os companheiros, minhas criações (sim, isso mesmo: foram inventados por mim como elementos essenciais à técnica narrativa usada neste conto)  sucumbiram aos relâmpagos: eram de barro e ao barro voltaram.  Bastou uma simples chuvinha -aumentada por meus óculos respingados- e meus amigos desmoronaram como ideais mortos...
                        Chorar-lhes a perda?  Como, se nunca existiram?!
                        Mais importante: como um arrebol de pedras molhadas, o último, possuída do caos, nossa Missão se acabou!
                        Inatingível, desprovido de sentimentos humanos, tropeçando nas águas, flutuando nas pedras, fui murmurando os escolhos de uma música.  Não me importava mais com a sorte de meus versos, nem com a fragilidade dum Frasco Encantado, onde encontrei a Essência da Canção...
                        Minha correria sob a chuva se converteu numa dança repleta de cantigas e ritmos litúrgicos, e, numa ciranda, bailaram comigo um exército de duendes e silfos habitantes das pedras, comandados por um velho conhecido nosso: Mutuquinha, o anão, e vários ogros que não conseguem adquirir uma forma suficientemente humana em suas aparições...
                        Não me importava mais com nada. Bastavam- me os poucos minutos de Contemplação da paisagem molhada pelas Brancas Águas da Escolha...
                        Tentei entrar em voação: passar alhures, para além da tempestade, por cima do azul, como um pardal velhaco...  Só consegui me esparramar - de volta ao chão- como um fogo destrutivo, requeimando motas de capim gordura, encharcadas com as lágrimas torrenciais da Serra Encantada.
                        Sentindo-me envelhecido e enrugado como os milênios, desintegrei-me em meio à chuva, assumindo um Corpo Mental.
                        Porém, devido à supremacia de meus baixos instintos e meu parco ou nenhum desejo de elevação espiritual, no Conta-Correntes de minha vida apresentou-se um grande déficit orçamentário... 
                        Porisso, fui expulso do Mundo Astral e me reintegrei, em forma de Laje Silente, no meio da encosta, condenado a ficar no Aguardo da Reparação...
                        Talvez um dia, -quem sabe?- eu seja colocado como uma lápide em minha própria sepultura.  (Na demora em me acharem reside meu Castigo! Só aí serei alguma coisa:  será meu Recomeço, o Renascimento!)
                        Enquanto torço e aguardo por essa Hora de Desencantamento, os gnomos dos bosques e as fadas dos jardins descansam suas angústias sutís em meu denso corpo de granito.
                        Mineralizado, me silencio.  Me auto-cristalizei, sem interferências externas.  Tudo pra mim é Espera e Penitência...
                        Porisso, não podendo revelar mais nada, vou terminando por aqui deixando todos no ar - eu mesmo maravilhado com essa minha última Mágica Simplória...
                        E, por findar a poranduba como bem entendo, (assim como fiz com minha própria vida inútil), vocês certamente exclamarão:
                        -  “Palhaço!”
                        Legítima explosão de Ódio e Raiva... Expressão que escolho para ser colocada em uma tumba vazia, aí do Cemitério de Coivaras, como um epitáfio à minha memória...








FORTUNA CRÍTICA

DA 1.º EDIÇÃO
O TEXTO DE OSCAR KELLNER NETO

                                                       Eugênia Cecília Brasiliense
                                                                São Paulo – 13/07/79

 Em princípio, afirmo que Kellner é um poeta (que escreve em prosa) mas não é desses que vivem a descrever o brilho das estrelas inatingíveis; ele prefere manter seus olhos observadores vigilantes àquilo que se passa a seu  redor na Terra mesmo com seu chão bruto coberto de plantas e pisada por animais e homens. Sua poesia é tirada das coisas bem terrenas, em síntese. Ama visceralmente a Natureza. E quando se põe a descrevê-la usa de sua aguda imaginação para transmitir ao leitor suas emoções em relação a tudo que vê e sente. E tudo que é observado e sentido por ele  sofre uma recriação no papel, vira arte. E é uma recriação minuciosa, prolixa em palavras, daí tornar a narrativa espessa, densa como uma floresta. De parágrafo em parágrafo podemos encontrar frases lapidares, originais. (...) Demonstra interesse por lendas populares e, em tudo o que escreve há forte impregnação erótica.
 Não vejo nessas pequenas novelas de Oscar um autor preocupado com problemas filosóficos da humanidade; ele não  pretende a discussão (sobre qualquer assunto) é apenas um contador de estórias. E suas estórias não têm outra pretensão  além de ser uma estória para entreter o leitor, divertir, fazê-lo sentir a graça da vida simples, despretensiosa, ingênua até.
 Do amor que capto nos contos de Kellner pela Natureza, arrisco-me em afirmar que ele é um sujeito de bem com a vida. Ele não questiona nada, apenas acha maravilhoso tudo, principalmente a criação Divina. É um homem do campo. Respeita o progresso da capital mas adora a tranquila e eterna simplicidade do campo.
Se se fizesse uma análise para cada trabalho do Oscar, chegaríamos à mesma conclusão para todos: Poesia campestre em prosa. Mudam os enredos das estórias mas não mudam o ambiente – sempre campesino - , a linguagem -sempre inventiva-, a narrativa - sempre abundante. Seu forte é a linguagem.
Oscar Kellner é o tipo do escritor que não comete altos nem baixos exagerados. Podemos dizer que, se um conto dele é bom, todos são bons. Falha: (infelizmente) ele está se restringindo muito a uma determinada área, se limitando por apego, demasiado, à região que se liga à sua existência. Em resumo: faltam novos espaços em sua literatura, novos ares, novas terras, etc. Mas é, indiscutivelmente, um bom escritor. (...)
O melhor dele é uma linguagem criativa, original, o que dá prazer ao leitor encontrar em cada parágrafo um termo interessante, bom de se guardar na memória.
 Como já disse, nos textos dele há apenas intenção de escrever pelo simples prazer que essa atividade dá. Não é um escritor filosófico, mas sim, um escritor- Poeta. Importa-lhe a poesia da vida, não seus dramas, angústias, terrores, medos reais. Das coisas horrorosas dessa vida ele prefere as lendas, nada de realidade.
  Oscar Kellner merece todo respeito como escritor-poeta, amante da vida e da Natureza. É um felizardo. Dificilmente os escritores possuem a tranquilidade que ele tem diante da vida e da Natureza – ambas brutais – certas vezes.

OPINIÕES DIVERSAS SOBRE
A LITERATURA DE OSCAR KELLNER NETO

   “Li seus contos. O do velho juiz encabulou-me muito. O clima irreal e real, perto distante, confundiu-me. Vi nele um sonho real, mas nebuloso, como se minha mente  não pudesse ver com clareza um clarão intenso. Senti as retinas cansadas como se tivesse dirigido automóvel com o sol baixo, infiltrando entre eucaliptos plantados à margem da estrada, alternando-se nos meus olhos luz e sombra. Mas o clima conseguido é realmente absurdamente palpável. Sua criatividade, mestre, encabula os pobrezinhos”  (PAULO CESAR GARCIA – Crítico Bichista – 1978)

  “O que eu possa dizer de seus contos eles mesmos já o dizem, marcados por boa técnica, singular inventiva, elegância na condução do processo e acabamento no geral surpreendente. O que tudo faz supor constante e boa leitura, boa formação cultural e bom – gosto.Vejo-o, sem desdouro para sua terra, como um parisiense vivendo no interior de Minas. Um autêntico metropolitano, mas livre de poluições. Não consigo tirar da cabeça a impressão de que você convive com Maupassant, entre  outros do mesmo naipe...” (WILSON CASTELO BRANCO – Redator do Suplemento  Literário do Minas Gerais – 28/03/76)

 “Você é surpreendente – como os seus contos. Não creio haja no  Brasil um contista de sua marca. A sua divisória imaginária, a maneira como você se sobrepõe  aos acontecimentos, o anti- rotina, a visão  extra – temporal, embora ainda territorial (Coivaras), a fábula... a sutileza de sua fabulação, creia, foi tudo isso que, desde o princípio de minha gestão no SL me levou a estimulá-lo. Acho que , no gênero, você é um contista nato, autêntico, sem as deformações ou sofisticações do chamado “Realismo Mágico”. Sua mensagem nasce em você e se extrapola, sem qualquer parentesco com Kafka e outros...”(WCB-24/09/76)

 “Seus contos, meu caro Oscar, publicando-os no Suplemento, dou testemunho de que são bons. Nunca precisei passá-los pela Comissão de Redação. Vá em frente, meu jovem amigo, pois você tem o grão da mostarda, Dispense apenas a pornografia e a obscenidade: você não precisa disto. Só os carentes.” (WCB – 16/05/77)

 “O conto “A FÉ”, cheio de realidade humana, de contradições, é de uma indissolúvel angústia. Tudo escrito, sentido e intuído com autenticidade. Vislumbrado por quem, como você, não se submete à rotina sentimental. Muito bom. Será publicado com as honras do estilo...” WCB – 20/06/77

 “Não engavete seus contos, impregnados de uma chispa diferente da fabulação corriqueira e ordinária... “WCB – 24/10/78

“Oscar Kellner Neto abre-nos as portas de seu laboratório deslumbrante e, por vezes, assustador, numa estréia segura pelos caminhos da ficção.Contista que é um mago de fórmulas próprias, à alquimia da linguagem versátil e colorida mistura poderosa criatividade, fazendo surgir das trevas do inconsciente um mundo de dilúvio e sombras, labaredas e noites, habitados por fantasmas, seres biônicos, robôs, gente que se desintegra e some – mundo de pesadelo onde o absurdo cria foros de realidade e como tal se impõe. Por situar-se num plano extra-real e ultra- sensorial,Coivaras permite um rompimento com todos os princípios de equilíbrio  justificados pela razão. Lá o animismo se apodera dos objetos; as pessoas se coisificam: a transposição é perfeitamente possível. Obscuro Planeta  interior, alienígena e estranho, a muito poucos é dada a coragem de desbravá-lo. Oscar aceitou o desafio. Ousadamente, lançou-se à aventura. Desarmados é que devemos segui-lo, procurando captar com seu microscópio (por sua vez transfigurado em caleidoscópio) esse lado oculto dos seres e das coisas, que apenas a sensibilidade de um artista autêntico expõe e que, até hoje não  foi definido pela ciência...
A visão surrealista de Oscar Kellner Neto incide sobre a verdade existencial, dando-nos como resultado este desencadeamento de quadros, onde ecoa uma certa ironia triste, sorriso agônico de quem vê o indivisível, a perpassar por todo o livro como uma brisa carregada de presságios . Por utilizar-se de símbolos e mitos, com personagens que peregrinam à beira de precipícios da loucura, remorso e medo, Oscar Kellner Neto faz ecoar em sua narrativa a atmosfera das novelas de Sábato e Rulfo. Isso, todavia, em nada depõe contra ele, uma vez que a sua representação do mundo, longe de ser meramente xerográfica, é, como a  dos referidos autores latino-americanos, o posicionamento consciente de quem, para atingir o fundo do poço da humanidade, mergulhou primeiro em si mesmo.
Contestando a civilização, O Ataque, A Missão, O Sobrevivente, perfeitos em sua construção, bem conduzidos, terríveis, realistas em seu clima onírico, fazem prever que,de fato, “Coivaras sobreviverá aos inúmeros dilúvios, sempre anjo, sempre demônio...”. Primeira ilha de um arquipélago,”sua latitude ou a sua longitude não se encontram nos mapas ou cartas geográficas convencionais”, porque desde agora faz parte da rota inconvencional e desconcertante dos que se perdem por entre os labirintos da vida para encontrar ou desvendar as paisagens subterrâneas onde todas as dimensões são possíveis.”  (MARIA DE LOURDES HORTAS – Recife – 1983)

 
“Você é mesmo um escritor, meu caro OKN. Se digo o que digo na orelha do livro, é porque acredito, viu. A Pirata está feliz por ter lançado você. Não é todo o dia que  temos tido essa responsabilidade... Sim, seus contos tem esse encanto negro e magia de que falei. T-Ê-M! Você é um escritor... Arrepiada termino de reler sua carta. Reler não . Treler. Você tem o seu estilo. Cantos Kellnerianos. É isso, mano Oscar. Você é um escritor PRECISAMENTE porque não está à procura de uma estética, “mas acima de tudo à procura dos estados inefáveis do ser humano e dos mistérios do universo.” (MARIA DE LOURDES HORTAS – Recife – 15/01/84)

Há muito sem nos encontrarmos, através dos livros, recebo agora seu trabalho. Vindo de você, deve ser coisa boa. Parabéns pela publicação, com os votos de sucesso. (EUCLIDES  MARQUES ANDRADE –BH,28/02/84

Prezado Oscar, futuro imortal da Academia B. Letras. Despertado pelo artigo do Campomizzi Filho, procurei nas livrarias o seu livro e não encontrei. No entanto, não me espanta tal receptividade, já que uma pessoa com dons de pintor, contabilista e ótimo churrasqueiro, tinha que ser também um bom escritor. Mas fiquei alegre com a notícia, continuarei procurando o livro e tão logo eu o leia, te escreverei. Você colocou novamente nossa querida Delfinópolis no mapa, orgulhosamente... (PEDRO GUATEMÁ - 25/4/84)
“Kellner lançando “Coivaras”. Li, reli, gostei e recomendo. É uma coletânea  de contos que se assemelham a fábulas... (BOKITA - 19/4/84 - Diário da Franca)

“Concordo com a opinião de Maria de Lourdes Hortas a respeito do livro de Oscar Kellner Neto, “O outro Lado de Coivaras: o Mundo”,contos. “Com este livro, ele abre-nos as portas de seu laboratório deslumbrante, e por  vezes assustador, numa estréia segura pelos caminhos da ficção.” (ABDIAS LIMA –Jornal “O Povo”- Fortaleza (CE) - 9/4/84)

Li seus trabalhos com interesse e descobri esse pedaço de chão que você consegue universalizar em testemunho de FÉ... (Campomizzi Filho – 22/4/84)

“Oscar Kellner Neto descobriu essa Pasárgada e nos traz de lá nesse seu “O outro lado de Coivaras: o mundo” toda uma historia de fantasmas e duendes, de amor e de paixão, de ternura e de paz, um universo de compreensão para que atinjamos o destino único da felicidade maior. São contos que se encadeiam em quase unidade, reformulados os mitos e postados os símbolos, nós todos  participantes de uma trama que se desdobra à nossa necessidade pessoal. Há às vezes u, to, bíblico nessa prosa. Liga-se ela, num maravilhoso fantástico,à  prestidigitação que tem  suas raízes na mais recente ficção latino-americana. Mas o acento é pessoal, o autor descobrindo colorido novo em informações antigas.
Às vezes Oscar Kellner Neto toma a tradição local. Ouve o que lhe conta a história da terra, notícia passada de pai para filho nos serões de família. É capaz de traduzir o anseio que vai em cada uma dessas fábulas, explicando o inicio da era do fogo, quando prosseguem os vôos em circulo e a vida não cessa. Há um sistema. As lojas exibem artigos vindos de longe, da zona franca ou de nações altamente industrializadas. A civilização é de consumo e é preciso mostrar na rua a pasta de couro de crocodilo, que mesmo jogada fora retorna a  seu lugar no armário da sala... Há de tudo em Coivaras, nas mulheres à espera dos convidados e nos peixes dourados enriquecendo o rio próximo, coleante no fundo dos quintais. Lá vão ter  os pescadores, que se deixam aliciar para outras  jornadas. E quando escurece, chegam as bruxas e contam proezas. Andam pelo ar. Povoam as tardes camas. Mas a noite é o seu reino, montadas em cabos de vassouras e entesourando o que conseguem amealhar nas conversas ouvidas e nos resmungos desconexos. Há em Oscar Kellner Neto um contista de bom nível, capaz de prender o leitor e de fixar as  linhas de seus quadros que nos acompanham,  Coivaras um pouco nossa.” (Campomizzi Filho- Diário de Minas-22/4/84)

“Você mantém e aperfeiçoa aquilo que vislumbrei em seus trabalhos já há algum tempo publicados no Suplemento Literário: uma força telúrica brasileira, posta a serviço do que eu chamaria de realismo mágico , se essa expressão não servisse para designar tantos equívocos  e engodos. Afinal, chega de tantos plagiadores agora subliminares de Kafka e La Fontaine, que nada têm a ver com a substância e a essência  do homem brasileiro. Por mais abstrata que seja a expressão do autor, no plano subconsciente, há-de ser ela um depoimento radicalizado em termos de tempo e espaço. E é o que você faz. Não se pode turvar águas  rasas para fazer parecer que elas sejam profundas. É isso que o pretenso realismo mágico esta tentando fazer. Vou retomar seu livro, com mais profundidade, e estou certo de encontrar nele esse mar profundo, que vai além das superficialidades.” (Wilson Castelo Branco-05/02/84)
“Desde o momento em que sua poderosa imaginação faz nascer, de estranhos conúbios, estranhos e amedrontadores seres, os leitores são arrastados em turbilhão e galopam atrás dos seres fantásticos que vagueiam pelas ruas de Coivaras. E, se alçando e paragens extraterrenas, mergulhando em charcos ou aprisionados dentro de uma Arca flutuante, todos eles estão cumprindo uma triste sina que você, o Criador, lhes destinou...As suas lucubrações me contagiara. Mas o meu pensamento, fugindo do palco onde se desenrolam as cenas dos seus contos dantescos, paira em outra dimensão. Retrocede no tempo, a um passado distante, onde divisa um vulto inesquecível: seu avô Oscar Kellner, velho amigo de meu pai. E tem a impressão de ver dois olhos, profundamente azuis se uma voz calma, falar pausadamente: “Quem havia de pensar que o meu neto possuía o condão de embrenhar-se nos profundos abismos do inconsciente e de lá trazer à tona essa “Selva Selvaggia” que povoa as tétricas noites de Delfinópolis?”... Entretanto, esse estranho sortilégio é uma estranha realidade. Você conseguiu fazer desse pequeno burgo um pano de fundo para um mundo fantasmagórico... Oscar, você tem a estrutura de um grande escritor. Os seus personagens não se movimentam dentro de esquemas preestabelecidos. Pelo contrário: são rebeldes, surpreendentes e inconformados. Mas prendem e fascinam.As transformações  dos personagens de Kafka tem muita afinidade co mas de um grande novelista francano que fez de Delfinópolis a sua Tebaida...Escreva sempre para gáudio de seus inúmeros leitores dentre os quais se destaca a conterrânea amiga, Evelina Gramani Gomes.(Abril de 1984).

“Que bom receber seu livro de estréia, já esperado há tantos anos por você, por mim e por seus amigos. Sei que vou gostar, pela força de sua linguagem, que já conheço. Li a orelha de nossa amiga Maria de Lourdes Hortas e fiquei mais interessado ainda em conhecer a magia de Coivaras.”(Elias José,30/1/84)

“Rex,Ave! Li tua obra. Abismal! Duca!  Glória a ti, Senhor de Coivaras!” (Hélio Laurindo, psicólogo. Janeiro,1984)

“Oscar: que alegria vê-lo chegar aqui em letra de forma. Que sensação boa vê-lo finalmente de uma perspectiva em que outros poderão testemunhar, como eu, o seu t alento, o valor de sua escrita... O livro é ótimo. Uma escrita diferente do convencional. Poética e mágica. Deliciosamente captadora de um tom caipira que  tenho – e quem sabe muita gente não tenha também – enraizado em mim. Gostei demais... Fiquei pensando. Você disse que não vão achar Coivaras em mapas oficiais. Mas havendo o livro, o objeto e seu conteúdo, ela passa a  existir tanto quanto Pasárgada e lugares inventados que caem no domínio público, na  propriedade afetiva de cada um de nós. E também  Delfinópolis. Mais gente vai ouvir falar, bastante desconhecida é essa sua cidade – ilha – maravilha. Muita coisa boa a existência do seu livro passa a jogar no ar...”(Kátia Bento,Rio,5.2.84)

“Puxa vida!mas que sensação ao pegar seu livro... Mas que alegria! Parabéns. Gostamos demais. Mas que delicia poder ler sua obra nessas condições... em um livro! Faz um bem imenso pra gente; imagino para você... É  isso aí, Oscar: com luta a gente vence, graças a Deus. E que seja o marco de uma série  imensa que virá. E como nos orgulhamos disso. Parabéns  mais uma vez e obrigada por podermos participar desta sua alegria... Continue firme...”(Maura Kellner, 4.1.84)

“Você aparece com um estilo moderno, contundente, assustando o leitor incauto,lembrando-me os arrojos de Fernando Pessoa em Portugal ou as elucubrações de Guimarães Rosa, que fazem a gente fechar os olhos e concentrar a mente, para saber o que aquilo quer dizer... Vejo no “Coivaras” um dedo apontado para muita coisa boa que você esconde e precisa vir à tona...” (Dom Belchior J. Neto, Luz-MG, 15-03-84- Bispo e Escritor)

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