terça-feira, 14 de julho de 2015

O QUILOMBO DE PALMIRA - MINICONTOS
















O Quilomb 



O Quilombo de Palmira
minicontos




OSCAR KELLNER NETO







Delfinópolis/MG – 2010
























sumário

apresentação – Márcio Almeida – 5
auto-prefácio – 13
a cicatriz -
a passageira
abaixo o gelo podre
acuados
afinidade
agosto
águas verdes
amor, urgente
angústia azul
auto-psicografia
belle de jour
camping
canto negro de adolescente
cenas
central do brasil
como canção
cravo de ferro
de chuva
defasagem
do mágico & seu aprendiz
entrega
entrepassado
esfinge
felina
isca
magia
manhã
mistério na noite carioca
momento
notícias em profecia
noturno
núvens
o ladrilho
o velho
olvido
origem
outra vez, festa
parábola
pictórico
poesia e chá
pré-acalantos
receita
recluso
regressos
repressão
resignação
retorno
sagitário
sapientia
sonho
sub judice
subversiva
vespertina
víndice
zíngara
homenagem





OSCAR KELLNER NETO
REFERÊNCIA DA MINIFICÇÃO DESDE 1971

MÁRCIO ALMEIDA, in  MINIFICÇÃO DO BRASIL – EM DEFESA DOS FRASCOS & COMPRIMIDOS, Oliveira-MG: Editora Clube de Autores, 2010.(*)

Um problema da geração hodierna, sobretudo de autores e críticos que “se acham”, é assumir – até com certa arrogância -  que a Literatura existe a partir deles, de suas próprias referências e escolhas hedonistas, como se o “resto” fosse apenas suporte para justificar o que perdura, também no trânsito das vaidades, e “funciona” como referência do seu conhecimento. Ledo ivo engano. Oscar Kellner Neto, nascido em Franca, Sp, em 1949, e residente em Delfinópolis, Mg, há décadas, é o típico autor que dessacraliza essa concepção de ser um ilustre desconhecido.
Os gênios contemporâneos desconhecem, por exemplo, que a revista Globo Rural publicou seu conto Paz-sarinha, sob o título “O touro Charuto”, em sua edição de setembro de 1994. Ou que ele é um dos iniciadores do miniconto, em época análoga à de Elias José e dos minificcionistas que publicavam nas revistas mexicanas Azor e El Cuento, esta, sob editoria de Edmundo Valadés. E autor de “Fazenda interior”, em edição do autor, 2009, no qual reproduz o conto citado, sob a influência benéfica de Guimarães Rosa, do realismo fantástico da linhagem macondiana, com uma dicção tipicamente renovadora do conto rural e um texto rigorosamente soberbo.
Testemunho do autor:
1.    Em que época v. começou a fazer minicontos?
     OKN – Com certeza no primeiro semestre de 1971.
2. Por que v. começou a escrever minicontos?
    OKN – Estava em busca de uma forma concisa para minha escrita, em busca de contenção verbal. Também me motivou a possibilidade poética do formato, enfim, achei legal quando vi os minicontos do Elias José e disse pra mim mesmo: é isso aí que preciso fazer.
3. Quais são suas referências a respeito do miniconto?        
    OKN – Um livro me levou ao miniconto: Poleiro de Urus. Dos minicontistas nacionais destaco Elias José, sem menosprezo de nenhum outro autor. E cito também Adrino Aragão e Victor Giudice. Confesso que não vi teoria nem li crítica especializada a respeito dos minicontos. Vi alguns minicontos estrangeiros na revista Azor, há muitos anos.
4. Teve alguma influência minificcional?
    OKN – Sem dúvida, o Elias José me influenciou pela qualidade de sua escrita contida, mas altamente tensa, enxuta, contudo apaixonada.
5.    Que critérios técnicos v. usa para escrever minicontos?
     OKN - Não creio que tenho algum parâmetro para a criação de minicontos. Não me apegar a um tema de grande envergadura é uma premissa. O assunto é irrelevante, a forma é essencial. Busco um jeito de expressar uma ideia de forma contida.
6. Pretende publicar livro só de minicontos?
    OKN – Estou reunindo material já publicado, trabalhos inéditos e terminando alguns textos para meu livro de minicontos “O quilombo de Palmira”. Depois de tudo lapidado, devo publicá-lo em 2010. A idade chegou, não posso esperar mais.
7. Outras informações que julgar pertinentes.    OKN – Nada mais disse nem lhe foi perguntado.

    (em 10 de dezembro de 2009).

A narrativa minificcional de Oscar Kellner Neto tem especificidades: uma, de os minicontos serem híbridos e poderem ser mesmo confundidos com proesia (os minicontos Felina, Isca, Cenas, principalmente). Outra, da a linguagem conter com freqüência construções surrealíricas através de metáforas (anjo de mármore – harpa de sortilégios – silêncio listrado – esqueleto indeciso – doente pela brisa impossível de tua prisão – caules suicidas). Característica acentuada também nos minitextos kellnerianos, decorrente da proesia intencional é a criação de aliterações, assonâncias e recursos similares típicos da linguagem poética, infundindo neles propensa sinestesia (estampidos estampados de espanto – fracos no final da sinfonia – nossos ossos sem ofício – acaso foram nossos esses ossos (...) essa cruz, essa tumba? – no vôo dos ossos apurando o nascimento de asas alheias, me conservado em ilhas). O minicontista, sob nítida influência do concretismo, opera concreções vocabulares pelo processo de aglutinação (cegábil – estrelinertes – vegetálica – tencontrar, além de todo o flash-conto “Receita”). E mantém-se fiel à herança do bestiário, que advém desde a consciência anímica, passa pelo mito, pelos símbolos teriomórficos e põe o imaginário no poder através do realismo fantástico (alargando o voo, penetrou nos intestinos dum grande leão – a leoa pariu muitas esfinges – a maquiagem que os vermes têm – o tigre que salta do solo também nos ataca – peixes e mergulhos bicam meu corpo de sargaços – a porcada estava reunida num brejo). Assim como Elias José tem um foco narrativo a partir da personagem Camila, Oscar Kellner Neto assimila a influência e cria a sua Palmira. E há, ainda, o reflexo da tecnologia bélica e espacial no registro da narrativa (obuses chocando mortalhas – estampidos estampados de espanto cruzando nosso céu de fogo sólido – alados mísseis – chuva de prata – uma bazuca de rosas – estilhaços de dias e noites – no campo duma derradeira batalha – o nascer de futuras naves – sabre de verdades – caímos de cacetada nele – em outra galáxia  iniciaremos nosso ritmo).
Deduz-se desse viés de leitura ter Oscar Kellner Neto absorvido conhecimento lítero-cultural exposto à época (1960-1980) de produção de seus minicontos, em que se deixa mesmo transparecer poeta tendente à ficção e minificcionista com incisiva propensão poética. É-lhe comum a construção surrealírica à Breton, ou seja, no jogo desinteressado do pensamento, deixando que a própria linguagem se auto-organize como ou a partir do jorro do inconsciente e da “tensão provocada pelo intento expressivo que não renuncia a servir-se de instrumento de comunicação” (FORTINI, 1965).
Em texto como “Entrega” tem-se um autor opondo-se à negação da ordem social, à alienação ético-política, à sistematização de uma história satisfatorizante, talvez refletindo aí as lembranças do período ditatorial no país, e, por extensão, as galeanas ”veias abertas” de uma América Latina cujo sofrimento muito fez por plasmar o realismo fantástico com as metáforas do medo, da indignação e o travor amargo das ações dos energúmenos. Não é escrita automática, tampouco mero exercício do jogo de ”cadáveres-emblemas” as frases kellnerianas “nosso morrer involuntário” e “nossos ossos sem ofício” neste miniconto.
Há a mesma sublimação de Breton, Éluard e Char em construções como “odor de baú arrombados”, !canção de frases de bronze”, “sal esquivo de águas experimentais”, “costado de musgos”, “dor vegetálica”: alcançar o irracional através da sintaxe, estabelecer o arbítrio nas relações tradicionais, promover certas alterações de perspectiva. Imagens mais poéticas do que ficcionais como “nosso céu de fogo sólido” ou “nos incendiamos de pólen e prismas” denotam o mesmo sentido da frase “o poeta é, pois, um verdadeiro roubador do fogo” (como Prometeu) a que alude Rimbaud em sua “Carta a Paul Démeny”. “Entrega é um miniconto com o poder de causar efeito robusto, sobretudo se analogizado ao “Poésies”, de Lautréamont com suas inferências poético-surreais: “as perturbações (...), a morte, as exceções de ordem física e moral, os embrutecimentos, as destruições, as ruínas, as servidões, as imaginações corrosivas” estão presentes em “obuses chocando mortalhas de sonho no ninho da morte – no brilho cegábil dos alados mísseis”; “as particularidades químicas do abutre misterioso, as imaginações corrosivas” estão refletidas em “a chuva de prata sobre os leitos de escombros – o óleo e o fumo nos povoando de cruzes e tumbas”; “a desolação” (“vencidos, nos entregamos aos obstáculos”); “as perspectivas vagas que vos trituram nas suas engrenagens imperceptíveis” em “inda que os instrumentos se tornem pé, cerco-te de estradas futuras”.
O leitor observou também que alguns textos estão conceituados como sendo “flash-contos.” À época de sua criação, o que se conhecia de flash associava-se a Flash Gordon e ao flash de máquina fotográfica Roliflex, Oscar Kellner Neto nem poderia supor que, hoje, haveria compact flash, flash back, flash mob, flash memory, flash point, macromedia flash, adobe flash, flash player, conceitos tecnológicos envolvendo a computação/informática, softwares gráfico-vetoriais, para criação de páginas Web, produzir animação sofisticada com interação do internauta.
Em nível minificcional, flash-conto é o texto-instantâneo, geralmente bem curto e com narrativa diegética direcionada, com um toque experimental de linguagem sem ousar extremismo ou a incompreensão textual, o fill flash fotográfico, que evita o contraste exagerado.
Há que reconhecer o mérito de Oscar Kellner Neto como minificcionista de referência primária para o miniconto brasileiro, autor na ativa literária, em franca produção, pronto para, como diz em seu precioso conto roseano “Paz-sarinha” – “um curioso se-rever.”

Referência
FORTINI, Franco. O movimento surrealista. Lisboa: Editorial Presença, 1965,

(*) Márcio Almeida, Oliveira, MG, 1947, é professor universitário, mestre em Literatura, jornalista, autor de 41 publicações, inclusive a de minicontos Estranhos muito íntimos, bilíngüe, (Multifoco, RJ, 2010) e várias no exterior; detentor de dezenas de prêmios literários em nível nacional, crítico de raridades há décadas, com efetiva produção em revistas eletrônicas como Cronópios, Germina, Caos e Letras, Tanto, Iniciação Científica, além do Suplemento Literário do Minas Gerais, Dezfaces, outros. 





O Quilombo de Palmira
(a razão do mini-conto)
- auto-prefácio -


eram escravas as palavras no tempo, no espaço. carregavam a inércia das inovações, açoitadas pelo tema amor pisoteante.
eram escravas da forma/fundo. dia veio em que eclodiu um despojo, onde mais concreto existiu o poema.
já como poesia inexistiam as palavras!
foram escaramuças literárias, vieram novos juízes da criação. as palavras fugiram pelas matas verbais, perseguidas por últimos radicais.
onde existiu um feudo (pseudo) poema, restaram senzalas vazias. o latifúndio dos adjetivos sossobrou na última galera negreira dos intelectuais, intangíveis náufragos.
fez-se então a confusão.
em meus brasis escriturados palma a palmo foram esfaceladas  todas  as poesias.
delas restaram ruínas/palavras e estas, furtivas, hoje buscam refúgio n’



O Quilombo de Palmira


a cicatriz



firo-me em teu sabre de verdades, Palmira. identifico-me com teus traços no vácuo onde paira nossa canção de frases de bonze.
não entendo essa geração de espinhos que bóia em seu ventre.
acaso foram nossos esses ossos e a maquiagem que os vermes tem? e essa cruz? e essa tumba?
pronde partiu a colonização de células que em tua cissiparidade  encontrava pasto?
ah! se pudesses entender o trauma que me edificaram e tua morte que me inventaram...
mas és mais Palmira que ontem e somente essa distância dificulta as coisas, sabe?
esqueleto indeciso, flutuo doente pela brisa impossível de tua prisão.
agora cavas em mim sulcos de sangue com um arado de lembranças.
sabe, Palmira, toda vez que te sinto tão assim construída de tijolos invejo a alma dos pedreiros.





a passageira


ela se agarra nas barras de apoio do ônibus cheio... ele chega e se encosta forte. o homônibus a aperta/embala.  aos solavancos, a carrega... 
ela fecha os olhos, suspira...
quanto mais longe o destino dele melhor!
que lhes importa o que desceu ou subiu na Bolsa do Rio?


rio, 03-04-89





abaixo o gelo podre



viva a tirania dos garçons de boate! viva Fernando, viva Donato, esses que fazem da espera sua responsabilidade oficial.
que vivam, pois o apetite dos homens é insaciável.
vivam os garçons que alinham entre colunas e estátuas o seu odor de museu.
não me interessam suas jaquetas encardidas de madrugadas... brindemos ao esplendor de suas absorções.
só quero, Palmira, na vida, aquele instante que valha toda a vida!
o garçom que fomo ficou na partilha duma féria noturna.
como não te cumulei de méritos, não me proverei de verdades: jamais seremos museu!
quero, nessa vida-boate a amenidade de tua carne virgem e só!





acuados




acocorada no riso demente, te busco no fundo do quintal.
vem, ternura, traze tuas estrelas, teus pássaros, rios e afluentes...
entra pela porta da cozinha: vem puxando tudo o que estava do outro lado do muro.
coloque-os na sala e repita pra eles o que de melhor já foi dito antes.
ajeite tudo, entupindo a porta da frente.
agora o mundo baterá inutilmente, tentando arrombar nosso lugar comum.





afinidade

(Artes,Ciências e Literatura nº 6, jornal Comércio de Franca, Sp, maio, 1971)



cada filho (talvez) nosso, Palmira, um anjo de mármore e vento.
jangadeiros, saberemos farejar a inclemência do tempo, bem como o nascer de futuras naves.
como faróis piratas, submergiremos em ondas lacrimogêneas
teremos licença para morrer num mercado de especiarias?
sei que nossas travessias ficarão pelas neves do sul... no campo dos homens plantaremos palavras marinhas.
restabeleceremos no vácuo uma liberdade morta e franquisteim entoará nossa canção de movimentos num obstáculo imóvel.
deitaremos âncora em morte/norte.
penetrarei o som de tua harpa de sortilégios e nela fundirei em azul uma sonoridade perdida.





agosto



neste mês, a severa perseguição: em imensa atividade a eficiente carrocinha...
inventam que os cães estão loucos! ah! humana hipocrisia...
eles estão, sim, mais ativos. e os notamos: amorosos, instintivos, insistentes, gulosos, descabidos, pecaminosos, permissivos, copulando por todo lado... em toda esquina, promiscuamente ora com cadelas, ora nem tanto... ora tão homos, às vezes tão heteros.
para que tanto espanto? sob todo calibre, o cachorro doido, simbiótico, apenas imita o ser humano...





águas verdes



no tema das águas verdes vou sonhando teus gestos mágicos de insônia. és a lavra penetrada nos interstícios de minha floresta de vaticínios.
talvez sejas a lamparina que se acendeu ao nascer-me. e eu amo esse tal silêncio que encontro em tua luz e me torna o coração sonoro.
no ritmo de meus desertos, a ânsia dum minister teu.
vais assim ao longe distribuindo teu cântico à luz das estrelas.
somos cavalo e égua fiando derradeiras selas!





amor, urgente


onde estou, o amor está... está em minhas mãos, oferente. em minha solidão, mar saturado de medos e carências, ele é um veleiro de paz e abandono.
onde estou, o amor está... na vida, essa prática diária do sonho na fantasia essa que me ajuda a carregar o fardo do cotidiano. o silêncio mata, a palavra ressuscita.
eu te dou, Palmira, essa palavra: ela deve ser dita...
o amor reside em escutá-la.
onde estou, o amor está... tu, presença noturna sob meu travesseiro inventas lindos sonhos onde estamos: ali o amor está...
escrevo-te e me refaço.  a vida resiste... em nosso encontro o amor está...
dize-me uma emoção! o sonho existe!
em ti futuro já é, promessa realizada.
mesmo perdido em ti, meu olhar persiste.
no olhar com que te miro (e não em ti, que vejo) o amor está.
mas o amor sempre será esse teu olhar – veludo diário – se te tornas dama e musa do poeta solitário.



angústia azul



ligas o mundo na tomada da tevê e sob o peso do sofá a humanidade fica soterrada no escombro dos conflitos.
socorrer-te por um grito? mas, moras num edifício onde gentes de sessenta e quatro apartamentos cunham distâncias e civilizam as elegâncias.
a varanda te arrasta e o mar invade tua estrutura líquida com uma exata obstinação.
os astros te buscam: teus quadrantes te maestram pelos destinos surdos até que uma estrela sinistra à porta de seu buraco negro irrecorrivelmente engole tua noite redonda e farta...
adormeces enfumaçada: os cigarros do vídeo filtram tua extra-longa paz.
tua angústia invade a humanidade azul.
o exílio dos veludos dorme em tua fuga e nos lençóis dos conflitos descobres o destino dos cronômetros.
teu chinelo de lã jaz esquecido à borda da lareira...





auto-psicografia



o gordo é um frágil: algo de humano existe sob suas vestes tão largas...
também é sensível seu coração, de lipídios cercado por todos os lados...
além do peso e do escárnio, da pança e do apetite, do açúcar e do suor, de compotas e panelas, o gordo também é criança e passarinho...
então, fizeram o gordo sonhar: ele no picadeiro do mundo, eles na plateia engordando em desamor os aplausos de ironia.
mas, depressa sonho acabou pois logo um gaiato  lá no fundo gritou: “isso é uma farsa! são versos sem vísceras: a barriga do gordo é uma alma estomacal!”
acordando, então aprendi e minha obesa razão também percebeu: é uma cômica tristeza o que consta existir no espaço vazio da alma dos gordos...


setembro/83
125 kg





belle de jour



essa esteira de passos madrugando minhas ruas galga momentos íntimos inacabados em pensares.
outra noite repleta de silfos e duendes salpica promessas no céu do dia a vir...
o aconchego dos segundos bem junto aos ossos de cada dama prediz a dança esquiva das fadas no arvoredo neblinado de cada cama.
até a renda de ramas fecundada no envelhecer dos caules, gera furtiva aurora se insinuando na aorta da manhã.
o dia chega e passa vão... talvez seja por isso que os gnomos adormecem de repente no bosque de cada um...





camping


(flash-conto)



armamos nossas linhas na tenda dos horizontes e os dados se enlaçaram um no outro como nós.
as coisas vastas e fundas se memorizam em rasos montes. nossas transfiguras, com os dias, se retorcem como nós.





canto negro de adolescente



primeiro roubaram as laranjas inda verdes. cresceram inventando truques, batuques: fizeram festivais, uúdistuques.
harpejaram fogos, lançando pianos pelas portas do mundo. estilhaços de violão na plateia... pra não dizer que não falei de flores...
estalaram as asas, afiaram os fios das guítricas eletarras, romperam rotina e mataram o tempo.
com violinos iconoclastas bolinaram órgãos catedrais: sim, preconcebidamente violinaram  com órgãos desnudos a vida contida e a falsa escada que levava ao grito.
aí assaltaram as barbearias e com navalhas na carne colocaram com ódio ritual nas bocas desdentadas pela vida sem sentido a mordaça da primeira mordida.





cenas

(Artes, Ciências e Literatura, nº 5, Comércio de Franca, Sp, maio, 1971)



sangraram-nos, fortalezas, com ruínas de reinos tardios (mas sobreviveram os fantoches que tua chama aviventa).
na busca de estrelinertes, quedamo-nos no aguardo de muralhas novas. o inverno vergasta, Palmira, auroras boreais em nosso costado de musgos. e volto a tencontrar vivendo nas entrelinhas de mim-romance.
foste a pedra inaugural, és a dança e a fada de meus sonhos meninos.
renda de ramas, fecundas ocasos no envelhecer de meus caules suicidas.
e canto a busca de tal procela fictícia que vicia meus naufrágios.
nossa dor vegetálica congela-se em tua gravidez de estrela escondida.
em outra galáxia iniciaremos nosso ritmo de que findo o impacto permanecerá o compasso.





central do brasil

(flash-conto)


estação da estrada de ferro central do Brasil.
celeiro de soluções do poder vigente para o transporte da massa.
arbítrio trabalhista gritos, correria, tumulto, tiros confronto pancadaria.
internados do Souza Aguiar, os feridos pagam a fatura do descontentamento salarial.
da “bravura” oficial resulta o homem em coma, quase comparecendo ao seu Juízo Final...


rio, 04-04-89





como canção



tua voz sem roteiro no ritmo de minhas palavras, ao som de tua música.
ah! o frio e o caos de meu muro-criança: do outro lado, o mundo da lavanderia. de cá, a toca da lagartixa: ovos e aranhas no cascalho aprumado em barro e suor...
na invasão dos rumos trabalhistas, a jabuticabeira.
somos a futura liberdade, na libertação dos outros.
bosque de sonho e náusea este.
quero aquilo de indecifrável de teus gritos mudos, de tuas zangas tristes, Palmira...
quero-te, como um momento surgido dos sub-cantos da tarde em meu pensamento menino.
quero o berço das bonecas sem fabricantes de teu ventre de assombros.





cravo de ferro

(flash-conto)



quando eu senti que tu paraste, pronta a parir o grito que grávida carregavas (como um cravo de ferro que te furava a alma prestes a romper), quando senti que teu grito agudo podia estilhaçar o cristal do céu poente em chuva de granizo, derreti com beijos molhados e quentes o gelo que te cerrara os dentes e deixei que tu soprasses pra dentro de mim, da tua para a minha garganta – precipício onde escolhestes morrer – o último de teus alentos.





de chuva



porque não adivinhei teu assovio chamando e tirei o paletó quadriculado para agasalhar teu corpo colegial?
era só ir à procura da chuva, desfolhar minha filosofia barata à tua janela e navegar para ti em um barco de papel...
porque não adivinhei primaveras descendo agonizantes do volume real de teu olhar sem óculos?
porque eu fiz brotar desde o teu coração de flor um alcançável mundo?
o que eu realmente queria era por à tona do mundo tua alma, translúcida fonte!





defasagem


o tempo parou como essa correção monetária: prestidigitado!
impossível a reposição, distante a fonte dos reajustes. o combate à inflação levou-me ao princípio dos problemas... as perdas sentimentais, a especulação e, acumulando-se lado a lado, minhas aplicações e oferendas com seus altos juros emocionais, me levaram à beira do ágio. tudo alimentado no fenômeno da pressão emocional...
então reconverto meus capitais, revisito meu foro íntimo... tento tudo numa última retomada de negociações pra não provocar em ti o rombo de meu Tesouro!

rio - verão/89





do mágico & seu aprendiz



inicialmente, querida, ignoremos a plateia.
agora, o primeiro truque: recolhe toda tristeza tua
ao fundo-gordo-falso de minha cartola.
recosta-te em meu peito: aí, apenas perceptível, uma palpitação sentirás: é donde partem minhas lágrimas,única seiva da verdade.
em minha casaca, no bolso esquerdo de cima, encontrarás um pouco de terra virgem: é pra numa hora de crise – própria de anjos – plantarmos algumas lebres e pombas aos pés de nosso palco...
fitemos o azul atrás das cortinas: vês quantos dedos submersos? são de ilusionistas que já se foram...
fixa agora esta bola de cristal, a luz. olha-a com o olhar perdido de quem perde um ente querido...
pronto? então chega de esperas! procuremos no abracadabra o que restou da magia da criação...

(1º prêmio no concurso de poesias do conservatório musical  “Jesus, Maria, José” – Franca-SP, em 1967.)


entrega



porisso esse troar, Palmira: obuses chocando mortalhas de sonho no ninho da morte.
estampidos estampados de espanto cruzando nosso céu de fogo sólido.
no brilho cegábil dos alados mísseis – a chuva de prata sobre os leitos de escombros.
num eflúvio passageiro, nosso morrer involuntário, mera artimanha de abreviação.
uma bazuca de rosas explode em nós e nos incendiamos de pólem e prismas.
que fazer agora de nossa carne de auroras, dissecada em trevas e trovas, em estilhaços de dias e noites?
os acordes soam fracos no final da sinfonia e inda que os instrumentos se tornem pó, cerco-te de estradas futuras, Palmira.
últimos tiros ecoam no espaço oco de nossos crânios... vencidos, nos entregamos aos obstáculos, o óleo e o fumo nos povoando de cruzes e tumbas.
no campo duma derradeira batalha vagarão perdidos nossos ossos sem ofício.





entrepassado



pela décima lua visito a fome liberta que teu olhar encerrou.
luz e breu. tua chama de cal perdura, revelando o belo de nosso pertence único: o rebento ao lado visitando noturno o país dos caramelos.
eras o aconchego que coroava minhas tentativas e teu ímpeto perpetuou nosso cálido compasso.
a ausência da lama errante emanava tributos de nascer ou fugir... fugiste.
hoje são minha vida e luta certos passos rolantes -que massacrando minhas noites - predizem a época de teu regresso.





esfinge

(flash-conto)



decifra, rocha, o humano enigma: de cima desses blocos acaso sabes a olhos braços pernas nariz boca cérebro sexo coração?
meu frágil tempo, mudo e lento, te modificará pedra por pedra...





felina

(flash-conto – Poeta em Foco, Cataguases, Mg, novembro, 1986)



quando um silêncio listrado rondar seus versos saiba: do bote imprevisto nascerá um poema (juntamente com o tigre que salta do solo também nos ataca um pouco do chão: em todo depois sempre existe um pouco do antes) & no poema nascido e no poeta ferido sempre haverá além das rimas a marca das presas da fatal poesia & assim também o salto ferino e o sangue da vítima sempre estarão nas listras do tigre que inaugurou o poema.





isca


(flash-conto)


no vôo dos ossos apurando o nascimento de asas alheias, conservo-me em ilhas: translúcido pássaro, ao sal esquivo de águas experimentais, o acaso ronda meu peito.
peixes e mergulhos bicam meu corpo de sargaços.
seu fecho se abre em concha e, exposta sua nudez,
a pérola rara fisga-me o último verso.





magia


de repente, sai de sua maleta pelas mãos dos artistas e cria vida a pequena marionete.
o corpo de pano se apruma por encanto e o boneco redivivo é poesia em movimento...
grácil, o infante se arrisca em passos de dança e sempre sorrindo cria em nós a ilusão de estar vivo.
desperta a criança adormecida em nós: acreditamos que o pequeno guri anda e magicia, cativando em definitivo o garoto que se ilude em nós...
a gente se espanta com tanto encanto em tão efêmera existência...
mas, quando bambeiam os cordéis que o ligam à vida, o títere protesta, quer ficar vivo: suplica, pede, adula, pois enquanto dura a magia é menino de verdade!
debalde! o pano desce, a farsa termina: o petiz enfim repousa a sós. aquela  maleta é sua morada, nossa sina...
mas, voilá! -  a ilusão permanece com a criança que existe em nós... desce-nos improvável pranto! é como se tivesse morrido um inocente: e a gente, num terrível paradoxo, se compadece de um boneco que adormece...





manhã


(flash-conto)



tecendo um chão de aves, os parques apanham canções nos estilhaços do sol.
parques estilhaçando cantos tecem sóis concertando pássaros.
canções bicando aves consertam parques sol(e)ando estilhaços.
bicando pássaros, parques tecidos de estilhaços apanham do chão o sol.
bicos passarando parques apanham sóis tecendo canções.
na canção dos estilhaços, aves tecidas de parques brincam de sol e(m) mi(m)...





mistério na noite carioca


(flash-conto)


silêncio madrugal na ilha do governador...
quantos dormem quantos morrem quantos presos quantos passos, quantos carros navegam na noite carioca?
passam ônibus que não voltam mais... quanto amor se faz no calor desta noite...
minha parcela de presença são costelas doendo num monástico colchão...
minha insônia ortopédica na janela gradeada, fumaça de cigarro escapando para a pureza madrugal da ilha do governador...



rio, 02-04-89





momento

(flash-conto – Poeta em Foco, Cataguases, Mg, novembro, 1986)



quando uma brisa mais forte entra pela janela do escritório levando por brincadeira flutuando pelo ar uma bandeira negra-pirata do melhor filme-carbono (que se esconde submarina por baixo dos móveis carunchados) brincando com sua pressa ele se levanta resmungando disfarçando a irritação e se agacha paciente ao encontro da folhalga que se ri marinha oceânica soltando bolhinhas de ar tão mínimas que ele se acalma de verdade como se nem tivesse se irritado e adormece de tanta ternura ou falta de ar...






notícias em profecia



não me dá vontade de fazer poesia essa bárbara situação em que o homem se atolou...
fico tevendo noticiários, mortos insepultos, meninos em pé de guerra, adultos em “pede paz”... catástrofes, sanguinários aiatolás.
ditadores naturalmente à direita de todo lugar: tanto reprimem o grito chileno como insistem na degola nagô... ah! Palmira, lute com versos em canções belas, ou empregue a força ou fosfato queimes: paz e justiça, por mais que teimes não virão só por querê-las... já já, num céu de vídeo-gueimes assistiremos à guerra das estrelas...


Março/1985





noturno



ouve meus sinos, Palmira: meus anseios em seiva diluindo teus sonhos.
essa música palpável de realejos e violinos acorda o em-fado do mundo...
ouve meus sinos:  não tenho armadura!
me estilhaço nas ruas, meus braços e passos buscando sinais.
essa placa musical de realinos e violejos esbate os contornos do mundo.
ouve meus sinos: a esquina do tédio adormece ao longe...





nuvens



olhando o céu, viu. arriscou um palpite: são duas nuvens de médio porte.
tinham se reencontrado na véspera: uma mais velha, outra menos nova. juntas rebuscaram a alvorada em que foram uma.
lá encontraram inúmeros destroços, frutos de seu granizo.
voltaram ao mar, nevando em seguida sobre regiões ignotas do Himalaia.
como névoa buscaram um porto distante, beberam vapor e novamente se precipitaram à terra... escorrendo pelos rios voltaram ao oceano.
sua função múltipla inclui obrigações voluntárias e anuais com certa árvore num pomar mergulhado no tempo dos pomos.
a macieira sedentária entrega-lhes as flores de sua gratidão.
as nuvens reunidas descendem de um enorme dilúvio e solidamente gasosas tapam nos cirros a brecha por onde o luar as fecha.
esperam no acúmulo de si mesmas um gesto de retorno em que findar.
aguardam numa pequena faísca outra separação.

origem


(flash-conto - Totem, nº 4, Cataguases, Mg, fevereiro, 1976)



alargando o vôo, penetrou nos intestinos dum grande leão, cuja juba se estendia por milênios. recostado num órgão distendido, participou como sêmen da cópula do felino e nadou apressado entre outros esparsos espermas e fecundou imaculado óvulo.
a gravidez se completou rapidamente e a leoa pariu muitas esfinges que se espalharam pelos desertos de certa parte do mundo.







o velho



liberto, o velho transmutou-se, refletindo seus anseios nas miragens da areia. eclodiu então num tempo de cremações num mundo longínquo: a terra das aleluias.
pairou algum tempo sobre o pequeno arraial incrustado na encosta duma serra. foi abatido a flechadas por crianças travessas.
dele ficou no ar apenas um odor de baús arrombados.
para encontrá-lo novamente, apenas em sonhos.
sei que de alguma época, de algum lugar, sou espreitado por dois olhos marejados de saudades, ansiosos por minha morte...
















víndice

(flash-conto – Poeta em Foco, Cataguases, Mg, novembro, 1986)



a porcada estava reunida num brejo na beira do mato fuçando nos barrancos do córgo que passava nas divisas da fazenda e podia ser umas dez horas da manhã e pegamos cada um um pau e escolhemos um porco para matar cercamos o maior deles um carunchão piau o cachaço da manada caímos de cacetada nele e quando estava bem morto depois de muita gritaria arrastamos e jogamos no córgo ele foi pro fundo e ficou soltando aquele sanguinho pelo focinho fiozinho que vinha até a toma d´água depois veio voltando para a superfície devagar ao mesmo tempo que ia navegando água abaixo aquela massa escura contrastando com a limpeza daquela água cristalina onde logo lavamos as mãos matamos a sede e jogamos os paus que foram embora boiando também depois de tudo acabado demos muitas risadas e fomos embora pra casa cada qual guardando no mais íntimo de si a história desse segredo...







receita

(flash-conto – Totem nº 4, Cataguases, fevereiro, 1976)



pra fazenda da viúva
dona poesia nacional
a enxadáspera
o estrumelódico
o caloema
o gadológico
a mudardente
a sementespessa
do armazém da viúva
dona minas gerais.









regressos

(Artes, Ciências e Literatura nº 8, jornal Comércio de Franca, Sp, junho, 1971)



provo-te que os momentos de paz valeram algo: (sei que partirás no alento da mão que te semeou esférica, minha infância-Palmira!).
no dia em que nasceste, trouxeram-me teu perfume de futuro. dali um amor brotou. a enxurrada das chuvas de novembro. os palitos-barcos. o Zórim. as corridas em que gritavas a aposta (e as ganhava!). a farmácia, a cadeia-salvar, a mangamerreia. afinal, aqueles piques no nós-mais-crianças...
ontem tatearam nossas tinturas meninas e julguei sumirmos pelo riacho do sol. logo explodiu em nossa haste a pétalágrima e findou o tempo de nós-sementes-latentes.
sim, Zórim, ficaram lá atrás as carreiras, o Niazo, as goiabas filadas, o sô Benedito do hotel e até o Sílvio que começou a escrever poesias e parou: os momentos de paz & infância...
das noites e dias de busca restaram a caixa de engraxate, piões ganhos na cela e certa piada da bota. para longe galoparam os cavalos roubados por um dia ou pruma voltinha só. (uma só, né?)
o retrato, você ainda o tem? o retrato no santinho da missa de sétimo-dia do Pachequinho... escapamos daquela vez: não fomos nadar com ele, pescado depois pelo dedinho...
resta partirmos agora, naturais como a tarde, rumo a dias de gente grande, sem mexericas, com os limões da vida.
que ninguém entenda porque nossos passos desfalam caminhos.
(dava tudo por uma corrida de palitinhos na enxurrada, saindo da frente do jornal do seu Tufi, até no bueiro de baixo...)
partamos, Zórim: nosso rumo paira distante, como a liberdade!

(revisto e ampliado)














retorno

                                 para  Maria de Lourdes Hortas



ainda existe em meu tempo a raiz do canto: a ponta final dum fio de lã.
vou-me enovelando, passo a colher coqueiros pontes praias passagens... me calo en/fados...
me lembro das fontes - virei menina! – amoras me tingindo de grilos e primaveras... fios azuis se avolumando...
acho o dito castiço, o lusitano falar... adeus, sotaque mestiço!
tingem-se de rosa as faces da menina em mim:  alouram a tropical morena.
tudo é alumbramento: longes rios brasileiros donde saí...
passo o Equador.  aí minha alma rubra vacila adivinhando clarins, guitarras e vozes atávicas...
sete mares me trouxeram a ti, ó Tejo!
no cais, recomposto, meu xailinho pra frio...










subversiva



eis minha barba: traços gramíneos numa cara ajardinada...
a navalha passa, ceifando pelos poros fiapos de mim...
miro o espelho: diminuído, estranho, me desconheço.
meu canteiro ligeiro, onde, Zico Barbeiro?
no rosto escanhoado, a loção e a certeza: sob essa ausência, submersa na pele, presença sedosa, a raiz permanece...










poesia e chá



não, Palmira! não quero ser aquele que faltou ao encontro.
pode me esperar, estarei sem falta em nosso quilombo...
quero estar à mesa quando o chá for servido na varanda. no horizonte, um lago de águas calmas, uma ilha, montanhas ao longe.
ouves o mugido da rês? ouves a pomba que chama? é quase o fim da tarde. o azul se enverdece em nosso jardim.
não. nem pensar, Palmira! não quero faltar. quero estar à mesa quando forem servidos poesia, Mozart, flores, chocolate e chá.


















o ladrilho

                                        para Zé Bonito, o Ébrio.



quero estar distante bastante para lhe agarrar um sonho. preciso sonhar de novo com novas e coloridas tranças-crianças balouçando-se em meu espelho...
quero sonhar ser mármore, logo eu, ladrilho - de ladrão com andarilho...
quero sonhar momentos-mármores, quero deixar me embalem os risos fáceis de vassouras e rodos...
quero as coisas mais etéreas menos chão: os cismas e os criados, as crinas e as crianças.
quero o sapatear balofo e zonzo dum bêbado me invadindo os sonhos nas noites mais frias dos becos...
e nesse meu sonhar ladrilhante me envolvam nas noites cálidas alguns arremedos marmorejantes...


abril/1975




olvido


começo a esquecer e não adianta anotar: olvida a lembrança  o que foi anotado!
envelheço de mim, como um pobre coitado...
se escrevo um verso, só disfarço o cansaço.
não existe o remédio que me foi receitado:
desnascer-me de mim,  de pé ou deitado...
o pensar já me pesa e o poema é um fardo.
começo a olvidar o que sabia de mim: o que estava anotado não me foi receitado... mas o poema insiste em fazer-se lembrar...
o remédio é um fado que disfarça o esquecido.
onde achar o passado se o que fui está perdido?
começo a escrever e não existe cuidado: esbarro na palavra que tenho procurado, e não adianta chorar a letra derramada.
a poesia é em mim o próprio delírio! pras vistas cansadas que tenho na alma, a busca dos versos é meu único colírio...
o poema reclama do peso da idade. envelhecem também o vapor e a umidade: disfarço em lágrima o que chamam saudade...

deitado eu esqueço o que de pé anotei. sem fim ou começo, quem sou já não sei... sem receita ou remédio meu fardo é meu tédio.
não adianta ajuntar os meus cacos no chão: o que resta perdido já fora esquecido. disfarçando o sofrer, começo a esquecer!
o bem mal me quer? onde anda meu trevo? o que ontem escrevi, já não reconheço: não recordo o que escrevo, apenas esqueço.
lembrar-me dos versos em vão eu aguardo...
sem receita ou remédio, o enfado é meu fardo.
não vivo nem vegeto: desaconteço.
por dentro de mim, sumiu minha história. não me resta memória...
já sem poesia, então eu peço:
que esquecido meu canto, num canto envelheça.


outubro/2009





pictórico



no retângulo perfeito dos gestos contidos, morrem submersos nossos desejos sabotados.
ah! Palmira, de nós tantos sonhos afogamos que nos tornamos espectros sufocados.
quando cantarem as sereias, boiarão enfim à tona das lembranças nossos retratos desbotados.





repressão



primeiro enterram nos canteiros nossas almas floridas. é donde brotam essas cores tão flores!
no coração do tempo: aí sepultam nossas sementes... assim nos brotam tantas pétalas murchas.
no espanto geral dos girassóis filosóficos, no crochê jornalístico, no clichê da vovó, num cão e no filho: toda a praça em guerra!
por fim, dos jardineiros armados, as alfanjes degolam nossos sonhos coloridos.






sagitário



teus sinais: setas armando vôo, alturas vincadas em sangue e expectativa.
teu arco retesado, bovinos galopes fogem de mim.
pensei que fosse horóscopo, mas é sina, questão de signo.
tuas flechas alucinadas singram o zodíaco e ferem de amor meu touro signal...





sapientia

Como se eu não soubesse que para ganhar o amigo antes de tudo preciso procurar saber seu ponto de vista.
Como se eu não soubesse que todo ser humano se interessa primordialmente por quatro itens importantes para sua felicidade e seu progresso.
Como se eu não soubesse que esses quatro básicos interesses humanos são, nesta ordem, os seguintes: as coisas que fizeram parte de sua vida – seu passado! As coisas que lhe pertencem – seus bens! As coisas que fez e disse – suas realizações! Os seus hábitos, predileções, opiniões – o seu jeito de ser!
Como se eu não soubesse que o que mais interessa às pessoas é que se lhes falem delas mesmas...
Como se eu não soubesse que fazendo isso terei dado um grande passo na difícil arte de ir vivendo bem com qualquer um...
Incapaz de grandes hipocrisias, vou vivendo de poucos amigos verdadeiros que me toleram apesar de meus defeitos, como se eu não soubesse...

Inverno/1986






sonho



joga-se baralho.
a noite quente aos poucos refresca.
cervejinha, tira-gosto, queda vai, queda vem...
bate o sono, TV se desliga.
cansados do fazer nada, vão todos dormir...
mas a mocinha não dorme... sonha acordada com o loiro rapaz de olhos azuis e pele queimada que lhe foi prometido no começo da viagem...



rio, 03-04-89











vespertina




ah!. Palmira, minutamente goteja teu sol em minha praia...
fugiram de mim as horas da tarde.
abandonaram-me os sonhos no exato começo do sono.
solidão adentro, ardo sem ti.









recluso

(flash-conto)


menino adolescente adulto.
aniversários em procissão.
repete-se o círculo dos antepassados.
reinvento uma sinfonia de páscoas em maio, natais em agosto e dispo meu tempo segundo meus desgostos.






resignação




quando contemplo a tarde lavada em poesia, procuro a estrela que pinga do infinito, o vento sopra em meu eco uma face de ternura.
Garcia Sinfonia me pede o Quinto Verde-Verde e saio salvando o mundo dos sub-loucos.
não aceito o quarto coberto de minha poeira que nele pousa.
no rádio do vizinho o impossível livro negro da lei falimentar.
vou virando uma lâmpada até me tornar a estrela gotejante.
aí deposito no ocaso uma renúncia.





pré-acalantos



enquanto dormes poupo à gestante em mim tanto quanto possível as comoções morais.
esmero-me no asseio do corpo e marcho ao ar livre pois convém excelentemente à mulher prenhe.

dizia certo médico parteiro que o sossego e a paz de espírito são requisitos essenciais à prosperidade do fruto do ventre materno e que em seus cuidados não deve a grávida limitar-se a si mesma e ao seu homem, pois corre-lhe doravante a obrigação de velar pelo germe que nela vive, ao qual tem de dar a devida conformação.

(eras a boneca com quem eu brincava em criança!)

enquanto aguardo teu rosto que por ora vaga virgem como um clarão na remota manhã, enquanto espero, vou pensando que deverei te dar banhos empregando água pura de corrente (ou de chuva ou de cisterna), conquanto não contenha partículas térreas. muito importam a pureza e a temperatura: a água deve estar morna em torno de trinta e seis graus.









parábola




profetas, (me dizei, Senhor), são também a relva e o regato que no campo largo saciam de beleza o pastor sedento e o fazem poeta?















sub judice



pois se aquele que me desconhece me julga, eu o desprezo.
só menalteço com o carinho de tuas palavras incomerciáveis.
vejo no julgamento prematuro dos homens frases ocas a preço de ocasião.
as honras, vendem-se em bancas de oferta.
dou aos homens o que deles recebo. não há precedência minha ou deles. sei que devo dar em dobro. e isso me basta, posto que meu brilho é reflexo.
me basta a consciência da obrigação...
já tu és minha pérola morena dum fundo rio, amante pra sonhos e rebentos...
que daremos de especial aos homens? algoluz? o sangue? a trova?
ignoremos: aquele que nos desconhece nos julgará.








outra vez, festa



paira clorofila no ar na hora décima nona...
roupas virgens no horizonte do varal trescalam recuerdos...
as pás gasosas que sempre me molham do céu ajudam a soterrar as mágoas da parede nova sem caninas experiências...
longos fios molhados de cobre e vermelho sobre a rua formam fúteis um violão, quase réptil...
vem o aperto: amígdala e céu.
vai haver outra vez festa... duvido que a mesa suporte a violência do bolo. chegam na última hora: amargura, melancolia. espero a poesia...
pardais e andorinhas, quais velinhas acesas indicam parabéns e muitos anos de vida...
nesse momento ouço palmas. palmas tristes embaladas pela brisa, sussurrando. palmas banhando-se de sombras esperando a lua.
e o bolo, incendiando-se, sepulta-se nas trevas: é noite!

setembro - 1966



















ânsias



ânsia de galgar em suor e beijos a cordilheira de teu colo banhado em calor moreno...
ânsia de eternizar tua boca no instante de nosso encontro.
ânsia amarela que antevê saudades, a minha.
mas tua ânsia, menina-ânsia, é fome que brota da coluna, perturba estômago, trafega jugular, percorre miséria, apóia enxadas e escorre em baba coração adentro.
















zíngara



o tempo, Palmira, a ele basta que passes... se aceitas o seu amor, ele passa a caminhar por teus silêncios e existes em suas nebulosas.
ele te quer nas trevas duma intenção, lhe apalpando os punhos futuros...
quanto aos meus desafios, são nuvens carregadas de sangue e aurora: peixes de fogo.
ignora-os, tu és a pagem de meus abandonos.
sua flor de jazz paira no palco acima da vida....
já eu, bastando que tu existas, vou sendo o gordo da forja e da rede.




homenagem a Téo Lopes de Andrade,

um mestre dos microcontos.



Ao encerrar este livro de minicontos, não poderia deixar de homenagear o Téo Lopes, excelente contista da cidade de Franca-SP, que levou a contenção vocabular artística às raias da perfeição através de seu microcontos...

Eis alguns exemplos que me enviou, para a feitura dos quais ele “obedece” a seguinte regra: máximo de 60 caracteres (palavras, pontuação e espaços), sem contar o título.

Reputa a construção de microcontos como um exercício interessante.

Aliada à extrema economia nas sílabas, esbanja o autor imensa sensibilidade no sentido da escrita, como se vê pelos três exemplos colacionados...











Memórias de uma bolinha de sabão


Cap. I

Comecei minha vida assim.


Cap. II

Tão perto do fim!














O Misterioso Assassinato de Inês




Lua de mel. Gemidos.Cadáver.
E ninguém achou o buquê.














Canibalismo




Não entendendo a mímica, decidiu engolir
os gestos.





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