terça-feira, 14 de julho de 2015

O REINO DE COIVARAS - CONTOS

oscar  kellner  neto

Reino
 de
Coivaras


contos















in memoriam



ao Salles Dounner,

o Poeta da Tátil Sensibilidade,

(um maldito em seu tormento)

pelo exemplo de tenacidade

na luta contra o aniquilamento.



ao Barrozo Filho,

o Poeta da Rara Percepção,

(mesmo ausente, exemplo vivo)

pela imensa compreensão

e incansável incentivo.
























sumário




4 - o êxodo
44 - o estigma
50 - o sonho
75 - o cinema
 86 - o pensador
92 - a páscoa
118 - o telefone
147 - o começo
152 - o favor
172 - a mancha











o êxodo



Das legítimas aspirações duma donzela fujã em busca da própria vida, num relato onde não faltam nojo, arrojo e diversos tipos de arrepios.

                       

                        NOITE... A moça se contorce em seu leito de fagulhas.  Comprime no ventre virgem um travesseiro de paina: masculino porém inerte.  Deve decidir-se: terminaram as possibilidades de sobrevivência...
                        No mais, desde sempre, no fundo de si, tendo de seu secreto, em presságio e acalanto, a opção libertária do prostíbulo... Já insuficientes os solitários desafogos da castidade, sensibilidades digitais, safismo abafado, estrangulo do grilo, castigo sublime e festa íntima: uma nunca lesbial amiga... Ir-se, buscar sua época... Sonhasse então aquelas ofertas de Tília, aposentos em liquidação... A tia e madrinha dito: seda atulhando sua camarinha atapetada, perfumes de França, essências de cor, cosméticos de cheiro, pintura pros olhos, perucas, banquetas estofadas, maquilagens, adornos, penteadeira e toucador com espelho de cristal, vestidos da moda, peles arminhas: tudo caro, incalculável pra ela...
                        Isso: ir pro comércio da carne! Desredear aquelas inclinâncias... Pra que continuar apenas sentindo vontade, no coscorejo do brombrilinho, das ânsias mais nojentas, de lambidas machas?  Assim sempre no renuído, remoendo tudo o que perdujica o são pensar, varonejos impossíveis? Sonheira que em fosse homem sujava lençol, esmagrecente em osso e acne... Seviciar-se - até quando - daquelas volúpias, no fundinho, abominações... Degradada vontade: libertação de fêmea tão enjaulada entre panelas, vassoura, cozinha e doido irmão depravado...
                        Mas largar Rosendo?  Tão fraco, destrangolado e definhante irmão? Tão ora ausente, inescorando as caseiras despesas, ora tão louco em sua girice, adorando postar-se, sonhoso, sob raminhos cianocarpos, misturar-se com migalhas de céu - lá onde há velha mãe à espera... Isso assim, largar? Ao menos finasse.. Como ajudá-lo? Fim de judiação, tanásia? Coitado nunca empunhou arma: como matar-se? Talvez  se o tempo não tivesse engulido Cacalo Preto ou Benegídio Licarco, antigos relatos avôs, manos bons no promessar, encomendados de aluguel... No contrato, só exigir: executavam a troco de banda de capado: de parabelo, mausa ou brole, sem crenfa. Depois, sumiço no sertão, tempos, viver de cibalho feito zirro carcará...
                        Sonhices pagãs moça cortando no peso do diário terço, no oratório.  Mas as visões voltando sempre, delicioso tormento ... Donde vinham, de que recônditos movimentos da alma frágil? Donde aquela atmosfera surda e irreal, concedendo chão pros sonhos de perdição? Até onde iria esse devaneio arrepiante, diariamente controlado nos sintomas, mas nunca fundamentalmente eliminado nas origens? Por que, nele, expressos a solidão e os terrores atávicos daquele ser humano? Fantasia e realidade... Até quando aqueles sonhos calibrados com o ar da paixão e do inesperado?... Ela nunca procura aquilo de espontâneo... Mas quem usará dela naqueles estados inefáveis de recepção e oferenda sensuais? Haverá ali, oculto homem, o moço antigo? Dele, o inigualável clima e o brilho de fábula das oníricas visões? Espanto, nostalgia, evocações: tudo esmerando beleza na voragem fictícia...
                        Já não resta de-comer.  Nenhuma parca dotação mensal.  Dote nulo. Cancelas derrubadas, nenhum pasto pra alugar, sujeira e mato redor da gente... Chegasse-lhe o fim! Não mais aquela moa besta do irmão sapiranga, insone e malvado. Não mais lavar-lhe lambuzume de diorréia vertida no desacato do sexo... Nem também aquela sonhação só: mas o real do menino antigo sobre ela, agora ambos moços, esquivos, no sanfenal depois dos eucaliptos, após a noitada do circo Caribe... Assim, amor sendo pra ela um semblante misterioso... Não aquele dia-a-dia, sabendo a suspiros, acalanto e paz impossíveis.  Mas miragem, aventura, movimentos, galhos, chifres, mandioca, reprodutores, cachaços, ejaculações naturais, animais, tão no recurso recordante do menino que brincou com ela, rapagote ainda, no paiol, delícias cócegas, linguinha ágil, seu-vizinho bolinoso, virilidade dum falinho rijo! Tão entrepernas, calor roliço, melzinho inofensivo, escorrente e melequento...
                        Onde o irmão arranjava aquelas carântulas pra rabiscar a canivete nos troncos do quintal?  Comandava ele algum sanedrim de pandilhas reunidos em espírito no fundo daquele velho alçapão? Só parece mesmo restar, arremedo de esperança, um convite sempre renovado: Tília, a tolerante... Ir-se pra cidade... Já não via conhecidos há tempos!  Ozéia Coletor, crente e respeitoso, olhares de soslaio, vigiando gado contrabando, não vinha mais pra porteira do corredor, tocaia de boiadeiro incauto... Parou de vê-lo, prosa e religioso... Fessô Sinforino morrera ano atrás.  Fazia questão de mensal visita mesmo depois de alfabetizá-la... Aderlade Bugia, preta ruça duma cafua mais preta ainda, parou de pedir lenha. Cata onde quer, dona dum fictício usocapto nas divisas... Sem trato, no  chiqueiro em ruínas, finaram magros os capados chaveirentos... A horta e quintal, antes cafeeiros, mandiocal e morangueiros, mamões e guabijus, hoje chavascal... Sob a copiara valadia de varedo podre detrás da casa, o forninho erodido mostrando o abandono geral.  O moço reparou, será?
                        Mas a mãe...  Como podia esquecer?  Queria pra ela o futuro de verdadeira dama, segundo as normas de conduta de sua lá passada época, em desuso: sendo não devia nunca rir alto em público, não cruzar as pernas ao sentar-se, não andar desacompanhada pelas ruas da cidade, assim, protocolarmente, no preestabelecido figurino, um sempre irrepreensível distinto de maneiras, tudo no aferido de senhora bem-educada, de grande distinção, e, se possível, zeladora de alguma capela.
                        Nunca baralho ou cartas lhe corressem pelas mãos! Se preciso, na extrema do celibato, companhia de senhora idosa, dama de honor! Idem pregava, no seu tempo, a primeira alfabetizadora, dona Damiana, lições beabá entremeando... Mas, acariciante, apalpando-a, inúbil, com mãos de veludo, sendo como a flor, igualmente afrodisíaca, com seu vasto lastro sessual, a mãe dispensou. Como depois falou também o dasigastro Sinforino Lago, sessentão, um dia visto banhando-se pelas frinchas do chão do sótão, solitário no gozo e na bacia...
                        A mãe... Coitada, morta no dessarro.  Acompanhou a dor do pai esperando resultado da entença: enxano ido, nada resolvido... As caendas por sua alma, ano inteiro, no regular, custou agüentar... O longo loito, o escambo das terras, o acrejo querendo tudo levar, no oso de credor judeu! Depois, a morte... Agora, tudo em abandono.
                        Foi bom quando havia vacas e cabras, muito leite, filhotes.  Galinhas, frangada, patos, gansos, perus, angolas e leitoada fuçando no mangueiro... Os mamotes, borrachos de leite, na manga, disparados, vassoura da cauda limpando o lombo, serelepes, trotantes sem fundamento, naquele uso de só alegria lá pequena deles...
                        Era bom espremer o queijo,  ajudando a mãe... A tropa que existiu, egüada e cavalos lindos, corcéis de prínspos, poldros reluzentes... Houve ali um Guarani, esperteza de manalvo viajeiro, do pai, serril e idômito, ‘té-quenfim domado - custou pulos e corcoveios -, saído um relógio dentre as pernas amansadeiras do melhor Batista Casé, peão de Itaniope... Mas, que é do cabro pampa? Na cobertura das cabritas, zebuão de orelhas, nunca houve melhor! Venderam pro turco, que castrou e comeu, com família de enrolada língua, num dia-de-ano... Há quantos anos? Foi s’embora, dizem, chorando: berro triste, sabendo destino de separar-se, da cabeça, o corpo...
                        Don’Olívia ‘tá-qui ‘tra vez, fervendo sabão, fazendo serviços, bonequinhas de pano, farinha e quitanda: mãe doente, infusórios vorazes... Chus... “Resta flanar idéia no espaço pra banda de Deus Nossenhor, encontrar Dileto.. Me espera, eu viúva dele, minha filha Rosalda...” E se foi sua mãe, moça...
                        Depois da exéquia, lonjura dos manos demais, já esquecidos em suas próprias vidas, familiares e distintos, agora lhe restou a companhia do espiritado irmão... Tudo  ruínas...  A abelha-do-reino, enxotada pelas mombucas brabas, caixotes vazios, nero mel... O rego sujo, em fraco ressumbro... Até o fruxo manso fugiu, não há mais seu canto! Em Rosendo, seu algoz, sua danação... Não suporta mais! Deve se decidir, logo-a-já!
                        Não agüentará outra súbita e inexplicável flagelação do opressor, com o posterior banhar-se em ervas epulóticas, por receio, no lugar da salmoura desmaiativa... Rosendo, sua nauseante devora de murganhos vivos, sua insistência prepotente em repartir com ela tal pão, forçá-la a comer com ele: desmaios de repugnância...
                        De mais a mais, não há mais mantimento algum.  Ela nada pode fazer.  Nem chamiço existe pra esquentar um chá, uma rala sopa de raízes... Agora, a ameaça! Tem que resolver.  Está superior às suas forças continuar cuidando dele, despótico e sujo, exalando das inflamações vurmosas o característico odor feridoso, sempre rescendo, por toda a casa, catingoso estrabo.  Ao menos, como ela, se levasse na represada água... De caçar bichinhos em grotas e valos, vive arranhões, picado de moscardos, varejeiras, tavões anófeles, besteiros, musca carnária... Carrapatos devoram-lhe a pele, sugando seu pouco sangue, ele tão rugas flácidas infestadas de bicheiras, bernes e carraças... De longe se ouvindo no dentro dele, o ronco dos gorgulhos, das brocas e dos vermes roedores...
                        Intolerável, à mesa, continuar sofrendo aqueles antojos bravos: Rosendo, distraído, mas de-propósito, com a imunda unha do dedo mínimo, vir puxando, em meio a vibrissas arrancadas, ressequidos ranhos do cóano esquerdo do nariz engurgitado... Em seguida, come o achadego, com a anexa cauda de um muco - inda viscoso - isso assim estalando de satisfação a língua tumefata... O nojento vez por outra ainda o obriga a limpar suas imundas fossas nasais, sempre entupidas do ranho seco... Passa mal, tentando lidar com o cerume, de nauseabundo aspecto e rescendendo a pus, e tendo a consistência de bernes adultos, ali no meio das vibrissas ponteagudas - estalactites catarrais - daquele nariz deformado pela imundícia...
                        Nas raras vezes que sai a cavalo, Rosendo passa raiva demais, pois o burro ronceiro graviona uma boa meia hora antes de se entregar ao cabresto... Aí, trotando, o cavaleiro segue para longe, dobrado do mato, atrás do clivote, armar arapucas, visgar silvestres galhos, na captura de sanhaços, bicos-de-veludo, gaviões-mateiros, rolas-roxas, urubitingas, pombas-dubam, sabiá-gongá, sagüi-preto, preás e ratões-do-banhado...
                        Quase sempre volta todo encalombado, ferrões da sanharó.  Mas então traz, com certeza, o mel tirado do oco dos paus... De quando em quando, ele colhe frutos estranhos da sururina, céreos da serra, taiobas do brejo, coquinhos verdes,  polpas de flores, e volve cansado, suxo, sem molime... Mesmo assim, se não encontra pronta uma lavagem salgada,  - por esse és-não-és - fome brutal, inextinguível, o parvo a espanca, bestial. Depois currupaca feito o papagaio de estima da casa (que comeu tempos atrás), bufa, pisoteia, espaneja-se como o último galo - que comeu com espora e penas -, e rosna colérico, animal, punhos cerrados e dedos túrgidos, massacrantes: quer a sopa e é pra já!
                        Ela sabe: ele sofre e faz sofrer, já não sendo dele a culpa... Abandoná-lo seria certo, solução?...
                        Quando ele sai, no sossego que então invade a casa, ela devaneia... E, às vezes, se surpreende chorando uma água-ruça, a sangra, vertida das azeitonas de seu verde olhar sertanejo...
                        À noite, sempre aquele roncor ritmado e assustador vindo do quarto dele...
                        Dum galho solitário, tão longe, o retinido do gainembé: triste bigorna de penas à flor do luar.. A moça chora baixinho o diário pranto manso, rorífluo...
                        Em quantas madrugadas acordou com o ruído nojento da rosenda masturbação praticada maniacamente no canto esquerdo do quarto, à vista de sua pouca roupa e das raras cobertas... Deve ficar imóvel, esperando, sem olhar para ele, mondrongo apenas ouvido e pressentido na penumbra.  Só pode sair correndo, pra vomitar, depois da doentia ejaculação rosnante... Da única tentativa, antes, quase a matou de pancadas: nem tentasse mais fugir... Daí inaugurou-se o acordo tácito: ela sentiu o estranho furor homicida nas pupilas hediondas, em voraz apetite devorando suas pernas macias e robustas... Também alguma vez pressentiu-o arredando o cobertor para melhorar a visão do fetiche vivo.  Não bastava adivinhar-lhe a corporatura sob a manta.  Mas sempre ficasse nisso: nunca atacando contra ela,  taradamente, aos estupros...   Quer contar apenas com sua pequena ajuda: modelo absorto e imóvel, feito moça de almanaque... Perdeu a noção de moral, porém parece-lhe proibido tocá-la... Mas até quando se adiará o incesto?
                        Depois do medo e do nojo, vem um grande dó, uma enorme pena desse irmão que um dia foi ser-humano... Hoje fera, a ponte de degustar, muricida, quantos ninhos de rato encontre, daí assim sempre, no usável... As estriges, então, ela contou: Rosendo comeu, num dia, dezoito, do pior agouro!  Acabou com os calangos e lagartixas de toda a região. Devorou tantos anus e corocoxós encontrou. E corocotéus, crejuás, curuás, familiarmente... Achando ninhada de mariposa e louva-a-deus, parece criança comendo grajéias, guloseimamente... Continuasse ela suportando-o?
                        Há o convite de Tília: porém, nele  embutidos, homens demais, muitos... Medo... E os sonhos? Não estarão esperando a partida? Por que o sempre grande gavião presente neles? A harpia parecendo saber seu íntimo! E por que sempre ela a presa dos mergulhos do corujão-de-orelhas, no sonho reprisado? Sendo: no silencioso ruflo de asas felpudas, na aproximação de flecha, impossível fuga, desfechado vôo, o flanado aproximante, o pássaro tão apenas cabeça e garras, comprimindo-a pelo ventre, ratinha indefesa... Quando acorda há sempre lá fora, no escuro, lamentando pios, o urutau do brejo, no mesmo poleiro da embaúba velha até que Rosendo o capture...
                        Depois que a mãe morreu, Rosendo dera fim nas duas lercas paridas.  Sangrou o capado gordo, matou aquelas cinco galinhas.  O cavalo castanho, vindo no inventário, rocinante de mínima dignidade, ainda vendeu bem, graças ao interesse do  tropeiro, à vista da irmã... Existe o burro, que aparecido um dia, mais adiante, saído de-não-se-sabe-de-onde, nem de-que-dono.  Veio e ficou: lerdo, vagaroso, mandrião, tardio, vulgar, lento, matemático e coiceiro.  Surdo de carrapatos, desabadas cartilagens ouvintes, pavilhões inertes, imprestáveis.  Na pisadura trintenária, havendo bostelas onde moram gusanos, em cavernas, hospitalmente alvos... Este mulo, sempre que precisado, se encontra nenhures... Tão diferente do burrinho pedrês havido na adolescência, cordato, gordito e jovial.
                        Os leitões que Rosendo trouxe certo dia talvez fossem roubados, mas ela não perguntou origem.  A vaca holandesa malhada veio numa lua cheia, certa noite, bezerrim a tiracolo.  Rosendo, javardo, no gadunhante uso, só disse quem véve trabaiano não negoceia com luscro...
                        De muito leite produzido ou pouco trato ingerido naqueles pascigos fracos, piquetes raquíticos, a vaca, uma semana depois, fica doente.  O filhote, igualmente entristecido, apenas mamuja, devido ao sapinho feroz, de língua e goela... Se o dono não viesse, no rastro, em mais um dia ou dois finavam ambos, carentes de remédio, à-minguamente...
                        O moço, pouca palavra, não corrigiu o detentor do gesto excêntrico, ali perto, mudo, cabisbaixo, longínquo e trêmulo: soberana doidura! Ao insano não disse filípica: e não se preocupasse, Rosalda, não daria queixa... Ela, na súplica, desculpas intermináveis, tudo fazendo pra agradar, retardar a partida que vinha pra ser imediata, busca de vaca e cria... Nem café pra oferecer...
                        Mas inda guarda o cigarro de papel que ele, agradável, lhe ofereceu.
                        Prestou atenção, ela, nos mínimos detalhes: cada minudência gravada... Aquelas minuciosidades que só mulher arrepara... E sustou suspiração! Era ele! Ele mesmo... Foi demais, reconhecer no campeiro, homem limpo, bem calçado às botas, de boa roupa, sério e másculo, o Menino do Paiol... E também o garoto-rapaz do circo em Coivaras, o de nome Benzinho, apenas...
                        Puxou conversa, deixou assunto suspenso, terminassem outro dia, se ele voltava... Tinha, hoje, posses: mas não contava filustria.  Continuava tímido e reservado, não sendo filisteu.  Dono dumas terrinhas dali perto, compra recente.  Usava novo negócio, largado de ser bonequeiro do arraial, entrado no ramo de gado leiteiro, uso moderno no município... Inda solteiro, morante só: promessas... Algum dinheiro.  Educado, pareceu-lhe intocável!...  Ele se indo, olhou para trás, sorrelfo, uma vez apenas, como tivesse deixado cair  coisa alguma...
                        No mais, só veria aquele inesquecível olhar outra vez, de longe, no chatim da curva da estrada, num galho da encruzilhada trívia, no mesmo baio urco em que viera buscar o gadinho... Mas ele passou a povoar, lembrança, seus dias e noites.  Nada mais tinham em comum, parecia... Contudo, se foram os pesadelos repletos de corpos-secos, duendes desfigurados, ogros lascivos, faunos tarados, ninfas safadas, sílfides horripilantes...  Logo que dormia, ela era uma rainha, fluindo entre suas madeixas o halo mágico dos sonhos bonitos... Agora tinha seu rei um rosto!  O menino virou homem e a moça nela habitante se edificou mulher...
                        Quando, pensava-reinando, desempenhasse o fêmeo papel lhe tocante no mental, sacrificando, na entrega ao moço, a virgindade a custo conservada entre tantos fálicos enfeitos, objetos-convites, deixados por Tília da última visita tempos atrás?... Quando, pusesse dele à disposição, as contrações primeiras da vulva inaugurada em cálida invasão?  Quando, sufocando-a, mergulhasse-lhe, no “vê” da forquilha recém-depilada, a serpente rosicler?...  E seguia assim, não controlando o desenrolar do devaneio, neblina e névoa sugerindo conluios, reduzindo às justas proporções certas pequenas excentricidades, aquelas a que se dá o nome de grandes loucuras... Depois desse chão de formigas nela passeando, ciosas em multitrilhos, elétricas antenas, ultimados arrepios, depois desse fluxo de paixão comburente, de uxórias entregas, nela vicejava, retornante, o sonho fácil, comentício, do real quiméricos, rostos brancos, impessoais, amor de fábula, tudo vapor em nevoeiro, vagamente, como da gruta os fios de prata, água fina, manante sumidinha entre o soterro da folharada, frescor de oásis, boa sombra, refrigério...
                        Para tanto carecia ser bela? Sonhasse: ali beleza tornada duradoura e possível... Por ela, continuasse dormindo: evitar escuridão, tremelusco bruxoleante da lamparina candeia, mamonas ou colza, azeitemente. À noite, toda a casa sufocante sempre, de ambiente carregado... Sonhar e ser bela, magicamente... Quando, alguém-homem lhe dissesse aquilo? Da mãe, certamente sorveu tal carícia, palavras e gestos... Mas agora, depois da jibóia, as manchas, o estigma... Onde beleza? 
                        Cadê, mãe, a Zulmira Laffayette, a moça-rica que um dia apareceu? Dela até lenda sobrou, senhora contava! Semana-das-dores, quando vinha da Capital  pra Coivaras, todo-o-mundo achando que era uma Santa vinda do Céu, imagem viva de um altar saída... Ocorria tropel de gente, olhos do rebanho faminto de formosura, correria de multidão, trepando a gente em janelas, povo espalhado nos telhados, torres e se usassem cadeiras, banquetas, tamboretes pra subir mais um pouquinho e ver-se desfilando, atrás do andor, a moça Zulma, todos em espera e vigília para a fulgurante visão inefável... Era a perfeição da forma humana... Beleza em prodígio, interessantemente...
                        E tanto houve geral manifesto, mãe dizia, que autoridade intimou a Dona da Diáfana Expressão, anualmente comparecesse, mediante acordos prévios, passagem e estadia, ao arraial devoto dela...
                        Pra apurar idéia, minha filha, naquele tempo se cantava “O Ébrio” e a moça inda existia mais bela que Gilda de Abreu! Ah! Como era linda... Igual a ela nunca pisou outra em Coivaras...
                        Povo tão juntado, perigo e risco de pisoteio e estouro, multidão hipnotizada
por onde passasse, alvo e vítima da própria beleza, a Mira Faiéte!
                        Onde agora formosura símil? Vai se distanciando a memória da mãe...
                        Ouve o ronco do irmão... Sabe: no mugre que cobre a ressecada pele de Rosendo, desenham-se noturnos trilhos: insetos vivendo dele, parasitalmente...
                        A casa enfim dorme, vagão sinistro no comboio da noite eterna... Rosalda, bêbada do frescor cheiroso da singela dama-da-noite à beira de sua janela, recorda-se da gruta, frescura & paz...  A gruta! Quando mostrá-la, segredo, bela e cintilante, ao moço-Benzinho? Levá-lo a ouvir a música do silêncio, o regatinho ciciante vindo do coração das pedras, essas rochas tão naturais naquele ofício de detalhar as eras... A prainha, areia gema, ouro tipo, fulvos reflexos, tão perto do pó, fina de se ampulhetar as horas... Naquela caverna só dela, secreta entrada, mínima abertura, nenhuma gente, sinais de solidão... Em cada recanto virgem, supostos fantasmas amáveis, receptivos, em seus nichos milenares... Ali chegou a passar, numa ausência do irmão, um dia inteiro, mergulhada terra adentro, lume de alfredo, estopas, trilhando azinhagas, vasculhando a substrução, os salões de zimbórios, câmaras refrescantes, galerias cavalgando o múrmur de cascatas invisíveis... Com o costume, sabidos caminhos, dispensou o facho, olhos se adaptaram.  Perigava perder vista, como os bagres cegos e brancos? Não fazia mal, se era preço pra ver, penduradas das abóbadas, esculturas do tempo, cintilantes, cinzeladas grinaldas, acantos, formas gêmeas de estalactites, bolas de neve estranha, tudo assim pendendo livres, lustres e cristais, lampadários: catedralmente... Ali, aspectos e ilusões, sombras projetadas, gratuito espetáculo... Espectros e mistérios morando: belos... O natural ali gratificando... Como dizia a mãe, beleza não tem supérfluo, é coisa que foi feita pra ser só aquilo, e é!  Todo embelezamento exterior falsifica e deforma: a beleza vem do fundo de tudo; na flor, da raiz... A gruta, receptáculo dum ar eterno e profundo, dando gosto em ser apenas gruta, nada mais... Rosalda, ali construindo, divagosa, seus castelos subterrâneos de sabor insuperável... Naquele gozo, não deixando seus sentidos intervirem em parte alguma: prazer natural, nada questionado, curtindo efeitos sem pensar nas causas... Ah! Mergulhada nas trevas em busca de luz e paz, com que enlevo ergue nas sombras a fantasia de um reino futuro... Como lhe são doces as próprias ilusões, menina-moça-mulher! Sentir o rumor da vida pulsando no próprio seio da terra, girando girando sem parar jamais...  Sepulta assim, sentir, imaginosa, a admiração do oco das coisas, grutalmente... Que rainha então ela é, se sonhando soberana e dama, da nobreza e bela... Mas, assim como refresca as laceradas solas dos pés suaves na calmaria do reguinho em estilicídio, vive também para coisa mais chãs, do cotidiano, caseiramente... E, em tudo, um vilão... E a volta pra casa, infeliz, de inferno e terror...
                        Esperar que alguém a liberte?  Existindo essa liberdade gratuita? Em ânsias assim consumando suas horas... Ela, ser galáctico, pré-escolhida?  Longe de sociedade, como ser do muito número de mulheres elegantes? Ela, Dama?  Letrada, de salões, na abastança? Sonhos...  Isso sim: inculta, nada urdindo da rebuscada prosa.  Do campo, onde invenção e entendimento com o tempo se cansam:  embotados na ausência do necessário diálogo...
                     Muito pelo contrário: ela obreira, servil, romântica, tola e mística, sem indício da teoria adquirida... Donde, então, o apelo de dama que dela exala? Dama sendo invólucro ou conteúdo? Imponderáveis carismas, eis Rosalda... A vida, que aproxima elementos, mantendo-a junto ao irmão grosseiro e estúpido. Às vezes cínico, superficial e poltrão: rude! Mas...  Quilômetros ao redor, cadê gente? Só escória ao alcance da mão... Tolo, indigente, inválido: frívolo Rosendo, tão possuído de alguma raça menos humana... Mas, caísse mais ainda doente, dela dependente no essencial, como deixá-lo à míngua?...
                        Rosalda, longe do suntuoso que um dia houve naquela casa, fruto da natureza, mulher e mãe... Tão em uso de suas capacidades, exercendo seu poder na lida diária do velho casarão em pedaços, tão devoção fraterna, talento e calos, como ser bela? Ser bela como, nessa meditância sobre a morte e o inferno? Assim é que ela segue por aí afora, noturna barca, intuindo ciência extra-livros, essência do chão, do ar, da água.  Mas não  tem direções: elas não existem! Não inventa caminhos porque em todo trajeto seus avanços serão fictícios...
                        É a fuga, antes também ensadeça... Quando à noite Rosendo, como arrastando invisível libambo, vaga pelos cômodos da casa, rangidos lerdos do soalho solto, estabelece ladainha num aranzel, enumerando seres, objetos, coisas e palavras transformados em seu medonho raciocérebro... É um murmúrio contínuo, léria de silfo encantado, como o sussurro abafado dum fantasma amordaçado... Tanto pode ser canto aleluítico, como praguejo de danação. Sabe-se apenas: é segredo... E pessoas que entendem de eternidade diriam que à própria eternidade precede aquele momento-espaço, entre limbo e nada, quando no ar, tangível, fica patente ter havido, em algum lugar, rompendo o silêncio, uma dor de estupro...
                        Assim: “confreto de vidafinda, tipoado e porquílogo em subodere. Parétulo de unove, supore camilguar. Siderávica mermelhor: confessólio xerezama, malestares deserdade. Trito iluamento, confesseio rapazel. Acione pó, salgrama, sangralma, navetados subcalas.
                        Defronte o oratório ele sobresta e se cala. Talvez se ajoelhe, persigne-se, cuspa de lado. Segue, falacial:
                        - Hiriel faveca, fofabunda antianjel. Serudongo da rubrateta, meteaté relaxá e regalá zoião. Zorroló, cichilho, transatanta, machiné unitede chué, tumixeca, gevetol. Zingará consuélo, ripamestra, rubiante papelardo, burborrilho. Anseninho zifupoma trioneta e tornajaula, cristófu. Nacotempo, musereca, cargabossa, asnerido. Zangapura, salamém do roseral. Parpalenha, parpapau, pirracela moçabesta; tiracá, resto-eu, fincoprego perponheto, picapica, rapapé, cafuninho, cáto-eu!
                         Passa, da sala, para o quarto que foi dos velhos...
                        - Açolate, chucméia, voalá rumpilo! Jamborroxa, rapexame, porponeta, e meteriz, papagurgo, furgonaco, mamadada, livromel dum pçado nulho mica, osso e ossinho lé. Zongater, demanó datepelo, te passáro pernassó, velhopai...
                        Acelera o passo, sai de lá, range reto, corredores, lengalengando miares em ritmo de tango:
                        - Gragacinha, piagrila, seteouro e ralo reme, paito de prede épedra, batropim pepileta e zongoló chucané. Falêncio, axado acaso grene a nartica. Homiso, sislema, mesobrou, tovispera, beraba, magataxa, moledutos, derroca o astro. Losna Arachoaí. Campenhes que fornélio bercente. Do nutico pintopuro. Nocivício... Chôco e chulo...
                        Revira a vista, zoa pra cozinha, dispensa, tocadiante, praguejo mais infindo...
                        - Habirante dalilia, cervoal de onzenado. Alporquinhas, semepalho, zagalô durnaberta, sexmaria, varrerálves, tota lençane, excumunga-te esculápio...
                        Sai da casa. Na ronda, em sarandeio, circula benfeitorias ruinosas, pastinhos, trilhos e atalhos...
                        - Furriós, corjamula, azeralto e ferrenapá. Borraiana, naliloca, serpepula, vacamansa, tiruela, grampolinha e ranholão... Empacho da mesinheira consuélo. Pena vida, metetanto, marialta, fluensa da pielica, pelimposa, marimbeta marileta, tiliaputa, bolonhal querências: Campana, ondado rebu, becabunda, setenas, ofuscarmente...
                        Repente, virando nos pés, volta, dizendo tudo de trás-pra-diante...                                     (Havendo, além de tudo, em Rosendo, aquela anomalia de caráter recessivo, ligada ao cromossoma xis, tal Miopia, provocando a formação da imagem dos objetos, antes de sua retina... E mais: também o surgimento da tardia pele escamosa: ictiose congênita. Não só: mais aquele tufo de pêlos no pavilhão da orelha, enorme matagal cabeloso implantado no cerume, crescente e incessante: hipertricose auricular, já essas ambas anomalias, porém, ligadas ao cromossoma ipsiloni... Tudo nele acabando por ser avito, tão hereditariamente magro e citigrado...)
                        Com rápido golpe no pincho da aldrava, entra depressa e bate a porta. Tramela bem, tranca e aferrolha, expulsos demônios... Aí, no salão pronde dão os quartos, girando ao redor da mesa, assim:
                        - Livinal balanguero, grinido tríco, os nunulhos da gosmose. Suspensolhos. (Aí clareia de perto o colendo retrato do avô barbicano, faz salamaleques:) cujadura nuacético, lorpunha, tetemado...
                        E girando em contrário sentido, ainda ali em frente, a cada passo precipitando-se-lhe, uvais, escorridas gotas, imperceptivelmente sanguíneas, pernabaixo...
                        - Abrinho, conhefate, curretel da canhoteira, vovô fugil procriz, a verma gusana, os rescas, presidalhos, rosto, mote mortos lá, alçapão, fundescuro, penduralhos, quatrorzinhas, cabeçorras... Metessão em vifatura, mescolherem metaló, messacana, rodalva, rodalva, tirino da gia variz: sou raçassó, cabatuque, bacatuca, currupaco tataco ruim é do macado, rangendi de anadentro, horrormuse, boltagó davoz, norifício, buracão dozói!
                        Depois, ornejos... Então, algumas baratas de grande porte e fome lambem o chão, manjarmente, e fogem safas, apuros findos... Rosendo, após assim estar, quarto por quarto, relembrando fatos, tios, manos, e manas, vai terminar na própria cama, micrófono, insone monge ao pé do catre, no mais exato decorado, de joelhos, num arremedo de oração...
                        - Pelossinal,  - e, em murmurote, após a tosse longa, mutantes posições, - cipetuxis, trolabules, buletrovas, consuelos, hecatombes evitais.
                        Pai de toso, amémjesus, nosso pai cristais nocéu, santonome cadadia, dainospão acinta Nerra como nó cego... Nosso pão manhanossa, perdoai nossas didas cíncome apé doamos nosso desverdore nãsdexei caírem tentação, livraido malamém...
                        Aí talvez sonhasse sonhos, olhaberto, a Terrapodre se desfazente em pó. Vales, cidades precipitantes: rios, gritos, guinchos, terráqueos envelhecidos, tudo rugas, capitis diminutio, ressequidos crânios. A multidão dos catorze penados, coragidos, coragentos, corajeiros, corajudos no só corajume de morrer sumidos... Depois dos porenquanto vindo os mas-porém: gostozurinha, gostozinhura, gostorizunha, gostonhizura sabendo além-jamais, eternidades, o verde-mulatas, maritacas, matracas prosas e escandalosas... E o fordinho fiacre, alaranjado, do velho Jubico Cremero, chofer de mágicas explosões assustando o gado arisco, levando-o pelas nuvens, caminho do Céu...
                        Se inda mais tarde vinham os rugidos roncos,  o cleque-cleque do move-sexo, guspemente: Rosendo, masturbaz,  no relembro insone do amor não havido, a tal Consuelo, como, pra Rosalda, sob tal influência, ser bela?
                        Ela  pelejou de toda maneira, sabendo virtudes de ervinhas benfazejas orações de benzimento e curação; de espinhela caída, maloiado e coisafeita, como todo roceiro, entendendo um pouco... Venceu horrores outros: pequena, temia trovoada, o tombo trovejante dos relâmpagos, lâminas em feixes, demais! Então, mãe queimava a palma benta, impondo crença na proteção de Santabarba e Sãojeromo... Venceu: agora anda à chuva quando ela cai, e ao sol quando ele brilha...
                        Beleza é nela quando os olhos parecem diluir-se em gotas coloridas. Quando há o riso... Quando há o pranto... Beleza residindo escondida sob suas necessidades, na economia das linhas, no equilíbrio dos movimentos... Bela é, no ofício caseiro, cosendo velhas vestes, como é belo o pedreiro erguendo paredes, o lavrador no pé-do-eito, o peão domando o xucro, o carapina travando caibros, assim no direto usual, sem artifícios, como bela a cozinheira sem pose, absorta, tecendo carnes num recheio avícola...
                        Rosalda, seu tosco banco de peroba em cerne, os chinelos, os baús, seu castiçal antigo, seus talheres, sua fé sem remorsos, nenhum sentimento de culpa com o natural das acontecências... Suas panelas, seu fogão - borralho imenso -, seus arranjos de higiene... Como se o despedir dessa constelação de meteoros, seu doméstico universo, tão falantes de sua magia e condão?...
                        Sim: ali está de vontade sua, própria e soberana, dona de seu livre passo, só presa das circunstâncias... Sabe: a vida não lhe reservou abastança, apesar da boa tenção... Fortuna ou alegria?... Outra oportunidade ela não espera... Talvez o moço-venzinho?... Quá!... Sabe que deve partir, é isso... Quem sabe um dia, amanhã, haverá calmaria e conforto?...
                        Mas, homens quantos no lupanar da Tília?... Outros caminhos, onde?
                        Assim sua vida, pedaço de cera, gênio livre se moldando na prisão do sexo? Ela, já profana de íntimo, achando bom viver, mas sem a sabedoria, esse veneno da vida... Nela não havendo impertinente argúcia, nem nauseante frivolidade, mentirarmas dessas sutís matronas, judiciosas, justificando a própria queda... Nada perdoa a ninguém: nunca se julgando na posse desse tão poderoso dom: jamais se ofendeu... Prazeres, medo e raiva? Tudo formas de alma, parte da vida! Nunca deixou de ser menina assustada, curiosa, e inocente e pura: sempre habitada da luz: em suas formas, contornos rústicos... Sabe, de intuído, ter beleza que identifica e exprime: incomensurável e divina, cintilante e profunda, gestual e simbólica... Ter a apreensão das essências no simples olhar ao envoltório... Sim: nunca lhe havendo na vida mais extasiado momento que o da descoberta, sempre em si mesma, dos elementos do divino: beleza, vontade e sonho...
                        Beleza sendo o que evita estagnação; o distrairmo-nos em mudanças, movidos de estranha combustão e celeste leme nos solstícios em que mergulha  nosso humano estofo...
                        Vontade, busca, em tudo, o incerto ar da loucura mansa, comum à geral criançada: gera afeição, cativa e enternece... Candura, pureza, inocência...
                        Sonho... Sonhar com um reino, transformar num castelo uma alfurja, um vaqueiro num rei: embriagar-se de ternura e encanto ante os duros olhos do mentecapto irmão.
                        Inimportam então as manchas, leviano estigma: pra gente assim, deformidade é enfeite e vantagem. Importa saber que imaginação e sentidos jamais se conciliam, satisfeitos a um só tempo... Na doação, ter a única beleza possível: só pressentida, esguia, fugindo à captura...
                        Viver-se flutuando sobre a luz das formas; mais ainda: espírito, pois tudo encanta e é belo se reside, delicado, fora de nós, e, ainda, intangível... O revestir-se da condição cósmica geradora do belo equivalendo, pra ela, relacionar-se com o todo, subindo-se acima da própria individual miséria... Sabe: do caráter, não da forma, o belo existe no ser, não na pessoa; no fundo, não à tona...
                        Mas você não sabe fingir, Rosalda. E vai, no distraído, sem pejo, reunindo visões, arrebanhando chispas no fundo do poço... Como aquela gostosa gastura antiga, vendo, deliciada, o Sete-Belo, leonado crinipreto, enxertando a Cigana, ávida e fértil, namorejo eqüino de rija espada e bainha relampejante, num interminável prometer potrinhos... Cumpre seguir, no desvario da noturna fome, alimentando o juízo, especular alma e corpo, se legar ao regalo e à fortuna dos planos utópicos, próprios de quem pouco pensa sério... E assim descarnar-se no urdume das fantasias. No delineado das idéias, detença sem fim, mamparrar-se em lassidão, como à sombra ficava o canipreto Catu, Boi-de-Semente que houve, sisudo, geboso, dedutivo, perene, olhos selos valiosos, antes da venda a Vandelírio Vale... Ou jogar-se, sem chascos, nos descalvados: ir turbulenta, desacanhada, éguamente, ávida flor, esvoaçante mariposa, correndo chapadões, entregar-se ao castanho garanhão de Tobias Neca, puteiro hóspede...
                        Fugir dali, esquecer fraterna sanha, sumir-se, aranhamente, um risco, tecer o próprio fio, zumpelo, gangorrar-se pra longe do louco, sem medir as órbitas, sem discernir contornos, correr sonhos, putamente livre... Mas será servente mesmo pra enterter ricos manipanços? De poesia das palavras ou belezura no proseado conhece só de longe alguma esparsa trova de mestre anônimo...
                        Vai ou não? Puxa! Tudo nugas, desculpa de ficar? Decampasse daqueles pagos... Já não adianta santigar-se. A favila-benta se acabou há tempos, e também todo frumento cozinhante e alimentício... Fazer o quê? Esperar que algum fogo-de-santelmo ponha a casa abaixo, bola de corisco na alta cumeeira, fogaréu cimério?... Sim: nela, como em todo Homem, resistente, certo medo da morte, disfarce inconsciente para o temor de jamais se chegar à felicidade.
                        Antes fosse Rosendo um goliardo, gruador de meio-cotrim... E antes ele estivesse, num qualquer onco, pecando outregas, trocando puridades, comprando querimas da fatal Consuelo, habitante ninfa de seu sonho demente...
                        Mas... E ela? Os dias voando... Fosse pra decadência? Deve mesmo partir, corrupta, degenerar-se? Só com o moço valendo -puras- as cirandagens sensuais? Ficasse, pervertida crisálida, no aguardo? Ou ficasse ali, alquebrada, sabendo, de letras tortas, trovinhas de rendição?... Definitivamente zumbi e gaifoneiro o irmão, nela é finda a flama de reformar o mal? Sabe, descoberto na gruta: poderes naturais não respeitam ninguém: na natureza rude e feroz não habitam sentimentos...
                        Rosendo-Fera!... Nele o espírito edificou sua obra. Depois, a alma se envolveu da obra... O mal, nele, começou como leve traça tecendo trejeitos... Após, veio a medusa que nos homens tece, trabalhosa, intrincadas tranças... Ela aprendeu muito logo a conviver com cataclismas... Traçado destino: Rosendo: sua história sendo ele mesmo; sua atual situação, certa condição temporal... Nela o sentimento insólito: uma fera nele existisse, sendo sempre, desde toda eternidade?...
                        Mas houve um tempo em que Rosendo ia a Coivaras ferrar o cavalo, acertar o punto do mês, encomendar o sal, tirar prosa com conhecidos, fazer a barba, tosar o cabelo, pagar -se houvesse- o imposto das terras, ficar de pouso na pensão de Dona Juripa... E espreitar Consuelo Rufino!
                        Pra saber seu nome, penetrando no inóspito da galanteria, um dia ele se achegou na bodega de Pica Salustina, defronte casa da Tília, onde ele comprava cigarros... Pediu lavrado de cachaça. Verteu-a dum gole. Emitiu um profundo e solene rapagüéla. Perguntou pra velha -ela escutasse- o nome da moça-dona, de vermelha blusa. Quem falou foi a moça mesmo: -”Consuelo Rufino às suas ordens!” Sorriu abobado, sentiu queimar as abas das orelhas, e saiu sem mais nem menos...
                        Doravante sonhasse com ela, começado outro tempo... Buscar o certo curador, o exato talismã... Nada desse certo, como esse uso estrábico de mágicos amuletos e usos escusos: Rosendo visto cortando raízes da planta pimentão, que misturava com óleo de casca de manga comum, tudo guardado tempo vasto no oco dum tronco neutro. Depois a mistura, como pomada, na pele toda, sendo de torná-lo belo, atraente à rapariga, pra fascínio e conquista... Deu resultado? Nada! Conseguiu apenas o estranho sujo no ressequido couro do corpo...
                        Tentativa seguinte, misturando o azeite da manga com miolo de flor de broto de acácia, tudo guardado semanas numa árvore revestida de pétalas, cujo tronco houvesse buraco natural. Pomada de cheiro, atraísse Consuelo... Porém, no uso à distância, gorou: timidez!
                        Na primeira investida pra relação de corpos, levasse, pra garantir sucessão, essa pomadinha-de-cheiro, inocente no aspecto, mas fulminante no resultado - garantia paga à vista! - ... Fruto da alquimia infalível de bruxo hábil, misturando pomada Vic com pasta de jurubeba, o expectorante preparado inda levando restos de fêmea de um milhafre, morta de velha, ossinhos a pó reduzidos; mais mel puro e suco de coités, tudo misturante em liga feita: antes do banho de ambos, no pré-coito, se massageassem os dois daquilo, ela ficando então escrava de seu amor... (Mas sabiam, aferida timidez: não haveria primeira vez!)
                        - “Pra depois consolidar o geral amor em uso eterno, nesse potinho o senhor leve tal creme assim apurado: cortados em pedacinhos miúdos, cavaquinhos de eufórbia e acácia. Mergulhando em pó de rusagá e enxôfre, colocar sete vezes ao ar livre, em iguais sete períodos de descanso, pra secagem.  Moído depois tudo, misturar o mel de jataí. Pronto. Use em unto no membro, sete vezes em sete terças-feiras...” - dissera-lhe o raizeiro.
                        “-Pra obediente torná-la, polvilhar, desavisadamente sobre ela, na perfumosa cabeça, pozinho feito de folhas de cássia, pegas flutuando no vento, sob a árvore, sem tocar no chão, com esquerda mão canhota, olhos fechados, misturando-as ao pó de pilrito e a pétalas de rosas de velório, mais pó de ossos de pavão e andorinha macho, tudo também aplicando nos próprios machos pés...”  - arrematou.
                        Repente, Rosalda se viu ajudando naquela besteirada. Rosendo, espezinhante, obrigando... Soubesse: sendo a moça virgem, misturasse o rusagá-em-pó à merda seca e triturada dum macaco mico no extremo do cio; jogado em jovem, amarrilho feito: casório irreversível... Ela também usasse isso um dia, tudo valendo no real da vida?... Eram buscas...
                        Rosendo, malcheiroso inhumano, como o pomar, em ruínas, no mato. Como a laranja-lioa, murchando na velha árvore rugosa, doente e semi-seca... Todo sonho fenecendo... Os maios terminaram: ali não existirá mais o amadurecer dos grãos... Vai embora?... Sabe: em, Coivaras, já é tempo: as ruas se dourando do arroz em casca, custosa sega... Mas lá havendo fartura, banho de chuveiro quente, boa roupa, belo trato: Tília e os perfumes... Aquele estranho povo-mulher, enclausurado em celas acetinadas, bustos à janela, convitemente... Ela, uma? Vai ou não? Assim, grávida de presságios e augúrios, aniquilando-se... Dinheiro nessa época, à solta, como sombração na quaresma... Ia?
                        Tília, sórdida, ensinara: ela podia ser exceção, mas, no ordinário, o que agrada mais à mulher, qualquer, ia sendo, em ordem crescente: o amante costumeiro, sempre no uso; depois o amante experiente, carinhos exatos; depois ainda, para a usante, uma outra mulher, delícias; e finalmente, no individual e secreto, o usar-se e servir-se a si mesma...
                        Essa é Tília, sua avúncula alforria, lhe oferecendo futuro, fortuna e regalo... No convite, insistente promessa: tinturas de cheiro, produtos de boa maquilagem e até postiça cabeleira... Langerrís de butique - loja de cidade grande -, deslumbramento em seduções e êxitos... Devia gostar, sendo isso antecâmara de longos risos perduráveis!... Não havendo de viver-se a vida apenasmente, testemunha do obeso desenrolar dos dias. Cobiça e propostas... Vida nova... Por que?
                        Aconteceu naquele ano Tília comprasse um cofre-de-segredo, ali juntando o fruto da putância própria e a justa comissão, que toda dona de marafo tem, da suada alheia entrega. Cidona, tesoureira da casa, de tudo fiel despositária e caixa. Soube junto, e decorou, a combinação escrita em papel, lugar das chaves e o resto... Mas já pensante em montar casa sua, abandonando Tília, era só espera e sigilo, nessa idéia. Braço direito, sabida conselheira, rápida aprendiz, irmã-amiga da madame confidente e confiante. Até benzia criança de vento-virado, velhos de tenesmo; malandro e marmanjo curava na saramba da macumba solitária dum terreiro clandestino. Tília suportava, sabidos cambalachos e falcatruas... Cidona  não ia com qualquer um pra cama: podia escolher o par... Dessa regalia, a única na casa cor-de-rosa...
                        Eis certo dia: Tília voltada de viagem ao Arraialão, ver dentista e ponte-fixa: Rosório, irmãmente... Encontra perdida a chave, num descabelado desespero da Cida, tresnoitada em agonia!...
                        Semana depois, tudo sondado; meninas e gigolôs: nada!... Numa sexta, após despacho de entidade adivinhadora, tal Trancafuga, o cofre aparece aberto, com as chaves dentro - sobressalente e do-uso -, sobre um ausente dinheiro, dois mil contos, na época... Como tal ajuda extragalática se tornasse demão espiritual caríssima, custada tanto cobre e suspeitas, houve a expulsão.  Com expurgo de casa, zona e cidade, Cidona parte, humilhada, sem-nome, ninguém... 
                        Apesar de seu ar de inocência não convencer, contudo ninguém imagina que ela, mais ao norte, no Indaiá,  já se chamando Madame Nancy, daí um mês e pouco montará sua própria casa.  Luxo e chamarisco do supérfluo dinheirinho do pequeno arraial de homens ávidos, adultérios trocados e nenhuma libertina...
                        Porisso, justificara Tília, o convite.  Precisava dela, Rosalda,  tinha confiança e via futuro. Ia ou não?
                        Pensou demais...  Ela, rameira? De donzela a meretriz? Se na pequena lida do trivial doméstico já tinha sofrimento de canseira! Que dirá no sobmacho cotidiano, largas horas e longas filas? Não carecia mais ainda enformar-se?  Conseguisse gandaiar, se fazer faceira, nada reclamar no concúbito dorido de grossos calibres e elásticos comprimentos?...
                        Certo: havia no próprio corpo o apelo desconhecido, sauval e convidativo: ânsias, sentimento forte, seco, brutal... Até quando camuflar?  Mas... Em despudores obrigatórios tudo aceitar, no já não-sonho? Há diferença...  E os calores que nem crinômiro ajudou arrefecer?...
                        O rapaz terá reparado, imerso no copo-d’água, notando nela, trêmula e sequiosa, subvestes, o fogo do amor? Como querendo que ele fosse o primeiro!...  Vibrou mansinho, indisfarcável tremor no aperto da quente mão...  Notara, sob o geral aspecto do maltrato da faina, inda restasse nela, oculto sob o pudor das roupas, o cetim moreno da lisa pele?  Pressentira, nas coxas grossas e na anca firme habitando um veludo morno?
                        Mas como? Ela, no debochado de todos, geral rampeira das saribas? Desonesta, crápula, enfrentar a fauna dispersa...  Aprender, na esbórnia, a oculta arte, lidar com machos...  Volupiasse? Aquilo sendo desdita? Engano... 
                        Há nobreza no sangue das veias...  Nem tudo sempre foi assim desgraça...  Sim, na casa pouco resta do antigo fausto. Da mobília nobre, apenas carcomida, a mesa de missagras, engonços dourados...  Linda peça que o tempo devora, apesar dos lambéis de porcelana, raridades...  Nalgum canto, poeira, uma salva de prata, púcaros de fina louça, palanganas já amassadas... Uma cortina no uso.  Algumas canastras encouradas, fateiras, com remotas roupas em desuso, coisas de avó ou bisa, compondo seu estranho recheio, conforme relatava a mãe, gregamente, desembaulando os trastes, um por um: saio e capa de baeta, borzeguins de marroquim, gabões de raso, braga de veludo, manto de sarja, mantéos de algodão, velhos cabrestilhos, escarpim de verniz, tafetás, tafularias, toalhas boriladas, alcatifas com cadilhos de seda, dinheiro miúço, um corte de ruão, ferragoulos enfeitados...  Mas hoje tudo esfarelante, intocável, o que restou da traça centenária e paciente...
                        Mas de que sangue Rosendo tirara hábitos de pinima, se tantas provas diziam ter havido na família potentados de grande séquito, desses cheios de rudeza e gravidade? Nada rezava de loucura prisca em meio ao luzimento ancestral e ao donaire de matronas educadíssimas... Aquele desprimor, azorrague contínuo, donde vinha? (Mistério? Apenas aquele alçapão ali no solarengo casarão...)  Porque um Rosendo madraço, alodial?  Não adiantaram os irmãos médicos, rápido descarte...  Voltou desenganado... O mal da gente é buscar a ciência só quando começa a desacreditar nas próprias possibilidades: aí é tarde, disseram eles...
                        Ela e ele: tão em desgraça ambos... Deve então jogar-se à sentina, uma pinóia no manipulo da choldra?  Estava no acordo, entrelinhas do convite de Tília: aceitar proviléu, virar populacho, com todos os vícios e pecados inerentes...  Descarga, ela, da ralé? Anteparo do gozo da gentalha...  Fazer-se misteriosa, pinturas exóticas, mas conspurcada, emprenhando-se de girinos orgásticos?  E afeto, carinho, em tal mercado, onde coubessem?  Devia mudar costumes...  Mas, quando cismativa, quem a apoiasse?  Onde arrefecer os desejos puros, os sonhos de amor?  Fome, de qualquer jeito matava!
                        Não seria melhor, acaso santificar-se? Ir-se de vez, na aragem do Crucificado, limpa de antanhas faltas, desposar o Santo, monjar-se como Rosméria, uma tia que houve? Ou freirar, como a mana Rosa, que recentemente proferira os votos? Devesse morrer para o Mundo, carmelitamente? Sacrifício por sacrifício, abandonasse o insano irmão, ou morresse em suas mãos, pra delícia dele, Rosendo? Mas, onde aí a Vida Eterna? Morrer-se a si mesma, refugiar-se nalgum convento incrustado em lapas abençoadas...  A Tia Monja como que a chamasse. A irmã, carmelita, reforçando convites... Caridosas senhoras abastadas sempre oferecendo o enxoval e o custeio dos estudos... Por que não foi? Não foi por quê? Será esse seu destino? Por que não ir então agora? Deverá revigiar as idéias, castificar-se em remoçagens, rupturar com os tais devaneios sensuais?... Nela repousasse mesmo alguma divina complacência? Estaria ela existindo realmente na onisciência do Pai Eterno? Então, por que o oratório sempre tão mudo às suas súplicas?  Nenhuma folga, nenhum alívio na insana rotina, no cotidiano sofrer... Devesse ainda  revestir-se de maiores paciências? Uma dona-de-casa nela se formando, inútil, para virar calada flera? Fosse viver numa cela solitária, em contrições infindas, numa clausura descalça? Oferecer ao Todo Poderoso as primícias de uma eterna virgindade?  Rondará a tal Graça Divina, por acaso, essa ruína que somos?  Então, por que sempre essa perseguição de sonhos pagãos, apesar dos rosários meditados e dos doloridos joelhos diante do Oratório? Será que o Justo não a ouve, desde já lhe cobrando penitência por seus secretos e acalentados pensamentos? Ou será porque ouve, no meio do enorme silêncio da Noite Eterna seus lamentos de fêmea no cio? Por que razão a mãe não a encaminhou junto com Rosinha para a vida celibatária dum mosteiro? Agora a possibilidade não mais a atrai... Sente distante, tardia e impossível essa opção: já pertence ao Século!
                        Deverá, rascoa, fazer-se desejável?...  Aquelas roupas de aperto, deixando, de fora, imaginar-se o por-dentro... Mulher-da-vida, comborça agradável e sedutora...  Seria?  No escuro, apenas?   Desejos:  indiferença até, sabe...  Na casa de Tília, a de alpendrinho florido, ser tesoureira e mealhã...  Tília esperando, precisada, oferendo comida, cama,  roupa lavada: simulacros de paz...  Rendimentos proporcionais ao desempenho de fêmea, isso sim:  viver-se nas desoras, nuela e quente em peludos braços... 
                        Mas aprendesse primeiro com o rapaz, desejava!  Então: partisse: procurasse! Ele a queria mesmo? Ou era só no sonho?...  Tão crisóstomo e crispifloro, seria, como Rosendo, impenetrável caminho da natureza?...
                        Ou esperá-lo... Virá um dia?  A casa acaso lhe fizera nojo?...  Por todo lado,  no terreiro e no oco do algibe semi-soterrado, multidão de ranfotecas: Rosendo, num viver crocitante, arapucando corvos e alados do mesmo porte e família... Tudo é repugnante ali...
                        Rosendo cacófago, perseguindo baratinhas de pau-podre, alhas palhas, e, como homem, zerovalente... Tudo parecendo oculto destino de ambos...  De repente, famelga, ele sai disparado pasto afora, uivando como cão ventor, à cata de lesmas, insetos e cogumelos comófilos.  Volta farpeado, já tarde, ganindo em trapos, inda faminto, cacósmico, engadanhando-se por uma nada...
                        Que alismo, meu Deus! No livro da vida, eles são linhas apagadas?  Apenas frangalhos, como os do outro antigo móvel, materno de herança. Neste,  quase intactos, na forma, os gasalhos:  tabardilhas, sotainas, marlotas, barreganas, roclós, catassóis, raxetas, coifas, catalufas quarteadas de barafunda, gabardos, guarnições e fitarias, casacões rabilongos, casaquinhos franjados, (como sua infância na roça!), passamanes multicores, tudo roupa de frio, conservada com capricho por gerações cuidadosas, com apenas algum buraco do bicho grilo... Antigo fastígio...
                        Ela, no alcoice, ativa marafona?  Porque esse destino irreversível, ela devendo misturar-se, piolhal, à geral  gaforinha, casposas melenas?  Flor da sevícia, sevandija, aceitando aberrações e chamegos babosos...  Fosse por dinheiro?  Cruz!  Boquejar em beijo porco o alcovista labioso e desdentado?  Oferecer ao mordejo do halitoso seu labro carnudo? Lá, na luxúria, liberta do insano irmão, entregue à geral lascívia, dissoluta e sensual, então revidasse na vida, com volúpia e malícia, os golpes que a vida lhe deu?  Agora isso nela passeando, como correição de sabitús, no sesso e sexo...
                        Passeiam lá fora, barulhos na noite.  Tosse, distante, um pássaro doente.  Larvas revolvem-se sob a casca da mangueira velha: logo viram carunchos! Os curiangos, esparzindo chispas sonoras, oscilam, fantoches nos cordéis da noite... Ela então sonhareja, recordática...
                         (Como quando Rosendo invernava na mudez, acinético e lorpa, não existindo para si reza, remédio nem açulálio. Então não chegava a perturbar. Encasmurrado no canto fuscalvo da cozinha, inexistia em goles de silêncio, vigiando velho presigo fumigante, ausente e invisível espendurado na fateixa sobre o fogão... Parecendo olhá-la dum avesso de binóculo... Ela aí sonhava o inamissível sonho, matinando, na lida absorta do diário, pensamentos de ruína moral...)
                        No rearranjo das fantasias, o mau desejo, avassaladora visão.  Aquele moço, benzinho rapaz dono da vaca, pulsando macho em seu eu-profundo! Talvez viesse dalguma tristura grande e assim, aconchegados, confidentes, unidos: devido desventura mútua!... (Ela, da janela, olhos ancorados no azul das montanhas distantes, reinando indagações, varinhas mágicas, banhos espumantes, tudo preparo pro colóquio eternamente desejado, tão assaz adiado...)
                        Uma cavalgada longa e livre pelas dalas solitárias... No êrmo, o encontro, sob as criúvas floridas. Mais: se apertando, e no amplexo, uma envoltura fluídica repleta de fascínio, magia e acalento... Isso assim num chegado de como quem não sabe o que quer: ir se libertando do acanho e escrúpulo. Só descanso, sossego, ar puro e fragrâncias...
                        Já deitados na macia relva, o achego: abordagem e apalpamentos. Afagos de mãos sorrateiras, divertidas. Seios túmidos, serpe pulsante na pressão do desejo... Cafunés, sol poente. Alguma palavra inevitável...
                        O lento desnudar-se ao vento... Assistir, repente, surgindo, livre da tolda, lentamente surrupiada, num movimento oscilatório sem fim, pendularmente emergindo, nervosa e quente, a rola rosicéfala! Carícias... O manejo, manuseio friccionante apurando o ponto, findos receios, troféu à mostra... A mão-aranha subindo, tímida e sôfrega, indo e vindo, zanzando, progredindo, retrocedendo, indo, negaceando, blandicial, molestando em estrangulos, verificando calibre, gargalo e carapuça: minúcias...
                        (Ah! Pode ser vulgar, mas é assim que ela sonha e se compraz, afãmente, sem meias-medidas: total!)
                        Comprimento aferido, diminuta distância, namoro cálido, ali: seu totem de expiação, tumescente, latejando!... A exalação do suave aroma do macho instrumento hipnotizando-a... Muito mel, mínima carícia, roçar de línguas: arrepios... Logo sucção, engulimento: tudo assim, cada qual para seu lado, recíprocos lamberes,  como em carta de baralho... Beijos, lubrificância: as essências raras... Na letargia, em extremo oposto sentir subindo, no cetíneo das coxas, igual lisa língua, ávida de encaixes, rumo ao nicho origem dos tumultos... No pavor sacrossanto da possível negativa alheia, a prova do manjar, no recíproco e interminável recheirar-se, no vice-versa, carícias selvagens, demolidoras, lisura rosicler ali, aqui mergulhada rosnadura animal, bigodes em confronto! Tudo chamas devorando, prova dupla: num, o doce creme do marrom chocolate; noutro, o agri-manso do tamarindo. Em tudo, polimentos...
                        E no turbilhão, imensas ondas invasoras, clarões ofuscantes, trocados fustigos, dorzinhas, paradas táticas... Aí, o lento enleio, o cara-a-cara, vibração conjunta, tortura mútua: o jato adiado, tudo neóns clareando o universo, frêmitos, raios e estrelas em brilhância... Ela alvo do mastro ávido, projétil certeiro em rasgavestes, oferenda cruenta: gotas inaugurais... Intrusão, desonestagem, desmoçamento: tudo no colo da pouca-vergonha, lindo e puro, consciente e bestial, amor-paixão, ofegante e elétrico... Perdidos no tempo, vêm, meteóricos, o auge, o zênite, o ápice e o cúmulo... Jorro irreprimível, cascata de sêmens... Fim lento do vai-vem delirante, totalencaixe, laços perenes, corpos frouxos, bambeza gostosa, exaustão sublime, silêncio, sono... descanso!
                        (Isso tudo assim pensado, num descascar de alhos ou ariação de caçarola, repetidas vezes, depois que não mais se esqueceu do menino-moço...)
                        Na vida do serralho fosse assim?  Não sei... Aviltada e geral, como o limo num leito de mangue e musgo, apenas fazer-se linda, formosa demais. Sob os enfeites, gentil em lindura, em tudo não tendo freio, raia, limites ou balizas: sirigaita total! Então, quando partisse? Num equinócio de bom augúrio? (Levando, como orientasse Tília, o olho dum pavão que ainda não mudou de penas?)  Ou num dia em que a lua, no signo de câncer, brilhasse enjoativa, entre três e dezoito graus?  (Levando aí, esquerdo olho de loba em grande vício...)  Carecia nada disso!  Caraminholas!  O duro é resolver...  Depois, virar-se no vexante ofício, lindes imutáveis, na servitude da machidão geral...
                        Deixasse, então, pertences, pra disfarce e facilidade da fuga!  Não bolisse em nada, nada levando de tesouro ou panos: fosse com a-do-corpo!  Largasse no arcaz de cedro, quietos e quedos, entre escopeta, arcabuz e colubrina - com suas bolsas e polvarinhos -, os lenços de pinhoela (que sonhou um dia usar), as cassinetas, o vestido de noiva (que ousou um dia sonhar), o mealheiro de latão, os gorjetes sobressalentes, as perlas legítimas, as pedras melaxantas, os aljôfres do rocal encardido...
                        Apenas na recordação ficassem, junto à alçaprema enferrujada e ao esqueleto envernizado dum purrutum, a peça inteira de bombazina, o metro e vinte de picotilho que inda se aproveitasse, as santas gravuras, o lívro de pútegas medicinais e a grande cópia de cartas de datas de terras: relíquias...  Um dia voltava, guardando tudo na gruta... Nunca esquecesse: a mãe, um dia, festa no solar, usou a roupetilha de tela azul, enfeitada de carassulilho doirado sobre pestana lavrada: rara vez!  Ali guardada, moldura de alpaca, uma photo do velho coronel... Esquecesse a rede antiquíssima, lavrada, com sua franja de cores, enfeitada de abrolhos e varandas: um chale...  O pano de rede, tela carmezim, forrada de tela verde e passamanes de prata - que um dia valeu vinte mil réis, também permanecesse só na memória...  Partisse de mãos vazias!
                        Pois agora perigava ser estrangulada nos braços do perverso...  Rosendo tornado soturno, vigiante, assombroso... Comeu, naquele dia, o aru de estima da bica salobra...  Rosendo perigoso, malévolo, taciturno. 
                        Benzedeiras? Atrás delas ele foi! Foi também um descalabro num salão alancardeque, benzedores de mesa branca: um enxú vingativo, num baticum, lhe requerendo espancamentos, zoofílicos dragões chineses em altos lamentos semi-humanos, esquisitices impressionantes...
                        Assim, penada alma lhe semeando estigmas, peçonhas, imundos pratos, medonho bafo, estranha fala, baixo profundo... Cresse?
                        Rosendo obsedado, linguagem sem nexo, infestado de odores porcos, nauseantes:  sinal? Pele irritada, insensível à dor... Doença do sangue? Ou coisas de barzabum?
                        Tudo justificando a fuga...  Covardia dela?... Mais esperar: ver no que dá?  Teme, a qualquer hora, nele sobrevir o brabo satiriasmo, ele tão novo e já cadivo...  Depois que comeu suas folhas, a sargacinha não dá mais frutos, como antes semanalmente.  Do quintal, nas altas copas, resta apenas bicho penoso alífugo, tão sempre fora do alcance...  Adianta ela lutar contra isso?  Isso o quê?  Ou se vai, tiliamente?
                        Talvez, num hospital longe, um tratamento custará mais que os três míseros alqueires de terra fraca que Rosendo inda tem...  Mas, no diagnóstico dos irmãos doutores, não adiantará...  Será então deserção proteger a própria vida?  Mundo pequeno e indecente!  Onde uma ajuda, parentes?  Soluços, beco insaível...  Por outra:  sendo malesprito não existe mais segurança no doméstico horizonte...  Incontrolável, a força demoníaca em breve tudo arrasará!...
                        Como permanecer ali?...  Na tarde da véspera, há poucas horas, Rosendo, depois de imperceptivelmente retirar com a língua, de por-debaixo da dentadura esbranquiçada e bamba, restos de pêlos dum rato mastigado na última refeição, cuspiu-os em seu rosto anojado e disse:  amanhã vou começar a comer você; tim-tim por tim-tim!
                        Porisso, toma a decisão...  Levanta-se sem ruídos...
                        Quando a imensa glande de fogo irrompe no levante, lacerando em estrias de sangue o hímen da manhã, ela já vai longe, zagala tangendo seu próprio destino...
                        Como a natureza transforma todo mal em bem, logo, por ter tido coragem de escolher um caminho, em todas as alcovas encantadas de Coivaras reinará Rosalda: bruxa e fada, puritana e puta...









o sonho



Das sutilezas empregadas na fundação de um Reino futuroso: Coivaras.




                        SEMPRE prometi a Manchinha fazê-la minha rainha.  Mas como era-me um tanto penoso fundar um reino -sem luta- numa nação que vivia sob o regime democrático -uma república federativa-, imaginei-lhe um sonho onde adquiri uma fazenda e a denominei, na própria escritura, Fazenda Reino de Coivaras.
                        Consegui, assim, um lugar geográfico para a fundação do Reino.  Com o tempo -disse-lhe eu- todos ao se referirem à fazenda só dirão, por economia, “Reino”...
                        Antes de minha sagração, providenciei os súditos para a povoação do reinado.  (Ora, direis, como súditos?  Fácil: conclamei todos os deserdados, os sem-rumo, todos os inconformados, todos os ripies da terra vizinha; aqueles que desejavam fugir à poluição, à destruição do meio-ambiente, aqueles que procuravam um pouco de paz e quietude, aqueles que almejavam a auto-realização e a solidão impossível, os meditosos e os eremitas, os santos e os vândalos iconoclastas, os ermitões e os profetinhas de segunda categoria: todos foram cientificados da fundação do Reino! “Essa saída foi fácil!” - dirão, retrucando...  “-Mas, como organizou a vida social do lugar?”- perguntarão...)
                        Primeiramente, após a povoação numérica, providenciei a povoação de fato ou seja, a construção de benfeitorias que abrigassem todo o povo...  Comecei pelo castelo.  Foi construído com mão-de-obra graciosa, cedida com júbilo pelos súditos fundadores.  O Castelo Real é de tijolos, revestido de pedra, imitando -nos mínimos detalhes- uma construção tipo fortaleza, sólida e confiável. A conselho do Profeta, foi coberto de eternit camuflado e pintado de preto-piche-fosco, para impedir a entrada mental de certos povos invasores do futuro, que se partem ao meio, no sentido vertical, para conseguir a necessária locomoção cósmica: chineses e japoneses, povos que possuem dois olhos, duplo sentido auditivo, duas narinas, uma boca larga, dois rins, coração centralizado no peito, dois pulmões, duas bundas, dois testículos, um par de pernas e um par de braços, tudo simétrico, propício à divisão em dois... Segundo Talbo, tais povos bárbaros invadem os lares do Planeta, munidos de longas espadas e degolam deus-e-todo mundo!  Com a pintura do Castelo -de preto- as hordas sanguinárias são assim devidamente repelidas, logo de início, ficando o reino livre e protegido delas...  O preto não combina com sangue nem com horríveis intenções...
                        Um fosso, medindo três metros de fundo, por cinco de largura, cerca a edificação: contém água corrente -um metro e meio de profundidade- ambiente em que vivem crocodilos (aposentados em velhos e antigos filmes do Tarzan e de terror) que ali encontram guarida e trabalho apesar de adiantados em idade e desdentados pela sorte.  Alimentados com suculentas sopas de fubá, à meia-noite, sua função jacareônica consiste em afugentar intrusos e animais selvagens que porventura se aproximem com más intenções...  A água do fosso é constantemente renovada, porém de maneira lenta e se acaso surge nela um lodo amarelo-ferrugem -sinal de poluição- providencio culturas de fungo verde e musgos de ataque para a eliminação do ferrujento invasor.
                        A prática da garimpagem é exclusiva do Rei e seu Profeta, os únicos com autoridade para construir e às vezes, acharem, já prontos, gigantescos diamantes.  O método é segredo de Estado...
                        Uma ponte levadiça permite a entrada dos que obtêm permissão para tal. Acionado o mecanismo próprio, ela baixa através de grossas correntes de segurança, até à margem oposta, permitindo o ingresso à fortificação.  Uma vez ultrapassada a ponte, adentra-se ao pátio interno das muralhas que cercam o Castelo Sombrio, onde se acham: estacionamento grátis, cavalariças, lavanderia, celeiros, hortas-de-couve, galinheiros e demais benfeitorias próprias da Corte.  (Tudo de acordo com as normas seculares e góticas de edificação desse tipo de moradia antigosa).
                        A Mansão do Improviso, alcunha do castelo, no centro interno das muralhas, tem pavimentos indecifráveis à primeira vista.  No térreo, encontram-se: hall, (povoado de armaduras de papelão), salão de recepções com lareiras e arabescos, biblioteca, sala de jogos (de azar), copa, sala de troféus, cozinha e lavabos (de pedra-da-serra).  Num suposto pavimento superior alcançado no fim de monumental escadaria de peroba ficam os quartos, em número de quinze, três completos, sem privadas.
                        (Não tolero a invasão [a-invasão!] das técnicas modernas e poluentes para os serviços de água e esgoto do castelo.  Sugeriram o emprego do raio leiser acoplado à cintura do cagante, num mini-canhão que dispararia à medida da saída dos excrementos...  Porém, levantada a hipótese dum disparo fora de calibre, o que deixaria o usuário do aparelho sem uma parte da bunda, logo desistiram dessas modernidades tolas e sem fundamento... Então, para a eliminação dos dejetos fecais e da urina castelã, colhidos em                 sacos plásticos descartáveis, o profeta Talbo, de quem se falará logo adiante, providenciou uma manada de guias espirituais de média luz, que, a um chamado especial, se encarregam do sumiço desejado numa área ignota da quarta dimensão...)
                        Corredores sinuosos ligam de maneira perfeita todos os aposentos. Tenho passagens secretas de meu conhecimento exclusivo, que me permitem tanto bisbilhotar a vida alheia quando quiser -assistindo a tudo quanto seja espetáculo íntimo de casais apaixonados e insaciáveis-  como me safar de perigos iminentes, sumindo como por encanto dum aposento para surgir num outro distante, à minha escolha.  Os pedreiros que ajudaram na construção dos labirintos subterrâneos, juraram segredo eterno...  No subsolo, ainda tenho masmorras e salas de tortura que jamais serão utilizadas.  Algumas jaulas são ocupadas por onças serranas, ávidas de sangue traidor...
                        A decoração de todo o castelo se suporta em pinturas demoníacas (nos quartos -fazendo com que o insone fique de candeia apagada por medo dos vultos  assombrosos...)  e telas renascentistas, falsificadas por hábeis artesãos da Corte...
                        Na rústica construção, sem acabamento de propósito, os móveis são toscos. A quem um dia os vir, lembrarão a povoação madeirosa das abadias medievais. O ambiente cheira a convento, usando-se para tanto, defumadores de todo tipo, cor e finalidade.  (“Chama Dinheiro”, o mais usado!)  Não se emprega esterco de gado em lugar dos defumadores, comprados fora ou prensados pelos raizeiros do Reino, por uma razão muito especial: ele polui!  Se não, seria adotado por medida de economia.
                        A bruxuleante iluminação do castelo se baseia em archotes, abastecidos com azeite de mamona.  As camas, verdadeiros catres penitenciais: no lugar dos colchões, se acham tábuas, lavradas no próprio reino, forradas -de um lado- por palha (lembrando a humilde condição de monge a quem delas fizer uso) e do outro lado, por pregos pingentes, pontiagudos, agudíssimos (para o caso da hospedagem de faquires do Paquistão e Adjacências).
                        As mesas - aliás, duas - são usadas sem adorno, pranchas sobre muretas de pedra.  Os bancos, coletivos, lembram essas sopas de pobre e são tipo “igreja”.
                        A tais peças descritas, se resume o mobiliário do castelo, pois lá não há guarda-roupa, armário e outros badulaques.  Um cabide em cada quarto, ao lado de cada catre, recebe a roupa-reserva (para após os banhos semanais).
                        Oito torres se destacam no firmamento do reino, enfeitadas com bandeirolas serelepes decoradas com as armas e o brasão do reino: são quantas há no castelo.  Bandeiras vermelhas, desenhos brancos... (O arabesco é decifrado, heraldicamente, dessa maneira “Duas serpentes, entrelaçadas, se fodendo numa árvore estilizada”...)  Entre uma torre e outra, vigias ou guaritas, onde se postam as Sentinelas Invisíveis.  (Cá entre nós, silfos e duendes do Pico-do-Cão...)
                        Cada torre, no fundo, é uma suite de Desmantelo Himenal, ou de Defloração Real, posto que ao soberano cabe a difícil tarefa de noivo (nos matrimônios celebrados pelo profeta Talbo, coadjuvado pela sacerdotiza Maninha) na hora do “vamo vê!” e da “primeira penetração” da noiva-donzela.
                        As virgens do Reino geralmente se casam, tendo em vista essa possibilidade de entrar em “ferro real”...  Durante o período “enxoválico” são ensaiadas devidamente para a hora do “ai põe mais, majestade!”.
                        Fora do castelo e das muralhas que o cercam, ficam as casinhas dos camponeses, dos tecelões, dos guardiões da mata, das fiandeiras, dos monjoleiros e toda a tropa de gente que um reino que se preze deva ter.
                        Os serviçais de qualquer hierarquia, que laboram “muralha-dentro”, envergam uniforme composto de gorro preto (o que evita, segundo Talbo, a leitura do pensamento por parte dos povos de olhos rasgados, mongóis!), túnica preta (para proteção das partes pudentas contra os ditos povos sem civilização e desrespeitadores das bundas e sexos alheios, sejam machos ou fêmeas), sobre blusas, saias, calcinhas, calças de livre escolha do fulano que usa.  À primeira vista, parecem pertencer a uma congregação de culto a Mefistófoles, ou grandes urubus desarvorados e sem carniça...
                        As casinhas fora do castelo, têm dois cômodos, tipo financiada, água corrente (um rego, à porta do terreiro), são construídas de pedra e de pedra também cobertas, compostas de sala e cozinha.  Fora, num cercado de bambu, os galinheiros, o lebreiro, e as celas de meditação e transcedentalismo, onde as famílias dormem em catres, semelhantes aos  do castelo, após as iogas e outros exercícios mentalizantes e coletivos.  Escusado é dizer que em cada uma dessas celas existe uma imagem de barro cozido, com a estampa do rei, a divindade local, à qual se oferecem, mentalmente, em sacrifício de oblação sexual, todas as virgens existentes dentro dos limites desconhecidos do Reino...
                        Além do fosso, um pátio enorme: a praça de guerra, com catapulta sempre armada.  Seu uso se restringue a palco de cavalhadas, torneios, desafios duelos e outros jogos da vida do reinado de Coivaras.  O patíbulo é mero símbolo duma época remota: está erguido mas jamais será utilizado, pois o erro, no reino, importa em auto-expulsão, e o perdão é a norma básica da vida na Corte...
                        Algumas casas mais afastadas das imediações, abrigam os campônios, os lenhadores, os guardiões da mata e os pastores (de ovelhas e cabras).  Todo ano é escolhido um “Bom Pastor” que quase morre de alegria ao receber o título, envolto em névoa real, salpicado das lágrimas de emoção do rei. Certas fadas da mata se empenham na limpeza das folhas das árvores, mantendo a Floresta Real sempre em condições de receber visitas do soberano, acompanhado de donzelas deslumbradas com a exuberância e o ímpeto sexual que o ambiente desperta -afrodisiacamente- em seu senhor e mestre...
                        (A vida no reino é um verdadeiro jogo de truco! O zape não se dá com carta ruim ou baixa e o sete-copas é um anzol atrofiado, fisgando a espadilha na batéia do sete-ouros...)        
                        (Manchinha -afora os casos de relembrança de sua/nossa adolescência só gosta dessas minhas descrições e reinamentos, quando e onde ela se encaixa como uma rainha nunca citada!)
                        Uma gruta especial abriga o profeta do reino, em meio à esverdejante folhagem tropical. É o único membro da corte -afora o próprio Rei e seu Curinga- que não trabalha pra comer.
                        Todos costumam levar, espontaneamente, oferendas, frutas e poções revigorantes -acompanhadas de moçoulas agradáveis- para saciedade do Homem do Cajado Lumioso.  Somente nas cerimônias oficiais ele deixa as proximidades de seu reduto apriscoso para surgir, em meio a explosões de fumaça azul-turqueza, nos lugares públicos inda manchados pelas superstições teológicas do povão.  E, nessas ocasiões, faz tremer céus e terras para intimidação popular, angariando, assim, donativos para melhoramentos essenciais do reino, bem como para quitação de impostos que o rei, com desprezo, paga a vizinhos impostores...
                        Seu nome,  já se disse, é Talbo e, fora do Reino, muitos o achariam um visionário maluco.  Mas ele não é nada disso.  Suas idéias acerca da evolução, do surgimento dos desertos, do Triângulo das Bermudas, da mutação da espécie, dos relinchos mudos das emas, da razão das avestruzes socarem os longos pescoços em mínimos buracos, dos mamutes gelificados e das daninhas e nocivíssimas influências do asfalto na ecologia do Planeta e milhares de outras considerações de elevado teor filosófico, são de cristalina sabedoria.  Talbo é sisudo, fala pouco, (como ele mesmo diz: “quando abro a boca é só pra falar besteira) mantendo a atitude dos caras do “trecho”, nas viagens que fazem na adolescência...  Ele desenvolve esplêndidas teorias sobre a fabricação do leite em pó, na época dos faraós, no interior antisséptico das pirâmides colossais...  Talbo discorre fluentemente sobre uma gama infinita de temas.  E, por sua idade incerta, pelos olhos descoloridos e corpo mulambento -a grande vivência paralela-, somente uma explicação se presta a esclarecer sua clarividência: já nasceu como um profeta do passado.
                        Garante ele ter sido um bandeirante ou um marujo por nome Simbad, e ainda ser um dos raros sobreviventes da Era Símia (que ainda não chegou!)...
                        A riqueza de detalhes de seus enfoques, -nos temas que abrangem relatos remotos-, é espantosa!  Descreve tudo como se um filme -colorido- se lhe estivesse passando pelas retinas-de-mágico-relampejo...
                        O incêndio de Roma, o magistral desafio de Nero às leis da física, a construção do Aqueduto (com o qual os romanos brilhantemente conseguiram vencer a lei da Gravidade, levando um rio a correr morro acima, através de tubos PVC e molas helicoidais), as grandes batalhas de Búfallo Bill, os duelos de Hopalong Cassidy, Billy The Kid, Rock Lane, Roy Roger e Jesse James (no Far-West dum império estranho) o interior e a vida do Quilombo dos Palmares: tudo Talbo sabe e analisa a fundo, como se defendesse tese, com conhecimento de causa (e efeito!), como se deslocasse seu frágil envoltório material, a seu bel-prazer, pelas épocas passadas e futuras, desafiando as ignotas placas de sinalização da Mente Humana...
                        Ele sempre traz em dia seus conhecimentos de atração magnética, com os quais somente ele consegue explicar o desaparecimento da Atlântida e os sinistros e pavorosos conhecimentos similares que vêm ocorrendo no afamado Triângulo das Bermudas...  Talbo versa sobre Paulo Toscanelli e sua influência nas viagens de Marco Polo e Vasco da Gama que culminaram com a descoberta de um time de futebol, através de cabalístico mapa gramado. Nem ele sabe o que realmente intui...  O tema “A importância da devastação da Amazônia no degelo dos Andes” -onde mostra a possibilidade da completa extinção do rio Amazonas e seus afluentes, e a conseqüente invasão do mar, terra-a-dentro,  é enfoque preferido de Talbo, bem como “A origem das Amazonas - as desprezadas solteironas das tribos canibais”- que se agrupavam em torno do totem “Pistolon”, cantando modas caipiras ao som de uma viola e cujo hino de guerra era a música “Luar do Sertão”...
                        Sua ousada explicação sobre a origem do formato atual dos continentes, reza que, devido ao deslocamento de um enorme aicibergue -em eras remotas- desde um dos pólos (que não tinham nome ainda - como pode saber então, qual dos dois era?- as penedias rochosas, ainda em fase de resfriamento laval, sofriam constante bombardeio gélico, tendo, como conseqüência, os enormes e hecatômbicos resfriados vulcânicos- revelados em homéricos espirros provindos dos “pulmões” da terra... Tema fascinante!
                        Talbo defende incondicionalmente a preservação do meio-ambiente, a fauna, a flora e a botânica.  Seus horripilantes relatos acerca da influência dos decibéis na esterelidade das caixas de marimbondos, bem como da arrasadora destruição dos favos de mel de abelha com conseqüência direta na computação do baixo índice das notas musicais das flautas virgens dos matos e capoeiras, despertam a atenção aterrorizada do Planeta para o tema “Poluição Sonora - Asfalto x Natureza”...
                        Talbo prova que todos os vermes, lombrigas e micróbios partiram da barriga do Homem e para lá hão de voltar...  Também só ele tem o método infalível para a fabricação de diamantes no espaço-curto-de-cinqüentanos. Talbo veio a calhar para os planos e projetos do reino, sem dúvida... Talbo recitará prédicas a cada 15 dias e evocará (quando a primeira turma de desfizer em amoníaco e enxofre) novas legiões de seres astrais de segunda qualidade -de seu íntimo conhecimento- para a tarefa nada gratificante de consumir as fezes do Reino no Astral Superior.
                        Talbo fala das prováveis invasões, no futuro, dos meio/chineses e seus sabres enferrujados, suas danças exóticas, seus sistemas kunguifúgicos de guerrear com as mãos em forma de cutelo.  Previne a todos acerca dos samurais e seus enferrujados bastões movidos a energia mental e suas adagas e cimitarras de corte gilético...  (E suas gueixas falsas, guerreiras de primeiro escalão, ávidas de paus, ferros e circunscrições rígidas.)
                        Talbo desenha todo o figurino do Rei. Foi ele o idealizador dos uniformes que existem no reino.  Fala ele acerca dos povos atrasados que jamais podem conseguir elevação mental e levitática, pois, se um dia se percebessem investidos de tais poderes, teríamos constantes ataques sexuais e passadas de mão na bunda e sentadas no colo, tudo oriundo dessas mentes distorcidamente ignorantes.  Seu lema preferido, confessa sempre, é: “O espírito rege sobre a matéria” e o inscreveu na abóbada pétrea do templo subterrâneo protegido pelas vestais, sobre uma fogueira eterna...
                        (Feita essa descrição geográfico-filosófica do recinto, talvez alguém ainda pergunte, duvidando da possibilidade da concretização desse sonho de Manchinha: “E daí? Como viver isolado do Mundo? Ninguém vive assim!”  Ao que retruco, desde já: -”Do modo que segue adiante, como verá, caro cético!”)
                        O reino se auto-manterá, como hoje se auto-mantém, explorando a criação e o pastoreio de ovelhas e cabras, tosquiando os animais nas épocas próprias, ordenhando seu leite (o que mais se ordenha?), sacrificando sua carne imaculada e explorando sua reprodução desenfreada!
                        Não se tolera a captura de pássaros canoros.  O canário cabeça-de-fogo é ave sagrada e sua prisão visceralmente condenada em qualquer circunstância. Qualquer elefante ou rinoceronte ou hipopótamo que surgir dentro das divisas do reino, deve ser reconduzido -após localizado o rombo por onde imigrou- para fora do lugar, uma vez que tal espécie de bicho é estranha à paisagem do reino e não pode pertencer, como bichinho-de-estimação, a nenhum lacaio submisso ao rei.
                        Lobos, desde que deixem em paz os rebanhos esparramados pelas escarpas, e não molestem, a mando de franceses chamados La Fontaine, nenhum cordeiro que estiver bebendo água, podem viver ecumenicamente com os outros bichos bravios da floresta. 
                        Nas épocas de frio intenso, será fornecido um cobertor mágico a cada ser vivo que habitar o reino: será época de hibernação, quando o reino entrará em recesso durante o tempo que permanecer a baixa temperatura, economizando, de todas as formas, o rico dinheirinho dos cofres reais...  O rei fará viagens misteriosas e inadiáveis a países -por coincidência- em pleno verão turístico...
                        (Aqui Manchinha perguntou se a rainha iria junto...  Pela resposta mal pensada ganhei um bofetão!)
                        Voltando às ovelhas, cumpre ressaltar o método da “rabucagem”, introduzido no rebanho ovino do reino, após inventado por Talbo.  As ovelhas, no cio, desperdiçavam quase sempre vários óvulos, quando, antigamente, não se cuidava de retirar das bordas de suas relampejantes e sequiosas vaginas, aqueles bolinhos de merda endurecida e enrolada nas festivas felpas de lã que circundam seus orifícios de descarga bostífera e a pomba adjacente.  Costumavam até não apanhar cria, pois o macho-carneiro não chegava a sentir pelo faro o estado interessante da companheira.  E, quando sentia seu sexo vibrante logo encontrava a barreira sólida das tais bolotas ressecadas e arrefecia em seu vigor.  Talbo inventou medida profilática que veio aliviar a praga de esterelidade que se verificava nos rebanhos do Reino.  E consiste em tosquiar com gilete, em espaços regulares de tempo, o local em foco.
                        Todo incentivo é investido na atração de turistas camponeses com suas belas matronas de largas ancas!  Tais visitas são consideradas altamente honrosas e priorísticas.  Os motivos do fato são reminiscentes: ecologia atávica!  O reino necessita de tal tipo de intercâmbio cultural! (Quando entro nesses assuntos, Manchinha faz muxoxo, espicha o beiço e finge de distraída.).
                        No reino, dizia, apoia-se a invasão turística dos campônios que sabem, como ninguém, preservar a natureza!  E são eles os marginais das grandes metrópoles, injustamente...  Porisso, o rei acena com todos os chamariscos e atrações para chamar sua atenção: o caboclo foge, como o diabo da cruz, de tudo que seja idéia de modernidade e civilização robotizada!
                        Isso acontece quando o matuto é puro, descontraído e imaculado...
                        O problema do êxodo urbano e do afastamento precoce de qualquer tipo de modernismo, por parte do homem do campo, remonta a eras passadas...
                        Naquele tempo, os homens da roça chegavam ao arraial descalços, envergando calças de brim bruto, cru, listradas -como os embornais- com longas e brabas faixas verticais, canivetões à cintura, sustentados por presilhas já sem molas, ultra-afiados, de cabos de osso ou chifre, decorados em riscas xadrezadas -para combinar com o xadrez das camisas de algodão rústico, tinto em cores que não desbotavam -conseguidas com a alquimia das raízes e cascas das árvores de pau-brasil...  Os roceiros traziam nas algibeiras um ou mais maços de palha pura, própria para o pito, cujo fumo -de aroma agradabilíssimo- era cultivado por suas próprias mãos e enrolados com capricho, engenho e arte!  Os chapelões de fibra natural, que hoje não existem mais, acumulavam na copa e na aba o pó das estradas do mundo e eram retirados -em sinal de reverência- à entrada das vendas e botecos de fim de rua e beira de esquina...  Os vendeiros distribuíam açúcar pelos balcões ensebados, à espera e cata de enxames de moscas, tão do gosto dos fregueses caipiras, e entornavam água de chiqueiro no chão de terra batida dos seus estabelecimentos, cujas paredes -untadas de banha velha e óleo catingudo- fixavam a poeira dos redemoinhos e pés-de-vento constantes/antigamente...  Bolinhas e tiras de papel picado e sujo eram atiradas à porta, convidando o matuto ao ingresso no ambiente onde se sentia em casa...
                        (Aqui, a essa altura, Manchinha começa a se interessar pelo assunto, e chega a me dizer que estou um tanto quanto nostálgico e poético...)
                        O matuto, desinibido, logo entrava (ou primeiro desmontava da besta ruana caso estivesse numa) e levava, com as roupas em desalinho, sua contribuição para a mantença do vendeiro e sua família...  Pedia pão com mortadela, desembuchava com água e pinga...  Arrematava com um desses pés-de-moleque gigantescos (hoje tratados por fenemê ou blocrete).  Tomava um pigão pra gargarejo e grunhia demoradamente um gló-gló-gló agudo-grave e soltava uma cusparada gosmenta, solene e rotineira, limpando o chão, em seguida, com os pés rachados e repletos de níguas, os tais bichos-de-pé...  Tudo era natural.
                        Mas, quando nasceu a noção de Higiene e os cidadãos a abraçaram, os caboclos rarearam! Fugiram das cidades em formação, deixando lacunas impreenchíveis...  Cerceados em sua liberdade, pela limpeza do ambiente, fugiram dos povoados onde não iam nem pra negócios, pois não foi um nem dois que teve de emitir um sonoro “vosmecê me adescurpe” após uma escarrada involuntária no vermelhão dos pisos já ladrilhados das vendas de nova mentalidade...  E o progresso foi chegando e espantando...  Fodendo, diz Talbo, a liberdade dos camponeses puros.  Nossos homens rurais entravam uma vez, e nunca mais voltavam, nos recintos onde tivessem que se desculpar pela queda duma cebola ou batata no chão encerado, ou pela escarrada riquíssima em proteínas! Para o simples, um simples pedido de desculpas é um troço complicado e um verdadeiro bicho-de-sete-cabeças...  Assim foram escasseando os homens vindos das serras, das bibocas sem fim, das terras pra lá de Deus-me-Livre que cospem com pureza, sem engolir o próprio escarro e arrotam saudavelmente após emborcarem litro d’água por cima duma linguiça de carne-de-porco!
                        Porisso, o reino se vangloria e se rejubila com a presença ecológica do nosso querido e puro matuto... (E sua “famiage” de belas sertanejas virgens a tiracolo.)  O rei é compadre de meio milhão de roceiros, devido ao apadrinhamento que rege os matrimônios, nesse sertão do reino de Coivaras!
                        (Aqui Manchinha tem um de seus acessos de ciúme!  Garanto a ela, no entanto que tudo é histórico e que o reino tem até sua história já pronta e em andamento! Existe um livro de tiragem ultra-reduzida  -dois exemplários- por sua natureza hiper-secreta: trata-se do Livro da Visitação, onde estão registrados fatos e vivências e hinos e cantos que sempre ocorrem no Reino, mormente em época de visitação cabocla!
                        Certa vez uma representação diplomática do Reino do Bicho-de-Pé visitou o reino quando apenas podia ser mentalizado; porém concretizaram -com sua aceitação incondicional- a possibilidade de sua existência!
                        E, pra confirmar, cantei, meio fanhoso -que o sou-, alguns trechos do Livro Bento do Reino:  “Quando chegaram ao pé da Serra, avistaram os caiçaras e proferiram aleluias, debulharam hosanas e saudavam o Reino, dizendo em altos brados “Aleluia! Salve o Reino!  Minha gente, eis Coivaras!”
                        “Com a boa-vontade que os caracteriza, logo viram a invisível cidadela!”                       Tento imprimir um sotaque de cantador sertanejo-nordestino ao relato, mas, caralho!, estou viciado em leituras modernistas!
                        “Acenderam um grande fogo, às margens dum riacho e armaram suas barracas celebrando um despacho!  Contaram da construção do famoso Bicho-de-Pé, e do grande castelo onde fabricam pó-de-mico e rapé! Da magia que possuo e não falei até agora, ouça Manchinha esses exemplos de outrora! Pescaram um peixe-bacalhau, nas águas desse meu reino, usaram magia minha e o fisgaram por pensamento! Reconheceram meu poder e glória na hora da revelação, em que -clareando por pensamento-, me tornei um lampeão!”
                        Nessa época foi fundada no reino a Missa Sertaneja, mistura de saravá com toada de realejo...
                        “Os pobres visitantes, não tinham título algum.  Mas, compadecidos desse destino, lhes ungi como súditos meus.  As rãs e os sapos que habitam nos brejais do reino, chamados a colaborar cantaram músicas de serestas, por quinze dias coivaranos.  O rei impediu o sol nascer, enquanto não chegou no acampamento e foi só ele chegar o sol brilhou no firmamento! Num passe de mágica meu, passearam num carro de boi: puxado por dois leões o veículo voando foi... E se molharam num árco-íris, se colorindo de sonho frutacor, e enquanto o rei os benzia, estrebuchavam fazendo amor”...)
                        E fui contando mil coisas do Registro Enigmático, que faziam Manchinha corar, e fazendo-lhe cafunés, veio o sono e fui deitar...
                        E continuei, depois, falando do Reino.  Voltei à questão da auto-manutenção... O reino se dedica, ainda à cultura do milho, da soja, do algodão, do arroz, da juta, do fumo e do macarrão, bem como à criação de abelhas e de suas caixas afavonadas que, graças à alquimia de Talbo, se prestam à confecção de aparelhos musicais de sopro, devido à propriedade ressonântica de seus favos aplastificados...
                        Sobre Talbo, sei que, quando nasceu, e devido à vasta cultura que já acumulava, recebeu no cartório de registro civil, não uma simples certidão de nascimento: foi-lhe outorgada uma Escritura de Nascimento, registrada sem ônus, em regozijo ao seu surgimento hemisférico...
                        Continuando o assunto “sobrevivência”, cumpre ressaltar a criação de galinhas, pra corte e postura, por parte dos vassalos, em seus quintais.
                        Dos ovos saem esplêndidas gemadas e bolos de raro e exótico sabor: um misto de banana, baunilha, coco e caramelo.
                        Lá a carne é tolerada, desde que o galináceo viva livre, separado do plantel de postura, mostrando ao homem que o cativeiro não serve nem pra galinha... Outros lacaios, ainda, se dedicam ao serviço de reprodução galinhal, vigiando o alheio galo, cuidando das chocas e ninhos também esparramados pelo mato, sendo proibido, às gibóias e aos gambás, nesse caso, o extermínio de mais de sessenta por cento dos ditos cujos...
                        Das penugens, retiradas dos talos das penas, saem, após a cardação, os fios peníferos que, transformados pelo tear, dão lindas peças de texpen, origem de lindíssimas vestes impermeáveis e de alto valor aquecivo...
                        Dos talos das penas, após paciente e artístico trabalho artesanal, brotam tanto matérias-primas para brinquedos de meninos de plástico, como canudinhos para sucção de sucos extraídos das frutas silvestres, in natura...
                        Talbo conseguiu, recentemente, criar dentaduras próprias às penosas, o que possibilita uma economia de milho, devido à descoberta de novo menu gramíneo por parte desse estranho povo de penas...
                        Criei um pequeno deserto dentro das divisas do reino, meio-ambiente em que possam sobreviver vários tipos de escorpiões, lagartos, lacraias, lebres e mussaranhos, nativos das pedras e da areia tórrida.  Para tanto, em meio alqueire previamente escolhido, deixei proliferar -a partir de um casal- todas as gerações possíveis de uma cabra e seu macho.  Dentro de algum tempo, sumiu o pasto, se consumiram os arbustos e secaram os olhos d’água...  Foi tempo da retirada dos animais do então deserto, conseguido com o aumento e a proliferação incontrolável das crias em progressão geométrica, somado ao fator dos cascos pontiagudos pisando a terra e as pedras menores, triturando tudo e tudo transformando em areia desértica...  O trabalho ou a ação erosiva dos cascos dos caprinos, acumulados a não mais poder mexer direito dentro da gleba cercada foi decisiva para o surgimento do deserto pretendido e necessário... 
                        No meio da área arenosa, conservo uma grande pedra especial, local de meditação e levitagens diárias do profeta Talbo...  Uma vez por ano, ele permanece ali, durante quarenta dias e quarenta noites, sendo atormentado pelas forças cósmicas negativas, supostamente passando a pão e água. (Às escondidas, sem que nenhum súdito note, levo-lhe -alta madrugada-, grandes nacos de carne e suculentas sopas à base de macarrão recém-colhido e imensos tubos de bambu repletos de suco de tomate...  Exige, ainda, doces e quitandas diversas, confeccionados pelas cozinheiras do castelo...)
                        O cultivo do algodão -consorciado ao feijão jalo- é serviço das mulheres que também cuidam das hortaliças de seus quintais, da formação de húmus e da fabricação do “bokashi”, um fertilizante orgânico para adubação das mesmas.  Vestem, no trabalho, grandes chapéus de abas imensas, blusas rústicas de mangas compridas, calças bombachas e alpercatas de fabricação caseira: tudo na cor azul celeste, estampada de cavalinhos brancos a galope.
                        Os homens que cuidam das edificações têm uniformes tipo macacão, marrons, e usam bonés de couro cáprico, coloridos por seiva amarela e calçam sandálias de tiras grossas como as dos frades franciscanos; suas ferramentas são de madeira entalhada como, de resto, todas as empregadas em qualquer serviço no reino.
                        Os monjoleiros e os moleiros, ao cuidarem do fabrico manual de fubá, polvilho, farinha, azeite, óleo e alimentos macrobióticos diversos, bem como do beneficiamento do café, do arroz, da soja, da mamona, do algodão, etc, etc, usam roupas brancas, de sacas de açúcar usadas, ao natural, em forma de bermudas e blusas sem manga -para ventilação sovacal- e bonés de mestre-cuca, permanecendo descalços no trabalho.
                        Os raizeiros -sob as ordens de Talbo (a Eminência Parda do reino) produzem vinhos de variado sabor e infinita coloração, que envasam em cabaças maduras (abóboras d’água) colhidas na beira dos brejos e capoeiras.  Os líquidos, esses, medicinais: única beberagem usada nas festas e orgias que promovo, e onde só é permitida a presença de donzelas e matronas e do curinga da corte.  Eles -os radicultores- usam roupas de texpen, cor natural, pintas carijós. Ostentam, nas cabeças, penachos multicoloridos, e nas canelas -acopladas por correias- esporas galináceas próprias à perfuração do solo das matas virgens, onde encontram as raízes não-cultivadas.
                        Conseguem o tempero das bebidas, na natureza.  Legam-no aos vinhos quando do pisoteio das raízes, folhas e frutos cozidos em imensos caldeirões de pedra e barro.
                        Todos os camponeses usam roupas velhas e toscas, iguais e pretas, com listras verdes, com dois remendos de tecido xadrez na bunda, um de pano vermelho no joelho direito, outro de malha azul no bolso esquerdo e um longo rasgo sem costura nas costas, próprio para se queimar o couro ao sol, na busca dum estigma que garantirá aposentadoria ao portador, quando atingir o estágio de queimadura de último grau.  Como permanecem descalços a vida toda, um chapéu de coco (à la Carlitos) e ferramentas de cor zarcão completam seu uniforme...
                        As crianças do reino ficam peladas até a idade de quinze anos, elevada para dezoito, em caso de sexo feminino...
                        Apesar da liberdade total de ação, cães invisíveis (de mordedura dolorosíssima) vigiam as Matas.  É punido quem for pego assando os pequenos e indefesos gnomos e anões dos Bosques, com espetos de pau ou qualquer outro material assanteiro.  O canibalismo não é tolerado, a não ser em casos extremos, tragédias, como a dos Andes. (Inviável, de resto, pela inexistência de aviões no Reino!).
                        Os oleiros não podem confundir o barro da Vida (com que se moldam os verdadeiros gênios do reino) com o barro de fazer tijolos.  Nem conhaque de alcatrão com catraca de canhão.  Nem espingarda de caçar rolinha com espinafre na caçarolinha. E, muito menos, Quintino Reis Costa com Quinhentos Réis de Josta...  Seus burros são tratados com todo carinho, não se aceitando espancamentos bestiais. Aquele que é pego em cópulas cupímicas com as mulas (e elas se viciam!) tem um dos testículos arrancado a canivete de pau e o come cru.  Ali, de forma alguma, a natureza é violada!
                        Os artistas -de um modo geral- usam longas batas coloridas, algo lembrando túnicas romanas e usam quepes imitando louros da mesma nacionalidade. Pintores, batas vermelhas e sandálias de couro cru.  Escultores, azuis e louros verdes.  Outros artesãos de maneira geral, a mesmíssima roupa, na cor amarela, monocromática.  Os escritores têm liberdade na escolha do traje, desde que seu guarda-roupa se restrinja a “uma em uso, outra limpa” e as mesmas confiram com as descrições catalogadas no Manual Coreográfico do Rei...
                        Os tecelões se encarregam de tear e da fiação de produtos de origem vegetal, como o algodão, o linho (vindo da serra), a juta; e de produtos de extração animal, como a lã, a pele, a pena e a seda, permanecendo só de cuecas os homens, e as mulheres de sutiãs, porém usando cintos de castidade, cujas chaves ficam em meu poder...
                        Os floricultores viverão sempre procurando a chave genética da rosa negra.  Vestidos de plumas vegetais de colorido estravagante, se engenham a florir o reino com tudo o que há de natural e abundante no local.  Multiplicam as pétalas, na razão inversa das encomendas e da demanda do restante do Planeta.  Se reproduzem nos jardins, em safados trejeitos brejeiros.  Os filhos nascem encasulados como as crias das borboletas.  Os jardineiros, ainda, extraem essências e perfumes com que o rei prepara banhos especiais para as noivas, nas famosas “primeiras noites”.
                        O candeeiro cuida da iluminação do Castelo e seu cargo é vitalício, como o dos escrivães de cartório de vários ofícios...  Tem a primícia de entrar nos aposentos mais recônditos e dissimulados do rei, sem bater à porta. Traz sempre lotada a vasilha com o azeite de mamona com que lubrifica as dobradiças e eixos de carro-de-boi do reino.
                        Mas, como nesse planeta nem tudo é trabalho e organização, o rei providencia bagunças especiais e orgias semanais no pátio interno das muralhas.
                        Semeia, assim, no campo de luxúria, a semente de suas conquistas femininas. Ébrio de volúpia, num frenesi desenfreado, providencia mafuás, cavalhadas, torneios, recitais, duelos, desafios, jograis, encenações e concertos onde os homens ficam ocupados se distraindo, enquanto o soberano se aproveita de sua ausência para, sorrateiramente, galgar os altos muros dos fundos do castelo...  Às vezes, usando passagens secretas, vou ter no aglomerado de casitas fora da fortificação. Fico aproveitando o tempo, amando súditas cabisbaixas, casadas, solteiras ou viúvas, das mais lindas que possa haver num reino dessa qualidade...
                        (Abro esse parêntese para lembrar ao leitor amigo o quanto me está sendo difícil essa dissertação, uma vez que trago os braços roxos devido aos beliscões que Manchinha me dedica na hora dessas necessárias traições imaginárias...)
                        Por fim, o que importa mais que tudo: o Rei vive eternamente! Por isso, as intrigas não chegam ao meu conhecimento. Com nada me preocupo, uma vez garantida minha imortalidade.
                        Se algo de importante não foi dito aqui ou foi esquecido, das duas uma: ou era importante demais e não podia ser dito, ou não era importante coisa alguma...
                        Este, meu Reino de Coivaras...  O que de melhor pude conceber para deleite de Rosalda...








a páscoa



Verdadeira saga mostrando o esforço sobrehumano dos coivarenses na conservação da própria espécie, incluindo uma questão canônica   sobre  a  validade  de  certas  missas  de Sétimo-Dia.



                        CONTA-SE que sempre a proximidade de alguma expedição exerceu efeito estranho sobre a comunidade dos guritanos, popoli barbari, que talvez nem exista mais na encosta setentrional do Pico-Do-Cão, a oposta à corrutela de  Coivaras.
                        Talbo conta que nos longes do tempo, quando anunciava uma visita àquelas paragens, na bocal transmissão dos muleiros e tropantes, ocorria.  Quando lá se espalhava a notícia de sua chegada próxima.  Era considerado um feiticeiro ou vidente que vinha de longe a fazer profecias e prodígios.
                        Encontrava as trilhas limpas, roçadas.  Preparavam-se com grande antecedência para a sua chegada.  Entre o mulherio, a aproximação dessa vinda produzia enorme confusão.  Saíam, aos pares, de casa em casa, entre  si dizendo as faltas feitas aos maridos, uma às outras, delas se pedindo perdão.  Preferissem confessar desde logo o peso, a serem denunciadas pelo vidente, para quem o passado e o futuro não tinham segredos.
                        Ele era recebido com choros e danças locais.  Escolhia para a celebração dos ritos um sombrio aposento, onde se instalava com seus petrechos sombriamente.  Ali usava seus dotes de ventriloquia para convencer da existência de algo sobrenatural junto a si.
                        Para governar suas vontades, usava o mesmo argumento imemorial:  lisonja.  Conseguia vasto domínio, lisonjeando-lhes os apetites e as paixões.  A felicidade geral, naquele tempo como sempre, estava na supressão de todas as canseiras...  Talbo garantia-lhes estar perto o dia em que as coisas fariam-se por si.  De um a tudo.  Que as velhas voltariam à mocidade e os velhos ao vigor...  E assim, consecutiva e sofismadamente...  E tantos milênios se passaram!  Depois, Talbo deixou de ir...
                        Agora, sem mais nem menos, a poder de urucubacas e pignistins, a mor de um pó de birimbim, em busca de  anagaletuxas e anagalepampas, surululas, currupicos e corropocós, semplanos, essa viagem nossa, a Caravana.  A primeira, em séculos, e insuflada por Talbo.  Porém não se cogitava descer da outra banda, guritanamente.  Existiriam ainda ?...
                        Parecia que todo-o-mundo endoidara.  Rumo ao Pico, os raizeiros esganados se sucediam.
                        Laudélia seguiu depois.  Ordem marital impediu antes.  A picape - tração nas quatro rodas-galgava as ribanceiras mais inacreditáveis, pilotada pelo Osvaldo Barba Ruiva, com a mulher e o primeiro filho a tiracolo.  Jumira e Silma levavam os vidrinhos muitos.  Saíram atrasados:  Vidunha Quié, apesar dos ciúmes, consentiu na laudeliana ida.  Que poderia, ademais, fazer?  No leito, sarnamente coçante, ia esperar.  Fossem ao pó, como um dia Maria Dias também iria...  Todos precisavam do Remédio!
                        Joana Mouro, reviúva, cuidava dos meninos e do velho sogro.  Mais dele, doente.
                        O mágico pó que curava havia acabado pelas redondezas.  Dele, muito, só tinha agora no alto, cercanias do Pico-do-Cão, o qual nos atraía pelo que de muito lendoso e aventurável nele residia.
                        A origem?  Nada se sabia.  Tanto da sarnapraga como do curante antídoto.  Sabia-se que tudo começara após a introdução de estranho costume pagão no Reino.  Após a realização do Primeiro Carnaval Coivarense!  Um autêntico apelo à vinda da Ira Reinol!  Coisa orgíaca, descabelada, bárbara e fornicante.  Três dias bacanálicos,  quando um usurpador por nome Momo reinou tripudiando sobre o pobre Rey deposto, com um enorme séquito de demônios disfarçados por máscaras, éteres e roupagens ridículas. 
                        Atacou, de início, um velho juiz sem toga - mais tarde identificado como Talbo - e,  numa luta surda como a que ocorre sem trégua entre o Bem e o Mal, traiçoeiramente abriu-lhe uma tremenda brecha na alva careca, usando para tanto um cetro amaldiçoado. O Profeta saiu de cena, temporariamente...
                        Sabe-se também que a noite não trazia mais paz a Coivaras.  Com ela vinha a coceira.  Sob cobertas não ficava cristão.  Nos casebres, nas casinhas, nas casas, nas pensões, à noitinha, tudo começava.
                        Um ruído característico-iniciante, rec, rec, rec, de  leve.  Depois vinha uma inaudível algazarra de unhas dilacerantes, dedos malucos.  Então, após um farfalho que foi ficando como ficou conhecido, tal qual uma discussão de colibrís, logo ninguém dormia mais.  E as casas, as casinhas e os casebres se inundavam, incendiando-se de pólem, plumas, imprópérios, lamentos, gemidos, orgasmos, maldições, putaqueparius e o escambau...
                        Noca Pedroso foi o primeiro. Talvez - disseram - trouxesse de fora, dalguma zona putícia dele lá puteiro, senhor desses escusos usos.  Coçou vinte e três dias.  Virou chaga pura, purulenta.  No fim, agoniante, coçando-se até os ossos, a alma, a oração e a praga.  Morreu coçando coração.   Fogo selvagem? Sífilis? Leprão?  Cancro Novo?  Noca contaminou todo-o-mundo?  Nada disso!  Praga?  Sarnamacaca?  Remédio Nenhum!  Coisa do Tem-Xifre?  Banho, raiz, erva, defumação:  nada resolvia.  Nada.
                        Como começasse com um despertar brusco.  Soube-se ali pelo centésimo caso.  Uma pintinha, canto algum da pele.  Antojos brabos.  Cidade trocou noite pelo dia.  Era o sol sumir, virando tudo do avesso, o povo começava a surgir.  Cada qual cuidando do ganho, serviço e obrigação.  Rangava-se a primeira bóia, ao sair a primeira estrela, a Dalva.  Noite adentro se vivia.  Dormir-se de dia.  Então houve a danada confusão dos pirilampos, amando cigarros gerais, e as lacraias desnorteadas e os vagalumes de sexo carbonizado. Bom, mas já é outra história...   O certo é que, tudo inverso, costume custou a pegar.  Roças iluminadas, gado sonâmbulo, madrugal repasto, virando moda, virando hábito.
                        Quando, enquanto isso, se vagava serra-acima, destino Pico-do-Cão.  Assim como os alpinistas que escalam montanham escalam montanhas, os camponeses galgavam encostas, como formigas fugindo de querosene, rumo aos caibros roídos pelos carunchos.
                        Já estávamos nos aproximando (como eu previra, pela mudança das condições climatéricas) do Pico-do-Cão, quando, intuitivamente, notei a aproximação de Talbo, vindo do Oriente.  Trouxe notícias, não se mostrava cansado.  Contou que os casos no vilarejo chegavam a duzentos e resolvera entrar em ação.  Pediu permissão.  Usando dos atributos reinós, grimórios antiquíssimos,  clarividência campônia, meditância coivarol, saiu flutuando, prometendo uma fórmula-vacina,  além dum paliativo para alguns casos fatais, e um curatudo sarnal para logourgente.
                        Não se esquecendo da ofensa, mas já restabelecido dos ferimentos do crânio, o Benfeitor  conseguia levitar com maior facilidade.
                        Desde que o pó  -descoberto por ele como antídoto- se acabara, ele pouco pudera fazer.  Imobilizado, com pesos negativos na esfera mental, havia de passar por longo processo purificante.  O que ocorreu, até que o vi surgir.  Logo partiu.  Fora ele, no seu fato-faro, farejando no mais recôndito, quem indicara a fonte do maís-pó:  o Pico-do-Cão.  Talbo enxergava através do camuflo das eras.
                        Após o término do pouco pó que tínhamos, tudo ficou preto.  Acabaram-se as carnes gordas.  Gado doente.  Porcada se evaporou.  Não mais os cervejais banquetes, daqueles com muita fartura de acepipes, molhos picantes sem nada do refrugal.  Era o fim da carne tanta de gado e ave!  Jamais do capado torresmo, os sábados miúdos e as extremidades focinhas, rabo, munhecas, beiçaria e orelhada feijoante, com a de sempre pingapura regando paladares.  Acabara-se...
                        No Pico, a resposta, dissera Talbo.  E logo lá chegaríamos.
                        (Depois se soube, os mínimos recantos do Reino foram visitados por Talbo, na busca da pedra de Hyle, que, triturada, era um bom remédio.  Como a achou, saiu curando, zé-arigolicamente.  Ubíqüo, esteve fazendo milagres por todo-o-canto, proferindo as mágicas palavras de praxe, anunciando a redenção da Raça, recebendo os aplalmas de ocasião por parte de todos, tanto quanto deixou registro de suas presenças estadas, as mais das vezes em ambos dois lugares distintos e distantes de uma só revoada!) 
                        E nós havíamos saído, na Peregrinação Sarnosa, num dia qualquer da Era da Sarna... Laudélia seguiu depois, reafirma-se, na picape amarela do Grande Mecânico, com Jumira, Duvina e Lessandro, o guri.  A cavalo, mantimentos e tralhas embarcados, Nino, Cabréu e Izé.
                        Essa primeira expedição, assim iniciática, eletrizara a todos.  Assim como a sarna a todos -quase- pegara, coçantemente.  E, lá no alto, o pó-de-cura.  Razão de idas.
                        “No arrebalde das pedras rosas, em metro derredor das lobeiras, nos poleiros corujantes, chãomente esparramado, pó:  muito pó” - indicara-nos Talbo.
                        Assim, nos vãos caolhos de cada periferia pedral, um convite ao agacho, ao de-coque.  Com um mínimo olhar curioso, o indagante, consumido na busca, poderia encontrar.
                        Não.  Não se achava razão pra coceira que chegou com a estiagem de fevereiro, já castigante pra arroz na cacheação, pro milho na granação...  Na época, ainda se comentava do Vidunha, suicidalmente.
                        Foi assim:  existia uma Joana Mouro, viúva antiga, mãe de moça Laudélia.  Igualmente existindo um Vidunha, rapaz erado, filho do Vidunha Quié, viúvo de sessenta.  Conseguinte que o rapaz, negaceando donzelas, casamentou-se joanalmente.  E no vai-vem de morar-se juntos, levara o Quié, enquando a Mouro trouxera Laudélia:  assim todos juntos na casa uma.  No que Joana Mouro, mulher de Vidunha, bênção pedia pro sogro-pai.  Também menina Laudélia, ao avô-sogro-da-mãe requeria bênçãos.
                        E, como em casos de morar juntos tudo se arranja, no junto morar-se a moça Laudélia encafifa Vidunhão, entrado cerne, vigormente.  Nos dados jogados, nos dias vencidos, uma consentida gravidez:  Laudélia, do Quié.  Não de violência ou crueza de brutas práticas estuprais, assim pelos matos.  Não! De camas tranqüilas, de lençóis apenas manchadamente tintos.  Sem insultos nem mofa.  apenas a audácia de atrevidos inquéritos.  Isto.  Casamento comentado...  Quarenta e cinco anos de diferença!  Eis que Laudélia moja, junta leite e um menino nasce.
                        Após a filha, Joana também engravidara, talvez pela última vez, e logo criou.  Igualmente hominho.  Bem pego, sadio, filho-da-passagem!
                        Daí uns tempos, Vidunha-filho ficou esquisito.  Alegre sim, mas estranho, apesar da casa cheia, dos vagidos e risitos, das fraldas embandeiradas.  Profundo, como o setembro que se abotoava de flores quentes, seu silêncio enorme.  Parecia habitar essas cavernas que existem na tristeza da gente.  Habitava certos êrmos que nem as multidões enchiam.  E, na esquisitez, falava sozinho, saindo a caçar de tarde, nas beiras e barrancos da represa, onde, em meio às capituvas e grama-de-égua, existiam os preás, em magotes, as cutias e os tatus.  Jamais pegou bicinho.  Nem pegou mandís ou cascudos nos rasos córgos das periferias.  Tudo era um gelo, rendado de estalactities pingando dúvidas lentas e inexoráves na desrazão de seus devaneios vespertinos. Ninguém sabia o que era.  Apenas alguma coisa começava a se formar e logo se esfumaçava, quando ele saía do silêncio, ao entrar para o banho.  Uma algaravia, garrancheira impenetrável.  Teve que ser levado.  No hospital ficou mês ou dois.  Contasse ao médico, talvez tivesse ajudado.  Mas foi com ele o silêncio.  Voltou falante.  Um assunto só, certo, mas falava o dia todo.                    “- Minha mulher, sogra de meu pai.  Nora dele também, ao mesmo tempo.  Minha enteada, ficou sendo minha madrasta:  daí, meu pai, meu genro.  O filho de meu pai, meu irmão.  Porém, neto de minha mulher: conseguinte sou avô de meu irmão.  Meu filho, irmão de minha madrasta, veio a ser cunhado de meu pai e seu neto ao mesmo tempo...”  E ia se enrolando, enrolando, até que chegasse a noite, quando quedava quieto, mumial.
                        Um dia tentaram lhe explicar.  Que ficara sendo pai de sua madrasta, tornando-se irmão de seu próprio pai e do próprio filho.  Sua mulher ficou sendo sua avó, já que mãe de sua madrasta e sogra de seu pai.  E que ele ficara sendo avô de si mesmo, pois seu pai era também seu genro.  Foi apenas três dias depois dessa besteira, tentativa maldosa, que aconteceu a joanal viuvez.  Acharam o Vidunha morto, manhãzinha.  Na varanda, pendurado na ponta em laço daquela corda, talvez descobrisse a única saída para escapar da arapuca que ele mesmo armara nos meandros do raciocínio engarrafado.
                        Deixou bilhete.  Dizendo que morria de confusão.  E tentava mais uma vez explicar o inexplicável...
                        O tempo passou, mas não se esqueciam dele.  Aí chegou fevereiro, com a estiagem súbita.  E a coceira!
                        Dillon, pintor oficial de Coivaras, premiado em distantes cotejos pictóricos, então teve trabalho dobrado, no socorro ininterrupto dos personagens de seus quadros figurativos.  Ocasião em que jurou passar para o abstrato-informal...
                        Pois eis que agora nos aproximávamos daquele Pico!  Ele, tão -parece- cercado de deuses da natureza, escondidos em transparências inodoras...  Parece que o espírito primevo que corre à solta no vento,  quando não venta, mora lá!  Sim, lá no Pico-do-Cão estão os confins do sonho, onde este se confunde com a realidade.  Tão ali presente o Oculto...  Ele mesmo um rito natural, u’a magia em exercício.  Nele se presumem revoltas, protestos, calmaria e aceitações.  Descobertas que estão por vir, moram lá.  E ele é permanente como o dia-a-dia...  O que tem de mágico é a possiblidade de criar uma perturbação que desorienta as idéias, gira os desejos.  Quase certo que, quem lá vivesse adotaria uma sistemática altitude inquisistiva sobre a Vida e a Morte.
                        Lá residem o repertório do excêntrico, os prodigios, o macabro, o poético, o fantasmagórico, o vazio, a perspetiva perdida, a visão, o fascínio, o sortilégio, a contemplação, a alegoria, o delírio, o símbolo, o não-senso, o segredo...  É garantido!  Ali qualquer um pode encontrar o fundo atávico que fornecerá, para sua vida, os pretextos de evasão para o maravilhoso!
                        Uma dúvida: nele, realmente, o remédio?
                        Como ainda por uma vez voltarei ao Pico, por ora deixo de comentar a bela paisagem que o circunda. A algazarra da comitiva não permite maior aprofundamento ocular-descritivo. O tempo urge, a doença não perdoa.
                        Noto e anoto pequenas singularidade, que não passaram - nem podiam passar -  desapercebidas. Que, quando entramos num raio de quinhentos metros abaixo do Pico, uma presença nova, inaugural, foi sentida no meio de nós. Logo às nossas costas, algo se mexeu no éter, deslocando o ar, numa outra dimensão, como assim um vulto que entrasse pela porta de um armário invisível e ela se fechasse a seguir, rapidamente.
                        Quando aconteceu aquilo com João Beato. Quase ninguém notou. Ele começou a sonhar acordado, e foi se deitando lentamente, à medida que ocorria algo semelhante a um seu afastamento momentâneo do próprio corpo. Senti que ele não ignorava aquilo que estava acontecendo com ele, pois o espectro tentava me avisar de algo. Porém a força que ele fazia para falar, traduzia-se, no corpo ao chão, em simples gemidos, tal como se dá com os gritos que emitimos durante um pesadelo, cujo som único audível, aos outros, se torna meros queixumes.
                        (Ah! Essas palavras que existem para que cataloguemos os acontecimentos nem sempre dão a exata idéia do que queremos explicar...)
                        Mas, no meio das lamúrias,  e nessa altura o espectro desaparecera, sucederam-se momentos de lucidez e fenômenos de efeitos físicos, alternadamente. Então, o corpo mirrado às vezes pairava alguns decímetros acima do solo, às vezes se contorcia nas feições, parecendo metamorfosear-se. Todos estavam, pois, ao redor quando um berro agudo partiu duma boca incomensurável, que gritava de dentro da cara joãobeática recitando trovas... Dentre as muitas, guardei essa: “Na viagem buscando segredo/ mostre coragem ou chore de pânico/ tem cuidado não caias no enredo / corre do morto do velório mecânico...”  e mais essa: “Anda sempre pelas sendas / da roleta que é da sorte / ganha ou perde mas  não te rendas / pois quem pára encontra a Morte!”
                        (Explique-se que João Beato ia na Caravana com sua trouxa de livros sagrados. Muita vida de santos. Correia com tachinhas, o flagelo, e algum condimento extra, próprio do ramo dele. Falava sempre que a noite é dos mortos e que o povo, mode a coceira, trocando tudo pelo invertido das desoras, provocava a ira dos finados... Em tudo e em todos os lugares, tinha visões apocalípticas, recitando profecias batidas. Contudo, ele próprio afirmava, era o Marquês de Itajuhy, Marechal de Campo das hostes esotéricas, Inspetor Geral das falanges de Talbo... Podia se transformar em urubu, sem a obrigação de comer carniça! Sabedor das virtudes mágicas de animais, plantas e metais. Eloqüente e sábio, para o gasto. Cumpre dizer que no segundo dia apenas da expedição, a Sarna o pegou. Seu baio corcel também pintou-se de rodelas róseas, pústulas. Curou-o, - e isso foi como um milagre -, muita reza própria, merecimentos, e raiz cozida de nabo brassica. Foi aí que se soube: no início da doença, a cura era possível. Ajudou também, preparado por Dim Arroba, certo suco de celidônia, misturado com glicerina, em aplicação sobre as bostelas do sarnento.  Não teve igual sorte o cavalo.  Razão de ter recorido à ajuda carregosa do Zeca Menino, para o transporte das bugigangas.)
                        Mas estava ali, meio “tomado” como diziam alguns, feito cobra dando botes, rosnando poema e profecia.
                        Como parecia estar vendo alguma coisa em outra esfera astral, foi descrevendo, aos trancos.  “Ela está ali, a Deusa (mais tarde vi que era a Natureza!).  À sua direita, um onço macho, deitado a seus pé.  É o homem pecador e ignorante e impenitente!  (Ele já ia decifrando a visão).  À esquerda, um boizão encapuzado:  é o homem bom, adepto e neófito.  E  Ela permanece de pé, entre o Bem e o Mal, entre a rebeldia e a obediência.  Tem quatro braços, representando os quatro elementos, cada um deles colocado em uma das mãos.  O fogo está representado por um punhal;  o ar por um anel ou argola; e a terra por uma ramagem florida, uma arnica, e a água por um vaso.  Uma fonte de leite começa em Sua Cabeça, passa em frente do boi e circula sob as patas do onço, que não o vê...”
                        E foi falando, falando, até terminar a descrição.  De tão longa, deixo pra outra vez a transcrição.  Mas que foi fantástica foi!
                        E logo que findou a mensagem, tudo aquietou.  E guardaram-se longos minutos de vigília àquele corpo que foi-se recuperando lentamente.  Depois que a normalidade retornou, seguiu-se caminho.
                        Outra coisa gozada que aconteceu: encontramos um retratinho de São Francisco, de cartão antigo, mui exposto ao sol e às chuvas.  Porém incólume, no meio de cinco ovos chocos, num gaviante nicho rochoso.  Ali o deixamos, plastificadamente.  Apanhá-lo, uma profanação fosse.
                        Além do horizonte, atrás do Pico, pareciam viver: certa necessidade de suicídios, fantasmas dispersos, gosmas vegetais, pântanos planaltais, abracadabras blasfemas, demônios desiludidos.
                        É certo também que, em roda de picos assim, sobrevêem-se artesanato perdido de épocas remotas, coisas de alvanéis pré-históricos.  Mas ali por perto nada disso se achou, à exceção de dois totens monumentais,  cujo significado, apesar dos esforços tálbicos, permanece obscuro.   São como dois dedos -auricular e anular-  de alguma deusa de profecias antigas, que talvez representem a ciência e a luz.  Ou poderiam significar aos adeptos, um sinal para a reunião...  Ficou assim.
                        Além disso, se achou os muitos miúdos raminhos e arbustos de raízes curativas e alucinógenas, que os curandeiros logo iam ensacando, como se as virtudes coubessem na multidão dos embornais.
                        À noite, acampados, só o pisca-piscar dos vagalumes tracejando risquinhos de luz no escuro das romeiras indagações.
                        Já pertinho do Pico -silhueta mostruosa do nosso lado esquerdo-, sentia-se como se navegando um aicebérgue.  Pois o Pico era apenas uma pequena parte que se podia ver, duma grande substrução milenar.  Ali em volta, certo tipo de vidas pupulava, contrapondo-se à inércia do grande monumento.  Em volta de tudo aquilo,  é certo, existe um clima lírico incondicional.  Decorrente,  talvez, do contraste que ressalta do conjunto mineral acinético em oposição ao ambiente repleto de insetos,  vidas microscópicas, répteis e aracnídeos.  Um lugar, ali, onde forças antagônicas despertam lentamente e matêm vivos certos sentimentos que nossa imaginação conserva em estado de reserva e letargia.
                        Pico-do-Cão.  É o próprio Ser-Cósmico! Exprime a condição humana de Coivaras diante do infinito e não no seio de suas mesquinhas realidades cotidianas...
                        Assim, dali assistindo todo o drama das épocas, o sábio Pico é de uma inocência universal.  Jamais toma partidos.  Como a paixão e a compaixão são elementos insustentáveis, o que reside no Pico é a permanência.  Monumento da Natureza !  Esse Pico, se fosse descrito como um poema por um poeta, precisaria  ser revestido de uma névoa pela imaginação dos leitores!  Sem o véu que esse lhe colocaria, excesso de seu amadurecimento supérfluo, seria  percebido apenas pelo  que é:  pedra!
                        Então, na véspera de nossa chegada lá, surge outra vez em nosso acampamento, dez da noite -aproximadamente-, Talbo.  Em sua alizaba dourada,  cercado de alméias cintilantes.  Como foi festejado!  Anunciou-se num fulgor de lua cheia e desceu lentamente perto da fogueira, onde, sentados, recordávamos os acontecimentos do dia que passou.  De quando chegamos no lugar Goela da Serra, após passar pelo Ribeirão do Claro, e o Zagaia.  A garganta desce (sentido leste-oeste)  por uns cem metros, como um desses vãos por onde se vê um trenzinho, como se passasse entre duas montanhas, ou cortasse uma montanha fendida a dinamite. Muitos chamam a passagem por Chora Muié.  Por seus paredões de mais de cem metros de altura, só sobem andorinhas.   Nem porisso deixa de haver vida naquelas paredes, pois se sabe que a terra está completamente viva, coberta de papilas receptoras de sensações.
                        A não ser por um dos dois lados da trilha que ali entra e dali sai, vivo humano não tem esperança de escapar de lá.  Exemplo narrou o Berto Creca.  “Um homem deve primeiro ver, para depois poder falar”, disse ele, ao passarmos por ali, horas antes.  Certa vez vinham:  ele, Nastaço Godói, Orestão Sordado e o Tião Rebite, no rastro duma pintada que fizera estragos no curral das crias do Zéca O. Sinai. O Orestão, armado até de fuzil,  sempre debochando da existência de onça serrestre por nossas bandas.  Não existindo lá pra ele, bicho desse, miante, cá em nossas zonas serrís.  Ao qual foi dado então, por capricho duma destinosa peça, conhecer.  Comentando sobre a Goela, não entrou pela trilha, preferindo descer, desescalando, uma das paredes sem grande declive naquele lugar, na entrada quase da Garganta.
                        Mas não é que o Osdalvo Mata-Cavalos, que sofrera afronta da pintada no seu curral justo naquela manhã, vinha com a cachorrada, no encalço da bicha veloz serra-acima.
                        Enquanto o Orestão ia entrando na Goela, os sabujos redemoinhavam a pedraria, como um enxame descontrolado, no farejo da catinga onçal.  Aí foi! A gatarra, sem saída, porém com maior torque, flechou pela garganta adentro, só parando quando topou com as largas costas do Orestão, que já pensava em se virar para ver o que era o barulho dos latidos.  Meia tonta, rosnando, a bichana a custo se recuperou, enquanto o Orestão gelificado, encostara-se numa das paredes, quase petrificado, esquecido do fuzil pendurado ainda pela bandoleira, chutando focinhos dentes alvos do felino, polainamente recusando o rosnar da gata passante, que logo deitou os pêlos, sabujos se aproximando, virando um risco; e quando o acharam, derrubado que fora pelos cães endemoniados, (pois de fugir nem tempo deu, foi um lisco-trisco) ainda o soldado berrava, por todas as gargantas que tinha:  “Sai pra lá, demônio, sai pra lá, demônio!”  E escoiceava os que o socorriam,  “vocês me ajudam que ela me matou!”, gritando sem parar.  E aí desmaiou o valente caçoador.
                        Até hoje, por não ter se polido mais tocar no assunto, não se ficou sabendo quem teve mais medo nem quem levou maior susto: a pintada, que não chegou a existir direito, ou o soldado, que não acreditava nela.
                        Mas foi bem mais engraçado.  Do contar o Berto Creca tinha o dom do mote, do gracejo e da imitação, no que então, rimos tanto tanto.  Ao que soube, a pintada sumiu levando rastro pros lados da Gurita de Baixo.
                        Entre os muitos que tivessem acesso de riso com cãibras anexas, esteve o Pedro Só.  Um preto quase velho, peculiar, voz de paz, quase cego e coxo.  Coxo duma dentada de gata dessas.  Integrava a romaria como raizeiro, ele que fazia misérias com a Avenca.  (Essa plantinha raquítica encontrada nas paredes de poços e cisternas, nas rachas duras das rochas úmidas, amiga e companheira da samambaia desses habitates).  Usando-a, fresca, conseguia usufruir de suas propriedades curativas.  Mas na Sarnpraga não surtiu efeito, nova doença epidérmica...  Pedro também conseguia manipular os perigosos derivados do Arsênico, metal incompatível com ácidos, substâncias albuminosas e amiláceas.    De difícil manejo e irascível trato!  Tentou - no que teve relativo sucesso - o uso de cautérios arsenicais, como lavatório, nas feridas do João Beato.  Sucesso empalidecido pelo poder das rezas e mandingas do próprio doente.
                        O Só viera conosco em busca do Pó-de-Talbo, humildemente acólito. Trouxe consigo um ajudante meio zoró, um tipo desses que a gente chama de Zé Tóba, sem medo de ofender.  Às escondidas, este levou consigo sua varinha de aveleira.  Tinha, ainda por cima, mania de se proteger da estrela Annaverge (que só ele distinguia na abóbada) da constelação de Peixes.  Acreditava ser ela um gênio pendurado lá em cima, malvado, que aparece nos sábados, cabritalmente tornado, chifroso em ouro, montado num cavalo azul, soltando fogo pras ventas, assim algo bem agourento.  Fez diferença alguma estar ou não na expedição.
                        Já Selmo da Cota, também trazido por Pedro Só, encorpou a falange dos “corpos-fechados” que seguiam romeiramente.  Sua presença importou!
                        Rapaz ainda, Selmo, e já iniciado nos mistérios do Reino!  Deixou a enxada com dezoito anos.  Foi acólito de  Talbo, teve um casamento fracassado, por não aceitar as normas coivarenses relativas à matéria.  (“O Rey deve executar a dolorosa parte, nas núpcias, do desvirginamento da noiva”)  Dedicou-se, por isso, de totalmente, aos estudos esotéricos.  Como seu xará, Anselmo de Parma, (morto em 1440, por ser considerado um feiticeiro),  ele conhece uma série de palavras misteriosas que usa para curar chagas, bicheiras, jeitos, ventos-virados, quebrantes, cólicas e outros males.  Sempre conjuga os astros, a alquimia e a botânica oculta. Maneja uma cabala personalíssima.  Também nada conseguira contra a Sarnapraga Coivarensis.  Então resolveu ajudar na busca do Pó-Antídoto.  -“Porque antídoto?”  perguntou de maneira genérica, sem conseguir resposta.  Dele, ainda dizem que sabe se converter em lobo.  Para ilustrar, apontam o enorme cão que trouxe consigo.   Entre ambos parece existir como que um pacto primordial que certamente durará tanto quanto o homem sobre a Terra...
                        Após as risadas a granel, do causo do  Berto Creca, dormiu-se.  E durante toda a madrugada, ouviu-se sussurros e murmúrios vindos do profundo da noite.  É porque haviam se juntado as Sabedorias entre nós!  E a Natureza não descansa na presença dessas multidões que compartilham seus segredos.  Como é possível deixar tanta gente andando sobre os sonhos, quando vêem através deles?  Assim é que ninguém sonhou... 
                        E foi duro reconhecer que antes de vermos através dela, ela vê através de nós!  Descobrir-se que - infelizmente - existem leis que nos controlam num ponto onde não sabíamos ser vulneráveis...  Nosso pseudo-conhecimento, nos permite descobrir tão pouco!  Quão pouca coisa que os homens podem avaliar com a medida mesquinha de sua compreensão... 
                        Assim, quando piso, nesta manhã que se seguiu, nesta terra de beira-Pico, nada do que os geólogos dizem dela fica ligado a ela! É tão simples e profunda!  Sem cálculos, pesos, medidas!  Sinto que o saber deles, geólogos, interessa apenas à compreensão, no que constato seu vago e remoto desconhecimento cósmico...  Constato que Tudo é mera expressão de uma sabedoria infinita, estética e emocional!
                        Aí recomeçou a azáfama das curandeiras, dos benzedores, já de madrugadinha, antes do sol raiar, quando o dia acordava com a barra da aurora.  Nunca se colheu tanto.  Se dependese de erva e raiz jamais se curaria tanto e sempre como em Coivaras!
                        Previa o fim as asthmas, das perrenguices várias.  Ali sucumbiram plantas de flores lacimosas, pediceladas e triandras.  Sacas de calêndulas!
                        Folhas glaucas, concolores, pecioladas, drupas, monospermas, garrinhas e cordiformes!
                        Ramos carminativos, jalapa, quina-casca, lançavenha, ruibarbo, salepo, camomila, marcela, artemija, purga-de-pastor, escabiosa, e vários outros.
                        Até um cipreste solitário se derrubou!  Sua madeira, lavrada e serrada serviu à construção de uma estranha mesa triangular que usavam ocultamente.  As lascas, queimavam junto a outras outras drogas e ervas (e o odor impregnava todas as coisas) invocando certos elementais.
                        Usando um cinturão feito de ramas colhidas no noite de São João, contra todas as doenças internas, Dim Arroba, (procotópia fiel do pai,  Janote Tonelada, o homem mais gordo que pisou terras coivaranas!)  a custo se agachava na colheita dos miúdos arbustos.  Seguia junto a todos, panchalmente búdico.  Raizeiro, 168 quilos, num burrão imenso, mais duas mulas com tralhas, barraca e mantimentos.  No ele vim,  acoplado à expedição, entendeu-se: levaria os víveres de seu gasto e uso.  E não comeria do próprio de todos, trivial e frugalmente.  Exigia longo e penoso trato, aquele cabaz sem tampa que tinha no lugar do estômago!  Mas não era lerdo, nem chegava a ser lépido...  Sorvia longos tragos duma pinga lá dele, dita pura, de cana caiana, do covilhete próprio, daquela que faz trepar certas friagens até à raiz dos dentes!
                        Na picape amarela do mecânico oficial do Reino, seguiam, em canastras encouradas, púcaros, palanganas, travessas e outros objetos de mesa,  protegidos por envoltórios de algodão dos solavandos do trajeto.  Sempre se acampava na beira dum córgo, como o da Égua, da Cachoeira, do Picapau.  No veículo também iam trocas de roupas de cama, mesa, banho e de vestir, mais ferramentas, mantimentos, panelões, caldeirolas, munição, armas sobressalentes, combustível, pacobas em cachos, gaiolas com chamas de pintassilvos, curiós e bicudos.
                        A velha Sá-Inhana Tecedeira foi junto, num banco adaptado sobre a capota da cabine.  Alquebrada, inda conservava nos olhos aquele brilhozinho-fagulhas, próprio dos milagreiros.  Abastecia de peixes a caravana,  principalmente nas sexta-feiras, quando não se comia carne seca, nem de pássaro ou ave doméstica.  Só ela sabia fazer isso:  tecer enormes redes de pescaria, com peixões-de-qualidade já pegos, enormes, inda molhados!  Cada vez que uma rede feita se encostava no chão bento da encosta do Pico-do-Cão, os peixes lá desenhados se enchiam de vida e saúde!
                        Além disso,  Sá-Inhana era benzedeira de mancheia! Dizia-se maravilhas de sua poções.  Com o Artemijo, por exemplo, colhido na época própria  (Noite S.João), fabrica poderosos amuletos contra todas as espécies de sortilégios, usando suas folhas e suas três flores.  Porém, igualmente aos outros, com a Sarnapraga nada pôde.  Ajudava do jeito que podia.  Redepescando!
                        Quando o sol já ia alto, Talbo tornou a sair levoando.
                        Durante a noite tínhamos combinado estratégias novas.  Ele só voltaria ao entardecer.
                        Não precisamos levantar acampamento nesse dia.  O Pico-do-Cão estava ali, muito próximo de nós.
                        Foi um pequena festa quando chegou Zeca Menino, ali pela hora do almoço, com toda a fatiota de molecada, velhotas e anciãos sorridentes.  Zeca, ex-goleiro de peladas varzeanas, e de quem consta ter sido sugado,  em criança, pelo pássaro chevesque - um protótipo dos vampiros humanos -, diz saber o segredo pra se ganhar nas loterias da vida.  Apesas de tudo,  vive levando e trazendo coisas através das serras que coroam Coivaras.  Escreveu um caderno de anotações que pretende publicar um dia (já pediu que lhe datilografassem os originais)  com o nome originalíssimo de “Chave de Ouro”, onde, entre outras proezas, ensina estranhas combinações numéricas que, por determinadas razões de simpatia entre certas quantidades e suas séries, permitem achar os números premiados das loterias.  Mas nunca ganhou um réis sequer com o uso desse artifícios.  Vinha seguindo a comitiva a pé, conhecedor de atalhos, túneis, pinguelas naturais, ajudando mulheres e velhotes, meninos e aleijados romeiros.  E, por triste sina, trazendo ainda os livros e livros de seu João Beato, que teve outros dois “ataques” durante os dias que os separaram da gente.
                        Os preparativos para nossa Excursão ao Pó, foram muito simples.  Diretamente contatados, vários séquitos de superior qualidade engrossaram nossas fileiras.  Vinha gente dos cantos cinco do Reino.
                        Um mulatão, o Anésio Rangel, vinha com seus irmãos, que ele criou por morte do pai, nomeados: Anardo, Nacleto, Alonso, Berico, Ardofo, Larico, Genor e Dargiso.  Trouxe também uma cunhada, viúva do mano Amânsio.  Eram gente de ajudar qualquer mutirão.   Trouxeram trouxas, barris e barracas.  Animados:  trabalho e oração.
                        Vinha também a filharada do Jovino Siqueira, que viviam de rixa com os tropeiros por causa dum pasto que tinham perto dum pouso, que sempre estes ocupavam sem pagar aluguel.  Eram:  Vasco, Simeão, Fredo, Domingos.  Vinha a irmã, mulher-moça de validura dum rapaz-homem, Polialfa. 
                        Do clã do Quimcambrósio, vieram Agirdo,  (de beiços com Polialfa),  Artu,  Argeu, Lúcio, Arvo e Parício.
                        Nicasso Cunha, que havia quebrado as cadeiras numa caçada de onça (ocorrida depois daquela do Orestão Sordado)  acamado, não pode ir, mandando agregados:  Adriano Poá, Bernardo Barcelo, Barduíno Patrício, Lamberto Moisés e Astolfo André, que trouxe dona Anamélia sua patroa e a menina que eles criavam, Bermira da Cota, irmã do Selmo, o cachorreiro.
                        Dois meninos, filhos tortos do Adriano Poá com a viúva Cinelize Rangel vieram também, ora seguindo com a mãe e o tio Anésio, ora no colo da Bermira, perto do pai, com a turma do Nicasso Cunha, o que não veio.
                        Tubemba, um deles, tinha ainda no cangote os sinais duma estranha doença infantil que teve: a praga dos sete galos.  Conta hoje anos moços.  E foi o que voltou com a gente.
                        O outro, Minuete, na época 10 anos adoeceu no meio da Marcha Expiante.  Sarnal, coçantemente.  Contagial e febril.  Deu o que fazer a Pedro Só e a outros raizeiros, em vão.  Talbo não apareceu.  Trágico foi.
                        Dois tios levaram o corpo de volta, serra abaixo, servindo isso de despique ao pai-não-reconhecido Adriano Poá.
                        Totonho Macedo trazia sua tropa burra, coadjuvado por Sinval Salles, Apríjo Jordão e Berto Creca, piadista sempre.
                        Doroteu Conrado, dentista prático antigo, apesar dos protestos da mulher Bernice Cova Conrado, veio junto, na esperança de não se sabe servir pra quê.  (Um pamonha, técnico lá dos remedinhos cariais, rancações de dentes erradas, dentaduras que não param no lugar e outras coisas mal-feitas.) Ah! Da vida de cada um desses, fosse contar uma passagenzinha apenas,  aqui, ia ficar um tempão, enrolado a estória, como gostam de fazer os que não têm assunto.  Mas, passo por cima desses detalhes, pois a doença não espera nem perdoa!
                        Fosse eu contar do rolo havido na corneação do Adriano ao finado Amânsio!  Dos troca-tiros envolvendo tropeiros, na volta dessa viagem, com o Simeão, tudo por causa do danado aluguel de pasto!
                        E se entrasse em detalhes do romance de 15 dias que viveram Polialfa e Agildo, isso aqui ia virar uma novela!
                        Mas, rapidamente, o dia ia acabando.  A colheita rendeu.  Todos dormiram.  Manhã seguinte, Talbo tinha voltado.  Disse estar tudo certo.  Só. 
                        O sol chegou anunciando a todos que a vida é dia-a-dia, e a morte apenas um semblante que não se conhece.
                        Aí rabeamos por um chapadãozinho e começamos a achar os primeiros sinais do Pozinho-de-Talbo, inda molhados de sereno e perfumados do café que se coava de montão em toda barraca desperta.
                        Então chegou João Bucãina, trazendo notícias da vila de Coivaras, que dali de cima não víamos lá embaixo, por causa da distância e das árvores dos quintais.  Tomando fôlego amiúde, contou as novas, entre bocadas que dava na merenda, trazida da picape por Jumira Godói, afilhada dele.
                        Disse que tinha saído há cinco dias e meio, numa mula serrestre de primeira, que estropiou no 3º dia.  Noticiava mortes sessentas, entre elas de Zé Barreto, Mandino Godói (aí choveu lágrima no colo de Jumira!), Nicasso Cunha, Quincambrósio, Vardevino Boticário  (pânico geral!), Bernice Cova (desmaiou o Doroteu; de felicidade?), Dois Valverde, Nêta Bibiana e Bernardo Parente.
                        Laudélia ouvia atentamente.  Pediu notícias do povo dela, do Quié.
                        Tudo estava bem.  Rezavam dia e noite por toda a Caravana.
                        Que uma música, tal “Disparada” ganhara um festival de música popular e era, no fundo sertaneja! (Nessa hora houve alguns ponteios em várias violas penduradas pelas árvores...)
                        E mais!
                        Que os missionários redentoristas chegaram numa jardineira só deles, muitos, e estavam curando todo-mundo, da alma e do corpo.
                        Olhei depressa para Talbo, que me sorriu enigmaticamente...
                        A volta foi rápida.  Demos as costas pro restante da aventura, apesar de seus inúmeros apelos irresistíveis.
                        Voltamos imediatamente, após o céu se escurecer devido a umas nuvens de dúvida que se formaram no ambiente.
                        Era Semana-Santa, ainda.
                        Assistimos a algumas curas, inclusive de romeiros que tinham ido na Caravana.  Não perdi um sermão.  Penso ter decorado alguns.  Ganhei bênçãos especiais.
                        No sábado de aleluia, não houve bailes.  Nem Judas torrados.
                        Às onze e meia da noite, saí com Manchinha pra missa da Ressurreição.  Sentamo-nos na praça, toda cheia de novos bancos doados pelo pessoal comerciante e fazendeiro.
                        Às vinte e quatro horas mais um segundo, já era Domingo de Páscoa.
                        E todos assistimos, comovidos, à solene procissão dos mortos pela Sarna, que tinham ressuscitado à meia-noite e vieram das sepulturas diretamente à Igreja, dando louvores à Graça Divina, ladeados por belíssimos e verdadeiros anjos sorridentes.
                        Dos quarenta dias que vagamos na Quaresma, (em busca do lenitivo para os contaminados pelo pó-de-mico que Talbo, espalhara pelos salões carnavalescos), de todo o episódio, ficaram apenas essas lembranças que aqui registro, bem como minha conversão e um chamado irresistível do Pico-do-Cão, que em outra ocasião atendi...
                       
                        (E, no mais, os leitores hão de me perdoar ter forçado a situação, mas apenas para terminar coerentemente esta história eu não poderia sacrificar meu querido povo, quase todo castigado e morto por uma Sarna Inventada...)














o telefone



O que foi feito em Coivaras para se evitar as chamadas telefônicas interurbanas; enquanto isso a tarde morria e um circo anunciava o espetáculo da noite.



                        ... COIVARAS se situava na bacia do Grande Rio do Peixe, onde proliferavam barragens de usinas hidrelétricas, com suas plácidas águas de alagação...  A grande represa do Campo do Raio, que alimentava quinze insaciáveis turbinas, ficava a apenas dezoito léguas rio-acima daqui.  A primeira depois dela era a de Sete Voltas, que quando de seu término alagou nossas melhores terras, os ubérrimos varjões coivarenses.  Situava-se longes doze léguas rio-abaixo.
                        Até hoje se recorda que o ceticismo geral contribuiu sobremaneira para as grandes perdas financeiras que ocorreram naquela época.  Quase ninguém acreditou nos avisos distribuídos pela Companhia, onde pedia encarecidamente que não se plantasse lavoura ou roça, nem se preparasse terreno de planta abaixo dos limites definidos pelas estacas demarcatórias, pois em tal dia as águas - que começariam a subir no dia tal - chegariam até elas.
                        Só à última hora foram carregados, às pressas, os materiais de alvenaria aproveitados nas rápidas demolições, o madeiramento, os arames-de-ferpa, os utensílios, os víveres e os pequenos animais ilhados.  E não foram poucos os proprietários que interromperam de vez suas baldeações quando os carros-de-bois principiaram a boiar juntamente com os animais de tração.
                        Várias olarias de fama justa foram tomadas pelas águas e nelas, coitadas e inocentes águas, os oleiros descarregaram suas armas de fogo, numa insólita demonstração de sua fúria e seu desgosto indignado...
                        Foi, certamente que foi, como um dilúvio que se repetia, as águas agora vindo de baixo para cima, lentamente, inexoravelmente.
                        Quando tudo se consumou, daqui partiram com suas famílias os líderes antigos proprietários que viram o trabalho e as terras férteis de seus ancestrais engolidas pelas águas que subiram até às tais  estacas, no dia xis.
                        Ficou na memória de todos a Grande Despedida feita pelo Vate Narciso no dia que se completou a enchente “que nunca mais baixaria”.  Do alto de uma cátedra improvisada conclamou a todos.  Podia ser umas 7 da noite.  Em seguida proclamou, com voz embargada, essas inesquecíveis palavras, mergulhado em abundantes lágrimas:
                        “Ó, meu rio particular, meu rio escolhido! Por causa da mão do homem hoje vieste impregnado de ruínas.  Em tuas margens que tanto adorei, quantos escolhos de um sonho que não mais é.  Mesclada em teu murmúrio, distingui apenas uma voz pequenina de quem fugia sem querer fugir...  E te foste, ex-água-branca-minha, tornada calmaria nova...  Teu caminho procura rumos, esquecendo o leito milenar.  A vastidão de nosso tudo tornou-se a negação de nosso nada.  E lá vão tuas águas, tão sempre brotadas de fonte pura, se turvando no barro das eras mortas...  Em teus redemoinhos chegou a tormenta da inércia covarde.  És rio-fome-frio.  Boi-café-nós, morrendo...  Senti nunca tanta tristeza antes: peregrinos ovos de peixe, no alto das palmeiras, condenados.  Quantas covas submersas de finados antepassados!  Como localizar, no dia do Juízo Final, do pobre a velha ossada, para o ajeito corporal?  Meu rio preferido!  Como as almas acharão seus corpos em tuas águas de pouco barro, pouco sal, pouco nada!?  Ah!  Ontem crescestes, rio-amor.  Em tuas águas-lágrimas-anfíbias - em alagação geral - trinaram campanários submersos...  E já foi uma aurora, e já foi um poente, mas em ti para sempre meu limo permanecerá!  Vê:  esse arrebol de ciprestes molhados foi o último...  Possuída do caos nossa noite acabou!  Por isso, intangível, daqui de cima não me importo muito com o enterro de meus versos.  Pois eu tenho os pardais, as hárpias, as rôlas, os sabiás, as borboletas, os tizíus e todos são servos meus.  Entraremos em voação:  como essência, penetraremos fundo o seio da terra; como fogo, um dia retornaremos; como época, envelheceremos os milênios; e, como o nada, ficaremos pelo azul...”
                        Dito isto, se jogou -  braços abertos - lá de cima da torre da igreja matriz e consta que seu corpo nunca foi encontrado...
                        O povo costumava tratar o rio, depois de tudo, por “represa” e ao lago - oriundo das águas represadas-,  por “rio”.  E lago, represa, rio qualquer um deles servia para designar esse mundo dágua que cercava Coivaras...
                        Certa ocasião, Talbo resolveu criar e cultivar algas dágua doce, uma espécie estranha de corais de açúcar, juntamente com outros espécimes aquáticos que se ramificavam em elaboradas formações.
                        Com ele, eu costumava mergulhar, em vários pontos secretos da represa, nas noites de calma lua e vento manso.  Nesses locais, após nossos sentidos se acostumarem (força de expressão!)  no ambiente de sonho e silêncio, totalmente adaptados à nova técnica respirante, passeávamos por jardins deslumbrantes, por onde a lua era apenas pressentida, eis que o luar se esgueirava difícil por entre as ramagens dum subaquático bruno-brusco, um josé-típico-pau das profundezas...
                        Em tanques próprios, hermeticamente vedados à hidroinvasão, cujo oxigênio conseguia com bombeamento de ar da superfície, Talbo acumulava e manipulava uma mistura de várias matérias orgânicas e inorgânicas encontradas nos detritos reinóis, de grande valor para a exploração a que ele se dedicava no fundo pobre e lamacento da represa.
                        Perguntado, uma vez me retorquiu que não poderia fazer aquilo em água corrente, desses rios encachoeirados que descem do Pico-do-Cão, por escassez de Húmus Viviletal, perdido nas corredeiras, no bater cascalhal.  Já na represa, as partículas em suspensão na calmaria, era tudo propício à execução dos planos.  Assim, usando um processo secreto, Talbo conseguia fixar, na lama podre do leito do imenso lago, sais minerais necessários aos importantes compostos nitratos que se desenvolviam.  E, ali fixado, o composto miraculoso restaurava a vida microbiana e o húmus, além de uma grande quantidade de elementos de importância vital para o crescimento e o desenvolvimento sadio das “plantas”.  (Por que esse plantas entre aspas? Talvez se perguntem os leitores...  É que Talbo, apesar de saber, há milênios, que os corais não são plantas, assim os chama!)  As condições físicas do solo subaquático e sua capacidade de retenção do oxigênio e outros elementos foram melhoradas.  A temperatura em que era mantido o lixo nos tanque e a ação antibiótica das bactérias saprófitas asseguravam a destruição de todas as bactérias patogênicas, de parasitas animais com seus ovos e das ervas daninhas aquáticas, tornando o composto pasteurizado.  Sei que a mistura tinha ainda aspecto e cheiro semelhantes ao da terra vegetal mesclada com pó-de-xaxim e não atraía quaisquer insetos nocivos.  E de tudo o mais acho desnecessário ficar aqui falando...  (Por que?  estão dizendo os curiosos...)
                        Porque quero dizer um pouco também da maravilha de uma metamorfose!  Sim, nesses passeios noturnos em que acompanhava com confiança meu profeta-e-inventor, vínhamos praticando a antifibiogênese, sistema de mutação instantânea da espécie, de há muito praticado por Talbo e por ele descrita em seus grimórios antiquíssimos...  Uma experiência coletiva com êxito total por ele mencionada, me convenceu a praticar os exercícios com ele:  o controvertido caso da Atlântida!  Assim, descíamos ao fundo sem máscaras de mergulho, sem tubos de oxigênio e...  Aí nossas faces se alongando, sumidos cabelos, o olvido necessário de todo som.  (Numa mistura do lendaísmo com ioga sertaneja, o tempo nada significava)  Para os novos ouvidos, a reação sonoro-sonar, golfiniana.  Um leve toque de escamas.  No olhar, somente a visão do essencial,  extintas pálpebras.  Do nariz (cá fora tanto odor o feria...)  ficava ainda um trejeito, inda que estreito, mais filtrante, mal saliente, subcutâneo:  enfim estético!  Na boca a gente sentia um novo som para uma nova pressão:  o silêncio.  Elas voltadas apenasmente para a função inicial: nutrição.  Em vez das cabanadas orelhas, novas serventias, guelras.  E as mãos, já barbatanas.  E o tronco e as pernas, já corpo luzidio, caudas impulsantes...  E as almas? Talvez permanecessem as mesmas pois, no retorno, inda éramos nós!  Voltados lentamente da anfibiogênese, entorpecidos pelas variações gigantescas sofridas, como que formolizados, parecíamos os atlantes que talvez tivéssemos sido um dia...  E era assim que percorríamos os Jardins da Transformação, e assistíamos, clareados pela violência dos holofotes, os corais manifestando sua verdadeira natureza!  Milhares de corpúsculos e flores assemelhados, se agitando na superfície do coral...  Milhões de mínimas pétalas explorando ao redor, distendendo-se plantalmente.  Súbito, a carnificina!  Os zooplânctons (esses orgnismos aquáticos que flutuam livremente sem domínio de seus movimentos - uns errantes)  que estavam - aos bilhões - se esbarrando uns nos outros, tipo assim fomigueiro raivoso, quando tocavam nessas “pétalas”  eram agarrados e iam sendo arrastados inexoravelmente para dentro das “flores” debatendo-se num estrupício maluco!  É que as flores eram pólipos (celenterados cnidários que vivem em colônias) e, suas pétalas, seus tentáculos...
                        Ao perguntar um dia qual a finalidade daquela plantação adaptada à água doce, Talbo me disse coisas como “gerar mais matéria orgânica do que qualquer vegetal; formar reservas de proteínas de alta qualidade; mina de organismos potencialmente úteis como medicamentos; instrumento de pesquisa farmacológica; além de constituírem seus recifes verdadeiras barreiras protecionistas contra a erosão das margens; formação de atóis coralinos (esporões de pontas afiadas como os dentes de uma armadilha)  dispersantes das ondas que neles se amortecem, na suavização dos efeitos da rebentação provocada pela lua; a presença dos corais propiciaria um hábitat especial aos peixes -nossos irmãos- e aos invertebrados que vivem melhormente em um ambiente assim preparado; etc e etc.”
                        Mas, o que restaria de tanto esforço e dedicação se um dia a barragem da represa ruísse?  Era nisso que eu sempre pensava durante os passeios enluarados e Talbo telepaticamente captava.  Se bem que não pensasse - respondendo, percebia lágrimas escarlates - duas ou três - se escorrerem daqueles olhos infinitamente tristes e fixos...  E nossas explorações no leito lodoso do lago deixavam pensar...
                        Devido à erosão maciça dos solos vizinhos a Coivaras, em razão do desmatamento acelerado em toda a região, numa destruição indiscriminada do ecossistema local, o leito da represa estava subindo lentamente, pois um hectare de terra, por ano, chegava a perder quinze toneladas de solo, que as águas das chuvas carregavam para o lago em impetuosos enxurros, criando uma instabilidade fatal no leito do mesmo.  As enxurradas não mais se escoavam gradualmente, tal quando o solo pela vegetação inda era protegido...
                        E tão patente foi ficando a inutilidade de seus esforços, que Talbo começou a desanimar de suas colônias de coral da água doce...  Elas não suportariam, em seu morno ambiente, o soterramento contínuo das terras erodidas.  E um dia abandonou seu projeto com grande pesar, vendendo a preço de banana o motor Decavê de dois tempos com que bombeava o ar para os tanques.  O resto, deixou naufragado, sucatamente...  E, devido ao acúmulo de lamas impregnadas de detritos nocivos carregados pelas águas de chuva - também fortemente contaminadas de bactérias estranhas em suspensão trazidas da atmosfera - no fundo do leito do grande pictórico lago que circunda Coivaras, já então sem a defesa indispensável dos Corais de Talbo, proliferaram colônias de micro partículas de stress-corrosion. Um dia, elas começariam a degenerar a mistura de argila, areia, cascalho, silte e rocha da Barragem do Campo do Raio. Esta, se arrebentada, devastaria, com seu gigante e brutal paredão de massa líquida, tudo que estivesse no raio de seu alcance rio-abaixo, desde Coivaras até longes argentinas e paraguais, levando, de gorgeta, os destroços de todas as outras usinas e barregens construídas no curso do caudaloso Grande Rio do Peixe...
                        Estabelecidos os antecedentes, posto o cenário, vamos aos fatos.
                        Bem, a véspera daquele dia funesto foi uma sexta-feira, na folhinha publicitária do escritório da Companhia em Coivaras.  O gerente, acometido (pragas rogadas?) de toda espécie de doenças possíveis e imagináveis, entre elas: erisipela, prisão de ventre, escrofulose, gota, tumores, cardialgia, cálculos biliares, calos, colerina, cólicas de ventosidade acumulada, incontinência da urina, inflamação intestinal, papo-bócio,  obesidade, resfriado crônico, vômitos de sangue temporões, insônia, lombrigas, diarréias, falta de memória, apendicite intermitente, rouquidão, tosses noturnas e diurnas, nervosismo, neurose de choque, verrugas, etc,  havia encomendado, a preço de ouro, uma cura milagrosa completa, a todos os raizeiros, erveiros e curandeiros do lugar.   Estes, reunidos comunitariamente na empreita, apesar das divergências nos métodos usados, dividiram-se em escalões e  saíram à procura de mudas e sementes para o preparo da Poção-Milagrosa-do-Gerente-Seu-Tióflo, sem saber que estivessem talvez preservando para o futuro as raças duma flora em extinção. Buscavam arrecadar estes certos raminhos mínimos, tão aptos às simpatias e benzeções...       E, por onde iam, eram seguidos por esses sagrados Pardais Brejeiros, tão decantados em chorinhos bichistas, que ajudavam na cata das sementes semi-enterradas. 
                        Foi assim que Dim Arroba, com um séquito de discípulos, incumbiu-se de tratar das camomilas, barro pra cataplasmas, alfazemas, milenramas, taraxacos, valerianas, duraznilos, acoros, heras, hipericão-de-sete-flores, verbenas, polígalas e consoldas.  De outra sorte, seu concorrente-de-esquerda, Bem Quitério, com dois mulataços de metro-e-noventa, seguia atarefadíssimo, buscando funchos, cuminhos, hortelãs, erva-cidreira, ameixas, pimpinelas, lírios, samambaias, cipó-de-carijó,  cipó-mil-homens, uvas, romãs, nabos e alho-porró.  Negrão - um deles - sucumbiu na faina, em meio ao remexido terreno alheio e avencoso do Pedro Só, ofendido de cascavel.  Era guardiã.  E tanto confiava na Avenca seu Pedro, que deixou de procurar sua parcela, que eram:  ervilhas, tílias, anagal, cocleárias, absinto, espinafres, retanhias e mangarrosas. 
                        Berto Creca, milagreiro dos senhores-de-engenho, replantador de pêlos-cabelos em carecos crânios, armazenava sua quota religiosa de amoras, morango, sabinas, urtigas, bardanas, ulmárias, ruibarbo, midigrilo, becabunga, abedul, mastruço, santonina, limão mexerica, noz-vômica (estricnina em potencial),  cenoura-braba, pepinos, arnica, aniz, pão-seringa, endro, alecrim e zimbro.  Isso assim, em forma de  mudinhas e sementinhas, florinhas e frutinhas.                 
                        O que ia ser de Coivaras? Era nisso que não pensava Vó  Cândia, finiquinhas canelas lambidas pelos latidos do cachurrim Xau-Bréu.  As singularidades florzinhas, essas apenas eram interesse seu e de Folozina-Quié, a que mais adiante ia deixar viúvo o velho Vidunhão-Quié, e órfão o ainda mais adiante suicidado Vidunha da Joana Mouro, mãe da Laudélia e de um menino temporão que escapou da Pragassarna por um milagre que não aconteceu de verdade, sendo coisa que careceu de ser contada direito quando era ocasião para isso.  Pois era e foi essa Vó-Cândia, mais Flosina-Quié,  mais Marieta Tió, e ainda Sá-Carubina, as velhinhas beatas, que juntaram as moedinhas e pratas e níqueis e mirréis comuns e pagaram meninos para rancarem e colherem mudinhas-sementes, que recolhiam numa cestinha de vime antigosa, enquanto, mutuamente amparadas, lascavam cascas de azinheiro, de quina, de murta-mansa, de cássia:  essas santas árvores que se costuma ter nos quintais medicinais.  E iam dizendo oraçõezinhas simples, dessas que curam pelo fervor, tudo em intenção do saramento do gerente flagelado...  Elas iam pedindo, tinham as maniazinhas benzedeiras dessas santidades singulares, mistas de plantinhas inocentes, oração expontânea, simpatias carismáticas e gestos rituais delicadíssimos.  No fim das contas, gastariam os niquinhos apurando balanço de salvas, tomilhos, roseira-brava, sabugueiro, cachaporra, jenipapo, frutilas, jabuticabas, goiabas, tanaceto, figos, cauda-de-cavalo, salsaparrilha, primaveras, canonigos, belovitas, lúpulo, erva-de-passarinho, arnica, jalapas, tudo em mudas, flores, frutos, folhas, sementes e raízes.  Arsenal invejável à função caritativa...
                        Cido Jó, sarando ainda duma mordidinha do belisquete Xau-Bréu, levada a efeito numa apartação de briga entre este e sua Minagróia gatangorá, com a canela enrolada - trapos bêbados de arnica -, ia catando, com facilidade inexplicável, as angélicas, violetas, pensamentos silvestres, grama boiadeira, helenias, lânios, uvas, mostarda, abetes, beldroegas, azedeiras, regão, arruda, eufrásias, nogueiras-folhas e eucalipto-citriodora.
                        Selmo da Cota, anexamente ao brutacão pastor ariano do qual não catava pulgas, catava marcelas, salepos, artemijos, escabiosas, muerdago, macieira, hissopo, cebola, chicórias e purgas diversas, aptas a seu ofício curativo. 
                        (Enquanto isso, Sá-Inhana tecia longa rede com arabescos indecifráveis, egípicios na concepção e rupestres no significado, lépida demais para os estudiosos, ao mesmo tempo que recolhia mel no oco das árvres e ovos frescos pedidos de casa-em-casa...) 
                        Já Rinério Dunha, parente dum Brinhola e sobrinho dum Teteu que o acompanharam na cata-ranca dos cipós-de-chumbo, cipó-de-cobra, cipó-de-cruz, cipó-de-guira, cipó-jarrinha, cipó-caruru, cipó-summa e cipó-timbó (este co’as anexas baginhas recheadas com bagos-tentos bicolores, rubro-negros, usáveis - na falta dos olhos-de-cabra e bicos-de-pato, nos jogos de truco), com uma binga “que não faiava uma negada nem negava uma faiada”,  mais tempo perdia em acender, de minuto em minuto, o pito de fumo fedido do que na messe sagrada dos ajudantes familiares.
                        E como muito catassem todos, juntando estavam.
                        Era de tarde já naquela sexta-feira vesperosa, e o gerente tinha acabado de sair.  No escritório vazio de gente o telefone começou a tocar...  E tocou muito tempo, até cansar de ficar tocando.  Era um chamado interurbano urgente, que não achou destinatário. E como eram poucos os aparelhos ainda, (e manuais) na vila, e só muito dificilmente um chamado desse tipo conseguia se manter na linha cheia de defeitos, perdida ficou a notícia que viria do posto de segurança anexo à administração da grande barragem da Usina do Campo do Raio.
                        E nunca é demais lembrar que o rio, lá, foi barrado numa goela entre montanhas e após ela atingir o nível funcional, ele continuou fluindo através do mesmo leito antigo, na mesma vazão anterior, passando forçosamente pelas turbinas geradoras de energia.  Acaso uma infiltração imperceptível estaria realmente solapando uma passagem mínima (como previra Talbo)  entre as rochas da montanha à direita e o amálgama com que se edificou a represa de 800 metros de comprimento, 50 de altura, por 130 de largura?
                        Pois nessa tarde-véspera, algumas pessoas que iam fazer visita de oração à casa do gerente Tióflo, quando chegavam, toparam - e retorceram os semblantes - com alguns curandeiros que de lá saíam com cara de desânimo.  Na mesma hora também chegávamos, pela rua de baixo, para outros fins.  Antes um pouco, Manchinha havia passado comigo perto da farmácia local.  O velho boticário de grandes bastos bigodes brancos (donde despencam esses albinos ratinhos-cobaias quando ele espirra atichins) terminava de atender um com dor de dente, receitando piulinhas homeopáticas! Era a caduquice... 
                        Nisso, a iluminação estava para ser ligada, eis que já se fora o lusco-fusco com o farol-baixo da tarde e pelos arredores começava a chover adjacências de noite.  Nos arvoredos ébrios de  ocaso, folhas abanadas em farfalho suave, recolhiam-se miúdos passarinhos.  De todo lado vinham ruídos pios, grunhos, prucuprús, grôos, cliríses e ururos.  Do urutau o berro medo de gente sendo judiada.  Dos grandes sapos as supremas queixas; lá longe, exúberes, inconsoláveis, uns roucos bezerros.   O ajeito dos pipilos, a ocupação dos ninhos, o encontro do certo poleiro, ressonos, sonos, sonhinhos levemente...
                        Os galos, descansando papos, preparando as músicas relógicas, preguiça nas asas.  Rãs-pimenta, temperais, e seu pulo: brejos.  E a incrível toada, o motocar dos sapinhos aprendizes imitando motocicletas.  Muito ronco, a noite povoada de silvos agonizantes.  Tudo velejando na tecedura de clarins antigos; o vento musical catando lembranças das folhas que se perderam...  Há também uma saudade dalguma coisa que não se foi...  O rumorejo de ondas beijando barrancos.  No tema das águas verdes, arvrinhas de beira córgo, piando mutuns, como sabendo ser solitários nos esconderijos da noite...  Longe lobo urra uivo, tatu fuçando, curiango ventilando guinchos, os radares-mamíferos distribuindo suas evoluções sonares à luz das lacraias.  Por baixo de sua renda de vaticínios, aquele entardecer trazia ainda grandes baques de porteiras se fechando, e esses corujões-de-orelha com seus mágicos gestos de insônia.  Dos cumes abaixo do Pico-do-Cão, nesta hora, às vezes,  desciam e descem mugidos estranhos, de antílopes raros, que muito dificilmente sobem além do sopé das montanhas: saem dos chapadões,  essas longas planícies de vegetação rasteira, tão assim só eles no mundo com o privilégio de trocarem os chifres uma vez por ano.  Mugem triste: e é época da muda!
                        Ouvindo um mugido desses, saímos  -após as despedidas - da casa visitada.  E no trajeto até o circo sentíamos que os caminhos da noite ainda procuravam rumos, qual minitrevas brincando de onipresenças.  Ainda havia veludosas fronteiras nos descuidos do espaço, enquanto pelos vãos das serras iam se espraiando anjos de pedra entoando canções de brisa em meio às sutilezas imóveis. Eu sabia: nalgum lugar deitavam âncoras os bois:  ruminariam certas sonoridades perdidas, em verde-musgo.  Alguma flor deitasse pólem na relva dum abismo e os marimbondos recolhidos, bisbismente, aguardavam um novo dia...  Ratos silvestres estariam estrebuchando em garras corujais.  Certos zuszus, asas roçando a tona dágua.  Sauvamente, as árvores de folhas decepadas, acolhessem sibilos silvos, cobras e pássaros hipnotizados.  Lá longe era uma certeza:  em meio à corredeira dos corguinhos frouxamente iluminados, na profusão dos claros seixos e escuros cascalhos, bagres, lambe-pedras, cascudos e outros de couro, limpando tudo, gambevas de ferrão...  Por cima, serenamente, orvalhados capins. E o sapo-cachorro latindo fundo nos latifúndios, cintilando resfolegos vacilantes.  No tudo, a imensidão dos vagalumes tecendo rendas, risquinhos eletrônicos, luz cibernética no manto estrelado...
                        Com a noite completa, chegávamos à entrada do Gran Circo Três Américas!  Estava programada a enésima apresentação.  Não perdêramos nenhuma!  Pois havia sensacionais desafios de pagodes entre duplas de genial calibre!  Ficou na história a briga musical entre os desafiantes Papavento & Pára-raio e os desafetos Chuvisqueiro & Guarda-Chuva!  Ali Manchinha gargalhava deliciosamente quando eram anunciados, e entravam aos trambolhões, os sensacionais cômicos Trupicão e Ranca-Unha...  Ao nível popular, propunham trocadilhos entre sí, glosas, laçadas, pegas e dobralínguas que marcaram época.  Tanto que certos dizeres deles perduram desde então.
                        Nesse tal cirquinho a gente ia sempre que não caíssem uns mínimos pingos garoais, pois se assim fosse, nem adiantava ir.  Ninguém indo não havia sessão!  A lona, nele, era simbólica, de cinco anos atrás, quando haviam chegado.  Tanto quanto  velha era tal lona, novos eram os buracos nela!  Então apurava-se:  não cantasse o três-potes, sinal de chuva.  Nem os cupins existissem, trilhando dancinhas, miúdas estradinhas.  Vigiava-se:  “espia o tempo!” Se vaca subisse de turma pra cabeceira dos morros, inadiantava teimar:  a chuva invinha!  Burro zurrasse ou desse-de-bunda peidando atoamente nos mil piquetes esparramados pela cidade (em cada quintal um pasto) não precisavam teimar convite no serviço de alto-falante: ninguém ia.  Gente das bandas do Santantônio por lá mesmo ficava quieta, se três dias antes tivesse urrado a Cachoeira: a chuva viria de pancadão!
                        Carecia adiar, então, os espetáculos... 
                        Nesse tal cirquinho, que me lembre, atuaram, valentemente, entre outras, sem constrangimentos, duplas caipiras amadoras e profissionais, cada qual se orgulhando do próprio xou, sendo que na primeira noite, Moto-Serra & Tamboril; na segunda, Grão-de-Bico & Miosótis; na terceira, Gaivota & Gavião; na quarta, Pelicano & Cardozinho; na quinta, Juca Brejo & Doroteu; na sexta, Zé Pancada & Doriana; na sétima, Profundeza & Superfície; na oitava, Telescórpe & Zé-da-Lua; na nona, Oroscófe & Belopouso; na décima, Chafariz & Berro D’Água; na décima-primeira, Carvoeiro & Carvãozinho; na décima-segunda, os Prês Torquinhos - trio infantil; na décima-terceira, Temporal & Ventania; na décima-quarta, Sepultura & Pá-de-Cal; na décima-quinta, Higinote  &  Quebradura; na décima-sexta, Galileu & Teorema, e assim por diante, conforme ficou gravado na idéia, muitos outros, que totalizaram 1.435 apresentações. Nesse quase milhar e meio de espetáculos, aconteceram memoráveis noitadas com grandes sucessos da música sertaneja da época. Ali se apresentaram, entre outras duplas, Cascatinha & Inhana, Vieira & Vieirinha, Zico & Zeca, Pedro Bento & Zé da Estrada, Cacique & Pajé, Liu & Léu, Sulino & Marroeiro, e até Tonico & Tinoco, os Reis do Rádio...  Já no dia em que ia trabalhar a 1.436ª dupla, os afamados Tião-Torneira & Tromba D’Água, aconteceu...
                        Engraçado era esse pessoal dono do circo ter uma vaquinha leiteira, de chifrim truquês, malhada de amarelo e branco.  Sempre com bezerrim macho novinho, que punham ela pra boi enxertar logo que paria.  Mas era sempre, na lembrança, um bichinho peludo, dias poucos, umbigo secando.  E eles traziam, os cirqueiros, uma idéias já dos modernos silos atracada ao ônibus-camarim-da-equibrista-mulher-do-trapezista.
                        Era feno, capim seco diferente, ou qualoquê, que a holandesa comia com a parcimônia dum frade em penitência.  Regravam a ração ao máximo, para que ela produzisse, além do sustento filial, apenas uns oito litros de leite diariamente - em duas ordenhas - pro consumo dos comedores de fogo e outros artistas sujeitos a úlceras profissionais.  Os meninos ficavam horas e horas contemplando aquela raça de gado tão diferente dos mestiços-bovinos coivarenses.  Ela ali, quieta de dormir em pé, bezerrim enrodilhado, caracol-de-pêlo, nas pintas pampinhas, esperando o leite descer, preguiçoso, olhando, com uma vista só, as galinhas catadeiras de carrapatos.  Depois vinha a ordenha, inacreditável, dos tais oito litros do curativo antiácido.  O palhaço, à paisana, sentava-se num banquinho dum pé só, fazendo das próprias pernas os outros dois pontos de apoio.  Tirada dura, de dez minutos?  Nada disso!  Maciinha, em dois tempos!  Que logo o balde, espumando, entornava a láctea morneza branca.  O bezerro apojava depois num peito deixado de reserva e logo logo saía, vesgo de empanturrado...
                        É bom dizer:  esse cirquinho ficou marcado.  Mas não foi o primeiro nem o último que por aqui armaram...  Houve aquele - não sei se antes ou depois dele - onde ocorreu a “carnificina dos bichos doidos”, em que perdeu a vida, deglutido nas vistas da assistência, John Tio Sam.  E desses movidos a bicho, apenas mais uma companhia aqui ousou trabalhar com animais domados.  Suas feras, entre elas uma aliá enorme, foram aos poucos sucumbindo de anemia, na época do desvario vampiresco que atacou Coivaras e seus habitantes, sem piedade.   Quando  o enorme paquiderme africano morreu - todos lembram - velhissimo já por sinal, desceram a lona.  Sumiram dum dia pro outro, sem ao menos pagar as contas nas vendas, açougues e farmácias.  Deixaram bilhete pro prefeito enterrar a elefanta...
                        Como dizia, foi numa noite como essa da véspera, num circo quase igual a esse, porém chamado Caribe, que a gente começou esses namoricos de cidade, de levar ao circo pagando entrada só pra um, nas sessões-das-moças.  Houve sim, muito antes, nós dois ainda sem pêlos pubianos, os primeiros contatos no velho paiol de milho de seu Dileto, na fazenda vizinha de minha infância... 
                        Sim...  Foi numa noite quase igual a essa, cheia de luz (contei quinze lâmpadas) debaixo de uma lona formada com  retalhos de panos piores...  Era um circote movido também a malbaristas, dramas e musicais, um daqueles onde a gente não consegue ficar sério quando anunciam com toda a pompa de praxe, - “A primeeeeira drupa da noite:  Holofote e Flor-do-Campo!”... 
                        Rosalda  havia vindo há pouco passar dias com tia Tília.
                        Bem, continuando a noite-véspera, devo dizer que saímos do circo já sonolentos.  E lembro-me como se fosse hoje:  quando chegamos em casa, Manchinha logo se deitou, clamando corpo-ruim, começo de gripe.  Logo, também, adormeceu.   Eu, sem nada pra fazer, comecei, insone, a relembrar... 
                        Antes de enrabichar por Rosalda, tive a provação de ter, me querendo pra noivo, uma tal Zilá, dos Neves.  Nem barba me havia na cara...  Essa uma era muito bedejim de graça, visando laçada fatal...  Facilidades concedidas, longas prestações, sem entrada, era purgante só.  Explorei sim, intimidades dedos.   E fazia desfeita depois, pra desaparte ou desarranjo daquele namoro besta.  Em vão!  Quanto mais desprezo, mais acendia ilusão dela.  Assim como próprio dum roçar de pasto fora de época, quando a praga torna a voltar junto com o bom capim, com tanta força que larga o coitado sufocado pra trás.  Ela retornava teimosia pura, ânsia de afagos, talequal essas formigas lavapés, coisinhas de borracha látex que a gente aperta e esmigalha depois da picada:  é só largar, fazem fusquinha, remelexem, saem cambaletontas, porém vivinhas e mordentes,  buscando novo pé pra brincar de pinicar.  E parecia ainda, tal Zilá, também fato do aspejo dum cutucão em braba rês no apartador, que manda troco em coice, mas não desaparta...  E foi assim, chateação pura, até ela sumir de Coivaras, mudança em caminhão-a-óleo-cru, o meu viver, olhado com vistas dessa cuja Zilá Neves.
                        Mas depois entrou nessa minha vidinha que não troco por nenhuma, Rosalda Gentil, minha Manchinha pros de casa.  Eu então já exibindo muitos fios bigodes...   Ela, que sempre gostou de montar em pêlo, comigo na garupa, nesse burrinho pedrês que um dia houve na vida da gente, de puro trote, aqueles sacolejos, ela aconchegada, gostando das bacadinhas...  Manchinha,  ah!  ela sempre existe de repente, como essas longínquas conversas de crianças que habitam a casa em que nascemos.   Como os murmúrios das paredes, sufocados por inúmeras demãos de cal.  Enquanto havia ela, inexistiam os leiloeiros sem alma que dispersam aos quatro cantos do mundo o mobiliário de ternura que povoou nossa infância.  Ela, mesmo algures, porém existindo, um Reino permanece...
                        E naquela noite de Véspera, continuava eu lembrando, (como agora, uma e quinze da madrugada lembro)  que eu sempre  -e como! - lhe curava aquelas certas coceiras-brabas, pegadas em beira-mato, em multicoitos, fruto de formiga-correição.  No muito ardume, paninho bêbado de arcanforado nos dedos, eu ali passando mão assim, muito devagaziquinho, que era pra não ofender o empolado, arremedo de carícia, despertar de malícia...
                        Sim:  depois que chegamos do circo, domindo a casa, madrugão, eu ali, relembrando as capacidades todas de Manchinha.  (E vou relatar nessa oportunidade, para dar o toque exato da vastidão daquela noite de véspera e vigília...)  Que sabia ser próprio dela, entre o mais, aliciar, cortejar, tecer, tratar, supreender, segredar, rufiar, rebolar, recostar, fazer pamonhas, tirar leite, festejar São Pedro, assar quitanda, virar rainha...  E fui imaginando, ali, deitadão no à-vontade, dum fôlego só, a infinidade das manchínicas ações: ela lumeia, letreia, cerca, vai, empina, chuleia, cozinha, coa, conforta, corrompe-e-coordena, leciona, transforma, cura, ervece, enraiza, benze, vampirece, lobisomiza, ferra, falha, conduz, habita, letaliza, trama, enreda, urde, pranteia, vaqueja, acusa, adverte, dedica, desavem, limpa, expande, infama, impaga, censura, rejeita, cintila, dardeja, recusa, corteja, avilta, arruina, abate, humilha, derroca, arrasa, derriba, aniquila, inexiste, se auto-cria, se manda, funda, inibe, tremoça, tijola, sepulta, carcome, repasta, some, ouve, cheira, vê, sente, vive e morre...
                        E quando eu acabava de pensar nisso, (e isso vejo como se numa fita) brasa do milésimo cigarro quase me queimando o beiço, ouço, materna e nítida, uma tosse antiquíssima, e aí cai uma chuva dentro e fora de mim porque sinto que dorme, ali também ao meu lado, num recanto fictício do quarto-e-copa de minha infância, o menino que eu fui, na casa em que nasci...  E sei que depois dormi...
                        Antes do novo dia raiar, Roque Jegue descia por uma trilha que vinha se equilibrando entre os abismos que cercam o Pico-do-Cão e notou.  Parou a mula.  Ressabiado, picou fuminho, ajeitou a palha, lambeu, enrolou um pito. - “Num gostei nem um pouquinho das cor do céu, pros lados do Campo do Raio, léguas longe” disse depois.  Acendeu, acolitado pelo paravento chapeloso, que ali venta demais.  Puxou uma tragada profundíssima, ardida.  Arfou as ventas, sacudiu a cabeça.  Os olhos se avermelharam.  Tonteou.  O fumo exalou por aquele par de furnas, já descolorido e sem o sarro, que ficou repartido entre o pulmão direito, a traquéia, e por detrás da dentadura de cima, onde existia uma incrustração de ouro num canino gasto.  Levantou a aba do chapéu-de-feltro domingueiro da frente das pestanas emaranhadas, procurando o sol.  Não encontrou.  Saíra de casa inda escuro, e pouco clareou desde então.  Havia sim, um bloco esquisito de nuvens pairando no nascente.  Roque ficou muito tempo procurando palavras para descrever seu estranho achado.  E as dúvidas pareciam jorradas de chafarizes nos meandros de seu entendimento.  Podia ser, podia não ser.  Bem Baldina lhe pediu não fosse à cidade...
                        Os clarões da barra-do-dia inda indecisos, madrugadinha insinuante, apagadas as luzes, assim iria começar a labuta de Ponce Porfírio.  E começou.  Ele morava ao lado do escritório da Companhia e trabalhava para ela.  E, como todos os antigos moradores, todo dia, ao se levantar, rogava uma praga especial para o pefeito entreguista. 
                        (Este foi, segundo se ouve dizer, o que acabou com o futuro e as perspectivas de progresso de Coivaras, isso na época que as águas subiram.  A Companhia, que tinha a obrigação de construir uma ponte ligando Coivaras ao resto do Mundo, encontrando nele um caráter venal, propôs uma sem-vergonhice sem precedentes.  Em troca da ponte, daria à Prefeitura, na época, um amontoado de ferro velho, traduzido em tratores usadíssimos, patrola de terraplanagem, caminhão basculante e velharias sucatais.  Ah!  também faria algumas pontes de madeira sobre certos corguinhos menores.  E  - isso é que ninguém perdoa! -  daria, por fora, uma gaita comichante como agradecimento e selagem do acordo covarde com o prefeito.  Dizem as más línguas que aceitou, com o assentimento, diga-se de passagem, de uns vereadores trouxas.  Dentro de pouco tempo, findo seu mandato, se mandou de Coivaras para a capital do Estado... A mãe dele é lembrada de maneira não airosa quando a balsa velha, que também doaram, deixa de funcionar na travessia da represa para o outro lado de Coivaras:  o Mundo.)                        Apesar do ódio, Ponce Porfírio trabalhava para a esperta Companhia no seu respeitado cargo de Coadoreiro-Chefe,  Assim amanhecia o dia, saía conferindo os coadores.  Até hoje se mantém na função, assiduamente...  Estranhos cilindros que só ele sabe abrir, estão distribuídos rigorosamente por toda a cidade, em postes estratégicos, sorteados entre tantos da pública rede elétrica.  São postos de verificação, segundo ele.  Os assim oito postes-com-cilindros devendo ser examinados, em tempo de seca, a cada quinze dias, um por um.  Ou mais amiudamente em improviso chuvoso.  Nas águas, diariamente.  Ponce recolhendo duma sacola plástica pendurada a tiracolo um algo como parecido sabendo a  pó-de-café-já-passado.  Tirando, às colheradas, de dentro dos cilindros, quilovates sujos que ali ainda hoje se acumulam, apesar do progresso da eletrônica.  O coador deve sempre funcionar, retendo aqueles quilovates com mais impurezas agarradas, que não logram vazar purificados.  De vez em sempre limpa-se tudo, tirando o excesso de quilovates poluídos, para que não se interrompa nunca o fluxo da energia pelos cabos elétricos...
                        Pois Ponce Porfírio, nessa manhãzinha estava trepado lá num perto do escritório quando ouviu um telefone tocando mui insistentemente.  Calculando que fosse na Companhia, preocupou-se.  Sabia que o doente Tióflo ia chegar só mais tarde.  E pressentiu que aquele chamado era uma continuação do outro que também ouvira na tarde anterior quando pitava depois da janta, sentado na soleira da porta-da-frente.  Sabia que o da véspera tinha ficado sem recepção.  Que tocara até cansar, tilintando agudamente, com insistência de cri-cri de grilo.
                        Quando Ponce chegou correndo na casa de seu Tióflo, o Mal havia escolhido sua vítima.  O velho tinha inchado tanto que não podia sair pela porta nem pela janela do quarto.  Não exergava, não ouvia, não entendia.  
                        Ofegante, disposto a arrombar a porta do escritório para atender o chamado que sabia urgentíssimo, por indução, lá vem de volta o Porfírio.  No caminho, nos encontramos, numa topada de quina de esquina.  Não conseguiu se fazer entender.  Gesticulou, perdia fôlego.  Acompanhei sua pressa, a tempo de ouvir, quando chegamos, o tilinto estralando. Mas ao abrir-se a porta, ele tornou a emudecer. 
                        Saí preocupado, após as explicações do Coadoreiro.  Imediatamente convoquei o Reino, Talbo anexo, e ouvi, pasmado, suas profecias. Que a notícia, se ouvida, seria curta.  Era o engenheiro-chefe da Usina do Campo do Raio tentando comunicar que havia perigo de ruptura da barragem a qualquer momento, pois fora constatado um vazamento  ameaçadoramente progressivo na estrutura, fruto ou resultado de corrosão inexplicável no material usado na construção da obra. 
                        Com o prenúncio meteorológico também ameaçador de uma tempestade ou Tromba d’Água iminente naquela região, estava se formando um quadro mui ameaçador, hecatômbico e dramático.  Era necessário comunicar urgentemente à população um sinal de alarme geral, para imediata evacuação de todo o vale-planície aluvial por onde serpeava o azul das águas represadas.  Uma equipe de técnicos estava trabalhando incansavelmente tentando contornar o perigo, pedindo ajuda a cientistas e químicos, na esperança de evitar a catástrofe que  parecia inevitável.
                        E a profecia, inclusive, veio mostrando um audio-visual sobre o evento, passando cena por cena, coloridamente, sobre a cabeça de Talbo, no balãozinho cinematográfico.  É longo demais recordar tudo...
                        Mas viam-se os helicópteros do governo e de particulares, sobrevoando toda a região, avisando à população ribeirinha, através de poderosos alto-falantes, sugerindo a fuga imediata para lugares elevados.
                        (Nisso, Talbo deixou o cineminha funcionando sozinho e se retirou dali por um longo tempo.  Enquanto esteve ausente...)
                        Mais que muito isso sabendo fiquei:  tanto que fossem necessários mil-anos pra relatar as tragédias mentais eclodidas nos miolos coivarenses, fruto da notícia, se espalhada fosse!
                        Talbo sabia, de antemão, pelos estudos do fundo da represa. Antecipara o futuro desastre.  Aliás, em qualquer  baralho ele é carta marcada!
                        E viu-se a confusão danada lá no Campo do Raio tão contaminado de más notícias: havia desespero e pânico. Gestos de desalento apareciam em câmara lenta.  Continuando a assistir, vi quando Talbo lá chegou, demorou muito, pois não havia hora assim de relógio não! O tempo ficou trancado e não havia contagem.  Teria mesmo existido um cara que vi, Malango, que veio depressa, nunca se achando idéia frouxa, própria de parafusos faltos?  E terá contado notícias e hecatombes de âmbito familiar, sobrinhos próximos, mãe girada, coisas estranhas?  E evaporou-se mesmo a seguir, como se fio incandescente de lâmpada de 40 velas, 120 voltes, ligada em corrente 220?  Mesmo existido?  E as várias mães caminhando na direção do caos, oito filhos rodeando?  E as meninas que buscavam leite, mais uma vez debandando à proximidade do cachorro doido?  Crianças regavam mesmo jardins, em São João Evangelista?  Os caminhões-truques levavam gado ou gente?  Vacada subindo pro Chapadão, altas nuvens, Cascadanta, paraíso dos antílopes da cornatroca anual, isso tudo era verdade, ao vivo?  Por que Talbo demorava tanto?
                        As casas sendo varridas, onde vestígios?  A torrente carregando famílias sacrificiais, gente apavorada se agarrando em podres galhos?  A água se espalhando nos mínimos cantos, enchente-vazante:  Veículos submersos, altas árvores, poleiros nágua?  O rolo compressor líquido, uma faixa dágua mista a um paredão de lama de 10 metros de altura, vinha feito besta arebentando tudo, misturando-se nela os objetos e plantas depredados sem piedade?  Ou era exagero de Talbo?  E os borrifos, os esguichos, os guinchos, os estrondos que salpicavam a “telinha”  de água, sangue e clorofila? Cresse naquilo? Era demais! As águas, em Coivaras, subindo depressa demais.  Logo se foram os barrancos.  Megafones do poder público berrando instruções, tentando calma.  Os caminhões puxando gente sem parar, largando em lugar seguro e voltando pra buscar mais?  Gado tangido com loucura.  Misturando-se nos corredores boiadeiros, reses de mil donos.  O segredo era as fraldas serranas;  capim pouco, mas de magreza gado custa a morrer...  E a histeria das mães cujos filhos estavam ilhados nas escolas?  Oh! filme desgraçado, apocalípico e desumano!  A muralha, no começo do estouro,  vinha precedida dum urro esquisito, estralos barulhosos, tudo estrondo!  A montanha dágua veio desabando e diminuindo, estragando, estrangulando, derrubando, demolindo, abatendo, aniquilando, tragando bicho, gente e gado.  Era de crer?
                        No campo do Raio, surgido no foco de repente, a labuta era imensa, e nem sinal de Talbo!  Tratores gigantes despejando pedra (notei que o tempo havia regredido no filme  e  tudo ainda não tinha começado, então... ). Senti que nalguma parte, algumas mudinhas haviam sido plantadas, a tempo.
                        Talbo enfim retornou para junto de mim, missão cumprida.  Então chuviscou momentaneamente na telinha sobre ele, e um sol lindo dourava a paisagem calma e tranqüila da Coivaras que eu sempre tinha conhecido...
                        Estava tudo nos lugares, como se nada houvesse acontecido.  Fora sonho? Talbo então explicou:  -“A represa só não rebentou porque, por duas vezes, não tinham a quem avisar do perigo, aqui em Coivaras.  E como toda tragédia tem sua hora marcada, a hora da represa estourar havia passado e, com ela, o perigo.  Como o povo não pôde ser avisado, o desastre foi transferido sine-die.
                        A grande represa do Campo do Raio, que alimenta quinze insaciáveis turbinas, fica a apenas dezoito léguas rio-acima daqui.  A primeira depois dela é a de Sete-Voltas, que quando de seu término alagou nossas melhores terras, os ubérrimos varjões coivarenses.  Situa-se doze longes léguas rio-abaixo...
                        Se hoje Coivaras ainda está no mesmo lugar - e isso pode ser dito inclusive no presente do indicativo - devemos ao finado seu Tióflo, que garantiu, imolando sua vida, a sobrevivência desse meu chão...  Nunca mais atendeu um interurbano.  Quando Talbo começou a tratar dele, pessoalmente, apresentou, no início, ligeiras melhoras, para logo depois ser fulminado por um enfarte do miocárdio.  Com ele se foi a galáxia de urucubacas que flutuava sobre sua calva moleira...  Tiraram o telefone defeituoso do Escritório e nunca mais instalarão outro.
                        ... Coivaras se situa na bacia do Grande Rio do Peixe, onde proliferam barragens de usinas hidrelétricas, com suas plácidas águas de alagação...








            o começo
Um relato que poderia se encaixar no início destas aventuras galantes.

                        FINDO o perímetro urbano, corrigiram a trajetória... Ela, proprietária da miséria, fugindo da Demência Encarnada.  Ele, um homem qualquer, tal Lamão Garção, novo Bonequeiro do Arraial.  Dia?  Tanto tempo faz...
                        Na vida de espinhos que ela escolheu, não iniciaria doações carnais até ser dele, pediu pra tia. Ela concordou, sob condição. - “Mas não aqui nessa casa, mode capiná raiz de malvados costumes.  Vai pro mato!” - foi a avúncula ordem
                        Ele recebeu recados, onde, buscando-o, ela lhe oferecia gozo e moedas, viesse gigolonicamente.  Após prévios acertos, se encontraram.  Sim, relembraram o juvenil conhecimento lascivo dos dias despreocupados da adolescência.  Que se puberizaram simultaneamente vizinhos na velha fazenda Gentil...  Que trocaram abraços depois, nos depois das sessões do buraquento circo Caribe...  Mas o tempo correra léguas desde então...
                        (Olhaste para além dos eucaliptos.)
                        Passaram os olhos adiante.  Mais um pouco.  (O lugar inda lá está!)  Viram o brejo murmurando castelos iluminados da cidade longe.  O campo das gabirobas ultrapassado, acolheu-os um apropriado perfume de dama-da-noite.  No tapete de folhas do local escolhido, acoplaram-se.  (Sim, sim, como nos devaneios dela, tão ânsias vidatoda...)
                        Talvez não seja pelo prazer de instante - ela pensou - ou pelo claro-escuro de minhas carnes, ou pelo hálito ainda doméstico-selvagem de meus lábios...  Talvez ele goste e haja mais que esta vez.  Oh! Meu Benzinho! Na gruta que vou te mostrar nos amaremos fora do mundo! - isto pensou...
                        Era cedo e lua ausente.  Nada mais foi dito ou ao menos perguntado.  Apenas conversaram carinhos nas pontas dos dedos perscrutadores, alisantes.  Apalpantes interrogações, sufocantes interjeições: seios  e glande...
                        Onomatopéias delirantes na mútua libertinagem: libidinantemente... Arfado de prazer nas pinceladas do incolor verniz, perfumosa resina, reentrâncias afora, reentrâncias adentro: lubrificamentos...
                        Ao longe, - um futuro neón? -, mar de pirilampos iluminando tenuemente a grama úmida...  Verificação línguo-dental, alta-tensão: contagem regressiva...  Ao redor, o vento manso soprando segredos em sua primavera interior.  Despiram-se do orgulho.  Em alta-fidelidade, um coro de grilos sinfonizava o ambiente gramíneo e do solo, do mais profundo daquele chão, transpirou um nítido suspiro, como se de um escafandrista molhado de húmus...
                        Não notaram - pois ainda não existiam- faróis policiais rondando a noite à cata de amantes.  Nada maculou o momento morno e manso, úmido e fundo em que, vestidos de orvalho, pensaram rítmos acelerados, ejaculando saliva em mel...
                        Estava começando um romance que duraria para além de qualquer morte!
                        (Assim como o licranço não sabe se é lagarto ou cobra, ela um dia não soube mais se era gente ou bicho...)
                        (“Pra cadeia de teus amores nunca vou querer abrascórpio”- ela te dizia entre chanhas e dengos...  Quantos séculos depois?)
                        Naquele instante não houve sorrildos risos nem bobestrelas ou frases ocas: apenas o incômodo desenho, na palha machucada, de suas fúteis sombras na cópia do coito...  Era a lua surgindo, varando arbustos vizinhos.  Ar, bustos, tudo refletindo sexo, no suor do amor, nas manchas, no visgo da vida.
                        Foi a primeira vez, como um algo-sonho assim no se concretizar: maravilha!
                        (Ela sempre esperara- ânsia interiormente segredal!- que fosse contigo. Entreacordos, ela entregou-te a virgindade.)
                        Sim, no mato, qual a dúvida?  No serralho, danada zona, não houve jeito: sabendo antigas vontades, madama Tília não queria pra sobrinha, logo de início, amigo gigolô, um tão somente reles bonequeiro recentemente empossado, entre dúvidas populares...
                        (Foi uma vez e um intervalo: agora ela segurando no colo tuas mãos de sangue e calos.  A cálida mão, pálida, agarrada de levemente ao guerreiro em repouso, frexa ardente de seu desmoçamento...)
                        Balouçando o cansado, reação: entumescimento, voragem.  Dessa vez, um luar cúmplice, com seu reflexo raul sobre os corpos suados, participou do infinito que se deram, enquanto a noite se esgueirava pelas moitas como certo leite por quatro coxas...
                        A aurora, insinuando-se, trouxe ligeira a hora do retorno... 
                        (À  despecida ela fez como faria nas poucas próximas manhãs do futuro: colocou em tuas mãos uma primeira moeda: altos mirréis: “Pralguma despesinha, Benzinho!” E tu aceitaste, enquanto ela fez como faria pro resto da vida: colocou nos seios um novo pudor: posse de homem!)
                        “Talvez não seja pelo prazer de instante - tu pensaste, ou pelo claro escuro de suas carnes, ou pelo hálito ainda doméstico-selvagem de seus lábios...  Talvez a gente acabe se gostando e haja repetência, ror de vezes...”
                        (Enquanto o pensado martelava a idéia, vocês saíam, fincando espinhos, maliciazinhas, nas solas dos pés...         Será que esquecido o contorno aquecido ela olvidara, depois de teu último beijo, de tua última carícia, aquele momento em ti tornado eterno? E vocês, notaram ao menos que deflagraram um impulso que jamais suportaria ausências?)
                        O Certo e o Errado: que dualidade a gente mesmo se impõe...  Mas este foi o primeiro instante e de parceiros logo eles se tornaram amantes.
                        Engraçado: hoje ela jaz, entumbada, em coito com os vermes, no michê predatório dos tatus-pebas.  Mais interessante ainda: lá, onde está o lugar onde tudo começou, a relva cálida parece ainda suplicar aquele seu aconchego...
                        (Isso mesmo: a neve dos anos choveu-te no manto da memória, presenteando-te essa cabeleira branca de cal & tumbas.  Pensas remorsos, pressentes as chuvas, interpretas as nuvens, fazes penitências, praticas o jejum e lês o baralho: são meros anúncios - nunca positivos - da hora de tua morte!
                        Ah!  De Rosalda cultuaste a primeira gonorréia, como uma religião!)














o favor

O absurdo retrato duma candeia apagada, em cujo azeite escuro boiam cem moscas em conserva, emoldurado por uma estória sabendo a ato de misericórdia.

I
                        A ESCOLHA das lajes, lá na Serra, precedia qualquer atividade.
                        A seguir, a lavra e o transporte -interminável- nos carros-de-boi.  Viagens, acidentes, cantilena e ferrões...
                        O começo era o amontoar nivelmente, a junção das pedras na feitura do alicerce.  As muralhas, de metro de largura, na parte alta do lugar escolhido eram baixas: cresciam em altura à medida que o terreno declinava.
                        A repartição dos cômodos surgia no próprio desenho das fundações.  Sobre elas eram colocados, então, os descomunais quadretes lavrados a machado: tudo madeira de boa -puro cerne!-, medindo -igualmente- nas faces quadrilaterais, um metro; o comprimento variava: quinze, oito, doze, dez, conforme as juntas, quinas e arremates constantes da planta.
                        Dali nascia o esqueleto da moradia, com todas as peças-chaves esquadrejadas de meio metro nas quatro faces laterais.
                        As verticais -vinte palmos de altura-, à quisa de pilastras, eram alojadas em saliências previamente cavadas nos pontos exatos do rijo madeirame-base.  As peças horizontais -metragem variada na extensão- iam colocadas no alto, içadas à força de muito escuro braço e andaimes, encaixando os seus entalhes nas pontas preparadas das estacas em pé: faziam a amarração, para receber a estrutura do telhado colonial: espigão, caibros, pontaletes, tesouras e ripamento.
                        Isso feito, eregiam-se paredes de pau-a-pique, respeitados os entrevãos das portas e janelas, interna e exteriormente.
                        Todos aposentos, aporonados.
                        Mesmo a cozinha, em sendo, como a despensa, de piso terroso, possuía seu porão: ali os toretes recebiam especial entalhação, onde os pranchões do ante-piso se apoiavam, pelas extremidades. A terra socada sobre esse fundo devia ser liguenta: o chão, batido, assim permaneceria.
                        No resto da obra, assoalhamento de pranchetas desempenadas...
                        Detalhes observados na época da construção: quartos para o nascente, como a porta da sala principal; copa e salão, no nordeste; no miolo, os corredores, vestíbulo e oratório; cozinha dando para noroeste, tomando, com a despensa e outros sítios, o sol-das-três-em-diante.
                        As janelas exageradas deveriam situar-se a metro e meio dos rodapés.  A porta da cozinha -devido ao declive-, a três e meio do solo.
                        Uma escada levasse ao quintal, à casinha de despejo.
                        Em volta de tudo, o calçamento: de pedra-são-tomé.
                        Ah!  O respiradouro naquela parede do porão...

II

                        Rosendo não conheceu avó.
                        Ouvira os causos ainda menino, pouco depois de morto o avô.
                        Seu pai, Dileto Gentil, ficara morando na Fazenda, tomando conta das coisas, enquanto corria o inventário.  E mandara lacrar um alçapão existente no antigo dormitório das “meninas”.
                        Após a partilha, cinco de seus tios -dois homens e três mulheres-, solteiros, fixaram-se no arraial de Coivaras, perto duas léguas.  Venderam suas glebas a estranhos e raramente apareciam.  Uma delas, Hortília, que diziam ativada por maus-olhados-, após negociar o que possuía, gastou tudo em farras, doações e doenças: virou mundana...
                        Os nove casados, após terem alienado seus haveres por tutaméia, mudaram-se para a Capital e jamais voltaram.
                        O que o pai herdou totalizava quarenta alqueires, a Sede com as construções adjacentes, onze animais de custeio e oitenta reses.

III

                        As histórias povoaram a infância primogênita de Rosendo e atravessaram -latentes-, sua adolescência masturbante.
                        Sua irmã caçula, Rosalda, com cinco ou seis anos, passara por grave incidente ofídico e esteve se tratando, junto aos parentes distantes, por longo tempo, antes de retornar à roça.  Os outros começaram a tratá-la por “Manchinha”, apelido do qual nunca se desvencilhou...
                        Rosendo, homem feito, não tivera atração por leitura e escrita: as impressões digitais superavam certas deficiências;...
                        Seus irmãos, -um a um-, com exceção da mais nova-já-mocinha, partiram para a cidade grande.  Recebidos pelos tios, foram em busca de estudo, formatura e diploma: visão de pai ativo...
                        Eles não assistiram à inundação.
                        Os engenheiros do governo ergueram barragem no rio, a quilômetros dali, para conseguir uma “tal força elétrica”: com isso, o quinhão do pai foi parcialmente alagado.
                        Uma indenização irrisória só veio anos adiante, por força de demanda...
                        Restaram, remanescentes, trinta alqueires.  Mas as culturas de primeira, os varjões beira-rio, sumiram.
                        O monjolo ficou submerso. Também o paiol, o mangueiro e o pomar frondoso,  em cujas sombras brincaram os quinze -sinhôs e sinhazinhas- nos tempos de-mil-novecentos-e-antigamente...
                        As águas represadas - ousadia! - chegaram a pouca distancia do forninho de barro...  O forninho das quitandas de fubá e polvilho e, mais em antes, de leitoama, galinhaço abundante...
                        Ficaram: o cerrado de pastaria fraca, as terras arenosas -de segunda-, certas febres e um desânimo.
                        Este, de fatal conseqüências: definhado em desgosto, faleceu  Dileto Gentil.
                        Os filhos-homens vieram.  Uma semana de pranto conjunto.  Logo retornaram, desincumbidos.
                        Assim a mãe perdeu o marido, Rosendo passou a ajudá-la, saindo do estranho torpor  “- Leva pra benzê, cumadre, senão fica bobo!”- em que vivera.
                        Manchinha, o consolo único da viúva...
                        O irmão zelava do gado pouco e dos parcos porcos do chiqueirinho.  Venderam muito, que o pai fizera dívidas e o juro maiava toda hora...
                        Os bois, sob seu comando, lavraram muita vez os míseros dois alqueires do chão-melhor, onde plantavam o arroz, o milho e o feijão do gasto.
                        No terreiro, carpido amiúde, o algodoal e as mandiocas viçavam.
                        Batata, cará, inhame, abobrinha, chuchu: tudo estercado.
                        A horta-de-couve, sob os cuidados da moça, supria as refeições de legumes e verduras frescas.  As galinhas forneciam os ovos e os frangos.
                        As bananeiras cacheavam o ano todo: amadurecidas na defumação, -onde adquiriam sabor inimitável-, as frutas alimentavam-nos com sobra.
                        O pouco algodão, fiado pela anciã no tear de pedal, virava tecido rústico das toscas roupas unicolores.
                        O resto da fazenda era pasto limpo, roçado em tempo certo: cercas bem cuidadas, no aceiro anual...
                        Alguma vaca e sua cria, vez ou outra, embernavam.  Presto, o remédio vinha: caseiro, eficaz!
                        Os manos -alguns- nas férias visitavam a mãe.  Era a festa!
                        A vida quase chegou a ser boa de novo...
                        Quando adoeceu a materna figura, Rosendo quedou, transtornado, numa apatia interminável. 
                        Derradeira vinda dos irmãos: órfãos, na morte daquela que os concebera...
                        Os calos estouraram, sangrentos: Manchinha, no princípio, deu conta de tudo.  Rosendo abandonara toda tarefa que lhe competia: manicou...
                        Rosélia formou-se em advocacia.  Rosa ingressou num convento e tomou o hábito das freiras e rezava pela salvação da Humanidade.  Rosária, Rosilda e Rosana dedicaram-se ao magistério.  Rosírio e Rosépio se tornaram médicos.  Rosório, dentista.
                        Da nova partilha, a Rosendo tocaram três alqueires, incluindo o conjunto de benfeitorias.  Ficou morando.
                        Rosalda alugou, por dez anos, sua gleba.
                        Dos oito irmãos da Capital, sete combinaram e venderam, juntos, seus vinte e hum alqueires para uma companhia.
                        A carmelita doou sua parte para a Congregação - em vista do perpétuo voto de pobreza... Consta que morreu santa...

IV

                        Os relatos cativantes, tantas vezes ouvidos da boca paterna, no rabo do fogão, nas noites de frio, diziam de jagunçada, de perseguidos políticos e de escravos fugitivos, a quem o Coronel abrigava...
                        O alçapão era a única entrada para o escuro e mal-ventilado alojamento.  O esconderijo resistiu a inúmeras revistas dos fardados, segredo do esperto latifundiário, apenasmente.
                        O dinheiro dos protegidos pagava o serviço dos jagunços...  O patrão cultivava certas antipatias...  Mas, abolicionista, aos negros a ajuda não onerava.
                        As garotas viam somente as sombras vendadas, silentes, passarem, enquanto o pai, sibilando ordens, arredava a cama de Hortília de sobre a abertura camuflada.  Todas ficavam caladas...
                        (Muito frêmito percorreu o corpo de “Tília”: mãos pegajosas roçavam suas coxas, deixadas -propositadamente- à mostra, pendendo, salientes, no meio do caminho de breu.  Segredinhos da puberdade...)
                        Então, certos odores - inesquecíveis - feriam o recato do ambiente sempre rescendendo a alfazema: bafo de pinga, suor de cavalgadas, enxofre de arma alugada -quente de tocaia!-, cecê de preto e, às vezes, o cheiro morno-doce de sangue gotejado...
                        O ar, impregnado dessa mistura, espalhava-se -nauseabundo, pesado de silêncios ofegantes- por toda a habitação.
                        Dileto e os irmãos, do outro lado da parede, também ouviam o leve ruído de passos descendo degraus.
                        Fechado o compartimento secreto, ninguém mais dormia.
                        Anteviam a faina camufleira: antes de sair sol, o lavar esfregante, na eliminação das manchas enigmáticas; o esparramar da água-de-cheiro...
                        Tropão, tinha o fazendeiro...  Na criação de mulas e burros, perdida nas invernadas, infiltravam-se as alimárias recém-chegadas na madrugada.  E, na casa-dos-arreios repleta, mesclava-se, -suarenta-, a arreata dos refugiados.
                        Não restavam pistas...
                        Nenhuma pergunta dos filhos!  O calar-se era acordo natural...
                        As armas ficavam prontas, carregadas de sobreavisos: alguma novidade, um pequeno desacato, um cuscuio maior... e o tiroteio cerrado!
                        Na guarida insondável, proibido pitar.
                        Conversar coisa-que-presta podia: baixo baixinho.
                        Nenhum susto tolerado!
                        O solo subterrâneo do local, comparava-se a um bolo de fatias superpostas: as camadas de terra recheadas de carcaças humanas...
                        Se o ferido começasse a gemer...
                        Pras outras necessidades, uma fossa num canto: o bosteiro.
                        A alimentação frugal, enquanto persistia a busca, melhorava depois: arrefecida a perseguição, ninguém da família  dentro de casa, o patrão mandava sair  -”Todos catando coquinhos!” . Então, abria -por fora- o tampão do recanto inexpugnável.  A comida vária e farturenta desaparecia repentinamente da beira do fogão, depois que a fila de gente faminta passava.  O bule do café, fervendo que só, se esvaziava como por encanto.  Eis, então, evolando pelas frestas, o fumo goiano dos cigarrões de palha.
                        Daí uns dias, noite alta, a partida.  Preparada ao escurecer.
                        A cama de Hortília deslizando para um lado.  Um ranger  “- Puta falta de unto!”...  O frêmito renovado...
                        Os vultos, precedidos do protetor, emergindo do abrigo, flutuavam, ziguezagueantes, entre as camas: olhos vendados -(um tropeço em certa coxa...), mais fedorentos que na chegada; murmurantes, agradecentes, homossexuais, rejubilantes...
                        O tilintar das moedas...  Uma lágrima boba...  Um abraço de companheiro!
                        Breve, o galope coletivo ia sumindo pros lados do capão de mato, onde o sol, agônico, costumava deitar e rolar -brincando com a brisa- antes de cair atrás da Serra longínqua...
                        Essa rotina paternalista se reprisara perdidas vezes.
                        Pior pra quem desse com a língua...  Branco, pobre, preto, rico, patrão, companheiro, camarada, cristão ou sem batismo, buscavam-no onde estivesse.  E vinha!
                        O chefe do clã sempre soube fazer as coisas com jeito...
                        Quase ao pé da escadaria dos fundos, corria um rego dágua que acionava, mais embaixo, o monjolo das Mil-Serventias.  Guilhotina, uma delas...
                        Ao lado, o paiol, sempre repleto de milho e algodão.  Comportava, vazio, um carro atrelado a sete juntas de bois - de chifres afiados com capricho-, em manobra massacrante para aquele que estivesse amarrado ao seu esteio central...
                        Dalí até ao barranco das “deportações verticais”, à beira do rio que passava nos fundos do quintal, estendia-se o mangueirão. Nele, engordavam anualmente duzentos capados piaus (famintos, -quando precisasse-), de presas sanguinárias, com tendências ao vandalismo dos humanos...
                        O gado azebuado - orelhas de alpercatas - sempre aumentando (“Muito presente de companheiro!”)-  enchia os grandes currais de peroba e aroeira, a alguns passos da entrada principal da Fazenda.
                        A grande senzala vazia, ao longe, se tornara obsoleta após a conversão anti-escravagista do Coronel.
                        A casa-dos-arreios (pelego pra todos!), o barracão das crias, tudo ali: muito amplo, de merecer prezo!

V

                        Contudo, Rosendo, do que o pai, seu Dileto, contava, conhecera apenas o decrépito velhinho cego e as edificações decadentes, quase todas submersas mais tarde...
                        Depois que sua velha morreu, e após vender suas duas vacas, seu cavalo castanho (orelha murcha de carrapatos), um capado e comer as cinco galinhas piolhentas, Rosendo criou coragem para mais que contemplar, de longe, o respiradouro.  Não obstante a presença da irmã, esquisita.
                        Aproximou-se dele!
                        O bolor, acumulado pelos invernos sem conta, repugnava-lhe o olfato.  Inda assim, tentou olhar dentro: inútil.  As vistas não divisavam além da pequena brecha.
                        Enfiou bambu com tocha na ponta: em vão.  Insólita ventania, no interior, longo apagava o fogo.
                        Resolveu executar o ponto xis de seu elaborado plano.
                        Identificado o lacre, custou a arrancar as tábuas, devido à ferrugem dos pregos.
                        (Rosalda, no oratório, citava ladainhas exorcistas...)
                        As dobradiças cediam rangendo, enquanto -penosamente- ele abria o alçapão.
                        Um enxame de escorpiões, borbulhante, galgou as bordas do refúgio, fazendo-o afastar-se.
                        Apenas introduziu a lamparina no fosso, -impacto!- um ruflo estonteante de milhares de morcegos assustados jogou-o de costas.
                        Sufocando, tornou a descer a sólida portinhola.
                        Esse, o limite de sua coragem!
                        Deixou tudo como antes, nauseado pela catinga rabugenta.
                        Entendeu que precisava de iniciação, que não estava preparado...
                        Daí em diante, inabordável, repudiava assunto com a irmã.
                        No aguardo, acumulando conhecimentos e maior bravura, ficou irascível.  À simples menção de algum pedido para a mantença de ambos, a moça era selvagemente espancada.
                        Como ele ficou intoleravelmente bruto e girado, e ela não mais suportasse seus maltratos doentios, Rosalda partiu. Faminta, ela veio para o arraial, onde se prostituiu, apesar das pernas defeituosas e das manchas - algo repugnantes - dispostas por todo o seu corpo.  Foi iniciada por Hortília, nessa época, já “madame”.
                        Rosendo foi ao povoado, vendeu seus três alqueires -reservando a Sede- e não tornou a pôr os pés em Coivaras.   Sozinho, dedicou-se a um metódico meditar. Sem ter conhecido mulher, masturbava-se ininterruptamente, só parando ao desmaiar, exangue. Solitário, divagava semanas inteiras.  Pegou terçã.  Delirando, conversava baboseiras com o débil luzir de uma candeia de suporte pesado, abastecida de azeite de mamona, num canto do salão...
                        Melhorou. Abstraiu-se ao ponto de permanecer, em devaneio, quarenta dias e noites, sem se alimentar. Ao despertar do transe faquírico, Rosendo fogueava no estômago: conseguira uma fome que jamais seria saciada.
                        O velho e rachado fogão aposentara-se: nas cinzas mortas, tições apagados.  Acima dele, no tabuleiro enfumaçado, não mais amadureceriam as bananas “divez”.  No pé da chaminé, sobre o latão controlador das chamas um pacote de fósforos intactos, coberto de fuligem.
                        Começou matando, a pauladas - e devorava crús - os camundongos.
                        Na faina que seguiu, quebrou todos os móveis, louças, potes, afrescos e ferramentas da propriedade.
                        Evoluiu para as ratazanas.  Logo, dois magérrimos gatos sucumbiram.
                        Fingia dormir (o que, depois do pseudo-sono não mais fez) e as baratas rodeavam-no, inerte.  Antes que voassem, esmagava-se com os punhos, aos montes.  Em seguida, comia uma por uma.
                        Também consumia mandruvás, mariposas, vagalumes e tanajuras.
                        Armou gaiolas e arapucas rudimentares, paciência infinita...
                        Nas armadilhas, capturava preás, sapos, pererecas e rãs idiotas.
                        Aranhas, minhocas, bichos-de-pau-podre e cobras, não escaparam à sanha alimentícia.
                        Nos recantos mais sombrios do mausoléu da solidão, de dia, os ratos voadores -com radar e tudo-, eram-lhe presa fácil.  Inexorável, com um bambu, ceifava as colônias penduradas.  Até que lhe descessem pela goela, semi-mastigados, os morcegos guinchavam sem cessar.  (Impedido por súbida compaixão, poupou um conjunto de enormes, catorze.)
                        Dos ninhos das árvores adjacentes, os filhotes implumes caíam-lhe diretamente à boca: aprendera com uma serpente poupada, a arte de hipnotizar os pássaros.
                        As cigarras itinerantes e os gambás apetitavam-lhe sobremaneira...
                        Para variar, comia das próprias fezes e gargalhava cínico.
                        Tentou apanhar, a laço, um canguru que surgiu pelos arredores, desnorteado.  Mas o saltitante marsupial, lépido, escapou e desapareceu, seguindo viagem...

VI

                        O mato rodeara a casa.  Os olhos encovaram.  A pele se lhe ia grudando aos ossos.
                        Cadavérico, gorgulhava palidamente ao beber na represa.
                        Antes que lhe faltassem as forças em definitivo, achou-se pronto.  Arriscou nova ida ao sítio de sua afeição neurótica.
                        Na última tentativa, ele ergueu o tampo com vagar e nada aconteceu.
                        Pela escada, mergulhou na escuridão.
                        Pés no chão, divisou um retângulo tremeluzente à sua esquerda.
                        Um raio de sol feria as trevas, penetrando pelo orifício do alicerce.  A tenuidade dessa luz reconfortou-o.  Era como assim uma carícia, essa tal claridade lambendo, fraterna, aquele local imundo.
                        Foi aí que ouviu: “Rosendo, te esperávamos...”
                        Não se aparovou.  Olhava em redor, enxergando nada.
                        -Quem são vocês? - arriscou num desengasgue da voz.
                        “Acenda a luz...” - os fantasmas ordenaram, com suavidade.
                        Riscou um fósforo e inflamou a lamparina portátil, de querosene velhíssimo, de raro uso.
                        A visão tétrica enlouqueceria qualquer um, menos Rosendo.
                        Parecia-lhe estar esperando aquela hora, desde que nascera.
                        Mas não reprimiu -incontroláveis-, um calafrio e um arrepiante eriço dos pêlos.
                        Pendiam do teto-soalho, encostadas -em fileiras- nos barrotes, fixadas pelos cabelos ressequidos, catorze cabeças.  Imputrefatas, irreconhecíveis, salgadas para preservação...
                        Nas faces lívidas ou cinzentas, (o bruxoleio da chama não permitia maior distinção) olhos cerrados, pálpebras empoeiradas...
                        Lábios pétreos, chupados para dentro.  As bocas enrugadas, denotando um mesmo rictus macabro: desmesuradamente abertas, como se o queixo lhes pesasse arrobas...
                        “Troféus de jagunço!”-  atinou Rosendo.
                        “Sim...” -pensou ter ouvido.
                        Algumas eram de negros, via pelas carapinhas. Nenhuma possuía língua: cortadas a facão.
                        Não reconheceu donde provinhas os sons das palavras cristalinas, imaculadamente compreensíveis: as bocarras rígidas, escancaradamente imóveis.
                        “Console-nos, por favor, sinhozinho...” - Uníssono, agudo, o apelo penetrou-lhe a mente, sem interferência do sentido auditivo.
                        Compreendeu que o contato partia de todos os decapitados.
                        Eles liam-lhe os pensamentos, sem ouvir suas articulações fonéticas.  E permitiam-lhe usar o mesmo processo de comunicação:  telepatia.
                        Cada um contou sua vida, seu erro, sua tragédia, sua execução e sua espera...
                        Consolou-os como pôde.  Penhoraram gratidão eterna.
                        Todos lhe fizeram o mesmo pedido final.
                        Rosendo prometeu-lhes.  Jamais faltaria o jato de luz que entrava pelo vão das pedras daquele antro, enquanto vivesse.
                        Saiu triste.  Voltou algumas vezes; mas nunca mais lhe transmitiram mensagem...
                        Na última visita que Manchinha e eu fizemos a ele, vivo, Rosendo nos contou - entre o navalhar dos soluços - o seu segredo. Fazia dó.
                        Aí compreendemos sua loucura, seu desleixo, sua febre: penetrara, em vida, o reino da Morte!
                        Eis que, como um danado, percorria todos os cômodos, relho à mão, numa atitude-cópia da figura do avô.  Os cabelos e barbas, enormes, conferiam-lhe um ar profético.  Os bigodes revirados nas pontas, espessos, cobriam-lhe o lábio superior, repartidos -a todo momento- com os dedos.  Assim, os do grande Coronel, no retrato debulhado na poeira dos janeiros.
                        O rebenque, cabo de alpaca, fustigava-lhe metodicamente parte da coxa direita, desmanchando as vestes, antes andrajos, farrapos.
                        Sua dupla ponta estalava no cano longo luzidio da bota ensebada todo dia com merda de caranguejeiras.
                        Do colarinho puído, emergia o pescoço: um simples fiapo.  O que separava-lhe a existência física e sem utilidade, da vida mental e brilhante.
                        Sim: naquela demência vimos uma possibilidade. Fizemos-lhe o favor! Apenasmente cortamos aquele fio, seu suposto pescoço!
                        Na volta à cidade, a companheira e eu nos juntamos, definitivamente cúmplices.  E alugamos um casebre...

VII

                        Quando Rosendo Gentil foi encontrado decapitado -dois anos após nossa visita - procuraram, em vão, sua caveira.
                        O cadáver se consumira ligeiro, disputado pelas ratazanas necrófagas, após o sangue ter sido sugado, ávida e exclusivamente, pelos morcegos.  Os urubus tentavam, em vão, localizar a fonte de inusitada carniça encefálica... As baratas roeram-lhe, no mínimo, sete costelas: as que faltavam...
                        Nesses vinte e quatro meses, fomos às escondidas, muitas vezes, tirar os arbustos de sobre o estreito visor dissimulado na parede de pedra do porão.  Não era bem uma parede: antes, pelo desnível do terreno, o lado alto da estrutura de laje da outrora resplandescente fazenda Gentil.  Sempre, na cumeeira da casa, de fraque, os corvos, no aguardo...
                        Nunca atinaram, os policiais, com o refúgio existente sob as tábuas do piso assoalhado de certo aposento. Ali, agora, mais um cérebro permanecia em mágica e permanente semi-putrefação...  Não notaram o pacote de sal esquecido, vazio, sobre o fogão.  O cheiro de alfazema, causou espécie, mas em nada os ajudou.
                        A grande candeia se apagara.  No azeite escuro boiavam cem moscas em conserva.
                        No esconderijo úmido as cabeças eram quinze!
                        O lavrador vizinho o achou quando, alarmado com a urubuzama, chegara até às ruínas.  Maldisse o dia em que mudara para aquele sítio,  semana antes da descoberta...
                        Chamados, reconhecemos o esqueleto devido às botas e ao cabo de metal branco do açoite carcomido.
                        As autoridades concluíram que a morte ocorrera “há dois anos, no máximo”.
                        Por ausência de vestígios, a causa-mortis não ficou esclarecida.  “Algum rapino animal levou o crâneo, após a decomposição.”-finalizaram.
                        O inquérito foi arquivado.
                        Na falta de outros parentes, acabamos herdando o que fora dele:  aquele museu desabitado e o pequeno quintal, onde o acéfalo despojo foi sepultado.
                        Na outra vez que estivemos lá, para roçar o mato que sufocava o paredão - promessa adquirida! - um espectro vagava pelos escombros do casaréu.
                        Intangível, ignorou nossa presença.
                        Ditava ordens; atravessando paredes, afugentava abutres invisíveis.  Berrava alucinado, como se estivesse sendo atacado por fictícios insetos e animais peçonhentos.
                        Tentamos um contato: ele parecia, -sombrio-, fugir a entrevistas.
                        Como outrora, o silêncio era um acordo tácito...

VIII

                        Em nossa última ida, Manchinha sentiu a idéia ferroada por irresistíveis apelos mantendo-a sob dependência, atraindo-a para certo rumo disfarçado... A custo, dominei-a: debatia-se como possessa.
                        Das teias de aranha, grandes olhos acesos, injetados de ódio, nos fitavam fixamente, fuzilando-nos com suas pupilas humanas e nojentas.
                        Quinze vampiros, de destino irreversível, pendiam dos altos caibros do telhado podre, goteiroso, sibilando interjeições... Quando despencaram, horríveis!, em nossa direção, um como vendaval irrompeu  -em implosão- no local, redemoinhando, semeando nossos corpos de fustigos e arranhões.
                        Derramando pelo chão suas babas de hematófagos, os quinze nos sangraram por todos os lados.  Até o sol parecia ter sumido...  Aquelas asas enormes, camurçadas...  Aquele couro rabugento, sabendo a fermento podre.
                        Era a expulsão e foi o ataque!  Procuramos azular, mas, lerdos... Nossos tropeços só se interromperam ao sairmos de lá cambaleantes, inacreditavelmente vivos.  Foi um fatigante percorrer de pastos... Foi um longo retomar de fôlegos...  Foi um triste sorrir de bobos,  e foi um besta enxugar de prantos...
                        Foi uma lenta conclusão a dois: provendo que, miragem ou não, ali Rosendo sempre existiria, mandamos demolir o solar assombrado.  Com seus detritos, nivelando as estruturas de pedra, soterramos os porões.
                        Ato de misericórdia?  Favor?  Talvez...

IV

                        Não buscamos pedras lá na Serra para o alicerce. Em Coivaras construímos nossa morada: casinha simples: meia-água, tenhas francesas; quarto, sala, cozinha e banheiro, forrados.  Absolutamente ao rés do chão, isenta de escadarias...
                        Mas decorada como nenhuma outra!  Questão de homenagens!  A companhia pagou bom preço pelo madeiramento-de-lei daquela abençoada herança...
                        Ah!  Por precaução não tivemos filhos, indiscutivelmente!




a mancha

Onde o atento leitor vislumbrará curiosíssima metamorfose e, de quebra, se instruirá no trato com vampiros de qualquer nacionalidade.

                       
I
                        PLAFT! Tchulépt! Struummf...  Tóc, tóc-tóc, tóc, tóc...
                        Algum choro.  A carneira está rodeada:  os circunstantes, absortos, derramam alguma lágrima; lembranças, lembranças...
                        Além do amontoado de trabalhadores, capto um olhar-vácuo.  Posto que vago, é repleto de indagações:  questiona aflição nos outros...  Mas é nada:  apenas um  um cão, policial.  De que estou farto!
                        A ovelha desgarrada?
                        Pláft, Tchulépt! Struummf...  Tóc, tóc-tóc, tóc, tóc...
                        À medida que externamente diminui, o desespero afunda carne adentro e vai crescendo, se agigantando, sufocando.
                        Como livrá-la dessa mancha sem revelar seu imundo segredo? Como? 
                        Poder-se-ia considerá-la pública?  Como contornar a mancha?
                        A carneira...  Os preparativos do festim terminando.
                        Mais uns poucos se aproximam.  Cambaleio um pouco aqui.  Acolá, outro geme. 
                        Mais além, um desmaio:  uma tia e um pecado...
                        E os jovens carneiros iniciados?  E os velhos cordeiros maculados?
                        Pláft! Tchulépt! Struummf...  Tóc, tóc-tóc, tóc, tóc...
                        O eco desses tócs parece ressoar num outro mudo mundo.
                        Espantam-se todos: os trabalhadores se afastam do local dos serviços do holocausto!
                        -Nada não, gente! Só reboco que acabou. Buscar mais, só isso!
                        -Já fede, parece! Num perde a carne?
                        - Magina! Carne perdida perder!
                        Jaz... A carneira... E esperamos. O tempo galopa, parece.
                        Que tempo temos? Não somos nós que passamos por ele?
                        Em quê, o quê pensar? O que inutilmente esperamos?
                        Um -quem sabe- milagre? Um sussurro da carcaça inanimada?        Não! Não é possível. Não há retorno...
                        Outra vez o cão e seu olhar: em minha direção.
                        Mais um. Insiste. Me agacho. Pego meio tijolo.
                        Ele desvia os olhos encardidos, nojentos...
                        Se torna a me fuzilar assim, arrebento ele.
                        Reespanto geral: um abraço amigo, um “deixa-disso”. Uma compreensão reconfortante.
                        Mas meu grito surdo não agüenta o sufoco. Liberta-se!
                        E foi um lamento de urso ferido... De sapos achatados na rua, o baque dos meus soluços... O pranto, algo rescendendo a gomos de limão sendo prensado nos lenços da memória.
                        E ela vem, a evocação, ferindo fundo forte: fácil...

II

                        Relembro: quando ela começou a sair à noite -madrugadão- como se me ignorando, principiei as longas caminhadas do seguí-la. Desde a primeira vez notei-lhe o sonambulismo. Descia os becos sem iluminação da Capoeira, impreocupando-se com nada-ninguém.
                        Apenas chegava aos pés do pórtico da Igreja Matriz, evaporava-se numa nuvem negra. Antes, havia atravessado a pracinha escura. Molhara a cabeça na fonte insonora e desiluminada, ritualmente. Os raios do vapor de mercúrio dos postezinhos em forquilha de um pedacito de praça conferiam-lhe às feições -nesse trajeto- algo de tesura e horripilância.
                        Eram os bicos salientes dos seios transparecendo, trepidantes, através do tecido fino da roupa de dormir, toda respingada da água da fontezinha.
                        E eram também seus lábios se afinando, sua dentição anterior se modificando: os dois caninos superiores -exageradamente pontiagudados- lançando-se para fora duma boca em ríctus macabro.
                        Antes da calada explosão de fumo negro, a pele já se transmudara.
                        Chegava aos primeiros degraus da escadaria do templo, aos rastros, as pernas curtíssimas, braços sustentando insólito  patágio, - membranas alares grudadas ao tronco enroliçado  -,   recoberto de pêlos de rato...
                        Umas unhas! Antes, garras... E as orelhas? Que aspecto! E a nova cara? -que aquilo já não era rosto mais! Sim: certamente de morcego!
                        Enquanto eu ouvia um ruflar potente de asas de couro e o sibilo conhecido de há muito, uma sombra deixava -na trajetória do vôo- sua silhueta recortada contra o bojo gordo da lua cheia...
                        Então eu voltava pra casa. Ou ia prum boteco ou pruma casa da zona.
                        Os guinchos dele (dela?) no começo, chegaram a despertar os moradores das vizinhanças da igreja: um tardio acender de luzes amarelas, um monótono abrir de janelas assustadas...
                        E veio um novo costume: os uivos de cães prolongando-se tetricamente naquelas noites sorteadas pela princesa do firmamento.
                        Após intermináveis excursões, deixei de acompanhá-la: sempre voltava, inda escuro, deslembrada de tudo.
                        Seu rumo -isso eu sabia!- era uma antiga casa de fazenda, demolida, de porões soterrados com detritos de pau-a-pique. E mais: uma gruta e seu mistério...
                        Desde a primeira saída solitária, passei a deixar a porta encostada. Na volta sonambúlica, ela, a desgrenhada...
                        Eu despia-lhe os trajes esfarrapados. Acomodava-a num canto do banheiro e lavava com água morna sua baba e alguma contusão que depois curava: mercúrio, sulfa, algodão, esparadrapo & quetais.
                        Desperta do transe, nada perguntava.
                        O silêncio era um acordo tácito que imperava no sangue...
                        Voltávamos ao leito. Seu sexo -excitadíssimo, relampeando como o das éguas em cio,  recebia-me avidamente, sugando -deliciado- meu leite escrotal...
                        Virou rotina.
                        Primeiro foram cachorros, gatos e porcos; burros, cavalos e reses: a segunda etapa, a dos animais de maior porte.
                        Uma fêmea de elefante -dum circo itinerante- sucumbiu inexplicavelmente. O dono aparvalhado, não soube o que fazer da massa enorme do paquiderme falecido. Encerraram-se os espetáculos. Veio abaixo a lona. Os caminhões partiram. Os corvos baixaram. O festim durou semanas... Os telhados cobriram-se de fragmentos da África...
                        Quando começaram os ataques a noctívagos transeuntes, a bêbados sargetais, o povoado então notou.  Nas marcas inconfundíveis dos pescoços, nos duplos orifícios das aortas sugadas e na ausência total de sangue nos pálidos cadáveres: a prova da existência de um vampiro!
                        E Coivaras conheceu o terror das luas cheias...
                        Nessa época seus retornos para casa beiravam a aurora. Ah! era um fatigante trocar de camisolas, um ininterrupto enterrar de farrapos ensangüentados...
                        Ela não mais saía de casa durante o dia. Dormia sem parar, como se doente. Mas, corada, sangüínea, não mais desejou se alimentar dessas comidas comuns. Nem precisava... Pedia-me deixasse o quarto em breu. Não queria visitas e terminou amizades.
                        Nossos coitos rarearam-se. Aquela mania dela de sair à meia-noite... O anacronismo de nossos movimentos sexuais... Sua fixação em meu pescoço... Definitivamente: as  “Fodas Divinas” escassearam...
                        Comecei a temer por ela quando passaram, do susto, à caça.
                        E durou muito tempo esse medo, se durou...
                        As vítimas foram se alargando em número e preferência. Velhos, moleques, moças, rapazes, vizinhos incautos, criancinhas e até senhoras de gorda compleição: tudo sucumbia, janelas estouradas, telhados estilhaçados...
                        Ah! Era um camuflar de vestígios, um interminável reabastecer em meu arsenal de mentiras...
                        Até que...

III

                        Ele vivia em pescarias, o velho comerciante aposentado. Pelas cercanias da cidade ilhada pela represa, vivia armando suas redes e festivas barracas de pescador. Traquejado nessas mumunhas vampirescas, terminara com muitos hematófagos do gênero, numa cidade longínqua, de nome Curitiba, para pasmo perplexo de Malcon Previsan...
                        Quando foi assaltado pelo monstro, na última lua cheia, ele não vacilou: estabilizou a marcha da canoa motorizada. Antecipou a defesa por conhecer o guincho típico do monstro...  No peito, a cruz de résteas de alho plantado na última Sexta-Feira da Paixão: eficaz sortilégio soporiferante...
                        E ela recebeu  -oh! destino!-  no peito que tanto abracei, o bento chumbo da carabina calibre l2.
                        Um único projétil, semi-seccionado -em cruz- buscou-lhe, certeiro, o músculo cardíaco.
                        Sim: ela ainda conseguiu ferí-lo superficialmente. Depois voou desordenada. Mas não logrou chegar em casa antes do nascente... Esse ataque foi o último.
                        Metamorfoseou-se numa poça escarlate...
                        Quando vieram me chamar, contaram do achado. Aí começaram meus lamentos  - precisão, necessidade indescartável..
                        Seu corpo sensual foi encontrado pelas lavadeiras, perto da caixa-d’água, desacordadamente morto. Semi-nua, nos inexplicáveis trajes sumarios dilacerados...
                        A princípio alarmante, o relato do experiente, arranhado e jubiloso matador de morcegões foi minimizado - “Ah! Histórias de pescador!...”
                        Quiçá mais espantosa fora a tragédia maior da ex-meretriz Rosalda Gentil, assassinada com um rombo no tórax... Crime misterioso, trouxe até peritos da polícia técnica ao lugarejo que nunca vira tal tipo de indivíduos.
                        Absolutamente. Não pude oferecer pistas: questão de cumplicidade!
                        Sim, uma nuvem negra esteve me acompanhando por algum tempo por onde eu andasse. O caso quase me envolveu: há muito haviam começado os boatos de uma traição de Manchinha... E, fazia tempo, todos notavam meu cansaço e minha tristeza.
                        Contudo, o acontecimento não me complicou além dessa suspeita inicial. Eu passara aquela noite numa roda de truco. Questão de precaução, entendem?
                        Com essa turma eu tinha iniciado beber. Aprendi -sozinho- a fingir fogueira, tontura forte. E clamava colérico, me fingindo de bêbado, do amante rival e invisível...  E bem ouvia e os escutava: “Coitado, a mulher não respeita mais...”

IV

                        Aquela turma, os companheiros, ali estavam agora, ao meu lado.
                        Álibi, logicamente, perfeito!
                        O tempo parou quando soltei -propositadamente- uma frase inacabada.
                        Tinha que dar o exato toque emocional à cena...
                        Meus soluços redobraram quando os pedreiros voltaram com mais argamassa. Recomeçaram as colheres:
                        Spláft! Rassssp, rassssp. Spláft!, Rasssp, rasssp.
                        Réc, récs, récs, récs, récs, récs, récs: a desempenadeira.
                        Depois, quando os coveiros-pedreiros respaldavam a boca da tumba, começou uma chuva fina e o sol foi se arrebentando no horizonte.
                        Sei que minhas lágrimas soaram sangrentas, refletindo o ocaso, misturando-se ao choro das nuvens...
                        Um desabafo da natureza? Um suspiro de alívio dos Anjos? Talvez...
                        Terminado o enterro, deixei -inconsolável- o cemitério.
                        Os amigos me ampararam.  O cão, convencido, se afastou.
                        Sobre nós, com suas imensas asas de camurça, a noite...                                                                                                                 

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