terça-feira, 14 de julho de 2015

RECANTOS DA VIDA - POEMAS




RECANTOS DA VIDA 

POEMAS

OSCAR KELLNER NETO


         
para os filhos
Gustavo
Luciano
Aninha

para os netos
Gabriela
Ângelo
Adélia








para
Maria Alcina,
razão da poesia.


sumário

acalanto regresseiro – 69
acuados – 108
Adélia – 39
alma no varal – 148
Ângelo – 38
angústia azul – 109
ânsias – 70
antechuva – 98
anticanto – 66
aurora 7.300 – 71
baile – 50
belle de jour – 67
biobibliografia - 156
botina de gomas – 42
brado – 45
branco – 137
caminhos – 73
canção – 76
canto de busca – 86
canto de busca – letra para uma música – 113
canto negro de adolescente – 111
cenas – 141
chão parado – 63
chiachiri – 11
chuva – 51
começo de noite – 62
conversa no bar do simpatia – 133
cravo de ferro – 115
dança geral – 58
das músicas que não ouço – 57
decálogo da musa – 31
desencanto – 79
desmanhã – 48
diálogo com a morta – auto-elegia – 21
do mágico & seu aprendiz – 60
dos frutos – 74
elegia a Maria do Carmo – 13
elegia ao poeta Arnaldo Ricardo de Souza – 15
elegia para Luiz Reinaldo – 20
em pastoreio a Pixinguinha – 90
entrepassado – 100
escritura – 83
esperança – 82
estufa – 75
expoeta – 47
felina – 117
fonte – 116
Gabi – 37
gaivotas – 151
grande amigo – 29
grandezas distintas – 89
horto interior – 154
imagem e semelhança – 149
intenção – 150
intróito ao livro canto de busca – 88
inventário da dor – 24
isca – 85
levitação – 78
Londres-fog – 54
magia crepuscular – 80
manhã – 119
minuto junino – 94
mudança – 52
nascente – 92
natal – 27
noturno – 121
novavinda – 95
o ladrilho – 126
olvido – 128
outra vez, festa – 99
parábola – 84
parto – 33
pequena cantiga de preferência – 97
pequeno noturno – 101
pictórico – 127
poeminha para Alcina – 32
poesia e chá – 125
polar – 53
praça noturna – 140
primavera – 135
raiar operário – 102
recado – in memoriam – 16
receita – 122
reflexão – 65
renotícias freudianas – 106
retorno – 123
sagitário – 118
samba – 105
sementes – 81
sensorial – 103
society – 104
soneto filial – 35
soneto filial II – 36
submarina – 49
subsolar – 153
subversiva – 124
tecer a noite – 146
telúrica – 107
tempo – 96
vácuo – 56
vertical – 136
vespertina – 139
vestal – 147
visita – 40
vôo rasante – 55








ELEGIAS
CHIACHIRI


Oi! Último oi te trago, amigo.
Não consigo compreender-te aí inerte.
Certas relíquias-tesouros devem estar vivas
Em teu peito cansado, amigo.
Sim: justamente aquelas que não expunhas
Na casa de teus sonhos.
Guardava-as no repositório do coração
Com teu jeito de monge bondoso.
Não consigo compreender-te aí inerte.

Sinto teus passos ressoando nesse soalho velho.
Em cada objeto, um alinhamento teu.
Teu olhar de ajuste em cada peça presente.
Como eu, os quadros e tudo aqui
Não compreendem a razão dessas lágrimas.
Sei que ficarás por aqui,
Nesse teu recanto preferido,
Às voltas com as coisas que são tuas...

Hoje é um dia de arrumação: essas exéquias
São parte do ritual de tua entronização.
Tudo para colocar-te, em definitivo,
Em teu próprio mundo.

A História te é grata, amigo.
Não há separação hoje. Só fica pelo ar
Uma tristeza pequena de quem renuncia.
Em seu pronunciamento mudo,
um porteiro anuncia um teu sinal em tudo.

Que nada mais de ti o prive:
Morre teu corpo, teu museu vive!
Se antes eras o guardião,
Hoje passas a protegido.
Se antes ele era a tua vida,
Hoje és a alma do Museu!
                                                   9/11/1972


 

ELEGIA A MARIA DO CARMO


                                                                     
Eras o amor, a flor deveras roxa.
Para os olhos santos,
ofuscados pela visão de Deus, serás colírio.
Os séculos findarão... Eu te encontrarei no Céu.
A galáxia dos amores, lá na imensidão do éter
Chorou estrelas ao ver-te
Fluído, essência, névoa santa, passar...

Agora lá ou aqui
Na imensidão que nos separa e me tortura
Sinto a longitude do paroxismo...
Fundido nesta tristeza, chego a ver
O grande ângulo reto que me persegue a alma
Encadeando-a em noventa graus:

Formado no desenlace por tua matéria
Que findava horizontalmente
E se desunia pelos pés de tua alma que subia
Lentamente respeitando minhas duas lágrimas.

Enquanto aqui descansas ela percorre, creio,
Tronos invisíveis, perfilados, infindáveis, celestes,
Rumo ao trono maior.

Sei: o pesadelo de tuas recordações
Velará minhas insônias...

Mas és renda branca, prenda branca
Entre os anjos do céu,
Cuja ausência faz surgir latente
Bem no fundo do coração
A fome do reencontro!
                                                      franca-sp/ 1967



ELEGIA AO POETA
ARNALDO RICARDO DE SOUZA


nasce um poema!
morreu um poeta na cidade poética.
é o passado recordado
voltando cansado pro sono da paz...

arnaldo era verso no universo...
morreu na carne, morreu da vida.

mas ricardo é flauta incansável!
o poeta morto será poema eterno,

poeta de Souza.




RECADO

                                             (in memoriam)

antes de tudo, tenho dó da senhora, doutora.
creia-me. sinto pena da senhora.
sabe, Dra., é duro ser poeta numa hora dessa.
sentir-sofrer como a mãe é impossível.
uma dor triste de impotência ante a morte,
uma dor dura de raiva ante a recusa de socorro,
uma dor revoltada por seu gesto, Dra....

o Luiz Reinaldo sofreu uma noite inteirinha, Dra.
quarenta graus de febre, a noite inteirinha,
e eles desesperados ao telefone lhe chamando:
- vem! nosso filhinho morre, Dra.!
e você vira pro canto e dorme, Dra. ou faz
qualquer outra coisa qualquer, mas
não vem ver o menino que morre, Dra.
no colo da mãe, quarto 71 – sta casa de franca,
noite, alta madrugada, amanhecer de 13/14/junho/73.

é dia de seu plantão ou não? não importa.
chamaram-na, pediatra, e agora, cadê o menino?
levaram-no no lençol envolto, no sagrado sudarinho...
morreu sem um remédio pro seu mal.
(apenas um lenitivo inicial às 9 da noite,
um pouco de antipirético pra febre de 40 graus
que lhe consumia o corpo mirrado, Dra.!)

porque não veio você, Dra.?
não, não responda não. busque na própria consciência
a resposta que ainda não achou nem achará, Dra.!
nada explica, nada justifica.
meu afilhado Luiz Reinaldo não tinha culpa
de seu sono, de seu cansaço, Dra.!

sabe, Dra., ele lhe esperou até não aguentar  mais de dor.
há um limite pressas coisas, não?
já pensou, Dra., uma criancinha morrendo de dor, Dra ?
não chego a entender muito disso não,
que não sou médico, definitivamente.
o menino chorando no colo da mãe, noite inteira.
a enfermeira – anjo!-  que ajudou, chorando também.
que vamos fazer, o pequeno Luiz, de sete-oito meses
está morto, sepultado, não volta mais, Dra.!

- ai!!! meu filho, tão bonitinho, gordinho, morreu...
- mas é um absurdo eu chegar em casa sem meu menino,
gente! ontem mesmo ele tava aqui brincando...
ah! Dra.! a sra. não ouviu essas coisas no cemitério
e na casa da mãe. a senhora não viu o pai – cego de dor
sem poder chorar, de desespero ante a inutilidade
de seus esforços – pernas doendo de andar corredores
e corredores noite toda, as lágrimas despejadas de montão
pra dentro, pois o Luiz não é homem de chorar pra fora.
- meu menino tá morrendo, gente!
meu menino morreu, gentre!!!

ah! Dra., esse pessoal que lhe parece gentinha
sofre muito, sabe? esse pessoal confiava na sra.
você nem foi ver o caixãozinho branco com
aquele menininho gordinho parecendo dormir lá dentro,
tão quietinho, e eles fechando com tijolos a parede
da sepultura, Dra.!
ah! o chuquinha dele, Dra., as coisinhas
dele ficarão espalhadas por toda a casa,
em cada canto de nossa vida, pela eternidade, sabe?

o que mais posso fazer pra lhe mostrar o quanto
nos faz sofrer a todos o seu gesto de recusa, Dra.?
agora é tarde... Luizinho se foi,
levando um pouco de todos nós.
se foi, sem ao menos uma tentativa sua de salvar
sua vida pequena – sim – mas importante para todos nós.
você não lhe estendeu a mão em seu abismo de
dor e agonia.
morreu de dor, o inocente, em agonia sem remédio.

não podia eu me calar, Dra., é muito duro ser poeta
numa hora dessa.
hoje é muito duro ser padrinho
do meu afilhado Luiz Reinaldo!

                                             franca-sp, junho/1973



ELEGIA

            para Luiz Reinaldo, inesquecível afilhado.

chorei pelo menino anjo
um verso contraditório:
enquanto ele foi pro céu
eu fiquei no purgatório.

quando a madrugada chega
o choro me faz entender:
enquanto ele morre pra dormir
eu só durmo pra morrer.

na estrela em que renasceu
sua pureza vai florir:
hoje sei que não morreu
acabou ficando de tanto ir....




DIÁLOGO COM A MORTA
      – auto-elegia –

Tirada a luz que tinhas no olhar, que mais terei eu pra te recordar?
-          Murmúrios do mar!

Exceto teus naufrágios, encontro no ar que mais de silente?
-          A estrela cadente!

Sem esse mistério, que podes daí contar-me de ti?
-          Que não vivi, mas morri!

O que  resta, querida, deste teu espectro florido, outrora criança?
-          Só Esperança!

Apartado o Eterno, o que sobra daquilo que a gente recolhe da pluma da vida?
-          Uma rosa partida!

Dos beijos forjados em plena madruga,
e de tantos retornos das ondas do mar,
aí em teu mundo, o que hei de encontrar?
-          Bocas fechadas, água parada, silêncio profundo...

Se  falas comigo, quem foi que te deu tal permissão?
-          O homem da chave, o que guarda a prisão!

E tirando o vigia, o que mais de bom daí posso esperar?
-          Tu virás descansar!

Acaso sabes o que mais em teu mundo me é destinado?
-          Vê ao lado: o mesmo cimento que me enlaça a cintura: tua sepultura!

Não!!!  Afora esse horror, o que inda me aguarda no último recanto de tua morada?
-          Mais nada!

                                             franca/sp - 1966.
















DA FAMÍLIA



INVENTÁRIO DA DOR


com todo respeito, pai,
e amor que um filho possa ter, te digo:
notei, apavorado,
que teu semblante recuou
pro futuro, muitos milênios
encovando-te os olhos.

(OH! NÃO TE RENDAS, MEU PAI!)

súbito, caí em mim e soube:
os setenta anos
(que prestidigitador camuflaste
na algibeira dos sorrisos gradualmente)
resolveram de repente
pesar-te sobre os ombros!

(OH! VÊ SE AGUENTA MAIS , MEU PAI!)

e vi o pai que não cria ver um dia.
e vi o caquinho de gente
em que não queria ver-te tornado, pai.
(OH! PAI, CONTE COMIGO!)

senti aquela multidão de anos
lentamente recolhidos
em teus passos minuendos
querer tomar conta
de tua vontade e de teus rumos.
percebi também, assustado,
que ninguém tinha percebido antes,
como eu,
que tinhas envelhecido, pai.

(OH! ME ESPERA CADUCAR, MEUPAI!)

e sua pouca voz e sua muita dor
fez de todos nós renovar-se o amor
por ti, pai.

(OH! QUANTO DE AMAMOS, PAI QUERIDO)

a todos inda reservas uma piada,
uma toada-galhofa...
mas já tão fraco pareces
e eu fico tão doido de não saber
melhor dizer-te meu amor por ti,
que me azucrino e choro,
vontade de ir aí te ver e ficar por perto
até de novo te ver firmerrijo
à testa da família...

(OH! QUE TEU DEUS E MEU SEJA PIEDOSO
E TE RECONDUZA À SAÚDE E À ALELGRIA
QUE É DE TODOS NÓS.  AMÉM!)


franca-sp/06-04-0979, primeira sexta-feira,20:30h.
dia em que fui ver papai que teve cólicas, talvez de
fígado, e deveria tirar uma radiografia de vesícula.
comunguei por ele.





NATAL


Numa gruta pastoril, bem distante da cidade,
uma jovem se prepara para a sua Maternidade.

Não existe lugar nas estalagens de Belém
pra Maria dar à luz o seu pobre neném...

(É sempre assim: com injustiça  e desamor
o Mundo nega nascença a Jesus, o Salvador...)

Pensativo, São José, tendo então contado os dias,
espera que um milagre dê sentido às profecias...

Então ecoa pelos ares um convite sagrado:
-Vinde, pobres pastores, atendei ao chamado!

Querubins jubilosos ensaiam hosanas atrás da mata:
brilhando surge no céu, uma estrela toda de prata!

Ovelhas ali de fora; lá dentro, o burrico e o bovino:
é o mundo animal aguardando a chegada do Menino!

Pára sobre o presépio, de repente, a Estrela-Guia
e muita paz a toda  Gente, um anjo louro anuncia...

E aí,  nesse ambiente maltrapilho,
com a força do Altíssimo, a Virgem ganha seu Filho!

Na manjedoura despojada, sem nenhum Papai-Noel,
então surge o Deus-Criança, presente vindo do Céu!

E a Coorte Celeste desce, cada um cantando um fado:
vêm adorar na Terra, o Filho de Deus Encarnado...

E Jesus, tão revestido da miséria corporal,
sorridente, inaugura nosso primeiro Natal...



GRANDE AMIGO


vê, amigo, a amizade nos invade...
vê, amigo, mais além,
o grande amigo que todo mundo tem!

tenha-o no coração com amor profundo.

ter amigos antigos é bom, eu digo,
mas só os materiais?
não! também existem os espirituais!

ame-o, lhe digo:
pode ele ser um mendigo,
ou às vezes um doente
que falta sente
do carinho da gente...

é Ele que no dia,
entre as trevas do mal
nos guia para o bem, afinal.

veja: eu lhe digo:
esse mendigo
que vive tão só
de quem ninguém tem dó
gosta tanto de você...

e você o despreza... porque?

veja-o, preze-o, seja bom...
pois quem morreu
por você na cruz?
amigo seu mortal?
nenhum...

ah! sim Ele,
aquele Amigo
tão antigo...

sim, só Ele deu-lhe a luz
foi o Primeiro
é o Único Amigo verdadeiro...

é Ele tão Eterno...
Jesus!
                                                    franca-sp/1963




DECÁLOGO DA MUSA


Suportar seus maus humores,
sua amada contrariedade...
Sorrir contente com sua alegria
e chorar seu pranto contrafeito.

Agradecer sua dedicada culinária
em minha gorda saciedade...
Arquejar com seus suspiros,
nosso desejo satisfeito!

Fornecer-lhe amor, em muitas reprises
E, mesmo quando não as quiser, querê-las...
Amar em suas pernas o relevo das varizes
Desde o primeiro dia que passar a tê-las...

Beber seu riso e te amar demais,
Debelar seu siso, deixá-la jamais...
Seu sono sonoro suportar quieto...
(Agora você entende porque poeto?)
                                               14/10/1981



POEMINHA PARA ALCINA


Sabe, amada, só agora compreendo
o Amor que tanto cantam!
Fui aluno tanto tempo
dessa escola que é a vida
e só agora minha querida
começo a entender o que é o Amor.

Ele não cabe no maior significado
que se dê à palavra amor.
Cada qual entende seu querer...
Não existe definição
Não existe tempo, não existe tamanho.
O Amor é uma pessoa:
o meu Amor é você!

                                        14/10/1981



PARTO

preciso parir um poema
que denuncie esse amor represado
que tenho dentro de mim.

preciso gritar um berro
tão urro quanto amostra
de meu amor sufocado

preciso revolver o terreno
onde sepultou-se a semente do amor.
que nasça!
que minha vida recomece,
abaixo o desamor!

é físico o mal que me faz
a ausência de oferendas
de objetivos, de direção.

você, simples menina moça mulher
do olhar limpo, recuado, meigo, puro...

sua imagem já re-existe
o amor tomando forma compôs
esse hino vivo que é você...

se é possível amar em verso
vivo ligado à minha amada...
ainda que em outro universo
goteje minha pena alucinada...

                                   delfinópolis-mg/março/75





SONETO FILIAL

a natureza já faz vibrar
o seu corpo em juvenília
a pureza em seu olhar
é meu arrimo de família.

sua face, em saúde colorida,
acaricio com agrados brutos.
meu garoto inaugura na vida
a época de amadurecer seus frutos.

perpetuará no futuro meus traços.
mas inda acalanto carregá-lo nos braços
inda desejo estreitá-lo no peito.

parecendo Oscar, semelhando Alcina,
criança eterna, alma menina,
meu filho Gustavo: homem feito!
02/10/87



SONETO FILIAL II

nessa etapa da juventude
quer em tudo ser capaz
aprende com solicitude
ama e sofre o meu rapaz.

enfrenta as alergias da vida
trilhando as sendas do bem
levará ao longínquo porvir
os traços da família que tem.

vencer o mal, só dar amor
ser direito nas jornadas
estudará, vai ser doutor.

um pouco Alcina, um tanto Oscar
mente aberta, firme no trato,
meu filho Luciano,  homem de fato!
02/10/87




GABI


pra te recordar, ó felicidade,
fui ver minha neta, correndo...

eu, que fui matar a saudade
voltei de saudade morrendo...

                                   para minha neta Gabriela,
                                   07/06/1994.



ÂNGELO

pra te receber havia
o novo milênio,
a folia do carnaval,
e muita gente ansiosa
dentro e fora do hospital...

vieste curioso,
 guerreiro e teimoso,
o paciente mais
impaciente
do berçário inaugural...

o mundo sorria pro neném
pelo vidro do corredor
e ele, lá da incubadora
querendo olhar para o vovô.
                                  
delfinópolis-mg/29-03-2000
ADÉLIA


foi nascer em Cássia
a menina preciosa:
queria a proteção de
Santa Rita milagrosa.

chegou de cá do rio,
enfeitando nossa vida
com muita fome e pouco sono
logo de todos era a querida.

com a carequinha de boneca
e com seu rosto sorridente
ficando levada da breca
deixou o mundo mais contente...
e o nosso coração em festa...
                                  
delfinópolis-mg/25-12-2002



VISITA


Ontem uma festa me invadiu
As mínimas partículas nervosas.
Meus caros amigos  Sônia, Sérgio
e Filhos vieram nos visitar.

Há tempos não nos víamos:
E a gente se rejubilou por estarmos juntos.
Jantamos, conversamos mil assuntos.
Todos interessados em todos...

Mas a verdade,
O verdadeiro motivo de tanta alegria
Nesse encontro é o amor que nos une!

É a solidariedade!
É uma união fraterna onde nos tornamos
Indispensáveis uns para os outros.

O convívio, o cultivo dos laços dessa amizade
Profunda, verdadeira, mexe comigo,
indispensável  como o ar que respiro.

Perto deles me invade um calor...
tudo se torna fácil de fazer.
Para os amigos tudo é possível!
E me percorre a espinha uma faísca perceptível
Que se irradia pelas costelas, me enchendo o corpo
De alegria e júbilo.
As lágrimas me escorrem face a dentro
Banhando o meu coração que quer parar
Seu trabalho para entrar em regozijo!
                                                           19-09-1989.


BOTINA DE GOMAS


Para Mauro Ferreira, dezembro de 1984.


Habitante de dois mundos
Eras o menino que havia
Na casa nova feita de céu
Ao lado da entrada dos fundos
Daquele casarão em agonia
Do velho “Cacique Hotel”.

Como a erva dos canteiros,
Crescestes em berço de cetim
Vendo a diária labuta
Dos operários sapateiros
Que perderam o emprego sem luta
Na fábrica do Valentim...

Conseguiste o teu diploma
Sem esquecer aquelas cenas:
Eram pais de família
Pés no chão, botinas de goma,
Vidas comuns, pobres apenas
Na injustiça da partilha.

Hoje o ideal de escritor
Que praticas com a arquitetura
É estranho, nada geral...
Mas aí está o teu valor
Persegues a utopia pura
Da igualdade social!










POEMAS DIVERSOS



BRADO


diria que não tive culpa
da fraqueza da possuída.
que não houve pombo nem sol
nos dias de minha infância.
que nunca ouvi choro de vizinho,
chorando violão e arrasta-pé.
que não amo vacas & seus leites,
seios & donas, outonos e ipês.
diria que é fraca a plástica
da evolução e mesmo o diálogo
regado a limão – que já não há -
nas mesas do Chuá Bar...
diria que os olhares se vitrificam
ao som da orquestra passaral
derrubando folhas sem clorofila...
diria que os ruídos provam
ter sons os pesadelos de crianças
famintas em metamorfose!
que a miséria é invisível
e mata essa fome...
que fazer poesia disso tudo é bobagem...
diria que não vejo a fome dos irmãos,
que estou de acordo com qualquer
Vossa Excelência...
diria ainda: não! a um amigo.
recuso! à mulher...
renuncio à poesia
adeus à pátria...
diria tudo, menos não creio.



EXPOETA


hoje não preciso mais
exercer o ofício poético:
sou realista e aprendi coisas...

a noite não é tão cálida assim:
apenas naturalmente
se embriaga do próprio orvalho.

o dia não é tão áspero
apenas docemente se arrasta
no próprio asfalto doentio.

hoje não preciso
e nem posso mais ser poeta.

apreendi a diferençar
as coisas, dos sonhos:

sou realista e sei ofícios...
                                                 abril/1975




DESMANHÃ


na serra das horas
inda é manhã.
por entre a macega,
contudo,
a neblina dos séculos
impera...



SUBMARINA


nos recôncavos
de nosso mar
penetram algas
de incerteza

de cada
ostra partida
esvai-se
um pouco
 de nós...
BAILE


... seja noite...
e assim foi.
aí muita luzes artificiais
iluminaram os dias apagados!
venham versos,
mas imersos
em úmidos cristais!
champanhe & sax
gravatas & bravatas
inatas borboletas:
loiras morenas negra pretas.
unhas rosas
punhos e rendas:
baile!



CHUVA


passa chuva passa.
lindos pingos e respingos
findos na vidraça!

passa bruma de raça nenhuma.
chuva branca, uva manca
que caiu do cacho.

passa macho passa fêmea passa gêmea.
riacho celeste diacho peste!

chuva de amor chuva de dor
ouvindo das sargetas
coisas de horror!

passa chuva meu bem...

noite banhada vem,
minha namorada também...



MUDANÇA


após o canto da rosa negra
despetalando-se,
megatons  poéticos vibram
em cogumelo no estertor
dos “barões assinalados”..

radipoesia medra então
em células dantes inexistentes.
no derrame epilético
tombam elegias e épicos.
perecem alexandrinos,
heróicos decassílabos,
estruturas, sonetos
e estrofes em desintegração.

lentos, da poeira-poema saem
rabiscos, risos, deboches, chuviscos
choros-desigualdade, antipoesia,
novapoesia, novo poeta.



POLAR

-I-
preciso preocupar-me, fugir às fugas,
que as horas estão sugadas e sujas.
a rola não arrulha... eu quero hibernar.
buscar rugas e norte a sul.
pingüins, daí-me lugar!
a tarde é anã e o inverno vergasta a poesia.
-II-
já forjo no peito auroras boreais.
os centígrados denunciam-me inerte.
o sonho vive: minha dor congela-se
no âmago do frio.
o amor é um ponto azul.
só ursa menor ouve meu ronco...
-III-
avulta-se o sonho! vejo pátrias libertas,
guerras murchando-se... sozinho medito o gelo.
como pólo é sossego.. as mães aqui não choram
e mãos já não acenam adeuses.
é inverno pleno, gelo amigo, pólo quente...
mas vem o quebra-gelo ianque
e estraga tudo!



LONDRES-FOG


quadrante
estático
reduz
alvorada,
trazendo
no alvo
um sol
meio calvo.




VOO RAZANTE


em meu bosque silente
que é dos pássaros?
do chilreio dos pássaros?
do galope dos pássaros?
das fêmeas dos pássaros?

ah! as aves? elas não mais têm paz
foram construídas muitas gaiolas.



VÁCUO


chegou o tempo das palavras
encontrarem eco.
época renascida
das pedras,
no aço.

é hora dos efeitos não tardarem
e bailarem temporões
com a descarga das sílabas...

mas, cadê barulho?
cadê fonética?
cadê palavras?
seu som fugiu!



DAS MÚSICAS QUE NÃO OUÇO


no remanso que distante canta
nunca sabemos qual peixe sola
e além do bosque de fadas
a ternura que a rola faz
é quimera, canção que jaz

onde encontrar a paz?
EUA? Rússia, Brasil?
nunca...

pois está nas asas
que a andorinha tem
a liberdade
que nunca vem...



DANÇA GERAL

estão matando o pessoal de dezesseis anos
amada minha...
nesse Paço Calabouço esses passos que ouço
donde vêm? de que sonhos inacabados?

pra que cheirar agonia se o perfume-melancolia
é adolescência que morre?

“libertas quæ sera tamem”
está morrendo a meninada do futuro
está morrendo
“libertas quæ sera tamem”

esses passos que ouço não serão, minha amada,
alguns gingados da sinfonia macabra
dos meus dezoito anos?

essa água que corre insinuando democracia
é nada mais que sangue de estudante pobre
almoçando hipocrisia.

queremos menos dessa música
timbrando tirania e ratatás!

onde julgam as armadas encontrar reservistas?
em casinhas bem arrumadas,
bem sortidas de empregadas,
ou no peito perfurado do humilde
proletariado aqui representado
nos 16 anos mal-almoçados
de Edson Luiz Lima Souto?

                                                  franca-sp/1968



DO MÁGICO & SEU APRENDIZ

Inicialmente, querida,
ignoremos a platéia.
Agora, o primeiro truque:
Recolhe toda tristeza tua
Ao fundo-gordo-falso de minha cartola.

Recosta-te em meu peito:
Aí, apenas perceptível,
Uma palpitação sentirás:
É donde partem minhas lágrimas,
Única seiva da verdade.

Em minha casaca,
No bolso esquerdo de cima,
Encontrarás um pouco de terra virgem:
É pra numa hora de crise – própria de anjos –
Plantarmos algumas lebres e pombas
Aos pés de nosso palco...

Fitemos o azul atrás das cortinas:
Vês quantos dedos submersos?
São de ilusionistas que já se foram...

Fixa agora esta bola de cristal, a luz.
Olha-a com o olhar perdido
De quem perde um ente querido...

Pronto?
Então chega de esperas!
Procuremos no abracadabra
O que restou da magia da criação...
                                                           -1967-



COMEÇO DE NOITE


lembro-me bem: era começo de noite.
um mesclado de calor e frio
derrubava em nossas cabeças
farelo de estrelas escondidas...
a lua era ausente e conversávamos.
o neon distante lograva
transformar-se em pirilampos
e iluminava a relva escura.
já o murmúrio ao longe
era regato.
o vento soprava segredos
em nossa primavera interior.
pra regar nossa ventura,
uma chuva forte e quente:
a primeira de setembro.
lembro-me bem, era começo de noite:
prenúncio de amor!



CHÃO PARADO

busco no éter  um chão pra pisar.
no sonho, paro o tempo fico parado olhando
o chão parado que o sonho não tem.

na imensa paz que me circunda há muito de chão....
mas, paz que circunda, não a tenho!!!

no chão celeste que me cobre vejo um grande stop.
mas só me cobre, não piso nesse chão parado...

em cada milímetro cúbico de angústia, vejo um chão.
e piso a amargura do deserto: miragem...

sinto vontade de cimentar as palavras, os sons,
pra pisar nesse chão.

num lampejo vasto da síntese, vejo a longa sombra
de um chão.
chão parado por que não caminho, não caminho!

na luta ensimesmada do dia, na fria contusão do pó
com o só,
na face oculta da lua, na frase oculta na rua,
nas venezianas semidormindo,
no abotoar das fechaduras de novembro,
no chuvisco lacrimal,
no âmago do peito, no amargo do leito,
na lembrança de um rosto,
na chegança de um agosto,
na falta do que dizer, vejo um chão parado...

se não tivesse a vazante veia da poesia
talvez não sentisse falta de um chão parado.
não alongaria, não descobriria, assim não amaria
algo tão vazio, tão agora, como um chão parado...



REFLEXÃO


se para cada pétala
da roseira dos dias
há sempre oferta
de seiva e sol,

convenhamos,
companheira,

que nesta festa
desalegre resta
ainda a luz do sonho
pois além do deserto
nos espera, ao menos,
o florir de uma
nova aurora!



ANTICANTO


olhas o sol morrendo.
entanto, ignoras
quantas luas roçaram teus pés...

vê: os sons te abandonam
e morrem nos pássaros...

esse poente não é dia morto,
mas fim de vida.

escuta: não vigies
a chegada do caos.

vem, agonizemos juntos
que esse ocaso é o último.








BELLE DE JOUR

essa esteira de passos
madrugando minhas ruas
galga momentos íntimos
inacabados em pensares

outra noite repleta
de silfos e duendes
salpica promessas
no céu do dia a vir

o aconchego dos segundos
bem junto aos ossos
de cada dama
prediz a dança esquiva
das fadas
no arvoredo neblinado
de cada cama

até a renda de ramas
fecundada no envelhecer dos caules
gera furtiva aurora
se insinuando na aorta da manhã

o dia chega e passa vão
talvez seja por isso
que os gnomos adormecem
de repente
no bosque de cada um



ACALANTO REGRESSEIRO


Rebusquemos a alvorada que ontem foi
Lá encontraremos inúmeros regaços
Emersos de nosso oceano.

Urge recomeçar plantio.
Eras margarida, lembras?
Pois serás rosa! (a única)

Siga-me: taparemos nas nuvens a brecha
por onde o luar nos flecha.
Vem, busquemos o gesto de retorno
Em que findamos.

Não importa que entre essa festa
Nossa solidão permaneça.



ÂNSIAS

Ânsia de galgar em suor e beijos
A cordilheira de teu colo
Banhado em calor moreno...

Ânsia de eternizar tua boca
No instante de nosso encontro

Ânsia amarela que antevê saudades,
a minha.

Mas tua ânsia, menina-ânsia
É fome que brota da coluna,
perturba estômago, trafega jugular,
Percorre miséria, apóia enxada
E escorre em baba coração
Adentro.

AURORA 7.300

A noite enselvarada nos convida a procurar
Grandes pérolas e jasmim (regados de mistérios),

E relembra rotas bandeiras piratas,
Incitando abordagens.

Embarco a nau naufragada e singro
O grande pântano celeste
Por entre estrelas movediças...

Atrás de cada relâmpago,
Pressinto o dia que nasce.

Renasço assim toda manhã.
E toda manhã recomeço a própria morte.

E o tempo chove ocasos
na primavera que vem chegando.

Aguardo manso outono-canção
Que virá lançando folhas
mortas ou vivas, não sei.

Aguardo o outono
Que aguardo há 20 anos
E em cada gesto, repito-me em ti!



CAMINHOS

Túneis insondáveis
tuas veias de barro e fogo.
Divergentes apocalipses
as ondas de teus carinhos.

Horizontes de teus olhos,
recônditos cruzeiros,
Túneis fagueiros
mais que belos – intrafegáveis.

Teu colo de alva lama
percorro errante...

Ah! O leito de teus túneis
flamejantes de trompas e vidas,
Meu único caminho!



DOS FRUTOS

Não vens há dias.
É chegado o temido tempo
Das ausências tuas.

Pra mim, época esperada
Em que trajo roupa camponesa,
Convoco caneta-enxada
E rumo pra seara das palavras,
Que lá é hora colheiteira:

Buscar os poemas que tu semeaste
E o destino amadureceu!



ESTUFA


se eflúvio
dolente
mascara
essa noite
(e a vida
lá fora é
mentira
constante)
chega
de orquídeas:
eu quero
uma rosa!



CANÇÃO


sulcando a noite
carrego o arroio
sou sósia do rio
que engole o mar

sou calado refrão
que distante ressoa:
“menos criança nova
embalando rajadas!!!”

coração cansado
sou caverna romeira
de águas nervosas
tinindo de amor

meu criado netuno
tateia a tintura
do dia que nasce
trazendo perfume


sou madruga que finda
defendo ponteiros
assinalo segundos
sou carroça e leiteiro.



LEVITAÇÃO


Acima do abismo
dos afogados
a memória
consome
levitações

De repente,
numa tarde
de trinta chuvas
se afogam
sessenta e cinco
arco-íris.



DESENCANTO


rouxinóis teimam seu canto
mas ele se afunda,
falso gorjeio,
numa floresta de silêncio e bruma.

a cereja se aventura vermelhar
mas seu fruto é só espuma
num chafariz crepuscular.

a magia dessa pluma
não consola meu silêncio
mas tritura meu lamento
com poesia de pó e vento.
MAGIA CREPUSCULAR


Cirandas brincam
de criança na tarde
de um longo verão.
No manto do ocaso
Mágicas violetas
Intervalam dia e noite.

Singrando
a praça rósea do tempo
barcos inconscientes
levam nossa
infância ocasional.



SEMENTES


Os telhados, mas contudo,
amadurecem assobios
passeando revéis
entre pelos de pássaros.

Como bichos enamorados,
os montes assobiam
frutos e harpias
arrepiando sementes.



ESPERANÇA


Há que ressurgir
em uma outra galáxia
um ponto fulgurante
onde a gente se permita
ser mandala.

Há que se galaxiar
as nascentes do existir
onde e quando
renasce em cada ser
um tal ponto candurente.



ESCRITURA

escrevo sobre os ocasos
solitários e pungentes

inflamada de gritos,
a garganta escreve,
desacata o ato...

acaso a febre se encontra
no fim da linha?
até que ponto, febril,
a garganta,
solidária,
 escreve?



PARÁBOLA


profetas,
 (me dizei, Senhor,)
são também  a relva
e o regato

que no campo largo
saciam de beleza
o pastor sedento
e o fazem poeta?



ISCA


no vôo dos ossos apurando o nascimento
de asas alheias  me conservo em ilhas,
translúcido pássaro,  ao sal esquivo
de águas experimentais

o acaso ronda meu peito
peixes e mergulhos bicam
meu corpo de sargaços.

teu fecho se abre em concha.
aberta tua nudez,  tu,  pérola rara,
fisga-me o último verso.



CANTO DE BUSCA


musa brincava de maré
em meus poros e eu não a bebia.

ela era a canção.
seus cabelos, versos inesgotáveis.

era a poesia, a enchente e a vazante,
o mar do meu canto.

veio a revolução:
versos ao operário,

canto à criança faminta
de minha terra sem palmeiras.

canto de Rússia,
amantes, desengano e lutas.

chovi estrelas até,
num natal no Vietnã.

vivi noites...
e que noites!

agora, sedento, sorvo mares
de musas inspiradoras.

mas aquela, meu Deus,
aquela pura, não volta!

a noite é calma.
meu canto, de busca...


franca-sp/1968



INTRÓITO AO LIVRO CANTO DE BUSCA


Era gordo o poema.
Gordo e verde, cheio de sonho.
Sonho e juventude.
Mas ais noturnos
Cantos fúnebres
Pobres universais
Guerras
Auroras roubadas
E o sol último vietcong murcharam-no.
Suas poucas proteínas
Sua gasta gordura
Neste livro expelem últimos versos, eu sei.
Depois, no poema magro
Será profundo o vergão
E nele, como em mim
Haverá um vasto vazio.
Que será da amada?



GRANDEZAS DISTINTAS


às vezes,
imensa dor
mora em nossas células,

imenso amor nos persegue
sem unir-nos,

imenso esforço
adia o colóquio em Vênus...

mas sempre
a esperança e a inutilidade
são em nossas carnes acostumadas
camadas analgésicas
imensas, imensas.



EM PASTOREIO A PIXINGUINHA


gestantes e gestados partindo escravos
duma África enlutada.
na praia o choro de outras pastoras.

pretérito negro lembrando macabro
chibatas terror e grilhão.

não há fuga: todos os caminhos
são negreiros,
todos os gemidos são negrinhos.

no vendaval emerso do ventre das águas
naufraga a galera repleta de breu...

a origem das coisas (das coisas escuras)
e a liberdade comum (comum para todos)
imergem ao longe (naufragam em nós)

e são mortos ideais sepultos no oceano.

mas do canto que havia
e que ficou submerso
restou um murmúrio
uma canção de palmares.

hoje, quando a brisa nos traz
a calmaria das flautas
lembramos pastores
navegando perdidos
em caravelas de samba...



NASCENTE

carinho paterno
de mãos pastoras
afasta duendes
convocando o sol

amorfa fragrância
que noite reprime
suga semblantes
treinando alvorada

trejeito menino
repassa madruga
convida à enxada
prepara mais fome

passo que passa
traduz o regresso
do carro da aurora
roubando-me a lua

e a fuga termina
no dia engasgado
não adianta fugir
que a noite se foi



MINUTO JUNINO


o poema retrai-se
na angústia desse silêncio.
o vazio toma forma e brinca
de São João dentro da gente.

já o verso, envolve-se
de roxo e mágoa.

sonho: primeira bomba
espoucam foguetes: olhos distantes

quentão é pranto alcoólico.

essas danças vagam nos lábios
como palavras não ditas.

triste a fogueira que arde no peito:
coração...



NOVAVINDA


em novembro nosso amor
camuflado de horizontes
brincou de menino-céu
ensaiando pesadelos...

já agora ele vem
ornado de rimas
garimpando em uma lenda
naufrágios de dezembro...


TEMPO

Sim, o tempo.
Esse que chove fino no telhado dos segundos

Que salpica de cãs nossos grisalhos minutos


Sim, o tempo.
Esse que margeia mágoas na noite séria das horas...
Que sangra pombas no altar de cada dia...

Sim, o tempo.
Tempo fazendo serão na fábrica de nossos anos.
Esse que muda tempos
Na meteorologia dos séculos.

Sim, o tempo
Cobrindo de rugas o corpo dos milênios.
Esse que é coração teimoso
No corpo da eternidade...

Sim, o tempo.
Tempo presente sempre
No pensamento dos deuses...



PEQUENA CANTIGA DE PREFERÊNCIA


antes brincar de subdesenvolvido
antes chutar império e (alistas)
antes assoviar cadência inorgânica
antes do sol nascer.

mas nada de nublar pupilas
nos dias de tua ausência:
perderia os beijos que me mandas
disfarçados em aurora!



ANTECHUVA


fico observando...
por aquele vitrô basculante
entra toda nacionalidade
de insetos voadores.

buscam a luz...

amarelos e avermelhados
os aleluiões formigáticos,
picadores e asóides,
ligeiros e desvoantes

dos africantos:
pernilongos e pernicurtos
centenas de colônias.

caucasianos, os asóides  besouros
 falsos, furtacores
e os acastanhos
de forma e cor...



OUTRA VEZ, FESTA

Paira clorofila no ar na hora décima nona...
Roupas virgens no horizonte do varal
Trescalam recuerdos...
As pás gasosas que sempre me molham do céu
Ajudam a soterrar as mágoas da parede nova
Sem caninas experiências...
Longos fios molhados de cobre e vermelho
Sobre a rua formam fúteis um violão
Quase réptil...
Vem o aperto: amígdala e céu.
Vai haver outra vez festa...
Duvido que a mesa suporte a violência do bolo.
Chegam à última hora: amargura, melancolia.
Espero a poesia...
Pardais e andorinhas, quais velinhas acesas
Indicam parabéns e muitos anos de vida...
Nesse momento ouço  palmas.
Palmas tristes embaladas pela brisa, sussurrando.
Palmas banhando-se de sombras esperando a lua.
E o bolo, incendiando-se, sepulta-se nas trevas.
É noite!



ENTREPASSADO


Pela décima lua
Visito a fome liberta que teu olhar encerrou

Luz e breu. Tua chama de cal perdura,
Revelando o belo de nosso pertence único:
O rebento ao lado visitando noturno
O país dos caramelos.

Eras o aconchego que coroava minhas tentativas
E teu ímpeto perpetuou nosso cálido compasso.

A ausência da lama errante
Emanava tributos de nascer ou fugir... Fugiste.

Hoje são minha vida e luta certos passos rolantes:
Massacrando minhas noites,
Predizem a época de teu regresso.




PEQUENO NOTURNO

acordes partem
da caneta operária
rabiscando poemas.

uma brisa
cheia de tarde
ajuda o requebro
do arvoredo.

depois,
arredores de cidade
e rubros lábios da noite
murmuram
miséria e seresta.



RAIAR OPERÁRIO


a motivação dilui-se.
a madrugada põe galos travessos em guarda.
carroças abotoam-se em cavalos ou homens,
não se sabe...
dançam no asfalto os primeiro operários.
abrem-se as comportas das fábricas:
ah! vem o hálito quente e amigo do patrão!

o dia não tarda... será enorme a enxurrada...
outros operários tremem de fome.
fome de justiça.
aos segundos, a motivação dilui-se.
poetas vão dormir...
sonham que a inspiração
foi-se com martelo
na mão dos operários...

tudo é confuso no sonho
e a indagação morre nos lábios desses
que ora dormem...
                                                 franca-sp/1967

SENSORIAL


apelo
profundo
do peito
cansado
é brado
incontido
em verso
adubado.

poema
sacro
falando
de calma
a um mundo
que erra
filho
da guerra!



SOCIETY

rocha e perfume:
massacre diurno
carícia e lodo.

rocha e olhares:
nuanças pobres
cílios postiços.

rocha diurna: rocha não rocha
rocha na luz carne na treva.

rocha carne carne cama
cama rocha doce carne
carne rocha cama carne
doce rocha rocha e cama.



SAMBA

escorrendo
do morro
suando
batuques
vem Maria
fundida em asfalto...

enfeita a cabrocha
a volúpia da lua
e ginga bacana
no meio da rua...











RENOTÍCIAS FREUDIANAS

ao Padinha, Poeta Verde

os cientistas não devem mesmo
pesquisar a relação perigosa
que pode levar o ser humano
à despoesia da vida do amanhã...

o excesso de poesia de hoje
ignorando o verd/ugo do universo
vai desenvolver num incerto verso,
uma ciência mesquinha e malsã...

os poemas poluem em roxo
o campo úbere de uma mente/capta
mas nada que afete a crosta
vida nessa terra tão louçã...

o apocalipse da magia da vida
viceja, inda menino, na poesia
de cada velho que inda moço
habita todo dia meu divã...
                                                                       16-10-2009




TELÚRICA


o poema-terra dorme em mim
tão místico e antigo e meu
como em descuidado jardim,
viceja anônima a erva daninha.

amanhã, de mim ele nascerá

e eu, que o modelei
no ventre terno de minha espera,
vou perdê-lo
para a mulher que me conquiste
ou para o homem que o destrua.




ACUADOS


acocorada no riso demente,
te busco no fundo do quintal.

vem, ternura, traze tuas estrelas,
teus pássaros, rios e afluentes...

entra pela porta da cozinha:
vem puxando tudo o que estava
do outro lado do muro.

coloque-os na sala
e repita pra eles o que
de melhor já foi dito antes.

ajeite tudo, entupindo a porta da frente.

agora o mundo baterá inutilmente,
tentando arrombar nosso lugar comum.



ANGÚSTIA AZUL

ligas o mundo na tomada da tevê
e sob o peso do sofá a humanidade
fica soterrada no escombro dos conflitos.

socorrer-te por um grito?
mas, moras num edifício onde gentes  
de sessenta e quatro apartamentos
cunham distâncias e civilizam as elegâncias.

a varanda te arrasta
e o mar invade tua estrutura líquida
com uma exata obstinação.

os astros te buscam:
teus quadrantes te maestram
pelos destinos surdos
até que uma estrela sinistra
 à porta de seu buraco negro
 irrecorrivelmente engula
tua noite redonda e farta...

adormeces enfumaçada:
os cigarros do vídeo filtram
tua extra-longa paz.

tua angústia invade a humanidade azul.

o exílio dos veludos dorme em tua fuga
e nos lençóis dos conflitos
descobres o destino dos cronômetros.

teu chinelo de lã jaz esquecido à borda da lareira...



CANTO NEGRO DE ADOLESCENTE

primeiro roubaram as laranjas inda verdes.
cresceram inventando truques, batuques:
fizeram festivais, uúdistuques.

harpejaram fogos,
lançando pianos pelas portas do mundo.
estilhaços de violão na plateia...
pra não dizer que não falei de flores...

estalaram as asas, afiaram os fios das guítricas eletarras, romperam rotina e mataram o tempo.

com violinos iconoclastas
bolinaram órgãos catedrais:
sim, preconcebidamente violinaram

com órgãos desnudos a vida contida
e a falsa escada que levava ao grito.

aí assaltaram as barbearias
e com navalhas na carne
colocaram com ódio ritual
nas bocas desdentadas pela vida sem sentido
a mordaça da primeira mordida.



CANTO DE BUSCA
(letra para uma música de Kátia Bento)

morenamada,
virás como essa
madruga bela, pálida já.
com essa boca de sol tão pouca
com esse baton de nuvens afins

às voltas que dei eu dei
dei voltas que nem cantei
e foram novos caminhos
esses caminhos por que eu passei

busco a fonte a ponte
e vou pra frente
que lá tem gente
tem horizonte
chegando dobro à direita
direita não tem estrada
eu insisto a caminhada
e não encontro nada

estrada, que é de ti?
estrada, que é de ti?

mas, pra onde eu vou
se os caminhos que eu conheço
já foram caminhados?
e eu sem direção levo no passo
a madrugada, minha espera
e esta canção?

meu canto é de busca
quero um cais chegada
um horizonte perto, a morenamada
horizonte certo
que virá como essa
madruga bela, pálida já!

amada, que é de ti?
amada, que é de ti?

eu vou pra frente
que lá tem horizonte!
eu vou pra frente
que lá tem horizonte!



CRAVO DE FERRO

quando eu senti que tu paraste,
pronta a parir o grito
que grávida carregavas
(como um cravo de ferro
que te furava a alma prestes a romper),
quando senti que teu grito agudo
podia estilhaçar o cristal do céu poente
em chuva de granizo,
derreti com beijos molhados e quentes
o gelo que te cerrara os dentes
e deixei que tu soprasses pra dentro de mim,
da tua para a minha garganta
 – precipício onde escolhestes morrer –
o último de teus alentos.



FONTE


porque não adivinhei teu assovio chamando
e tirei o paletó quadriculado
para agasalhar teu corpo colegial?

era só ir à procura da chuva,
desfolhar minha filosofia barata
à tua janela e navegar para ti em um barco de papel...

porque não adivinhei primaveras
descendo agonizantes do volume real
de teu olhar sem óculos?

porque eu fiz brotar desde o teu coração de flor
um alcançável mundo?

o que eu realmente queria era por à tona do mundo tua alma, translúcida fonte!



FELINA

quando um silêncio listrado
rondar seus versos saiba:
do bote imprevisto nascerá um poema

(juntamente com o tigre
que salta do solo
também nos ataca um pouco do chão:
em todo depois sempre existe
um pouco do antes)

& no poema nascido e no poeta ferido
sempre haverá além das rimas
a marca das presas da fatal poesia

& assim também o salto ferino
e o sangue da vítima sempre estarão
nas listras do tigre que inaugurou o poema.

SAGITÁRIO


teus sinais:
setas armando vôo,
alturas vincadas
em sangue e expectativa.

teu arco retesado,
bovinos galopes
fogem de mim.

pensei que fosse horóscopo,
mas é sina, questão de signo.

tuas flechas alucinadas
singram o zodíaco

e ferem de amor
meu touro signal...



MANHÃ

tecendo um chão de aves,
os parques apanham canções
nos estilhaços do sol.

parques estilhaçando cantos
tecem pássaros
concertando ao sol.

canções bicando aves
consertam parques
sol(e)ando estilhaços.

bicando pássaros,
parques tecidos de estilhaços
apanham do chão o sol.

bicos passarando parques
apanham sóis tecendo canções.

na canção dos estilhaços,
aves tecidas de parques
brincam de sol e(m) mi(m)...



                       primavera/1984
NOTURNO

ouve meus sinos: meus anseios em seiva
diluindo teus sonhos.

essa música palpável de realejos e violinos
acorda o em-fado do mundo...

ouve meus sinos: não tenho armadura!
me estilhaço nas ruas,
meus braços e passos buscando sinais.

essa placa musical de realinos e violejos
esbate os contornos do mundo.

ouve meus sinos: a esquina do tédio
adormece ao longe...



RECEITA


pra fazenda da viúva
dona poesia nacional
a enxadáspera
o estrumelódico
o caloema
o gadológico
a mudardente
a sementespessa
do armazém da viúva
dona minas gerais.


RETORNO
                            para  Maria de Lourdes Hortas


ainda existe em meu tempo a raiz do canto:
a ponta final dum fio de lã.
vou-me enovelando, passo a colher
coqueiros pontes praias passagens...
me calo en/fados...
me lembro das fontes - virei menina! –
amoras me tingindo de grilos e primaveras...
fios azuis se avolumando... acho o dito castiço,
o lusitano falar... adeus, sotaque mestiço!

tingem-se de rosa as faces da menina em mim:  alouram a tropical morena. tudo é alumbramento:
longes rios brasileiros donde saí...
passo o Equador.
aí minha alma rubra vacila adivinhando
clarins, guitarras e vozes atávicas...

sete mares me trouxeram a ti, ó Tejo!
no cais, recomposto, meu xailinho pra frio...



SUBVERSIVA

eis minha barba:
traços gramíneos numa cara ajardinada...
a navalha passa,
ceifando pelos poros fiapos de mim...

miro o espelho:
diminuído, estranho, me desconheço.
meu canteiro ligeiro, onde, Zico Barbeiro?

no rosto escanhoado,
a loção e a certeza:

sob essa ausência, submersa na pele,
presença sedosa, a raiz permanece...



POESIA E CHÁ

não! não quero ser aquele
que faltou ao encontro.
pode me esperar,
estarei aí sem falta...

quero estar à mesa
quando o chá for servido na varanda.

no horizonte, um lago de águas calmas,
uma ilha, montanhas ao longe.
ouves o mugido da rês?
ouves a pomba que chama?
é quase o fim da tarde.
o azul se enverdece em nosso jardim.

não! nem pensar! não quero faltar.
quero estar à mesa quando forem servidos
poesia, Mozart, flores, chocolate e chá.



O LADRILHO
                                   para Zé Bonito, o Ébrio.

quero estar distante bastante
para lhe agarrar um sonho.
preciso sonhar de novo com novas e coloridas tranças-crianças balouçando-se em meu espelho...
quero sonhar ser mármore,
logo eu, ladrilho - de ladrão com andarilho...
quero sonhar momentos-mármores,
quero deixar me embalem
os risos fáceis de vassouras e rodos...
quero as coisas mais etéreas menos chão:
os cismas e os criados, as crinas e as crianças.
quero o sapatear balofo e zonzo dum bêbado
me invadindo os sonhos
nas noites mais frias dos becos...
e nesse meu sonhar ladrilhante
me envolvam nas noites cálidas
alguns arremedos marmorejantes...


abril/1975

PICTÓRICO

no retângulo perfeito
dos gestos contidos,
morrem submersos
nossos desejos sabotados.

ah! de nós tantos sonhos afogamos
que nos tornamos espectros sufocados.

quando cantarem as sereias,
boiarão enfim
à tona das lembranças
nossos retratos desbotados.



OLVIDO

começo a esquecer
e não adianta anotar:
olvida a lembrança 
o que foi anotado!
envelheço de mim,
como um pobre coitado...

se escrevo um verso,
 só disfarço o cansaço.
não existe o remédio
que me foi receitado:
desnascer-me de mim, 
de pé ou deitado...

o pensar já me pesa
e o poema é um fardo.
começo a olvidar
o que sabia de mim:
o que estava anotado
não me foi receitado...

mas o poema insiste
em fazer-se lembrar...

o remédio é um fado
que disfarça o esquecido.
onde achar o passado
se o que fui está perdido?

começo a escrever
e não existe cuidado:
esbarro na palavra
que tenho procurado,
e não adianta chorar
a letra derramada.

a poesia é em mim
o próprio delírio!
pras vistas cansadas
que tenho na alma,
a busca dos versos
é meu único colírio...

o poema reclama
do peso da idade.
envelhecem também
o vapor e a umidade:
disfarço em lágrima
o que chamam saudade...

deitado eu esqueço
o que de pé anotei.
sem fim ou começo,
quem sou já não sei...

sem receita ou remédio
meu fardo é meu tédio.

não adianta ajuntar
os meus cacos no chão:
o que resta perdido
já fora esquecido.

disfarçando o sofrer,
começo a esquecer!
o bem mal me quer?
onde anda meu trevo?
o que ontem escrevi,
já não reconheço:
não recordo o que escrevo,
apenas esqueço.

lembrar-me dos versos
em vão eu aguardo...
sem receita ou remédio,
o enfado é meu fardo.

não vivo nem vegeto:
desaconteço.
por dentro de mim,
sumiu minha história.
não me resta memória...

já sem poesia então
Senhor eu lhe peço:
esquecido meu canto,
num canto envelheça.

outubro/2009



CONVERSA NO BAR DO SIMPATIA

e a propósito do delcídico trauma
com os campos plantados em milhos
arroz soja café, tudo em parceria,
sabendo ser muito doutor-escritor
economista e advogado, leituras
paulistanas buscadas com avidez
pra fugir ao pacato recanto-alvo
das assertivas: coivaras, a minha,
onde a vida é vivida, simplesmente.

e ser proprietário de faculdades
paranormais, dotado de veículos mil,
garotas e esposa, niveladas cronistas
sociais e tudo, garanto, passageiro
e efêmero como o movimento ondular
da água quando o senhor passa
de lancha do continente até à Ilha,
a sua, onde a vida é explorada,
estudada, bicho e gente, donos!

sabendo fico e lhe digo, Delcidinho
que certo Dirceu Quintanilha falou
e disse: apenas somos proprietários
enfim, com certidão definitiva, daquilo
que ninguém pode sonhar por nós!
e no meu sonho me agarro e parasito.
e no meu sonho sou festa feito eu só.
como um cão que fareja um osso fantasma
ou uma lebre coruscando na frente
dum leopardo: esse é o reino e o sonho!

                       Delfinópolis-mg/11-04-1979




PRIMAVERA


agora,
a tímida flor do carinho
que se vestia de amarelo-agonia,

nua,
ousa enfrentar com espinhos
o escuro verde da folhagem que a cobria...



VERTICAL


no alto mar do tempo
 existe uma ponte:
ali o meio-dia nos refrigera
pelos canudinhos da brisa.

na alta ponte do mar
existe um meio-dia:
lá, bebemos o vento
pelo tédio dos relógios.

no alto meio-dia da ponte
existe um mar de relógios:
a sombra dos ponteiros desaba
sobre nossa brisa de tédios.



 BRANCO

no branco agora habito.
vivo num longo, estreito,
inodoro, geométrico corredor.
ele é branco.

tem nas laterais o que seriam
fachadas de prédios,
mas só se eu pudesse imprimir
um tom mais escuro de branco
nessa longa mancha clara
que é uma lateral do corredor...

como o branco aqui não varia
de tonalidade, estando só, puro,
não se vê as fachadas dos prédio
nas laterais do corredor:
mas que estão lá, isso estão!

no branco agora habito.

o longo corredor tem no piso
sentimentos paralelepípedos
onde piso descalço e sinto
o branco comum a todo corredor:
frio, liso, gélido, tiritante, quiabélico...

nalguma poça que não existe
tem águas claras molhadas
de branco, num único tom possível...

no branco agora habito.





VESPERTINA


minutamente
goteja teu sol
em minha praia...

fugiram de mim
as horas da tarde.

abandonaram-me os sonhos
no exato começo do sono.

solidão adentro,
ardo sem ti.



                 PRAÇA NOTURNA


em mim
onde se escondem os preâmbulos
e perambulam os bêbados
e onde a sombra
escuta o maduro das fontes

permaneces semeada,
adivinhando o lamento de teus frutos

em mim
onde se escondem os sonâmbulos
e onde a escuta amadurece
o fontear das sombras

quedas no aguardo
do rebrotar das eras...



CENAS


Nos sábados, a cidade acorda pontualmente às seis da tarde.
Um movimento eletrizante percorre os homens vindo da roça
de cavalo, de bicicleta, de carroça, de condução e a pé.
E e as ruas começam a receber os passos campônios,
as alpercatas cansadas de quem pisa a terra maciamente

O rolo de fumo da venda do Perival gira sem parar
desenrolado/desdobrado e múltiplos cigarros de palha.
Em todas as vendas, o açúcar flui desde as alvas sacas
como que hipnotizado e se junta sem nenhum racismo
ao café que muitos compram, levam e coado tomam.

Os pés rachados se dilaceram nos calçamentos da cidade

Às vezes, entram na igreja pra missa das sete a cada 15 dias
e há os cumprimentos rituais  - mais importantes
do que a celebração litúrgica.

As luzes se acendem quando a noite chega cobrindo tudo
com um luar amarelo-queijo e a estrelaria parece vir abaixo
de tão coruscosa e brilhante.

Então os curiangos navegam o espaço de petróleo e bruma.

No bar-e-mercearia do Azamor na esquina de minha casa
os homens: sábado à noite.

Mitos terão cortado o cabelo e feito os bigodes no salão
do Zico ou do João Barbeiro.

Os homens enquanto compram e tomam pinga e beliscam
tira-gostos eles namoram a tevê
magnetizados assistem à pública TV-chamarisco do bar
seus semblantes lembram o das crianças deslumbradas:
um riso franco e um brilho nolhar.

Antes de vir, alguns se arrumam o melhor que podem,
julgando  que são vistos na TV da mesma forma que vêem.
riem só quando é hora de rir e pouco entendem
das notícias televisadas em rico português.

Depois saem e fica o ambiente das luzes fluorescentes,
fica o cinescópio em atividade mágica e os homens,
levando as compras para casa, vão parando pelas esquinas
e conversam com velhos conhecidos.
Nunca os vi preocupados em saber como se faz uma televisão.



Nos sábados à noite, os homens vindos da roça
onde suaram semana toda a lágrima das enxadas,
sentam-se na sarjeta defronte à minha casa
e se põem a falar de mil coisas.
Entre elas, de chuva floradas colheita castração pescaria pombas
do bando juritis dourados piaus tropa etc  etc

Nunca os vi falando do crepúsculo ou do luar.
E acho que não precisa de palavras quem tem suas jornadas
balizadas pelo nascente e pelo poente.

Chegam lá pelas seis-e-meia
 e vêm chuveirados – cabelos úmidos.
sua conversa vai até tarde e, mesmo depois que me deito,
continuam a conversar defronte à janela do meu quarto.
uns chegam e logo se vão
outros se integram na assuntaria e outros ainda nada dizem
sentam e ouvem e pitam e riem e olham
para o bar em frente, como se contassem
quem entra e quem sai de lá.
Nunca dizem palavrões.
e me acostumei a dormir ouvindo seu papo campônio
como se fosse um acalanto.

Sob o poste que há em frente da minha janela
os homens se postam: aí é passagem obrigatória
pra quem vai ao jardim ver a fonte e ouvir música
quando no jardim tem música e ligam a fonte luminosa.

Um assunto banal da boca dos caboclos vira notícia
e se sabe muito da alheia vida
e que se vai abrir um cinema e que as mulheres
mesmo de resguardo vão para a entrada desde umas
três horas antes de começar a sessão, levando embornais
cheios de pão com salame e laranjas já descascadas
e dão e darão leite dos peitos para crianças choronas
que dormirão um sono repleto de fotogramas
coloridos isso tudo se o filme for do Mazzaropi.

E um conta duma caçada e mente a mais não poder
e recebe um “seis-milho” em coro e cora
e outro diz verdade que vai funcionar a fábrica e pagarão
muito bem pelo leite e que o sindicato foi aberto e faz
muita coisa de graça pra fazendeirada etc etc

Uma beata passa e ouço um contar
que lhe fez um elogio e ela lhe disse que não era
merecendenga daquilo e que ele retrucou
que apesar de tudo ele é que não se julgava
mecerendengo dela (risos) e vão por aí afora...

A prosa vai se costurando de retalhos emocionais
e linhas douradas de pureza cabocla
e eu, cochilando, batizo a assuntaria de
“repórter osso”, e a esquina sob o poste,
de “rádio rã, a voz do brejo”

Minha mulher gargalha fino e baixo
enquanto faz ninho entre meus braços
e roça suas pernas recém-depiladas
em meu baixo-ventre.

aí a madrugada me engole:
ofegante e elétrica.

                                                    delfinópolis-mg/1975






                 TECER A NOITE


numa paisagem de outrora
com muros de pássaros
e jardins de sabonetes
a brisa da tarde anuncia
a ciranda das estrelas.

nos varais de borboletas
o sereno principia escuridões.
nas varandas perfumadas
pacotes de assuntos
sucumbem ao silêncio do ocaso.

no tear dos cabelos se fiam sonhos
e mulheres na calçada são
flores de fogo de ávidas pétalas.
banhadas de poente crianças
sorriem esperas de café com leite.

ônibus chegam despejando maridos
e na miragem das esquinas
a lua deposita canções extintas.



VESTAL


curvo-Me a teu mudo apelo
e por ti Me apago, poeta-dama
ao saber-Me objeto de teu zelo
ardendo já inútil na fulva rama...

agora, como quem, humano, ama,
quero findar em ti Minha procura:
fazer-te de Minha sarça a chama
tornando Templo tua vestal ternura.




ALMA NO VARAL


eu, um apenas cabide,
me visto
de divindade dançarina:
lavada em líquidos gestos divinos
quarada no aroma dos varais celestes
alvejada na forma humana
 de quem me criou.



IMAGEM E SEMELHANÇA


à porta do templo,
no caminho da miséria
um deus faminto se despe
da graça e divindade.

enquanto o homem
põe no lixo
seu irmão e semelhante,
Deus esgravata lágrimas...

em sua tristeza derretida,
Deus chove!




INTENÇÃO


o que você conseguiu
com sua intenção
foi fazer brotar
à tona do mundo
e no coração da gente
sua alma translúcida
e em cada flor
uma fonte...



GAIVOTAS


certa vez enlouqueci e cantei,
translúcido, acordatas e conjugamentos:
lá o verbo matar não tinha modos
e nosso tempo era também nossas vozes...

desgaivotaram em adiantamento
um desbotar de rosas esmagadas
e estrelaram as queimaduras
em que navegam as explosões.

esse meu tropel se adianta
ao apocalipse e passa sobre mim:
adiantar, rosear, estrelecer,
navegar e gaivotar: adianta sim!

já enlouqueci, certa vez e aí retive em ti,
indefinindo minha sensatez
meus poucos conseguimentos:

o vôo das rosas,
o pó dourado das gaivotas,
o perfume das estrelas
e um navio pra todas as rotas!

(das veias meus restos se vão:
são palavras em sangria.
em meus poros cada letra
sua um horto de agonia...)

só poderão falar-me de casos contrários
vagueando em meio a tempestades e bonanças
enquanto isso, nossas gaivotas, poucas,
vão cantando mansas, degoladas e loucas.



SUBSOLAR


numa réstia de outono
não vejo raios de rol
se filtrando pelas
cortinas rupestres.

um luar de pânico
reverbera no vidro noturno
dessa caverna de signos.

em meu rito de silêncios
saltimbancam ruínas
fosforescentes.

em minha cova rasa
flutuam jogos e enigmas
retangulando-me
neste subvoo entre
raízes de ervas.


                                               novembro/2013
HORTO INTERIOR


meus braços quedaram inertes.
libertei os sonhos
que transformavam meus campos de lírio
em desertos de fogo e fome...
inda sinto no corpo de cravos
um cansaço de espadas quebradas...
ah! quantas batalhas naufragaram
em meus olhos...
quantas derrotas minhas mãos apalparam.
nas pedreiras de minha ilusão
quanto granito meu peito abraçou...
construí muralhas e castelos, hoje ruínas.
escravo, amada, quantos palácios,
quanta glória suspirara por ti.
agora sei: meu trono era a brisa,
os sonhos que me fracassaram
estavam retidos na alma dos dias...
meu rosto de bronze era barro.
e no meu “peito de ferro”
habitava a areia do tempo.
dispo-me de mesuras e túnicas.
resta apenas entrar
na cadência do presente,
cumprir a primeira valsa
e, no encanto dum ritmo fértil
amar a verdade de seus cabelos reais...

toma, amada, o manto da fuga...
vê: lá se vai nossa inocência.
sim, querida, nessa noite
de catacumbas e sombras
pairam entre calvário e sepulcro
a coroa e o diadema
do reino que perdi...



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