domingo, 26 de março de 2017

CONSIDERAÇÕES DE MARIA DE LOURDES HORTAS SOBRE "A REVOLTA DAS TAMPAS: A ONÇA NO QUINTAL"



Meu caro amigo Oscar Kellner Neto.
Muito agradeço o imenso prazer que me deu, oferecendo-me o seu mais recente livro, para leitura em primeira mão.
E, mais uma vez, pude constatar:  tudo aquilo que  afirmei em despretensiosos  comentários acerca dos anteriores, vem confirmar-se neste mais recente.
Outra vez você desenha a bela paisagem mineira, com sua fauna e flora, seus costumes, sua cultura, sua fala peculiar.
Além de confirmar a sua excelente ficção, este livro muito nos ensina sobre a sua  riquíssima região. E creio que seria de bom alvitre levá-lo às escolas, como um livro para didático. O que, parece-me, só  lhe acrescenta o mérito.
Paralelamente à linguagem inventiva  que caracteriza a sua escrita, você mais uma vez recorre aos recursos do "realismo mágico", para revelar o momento atual, não só brasileiro, mas universal.
AS TAMPAS são uma metáfora da revolta geral, muito além das cordilheiras de Minas, trazendo a preocupação não apenas com a sociedade contemporânea, mas com o nosso planeta e os descuidados  valores ecológicos.
Resta-me desejar-lhe muito sucesso com este livro notável,  bem como muita saúde para que, por muito tempo, possa continuar um ser humano de primeira linha, oferecendo arte e beleza ao seu país e ao mundo.
Grande e fraterno abraço da
Lourdinha Hortas.
Aldeia, 25 de março de 2017
5.39h de uma bela manhã, escutando a alvorada dos pássaros. 

Maria de Lourdes Hortas nasceu em São Vicente da Beira, Portugal. É poeta e escritora. Participou de várias antologias nacionais e estrangeiras. Bacharel em Direito pela UFPE (1964) e licenciada em Letras pela FAFIRE (1976). Participou da coordenação do Movimento das Edições Pirata, Recife, de 1980 a 1986. Recebeu vários prêmios, entre os quais o do Secretariado Nacional de Informação, Lisboa, pelo livro Aromas da Infância, 1964;  Prêmio Fernando Chinaglia, UBE / RJ,  para o romance  Diário das Chuvas; Prêmio Mauro Mota (Fundarpe) para Outro Corpo, poesia, 1988; Prêmio  Jorge de Lima, da Academia Mineira de Letras, para  Fonte de Pássaros (poesia), 2001; prêmio José Cabaça da UBE, RJ, para o romance Caixa de Retratos, 2004. Fez parte do conselho editorial do jornal literário Cultura & Tempo (1981/1983), e da revista Pirata Edições (1983 /1984). Foi, durante várias gestões, diretora cultural do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, onde atualmente exerce o mesmo cargo, sendo também diretora da revista Encontro  da mesma instituição. •  Tem 9 livros de poesia publicados, entre os quais Fio de Lã, Outro Corpo, Dança das Heras, Fonte de Pássaros e Rumor de Vento. Organizou as antologias Palavra de Mulher, poesia feminina brasileira contemporânea (1979), A cor da Onda por dentro – poesia para crianças (1981)e Poetas Portugueses Contemporâneos, 1985. Como ficcionista publicou os romances  Adeus Aldeia, Diário das Chuvas  e Caixa de Retratos, este último traduzido e publicado em Buenos Aires ( 2008).  Lançou recentemente sua obra poética completa em edição virtual sob o nome RUMOR DE VENTO.


E-BOOK



oscar kellner neto



   


a revolta das tampas:

a onça no quintal




- estória -



Delfinópolis-MG
2017



Copyright©2017 by Oscar Kellner Neto

Editoria, Capa e Revisão: do Autor

Endereço do Autor:
Rua Sebastião S. Silveira, 302 – Centro
CEP -37910-000 – Delfinópolis-MG
Tel.  (35) 3525-1009

Editora Clube de Autores
www.clubedeautores.com.br























Dedicatória



para os filhos
Gustavo
Luciano
Aninha


para os netos
Gabriela
Ângelo
Adélia













para
Maria Alcina,
amor de toda a vida





Sumário

a revolta das tampas: a onça no quintal


I -  de chás e onça - 7
II - o princípio - 11
III - a senha - 25
IV - a transmutação - 36
V - de febres e iscas - 40
VI - de olhos e toneis - 45
VII - de fechos e togas - 54
VIII - de macacos transfusos - 65
IX- The Tampa’s City End - 71
X - de senhoras florescentes - 74
X - libertação - 78

Lembranças de Lucimília - 88
Biobibliografia - 97
Fortuna Crítica – 101
Opiniões Diversas – 112






I -  de chás e onça
                                            

N
a horta, bem mais adiante dos agriões e maracujás, sempre margeando o riachinho, um garoto podia se perder num verdadeiro intrincado de angélicas, avencas, samambaias e taiobas.
Detalhes quem conta é a dona Lucimília: - Nós as colhemos, todas as semanas. Folhas e raízes. (Ela prepara as folhas de taioba como se faz com as da couve, enroladas com suficiente aperto, depois cortadas em rodelinhas miúdas, em que se verte limão, o azeite e o sal, para comer crua, ou se refoga, com o alho, a cebola e outros temperos, pra comer afogadinha. Dela se come ainda o tubérculo cozido, como se faz com as batatas.)
Dizia a cozinheira: - Essa aí não só alimenta como ajuda a combater doenças do fígado. (Sim, também, depois da cocção, a raiz, espécie de batata comestível, pode ser amassada e misturada a uma farinha, no preparo de um tipo de pãozinho assado que o povo aprecia demais. Por ali a taioba é muito respeitada. Às vezes, dona Lucimília amassa suas folhas para cobrir feridas expostas. Também nos casos de tumores, aquece as folhas socadas num pilãozinho e as coloca, mornas ainda, cobrindo todo o inchaço.)
- A raiz ralada crua tem efeitos cicatrizantes e, cozida, ainda quente, em emplastos, alivia dores reumáticas – ensina dona Lucimília. Essa raiz, a “batata” da taioba apresenta escamas e gemas das quais nascem novas plantas.
Contudo, dona Lucimília, que sempre divulgava a planta abençoada, e dá mudinhas dela pra quem lhe pede, nunca permitia que as crianças fossem sozinhas ao recanto das taiobas. Dizia-lhes que já encontrara por ali, no quintal, uma solitária Onça-Pintada, tal jaguar, tão temida por todos,  devoradora de gente,  mascando folhinhas de ervas, perto das águas. Achava que aquilo que o bicho mascava para apurar o suco até fossem umas sementinhas de alecrim-de-cheiro, o de flores azul-violeta, a-mor-de alívio de sarna. Ou seria pra alívio de seus espirrados atchins? Pois que o povo saiba:  esses frutinhos simples e secos do rosmaninho, com suas mínimas e aderidas sementes melíferas, possuem várias propriedades cosméticas e medicinais e ainda se indicam para tempero culinário.
A mulher sente de longe o ronronar do fascinante felino quando ele, vibrando os músculos de sua laringe, produz o característico ruído que as mães selvagens costumam fazer exclusivamente enquanto cuidam de seus filhotes. Já seu esturro, ela sabe, é uma vocalização de saudação, exclusiva das grandes espécies felídeas, com um som semelhante ao de um espirro, utilizado como cumprimento entre animais amigáveis.
Dona Lucimília, quitandeira de forno e fogão, pumzemplo, costuma barrer o forninho de barro da varanda-de-fora, após aquecido com a queima da lenha em seu interior, com uma vassourinha feita com uns ramos de alecrim colhidos na hora, deixando a cúpula assadora impregnada com uma essência cuja virtude perfuma as roscas, quitandas ou carnes ali assadas.  Costume antigo na roça.

O emaranhado das angélicas e samambaias margeando o riozinho e o folhedo atapetando o solo poderiam de fato esconder até animais miúdos, além de cobras e lagartos. - Mas uma onça?! Os moleques disso duvidassem, em reinação.
Dona Lucimília afirma que o chá da angélica cura a histeria, certo achaque de terror pânico, em que o corpo padece por causa de uma desregulagem da ideia.
Sustenta ainda que a planta fortalece o estômago, é tônica, depurativa e, em casos de febre, provoca o suor. Sim, segundo ela, a odorífera angélica possui olhos e óleos essenciais e angelicina e, pelo que diz, tem lá suas propriedades medicinais contra tais males psicodélicos.
Quando lhe perguntam sobre a pantera, dona Luci esclarece que ela mede cerca de metro e setenta de comprimento, pesando uns 120 quilos, e que tem o corpo com manchas negras, amarelado no lombo e branco na barriga. Uma pintura artística, semelhasse. E que é realmente uma Onça-Pintada, espécime felina ameaçada de extinção, completou, emendando ainda que, de vez em quando, pode-se ouvir bem ali pertinho seu urro.  Ela conta ainda que esse rugido de alta sonoridade, é comumente usado em disputas territoriais.  E que sua capacidade de rugir vem de sua laringe e o hióide,  -  pequeno osso em forma de ferradura situado na parte anterior e média do pescoço, entre a base da língua e a laringe, -  especialmente adaptados para este fim.
Diz que ela consegue produzir sons de "escarrada", "chiar", rosnar e miar.  Os três primeiros são usados num contexto agressivo, podendo indicar posturas defensivas e de ataque contra espécies diferentes ou em disputas entre a mesma espécie. O miado é usado como um chamado de curta distância, normalmente entre a mãe e os filhotes, ou como um chamado de média distância durante a época de acasalamento. Também é comum ela produzir sibilos e silvos em variadas situações.
Fala ainda que, como outros felídeos, a Bela Protetora possui vibrissas, uns como "bigodes" altamente sensíveis fincados profundamente dentro da pele do focinho que lhe fornecem informação sensorial a respeito de qualquer movimento mínimo do ar, sendo muito úteis na caça noturna.
Ficava até mais crível a existência do bicho pintado zanzando por ali, com tantos pormenores fornecidos pela mulher.



II - o princípio


E
la e seu marido muito labutaram, consequenciando razoável abundância de teres e haveres. O casal não teve filhos. E, conquanto tivessem agora seu pedaço de chão, seu “Sítio Aprazível”, ainda usam suas confortáveis apragatas e os móveis antigos, ainda de seu casamento. Deitam maior estima no primeiro guarda-comida que compraram, ainda em uso.
Veneram ainda pelas paredes, o retrato do casamento, o quadro – lindo com suas figuras em relevo – do Sagrado Coração de Jesus e de Maria, imagens e estampas de santos, velhas fotografias de parentes.
Dona Lucimília e o marido ainda plantam numa rocinha ao lado da casa os mantimentos do gasto, contando sempre com o adjutório dos amigos e vizinhos, no mourejo dos mutirões. Na horta-de-couve cultivam hortaliças – verduras e legumes, e no pomar as fruteiras variadas, vendo-se ali toda a sorte de frutas. Tudo organicamente fertilizado. Nunca usaram produtos industrializados.  Para os fumantes e as pessoas prejudicadas pelo ácido úrico, como é o caso de seu Rolério,  o agrião é uma grande ajuda para a limpeza do organismo, por isso a “floresta” deles às margens do riozinho.
Para seus chás, Dona Lucimília tem sempre às mãos as plantas apropriadas bem como as inúmeras ervas com efeitos curativos que cultivam por toda parte do quintal,  tendo adquirido conhecimentos empíricos para a manutenção da saúde, bem como para a prevenção, tratamento e cura de doenças, traumatismos e afecções.
Está ali o cálamo-bravo, espécie de junco, de folhas setáceas e luzidias, espiguetas em guarda-chuva, alongados frutinhos secos, calosidades tônicas e carminativas no caule que ela usa contra problemas estomacais.
Encontra-se por ali também canteiro da alfavaca-remédio, diurética, cicatrizante, digestiva e indicada em casos de tosse.  Já a alfavaca de cheiro, a de folhas mais largas e grossas, agrada muito como tempero, folhas desidratadas e moídas, podendo ser usada com leite, cremes de coco e mel – tendo um sabor semelhante ao da canela.
Pelos conhecimentos que carrega, Dona Lucimília é considerada excelente medicatriz.
Vivendo de modo natural, o casal vende saúde, apesar do fumo prejudicar um pouco os bofes de Seu Rolério.
Contudo, nem ela nem o marido conseguem entender o que anda ocorrendo com as tampas dos utensílios da casa.

Começou num dia dezesseis de janeiro - ela marcou na folhinha! - de manhã ainda, quando dona Lucimília ia saindo do quartinho da despensa em direção à pequena pia da cozinha: foi aí que estacou, como uma palavra parada ao pé da língua. Seus olhos não entendiam o que viam: na segunda trempe do fogão de lenha, levitava a tampa do caldeirão de ferro onde estivera cozinhando o feijão em seu fogolento. Dentro, o alimento continuasse inda tépido, finda a longa cozedura noturna.
Persignou-se, olhando com fé para o quadro de São Benedito, protetor das cozinheiras, pendurado na parede do lado da pia. Com esforço, fez de conta que não era nada, com o que a peça ficou um tempo ali flutuando e depois voltou sem graça e lentamente para sua função de cobertura. Dona Lucimília, instantes após, chegou a pensar que aquilo tinha sido como se alguém estivesse mostrando gentilmente a ela que o alimento já estava cozido.
Falou com o marido, e o casal, num primeiro instante, cogitaram esse fato meio estranho como sendo um trem apenas afeiçoado àquele compartimento muito asseado da habitação onde se preparavam os alimentos.
Ainda que varressem sempre a superfície interna do teto da cozinha, olhando-se para o alto, veem-se as ripas, a caibraria e as telhas do cômodo untadas de muita fuligem e aqui e ali, por vezes, suspensas, suas decorrentes picumãs.
A queima contínua da lenha libera aquela fumaça gordurosa que também adere às paredes vizinhas ao fogão construído num canto do cômodo. As picumãs, aos poucos, vão se aderindo também por dentro da chaminé da casa.
Essa fuligem, matéria preta, gordurenta, formada pelo acúmulo de diminutas partículas oriundas da queima do lenhoso combustível e que se vai colando no interior do duto por onde a fumaça do fogão escapa para o ar livre,  exige limpezas anuais, para que o tubo não  se entupa, fumaçando o ambiente e descontrolando a sucção das chamas e o calor enviado ao forno.
O aparato cozinhante movido a lenha só se acende uma vez, de madrugadinha, e vai-se controlando a intensidade do fogo durante o resto do dia, com a chapinha de registro no pé da chaminé logo acima do forninho, e o abastecimento de madeira, deixando o feijão pra cozinhar lentamente, com pouco fogo, noite adentro. O fogão amanhece apagado, ensejando varredura e coleta das cinzas e um novo acendimento.
Armazenam as cinzas para eventual mistura com água fervida, na obtenção da trivial decoada, usada no fabrico do sabão de quadro, ou ainda para alvejar roupas.
O braseiro vivo daquele abençoado fogão, além de fornecer as brasas necessárias para o funcionamento do seu ferro de passar roupas, assa vez ou outra um naco de carne fresca de lombo no espeto de ferro dotado de dois pés que lhe permitem girar em seu eixo.
O bule de café, depois de cheio de manhãzinha, com o apoio do coador sustentado pelo mancebo, fica ali sobre a trempe, cuidando-se dele para não sofrer fogo forte, e permanecer em sua mornidão.
Com a borra do pó já usado, aduba canteiros de plantas e vasos de flores.
Para lavar e clarear sua pia branca e o chão da cozinha, mistura o pó do café coado com o sabão que ela faz e esfrega com a ajuda de bucha e esfregão. Depois é só enxaguar e pronto! Fica limpinho! 
Depois das limpezas, gosta de esfregar as mãos nesse pó de infusão a fim de mantê-las claras e macias.
Dona Lucimília e seu marido gostam de tomar o café sempre morninho. Ela vive explicando pro pessoal que após as refeições o café morno facilita a digestã e amolece as gorduras das comidas para serem expelidas mais facilmente. Ah! Fala também pra não se tomar água fria junto com o de-comer, e nem depois das refeições, pois ela endurece os cabedais oleosos dos alimentos, retardando e protelando sua assimilação pelas tripas.
- “A pois”, ela diz, “o líquido resfriado reage com os azedos do bucho, indo a água para as tripas com maior ligeireza do que as comidas, provocando inchaço na barriga, eis que as gorduras endurecidas ficam se remoendo na porta do piloro por muito tempo, sem passar pro duodengo, enchendo o cristão de gases indesejáveis.”
(As tripas a que se refere dona Lucimília, são os intestinos da pessoa. Um, o delgado, a parte do intestino em que se completa a digestão, e que se estende do piloro – a abertura que faz a comunicação entre o estômago e o duodeno -  ao ceco, abrangendo o duodeno, o jejuno e o íleo. E o outro, o intestino grosso, a parte que se estende do íleo ao ânus, formando um arco em volta das circunvoluções do intestino delgado e abrangendo o ceco, o colo, o reto e o canal anal.)
O casal mitiga sua sede com água pura trazida da mina, acondicionada e conservada fresca dentro da eficiente talha de cerâmica, bojuda e generosa, posta em sua cantoneira num encontro de paredes longe do fogão.  Ali, na antiga bilha de barro, a água potável quase chega a gelar no inverno.  Também usam dessa água para cozinhar, fazer café e chás diversos.
Para o banho, apanham a água do rego que tiraram do riachinho e que desce em uma bica bem ao lado da morada, perto da janela da cozinha. Ali também lavam os utensílios domésticos.
A bem dizer, a fumaça num ponto é até bem vinda e usam lenhas de bom odor para as defumações que ocorrem acima do fogão, mais para o alto. Numa vara do mato, apoiada sobre o alto da parece lateral e presa pela ponta, mediante arames, à viga da cumeeira por sobre o fogão, como dito, dependuram-se em exímia acrobacia,    a-mor-de defumação, as grossas linguiças, as vazias e limpíssimas tripas salgadas, nacos de toicinho temperado e panos de pele suína.
Em geral a madeira bem seca, rígida e densa das árvores frutíferas é boa para a defumação, como cerejeira, jabuticabeira, macieira e goiabeira, mas qualquer madeira dura e livre de resina serve para defumar alimentos. Ali eles usam também o ipê, cedro, jacarandá, carvalho, orabutã e a nogueira. Preferem usar em pedaços grandes o material dos galhos recolhidos pelos matos.

queima destas madeiras gera compostos químicos que atuam na cor e no sabor característicos deste processo. Além do sabor característico também evita o ranço e inibe o desenvolvimento de bactérias, auxiliando na conservação dos produtos.
Dona Lucimília sabe que cada tipo de madeira vai gerar um sabor específico, desde os mais adocicados aos mais complexos, pungentes e marcantes. O tempo de exposição e o calor empregados também são fatores fundamentais para a qualidade final do produto. Em geral, ela o expõe por poucos dias, pois quanto mais fumaça for absorvida menos sabor restará do produto em si, ficando apenas os tons fortes provenientes da fumaça. A distância da fonte da fumaça influencia o tempo de exposição. O local ideal para a cura é aquele que ela costuma usar.
Na parede, por sobre a pia da cozinha, do outro lado da estampa do Santo Benedito, fica o suporte das tampas das panelas. É feito de dois arames regrossos, de 80 centímetros de comprimento, esticados paralelamente um ao outro, na horizontal, a uma distância de 12 centímetros e amarrados nos respectivos quatro pregos de esticação. Elas são colocadas ali, após lavadas e areadas, entrando pelo arame de cima que serve de apoio aos seus pegadores e o arame de baixo que as mantêm presas firmes à parede.
Ela achava intrigante ver os utensílios ali vibrando em metálico frenesi, quando a Solitária Protetora rugia no quintal. Onças, como todos os felídeos, são normalmente discretas, astutas, têm hábitos noturnos e gostam de viver em habitats relativamente inacessíveis. Mas esta tem o Dom e foge à regra!
Numa tarde, a canguçu saiu para sua habitual e demorosa caçada nas matas da vizinhança. Lá nos grotões ela põe em ação seus dotes de caçadora. Além de possuir um olfato extremamente apurado e desenvolvido, ela tem um órgão no céu da boca que lhe permite sentir o “gosto” do ar. Contudo, sabe-se também que, devido a uma mutação do gene de suas papilas gustativas, ela é incapaz de sentir o sabor doce. Este dado permite concluir que, ao contrário do que se propala, as onças não tem predileção em atacar pessoas negras, por terem um sangue supostamente mais adocicado.
Nessas incursões, a vigilante paladina, usa seu esqueleto especialmente adaptado para saltar e seus membros anteriores e posteriores todos com eficientes garras retráteis, ligadas ao osso terminal dos pés, que tanto ela pode "guardar" dentro dos dedos em posição de descanso ou enquanto caminha, como pode prolongar para frente em um ataque.  Tem cinco dedos em cada mão e quatro em cada pata traseira.
Sua dieta é muito variada, e suas presas vão de rãs a veados, passando por preás, tatus, preguiças, macacos, jacarés, capivaras e antas. Desde pequena também se acostumou a comer pipocas, fritas e estouradas na banha, com pedacinhos de torresmo defumado. Com sal! Gostava por demais e sempre aceitava uma merenda delas que lhe eram servidas, quentinhas, na costumeira peneira de taquaras.
Com as papilas salientes que possui em sua língua, a exímia predadora raspa a carne, a retira dos ossos e degusta grandes pedaços. Compondo uma lixa orgânica, elas também contribuem na auto-limpeza da dentição.
No outro dia, quando dona Lucimília após refogar o arroz, pegou ali para colocar na caçarola de sempre uma simples tampa, esta ficou grudada em sua mão, atraída por um certo magnetismo, recusando-se a cobrir a vasilha de ferro. Punha-a sobre a caçarola, mas ela se recusava a deixar sua mão.
Desta vez a cozinheira não pode fazer de conta que não notara o acontecido. Aquela peça só se desgrudou de seus dedos quando a colocou de volta em seu suporte na parede.
No lugar onde a pesada peça pregou-se em sua pele, depois ficou um formigamento que custou a passar, como se tivesse sofrido ali uma câimbra.
Então pensou: - Ora, se a Fulana é outra, e não está tentando me mostrar que o alimento já está cozido, é porque quer me forçar a entender alguma outra coisa, por exemplo, que tem uma novidade acontecendo com a idéia desse povo Tampanélico!
Foi só o animal se afastar dali que, aproveitando-se da sua ausência, os covardes utensílios oportunistas deflagraram a Revolta.
Daí em diante, fruto de um miserável conciliábulo malévolo, em algumas panelas com alimentos já cozidos, as TL[1] começaram a não se abrir, impossibilitando o consumo do alimento. Outras, porém, se recusavam a fechar certos tipos de panelas, como por exemplo caçarolas de cozinhar arroz, panelas de ferro de três pés que Luci gostava de usar pra esquentar a carne de lata. Se a cozinheira teimasse em tapar a vasilha com um prato esmaltado ou uma tábua de bater carne, logo esses utensílios eram expulsos com violência para o alto. Ali não se cozinhava mais!
Foi uma tortura pra Dona Lucimília, que se gabava bastante da sua bateria de panelas, caldeirões e caçarolas de ferro, pois sabia que previnem a anemia com a lenta liberação de partículas ferrosas que se mesclam aos alimentos. Dizia: “ - São duráveis e, inda que pesadas, mantêm o alimento sempre quentinho. É só lavar e secar bem, antes de guardar. Não me dão trabalho.”
Estima sobremaneira o antigo caldeirão que foi de sua mãe, onde faz a boia para os camaradas nas ocasiões de mutirões. Tem ele uma argola de suporte por onde é pendurado sobre uma fogueira ou é içado quando o usa na fornalha da varandinha. Nesse fogo, ela também torra seu café num outro caldeirão de ferro, mediante cansativos giros de colher de pau, quando a portinhola do tambor do torrador, por onde introduzia os grãos para a torração, parou de se abrir.

As tralhas da cozinha recolheram-se em humilhante insignificância ao seu compartimento no guarda-comida, do qual tiveram que tirar as portas que não mais se fechavam, contaminadas durante a ausência do animal protetor. Na parte de baixo, os recipientes vedados por suas teimosas TI[2], o bule – cujo capô com dobradiças não mais se abria, as outras, que não aceitavam sobre si as sobreditas coberturas, como caçarolas, leiteiras e caldeirões.
Na lida, contudo, podiam-se usar ainda, a frigideira, a rabina de latão com cabo, panelinha  em que  fervia água, assim como a chaleira de tampinha benta – presente do padre no casamento, - as formas de bolo e as vasilhas de tender biscoitos e quitandas para irem ao forninho da varanda, mágica fábrica de delícias, donde saíam rosados pães-de-queijo. Estas ficavam à mão, na prateleira do meio do guarda-comida.
Na despensa, o jogo de tachos de cobre, sempre luzindo em avermelhado asseio, pareciam implorar por utilização. Ali penduradas, sempre disponíveis, as bacias de alumínio para o banho-de-caneca e o escalda-pés.
Mais à mão, na prateleira superior, a panela de barro de fazer sopa, cuja dês-tampa há tempos se quebrara, a terrina de louça sem-tampa, as canecas, os dois copos de vidro, os cinco pratos esmaltados, as seis xícaras de cerâmica com seus pires, o bulezinho pra café sem capuz, colheres, garfos e facas de mesa e outros tipos de talher.
As panelas de barro, bem curadas pela cozinheira, puderam ser usadas também. Indo tanto ao fogo como ao forno, mantêm a quentura do alimento, apesar do manejo custoso por serem bem pesadas. Ah! Ela ainda usa bastante suas terrinas de porcelana para sopas e caldos bem como seu antigo jarro de cobre.
Um lençol ainda sem uso foi pendurado à frente daquela mobília para proteger os trens do pó. A comida tinha que ser consumida de imediato pois não havia onde guardá-la dos insetos: essa era a  nova Inácia, a bordo desse barco de opressão.
O jogo de panelas de alumínio que possuía, com o qual fora presenteada no casório, ela nunca tinha usado, dizendo que não eram boas para a saúde! E que apesar de leves e práticas, por esquentarem com rapidez, a comida se grudava em seu interior, deformavam-se demais com o tempo e ainda liberavam o perigoso metal, aos poucos, nos alimentos nelas preparados. Permaneciam guardadas em sua embalagem original em cima do robusto armário onde o casal guardava seu vestuário de cama, mesa, banho, roupas de lida e agasalhos.
Dentro desse guarda-roupa, as peças que não viviam em gavetas se empoeiravam, inexistentes as portas, dele retiradas por não se fecharem mais, fascinadas pelo bruxedo durante a ausência da onça.  Cortinas de lençóis no vão das ex-portas protegiam só mais ou menos da poeira.
De se notar que Dona Lucimília nunca imaginou que do outro lado de Coivaras, no Mundo adiante das Minas Difundidas, havia cozinhas industriais fornecedoras de refeições para empresas e penitenciárias, bem como cozinhas próprias de hospitais, quartéis, escolas, restaurantes, orfanatos, asilos e abrigos humanitários, onde as TQ[3] dos enormes caldeirões e panelas também haviam se sublevado em meio a toda aquela fermentação revoltosa, impedindo a cocção de alimentos em geral. E toda noite as xacocas rabacués passaram a ensurdecer o povo com um malhar cadenciado sobre as cândidas vasilhas, no arremedo de um cântico de efêmera glória.
(Da mesma forma foram prejudicadas creches, jardins de infância, manicômios, leprosários, sanatórios, recantos geriátricos e casas para deficientes e assemelhados, atingindo destarte os institutos de assistência e beneficência em todos os continentes.)



III - a senha


A
s TU[4] começaram a impor condições de vida insuportáveis para o casal. Intrigava vê-las, sem exceção, em determinadas horas, três vezes por dia, voltar-se em reverência na direção de Rochdale, cidade da Inglaterra, onde surgiu em 1844 a primeira Cooperativa do Mundo.

Antes um motim silencioso, agora uma vez por noite ocorria o Epinício, um simulacro de hino triunfal, festejando uma vitória inventada. Era um tampanaço ensurdecedor das TR[5] malhando em conjunto sobre as indefesas panelas.

Quando a dona-de-casa parou de colher os ovos de seu sustento, pois suas galinhas encerraram a postura ao deixarem de comer e beber em razão dos bicos lacrados, e quando viu que seu capadinho na seva emagrecia com fome, enjeitando o milho e a lavagem que não mais lhe desciam pela goela abaixo, fez um gesto de impaciência e insurreição que suscitou, em um longínquo recanto de mato, a emissão de um urro estrondoso do Soberbo Felino que, vindos dos grotões e ecoando no quintal, desencantou o suíno e as aves, tirando-as daquela agônica condição sonial.
É que os animais do terreiro tinham sofrido como que uma alteração da consciência, marcada por reduzida sensibilidade a estímulos e perda do conhecimento do que sucedia à sua volta.
Seria o modus operandi das Excêntricas Tamposas?
Dona Lucimília gosta de engordar um capadinho, mas também domina seu preparo para o consumo.  Não é jejuna nesse assunto de arrumar capados.
Quando chega o dia do abate, ainda de madrugada, Seu Rolério “fura” o cevado, colhe o sangue a mor do chouriço, sapeca com as palhas de bananeira, raspa os pelos crestados, escalda com água fervente e esfrega com os sabucos, deixando o couro limpinho. Ele torna a ajudar depois, no processamento das carnes. Enquanto isso, mastiga com sal e limão um pedaço de “péia”– que tirou do porquinho depois de chamuscá-lo, que serve de tira-gosto pra uma dose de pinga pura.
Já abrir e esquartejar em peças é com ela. A faca peixeira feito um bisturi cortando asa de pernilongo, vai pra suas peritas mãos trinchantes. Com o porco deitado de costas sobre folhas verdes de bananeira-prata, apoiado em pedras limpas, patas afastadas para os lados, despachada e cirurgiã o vai abrindo, do queixo, passando pelo esterno, até o umbigo. Ali dá o arrodeio e continua até os confins do corpo do porco. Parte a bacineta da ossada. Cuidadosamente tira a barrigada, corta o bicho em duas partes com a machadinha. Extrai as costeletas, restando em suas mãos a parte inferior do lombo do porco, a  assuã. Esta, por ser carne mais perecível, costumam consumi-la mais depressa, de variadas formas.
Depois colocam o capado em um jirauzinho coberto com folhas verdes de bananeira-maçã  que serve de bancada e ela passa à desossa das peças,  destrinça da carne. Passa à obtenção do toicinho e da banha, a que envolve os órgãos internos. Separa as carnes: umas vão pra fritura e conservação na banha frita e outras ficam para consumo rápido e pra defumação.
Seu Rolério lava as vísceras na água da bica, obtendo os rins e o fígado e outros pertences, ajuda na limpeza das tripas. Elas serão recheadas depois com as carnes picadas em miúdos pedaços e toicinho, bem temperados, tornando-se deliciosas linguiças.
Na fornalha da varandinha, controlando o fogo com maestria, Seu Rolério frita no caldeirão de ferro dos mutirões o toicinho picado em pedaços pequenos pra obtenção da gordura que, após solidificada, usam no dia-a-dia. Ainda espremem com cuidado os torresmos fritos, para apuração total da banha.
As peças de carne maciça após bem temperadas e fritas em uma tacha de cobre, no fogo controlado da boca maior do fogão da cozinha, se conservam nos latões de banha macia talhada.
Enquanto o marido com a grande colher de pau vai mexendo o toicinho até dar o ponto do torresmo, Dona Lucimília cuida do ponto de retirada da carne frita na banha macia e a subsequente armazenagem de ambos em latas apropriadas.
Para o almoço, após bem cozida e apertada na manteiga,  escorrem o excesso de óleo da suã, e a misturam no arroz em cozimento, comendo com mandioca. Cumprem assim o ritual de consumo tradicional do dia dos abates suínos.
Eles não consomem carne-de-gado.

Boas lembranças, mas agora o barulho flagelava o casal de idosos com desassossego e insônia, e passaram a viver em condições de extrema opressão, desespero e privações: um verdadeiro martírio. O termo pesadelo não define com precisão o terror que se apossou deles. Foram ficando com os nervos à flor da pele ou com os nervos à pele da flor ou com a flor à pele dos nervos ou com a flor nos nervos da pele... Não se soube exatamente que termo empregar para esse caso de confusão mental advindo da Tortura.

Foi até que Dona Lucimília um dia exasperou-se, perdeu a paciência e gritou: “- Mas que tampas mais revoltadas!

Aí a calamidade barulhenta e opressora generalizou-se por toda a face da Terra.
Estas palavras mágicas de constatação eram a senha que esperavam, traiçoeiras, para instaurar a grande rebelião, o irreversível enlevo por todo o Mundo! A partir daquela hora todas as tampas existentes, como que em transe, foram tomadas pelo malefício e eclodiu a sublevação!
Mas qual o motivo e o propósito das Revoltosas Autoritárias? Seriam dias de provação? O Purgatório, isso fosse? Seria a travessia do Vale Tenebroso? Qual o escopo? Um holocausto holístico?
As TE[6], na verdade, formaram uma enorme “panelinha” - deveras um panelaço - para, no conluio, mancomunadas, criarem a tramoia, dito complô. Conjuradas, há tempos, maquinavam o cambalacho, tramando todo um tanglomanglo perturbativo.
Nas oficinas de produção, aos poucos, aqui e ali, tanto em Coivaras das Jazidas Gerais, como do seu outro lado, no Mundo, encerrou-se o fabrico de todo e qualquer tipo de panelas, caçarolas, caldeirões e similares, pois a matéria-prima se recusava a transformar-se em uma manufatura de Tampa. Sem os complementos para serem usados, tais utensílios se mostravam inservíveis.
 Aqui e lá, a cozedura doméstica experimentou horas de inércia.
Como ocorreu no passado, na aldeia de Guidansqui, nas Polainas, nascia entre as  TP[7] do planeta um inexplicável movimento de Solidariedade.
Os telejornais bem como as notícias dos tablóides, periódicos e informativos puderam, no início do motim tampático, dizer em frases e letras garrafais que estava disseminada em várias partes do globo terrestre o que chamaram de “A Revolta das Tampas”.
Quando essa Desordem teve início, o planeta correu sério risco de extinção por desencadeamento de explosões nucleares, a partir de um pequeno defeito a que ficaram sujeitos os silos de armazenamento de foguetes com ogivas nucleares, depois de abertos pelo revoltoso magnetismo e expostos à temperatura ambiente por falta de fechamento de seus imensos portões corrediços de aço.
Mas, ato contínuo, os dispositivos foram desarmados pela desmontagem e retirada telecinética das coberturas-estopins dos explosivos que detonariam os mísseis balísticos intercontinentais. Aí, ao se tornarem inofensivos, a ameaça desvaneceu.
Aos poucos, tudo o que pudesse influir na segurança e na privacidade de um móvel ou imóvel foi depravado pela insubmissão.
Janelas e fenestrais de todo tipo: de vidro, de venezianas, de madeira maciça, aço, PVC, vidro, alumínio, enfim, tudo aquilo por onde entrasse ar ou claridade, ia aderindo ao Levante Danoso por “comparação assimilativa” termo agora de uso corrente entre as Espécies Tampáticas. Enrolaram-se nesse puxão cortinas e persianas.
Nas ventanas dos conventos e nos confessionários vedam-se as aberturas ou grades através da qual se podia observar o que se passava fora, sem ser visto, ou se comunicar com alguém evitando contato direto. Foi o fim da clausura e o advento das confissões auriculares.
Tudo que parecesse ou divulgasse semelhança com os objetos que cobriam panelas, foi cuidadosamente pervertido pelo hipnótico encanto. Esclareça-se que este encanto, no entanto, não era da índole daquele dote natural ou artificial de uma pessoa que exerce sobre outra uma benéfica atração, fascinação, ou sedução.
Até, pasmem, a expressão roer tampa de penico, que se refere a passar dificuldades, estar em má situação, não pode mais ser usada.
Ainda nesse começo, numa bela manhã, naquele horário em que todos os intestinos costumam fazer liquidação e liberar espaço para renovação de estoque, muitos estranharam nas nádegas o friúme da cerâmica dos vasos sanitários, agora desprotegidos, sem os costumeiros conjuntos de assento e (ex)tampa, fossem eles pobres ou ricos, macios ou rijos.
Era bom quando ainda havia água nas tubulações domésticas.
As portas e janelas das residências, por telecinesia, algumas vezes se lacravam de forma a não permitir a entrada de ninguém nem a saída das pessoas que estivessem dentro. No interior, as portas dos aposentos imitavam as exteriores, deixando gente trancada em quartos, cozinhas, banheiros e salas.
Noutras moradas, as PeJ[8] não mais se fechavam, deixando de existir para seus moradores qualquer tipo de privacidade dentro das habitações e em relação ao exterior,  bem como qualquer tipo de proteção contra a invasão de malfeitores.
Felizes os que naqueles dias habitavam sob tendas.
Bolas esportivas de modo geral não mais se enchiam, tapados os furos pelo Lastimável Conjuro. Com os pneus de todo tipo, idem aconteceu: válvulas emperradas nos bicos das câmaras de ar.
Constou-se que o objeto imantado pela Desarmonia Tampanélica ficava revestido de um campo de força magnético virtualmente indestrutível.
Tentaram tudo para abrir ou fechar locais ou compartimentos vítimas do encantamento: arrombamento, demolição, bombardeio. Debalde, nada surtiu efeito.
Tudo dominado: portas, postigos, frestas de igrejas góticas, claraboias, frinchas, fendas, trincas e janelos!
Gaiolas viram partir seus pássaros quando tiveram violadas suas portinholas e aberturas para ração. Libertas quae sera tamem.
O Comércio Mundial emperrou, proibidas imPORTAções e exPORTAções.
Nos manicômios, não restou um interno fechado. Os ocupantes de calabouços, masmorras e gulags ganharam a liberdade com a abertura fascinática advinda do bruxear das TB[9].
Portas de UTI, Centros Cirúrgicos e Áreas de Confinamento dos hospitais deixaram de isolar tais recintos. Autoclaves não mais lacravam, impossibilitando a esterilização dos instrumentos, por falta de pressão para a ação do vapor de água.
Os tampões hospitalares, esses cilindros de gaze ou algodão, para retenção de hemorragias nas salas cirúrgicas ou para obstrução de canais ou cavidades, foram relegados ao desuso, impedidos de vedação.
Os pavilhões auditivos, inicialmente não aceitavam mais a introdução dos prosaicos e inadequados cotonetes. Daí para a auto-obstrução foi um pulo: instaurou-se a Era da Surdez!
Inaugurações foram impedidas. Sumiram do comércio fechaduras, trincos, maçanetas, e todo tipo de material trancático, travado em sua serventia.
Em toda a Terra só restaram ilesas as tramelas e trancas da Morada Primordial.
Templos, mesquitas, catedrais e sinagogas desistiram de reabrir suas portas, espalhando seus fiéis, numa profusão de cultos pelas vias públicas laterais aos prédios ”interditados”.
Nos escritórios de contabilidade, por todo lado, não mais se conseguia preencher os Termos de Abertura e de Encerramento dos livros contábeis e dos registros de escrituração fiscal. Encerrou-se a Era do Caixa Dois!
Outrossim, foi decidido pelas Ousadas, que todos os instrumentos de sopro, e aí incluíram os acordeãos, sanfonas, bandoneóns, gaitas de fole e concertinas não mais aceitariam a entrada de ar que os fazia funcionar. Foi o fim da Música.
Encerram-se as apresentações de peças teatrais. O pano do cenário não mais se abria.  “Ingressos” não mais puderam ser vendidos. As entradas dos atores em cena foram desautorizadas e os que ousaram desobedecer não saíram mais do palco.
Nas oficinas de ferreiros, os foles que produziam correntes de ar para animar a combustão das áscuas, foram impedidos de fazê-lo, possuídos pelo labéu. A manufatura de ferraduras e de outros utensílios entrou em colapso. Esquecidos num canto, jazem outros instrumentos e utilidades do trabalho: bigorna, cravos, fornalha, malho e tenazes.
Uma antológica polêmica em torno do enquadramento dos telhados e coberturas de todos os tipos como um gênero de guarnecimento Tampélico provocou grande alarido no QG das Tampas Mentoras. Houve troca de desaforos, sopapos férreos e rangidos metálicos na homérica discussão ensurdecedora que durou vários dias e que concluiu pela exclusão do tema da pauta de suas deliberações.
Enquanto isso, penavam indefesos e insones Dona Lucimília e seu velho, os legítimos detentores do direito de posse, domínio e propriedade daquela vivenda.
Houve uma tentativa de adesão à rebelião por parte das janelas e portas da sede da Estância Aprazível, aliciadas pelas Sublevadas Originais em sua imantação, que tanto supliciava os velhos da casa. Mas as trânsfugas estacaram em seus caixilhos, batentes e ombreiras - como que hipnotizadas - ao se lembrarem do bramido da pantera, ao longe, no interior da mata, que trouxe de volta à vida o porquinho e as galinhas.



   IV- a transmutação

Q
uando os alimentos de modo geral escassearam no condado de Minas Alastradas, do espaço celeste de Coivaras foi surgindo uma figura esquálida, hologramática, trajando um surrobeco feito em tear manual, montada em um corcel negro, tendo numa das mãos uma balança e na outra uma câmera cinematográfica digital portátil de infindos recursos. Sempre observando em visão panorâmica, dizia algumas coisas ao povo, referindo-se a uma grande fome. Que era preciso salvar o planeta, a partir do respeito à natureza.  Anunciava: - “Preservação do meio-ambiente!  Já dizia Maiakóvski: -  Que a Terra gema em sua mole indolência: ‘Não viole o verde das minhas primaveras!’”
Pregava, por atitudes, um retorno à natureza como a melhor maneira de viver, como vida ao ar livre, alimentação natural, etc. Exibia em nuvens de pequeno porte pequenos filmes, cujas tomadas foram feitas no Recanto Aprazível, mostrando dona Lucimília atuando na conservação do solo, da flora e da fauna locais.
Dizia: “Estamos numa época inane de valores ecológicos! Os discursos são frívolos e fúteis, ocos e inúteis!” E rimava, em prosa, por força do antigo hábito de poetar.
Kid Natureza, como o denominaram em poucos dias, procurou palavras adequadas para alertar o povo sobre o desequilíbrio global do planeta. Explicava em termos acessíveis que, devido à ação humana, principalmente através de atividades industriais e do desmatamento florestal, a Terra-Mãe experimentou no último século um período de aquecimento cada vez mais acelerado que vem provocando grandes desastres ecológicos como furacões e tornados, secas e queda na diversidade biológica. Inda mais, que estudos de previsões dos efeitos desse aquecimento mostram que o derretimento das calotas polares por ele provocado, podem afetar as correntes marítimas, daí decorrendo longos períodos de forte glaciação no hemisfério norte, principalmente na América do Norte e Europa, enquanto o hemisfério sul sofreria um forte aquecimento.
Governos poluidores, replicando, argumentaram que, na verdade, estaríamos em vésperas de uma nova era glacial, já que em média o planeta experimenta 10.000 anos de era quente a cada 90.000 anos de era de gelo, e que esse aquecimento global evitaria uma nova glaciação e seus característicos contratempos.
O Demônio Louro, por exemplo, apregoa que o efeito do aquecimento global não representa um aumento de temperatura em todo o globo, mas sim na temperatura global média. O debochado Louro fazendo pouco caso dessas previsões, incentiva a instalação de atividades que aumentam a emissão de CO2 na atmosfera.
Unindo imagem às palavras, o Paladino a certa altura bradou: “- Olhai e vede!” E exibiu numa nuvem de médio porte um como treiler de filme em cinemascope mostrando uma mula sem cabeça e o seu cavaleiro, com um nome em fogo no peito: Morte e um exército de demônios o seguindo. Mostrou como lhe será dada autoridade sobre a quarta parte das Serras do Orbe para matar os povos pela fome e por meio de feras da Terra que retornarão da extinção ocorrida na última glaciação, como os mamutes, os leões-das-cavernas e os tigres-de-dente-de-sabre, em cobrança pelo desrespeito à Natureza.
Sem dúvida, a aparição vaticinava a devastação a que as TC[10] levariam o Mundo. Estava claro que esse cavaleiro andante anunciava a chegada de hecatombes e fomes horríveis, assim como pestilências, doenças e morte. Ele não se importava que o rotulassem como “aquele que se dedica à defesa de causas consideradas utópicas ou quiméricas”.
Essa geração orgulhosa, de dura cerviz, começará a ser punida com rigor. Por isso, a cissura nas relações amistosas das TI[11] com os humanos. Estas, agora na condição de Precursoras do Ódio, promoverão tal rompimento para mostrar aos homens o espírito rebelde e independente com que eles estão corrompendo as coisas naturais.
Mas eis que algo ocorre na eneblinada manhã coivarense.  O homem do cavalo negro transmuda-se em um cover do Cavaleiro da Triste Figura! Nesse exato momento surge ao seu lado cavalgando uma obesa alimária, um personagem bizarro, um richarte fabricante de versos, garantindo que nunca fora picado por mosquitos ou barbeiros - e lhe prometendo ser fiel escudeiro. E o novo Dom Chicote, ex abrupto, o denomina  Sem-Chupança e o sagra pagem com o carinhoso apelido “Gorda Fábrica de Poesia”.  
E nada mais se consegue ver através da bruma criada pelo hálito quente das montarias.



V- de febres e iscas


E
m decorrência do destampamento irreversível de caixas e reservatórios de água limpa, e também pela falta de secagem de locais com chances de proliferação, onde se acumula água limpa, como pneus velhos, cisternas, vasos de plantas e outros, um vetusto inseto remanescente da bimilenares Pragas do Faraó[12], um tal pernilongo-rajado, hoje conhecido por “o Odioso do Egito”, voltou a fustigar as regiões tropicais e adjacentes do planeta, transmitindo agentes infectantes, donde a epidemia de doenças que cognominaram aqui, nas Coivaras das Minas Dispersas,  por febre dona Zica, febre do Chico Cunha e a febre do Denga, o choroso.
Esse mosquito egípcio, conferiram, nem mede um centímetro, aparentando-se inofensivo, janota em sua cor de cuia ou de jabuticaba, zebrado de branco no cangote e nas pernas, que de finas nem peso acusam.
Em si mesmo não carrega malfeitos. Não tem más-intenções. Mas se pica um organismo doente, de imediato recebe a doença, fica infectado pro resto de sua vidinha e se torna vetor. O Mal se transmite quando ele re-pica em outra pessoa! É aí, quando inocula o malefício pelo furito da picadura.
Costuma picar de manhã, mais cedo, pra encerrar de vez o expediente matutino e depois volta de tarde, aos cafus, isso pra evitar o sol quente, e se engana quem pensa que não ataca nas horas quentes. Mas só à sombra, pois ninguém aguenta trabalhar nesse calorão! Alguns ousam picar até de noite e isso dentro ou fora de casa.
O bicho é tão manhoso que não se percebe o momento da picada, que não arde nem coça, porque ele injeta ali no furico da sucção um analgésico ancestral que suprime o incômodo.                                                       
Nessa raça de praga dês-humana, a fêmea é que pica as pessoas buscando o sangue pra alimentar e maturar os ovinhos de seu bucho. Dizem que, hematófaga, ela procura alimento num raio de até dois mil e quinhentos metros! Os machos só servem para a reprodução e, conforme voz corrente, alimentam-se apenas de substâncias vegetais e açucaradas. Vejam que folgados!
Pois é nessa fase de acasalamento que as mosquitas zebradas mourejam atrás de sangue a-mor-de garantir o desenvolvimento dos ovos.
A mãezinha pernalonga tem ainda que escolher os melhores locais para botar seus ovos e garantir a eclosão dos mesmos.  A fêmea por isso considera, na postura, os diversos elementos que podem influenciar no crescimento das larvas, como a temperatura, a incidência da luz solar e a existência de resíduos de matéria orgânica no local. As larvas do Execrável do Egito são sensíveis à luz, o que faz com que se desenvolvam melhor em águas turvas.
Se o lugar estiver seco, aqueles ovículos tamanho de um grão de areia se seguram por vários meses, até a chegada das chuvas, e o acúmulo de águas paradas que assegurem a incubação. Uma vez submersos, eclodem, transformando-se ligeirinhos em larvas de que se originam as pupas. Ah! dessas aí saem Odiosos já adultos, picando a torto e a direita. Ora veja: qualoutro ovo fertilizado dura tanto assim no seco?
Conclui-se que o negócio é cuidar da prevenção, não deixando nenhuma água acumulada pra eles!
Pra manter os bichos à distância, efetuando em seus domínios controle biológico do inseto transmissor das Gripes, dona Lucimília sempre cultivou ao redor da casa uma leguminosa, a Crotalária Juncea, usada nos jardins para a adubação verde e controle de nematoides, esses parasitas subterrâneos de vegetais. A planta atrai as libélulas, tais papa-ventos, insetos voadores do bem, que se alimentam das larvas e adultos do Odiento Egípcio por toda a redondeza. Ela plantou várias linhas da flor, em covas distantes cinqüenta centímetros entre uma e outra, em local ensolarado, pondo duas sementes por cova, a dois centímetros de fundura.
Cuida apenas pra que os ruminantes e os pássaros não se intoxiquem com a ingestão cumulativa de suas folhas.
Conta-se que um moleque curioso se aproximou tentando apanhar uma flor dali e ganhou dela um dolorido estorcegão.
Mas dona Lucimília não ficou apenas com essa frente de defesa. Ela e o marido tinham mandado trazer da região de Itajuhy, ao norte das Coivaras dos Veios Genéricos, tempos atrás, alguns de-coques, juipongas, rãs, jias e pererecas para protegerem de insetos indesejáveis o jardim, a horta e o pomar do Sitiozinho. Hoje ela constata que foi a melhor coisa que podiam ter feito em benefício da natureza e para o controle daquele meio ambiente e que deve muito aos anuros. Os sapos, de grande desenvoltura e línguas de mola, mantêm em equilíbrio o lugar, capturando insetos de toda espécie, em toda etapa de sua evolução: ovos, larvas e pupas.
Como os sapos, seu marido tem mania de descansar as pernas ficando agachado de cócoras em uma sombra enquanto pica o fumo e monta o seu cigarrinho de palha.
Diz a ela: “- Mília, vou ali na fresca do abacateiro, enrolar um pito, tirar umas fumaça e já volto.” E enquanto fazia isso, ele realmente se agachava, de-coque, para descansar as pernas, na postura usual de um verrugoso bufo-bufo. Tem estima por esse pé de abacate, pois o chá de suas folhas já aliviou dores nos rins e na bexiga, e sempre o usa como diurético e lombrigueiro.
O casal, como Adão e Eva, gosta um tanto de passear pelo Jardim à brisa da tarde.

No riachinho onde bebem as angélicas, há piabas, gambevas, cascudos e lambaris muito sadios e de ótimo sabor, que gostam um tanto de se reunir em um pocinho um pouco mais profundo, numa volta do curso d’água, mais próximo da casa. Ali seu Rolério gosta de pescar com sua varinha de cana-da-índia bem flexível, com um anzol-mosquitinho de estimação.
O chão rico em matéria orgânica do quintal inteiro é generoso em iscas para pescaria. Com uma batida de enxadão já reviram com o terrão abundantes porções de minhocas, as preferidas dos lambaris. Tem um lugar especial para cavar em busca de gusanos, isca infalível para as gambevas e cascudos. As piabas preferem uma iguaria que ele cria em caixotes com pequenos orifícios de ventilação, em meio a panos úmidos, na escuridão total, para poder alimentar filhotinhos que escapam quando caem dos ninhos. São os tenébrios, os bichos-da-farinha, na verdade larvas de um certo besouro que chega a medir até 8 cm de comprimento, com coloração violácea brilhante e reflexos esverdeados, o tal mãe-do-sol,  o vaca-loura,  que  solto na natureza é muito nocivo para as verduras e legumes.
Seu Rolé nunca voltou do córgo sem uma fiada de peixes variados, que tem prazer em escamar e limpar.  Dona Lucimília, daí um pouco, com esmero e crocância,  frita a pesca na banha de porco com uma pitada de sal.


VI - de olhos e toneis


T
udo o que pudesse influir na segurança e na privacidade de um móvel ou imóvel ia sendo corrompido pela Revolução. Portas de todo tamanho, forma e finalidade, começaram a se achar na condição tampífera: alinhavam-se portinholas, portões, grades, portas giratórias de todo tipo, catracas, portas de elevadores, portas de guarda-comida, portas de guarda-roupas. Portas de armários embutidos, de abrigos de roupas embutidos, de closets, de cozinhas planejadas.
Grades protetoras de bocas de lobo, de caixas de inspeção de redes de esgoto, portões de estacionamentos, entradas de prédios, de estádios de futebol, tudo ia se alinhando com o Movimento.
As portas de banheiros masculinos e femininos nos mais sofisticados ambientes, como nos shoppings, nos restaurantes chiques, bem como as dos banheiros públicos, nem sempre bem-cheirosos, optaram por não se fechar, ensejando novo sistema de uso do aposento sanitário por meio de obstáculos humanos improvisados. Ah! Como éramos felizes quando ainda havia água nestas tubulações hidráulicas.
Jaibros, sulcos e chanfraduras, marcos das portas e janelas nos quais se alojam as folhas destas, perderam seu ofício quando elas não mais se fechavam e reforçaram sua utilidade quando as folhas não mais se abriam.

Sumiu dos organogramas dos governos a figura do porta-voz, por motivos óbvios. Os arautos, por precaução, em vista da similaridade ideológica, prestos, desapareceram.
Automóveis e SUV’s,  utilitários e caminhões toda a fauna metálica de veículos inicialmente pararam de trafegar pois suas portas abertas – infecháveis! – além de não oferecerem segurança para os ocupantes, também obstruíam as vias de tráfego. Depois, pararam definitivamente por falta de combustível.
Aeroplanos, aviões e boeings que decolaram e estavam no ar quando adveio o revertério, não conseguiram descer sem desastre, pois as portas do compartimento de seus trens de pouso não se abriram na hora da aterrissagem.
Os objetos voadores correlatos, que estavam nos hangares, lá permaneceram imprestáveis, com suas portas lacradas por força do sortilégio, manobra ocultista com a qual as TV[13] começaram a influir de maneira nociva no destino do Mundo, a partir da cozinha inocente do lar de Dona Lucimília.
Estabelecimentos comerciais foram saqueados no início dos tumultos porque não conseguiam baixar suas portas, que aderiram ao Motim.

Nos cemitérios, foram pelos ares as lápides, pedras, campas e lajes sombrias dos túmulos, sepulturas, tumbas e sepulcros por força da ação do destampamento miasmático/encantoso que se verificou em todos os Campos Santos.
Pelo espaço das cidades então se instalou um persistente bafio, vindo de muito bolor, e ranço. O ar se fez pestilento.
Só permaneceram sepultos aqueles que jaziam enterrados como indigentes, sem visitas, velas ou orações, no chão de uma cova rasa.

À medida em que as lousas das criptas explodiam sob os altares-mores das catedrais, os sinos enlouquecidos e iconoclastas tocavam festivos dobres.
Apesar da geral abertura tumular, não houve em necrópole alguma o reaparecimento de pessoa morta ou espectro, sombra ou fantasma e se alguém o afirmou, foi uma ingresia própria de gaiatos, que esses nunca deixarão de existir.
Uma exceção se observou: quando as câmaras mortuárias secretas das pirâmides foram profanadas pelo Motim, efêmeras tempestades de areia cobriram o Vale dos Reis, provocadas por fugazes revoadas de múmias que viravam pó enquanto iam sendo libertas de seus sarcófagos.
Quando adveio o emperramento das portas, tanto de metal como de vidro,  das câmaras frias, das geladeiras e freezers, horizontais e verticais, o frio não se susteve, sendo vencido pela temperatura ambiente.  Os alimentos à venda foram colocados em oferta, pois tinham que ser levados e consumidos com urgência por falta de condições de armazenamento em ambiente refrigerado.
Assim atingidas as antigas ilhas de congelamento dos hipermercados, os engenheiros inventaram um sistema que contornava a situação, mantendo o ultrafrio independente de sobretampas. Mas veio o fim da energia elétrica e jogou um balde de água quente em suas pretensões.
Nos necrotérios, modo geral, as portas das geladeiras especiais se escancararam, expondo à putrefação os cadáveres que aguardavam necropse.
Nos gigantescos barracões das distribuidoras de bebidas, o setor da logística reversa se entulhava de vasilhames, a garrafaria intampável se empoeirando nos engradados dispostos pelos estrados.
Nas vinícolas, os tonéis  - com capacidade para duas pipas ou mais - não se esvaziavam, deixando a garrafeira e as rolhas, buchas ou tafulhos hibernando em dormência e iliquidez, tudo virando vinagre.  Nas destilarias de todo tipo, pelo mesmo motivo, o mesmo efeito. Tonéis de envelhecimento, grandes recipientes para líquidos, formados por aduelas e tampos unidos por arcos metálicos, mofando nas adegas, definitivamente lacrados.

Com a redução do consumo de comidas e bebidas, o lixo foi se escasseando. Famintas, as ratazanas, as baratas e outras criaturas danosas que vivem nos esgotos dali saíram em hordas à procura de alimento. Atrás delas vieram os escorpiões e suas mortíferas picadasssss em um ou outro ser agonizante.
Das cerimônias de formatura universitária, por decisão das ROT[14], por ser  considerado “imitação grosseira de uma chapelização magnética com o intuito de transmitir simbolicamente a sabedoria”, foi banido o ato da colação de grau, aquele momento em que geralmente o reitor coloca uma Toga Cerimonial sobre a cabeça do formando, conferindo-lhe o título da ciência que estudou.
Houve ligeiro mal-estar nos meios acadêmicos, depressa superado e, em se tratando da concessão do título de doutor honoris causa, acharam até natural o banimento, pois vários estabelecimentos do ramo vinham  vulgarizando esse ato,  concedendo o título até a semi-analfabetos, em fictícias colações..
Por outro lado, as armas de fogo de todos os tipos – tanto para a defesa, como para o ataque - deixam de funcionar. Uma questão mecânica as obriga a abrir-e-fechar para agirem. Pentes de munição não entram em seus encaixes. Tambores não se abrem para as recargas. Toda a munição teve sua fabricação interrompida por falta de oclusão de cápsulas, cartuchos, balas, etc. Cartucheiras quedam-se obsoletas por todos os lados por falta do que municiá-las. Projéteis se negam a lacrar as cápsulas que os impulsionam.  Minas explosivas se desarmam. Os arsenais se reduzem a zero! Canhões de todo tipo se engasgam com munição estragada.
Tanques de guerra ou carros de batalha sem uso com a lacração de suas torretas e escotilhas de ingresso, com suas lagartas metálicas enferrujadas, são derrelitos por todas as forças armadas.
Como suas escotilhas e portas de segurança emperraram abertas, sem apelo, as frotas navais, navios torpedeiros, cruzadores, destróiers, porta-aviões, submarinos bem como todo o arsenal em poder das forças marítimas existentes, agora se destinam à sucata.
Transatlânticos, navios de cruzeiros e barcos pesqueiros sumiram do mapa, sem deixar rumo e rota. Ambientalistas comemoraram por pouco tempo a sobrevida de baleias e assemelhados.
Cápsulas espaciais, com ou sem astronautas, foram literalmente para o espaço quando tiveram suas portas de entrada abertas no vácuo dos acontecimentos, comprometendo mortalmente os ocupantes das cabines desvedadas e despressurizadas de supetão.
Homens-bomba fundamentalistas, feito idiotas, tentavam atentados terroristas que não funcionavam. Não sabiam que seus intentos libertário-suicidáticos se frustravam por deficiência dos dispositivos de explosão.

Caixas de dinamite com seus decrépitos pavios mofaram nos depósitos de explosivos. Barris de pólvora também não se abriam. Paióis de munição foram trancados inapelavelmente.
Os extremistas, estes grupos de pessoas que atentam contra a vida de outras alegando motivação política, religiosa ou econômica, viram fracassar seu projeto de intimidação global que se tornou uma bagatela, pulverizado pelos efeitos arrasadores e conturbações provindas da insurreição das TE[15].
Na mesma linha de malogros, caíram as ações de quadrilhas violentas, impedidas de agir por falta de munição e desfunção do armamento. Também se dissiparam em todos os lugares as ações de guerrilheiros por falta do apetrecho municiante.
Só não se instalou a desordem civil porque os fora-da-lei, que foram libertados - sem alvará de soltura - de presídios, cadeias e penitenciárias pela greve escancarática das grades prisionais, também não tinham armas de fogo para usar, nem motivos para isso.
Os ex-detentos, ex-convictos e ex-presidiários tornaram-se solidários com as pessoas que viviam do lado de fora das muralhas dos cárceres. A fome era geral, nenhum aparelho elétrico/eletrônico funcionava, o dinheiro não servia para nada.
Antes disso, quem usava garrafas ou marmitas térmicas para conservar aquecidos seu café e suas refeições, da noite para o dia viu-se em esse recurso, pela ausência do tampo nas vasilhas. Depois piorou, pois não havia mais nem comida nem bebida para seu sustento.
Todo-o-mundo foi tomado pelo pânico quando começaram a encontrar soltos pelas ruas das metrópoles todos os tipos de animais que viviam em zoológicos. Simplesmente saíram perambulando, dispersos e errantes pelas cidades, sem debandada, depois que suas jaulas se abriram, adeptas do Motim.
As feras carnívoras começaram a ficar famintas e, encontrando caça abundante à disposição, ligeiro se fartaram. Não havia como abatê-las. As que se achavam no topo da pirâmide alimentar, espalharam-se, sem obstáculo, por todas as cidades do planeta.
Os artigos relacionados às commodities de horti-frutis de todos os tipos, aos poucos foram sendo devorados pelos animais vegetarianos egressos das prisões zoológicas.
Não adiantou ao Diabo Louro erguer em seu reino muros que supostamente o isolariam do resto do mundo: uma vassourada da força magnética da Conflagração Em Marcha varreu para baixo do Tapete da História seu período de supremacia, enquanto os imigrantes aprendiam a voar.
Restou na memória de muitos apenas a imagem de um tirano infligindo aos seus concidadãos a retirada perversa de benefícios de saúde pública conseguidos com enormes sacrifícios. O diabólico líder concentrou sua massa e seu poder a ponto de implodir como um buraco negro, democraticamente, junto com seus eleitores e a metade daquela despotência.
Entrementes, a certa altura da Intentona, os olhos de todos os seres humanos foram atingidos, sob a acusação de serem as janelas da alma. Daí, uns ficaram definitivamente cerrados, impossibilitando a visão de quem foi assim ofendido. Outros não mais se fechavam, trazendo aos seus portadores um ardume sem fim e a aflição de não mais poder refrescá-los com uma piscadela das pálpebras. Quando isso ocorreu, a Era da Cegueira Total se instalou em toda a humanidade, com exceção de Dona Lucimília, o marido e a jaguarapinima.
Aliás, nesta continuaram em plena atividade os meigos olhos relativamente grandes, situados na cara de forma a lhe fornecer visão binocular.  Sua visão noturna é excelente, devido a existência de uma membrana chamada tapetum lucidum, que reflete a luz de volta ao globo ocular e dá a ela o famoso brilho no olhar. Por isso, seus olhos são cerca de seis vezes mais sensíveis à luz do que os dos humanos, possuindo daí hábitos ao menos parcialmente noturnos. Além disso, a retina possui uma proporção elevada de bastonetes, a fim de distinguir objetos em movimento em condições de baixa luminosidade, que são complementados com a presença de células cone para distinguir as cores. Isso a faz boa caçadora noturna, capaz de perceber com clareza alvos em movimento em diferentes condições de luz.  Contudo, sua percepção de cores é relativamente pobre em relação aos humanos, o que lhe prejudica a visão de objetos estáticos.


VII - de fechos e togas
                                                              

P
or toda parte sobravam tampões, tapadores e corchas de diversos tipos, e ainda tampinhas de refrigerantes e cervejas, donde se amontoassem os consequentes desnecessários abridores de garrafas. Abundavam rolitos de cortiças das garrafas de vinhos e espumantes.
Fechos de caixas de leite, de suco, de iogurtes e de todos os tipos de produtos lácteos resfriados simplesmente desapareciam. Tais produtos perderam validade e qualidade, tornando-se impróprios para o consumo.
As coberturas dos caixões fúnebres baratos ou as das pomposas urnas funerárias flutuavam com todo o respeito por sobre os defuntos, mas não se dignavam a fechar os ataúdes e esquifes nas cerimônias de exéquias. Os falecidos, de qualquer condição financeira, passaram a ser inumados com suas tantas pás de cal, em CCNS[16].
Durante o primeiro desfile carnavalesco após a eclosão do Tumulto Sabático, os prosaicos tapa-sexos se recusaram a funcionar, deixando beldades ousadas em completa nudez nas passarelas do samba.
As tampinhas metálicas dos receptáculos em que se alojam as “canelinhas” das máquinas de costura teimaram em não mais fechar. O tecido em confecção não seguia seu rumo, precipitando-se da machina pela goela abaixo. Dona Lucimília, que tinha uma dessas, antecessora das máquinas de pedal, montada em uma base em madeira com propulsão manual através de uma manivela, viu seu aparelho costurante restar inútil, pois nada o fazia funcionar a contento. Foi um desconserto.
A vedação de ralos de pias, de lavatórios, de tanques e tanquinhos elétricos de lavar roupas deixou de operar tornando prescindíves essas instalações e os eletrodomésticos. Nessa carruagem embarcaram as tampas de liquidificadores, processadores, batedeiras de todas as marcas, tamanhos e modelos, atravancando a fabricação doméstica ou industrial de massas alimentares de qualquer tipo.
Torneiras de tanques, cozinhas, lavabos, lavanderias, banheiros e jardins, os misturadores, as válvulas de hidrantes; os registros de pressão, de esferas, de gaveta, enfim de todo tipo e dos mais diversos formatos e materiais, emperraram de súbito. O sistema de vedação recusava-se a funcionar, obstinadas buchas.
Em todas as residências, pararam de funcionar os registros de controle de gás dos fogões, selados pelo flagelo, entregues à inservidão.
Nas tinturarias e lavanderias de casas, hotéis, nosocômios, casernas, embarcações, etc., onde se lavam e passam a ferro peças de vestuário, roupas de cama, de banho e de mesa terminou a prestação do serviço por falta d’água e ausência de energia. O mesmo ocorreu nas lavanderias automáticas, de autosserviço, destinadas à tarefa de lavar e secar roupas em grandes máquinas rotativas. Idem, com os lavadores automáticos de grandes escovas nos postos de combustíveis. Outros lava-jatos paralisaram momentaneamente seus trabalhos, concedendo ligeiro alívio aos seus lava-jatários.
Enquanto aqui os ferros elétricos foram aposentados por inutilidade, lá, alheia aos efeitos da falta de energia, Dona Lucimília continuava sua lida, desenrugando e alisando roupas e tecidos com seu insubstituível e eficiente ferro de brasas.
Os vidros de medicamentos, num repente, se tornavam imprestáveis pela abertura de seus lacres, assim como os remédios em pó para diluição. E nessa prateleira vão-se também todos os frascos de perfumaria, potes de cosméticos, de pomadas e de isotônicos.
Quando tudo começou, os calçados de um modo geral passaram a ser vendidos sem caixas, que foram entrando em desuso, pois não houve argumentos suficientemente robustos dos fabricantes para contornar a proibição zoila de se vedar as embalagens. Por fim, paralisou-se a indústria calçadista por falta de aviamentos, cabedais e energia elétrica.
Entraram imediatamente em desuso por “relutância de abertura” toda sorte de sombrinhas, umbelas, guarda-sóis, tendas de praia, etc. levando as pessoas a se cobrirem com pedaços de lona para suportar o calor ou com embalagens plásticas para se protegerem da chuva. Se os trapos fossem enquadrados, o sujeito ficava desprotegido pela evaporação sumária e desnudativa do engodo.
Fornos de micro-ondas já no primeiro impacto quedaram fechados para não mais se abrir ou permaneceram abertos para não mais fechar.  A falta de energia elétrica não chegou a afetá-los: já eram inúteis, então. Os aparelhos de ar-condicionado, ventiladores, umidificadores, tudo o que tornava os ambientes mais toleráveis no calor do verão parou de funcionar.
Nessa linha branca, não mais desempenhavam sua função os aquecedores de todo tipo que protegiam o povo da friagem no inverno.
Foi coibida a comercialização e o uso de qualquer material destinado à calefação de casas, recintos e veículos. Tratava-se de tapamento de frinchas, infração totalmente rechaçada, por inclusa no inane codex das Malvadas.
As lareiras, contudo, cumpriram seu papel até sumir do mercado a oferta de lenha combustível.
Os pálios, tipos de sobrecéu portátil sustentado por varas, usados em cortejos para cobrir a pessoa festejada ou, em procissões para cobrir o padre que leva a custódia, cerraram fileira para se unir às TF[17]. Diziam as adeptas, convulsionando: “-Se cobrimos, tampamos do sol ou da chuva. E isso não pode!”
Tornou-se impossível o uso dos chapéus, das boinas, dos gorros, dos solidéus, dos quepes, dos capacetes de segurança por seu “caráter tampático”. E, por força de parâmetros, as togas dos magistrados, também aderiram à Grande Perturbação, tornando-se ociosas, proibido o uso de qualquer adereço, à guisa de honraria, em cabeças judicantes.
As vestiduras caíam dos indivíduos: zípers e velcros não se fechavam. Botões não mais se caseavam. Passaram a atar os trajes com cordinhas e cordões à cintura. Então, intempestivamente, por força do paradigma, os cabelos e os pelos sumiram do corpo das pessoas, assim como deles desapareceram as roupas que vestiam, iniciada a Era do Nu.
Os fundos escamoteáveis das caixas de esmola e caixetas de espórtulas das igrejas, que arrecadam as ofertas dos fiéis, também foram enquadrados como “tampas-de-fundo”. E se autolacraram de forma definitiva e nem por arrombamento puderam ser abertas.  As frestas por onde se inseriam as moedas ou cédulas dos óbulos fecharam-se da noite para o dia, sem maiores delongas, com força de lei e odor. Quando tocadas, exalavam um forte odor, típico dos gambás, que afastavam qualquer pessoa.  
Por “analogia” – que seria, na lógica das Deflagradoras, a aplicação daquilo que foi utilizado em ocorrências semelhantes, a um caso não previsto -, todos os tipos de cofrinhos, porquinhos e caixolas de se poupar moedas foram levados de roldão na mesma operação de autolacração. Daí, sendo relegados ao desuso. Quando a insurreição atingiu os cofres-fortes dos bancos, bem como os cofretes dos caixas eletrônicos, entrou em colapso o Sistema Bancário Mundial.
Quando o Levante contagiou todos os tipos de porta, também foram eivadas as imensas comportas dos Reservatórios de Usinas Hidrelétricas. Desmantelou-se o rígido controle governamental sobre os estoques de água para a geração de energia elétrica.
Umas comportas recusavam-se a descer e permaneceram abertas dali em diante. Em outras Usinas, as enormes portas móveis usadas para conter as águas represadas não mais se abriram, segurando as torrentes que se avolumaram até entornar por sobre os diques, donde um ror de alagamentos.
As turbinas geradoras, em umas barragens, não tiveram folga para a manutenção e se enferrujaram por desgaste, enquanto em outras, não havendo mais água para mover suas turbinas, ficaram na ociosidade deteriorando-se, corroídas pela desusança.
Em ambos os casos, deixaram as usinas de gerar energia elétrica, daí decorrendo um desastroso leque de consequências que deflagrou crises sem precedentes nas Bolsas de Desvalores, avançando inexoráveis sobre os Mercados, só não atingindo os blindados bitcoins[18], a primeira moeda digital descentralizada mundial, na verdade, uma criptomoeda.

Inicialmente, a população humana não estava preparada para viver sem a eletricidade. Daí ficarem com a pele à flor dos nervos ou com a pele nos nervos da flor foi um pulo...
Depois, o apagão geral só fez piorar o desespero de todos com a escuridão das noites sem fim. Um ou outro semelhacro de luz pispisca aqui e acolá, mas lentamente perde seu gás.
As crianças começaram a usar vaga-lumes dentro de garrafas pet transparentes. À noite, pela emissão intermitente de sua luz esverdeada os pirilampos davam um mínimo de luminosidade nos ambientes infantis. Como não havia modo de vedar a boca das “lanternas”, usavam disfarçadamente os dedos e trocavam de mãos e braços quando estes câimbravam.
Sumiram das prateleiras do comércio - e dos bolsos traseiros dos jeans - os prosaicos smartphones e celulares, extintas as comunicações telefônicas. Paralisaram-se as redes sociais, inicialmente por inaptidão da Rede Mundial de Computadores ao projeto corruptivo das Mentoras e depois por pura falta de energia. Nessa onda rolaram também os tablets. Foi nocauteado então o sistema ou rede de pagamento online baseado em protocolo de código aberto independente, e também os softwares de código aberto. Quebrou-se assim a infalibilidade do Bitcoin!
Estações de TV, emissoras de rádio, tudo silenciou, até os radioamadores, tão solícitos e solidários nos desastres.

Por um tempo, funcionaram os antigos telefones fixos mas, por uma correção de rota dos tampáticos utensílios, já-já não se abriam mais para a discagem. O Mundo emu(n)deceu.
A falta de energia elétrica provocou o caos de todas as formas com que este possa ser imaginado.

Sem energia, as fábricas de todo o tipo encostaram suas máquinas, de modo que, precariamente, uma ou outra empresa funcionou socorrendo-se de geradores a óleo diesel, a gasolina ou a álcool. Aos poucos, por falta de combustível, encerraram suas atividades.
Onde havia a produção de energia limpa, especialmente a eólica, a população foi temporariamente poupada. Mas, quando as Perversas proibiram o sopro da brisa, os imensos cata-ventos e zingamochos pararam suas lâminas.
As usinas movidas a carvão funcionaram por pouco tempo. Como elas, as demais usinas de energia movidas a combustíveis fósseis foram encerrando suas atividades por falta de suprimentos.
Como não há energia para mover as bombas de abastecimento nos postos de combustíveis, o transporte rodoviário entra em colapso. Na esteira, as composições ferroviárias inativas mofam nas gares. Nas estações vazias e pelos túneis, os trens subterrâneos dos metrôs paralisados, ainda cheios de cadáveres.
Sim, no início, impedidos de abrir suas portas nas paradas, os comboios foram sufocando aos poucos seus passageiros, enquanto os iam matando lentamente pela fome.
As eficientes e poluidoras minas de carvão são desativadas por falta de energia e as máquinas a vapor ficam inativas, compulsoriamente.
Sem eletricidade para acionar as bombas de recalque nas fontes de captação, sobrevém a falta de água potável nos tanques e reservatórios. Além disso, as válvulas e registros de vedação dessas estações não mais exercem suas funções. Umas travaram fechadas, impermitindo o armazenamento da água, outras não se fechavam mais, impossibilitando a estocagem e o tratamento do precioso líquido essencial à vida.
Os volumes tratados foram-se esgotando, esgotand, esgotan, esgota, esgot, esgo, esg, es, e. Assim, lentamente, até acabarem.
A população começou a servir-se diretamente de fontes não confiáveis. Quando a água rareou-se de vez, muitos produtos para consumo humano deixaram de ser produzidos. As grandes cidades entraram em pânico. Epidemias grassaram ceifando populações. Foi como numa desenchente!
A ausência energética travou o eletricismo do Mundo.
Devido a um certo Libelo da Mordaça, as bocas deixaram de proferir sons, daí advinda a Era da Mudez.
Ainda com referência às bocas da população, primeiro sofreram com mudez, depois com a deglutição dolorida. Ao fim, umas não mais se abriam[19], outras não conseguiam se fechar. E essa crueldade crucificou muita gente no calvário da desnutrição, torturando a todos com a horrível sensação de falta de nutrientes e com a insaciável necessidade de comer e de beber. Uma lenta e inexorável agonia antecipava a morte de cada um por inanição.
Essa praga bucal atingiu em cheio as atividades de felação, deixando sem chance tal tipo de excitação do bálano.
Quando não mais se produziu alimentos de qualquer espécie, à míngua de víveres e ante a incapacidade de se mitigar a escassez de qualquer substância digerível, ocorreu a interrupção definitiva da vida de todas as formas de organismos na Esfera Terrestre: foi o caos.


VIII – de macacos transfusos


A
 presença da Onça-Pintada ali nas redondezas não era um mero capricho permissivo de Dona Lucimília. O grande felino espantava os macacos que sempre visitavam o pomar antes dela surgir por ali. Não que a bondosa senhora lhes negasse o acesso às frutas, muito pelo contrário. Até deixava à disposição deles bananas e porções de frutos da estação no jirauzinho à sombra do abacateiro da horta, onde seu Rolério, de coque, gostava de picar seu fuminho e enrolar seu pito.
Como domesticara essa fera? Ninguém sabe disso, mas quando ainda filhote, o animal se aproximara da casa muito ferido e faminto. Dona Lucimília o acolheu, tratou de seus ferimentos, e passou a alimentá-lo, o que fez enquanto a cria, órfã, dependeu dela. Nasceu daí o afeto do bicho pela bondosa mulher.
Ali no refúgio salvador, o filhotão desenvolveu seu corpo ágil e flexível com pernas musculosas. Sua cauda sinalizadora, num improviso, já media entre um terço e a metade do comprimento do resto do corpo. Desenvolveu aquelas almofadas nos pés e anda sobre os dedos enquanto retrai suas garras.
Crescido, o reluzente animal passou a viver nas adjacências, jamais abandonando o local da estranha toca de sua “nova mãe”.
Na cabeça, salientaram-se arcos amplos mantidos juntos por várias camadas de tecido conjuntivo denso, a comissura,  que se estendem pelos lados do crânio, justo abaixo da cavidade dos olhos.  Eles permitem a fixação dos fortes músculos próximos da mandíbula, seu maxilar inferior. Na bocarra, 30 dentes especializados.
Com o tempo, adquire a característica mordida (força de 270 kg), uma das mais poderosas dentre todos os grandes felinos do reino animal, à qual não resistem nem as couraças dos jacarés e tartarugas, que se tornam suas presas.
Seus caninos em constante crescimento e a pressão de sua mordida fazem do notável digitígrado um excelente predador de vítimas como antas, capivaras e veados. Não é despiciendo relembrar que outra arma sua importante são os dentes carnassiais, que ficam no fundo da boca, muito eficientes para rasgar a carne do almoço, como já dito.
Adulta, tornou-se o maior felídeo sul-americano. Dela, as rosetas - as manchas do pelo -  tem um ou mais pontos claros em seu interior, o que faz sua pelagem diferente daquela dos leopardos.  Algumas raras irmãs de sua espécie, melânicas, são chamadas de pantera negra.

Ah! Isso foi bem antes do surgimento da Febre Trempe, a de indisfarçáveis madeixas louras, e de elevada temperatura corporal, que punia seu portador incurável com a destruição do fígado e de todo o resto da carcaça.
Agora dona Lucimília queria que os bugios permanecessem a uma boa distância do sítio e para isso se prestava a presença da jaguaretê.
Intuía, no seu íntimo, que o mal vinha deles. Transluziu: se aparecer algum morto, é tiro-e-queda. Deduzia:  “engana-se quem imagina que a tal Febre Amarela Silvestre, está longe.” Tinha quase certeza que os macacos eram os principais hospedeiros e amplificadores do vírus provocador da Febre Trampe.
Viu que precisava espantar pra longe os símios e fez isso com a presença assídua da luzidia pantera, natural predadora de primatas, lêmures, lóris e társios.
A “Milia” sabe que as trilhas e atalhos de acesso da moléstia são os insetos-mosquitos: “ema-gorda” e “sabidinho”, com hábitos específicos de seu bioma. O homem participa da história, como um hospedeiro acidental, ao adentrar áreas de mata ou a zona rural circunjacente.

Os entendidos afirmam que a nova peste teria começado a surgir depois da eleição do Demônio Louro como líder da potência mais belicosa da Terra. Ou seja, do Trampe, o Deportador,  o Flagelo dos Chicanos.
“A Febre Alourada é uma doença produzida pela invasão do nosso corpo por micróbios que se multiplicam” - definem. É febril-aguda, como a sede dum magnata por mais poder, e é transmitida por mosquitos. O principal agente da febre amarela, conhecida também como Febrão da Macacaria, é o virus amarelitíco, causador de várias doenças. Ele é transmitido pela picada de mosquitos transmissores infectados, os tais “ema-gordas” e “sabichinhos”, não havendo transmissão direta de pessoa a pessoa. E, assim como acontece com as notícias de rádio, a coisa se espalha sem contato das gentes.
No futuro, quando descobrirem que é imunoprevenível, criarão uma tal vacina que será a principal ferramenta de prevenção e controle desse mal tenebroso.
Ela conhece do assunto. “A-despois que o coitado é infetado, demora até semana pra ficar doente e começar a retransmitir a moléstia, se for re-picado. Fica assim venenoso, espalhando essa praga por até uma semana através dos mosquitos que o picarem, que se tornam retransmissores.”
Se o indivíduo conseguir a cura, põe as mãos para o Céu, pois fica imunizado pra sempre!
Asseguram que no terceiro dia da infecção, se inicia um tal prodômis, começando os sintomas disfarçados, genéricos a várias moléstias, como febre, calafrios, dor de cabeça, dores no lombo e pelos músculos todos do esqueleto que geralmente jogam o coitado na cama, com enjôos e lanços, o bucho devolvendo pra trás o que tinha descido a ele, e as tripas, por baixo, em piriri, mandando embora seu líquido recheio. De cara, o sujeito infetado tem olhos e pele amarelados pela tiriça.
É assim que a Traiçoeira pega o freguês e o derruba. Vai e o internam. Vira paciente. Impaciente, deve ficar ali no resguardo, esperando. Após esse tríduo demolidor, geralmente arrefece a temperatura e diminuem os sintomas, e o estrago dá uma trégua, provocando uma sensação de melhora no doente.
Mas é tudo trapaça, pois daí no máximo um ou dois dias, ela volta. E reaparece, numa tosse-mica ao que dizem, a febre violenta, adquirindo os vômitos e a disenteria um aspecto de borra de café coado, às melenas sangrentas, as cãibras de sangue. O AAS, as aspirinas e os anti-inflamatórios nem devem chegar perto desse coitado!
Aí o bicho pega pra valer: instala-se a ruína em direção a um estágio sem retorno. O tratamento é apenas dos sintomas, palhas ativas, exigindo do doente repouso e reposição de líquidos e das perdas sanguíneas extremas.
Vai pra cama exangue. Fígado e rins em falência, com parada na produção e eliminação da urina, começa a perda de sangue pelas ventas, ouvidos, gengivas. Vêm os vômitos vermelho-brilhante, o sangue a bofar da boca, aos golfos, os rins secretando sangue vermelho vivo, dum lavado de carne. O sujeito exaurido sangra até por onde fizeram furicos de agulha de injeção nas veias. Aí começa a variar, desenxerga o povo, complica as ideias e torporece, entrando em inatividade física e mental. O pulso se torna cada vez mais lento, dissociado da alta temperatura corporal, sinalizando faguete. Então evolui para o coma e a morte.
Especialistas, confirmando o conhecimento empírico de Dona Lucimília, dizem que essa Peste Trampe, de madeixas douradas, traz um risco muito grande de virar epidemia por sua virulência, dificuldade de tratamento e alto potencial de disseminação também nas áreas urbanas infestadas pelo “Repulsivo do Egito”.
Enquanto isso, nas florestas, matas e grotões das Minas Espalhadas, os pobres e indefesos macacos começam a ser atingidos pela Pirexia Loira, sem escapatória.


IX – The Tampa’s City End


Q
uando o Motim Estouraz ainda se iniciava, a notícia da Rebelião das Tampas chegou ao condado de Hillsborough, localizado na costa oeste do estado norte-americano da Flórida, e a pujante comuna de Tampa, sede do condado, insurgiu-se contra sua denominação e se autorriscou dos mapas.
Destarte, em todo o globo terrestre, onde houvesse um mapa dos Estados Unidos da América, no local onde havia a menção à cidade de Tampa, num átimo, restou apenas uma rasura, uma mancha esbranquiçada.
Ora, as consequências para a cidade, fundada em 1823, e um dos principais exportadores mundiais de fosfato (que foi descoberto em 1883 em Bone Valley, uma região próxima dali) foram assim elencadas:
I - Cédulas de Identidade e Carteiras de Habilitação de todo tipo ficaram inutilizadas pela rasura remanescente no lugar onde constava o nome dessa cidade;
II - As agências bancárias, dos Correios e a Administração Pública Municipal, Estadual e Federal não conseguiram mais se conectar com seus clientes, destinatários de correspondências e contribuintes residentes naquela aglomeração urbana;
(Imaginou-se, inicialmente, fosse coisa de hackers, invasão de sistemas ou espionagem.)
III - Veículos com placas “sem nome de cidade” pipocaram por todo lado e foram sendo multados, guinchados e retirados de circulação sistematicamente em todo o território nacional. Apenas na “Cidade Sem-Nome” podiam circular livremente os veículos ali emplacados. Diga-se o mesmo em relação às embarcações marítimas com registro naquela urbe;
IV - As sentenças judiciais ali proferidas em centenas de anos passaram a exibir no lugar do nome da comunidade apenas um borrão indistinto, que invalidava os documentos;
V - As máquinas e computadores começaram a rejeitar automaticamente o nome banido, em todos os lugares da Terra;
VI - A própria paisagem do lugar, vista pelos satélites, foi ficando esbranquiçada até sumir de vista, inclusive dos radares. Também sumiram dali as linhas de transmissão de dados e sinais de celulares. Onde alguém dali posara em selfies, simplesmente uma silhueta branca restou;
VII - Um Encanto de Desaparecimento varreu da face da Terra qualquer lembrança da antiga cidade e suas redondezas;
VIII - Seus habitantes não tinham como sair dali e ninguém ali podia entrar. Como num cerco militar, o local foi sitiado e blindado por um novel magnetismo denominado Tampagnético.
Aliás, foi dali, desse recanto norte-americano, que se iniciou um princípio de caos em todos os portos da Terra. Essas áreas, abrigadas das ondas e correntes, protegidas por quebra-mares e molhes, localizadas à beira de           um oceano, mar, lago ou rio, são destinadas em sua origem ao atracamento de barcos e navios.
Em todos eles, com seus sempre atracadouros, embarcadouros, sua parafernália de guindastes, gruas, piers, docas, armazéns e todo tipo de local de chegada de embarcações, tiveram rapidamente que mudar seu nome de “PORTO” para “RECEPÇÃO DE EMBARCAÇÕES”, pois houve uma ameaça de greve geral nos serviços, devido à semelhança do nome em relação a “PORTA”, ou sob a alegação de que seria uma forma dissimulada e masculina de Tampa.


X – de senhoras florescentes


Q
uando a Rebeldia atingiu as eclusas espalhadas pelo globo terrestre, essas grandes câmaras de concreto com suas gigantescas barragens deslizantes de aço, que controlam a transposição dos níveis da água de mares e rios, e possibilitam a descida ou a subida de navios de todo tipo, deixou de cumprir seu papel nivelador. A inoclusão provocou a inoperância desses sistemas de grandes canais abertos pelo Homem entre oceanos e rios, como o Canal de Panamá, Canal de Suez e a Elevatória no rio Iangtsé, na China, que facilitavam a navegação entre massas oceânicas e fluviais de diferentes alturas.
Ali, o próprio peso da água movimentava suas válvulas, tornando o conjunto um verdadeiro elevador aquático. Foi nelas, exatamente nas válvulas, que se alojou o fatídico vírus do Levante Zureta, deixando sem movimentos seu imenso mecanismo hidráulico, fazendo com que todos esses portentos da engenharia humana se tornassem sem serventia.
Tudo que tampona mecanicamente um orifício passa a ser considerado Tampa”, anuncia um edital invisível das insanas Comandantes.
Daí em diante, os fundos de pias, lavatórios, banheiras de toda espécie e tanques de lavar roupas não permitem mais a colocação de ralos por onde se faz o escoamento de águas e que impedem entupimentos causados por detritos.
Nenhum orifício escapa da cooptação. Todos se unem para um empreendimento comum! Essa evolução transmuda a vida sobre a face da Terra.
Não há mais reprodução animal, encerra-se a Era do Coito. A indústria de serviços mais antiga do Universo foi à lona. Fechadas fábricas de bonecas e bonecos infláveis. Nos shop-sex, faliram os falos. Em ruínas, os motéis e prostíbulos purificavam-se das DST.
A homossexualidade não mais encontra razão física para continuar existindo. Como rara exceção, sobrevive o amor homoplatônico.
Nas mulheres felás, camponesas descendentes dos antigos habitantes do Egito faraônico, surgiram da noite para o dia, entre as pernas, logo acima da genitália, em substituição aos pelos do púbis, ali, no monte de Vênus, umas abundantes touceiras de rizomas de bananeiras. Do norte da África, essa anomalia foi-se espalhando pelo mundo afora, tornando impossível a relação inter-femora.
Mas eis que certas senhoras férteis floresceram, cachearam e produziram excelentes bananas das mais variadas qualidades. Dar frutos foi seu único alívio eis que, depois disso, delas foram-se embora os improdutivos caules remanescentes, expondo-as ao assédio dos homens.
As pessoas que, de uma hora para a outra, encontraram-se sem os cabelos e os pelos do corpo, espoliados por uma Depilação Insurgente, viram assim sumir de si e dos seus semelhantes toda pelagem que desenvolveram ao longo dos tempos para proteção da cabeça, tronco e membros.
Apesar de terem desaparecidos todos os tipos de vestimentas que cobriam os corpos de homens e mulheres, adultos, crianças e velhos, o índice de natalidade no Planeta foi zerado. Os longevos, carecas e pelados, vão aos poucos crescendo em número e gênero.
Nas crisálidas sem expectativas, secam impossíveis borboletas.
Os rebanhos vão sendo abatidos lentamente. Mas, sem condições de reposição dos estoques, a carne vermelha desaparece. Nos matadouros dos frigoríficos foram dispensados os magarefes, sem cerimônia!
Aves, peixes, mamíferos marinhos, moluscos e crustáceos rareiam com o tempo.
Os ovinhos - óvulos infecundos, apesar de suas reservas alimentares e os envoltórios protetores - não vingam filhotinhos nos ninhos nem alevinos nas locas dos rios.
Gineceus, com seus pistilos e carpelos, em vão aguardaram a fertilização dos androceus, inúteis estames com filetes e anteras infecundos. Daí que botões de flores, florículas, florinhas, florzinhas e as humildes flósculas não se abriram mais. Sumiram das floriculturas os buquês e os ramalhetes. Não existia mais as floradas nem os ricos florilégios. A flora fenece. Somem as flórulas especiais.
Ah!  Uma exceção se verifica: as lindas pétalas nos jardins suspensos de dona Lucimília.


 - XI - libertação


O
s cônjuges cultivam mamoneiras em um canto de sua horta. Depois de maduros extraem de seus balanídios frutos o azeite de palma-cristi, com que abastecem seus lumes e lâmpadas, pendentes de pregos, espalhadas em pontos estratégicos dos cômodos.
Para a obtenção do precioso óleo de rícino, fervem as bagas com água até a apuração do azeite que vem à tona, donde o recolhem com cuidado em outro recipiente, apartando-o da água, enquanto os resíduos se precipitam para o fundo da tacha de cobre.
Explicam para todos que, além de servir como combustível, o óleo de rícino é um ótimo produto para o cabelo, sendo indicado também para a pele, tornando-a mais macia e lisa se aplicado com frequência, uma vez que ele penetra nos poros e ajuda na estimulação de colágeno e elastina. Esse processo combate também os radicais livres, rugas e linhas de expressão. O óleo de mamona pode ser utilizado por todo o corpo, uma vez que ele é um produto natural. No que toca aos cabelos, ainda:
● Ajuda no fortalecimento dos fios
● Ajuda no combate a queda dos cabelos
● Ajuda a combater a quebra dos fios
● Contém vários nutrientes, como a vitamina E, minerais e vitaminas que auxiliam no crescimento mais rápido do cabelo.
● Auxilia na melhor circulação no couro cabeludo
● É ótimo para quem tem pele seca e combate a coceira no couro cabeludo
● É bom para quem sofre com a calvície e alopécia
● Se for usado direto na raiz ajuda a diminuir a caspa
● É um ótimo hidratante e ajuda a recuperar os fios profundamente
● Ajuda a encorpar os fios e deixar o cabelo menos ralo
● Proporciona brilho ao cabelo e ainda sela as cutículas da fibra do cabelo.
Diz a “Mília” que o óleo de rícino ainda pode auxiliar em:
● Problemas intestinais, como a constipação
● Infecções por algumas bactérias e fungos
● Problemas de regulação menstrual
● Auxilia no melhor funcionamento gastrointestinal
● Combate a acne
● Auxilia a diminuir a enxaqueca
● Minimiza os problemas ocasionados por queimaduras de sol
● Auxilia no cuidado de inflamações
Para hidratar a pele, ela usa uma colher de sopa de óleo de rícino com uma colher de óleo de coco. Mistura  os ingrediente e aplica pelo corpo, deixando agir por meia hora antes de enxaguar.
Para hidratar as cutículas e fortalecer as unhas, ela passa nelas o óleo durante a noite e lava apenas na manhã seguinte.
Mas agora, à noite, era só apagar as mechas das candeias e se recolherem ao leito, que começavam os voos rasantes das sádicas TG[20], que decolavam de seu suporte na parede da cozinha e, voando como morcegos ou curiangos, cruzavam o vazio por toda a casa, impondo medo e terror aos velhos. Às vezes, trombavam no espaço escuro fazendo grande estardalhaço – e parecia que até dessem risadas debochadas nesses momentos! -.
Não permitiam mais o sono dos idosos, pois uma ou outra vez, em seu desastrado voo cego, desabava uma delas sobre eles na cama. Caía sobre o véu-mosquiteiro, uma tela de fino traçado usado por eles como cortinado em torno do leito, a fim de resguardar aqueles que dormem do ataque dos mosquitos.
Oprimidos e atribulados, acossados em seu reduto, supliciados dia e noite, sofrendo privações e açoites inauditos, feneciam os companheiros de tantas décadas.
Por fim, culminando a sequência de malfeitos, as TH[21] Insanas, aquelas que tudo iniciaram a partir da cozinha de Dona Lucimília, resolveram que não iam mais permitir o nascer do Sol, pois entendiam que ele estaria “abrindo” um novo dia. Se obtivessem êxito, a não ocorrência do Nascente mexeria com o clima do planeta e este mergulhava num novo período glacial.
Ah! Um período geológico duradouro de diminuição da temperatura na superfície e atmosfera terrestres, resultaria na expansão dos mantos de gelo continentais e polares bem como dos glaciares alpinos. Ao longo de uma era do gelo prolongada ocorreriam períodos com clima extra frio, as chamadas glaciações. O planeta coivarense restaria sem nenhum organismo vivo.
Lado outro, conjeturavam alternativamente de não permitir o pôr-do-sol, abolindo os crepúsculos, o que ia surtir um cataclismo de efeitos contrários, devido ao fim dos ocasos. Sem poentes, não haveria a refrigeração dos ambientes, desapareceriam os fenômenos atmosféricos que acompanham o declínio do Sol.
O calor insuportável provocaria incêndios, privação de líquidos, surgimento de novos desertos. O fim da vida.
Quando o casal de anciãos em desespero cruel ia começar a ser apedrejado, aliás, atampejado, com intenção mortífera, tudo se precipitou. A predadora, justo aí, chegava da caçada.  Sentira pelo “radar” das vibrissas o perigo no ar, seus ouvidos acurados distinguiram os gemidos de angústia e os lamentos de aflição do casal, que escapavam pelos vãos das telhas da moradia.

Percebeu Dona Lucimília e Seu Rolério em perigo de vida e aí sua ira aflorou, houve um aeromoto, os elementos da natureza se rebelaram às extremas e forças antagônicas entraram em rota de colisão. Num segundo, a Cognitiva Sentinela invade da casa a cozinha, e dá um urro berro rugido tão feroz quanto fragoroso, pois aí ela entendera o que houve entre as TJ[22] e os velhos, e começa a cobrar das opressoras o preço de sua audácia.
Aí elas despertam da iniciática sedução. Então a fera investe com brutalidade inominável contra as pusilânimes peças, retalhando-as com as agudas lâminas de suas patas. Vibrando de susto, sem apelo, vão sendo atacadas, mascadas, dilaceradas e rasgadas pelas presas do animal enfurecido.
Agônicas, exalando cheiro de ferrugem e mofo, vão-se desintegrando pelo ar com dolentes ulos metálicos, enquanto delas escorre um líquido corrosivo e sanguinolento que deixa gravado no chão de tijolos da cozinha uma palavra apenas: I N V E J A.
Esse foi o fim do torpor. Com a ab-rogação do encanto maléfico pela ação do felino, tudo, em toda parte, volta para um milionésimo de segundo antes do momento em que a Vida começou a demudar.
Tudo o que tinha ocorrido então desaconteceu! Exceto o Meio-País norte-americano engolido pelo buraco negro: de lá nunca mais conseguirá sair.
Muitíssimas outras coisas aconteceram e desocorreram, mas isso não foi dado ao mundo conhecer porque nele não há papel suficiente para que possam ser descritas.
O povo redivivo nem se lembra do apuro por que passou. Todo o acontecido em razão do malefício deixou de existir no momento do rugido de libertação que a onça do quintal protagonizou na cozinha. Apesar do apagamento da vida pregressa recente, uma ou outra pessoa se lembrava de um certo estado de levitação em que viveu.
Kid Natura, agora jornalista, ao entrevistar um sobrevivente com amnésia parcial, este lhe explicou que ficara como num transe, entre absorto e excitado, sentindo-se transportado para fora de si e do mundo sensível, entrando em sintonia com metais transcendentes enferrujados e super coloridos. Os detalhes fizeram o repórter que o entrevistava, lembrar-se de antigos relatos de usuários do LSD e dos sintomas de delírio apresentados por pessoas torturadas, vítimas de “afogamento”, “pau-de-arara” e “telefones”.
Ele constata, consolado, que em todas as mentes uma mensagem subliminar ficou gravada e que, pela força de uma lembrança difusa, agora os homens não mais ousam macular a inocência da Natureza.
Ele pensa com seus botões: ”se alguém fosse descrever os fatos aqui ocorridos, não conseguiria fazê-lo de forma linear e coerente, por indução e força daquela fascinação, que faz tudo parecer uma misturada, uma procissão de coisa e gente.”
Kid, com esse pensamento, nesta hora se revela como um autêntico cineasta. Exulta ao ver reabertos os portões dos estádios de futebol com seus verdejantes gramados, dos ginásios poliesportivos, das quadras de futebol de chácara. Pode dar-se enfim por satisfeito! Graças ao seu ativismo e à sua atuação informático-noticiosa, que o impeliu à luta através do apelo das folhas verdes, restabeleceu-se a harmonia na Natureza, restando uma certeza: a mudança por um planeta melhor está na busca das coisas simples da vida. 
Para alívio geral, as tampas das caixas d’água e outros reservatórios voltaram à vedação dos recipientes, evitando a proliferação do “Detestável do Egito”. Mas ainda não foi o fim da picada!
Num trisco tinham voltado sapatos e roupas de todo tipo às bancas, araras e prateleiras das lojas de calçados e confecções.
Restaurou-se, também, o Universo Filosófico, a totalidade integrada e coerente na qual habitam todos os objetos materiais, seres e realidades existentes.
“Aquela” cidade da América do Norte – que não foi engolida pela Praga da Sugação!- , tornou a figurar nos Mapa-Múndi e tudo lá voltou a ser como era antes.
Portas e janelas de todos os tipos retomaram o funcionamento em todo lugar, inclusive seu Rolério tratou ligeirinho de instalar nos móveis da Casa Acolhedora as portas e portinholas que tinham sido retiradas.
Somem todas as restrições impostas pelas TN[23].
A profissão das meretrizes, que caíra de costas no final da Era da Cópula, voltou com arrojo, movida a quatro pernas.
Os nascimentos retornaram e os homens continuaram a povoar a Terra. Cultivam o solo e colhem seus alimentos. Conduzem seus rebanhos, comem e bebem do suor de seu rosto.
Nas altas ramas das árvores houve um acréscimo violento de pássaros cantantes, anunciando: quid finatti dantescus.
Pode voltar ao léxico a expressão “tapar o sol com a peneira”, que jazia proibida pelo Ódio-Em-Ação. Foi no comecinho, quando, com um ar de deboche, censuraram o ditado, dizendo “Como se isso fosse possível!!!”  expressando-se com a locução “tisk, tisk, tisk” e emitindo patéticas risadinhas de mofa:  -“iac, iac, iac!!!
Quando os receptáculos das “canelinhas” de linhas nas máquinas de costura voltaram a se fechar, Dona Lucimília, pôde então voltar a usar seu aparelho costurador que tinha deixado de funcionar direito. E olhe: havia tanta roupa pra consertar, que passou várias tardes cosendo, girando a manivela daquela maquininha!
Dona Lucimília em breve iria lavar e arear suas panelas empoeiradas. E só aí ela lançaria mão do seu jogo de panelas de alumínio, aquelas que ganhara há tantos anos, presente de casamento, e que deixara guardadas em cima do guarda-roupa.  Abriu com cuidado a embalagem, e retirou dali as tampas de alumínio - leves e práticas - que passou a usar no lugar daquelas de ferro que desvaneceram juntamente com o bruxedo que tinham originado.
Com o retorno do sossego, eles voltaram, toda noite, antes de deitar, aos benditos banhos-de-pés na bacia de água esperta com sal e ervas. Ah! Voltar a imergir os pés até a altura do tornozelo, por longos minutos, era um alívio indisponível, alongar os nervos e remexer os dedos cansados, até o relaxamento das tensões.
Enquanto em seu recanto, a Mília, seu marido e a onça reencontraram a paz, no outro lado de Coivaras, o Mundo, os ataques suicidas voltaram à baila, tudo redescobrindo sua antiga maldade, os ataques em massa, os assassinatos, os genocídios.
Kid Cineasta, confiante num futuro melhor para a raça humana, já de antemão, antes de desaparecer numa esquina de ecológico condomínio residencial, de modo peculiar deixara gravada para os pósteros, sua mensagem pelicular.
(Voz corrente que depois desta filmagem beijou a câmera e deu uma tamPadinha na objetiva, para proteger suas lentes.)
Enquadrou numa última tomada com a grande angular uma cena tocante, mostrando a Jaguaretê e Dona Lucimília saindo juntas da cozinha. Um close revela o rosto da fêmea humana: traços delicados, mínimas rugas, cabelos em neve. Aliviada, a mulher encaminha-se pra fora, respirando liberdade. Da porta do terreiro ruma para a sombra do abacateiro acompanhada pelo felino. Aí, seu marido acende seu palheiro, trouxinha macia envolvendo o fumo goiano bem enroladinho, puxa uma tragada forte e exala a fumaça que se evola em espirais de paz, ela se põe de-coque e passa a fazer cafuné na testa e na cabeça da Onça-Pintada, que entende o surdo apelo e roça as pernas dela com seu corpo colorido de macios pelos aveludados em carinhoso afago de filha.



Lembranças de Lucimília

A onça infante

“Quando ainda filhote, o animal se aproximara da casa muito ferido e faminto. Dona Lucimília o acolheu, tratou de suas feridas, e passou a alimentá-lo, enquanto a cria, órfã, dependeu dela. Nasceu daí o afeto do bicho pela bondosa mulher. “






A onça já adulta



   


















As presas da onça


















“Nela, os dentes caninos são grandes. O terceiro pré-molar superior e o molar inferior são adaptados como carniceiros, adequados para cortar, rasgar e triturar carne.”

“Com as papilas salientes que possui em sua língua, a exímia predadora raspa a carne, a retira dos ossos e degusta grandes pedaços, também contribuindo elas na auto limpeza da dentição, como uma lixa orgânica.”


O Des-encanto

Então a fera investe com brutalidade inominável contra as pusilânimes peças, retalhando-as com as agudas lâminas de suas patas. Vibrando de susto sem apelo, vão sendo atacadas, mascadas, dilaceradas e rasgadas
pelas presas do animal enfurecido.”





Nota - Imagens obtidas através do Google


   Biobibliografia


OSCAR KELLNER NETO é natural de Franca/SP (1949), casado, pai de dois filhos, avô de três netos e vive em Delfinópolis/MG, entre serras, cachoeiras e lagos, desde 1975.  Arte-Educador, Professor de Gramática e Redação, Técnico em Contabilidade e Advogado atuante,  Kellner também se dedica à pintura e à escultura, áreas artísticas em que sempre logrou êxito. Nas horas vagas, inda cuida de terras, gado, peixe e gente. Gosta de sumir pelos vãos da Serra da Canastra, onde cavalga, conversa, joga truco, sonda falares, respira cores e transpira poesia.
O Autor, míope, curioso e astigmático, começou a escrever em 1963.  Seus primeiros versos foram para a musa eterna, hoje sua esposa: Maria Alcina. Sempre colaborando em suplementos literários de vários jornais com seus textos poéticos, foi premiado na 1.ª Semana de Arte Moderna de Franca, em 1966, com o poema Beatniks.  Em 1967, seu poema Do Mágico e seu Aprendiz, recebeu o 1.º lugar em outro concurso francano. Publicou seu primeiro livro de poesias em 1968: CANTO DE BUSCA, em edição mimeografada e com lançamento nacional. Em 1969 editou e lançou seu segundo livro, MURAL, com poesias concretistas. Seu poema-processo RELÓGICAS, elaborado a partir de carimbos confeccionados com peças de relógio,  em parceria com Antônio de Pádua Primon recebeu o 1.º Prêmio no Concurso Nacional Souzandrade, em Divinópolis(MG), em junho de 1969.  Nesse ano - o de seu casamento - o Autor recebeu da imprensa francana o título de Intelectual do Ano. Desde então, vem organizando seu livro-objeto, de poemas-processo, FLASH!  que veio a lume também em 2010.
A partir de 1970, Kellner passou a coletar seus contos e a divulgar seus textos em prosa, colaborando em jornais, suplementos e páginas literárias de toda parte e participando de algumas antologias nacionais e de fora.
Em 1975 lançou cópias de seu texto concretista FOSSAPOGEU - (epistolas aos coivarenses - textos do hospício) - , de circulação restrita. Em 1977 divulgou seu primeiro romance: O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM, em pequena edição oferecida à crítica do círculo de amigos-leitores fiéis. Participou, em 1979, com o conto O Espetáculo, da antologia A PRESENÇA DO CONTO, organizada pela Editora do Escritor, de São Paulo.  Seu primeiro livro de contos O OUTRO LADO DE COIVARAS : O MUNDO foi publicado pela Editora Pirata, de Recife, em 1984.  A revista Globo Rural publicou seu conto Paz-sarinha, sob o título  O touro Charuto” em sua edição do mês de setembro de 1994.
Em 2009, em comemoração ao seu 60º aniversário, Kellner  relança a obra MURAL em conjunto com FOSSAPOGEU, na obra poética MURAL & FOSSAPOGEU, pela Editora Clube de Autores, de São Paulo. Ainda em 2009, pela mesma editora, lança o livro de contos O JUIZ E OUTROS CONTOS, o romance O REINO DE COIVARAS  e a novela TOCAIAS E DUELOS.  Também em 2009, pela mesma editora paulista, lança a obra COIVARAS (cantos), onde reuniu os trabalhos O JUIZ E OUTROS CONTOS – contos -,  ROSALDA GENTIL  - romance – e TOCAIAS E DUELOS – novela.  Também em 2009, pela Editora Clube de Autores, relançou o livro O CRIME PERFEITO DE SEZOGLA SUEM.   
 No final de 2009, em regozijo pelo jubileu de diamante de seu nascimento, Kellner lança pela Editora Casa do Novo Autor, de São Paulo(SP) o livro FAZENDA INTERIOR.
Lançou O QUILOMBO DE PALMIRA (flash contos) no findar de 2010, bem como tirou da estante um livro de versos:  VISITAÇÃO  (trovas). Veio a lume também em 2010 seu livro-objeto, de poemas-processo, FLASH.
Em julho de 2011 Kellner lança pela Editora Clube de Autores, a segunda edição, agora ilustrada, do livro-conto OS AMARRADORES DE PATAS.
Em 2013 publicou pela Editora Clube de Autores, de São Paulo o livro de poemas RECANTOS DA VIDA.
Publicou nas letras jurídicas, a monografia A CAUSA CURIANA, no campo do Direito Romano.
Permanecem inéditos, O PROCESSO CAUTELAR E A COISA JULGADA, monografia na área do Direito Cautelar; e, na área do Direito Penal, desenvolveu trabalho em parceria com Juliano Quireza Pereira e Lúcio Augusto Malagoli tratando do PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.
Kellner também se dedica às artes plásticas e à fotografia. Proclama a volta à Natureza. Prepara um reino de pedra, água e sol: Coivaras.


Fortuna Crítica

Fazenda Interior
Vanessa Maranha
Para o filósofo Gilles Deleuze, é beirando os seus próprios limites que a linguagem se mostra. Seria a escrita, para ele, portanto, “um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”.
Ainda que o escritor Oscar Kellner Neto, em seu recém-lançado livro “Fazenda Interior” (Casa do Novo Autor) percorra a literatura memorialística, na reedição de suas temporadas na Fazenda Santa Rita, em São José da Bela Vista, entre os anos 1956 e 1996, por meio de crônicas, no élan da estrutura fabulatória, que cumpre a função do ‘contar histórias’, é pelo trato com a linguagem que se desvela a beleza na sua obra, trazendo à palavra o potencial criador de pensamento.
Nesse sentido, “Fazenda Interior” se inscreve na tradição da narrativa roseana que, se possui linha de base, talvez seja essa: promover, pela palavra, a subversão dos modelos canônicos de narrativa numa prosa algo fragmentária. O experimentalismo, não só na tessitura do texto, nas inovações estilísticas de sintaxe e nos paratextos, também desfigurando clichês e promovendo uma desarticulação do estabelecido, assim como marca a obra de Guimarães Rosa, traduz a escrita de Oscar Kellner.
Não há, no livro de Kellner, o finalismo convencional da hermenêutica que caracteriza certo filão da literatura tradicional
Por isso, não se deve abordar “Fazenda Interior” com olhos lineares. Rearranjos lingüísticos perpassados por deslocamentos inspirados não somente, mas tanto, na fala sertaneja, se constituam em contingente desestruturação entre a fazenda ou, antes, o sertão (num sentido de gênese) e o mundo, numa estrutura marcadamente assimiladora, por meio de construções sintagmáticas que se valem sempre dos recursos da oralidade, como, por exemplo, fugassustada, rápidave, piscaluzir, picaflores, vizinholho no texto que abre o livro, “Paz-sarinha”
Outros aperitivos em elaboração de linguagem serão encontrados adiante em exuberância: “no pior, quando não, as cavalgaduras refugavam, passarinhantes, pondo um de nós no chão, doídos tombos, se inesperados, surpreseantes, os expelentes catapultos, os tais cavalgadoidos, funestos trêfegos, buliçosos, desinquietos à proximidade da aludida quiçá florestinha.”
Para a crítica literária Suzi Frankl Sperber, “ a abertura do sintagma, que abre um hiato entre signo e signo, entre sintagma e sintagma, poderá ser articulada (e, pois, preenchida) pela referência a um intertexto explícito ou implícito”.
O intertexto em Kellner parece situar-se nas miradas de “Tutaméia” e de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, autor, aliás que parece entranhado em toda a literatura produzida por autores francanos e regionais. Isso, em “Fazenda Interior”, se entrevê pela caracterização dos espaços e das personagens, pela apreensão do outro, pelo ponto de vista do narrador que apresenta os olhos virgens da meninez.
Alguns de seus personagens, como o Arroba, claramente autobiográficos, na narrativa, porém, em terceira pessoa, vão se mostrando como alteregos do autor. É que pela magia única (e talvez maior) da literatura pode-se dispor dos significantes aleatoriamente num ir e vir; é possível revestir-se do outro para compreender o mundo como só esse outro, por razões várias que o subjetivaram, enfim, poderia assimilar.
Para Rosa “o sertão está em toda parte”. Kellner carrega em si uma fazenda vasta, fresca e verdejante, com seus perigos ofídicos, suas tuias de café, “a fábrica de comida” em sua cozinha, seus mistérios, seus prazeres, mundos de dentro. Cada um tem os seus.
Publicado no  Jornal COMÉRCIO DA FRANCA, na coluna Nossas Letras, em 09 de janeiro de 2010
Vanessa Maranha é psicóloga, escritora e jornalista.




Fazenda Interior

Edgard Pereira Reis
Fazenda interior são contos e novelas que procuram fixar, de forma positiva, os tipos humanos e costumes do meio rural. Com uma indisfarçável influência roseana, no trato com a linguagem. O autor, Oscar Kellner Neto, vem produzindo poemas de apelo visual e ficção desde os anos 70, tendo publicado, entre vários outros livros, os relatos Coivaras, em 1984. Trata-se de uma coletânea irregular, alguns textos (os mais afortunados esteticamente) moldados no formato sintético do conto; outros, mais desenvolvidos, tendem ao andamento multifacetado da novela. Os contos (esta evidência impõe-se ao leitor mediano) apresentam desempenho e espessura estética superior às novelas. O primeiro, de nome “Paz-Sarinha”, publicado sob o título de “O boi Charuto”, na revista Globo Rural, nos anos 90, é uma admirável realização literária. Nas peças de maior fôlego, o narrador empreende uma visão panorâmica em variadas frentes narrativas, sem conseguir extrair o núcleo essencial da trama. Se a estrutura se encomprida numa dimensão abrangente, pulverizando o eixo dramático central, não faltam porém, descrições esmeradas e ricas em colorido e graça.
O andarilho flagrado no mato, constante do fragmento intitulado “Lúita”, é outro momento criativo admirável, página digna de antologia. Uma breve passagem: “Depois que esvaziou o alforje encardido, arrancou lá do fundo uma fotografia envelhecida de sua velha mãe. Mostrou-o pro rapazola e ficou taciturno.
Aí, seus olhos se encheram de lágrimas, que desceram rolando pela cara suja da carusma dos infindáveis fogos acesos nos ermos. Enxugou os olhos com a fraldadesfiada de sua camisa imunda e aí deu pra notar que nem barba lhe havia: um apenas frouxel se lhe insinuava pelo queixo .De seu corpo cantarilho exalava um tal odor ptármico, como talvez o bodum das roupas e botas encardidas de retireiros renatos, desleixados, os quais não as lavassem por infindáveis dias” (p.71).
O terceiro momento de apreciável desempenho descritivo é o relato da luta entre os opositores. Como o título sugere, o autor focaliza o espaço, tipos humanos e costumes das fazendas mineiras e paulistas. São referidos casos típicos, brincadeiras infantis, crenças, pragas de lavoura, receitas e um rol de informações, oriundas da sabedoria popular.
Um dos traços peculiares do livro é o caráter pitoresco da linguagem: a transcrição fonética do linguajar caipira. Tal propósito se, de um lado, reelabora um desdobramento da língua brasileira, propugnada por Mário de Andrade, de outro, dada a exacerbação, configura um aspecto datado e superado na evolução do nosso modernismo. Veja-se a descrição da cigarra: “Um grita: Sai de bacho! Goramemo vai mijá ni nóis!” Prevenidos, a gente logo a localiza, atracada ao tronco, com seus centímetros congrossos, possuindo translúcidas cristalinas asas, zunezumbindo agudamente seu chamado erótico enquanto vai sugando, ininterrupta, as gotas de seiva dos microveios das cascas das árvores.” (p.114).
Intuitiva e exuberante, a linguagem mergulha fundo no registro regional, carregada de modismos e corruptelas. Nenhuma nostalgia autobiográfica, em busca do tempo perdido. À parte as ninharias fonéticas, trata-se de um escritor de inegáveis méritos, de soberbo desempenho estilístico, arraigada vivência, conhecedor de artimanhas e sutilezas de efabulação.
Edgard Pereira Reis - crítico literário, escritor –
Belo Horizonte – MG









Fazenda Interior
Marlene Becker
O livro, Fazenda Interior, constitui uma narrativa panorâmica dentro da qual se situam textos estruturados como contos e/ou novelas.
Nove temáticas se desenvolvem dentro desse espaço e cada uma delas retrata características das fazendas mineiras e paulistas, dentro das quais os personagens criam vida com seu linguajar espontâneo e pitoresco. O autor, todavia, não se limita a contar histórias, vai além, construindo um universo fascinante onde o leitor se encontra a cada momento, consigo mesmo.
O sertão é dentro da gente – disse Riobaldo.  Da mesma forma, a Fazenda de Kellner é interior porque escapa do mundo para o mundo reconstruído pela imaginação, pela memória, pela fantasia, tornando-se passível de ser apropriada, recriada, internalizada por cada leitor.
A linguagem utilizada é uma característica forte deste livro.  O autor,no seu processo de criação, faz uma estilização das formas de expressão, recriando, através de procedimentos estilísticos uma simulação verossímil das características do falar rural.
Os personagens, vários e fortes, vão conquistando o leitor, especialmente Arroba, também chamado Vitamina, que vai tomando contornos mais nítidos à medida que se avança na leitura,
Outro aspecto digno de nota é a diferença de linguagem encontrada em cada conto e dentro de um mesmo conto, por força da necessidade expressiva dos personagens. Messias, por exemplo, toma tal estatura que se torna inesquecível: ¨eu rezava pruma alma, meu corpo rupiava todo. Tornava a me pedir, eu tornava a rezar (.) A gente ouvia uma musga da igreja.¨, Seu linguajar é o que mais se aproxima do ¨caipirês¨ rústico e sua imagem configura um tipo humano extremamente interessante.
As personagens femininas inspiram ternura, mas não são tão fortes quanto as masculinas, isso se deve, talvez, ao fato do autor relatar brincadeiras e feitos (pescarias, caça ao gato etc.) mais ligados ao mundo infantil masculino, ou porque na sociedade rural o papel da mulher é mais definido, assim, a Darva aparece de cócoras, sob a janela da cozinha, espremendo espinhas e cravos da idade dela¨, a Dita, cozinhando rolinhas, lavando roupas ou fazendo ¨guaiabada¨.
No conto, Os Ossos do Ofídio, o leitor é levado a perceber o movimento, o espaço, o percurso da criança aproximando-se da víbora. A cena torna-se quase visível: ouvimos os guizos do ofídio vibrando e vemos sua cintilação furta-cor, hipnótica. Essa construção imagética dinamizada pelo suspense reflete a grande maestria do autor.
O primeiro conto do livro, Paz-Sarinha, destaca-se pela delicadeza e lirismo implícitos na construção do enredo, na imagem poética que emerge da história. Quando o boi Charuto era, ainda, vivo, a garrinchinha parda, ao se alimentar dos carrapatos que o atormentavam, dava-lhe alívio, depois de sua morte, em sua caveira ela nidificou. ¨E estava escrito que, no futuro, ele continuaria a se relacionar com ela, sendo seu abrigo, toca, refúgio, retiro ou esconderijo. ¨.
Fazenda Interior é um livro que se impõe pela qualidade textual, pela técnica, pelo inusitado da linguagem, pela originalidade.
O autor, Oscar Kellner Neto, natural de Franca- SP, reside em Delfinópolis, MG e também se dedica à pintura e escultura, áreas em que, igualmente, vem se destacando.
Marlene Becker – professora, ficcionista e poeta – Franca – SP - 12-08-2011.






ACERCA DA OBRA FICCIONAL DE
OSCAR KELLNER  NETO
Maria de Lourdes Hortas
 A experiência de criação, segundo os mais atualizados estudiosos da obra de arte, pressupõe uma relação triádica, ou seja, uma relação que envolve o artista, a obra criada e o público. Assim, a criação só se torna completa quando alcança o  outro, ou seja, o receptor.
Este pensamento não é tradicional. Ao longo dos tempos, a obra de arte  - fosse ela pintura, música ou  literatura – concretizava-se no objeto da criação. Mas, de uns tempos para cá, percebeu-se que a arte é uma experiência estética que ultrapassa o objeto criado pelo artista. Tal percepção exige do criador a expansão de campos e categorias, bem como a preocupação de investigação e pesquisa.
Oscar kellner  Neto é um bom exemplo de artista contemporâneo. Ficcionista, poeta  e artista plástico, vem  desenvolvendo  a sua obra, conduzindo-a confortavelmente pelos vértices  escolhidos, ampliando, assim, o significado  de cada uma das suas vertentes.
Como resultado, e no caso da literatura, por exemplo, cada vez menos lhe importam as classificações de gêneros. Ao debruçar-se sobre o seu processo de criação, jamais se preocupa em enquadrar a sua obra, rotulando-a,  a priori,  de conto, novela, ou romance.  O que o autor deseja, é aquilo que a sua produção causará na relação triádica acima referida.
Tudo isto me ocorre  ao concluir a  leitura do  seu livro  Fazenda Interior.
Diante da riqueza de conteúdo e do valor formal da referida narrativa, concluo que a mesma exemplifica bem o caso da relação triádica que  acima referi.
Escrita com arrojo e sentimento, a fábula desta  narrativa, embora tenha  como suporte  a   recriação das   suas lembranças de infância, transcende e transfigura a realidade.  Utilizando  recursos que vão muito além da  linearidade das memórias, o autor lança mão de imagens poéticas, que pictorizam   os espaços, ultrapassando o plano concreto e atingindo plataformas de surrealismo.
Desencadeando as suas estórias num ritmo singular, que nos alicia e prende, Oscar Kelnner Neto atinge  o diapasão só alcançado pelos grandes mestres da narrativa universal. Paralelamente, agrega à sua escrita o resgate de  palavras que o tempo poderia soterrar no esquecimento, acrescentando a estas páginas antológicas  um valor irrefutável, pelos elementos sócio-documentais e antropológicos  que a permeiam.
Por isso, não tenho receio de afirmar que  este livro,  bem como as  demais obras da bibliografia de Oscar Kellner Neto,  hão de  ser objeto de análise atenta e pormenorizada, trabalho que, certamente, será elaborado, no tempo certo, por  estudiosos munidos  de conhecimentos técnicos que não possuo.
Maria de Lourdes Hortas – escritora e artista plástica - Aldeia dos Camarás, (Recife – PE) - 16/08/2011


OPINIÕES DIVERSAS SOBRE
A LITERATURA DE OSCAR KELLNER NETO

“O que eu possa dizer de seus contos eles mesmos já o dizem, marcados por boa técnica, singular inventiva, elegância na condução do processo e acabamento no geral surpreendente. O que tudo faz supor constante e boa leitura, boa formação cultural e bom-gosto. Vejo-o, sem desdouro para sua terra, como um parisiense vivendo no interior de Minas. Um autêntico metropolitano, mas livre de poluições. Não consigo tirar da cabeça a impressão de que você convive com Maupassant, entre  outros do mesmo naipe.” (WILSON CASTELO BRANCO –Suplemento  Literário do Minas Gerais – 1976) 28/03/76

 “Você é surpreendente – como os seus contos. Não creio haja no Brasil um contista de sua marca. A sua divisória imaginária, a maneira como você se sobrepõe  aos acontecimentos, o anti- rotina, a visão  extra – temporal, embora ainda territorial (Coivaras), a fábula. a sutileza de sua fabulação, creia, foi tudo isso que, desde o princípio de minha gestão no SL me levou a estimulá-lo. Acho que , no gênero, você é um contista nato, autêntico, sem as deformações ou sofisticações do chamado “Realismo Mágico” .Sua mensagem nasce em você e se extrapola, sem qualquer parentesco com Kafka e outros.”(WCB-24/09/76)

 “Seus contos, meu caro Oscar, publicando-os no Suplemento, dou testemunho de que são bons. Nunca precisei passá-los pela Comissão de Redação. Vá em frente, meu jovem amigo, pois você tem o grão da mostarda, Dispense apenas a pornografia e a obscenidade: você não precisa disto. Só os carentes.” (WCB – 16/05/77)

 “O conto “A FÉ”, cheio de realidade humana, de contradições, é de uma indissolúvel angústia. Tudo escrito, sentido e intuído com autenticidade. Vislumbrado por quem, como você, não se submete à rotina sentimental. Muito bom. Será publicado com as honras do estilo.” WCB – 20/06/77

“Não engavete seus contos, impregnados de uma chispa diferente da fabulação corriqueira e ordinária. “WCB – 24/10/78

“Oscar Kellner Neto abre-nos as portas de seu laboratório deslumbrante e, por vezes, assustador, numa estréia segura pelos caminhos da ficção.Contista que é um mago de fórmulas próprias, à alquimia da linguagem versátil e colorida mistura poderosa criatividade, fazendo surgir das trevas do inconsciente um mundo de dilúvio e sombras, labaredas e noites, habitados por fantasmas, seres biônicos, robôs, gente que se desintegra e some – mundo de pesadelo onde o absurdo cria foros de realidade e como tal se impõe. Por situar-se num plano extra-real e ultra- sensorial,Coivaras permite um rompimento com todos os princípios de equilíbrio  justificados pela razão. Lá o animismo se apodera dos objetos; as pessoas se coisificam: a transposição é perfeitamente possível. Obscuro Planeta  interior, alienígena e estranho, a muito poucos é dada a coragem de desbravá-lo. Oscar aceitou o desafio. Ousadamente, lançou-se à aventura. Desarmados é que devemos segui-lo, procurando captar com seu microscópio (por sua vez transfigurado em caleidoscópio) esse lado oculto dos seres e das coisas, que apenas a sensibilidade de um artista autêntico expõe e que, até hoje não  foi definido pela ciência.
A visão surrealista de Oscar Kellner Neto incide sobre a verdade existencial, dando-nos como resultado este desencadeamento de quadros, onde ecoa uma certa ironia triste, sorriso agônico de quem vê o indivisível, a perpassar por todo o livro como uma brisa carregada de presságios . Por utilizar-se de símbolos e mitos, com personagens que peregrinam à beira de precipícios da loucura, remorso e medo, Oscar Kellner Neto faz ecoar em sua narrativa a atmosfera das novelas de Sábato e Rulfo. Isso, todavia, em nada depõe contra ele, uma vez que a sua representação do mundo, longe de ser meramente xerográfica, é, como a  dos referidos autores latino-americanos, o posicionamento consciente de quem, para atingir o fundo do poço da humanidade, mergulhou primeiro em si mesmo.
Contestando a civilização, O Ataque, A Missão, O Sobrevivente, perfeitos em sua construção, bem conduzidos, terríveis, realistas em seu clima onírico, fazem prever que, de fato, “Coivaras sobreviverá aos inúmeros dilúvios, sempre anjo, sempre demônio.”. Primeira ilha de um arquipélago”, sua latitude ou a sua longitude não se encontram nos mapas ou cartas geográficas convencionais”, porque desde agora faz parte da rota inconvencional e desconcertante dos que se perdem por entre os labirintos da vida para encontrar ou desvendar as paisagens subterrâneas onde todas as dimensões são possíveis.” ” (MARIA DE LOURDES HORTAS – Recife – 1983)

“Você é mesmo um escritor, meu caro OKN. Se digo o que digo na orelha do livro, é porque acredito, viu. A Pirata está feliz por ter lançado você. Não é todo o dia que  temos tido essa responsabilidade. Sim, seus contos tem esse encanto negro e magia de que falei. T-Ê-M! Você é um escritor. Arrepiada termino de reler sua carta. Reler não . Treler. Você tem o seu estilo. Cantos Kellnerianos. É isso, mano Oscar. Você é um escritor PRECISAMENTE porque não está à procura de uma estética, “mas acima de tudo à procura dos estados inefáveis do ser humano e dos mistérios do universo.” (MARIA DE LOURDES HORTAS – Recife – 15/01/84)

Meu caro Oscar Kellner Neto,
Terminei há pouco de  ler pela segunda vez o  seu conto OS  AMARRADORES DE PATAS.  Na primeira leitura  fiquei sem fôlego. Dei um tempo e hoje reli-o, com  calma, apreciando as palavras, as imagens, a narrativa. Certamente você conquistou  uma forma de  escrever muito própria . O seu trabalho com as palavras, bem como a fusão entre forma e conteúdo (impossível separá-las) é, literalmente, extraordinário.  A narrativa surpreende o leitor a cada passo, inicia-se  como um rio, vai num crescendo até virar cachoeira, explode em invento e nos leva pelos ares, na nave que  v. constrói. Parabéns! Maria de Lourdes Hortas Recife/julho/2011

Há muito sem nos encontrarmos, através dos livros, recebo agora seu  trabalho. Vindo de você, deve ser coisa boa. Parabéns pela publicação, com os votos de sucesso. (EUCLIDES  MARQUES ANDRADE –BH,28/02/84

 “Oscar Kellner Neto descobriu essa Pasárgada e nos traz de lá nesse seu “O outro lado de Coivaras: o mundo” toda uma historia de fantasmas e duendes, de amor e de paixão, de ternura e de paz, um universo de compreensão para que atinjamos o destino único da felicidade maior. São contos que se encadeiam em quase unidade, reformulados os mitos e postados os símbolos, nós todos  participantes de uma trama que se desdobra à nossa necessidade pessoal. Há às vezes um tom bíblico nessa prosa. Liga-se ela, num maravilhoso fantástico,à  prestigiditação que tem  suas raízes na mais recente ficção latino-americana. Mas o acento é pessoal, o autor descobrindo colorido novo em informações antigas. Às vezes Oscar Kellner Neto toma a tradição local. Ouve o que lhe conta a história da terra, notícia passada de pai para filho nos serões de família. É capaz de traduzir o anseio que vai em cada uma dessas fábulas, explicando o inicio da era do fogo, quando prosseguem os vôos em circulo e a vida não cessa. Há um sistema. As lojas exibem artigos vindos de longe, da zona franca ou de nações altamente industrializadas. A civilização é de consumo e é preciso mostrar na rua a pasta de couro de crocodilo, que mesmo jogada fora retorna a  seu lugar no armário da sala. Há de tudo em Coivaras, nas mulheres à espera dos convidados e nos peixes dourados enriquecendo o rio próximo, coleante no fundo dos quintais. Lá vão ter os pescadores, que se deixam aliciar para outras  jornadas. E quando escurece, chegam as bruxas e contam proezas. Andam pelo ar.  Povoam as tardes calmas. Mas a noite é o seu reino, montadas em cabos de vassouras e entesourando o que conseguem amealhar nas conversas ouvidas e nos resmungos desconexos. Há em Oscar Kellner Neto um contista de bom nível, capaz de prender o leitor e de fixar as  linhas de seus quadros que nos acompanham,  Coivaras um pouco nossa.” (Campomizzi Filho- Diário de Minas-22/4/84)

“Você mantém e aperfeiçoa aquilo que vislumbrei em seus trabalhos já há algum tempo publicados no Suplemento Literário: uma força telúrica brasileira, posta a serviço do que eu chamaria de realismo mágico , se essa expressão não servisse para designar tantos equívocos  e engodos. Afinal, chega de tantos plagiadores agora subliminares de Kafka e La Fontaine, que nada têm a ver com a substância e a essência  do homem brasileiro. Por mais abstrata que seja a expressão do autor, no plano subconsciente, há-de ser ela um depoimento radicalizado em termos de tempo e espaço. E é o que você faz. Não se pode turvar águas  rasas para fazer parecer que elas sejam profundas. É isso que o pretenso realismo mágico esta tentando fazer. Vou retomar seu livro, com mais profundidade, e estou certo de encontrar nele esse mar profundo, que vai além das superficialidades.” (Wilson Castelo Branco- do Suplemento Literário do Minas Gerais -  05/02/84)

“Desde o momento em que sua poderosa imaginação faz nascer, de estranhos conúbios, estranhos e amedrontadores seres, os leitores são arrastados em turbilhão e galopam atrás dos seres fantásticos que vagueiam pelas ruas de Coivaras. E, se alçando e paragens extraterrenas, mergulhando em charcos ou aprisionados dentro de uma Arca flutuante, todos eles estão cumprindo uma triste sina que você, o Criador, lhes destinou.As suas lucubrações me contagiaram. Mas o meu pensamento, fugindo do palco onde se desenrolam as cenas dos seus contos dantescos, paira em outra dimensão. Retrocede no tempo, a um passado distante, onde divisa um vulto inesquecível: seu avô Oscar Kellner, velho amigo de meu pai. E tem a impressão de ver dois olhos, profundamente azuis se uma voz calma, falar pausadamente: “Quem havia de pensar que o meu neto possuía o condão de embrenhar-se nos profundos abismos do inconsciente e de lá trazer à tona essa “Selva Selvaggia” que povoa as tétricas noites de Delfinópolis?” Entretanto, esse estranho sortilégio é uma estranha realidade. Você conseguiu fazer desse pequeno burgo um pano de fundo para um mundo fantasmagórico. Oscar, você tem a estrutura de um grande escritor. Os seus personagens não se movimentam dentro de esquemas preestabelecidos. Pelo contrário: são rebeldes, surpreendentes e inconformados. Mas prendem e fascinam.As transformações  dos personagens de Kafka tem muita afinidade com as de um grande novelista francano que fez de Delfinópolis a sua Tebaida. Escreva sempre para gáudio de seus inúmeros leitores dentre os quais se destaca a conterrânea amiga, Evelina Gramani Gomes.(Abril de 1984).

“Oscar: que alegria vê-lo chegar aqui em letra de forma. Que sensação boa vê-lo finalmente de uma perspectiva em que outros poderão testemunhar, como eu, o seu talento, o valor de sua escrita. O livro é ótimo. Uma escrita diferente do convencional. Poética e mágica. Deliciosamente captadora de um tom caipira que  tenho – e quem sabe muita gente não tenha também – enraizado em mim. Gostei demais. Fiquei pensando. Você disse que não vão achar Coivaras em mapas oficiais. Mas havendo o livro, o objeto e seu conteúdo, ela passa a  existir tanto quanto Pasárgada e lugares inventados que caem no domínio público, na  propriedade afetiva de cada um de nós. E também  Delfinópolis. Mais gente vai ouvir falar, bastante desconhecida é essa sua cidade – ilha – maravilha. Muita coisa boa a existência do seu livro passa a jogar no ar.”(Kátia Bento, Rio,5.2.84)

“Puxa vida! Mas que sensação ao pegar seu livro. Mas que alegria! Parabéns. Gostamos demais. Mas que delicia poder ler sua obra nessas condições. em um livro! Faz um bem imenso pra gente; imagino para você. É  isso aí, Oscar: com luta a gente vence, graças a Deus. E que seja o marco de uma série  imensa que virá. E como nos orgulhamos disso. Parabéns  mais uma vez e obrigada por podermos participar desta sua alegria. Continue firme.”(Maura Kellner, 4.1.84)

“Você aparece com um estilo moderno, contundente, assustando o leitor incauto, lembrando-me os arrojos de Fernando Pessoa em Portugal ou as elocubrações de Guimarães Rosa, que fazem a gente fechar os olhos e concentrar a mente, para saber o que aquilo quer dizer. Vejo no “Coivaras” um dedo apontado para muita coisa boa que você esconde e precisa vir à tona.” (Dom Belchior J. Neto, Luz-MG, 15-03-84- Bispo e Escritor)

“Meu Caro Oscar:
OS AMARRADORES DE PATAS é um conto a mais em que v. dá continuidade ao experimentalismo roseano de "Fazenda interior." Prevalece no conto o uso de lexias incomuns ou em desuso, neologismos, para relatar uma história trivial, sem grande impacto, se não o da própria narrativa. Palavras como pojado, velhomem, fluvinheiro, manquitóis, riojeiro, brete, congrossas, palafréns, labancas, balsanave, rebanhoso, trelinchos, examouco, espaçobalsa, bichancros, desmeteoro, desodisseia, itinerâncias, fateixas, riorujo, abufado, poema, atrítica, saralepto, pegulho, estilicídio, lecheguana, boiante, caxexa, famelgamente, bonfos, muns, patau, arregatas, meante, tuzinas, apuavam, entre muitas outras - é que garantem ao conto o estranhamento. V. mantém-se fiel ao seu veio telúrico vivenciado, dele extraindo histórias que contrastam a pós-modernidade ao viés antanho dos casos desdobráveis em narrativa de ficção. Não obstante ter se incluído entre os de projeção desenvolvimentista, o Brasil continua rural, catrumano, recorrente a tradições que remanescem das sesmarias, glebas, fazendões, que alimentam o imaginário nacional com uma vertente úbere de histórias como o úbere de vaca. É válido porque não são muitos escrevendo este tipo de narrativa de ficção. Grande abraço - Márcio Almeida” (Márcio Almeida –  Oliveira (MG), 08/02/2010 – Escritor e crítico)

“Oscarzito! Além de sensibilizar-me, você - anos mais novo - trouxe-me lições de sabedoria. E hoje, ora, veja! Desperta meu interesse e estou aqui há nem sei o tempo, lendo seu conto (Os Amarradores de Patas), e pensando, e relendo, e pensando o que dizer... O tempo vai passando e não consigo terminar. Ainda voltarei ao assunto... Oh, voltei a ler e o interesse aumentou:  Oscar, obrigado por existir e me elevar espiritualmente com o carinho de sua generosa amizade. Preciso aprender mais para melhor apreciar seu trabalho! É extraordinário para mim, em várias sentidos e considerações! Ressalto não só o domínio narrativo e a riqueza do vocabulário, mas de um conjunto todo feito de sutilezas e realidades que revelam – e sempre admirei - seu talento multiforme, sua largueza de conteúdo, beleza e sobretudo humildade em estar ainda a ser  revelado para uma extensão geográfica e cultural maior da Literatura Brasileira e devidamente reconhecido pelo que é e faz.  Veja, você me leva a estudar mais para poder dizer de seu valor multifacetado, como as pedras preciosas valiosas que espraiam raios de luminosidade em tantas direções. E infelizmente estou muito aquém do necessário alcance para oferecer-lhe um comentário ou apreciação à altura de sua obra. Acredito que  seu trabalho silencioso se espraie e alcance o prêmio do conhecimento e admiração que merece pelo horizonte afora. Receba um abraço forte, fraternal. Grato. Joca.” (José Eurípedes de Oliveira Ramos – Franca-SP - Escritor e músico - Membro da Academia Francana de Letras – 05-10-2016 – por e-mail)

“Meu caro Oskar, boa tarde:

Para escrever "A revolta das tampas - a onça no quintal" é preciso ter talento, ter vivência telúrica e pós-moderna, dominar o jargão rural, conhecer sobre os frutos que a terra dá mediante peleja, dedicação, experiência de vida.
Você não só tem esse talento vivenciado como inova a linguagem do texto.
Dona Lucimília representa a profunda tradição mineira de quem vive na/da roça e dela retira tudo o que é necessário. Sua narrativa é exuberante, cujos detalhes funcionam como motivadores da leitura como visgo a enriquecer com vida os múltiplos significados que afloram o texto.
Você cria uma estória diferente. Nem folclore nem surrealismo, nem non sense nem realismo fantástico, mas tudo isso no mesmo texto, expondo sempre muito conhecimento da vida em contato miúdo com a terra e com a própria vida. E com um desfecho surpreendente. A estória é um texto gostoso de ler, bem escrito, competente.
Abraço e sucesso - Márcio Almeida[24].” (02-03-2017)








Agradeço-te por ler este livro.


Pedidos:
em “Buscar”, digite o título:
a revolta das tampas: a onça no quintal



[1] - Tampas Labatus
[2]  - Tampas Imantadas
[3]  - Tampas Quadrelas (ou Quadrívias)
[4]  - Tampas Ubíquas
[5]  - Tampas Raivosas
[6] - Tampas Energúmenas
[7] - Tampas Pabulantes
[8] -  Portas e Janelas
[9]  - Tampas Bestiais
[10]  - Tampas Calamitosas
[11]  - Tampas Inocentes
[12] Cf. Livro do Êxodo, capítulo 8, versículos 12 a 15
[13] - Tampas Vilanazes
[14] - Ressentidas e Odientas Tampas
[15] - Tampas Execráveis
[16] - Covas Coletivas Não Soterráveis
[17] - Tampas Flagelais
[18] Vide verbete Bitcoin na Wikipédia, a enciclopédia livre
[19] - Com exceção da Pintada Predadora, cuja bocarra continuou em ação, possuindo um número relativamente pequeno de dentes em comparação aos outros carnívoros, uma característica associada a seus focinhos curtos.  Nela, os dentes caninos são grandes. O terceiro pré-molar superior e o molar inferior são adaptados como carniceiros, adequados para cortar, rasgar e triturar carne. Sua mandíbula só consegue se movimentar verticalmente, o que prejudica uma mastigação eficiente, porém contribui para que os poderosos músculos do maxilar ajudem a imobilizar a presa.


[20] - Tampas Gafadas
[21]  - Tampas Habenas
[22] - Tambas Jussivas
[23] Tampas Narcóticas
[24] - Márcio Almeida, Oliveira, MG, 1947, é professor universitário, mestre em Literatura, jornalista, autor de 41 publicações, inclusive a de minicontos Estranhos muito íntimos, bilíngüe, (Multifoco, RJ, 2010) e várias no exterior; detentor de dezenas de prêmios literários em nível nacional, crítico de raridades há décadas, com efetiva produção em revistas eletrônicas como Cronópios, Germina, Caos e Letras, Tanto, Iniciação Científica, além do Suplemento Literário do Minas Gerais, Dezfaces, outros.